Heinrich von Kleist (1777-1811) Marianne=República Só um forte jogador sabe quão mal joga (Tartakower) Spam Spam Spam Spam Spam Spam Spam Spam Spam Spam Spam Spam Spam Spam Spam Spam Spam Spam Spam Spam Spam Spam Spam Spam Spam Spam Spam Spam Spam Spam Spam Spam Spam Spam Spam Spam Spam Spam Spam Spam Spam Spam Spam Spam Spam Spam Spam Spam Spam Spam Spam Spam

umblogsobrekleist

Laicos, republicanos, livres-pensadores, esverdeados.

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The Secular Web

Quarta, 23 Fevereiro, 2005

DE ARMAS & BAGAGENS: Este blog deixou de estar aqui para passar a estar aqui. Venham visitar-nos!


Terça, 15 Fevereiro, 2005

Continuamos no nosso limbo amarelo, mas atentos às movimentações das Forças Vivas do país. Em breve: celebrações do 2º aniversário, surpresas, e demonstrações do quinto axioma de Euclides em ritmo de bossanova.


Propomos um dia de luto nacional por Humbert Balsan. Foi actor de Bresson (o inesquecível Gauvain de "Lancelot du Lac"), e produtor cinematográfico como só a França é capaz de oferecer ao mundo: aventureiro, diletante, independente. Suicidou-se em Paris. Aos 50 anos.


Hoje, dia 15 de Fevereiro, o 1bsk NÃO esteve de luto. Melhor dizendo: esteve tão de luto como no dia 14 e no dia 16, tão de luto pela cidadã Lúcia de Jesus como por todos os milhares de cidadãos e cidadãs que faleceram nesses dias, em todo o mundo, de morte mais ou menos súbita, mais ou menos previsível.
O luto nacional pelo falecimento da cidadã Lúcia de Jesus é uma anedota grotesca, um desvario desprovido de qualquer sombra de cabimento. Mais do que um atentado à laicidade, tratou-se de uma joelhada no estômago, um golpe baixo risível e irritante.



Terça, 1 Fevereiro, 2005

Por motivos de índole vária, este espaço não será actualizado durante algumas semanas. Este estado de suspensão é acompanhado por uma mudança na cor do fundo.


Segunda, 24 Janeiro, 2005

ENTÃO COMO AGORA, EM ÉVORA COMO EM TODA A PARTE:






LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na linha vermelha do metropolitano, uma senhora lia Naguib Mahfouz em inglês. A linha vermelha, ou do Oriente, liga a Alameda à estação do Oriente, passando por: Olaias, Bela Vista, Chelas, Olivais, Cabo Ruivo. O problema dos transportes é um dos desafios mais prementes que se colocam às sociedades urbanas contemporâneas. A mão que avança no escuro sem saber é mais nobre do que a cabeça que contempla e pondera, abrigada do açoite da chuva.


SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO: Hoje, graças à "SIC Indoor", fiquei a saber que Platão ficou conhecido por Platão porque tinha ombros muito largos.


Quinta, 20 Janeiro, 2005

MERITOCRACIA: Votarei no partido que prometer elevar a feriado o dia de nascimento do Doutor Sousa Martins. É o 7 de Março, caso não soubessem.
Está na hora de os nossos políticos discutirem as questões que verdadeiramente interessam à portuguesa média, ao português médio, e a todos aqueles que não se afastam da média mais do que dois desvios padrão.


EXISTEM LEIS...: Por que razão preferimos a abstracção, a ironia e a conotação ao registo confessional e à transparência? A verdadeira razão existe sob a forma de estilhaços, um dos quais feriu o pulso de Emmanuelle Béart no filme "Histoire de Marie et Julien". O pulso de onde escorre o sangue. Não mais do que um fio.


PÓS-MODERNOS: Não só a pós-modernidade continua a ser um conceito dotado de sentido, neste novo século que emite os seus primeiros balbuceios, como Lyotard teria muito a dizer sobre as argolas com sucedâneo de chocolate do Minipreço.


QUAL É A PERGUNTA?: Segundo reza a lenda, foram estas as últimas palavras de Gertrude Stein.
Qual é a pergunta? Já não me restam dúvidas de que a pergunta é esta: «Afinal de contas, deve-se escrever "Entrecampos", numa só palavra, ou "Entre Campos"?».


LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS (EM DOIS TEMPOS): Na linha azul do metropolitano, um cavalheiro interessava-se pela autobiografia de Charles Darwin.
Numa outra linha, creio que a verde (se não me trai a memória), uma senhora percorria "As Cidades Invisíveis", de Italo Calvino. O livro estava aberto no segmento "As cidades e os olhos. 2", que começa assim: «É o humor de quem a olha que dá à cidade de Zemrude a sua forma.».


OS BIÓGRAFOS AGRADECEM: Em matéria de biografias pitorescas, os poetas norte-americanos batem aos pontos os seus congéneres de aquém-Atlântico. Ora vejamos alguns exemplos:
  • Gregory Corso: orfanato, quatro conjuntos de pais adoptivos, delinquência juvenil, reformatório, prisão onde descobre "Os Irmãos Karamazov", "Os Miseráveis" e "O Vermelho e o Negro", encontro decisivo com Allen Ginsberg, viagem em navio norueguês a África e América do Sul
  • William Everson: plantou uma vinha no vale de San Joaquin, California, objector de consciência durante a 2ª Guerra Mundial, conversão ao catolicismo, entrada na ordem dominicana com o nome de "Brother Antoninus", renúncia aos votos para se casar pela terceira vez.
  • Allen Ginsberg: oito meses em instituto psiquiátrico, estadias na Índia e no Vietnam, experiências com peyote e LSD, viagens ao Árctico, Cuba, Rússia, Checoslováquia, julgado por obscenidade pelo seu livro "Howl", numerosos protestos pacifistas nos anos 60, estudos budistas, votos Boddhisattva, encontro com cantores aborígenes na Austrália, colaborações com Bob Dylan, meditação em carris para impedir passagem de comboios com plutónio e matéria físsil, et j'en passe
  • Philip Whalen: emprego nos serviços florestais, estadia no Japão, residência no centro zen de San Francisco, ordenado sacerdote zen em 1973
Em comparação, o que têm os poetas ingleses para oferecer? Pouco mais do que ocasionais escapadelas extra-conjugais, aventuras com a filha do professor de alemão, longos e morosos anos de misantropia aburguesada numa biblioteca de província.


Terça, 18 Janeiro, 2005

LEITURAS: Li recentemente uma antologia de poesia contemporânea norte-americana ("The Postmoderns: The New American Poetry Revisited", editada por Donald Allen e George F. Butterick; Grove Press, 1982). Tenho para mim que a poesia norte-americana do século XX é, dentro da esfera anglo-saxónica, a mais interessante e a mais rica de todas; em todo o caso, sem dúvida a mais ousada. E nem sequer é necessário recorrer a gigantes como Eliot ou Pound para consubstanciar esta minha convicção.
Torna-se complicado fugir aos lugares-comuns, quando se procura caracterizar a poesia americana do século passado, em particular os autores revelados no pós-guerra. A grandiloquência, a generosidade, a abertura, a espontaneidade, a imagética luxuriante, são características comuns a muitos destes autores, traços que é tentador fazer remontar à herança whitmaniana, e identificar com as projecções do ideal americano edificadas ou repudiadas por gerações sucessivas. Os beats (Ferlinghetti, Ginsberg), assim como os poetas aparentados com o movimento "Black Mountain" (Charles Olson, Robert Duncan, este uma das mais agradáveis supresas deste volume), são exemplos desta vertente maximalista.
Também foi gratificante descobrir autores que, reclamando-se de tradições e influências pouco mais ou menos semelhantes (Pound, William Carlos Williams), evoluíram para um estilo marcado por uma concisão abrupta e dinâmica, que não exclui a ironia. Estão neste caso Denise Levertov e Robert Creeley.
À guisa de exemplo, eis um excerto de um poema de Duncan, e um outro, completo, de Levertov:

MY MOTHER WOULD BE A FALCONRESS (exc.)

My mother would be a falconress,
And I, her gay falcon treading her wrist,
would fly to bring back
from the blue of the sky to her, bleeding, a prize,
where I dream in my little hood with many bells
jangling when I'd turn my head.

My mother would be a falconress,
and she sends me as far as her will goes.
She lets me ride to the end of her curb
where I fall back in anguish.
I dread that she will cast me away,
for I fall, I mis-take, I fail in her mission.

(...)


(Robert Duncan)


THE ACHE OF MARRIAGE

The ache of marriage:

thigh and tongue, beloved,
are heavy with it,
it throbs in the teeth

We look for communion
and are turned away, beloved,
each and each

It is leviathan and we
in its belly
looking for joy, some joy
not to be known outside it

two by two in the ark of
the ache of it.


(Denise Levertov)




LEI DO TRIBUNAL CONSTITUCIONAL E SABORES DE IOGURTE: Bem, a Lei do Tribunal Constitucional é muito importante, mas os sabores de iogurte também são importantes, embora de maneira diferente.
O Artigo 77º regula a reclamação de um despacho que indefira a admissão do recurso. O parágrafo 1 deste artigo explica a quem cabe o julgamento desta reclamação, mas omite os seguintes termos: maracujá, straciatella, tangerina, baunilha mentolada, toffee, maçã reineta.
Artigo 78º-B: poderes do relator. Compete ainda aos relatores julgar desertos os recursos, manga, lima, frutos silvestres, muesli, cereja burlat, chocolate amargo, declarar a suspensão da instância quando imposta por lei, dióspiro, aloé vera, café robusta, maçã starking, melancia, admitir a desistência do recurso, ananás, romã, abacaxi, tarte de maçã, bolo de queijo, natural açucarado, corrigir o efeito atribuído à sua interposição, uva moscatel, mel de rosmaninho, morango, amora, framboesa, mirtilo, chila.
Será que se deve dizer "sabores" de iogurte ou "aromas" de iogurte? E porque não "perfumes"? (Iogurte de Tommy Hilfiger e Acqua di Giò. Iogurte de Cacharel.)
But I digress...
E quanto às alegações de recurso, quem as produz? A Lei do Tribunal Constitucional tem resposta para tudo. É o Tribunal Constitucional (Artigo 79º). Sempre. Coco, pêssego-alperce, bifidus, anis, brigadeiro.
Uma deliberação da Assembleia da República que declare a perda de mandato de um deputado pode ser impugnada com fundamento em violação da Constituição (Artigo 91º-A). Um iogurte é também caracterizado pela sua marca, embalagem, data de validade, preço. Os fabricantes de iogurte empregam pessoas que provam os novos sabores de iogurte e dizem se o sabor é bom ou não é. Por incrível que pareça, provar um novo sabor de iogurte (caju, lichia, cenoura caramelizada, camomila, merengue, araruta, bergamota) é um acto que se encontra sob a alçada da Constituição.
Todos estes sabores de iogurte podem ser em pedaços. Todos não, mas quase todos.


TIBIEZA: Não sei se o recuo na lei anti-tabaco deve ser imputado ao ministro Luís Filipe Pereira, a pressões deste ou daquele grupo, ou a uma peregrina intenção de não desagradar nem a gregos nem a troianos. Para falar com franqueza, pouco me importa. Este recuo, a desistência de levar as restrições de consumo do tabaco até às suas últimas e naturais consequências (em particular, a sua não extensão a bares e restaurantes), representa um acto de tibieza política. E, o que mais é, trata-se de uma decisão que repousa em falácias de grande calibre.
A sua natureza falaciosa prende-se com o distinguo manhoso entre locais de uso obrigatório (hospitais, escolas, locais de trabalho, etc.) e locais que só se visitam voluntariamente (estabelecimentos de hotelaria e restauração, locais de diversão, etc.). Tal distinção parece ignorar que muitos milhares de cidadãos não têm outra escolha que não seja permanecer por longos períodos nesses locais, pela simples razão de que neles trabalham. Seria interessante avaliar o número de mortes, por ano, entre empregados de mesa em bares e restaurantes, e estimar quantos destes óbitos se devem à inalação de fumo passivo. As ilações de uma tal estatística apontariam, não o duvido, para uma situação que, mais do que mero problema de saúde pública, configura um caso de polícia.
Uma segunda falácia decorre de que, independentemente do carácter opcional da entrada num estabelecimento de restauração, estes fazem parte de uma rede de equipamentos e serviços de que depende a qualidade de vida dos cidadãos. Ou seja: ninguém é obrigado a expor-se ao fumo alheio, mas, se abster-se de o fazer implica deixar de frequentar certos locais, estamos perante um atentado à liberdade e bem estar do não fumador.
Portugal perde assim uma oportunidade de se alinhar com a tendência de restrição ao consumo de tabaco em espaços públicos, que se afirma na Europa ocidental. A bem da saúde pública e do bom senso.
Entretanto, em Itália, a nova legislação está a ser cumprida sem sobressaltos de maior. Não faltarão situações pontuais de crispação, mas não duvido que, com o passar dos anos, aquilo que parece ainda vagamente escandaloso passará a integrar o senso comum.
Também em Portugal, será apenas uma questão de tempo até que uma versão mais corajosa da legislação acabe por vingar.


NODOS RELOADED: Saído de uma longuíssima hibernação, o blog Linha dos Nodos reemergiu. Tratou-se provavelmente do mais extenso período de retiro voluntário da história da blogosfera. Ainda bem que o seu autor, não sei se devido à euforia resultante da chegada de um artefacto humano a Titã, decidiu colocar-lhe um fim.


Domingo, 16 Janeiro, 2005

ANÚNCIOS DE GATO PERDIDO INVENTADOS (7):

PERDEU-SE LINDO GATO

Leia-se "perdido ao jogo"
Apostei-o seguro de ganhar
Com um antigo colega do bilhar às três tabelas
Inútil estar atento a algerozes e contentores
O paradeiro actual do gato, esse conheço-o eu bem
Trata-se de reunir equipa de resgatadores
Homens destemidos que não hesitassem em roubar o prato de papas do Demo em pessoa
Suavemente tigrado, com meia lua branca no focinhito
Chamei-lhe "Marcel", e jamais me arrependi
Ou consórcio de suplicantes genuflexores
Que derretam o coração do carcereiro
Mais eficazes do que solo lânguido de violino
De preferência antes da hora do leite morno vespertino





AUTO-ESTIMA:

Qual Cristiano Ronaldo, qual carapuça!



Com excepção de Paris, o último filme de Ingmar Bergman, "Saraband", estreou em exclusividade europeia numa sala do Alvaláxia, em Lisboa.



Isto sim, deveria servir para nutrir a auto-estima do bom povo português!


Quinta, 13 Janeiro, 2005

ISTO ANDA TUDO LIGADO: Poderá uma cidade ter uma sintaxe? Existirá uma ética da conspiração? A escolha de uma versão easy de Cyndi Lauper para música de fundo no metropolitano será realmente inocente?


MAIS UMA RESOLUÇÃO PARA O ANO NOVO: Não deixar que a questão do hífen nos nomes próprios franceses compostos se transforme numa obsessão pessoal ainda maior.


DEPOIS DE PINTO DA COSTA, ALEXANDRE FROTA: Quem disse que a autobiografia é um género moribundo em Portugal? Vivemos numa era em que se valoriza o depoimento por escrito, a confissão sentida, o lúcido desabafo, e isso é uma excelente coisa. E como é comovente verificar que tais efusões podem ser desencadeadas por vivências tão diversas como o abnegado dirigismo desportivo ou a mungidura de bovídeos!


Quarta, 12 Janeiro, 2005

MALHAS QUE A CINEFILIA TECE: Desde que vi "À Bout de Souffle" pela primeira vez, sou incapaz de me servir de uma casa-de-banho pública sem recear que um assassino fugido à justiça me assalte brutalmente, com o fim de subtrair alguns milhares de francos antigos à minha carteira.


Terça, 11 Janeiro, 2005

CONTRA VENTOS E MARÉS: Enquanto continuar a haver chávenas de chá Earl Grey que, deixadas a sós, aquecem o ar vizinho, em vez de aquecerem mãos que gentilmente as circundam, haverá uma razão para o Umblogsobrekleist existir!


A MINHA REPÚBLICA É MAIS TOLERANTE DO QUE A TUA: Numa intervenção recente, de que recordo mais a essência do que as palavras exactas, Mário Soares comparou desfavoravelmente Afonso Costa a António José de Almeida, salientando neste as qualidades de moderação conciliadora, por oposição às derivas radicais do primeiro, em particular na inevitável questão do anticlericalismo.
Estou muito longe de concordar com este ponto de vista.
É muito fácil, a quase um século de distância, argumentar que a primeira experiência republicana em Portugal deveria ter privilegiado esta ou aquela tendência. Não custa nada sugerir que o favorecimento de uma política de moderação e prudência teriam sido preferíveis à defesa acérrima de ideais e princípios que, nos dias de hoje, podem parecer caducos a alguns. Pode-se até levar o zelo ao ponto de especular que essa eventual versão light da República teria minimizado a hipótese de eclosão dos totalitarismos que, antes e depois de 1926, feriram o país.
Quem pensa assim minimiza indevidamente a intensidade da reacção monárquica, que protagonizou diversas intentonas militares nos anos a seguir a 1910, assim como a ferocidade (difícil de conceber hoje em dia, sem olhar para o Irão, ou outros países marcados pelo obscurantismo religioso omnipresente) do ultramontanismo católico.
Por mais que custe às boas vontades contemporâneas, aquilo que se passou no início do século XX, em Portugal, foi uma autêntica batalha, travada nas ruas, nos campos e no parlamento. Não resultou, felizmente, numa mortandade comparável à de outras nações ocidentais que passaram por processos de transição análogos. Ainda assim, tratou-se de uma luta sem quartel, em que a frouxidão ou o meio termo eram convites a uma reacção violenta por parte do adversário.
Os "radicalismos" de que acusaram e acusam Afonso Costa e os seus correligionários mais não eram do que a contrapartida, a simetria especular, da sanha radical com que aqueles que foram apeados do poder estavam prontos a responder. Com uma diferença: o Partido Republicano encontrava-se do lado certo da história. Ideias, medidas, reivindicações que eram repudiadas por insensatas, na altura, parecem-nos hoje não só razoáveis, mas também partes fundamentais da nossa vivência democrática.
O livro de A. H. de Oliveira Marques contribui, de forma enérgica e convicta, para dissipar o mito de um Afonso Costa obcecado pelos seus ideais, inimigo da religião, acintoso, perversamente jacobino. Embora soubesse usar da mais intransigente firmeza quando isso era requerido pelas circunstâncias (na manutenção da ordem pública, na imposição do ensino laico), Afonso Costa pautou toda a sua vida de político, parlamentar, governante, não por um idealismo estéril, mas pela dedicação à coisa pública e ao progresso do seu país.


IN MEMORIAM: A. H. de Oliveira Marques dedicou o seu livro "Ensaios de História da I República Portuguesa" (Livros Horizonte, 1988) a «(...)todos aqueles que lutaram por um Portugal livre, tolerante e laico». Constitui sempre exercício salutar atribuir mérito a quem realmente o merece. Numa era em que se confunde a pólis com um corso carnavalesco, e em que a contribuição para a causa pública passa por ser apenas uma virtude entre tantas, nunca é demais insistir sobre quem deve realmente o quê a quem. Neste caso: aquilo que as gerações seguintes ficaram a dever aos homens de 1870, 1890, 1910, que ergueram a República em Portugal.


LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: A minha carreira de observador de leitores em lugares públicos atingiu um máximo local difícil de superar: sentada à minha frente, numa carruagem da linha vermelha do metropolitano, uma senhora lia um livro de Arkady e Boris Strugatsky em russo. Infelizmente, não me foi possível averiguar o título da obra. Arkady e Boris Strugatsky são autores de ficção científica que se notabilizaram por terem escrito o argumento para "Stalker", o filme que Tarkovsky se viu obrigado a filmar duas vezes, por se ter perdido o negativo da primeira versão.


A MINHA VIDA É UM POST: O mais dramático não foi ter-me visto impossibilitado de ver o filme de Godard "Vivre Sa Vie" na Cinemateca, por motivo de lotação esgotada. O mais dramático foi isto: a caminho da Barata Salgueiro, eu já matutava na melhor maneira de pôr por escrito essa triste eventualidade.
Num futuro próximo, talvez acabe por cingir as minha acções na vida àquelas que sejam vertíveis em posts escorreitos.


Domingo, 9 Janeiro, 2005

SELECÇÃO PESSOAL DOS FILMES DO ANO: O que distingue um filme bom de um filme mau, e este de um medíocre? Faz sentido avaliar a qualidade de um filme? Os padrões de excelência serão mais do que meras construções sociais, emanações conjunturais levedadas por um conjunto de frágeis pressupostos estéticos? Etcetcetcetcetcetcetcetcetc. Nós somos umblog de acção. Não nos embaraçamos com requebros bizantinos. Os nossos leitores merecem mais. Com o mesmo panache com que o príncipe de Homburgo, na peça de Kleist, desrespeitou uma ordem para se cobrir de glória militar, avançamos aqui com a nossa selecção pessoal do ano cinematográfico:

1 - "Triple Agent", de Éric Rohmer.
2 - "Histoire de Marie et Julien", de Jacques Rivette.
3 - "Pai e Filho", de Aleksandr Sokurov
4 - "O Regresso", de Andrei Zvyagintsev
5 - "2046", de Wong Kar-wai
6 - "Noite Escura", de João Canijo
7 - "Lost In Translation", de Sofia Coppola
8 - "Lá Fora", de Fernando Lopes
9 - "Lundi Matin", de Otar Iosseliani
10 - "Demain On Déménage", de Chantal Akerman

Filmes mais subvalorizados do ano: "In the Cut", de Jane Campion, e "Any Way the Wind Blows", de Tom Barman.

OVNI do ano: Tal como em 2003, com "Vai-e-vem", apetece-me distinguir um filme em categoria extra-concurso: "The Brown Bunny", de Vincent Gallo. Para lá da escandaleira preguiçosamente empolada por alguma imprensa, especializada ou não, fica esta "solidão demasiado silenciosa", para parafrasear o título do romance de Hrabal; fica esta aristocracia da irredutibilidade, ficam estas imagens deliberadamente unidimensionais, sem mais para oferecer do que o seu ténue fio de tempo e de vida.

Comentários: Cheguei a deixar-me seduzir pela hipótese de um ex aequo Rohmer-Rivette, que seria um justo tributo a dois cineastas que, tendo começado a filmar nos anos 50, continuam capazes de conferir à sua vontade de questionar o cinema uma forma sedutora e intrigante. Porém, acabei por me persuadir de que o grande filme de 2004 foi "Triple Agent". Pela inteligência, pela coerência com uma obra ímpar, e pela capacidade de, permanecendo fiel à essência e ao passado dessa mesma obra, ir mais longe, refinando meios e propostas com uma acutilância e um desassombro ao alcance de muito poucos.
Quanto ao restante palmarés, assinalo uma salutar mistura de veteranos com jovens (Zvyagintsev, Coppola), e a presença de dois filmes portugueses, ambos notáveis exemplos de originalidade narrativa servida pela competência cinematográfica.


MATE EM ZERO: A Ale propôs um problema cuja simplicidade é ilusória. As negras jogam e dão mate em zero lances.


O mate já está consumado. Nenhuma acção é requerida ao leitor. Mas nem por isso as suas penas chegaram ao fim. Impossibilitado de intervir na minuciosa mundividência do problemista, resta-lhe a vida como campo de batalha para acolher o seu acto. Enfadonho, implacável campo de batalha, dividido em dias, o livre arbítrio como correntes de ar.


ECUMENISMO INTER-BLOGUÍSTICO:
Quand un vicomte rencontre un autre vicomte
Qu'est-ce qu'ils se raccontent?
Des histoires de vicomtes.


Ao contrário do que sugeriria uma extrapolação apressada desta canção popularizada por Maurice Chevalier, nem só de blogs se fala quando dois bloggers se encontram pessoalmente. Foi um prazer conhecer o Jorge, ex-"Cruzes Canhoto!", actual "BdE", na Fundação de Serralves, cujo bufete merece exaltação em verso rimado, e cujo bolo de queijo é o verdadeiro bolo de queijo. Mais um rosto revelado por detrás das palavras nossas de cada dia.


Quinta, 6 Janeiro, 2005

FALTA A MAGIA: Tá bem, hoje é dia de reis, o que, nesteblog republicano, é sinónimo de azia e pruridos cutâneos. É de notar, contudo, que os compinchas Gaspar, Baltasar e Belchior eram magos. E isto, caríssimos, faz toda a diferença. Se alguma vez o cidadão Duarte de Bragança sacar incenso e mirra de uma cartola, pode ser que até a mim me vejam de bandeirita azul e branca na mão.


NÁPOLES NA BARATA SALGUEIRO: Neste mês de Janeiro, destaco, da programação da Cinemateca, a retrospectiva do realizador Mario Martone, um dos nomes que urge descobrir no novo cinema italiano. Tive aqui há tempos a oportunidade de ver um dos seus filmes, o arrebatador "Teatro di Guerra" (passa dia 14 às 19h00, e dia 20 às 22h00), que serviu de argumento para me convencer que, com autores como Martone, Daniele Luchetti e Mimmo Calopresti, o cinema italiano contemporâneo tem muito para oferecer. (Nanni Moretti é, obviamente, um caso à parte.) Infelizmente, com a distribuição cinematográfica que temos, dependemos destas iniciativas esporádicas para nos apercebermos disso.
O ciclo começa no dia 13, com a exibição de "Caravaggio: L'Ultimo Tempo" e "Nella Napoli di Luca Giordano". Está prevista a presença do realizador.


Quarta, 5 Janeiro, 2005

LUGARES PARISIENSES: Num restaurante da cadeia "Pomme de Pain" (pode ser o de Odéon), peço uma sanduíche de queijo de cabra e presunto, e um copo de cidra. A empregada que me atende chama-se Magali, a acreditar no dístico que traz à lapela, e pergunta-me com ar enfadado: «Et avec ceci, monsieur?».


DE GUSTIBUS...: A América telefonou-me a meio da noite, para dizer que prefere a versão original do poema "The Waste Land" à definitiva, resultado das sugestões de Ezra Pound.
A atmosfera nocturna faz com que as ruas de Lisboa pareçam prontas a acolher procissões de hereges, apregoando as suas doutrinas escandalosas numa surdina resignada.


CAMINHO E TELEOLOGIA:

Tornar-se
O motto do Modus, tomado de empréstimo a Goethe, aponta um caminho e uma teleologia: poder tornar-se plenamente quem na verdade se é, sem constrangimentos nem frustrações, sem o frio de só se ser visto pela metade e o desprazer do comedimento onde se deseja a entrega, foi eleito como o sentido para a vida neste espaço peculiar, exacerbado às vezes, sublimado outras tantas.
Mas tornar-se quem se é não depende só da atitude própria, nem da convicção inteira ou mesmo da resiliência: depende também do meio, do todo, e acima de tudo da luz e do calor que se recebe do olhar que nos vê e onde nos revemos. Só assim se atinge aquilo que, com razoável insuficiência, pode ser designado como felicidade.


Palavras retiradas de um blog continuadamente fascinante, o Modus Vivendi, agora com nova morada.


Segunda, 3 Janeiro, 2005

EM BREVE NO 1BSK: Uma surpreendente justaposição de artigos da Lei do Tribunal Constitucional e sabores de iogurte.


VOTOS PARA O ANO NOVO: Menos manequins despidos nas montras das lojas, se faz favor, obrigado.


PALAVRAS PARA QUÊ?: Visto na RTP1: uma senhora perdeu uma soma considerável de euros, no concurso do Jorge Gabriel, por não saber que a modalidade em que o indiano Viswanathan Anand se distingue é o xadrez.
As ilações a retirar deste episódio são óbvias, e deixo-as ao cuidado do leitor.
Acrescentarei apenas que admiro muito Anand, se bem que o seu estilo de jogo não seja dos que mais me seduzem. É um dos jogadores mais fortes da actualidade, a nível mundial, e todos o apontam como um indivíduo dotado de lhaneza e afabilidade, algo de assinalável numa modalidade onde os facínoras e os egos hipertrofiados são legião.


ANÚNCIOS DE GATO PERDIDO INVENTADOS (6):

PERDEU-SE LINDO GATO

Estamos todos em cuidado
O Bairro Alto é grande e o gato é pequeno
Orelhas macias, corpo alerta
Gato, onde estás?
Dei-lhe o nome de "Bloch", mas era um nome secreto, nunca o usei
Apodavam-no de "aquele que se esgueira"
Estamos todos em cuidado
Os telhados do bairro têm um declive exagerado
Gato, onde estás?
Branco com malhas arruivadas, cauda curta e vigorosa
A humidade atmosférica é excessiva para a época do ano
Toda a cidade é cúmplice
Toda a cidade é cúmplice





CECI N'EST PAS...: Isto não é um Top 5, nem um arremedo de balanço da blogosfera no ano que agora se finou. Tão somente uma lista de blogs que visito com enorme prazer, e que ajudaram a tornar este ano um pedacito mais luminoso. Sem aspirar à exaustividade. Obrigado a todos.

Dias Com Árvores
Digitalis
Klepsýdra
Moro Aqui
Palavras da Tribo




AS MINHAS RESOLUÇÕES PARA O ANO NOVO:

1 - Merecer a felicidade.
2 - Ser feliz.

Por esta ordem.


RELEMBRANDO O VELHO ALBERT: Celebra-se em 2005 o Ano Mundial da Física.



Foi em 1905 que Albert Einstein publicou três artigos que assumiram uma importância extrema para o desenvolvimento da física moderna. O mais conhecido desses artigos é, sem dúvida, aquele dedicado à relatividade restrita. Contudo, os dois restantes, em que Einstein se debruça sobre o efeito fotoeléctrico e sobre o movimento browniano, representam igualmente feitos científicos de alcance profundo.
Informações ulteriores sobre o programa de comemorações do Ano Mundial da Física poderão ser encontrados no site da Sociedade Portuguesa de Física.


NOVUM ANNUM INCIPIT EST: Que melhor maneira de começar um novo ano do que com latim macarrónico? FELIX ANNUM 2005 TOTIS LECTORIS UNUM BLOG SUPRA KLEIST!!!!