Heinrich von Kleist (1777-1811)Liberté Egalité FraternitéNo tabuleiro de xadrez, as mentiras e a hipocrisia não duram muito (Em. Lasker)Monty Python forever!

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abril 2003

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Domingo, 27 Abril, 2003

TODOS OS PATINHOS...: Então boa noite, boa semana, e muitos sonhos verde-alface.


Federico Fellini e Donald Sutherland

«O olhar alarmado, ansioso, de Donald Sutherland, que receia, da minha parte, emboscadas, ciladas, traições. Cada vez que me aproximava dele para lhe sugerir a acção, ficava hirto como quem fareja um perigo inevitável. (...) Estou convencido de que este femíneo mal-estar, este receio crónico, esta desconfiança incurável, foi indubitavelmente útil à personagem, tornando-a ainda mais estranha, distante, espectral, precisamente como eu a tinha imaginado.» (Extraído da entrevista a Fellini realizada por Giovanni Grazzini, editada pelas Publicações Dom Quixote, "Fellini por Fellini", tradução de Helder Pereira Rodrigues, Lisboa, 1985.)



FAZ SENTIDO!: Num inquérito realizado há vários anos pela revista "Time Out", Peter Greenaway incluiu "Casanova" na lista dos seus 10 filmes preferidos.


CINEMA: "Fellini's Casanova". Federico Fellini era um dos pouquíssimos realizadores (fraca colheita em mais de 100 anos de história) cujo impulso criativo assumia a componente pictórica muito para além da sua mera vertente ilustrativa: não apenas como uma mais-valia a explorar, de maneira mais ou menos engenhosa, mais ou menos eficaz, mas como a própria essência do cinema, manancial de possibilidades, veículo de imaginários e celebrações. Pelo menos desde "La Dolce Vita" (mas de forma mais convicta a partir de "Giulietta degli Spiriti"), os filmes de Fellini passaram a consistir essencialmente em colecções de imagens que, autonomizando-se relativamente ao elemento diegético, sublimam-no numa realidade que, à falta de melhor termo, poderíamos designar por "supra-história". Vinhetas, episódios, farrapos de enredo, desfilam como números de circo, ao sabor da digressão, da memória, da procura do efeito cómico, do supérfluo. O seu "Casanova" é disto tudo um dos exemplos mais belos e eloquentes, e ao mesmo tempo um dos seus filmes onde a solidez do fio condutor mais palpável se torna, por entre o bricabraque acrónico e difuso de imagens e situações excessivas, inverosímeis, saturadas de burlesco acanalhado. Para além das fabulosas aventuras de Giacomo Casanova, é o clamoroso malogro de uma mundividência que tentava conciliar as proezas de amante magnífico com a erudição humanista que Fellini conta em imagens. Nenhuma ideia, descendência ou transcendência sobrevive à carreira de Casanova: somente a tristíssima realidade do ciclo único de pujança e decadência; somente a banalmente inevitável condição humana, que acrescenta a sua duradoura e muda tensão aos cumes e vales narrativos transpostos ao longo das décadas e da Europa. A derradeira cena (a dança com a boneca mecânica) pode ser vista como um sonho ou como um episódio autêntico, milimetricamente alheado da catadupa de memória, facto e bravata que o antecedeu. Não consigo, em todo o caso, deixar de pensar nela como uma última homenagem e vingança, um instante singular de consonância que é também a coisa mais sublime que nos oferece este filme sublime.


Melanitta nigra americana
BIRDS ON THE WESTERN FRONT: Publicamos hoje o último excerto deste conto de Hector Hugh Munro ("Saki").
«The rattle and rumble of transport, the constant coming and going of bodies of troops, the incessant rattle of musketry and deafening explosions of artillery, the night-long flare and flicker of star-shells, have not sufficed to scare the local birds away from their chosen feeding grounds, and to all appearances they have not been deterred from raising their broods. Gamekeepers who are serving with the colours might seize the opportunity to indulge in a little useful nature study.»


Sábado, 26 Abril, 2003

QUAL O PROBLEMA DE PONZIANI?: Este, por exemplo. Ponziani lamentava o pouco que sabia acerca das vidas dos seus companheiros, fora do palco. Conforme dizia ele a Judite: «Se não sei como lavas os dentes ou como descascas uma pêra, como me podem pedir que acompanhe os teus esforços, aparelhada como uma Amazona, hirta e consumida por uma paixão destrutiva, que começa por evacuar a fúria guerreira, e que mais tarde se alimenta dela?» Respondendo a uma alusão, Ponziani disse que, de facto, na "Poética" (capítulo XVII), Aristóteles recomenda que a criação seja acompanhada por gesticulações correspondentes aos sentimentos que se pretendem evocar. Assim, os braços erguidos na direcção do céu suscitarão o assombro e a indignação naquele que se entrega a essa mímica, e a inclinação humilde da coluna cervical ajuda a entrar na pele de um mendigo. Existem razões (nomeadamente, uma caricatura de Eurípides da autoria de Aristófanes) para pensar que esta era uma prática corrente durante a idade de ouro do teatro grego. Porém, Ponziani também se apressou a frisar que esta recomendação era dirigida aos dramaturgos, e não aos comediantes. A ideia, que lhe surgiu nesse mesmo instante, foi a de pôr entre as mãos dos seus companheiros objectos tão banais quanto possível (rolo de guita, transferidor de plástico), e, de certa maneira, de inverter a sugestão de Aristóteles: em lugar de gestos extraordinários para evocar emoções fora do comum, pedir apenas o corriqueiro, gestos do quotidiano executados com rara deliberação, no seu contexto natural (sala banhada pelo sol da tarde, posto de trabalho, cozinha deserta), desfamiliarizados à força. Talvez, pensava ele, essa ginástica da consciência, da premeditação, lhes permita soltarem-se mais nos ensaios...

...deixando depois para trás toda essa bagagem com um só gesto, largo de altiva impaciência.

Mas Ponziani nunca deixa de sentir a aguilhoada da culpabilidade, sempre que discute estas questões (e as discussões são longuíssimas, por vezes acaloradas) sem revelar aos seus companheiros o seu interesse por um certo ensaio sobre marionetas, e sem revelar a existência de um certo delgado livro de capa negra. Esse mesmo em que Kleist discorre sobre a esgrima, a graça e o último capítulo da história do mundo.


CROISETTE BLUES: A divulgação da selecção oficial do Festival de Cannes deste ano trouxe uma desilusão e uma excitante confirmação. A desilusão foi a ausência de "Marie et Julien", um dos filmes perdidos de Jacques Rivette, cuja rodagem tinha sido interrompida nos anos 70, e que o realizador decidiu retomar mais de um quarto de século depois. A boa notícia foi a presença do primeiro filme do novo projecto de Peter Greenaway, "The Tulse Luper Suitcases" (que incluirá ainda duas outras longas metragens, para além de um CD Rom e de um prolongamento na Internet). O que mais me entusiasma neste novo trabalho de um criador que muito admiro é a nova aposta numa faceta documentarista e enciclopédica que nos deu obras primas como "The Falls", "A Walk Through H" ou "Vertical Features Remake", e que era dominante na obra de Greenaway antes de atingir a notoriedade internacional de que desfruta.
Resta desejar que o palmarés deste ano seja menos previsível do que nos dois anos passados: "Dancer in the Dark" e "La Stanza del Figlio" foram ambos favoritos do princípio ao fim do certame, e o galardão máximo parecia estar-lhes prometido desde muito cedo. A composição do júri de 2003 augura coisas boas: Patrice Chéreau não será por certo o homem menos indicado para fugir ao conformismo e protagonizar escolhas ousadas. Mas também é certo que, depois de Luc Besson, qualquer individualidade que fosse escolhida para presidente faria figura de génio.
Mais informações sobre os filmes seleccionados aqui.


A FORÇA DO EXEMPLO: A piada do dia é recomendação de Bush para que, no novo Iraque, a Igreja e o Estado permaneçam separados. Vinda da boca de um presidente que jurou sobre a Bíblia na sua tomada de posse, que insere referências a Deus e alusões bíblicas nos seus discursos frase sim frase não, e que conta com o apoio mais ou menos explícito dos gurus da "Bible Belt", uma frase destas não pode deixar de soar um tudo-nada a falso.


Sexta, 25 Abril, 2003

UMA PARA O ALDER DANTE: Durante um desafio de futebol, se o guarda-redes repõe, com a mão, a bola em jogo, com tal força e pontaria que esta entra na baliza adversária, será que o golo é válido?


CINEMA: "Punch-Drunk Love", de Paul Thomas Anderson. O problema deste filme deixa-se descrever com mais facilidade do que as suas virtudes. E o problema deste filme é um esvaziamento do conflito que chega a parecer constituir a sua razão de ser. A não ser que o seu propósito seja muito específico (fazer rir, dar a conhecer uma situação), um filme implica um, ou mais, conflitos, e o relato ou ilustração das maneiras de o resolver. "Punch-Drunk Love" anuncia-se como um suculento naco de imaginário americano, ao qual não falta o underdog nem essa alienação redimível que tantos enredos tem propulsionado. Precisamente no momento em que os ingredientes parecem reunidos, e ainda por cima em doses não excessivamente canónicas, eis que o conflito é anulado sem estrondo nem fanfarra, à força de piparotes do argumento: o "inadaptado" apaixona-se sem precisar de se esforçar, e, o que é mais, a paixão dá-lhe a força para fazer frente às consequências de um seu pecadilho (sob a forma de quatro irmãos louros e violentos, oriundos do continente profundo). Tudo acaba por ser linear, óbvio, minimalista. Mas existe algo de fundamentalmente reprovável neste virtuosismo da facilidade. Nada tenho contra contos de fadas, desde que se abstenham de lançar pistas que depois são removidas como inócuos adereços: por exemplo, qual a origem das raivas destrutivas da personagem principal? (Claro que a resposta a esta pergunta não teria interesse, não fosse o filme servir-se deste e doutros elementos como alicerces para a sua construção dramática.) O que se aproveita deste filme? Não pouca coisa, a começar pela tónica de burlesco surrealista, admiravelmente servida por Adam Sandler. Se partilhássemos da opinião de que uma grande interpretação compensa um filme duvidoso, estaríamos conversados. Quanto a Emily Watson, para quando um papel digno do talento desta actriz a quem os anos oferecem mais do que retiram ou danificam? Pelo menos assim o pensa a América, que, desta vez, escreveu com tinta verde em vez de tinta violeta, como é seu costume. Lastimo-a, isolada do mundo, algures no Alto Alentejo, e privada das suas canetas preferidas. O tio da América (trocadilho involuntário) é viticultor, e tenciona retê-la até às vindimas.


PRANTO E RANGER DE DENTES: Na rádio, escutei, tal como milhares de portugueses, as declarações patéticas do Pinto da Costa sobre a sua emoção no momento da bênção papal, e sobre a Nossa Senhora de Fátima enfeitada com o emblema do fêcêpê. Depois do inevitável momento de consternação embaraçada, consegui encarar a coisa pelo lado bom. Este tipo de provações fortalece. Ajuda a testar os nossos limites.
«In case you want an emetic, there it is.» (L. Wittgenstein, num postal enviado a Gilbert Pattisson, com Neville Chamberlain no verso.)


Quinta, 24 Abril, 2003

MAIS XADREZ: Depois da pequena rectificação que me permiti no post interior, não me sentiria de consciência tranquila sem endereçar os meus calorosos elogios ao Grande Mestre por correspondência Luís Santos, que mantém, há mais de 10 anos, uma página semanal (terças-feiras) no jornal "A Capital", exclusivamente dedicada ao xadrez. É obra. Nunca vi nada de semelhante em nenhum periódico estrangeiro. Esta perseverança é tanto mais notável quanto uma página de xadrez num diário de grande tiragem, num país onde este jogo é tão marginalizado (e inevitavelmente conotado com elitismo intelectual), pareceria, à partida, algo de mais frágil do que uma vela de bolo de anos em plena tempestade tropical.


XADREZ: Munido do seu videofone, o nosso enviado especial a Budapeste relata que o inglês Nigel Short triunfou isolado no torneio "Talento e Coragem" (categoria XVII), organizado pelos hotéis Hunguest. Short terminou a prova com um ponto de avanço sobre a húngara Judit Polgár (e não ponto e meio, como vem anunciado por engano no jornal "A Capital"), e ponto e meio sobre o também húngaro Péter Lékó, que era o principal favorito. Tratou-se, sem dúvida, de uma das mais importantes vitórias da carreira de Short, que tem andado relativamente afastado da ribalta escaquística, nos últimos anos. Relembre-se que Short foi o protagonista da cisão com a Federação Internacional de Xadrez (FIDE), cujos efeitos, 10 anos depois, ainda se fazem dolorosamente sentir. Na altura, Short defrontou o "ogre" Kasparov para o título mundial não oficial, tendo sido copiosamente batido. Com esta categórica vitória na Hungria, o xadrezista inglês demonstra que é ainda uma força que é preciso ter em conta.
Pequena nuvem negra num ambiente radioso: Short terminou o seu torneio com um empate em apenas 9 lances, contra o último classificado. Isto denota pouco talento, e ainda menos coragem. Assim também eu, ó Nigel!
Mais informações sobre este torneio na insubstituível página da revista Europe Echecs.


APRIL IS THE CRUELLEST MONTH: Até ao dia 30, continuem a ter muito cuidado com os lilases, com os aguaceiros, com aquilo que cabe numa mão cheia de pó, e com o Tirésias.


Quarta, 23 Abril, 2003

O TEMPO DAS MUITAS PALAVRAS: De acordo com o número de Março de 2001 do "Magazine Littéraire", vendem-se 400 000 exemplares/ano da colecção de Poesia da editora Gallimard. Os títulos mais populares são "Alcools" (Apollinaire), "Les Fleurs du Mal" (Baudelaire) e "Capitale de la Douleur" (Éluard). Da próxima vez que se sentirem macambúzios, desiludidos com a vida, prestes a tomar uma decisão radical como emigrar para a Austrália ou candidatar-se a participar no "Preço Certo em Euros", experimentem dividir 400 000 por 365, e depois por 24, e vejam se não se sentem logo melhor. Comigo, resulta.
Este é um magnífico pretexto para transcrever um poema de Baudelaire:

CORRESPONDANCES

La Nature est un temple où de vivants piliers
Laissent parfois sortir de confuses paroles;
L'homme y passe à travers des forêts de symboles
Qui l'observent avec des regards familiers.

Comme de longs échos qui de loin se confondent
Dans une ténébreuse et profonde unité,
Vaste comme la nuit et comme la clarté,
Les parfums, les couleurs et les sons se répondent.

Il est des parfums frais comme des chairs d'enfants,
Doux comme les hautbois, verts comme les prairies,
-Et d'autres, corrompus, riches et triomphants,

Ayant l'expansion des choses infinies,
Comme l'ambre, le musc, le benjoin et l'encens
Qui chantent les transports de l'esprit et des sens.

("Les Fleurs du Mal")



Terça, 22 Abril, 2003

E PORQUÊ "ENLACES", TIO ALEXANDRE?: Eu explico. A caça ao estrangeirismo não faz parte dos meus desportos favoritos (prefiro contar comboios), mas defendo o emprego de termos portugueses como preferível à adopção pura e simples de neologismos noutros idiomas. "Enlaces" é a palavra que os espanhóis usam para "links". Parece-me evocativa, elegante, e não isenta de discreto lirismo. Se os espanhóis já chegam a treinador do Glorioso, porque não homenagear a língua deles desta maneira, com a devida parcimónia?


THE SECULAR WEB: Como podem verificar, incluí um novo enlace, com logótipo e tudo, para uma página pertencente à "The Secular Web". Esta organização define-se da seguinte maneira: «The Secular Web is published by the Internet Infidels, an organization of unpaid volunteers dedicated to the growth and maintenance of the most comprehensive freethought web site on the Internet. (...) Our adopted mission is to defend and promote Metaphysical Naturalism, a nontheistic worldview view which holds that our natural world is all that there is, a closed system in no need of a supernatural explanation and sufficient unto itself. To that end we publish the very best secular books, essays, papers, articles and reviews. We also stand as a bulwark against the forces of superstition, especially the radical religious right, whose proponents would have us fear knowledge rather than embrace it. We want to uphold the dignity of humanity and to encourage the avid pursuit of philosophy and the scientific enterprise.». Nós não diríamos melhor! Recomendo uma visita a esta página como antídoto contra os efeitos nefastos do visionamento de uma entrevista com um qualquer astrólogo de serviço, uma reportagem sobre a autoflagelação dos peregrinos de Kerbala, ou um documentário sobre cedências à vaga criacionista na América profunda. O ponto forte deste site é a abundância de enlaces e o bem nutrido arquivo de documentos sobre temáticas que vão desde o conflito Igreja/Estado até às superstições, passando pela análise crítica de "curas milagrosas". Não nos revemos em todas as tendências representadas nesta "Secular Web", mas as afinidades superam, de longe, os focos de divergência. Boa navegação.


Domingo, 20 Abril, 2003

GOODBYE MARIA IVONE: O título de um dos últimos posts do País Relativo é inspirado na imortal versão portuguesa da "Roda da Sorte", que marcou toda uma geração. Herman, Cândido Mota, Ruth Rita, o cuco, o coro das Porcazinhas, sem esquecer o enigmático Antunes, ocupam um lugar de honra no imaginário daqueles que viveram esses momentos gloriosos da TV portuguesa. Para quando uma edição integral em 40 DVDs, com making of, entrevistas, cenas cortadas, e uns aros iguais aos do Cândido à laia de brinde? Só faltam 8 meses para o Natal. Quem é que honestamente é capaz de afirmar que não gostaria de ter a "Roda da Sorte Redux" no sapatinho?


ISTO NÃO É UM MANIFESTO: Os manifestos não costumam ser a nossa chaveninha de chá. Contudo, atendendo a que a sucinta lista de tópicos incluída no canto superior esquerdo pode deixar o leitor à míngua sobre a razão de ser deste blog, achámos por bem deixar explícito o nosso credo, em letra de imprensa, e por extenso.
O Umblogsobrekleist (1bsk para os amigos) é, acima de tudo, um blog que defende os valores republicanos (nomeadamente a igualdade absoluta de todos os seres humanos), jacobino nas horas vagas, mas fiel à certeza de que a ênfase dada ao Estado não tem forçosamente que ser castradora para as liberdades individuais; que preconiza uma cidadania activa, responsável e participativa; que atribui ao pensamento crítico, à laicidade e ao cepticismo um estatuto fulcral numa sociedade evoluída e capaz de progresso; e que defende a Arte (todas as artes) como método de intervenção e como solução para a expressão de visões individuais do Mundo.
A defesa dos valores republicanos significa, antes de mais, a afirmação de que a República se distingue de uma monarquia ou de uma ditadura por muito mais coisas do que o singelo acto de introduzir um voto numa urna de 5 em 5 anos, para eleger um presidente. À República está associado um conjunto de valores, entre os quais são de salientar: a igualdade entre os cidadãos; a ideia do poder como emanação da vontade popular; a separação entre Igreja e Estado; a conciliação entre particularidades culturais e a união nacional; a noção do Estado como garante da lei e do seu cumprimento. Acessoriamente, ao longo dos anos, e ao sabor da conjuntura, os ideais republicanos encontraram aplicação em numerosas frentes de batalha, como por exemplo as campanhas de alfabetização maciça. Afirmar-se republicano nos dias de hoje é associar-se à convicção de que as respostas a muitos dos problemas que abalam a nossa sociedade devem ser procuradas à luz desta panóplia de noções e valores, e que por detrás desses mesmos problemas se encontra amiúde um défice, por parte dos poderes eleitos, na assunção das suas responsabilidades republicanas. (Referimo-nos aqui à sociedade portuguesa, em particular, mas chamando a atenção para o facto de que estas questões se encontram, com sintomática regularidade, em muitos outros países, e não só naqueles que mais se nos parecem assemelhar.) A "cidadania activa, responsável e participativa" a que era feita alusão no parágrafo anterior é ao mesmo tempo uma trave mestra da sociedade e uma veleidade que definha se não for encorajada, nomeadamente através do exemplo; daí o facto de encararmos a indiferença e o "deixa andar" como algo de nefasto e preocupante, incompatível com a vivência republicana. Deixei para o fim a convicção de que a caracterização de ideias e posturas políticas unicamente segundo um eixo Esquerda-Direita é francamente empobrecedora, e de que os conceitos republicanos podem e devem ajudar a diversificar o debate.
O louvor do pensamento crítico é consequência da realização de que quase tudo (assim de repente, nenhuma excepção me ocorre) daquilo que de positivo, fecundo e duradouro existe numa sociedade resultou de um acto voluntário e livre de exercício da reflexão, do discernimento e da ponderação, por parte de um indivíduo ou grupo de pessoas, acto esse cujos resultados foram transmitidos às gerações seguintes, sob a forma de escritos, metodologias, etc. Estou a pensar nas ciências ditas "exactas", mas também na filosofia, nos sistemas políticos, ou em conceitos como os Direitos Humanos. É por isto, e por considerarmos que a grande maioria dos conflitos que eclodem e ensanguentam o mundo resultam ou de um défice de pensamento crítico (propaganda, manipulações) ou de situações em que conceitos falsamente absolutos (Deus, Pátria) são subtraídos à jurisdição da crítica e da ponderação, que defendemos a humana capacidade de duvidar e de pensar como essencial para a harmonia interna das sociedades e para o entendimento entre os povos. Daqui se compreende também a nossa animosidade para com charlatanices, imposturas intelectuais, demagogias, populismos. É de frisar que o nosso "cepticismo" não deve ser entendido automaticamente como "resistência a mudanças" (não somos nem entusiastas fervorosos de revoluções, nem conservadores empedernidos avessos à mudança em nome da desconfiança daquilo que é novo ou do comodismo), mas sim como concretização dessa tendência muito humana (mas tantas vezes contrariada) de duvidar, de colocar questões, de tentar averiguar se uma coisa é mesmo como a pintam, ou se é outro o matiz que revela quando exposta à luz do dia.
Quanto à Arte, pois bem, quem se dá ao trabalho de seguir este blog com alguma regularidade já se apercebeu de que os posts sobre literatura, música, pintura, etc., perfazem uma porção considerável do nosso espaço, talvez mais de 50 %. Para além da simples e compreensível vontade de partilhar os nossos gostos, as nossas paixões, os nossos quadros, livros, poetas de referência, esta insistência vem na continuidade da nossa postura sobre sociedade e política, cujas linhas gerais acabamos de apresentar. Ou seja: o gesto de criação artística é, para nós, um gesto que não pode ser desinserido da vivência na sociedade do seu autor, e incorre-se num grave logro quando se admite que, por quaisquer artes de perlimpimpim, aquele que pinta um quadro, encena uma tragédia de Kleist ou escreve um romance é capaz de se alhear das forças do mundo que o moldaram, ou de colocar em stand-by as suas aspirações à felicidade e as ambições que só encontrarão resposta no seio dessa mesma sociedade. Atenção: isto não representa uma apologia da Arte "comprometida", mas tão somente o alvitre de que, neste tipo de problemática, nada pode ser tão estanque como por vezes se pode tentar fazer crer. Teremos ocasião de desenvolver este tipo de criações, de preferência com exemplos, em prosa, verso, ou JPEG.
Quanto à escolha de Kleist como patrono, ela foi explicada (em parte) aquando dos primeiros balbuceios deste blog.


Sexta, 18 Abril, 2003

FORÇA, FORÇA, COMPANHEIRO GOOGLE: Nos resultados de uma busca no Google, restringida às páginas portuguesas, com a palavra chave "Kleist", o 1bsk aparece em quinto lugar. Isto apesar de aqui se falar de tudo menos de Kleist. Mas melhores dias virão.


VERSOS PORQUE SIM: O tempo que poderia ser perdido em considerações sobre o cabotinismo de Daniel Day-Lewis, no seu papel de talhante priápico e belicoso no último filme de Scorsese, será, a meu ver, mais bem empregue com a divulgação de alguns versos do seu pai, Cecil Day Lewis.

THE CONFLICT

I sang as one
Who on the tilting deck sings
To keep their courage up, though the wave hangs
That shall cut off their sun.

And as storm-cocks sing,
Flinging their natural answer in the wind's teeth,
And care not if it is waste of breath
Of birth-carol of spring.

As the ocean-flyer clings
To height, to the last drop of spirit driving on,
While yet ahead is land to be won
And work for wings.

Singing I was at peace,
Above the clouds, outside the ring;
For sorrow finds a swift release in song
And pride its poise.

Yet living here,
As one between two massing powers I live
Whom neutrality cannot save
Nor occupation cheer.

None such shall be left alive:
The innocent wing is soon shot down
And private stars fade in the blood-red dawn
Where two worlds strive.

The red advance of life
Contracts pride, calls out the common blood,
Beats song into a single blade,
Makes a depth-charge of grief.

Move then with new desires,
For where we used to build and love
Is no man's land, and only ghosts can live
Between two fires.

(1933)




Quarta, 16 Abril, 2003

A AMÉRICA NASCEU NAS RUAS?: A América desmente formalmente esta alegação. Ela afirma (e nós não encontramos motivo para duvidar) que foi concebida em, ou algures entre, Honfleur, Deauville ou Cabourg, e nasceu no protector recato do Hospital de Beja, por cesariana.


CINEMA: "Gangs of New York", de Martin Scorsese. A América Nasceu nas Ruas: assim o proclama a promoção deste filme. Trabalho escusado será procurar, ao longo das duas horas e tal que este dura, argumentos a favor ou contra essa tese. A Rua é o lugar de todos os tumultos, de todas as manobras, de todas as redenções, mas não acolhe um desabrochar de sentimento nacional, de ideia ou consciência de país. A América sucede e emerge, sob a forma de convulsões da história de origem longínqua, sem esperar que o dédalo confuso das ruas de uma cidade lhe sirvam de cadinho, alheia ao feudo, às desrazões e ao sangue vertido em vão (entenda-se: sem contribuir para engordar a seta do tempo).
Mais do que o duvidoso engendrar da nação, "Gangs of New York" revela-nos a genealogia, os pecadilhos originais e a grandeza optimista de um cinema americano refém dos seus próprios códigos e do seu colossal sucesso, que, em vez de lhe dar segurança, o faz recear a novidade como um risco dispensável; um cinema condenado a reencenar constantemente a sua própria mitologia, sob pena de perder a fé em si mesmo. Um novo visionamento de "Life Lessons", esse precioso monumento da arte de fazer muito com pouquíssimo (Nolte e Arquette, pinceladas, Procol Harum, eis tudo), ajuda-nos a compreender que ninguém saiu vencedor da obstinação de Scorsese em levar a cabo este seu projecto. Mas seria isto uma fatalidade, atendendo à felicidade com que, no passado, ele lidou com a grandeza de meios ("New York New York", "Casino")? Mas também é verdade que, quase desde o início, a carreira cinematográfica de Scorsese se desenrolou na órbita desta questão opressiva: que farei sem Robert De Niro? (E reciprocamente.)


Terça, 15 Abril, 2003

THE STORY OF SEBASTIAN AND BELLE THE SINGER: Constato que o André, do Nocturno 76, fez uma coisa que eu estava há muito para fazer: uma homenagem a uma das bandas mais extraordinárias e originais do universo, a saber os Belle and Sebastian. Este grupo de Glasgow especializou-se num lirismo do quotidiano, entediado e adolescente, salpicado de uma adocicada irrelevância urbana e colorido por doses homeopáticas de um surrealismo bem comportado mensurável em colheres de chá. Os resultantes são surpreendentes, refrescantes, e funcionam como mais uma prova de que a superficialidade, desde que assumida e trabalhada com inteligência, não equivale a futilidade.
Amostras? Estas são retiradas do seu primeiro álbum, "Tigermilk":

So I gave myself to God, there was a pregnant
pause before he said ok
Now I spend my day turning tables round in
Marks & Spencer's, they don't seem to mind

("The State I Am In")

Ou ainda:

Monday morning wake up knowing that
You've got to go to school
Tell your mum what to expect
She says it's right out of the blue
Do you want to work in Debenham's
'Cause that's what they expect
Start in Lingerie, and Doris is your supervisor

("Expectations")

Para acabar:

You know my bip-bopping days are over
I hung my boots up and then retired from
the disco floor
Now the centre of my so-called being is
The space between your bed and wardrobe with
the louvre doors

(...)

It's got to be fate that's doing it
A spooky witch in a sexy dress has been
bugging me
With the story of the way it should be
With the story of Sebastian
And Belle the singer

("My Wandering Days Are Over")

O nome da banda é inspirado num livro para crianças da autoria de Cécile Aubry.


VERDE QUE TE QUERO VERDE: Tal como vi escrito algures na blogosfera, quando os noticiários voltam a puxar a pedofilia e o Vale e Azevedo para as primeiras páginas, é porque o mundo recuperou alguma da sua normalidade, ainda que precária.
A normalidade deste blogsobrekleist é verde.
Logo, este blogsobrekleist volta a ser verde.



Segunda, 14 Abril, 2003

POURQUOI FILMER UNE HISTOIRE, QUAND ON PEUT L'ÉCRIRE?: É com vergonha e lástima que me apercebo de que mencionei o Boulevard des Batignolles sem evocar as primeiras palavras do primeiro dos "Contes Moraux", de Rohmer ("La Boulangère de Monceau"):

«Paris, le Carrefour Villiers. A l'est, le boulevard des Batignolles avec, en fond, la masse du Sacré-Cœur de Montmartre. Au nord, la rue de Lévis et son marché, le café «Le Dôme» faisant angle avec l'avenue de Villiers, puis, sur le trottoir opposé, la bouche de métro Villiers, s'ouvrant au pied d'une horloge, sous les arbres du terre-plein, aujourd'hui rasé.»

Já não existe, a padaria que se situava na esquina entre a Rue de Lévis e a Rue Lebouteux.


Domingo, 13 Abril, 2003

Para quem ainda não o tinha descoberto, aqui fica o aviso: clicando e/ou passando o cursor sobre as imagens deste blog, coisas interessantes podem acontecer. Bom começo de semana.


MONTY PYTHON FOREVER:
Surgeon: (...) Mr Notlob, as you know I am a leading Harley Street surgeon as seen on television. I'm afraid I'm going to have to operate. It's nothing to worry about although it is extremely dangerous. I shall be juggling with your life, I shall be playing ducks and drakes with your very existence, I shall be running me mits over the pith of your marrow. Yes! These hands, these fingers, these sophisticated organs of touch, these bunches of five, these maulers, these German bands that have pulled many a moribund unfortunate back from the very brink of Lazarus's box. No, it was Pandora's box wasn't it? Well anyway these mits have earned yours truly a lot of bread. So if you'll just step here I'll slit you up a treat.
Notlob: What?
Surgeon: Mr Notlob, there's nothing wrong with you that an expensive operation can't prolong.
("Monty Python's Flying Circus Volume One", Episode Thirteen)
(© Python Productions)



Apraz-me deveras registar o artigo do Ivan no blog A Memória Inventada sobre a nova geração de actrizes francesas. Sobre a grande KIBERLAIN já eu disse (por enquanto!) aquilo que tinha a dizer. Tanto Élodie Bouchez (revelação de "Les Roseaux Sauvages") como Virginie Ledoyen (que era uma das "8 Femmes") merecem também encómios e longas horas de devoção platónica. Outros nomes incontornáveis são os de Natacha Régnier, Sylvie Testud, Julie-Marie Parmentier, Isild Le Besco e Emmanuelle Devos, esta última um caso único de filmogenia e personalidade de que voltarei a falar.


E que dizer do dólmen da Barrosa, perto de Vila Praia de Âncora, deixado ao abandono apesar de classificado como monumento nacional desde 1910?


Le rose est mieux que le noir, mais les deux s'accordent
LUGARES PARISIENSES (2): A venda do espólio de André Breton anda na boca de toda a gente (ver aqui), e este parece-me um soberbo pretexto para evocar "Nadja", e alguns dos lugares parisienses que a leitura desta história de loucura ataviada de lucidez obriga a ver e viver de outra maneira.
Há a Place Maubert, por exemplo, onde na altura se erguia uma estátua de Étienne Dolet. Este humanista do século XVI foi condenado «pour blasphèmes, séditions et expositions de livres prohibés et damnés, à être mené dans un tombereau depuis la Conciergerie jusqu'à la place Maubert où seroit plantée une potence autour de laquelle il y auroit un grand feu auquel seroit jeté et brûlé avec ses livres, son corps converti en cendres». Breton confessa que a estátua ao mesmo tempo atrai-o e e provoca-lhe um mal estar insuportável. A estátua desapareceu durante a ocupação de Paris.
Há também o Boulevard des Batignolles, onde Nadja mostra pela primeira vez um dos seus desenhos a Breton. Nadja dispõe-se a explicar-lhe todos os elementos do desenho, à excepção da máscara rectangular.
Ou a gare Saint-Lazare, onde apanham o comboio para Saint-Germain-en-Laye, com escala no Vésinet.
À falta de uma fotografia da Place Dauphine, a propósito da qual Breton fala de «une étreinte très douce, trop agréablement insistante et, à tout prendre, brisante», escolhi uma imagem do edifício que a eclipsa, com a secção "margem esquerda" do Pont-Neuf, e o céu de um azul por macular.


POPCORN FREE ZONE #2: Prossegue o interessante ping-pong verbal com o Nuno Centeio do Espigas ao Vento.
Como é evidente, a minha animosidade contra as pipocas dirige-se essencialmente ao seu estatuto de símbolo, e à sua associação com um conceito de exibição comercial de filmes hiper-estandardizado e massificado, e que atribui forte ênfase à componente de entretenimento, com o qual não me identifico. (Isto para não falar no cheiro, que não aprecio, nem do deplorável estado em que fica o chão da sala após uma sessão concorrida, nem no ruído masticatório que se acrescenta aos sussurros inoportunos e aos telemóveis tocando ao desafio.) Contudo, importa salientar que não é minha atenção menorizar ou negar legitimidade à vertente mais lúdica e convivial do cinema. Muito pelo contrário. Sou fervoroso adepto da coexistência pacífica de todas as correntes e tendências do fenómeno audiovisual (esta parece tirada do discurso do ministro da tutela...), e é precisamente por isso que considero que vale a pena batermo-nos para que o cinema possua condições para realizar o seu riquíssimo potencial artístico. O que se passa hoje em dia, claramente, é uma progressiva intolerância, por parte dos circuitos de distribuição que desfrutam de uma situação de quase-monopólio, por parte de uma certa opinião pública, por parte de uma certa crítica, contra as veleidades autoristas que teimam em manifestar-se, sobretudo quando provêm de realizadores da nossa praça, e sobretudo se financiados, directa ou indirectamente, pelo contribuinte. Por um lado, isto é compreensível, na medida em que produzir um filme custa muito dinheiro; na literatura e na pintura, o problema coloca-se de maneira muito menos aguda. Mais preocupante é quando se extrapola, com a ligeireza que é apanágio de muita da nossa comunicação social, de um problema estritamente económico para o terreno das considerações estéticas, o que tem como resultado quase inevitável a estigmatização daquele que porfia em levar ao ecrã as suas ideias pessoais em vez de se conformar a cânones e modas. (Para reconhecer à distância este tipo de discurso, basta procurar a expressão "torre de marfim", que nunca deixa de ocorrer nestas ocasiões, com fatalidade crónica.) É contra isto que eu me insurjo.
Em resumo: nada tenho contra um cinema essencialmente lúdico. Não existe incompatibilidade de raiz entre entretenimento e inteligência, tal como pude confirmar ainda recentemente, ao rever um filme ("Groundhog Day", "O Feitiço do Tempo") que é um magnífico divertimento e ao mesmo tempo um subtil e permanente desafio à atenção do espectador. Porém, desta constatação até à defesa de que existe um contínuo entre os filmes de James Bond e "Andrei Rubliov" (já para não falar de Stan Brakhage, Jonas Mekas, Michael Snow...) vai um grande passo. Aqui há tempos, eu seria capaz de concordar com tal afirmação. Hoje, estou convencido de que existe algures entre estes dois extremos uma fractura que nem à custa de boa vontade, muita Araldite e bocadinhos de arame é possível disfarçar; e que, para lá dessa fronteira, existem províncias da criação cinematográfica que não se prestam à assimilação, e que nos forneceram muito do que de belo e duradouro se filmou desde que os irmãos Lumière pousaram a sua câmara na gare de La Ciotat. E é por isso que exalto, antes de todos os outros, aqueles que personificam essa fractura e que a traduzem numa atitude de não reconciliação: o casal Huillet/Straub, Pialat, Monteiro, Godard, Moretti, Cavalier, Kitano, e alguns outros. E é por isso que expressões como "verdadeiro cinema" surgem de vez em quando naquilo que escrevo; que me sejam relevadas em nome da importância que este cavalo de batalha assume para mim. No fundo, isto mais não é do que uma simples questão de vocabulário. Chamemos-lhe "cinematógrafo" (Bresson), "sétima arte" ou "xpto"; pouco importa, desde que lhe seja concedido o elementar direito de existir.
A respeito das cerimónias de entregas de prémios, mantenho que, dos Óscares aos BAFTA, passando por Césares e outros Goyas, mais não são do que campanhas de promoção e bem comportada auto-celebração das indústrias cinematográficas nacionais. Prémios atribuídos pela crítica dever-se-iam revestir de um outro interesse, mas, sintomaticamente, acabam na maior parte dos casos por respeitar as escolhas dos profissionais do cinema.
Para além disso, os vestidos e toilettes dos actores e actrizes que participam nessas cerimónias são, nove em cada dez vezes, simplesmente horrorosos, como se resultassem de uma campanha minuciosamente orquestrada para desfear aqueles que a natureza mais generosamente dotou.


NOTÍCIAS DO MUNDO DO XADREZ: Disputou-se recentemente mais um forte torneio em terras espanholas, desta vez em Dos Hermanas, nos arredores de Sevilla. Os vencedores ex aequo foram os russos Aleksei Dreyev e Aleksandr Rustemov, tendo este último beneficiado de melhor coeficiente de desempate. Este resultado pode considerar-se uma surpresa, visto que outros jogadores mais cotados, como Aleksei Shirov (espanhol de origem letã) e Aleksandr Khalifman (russo), eram apontados como favoritos. O jovem local Francisco Vallejo causou muito boa impressão na primeira metade do torneio, mas uma ponta final menos conseguida impediu-o de ser profeta na sua terra; ainda assim, confirmou mais uma vez o seu enorme potencial. Uma nota ainda para o péssimo momento de forma de Sergei Tiviakov (holandês de origem russa), um antigo candidato ao título mundial, e que aqui teve de se contentar com a lanterna vermelha. Mais informações na página oficial do torneio.
Neste momento, as atenções estão voltadas para o torneio Hunguest, que se desenrola em Budapest. Ao fim de 2 rondas, a liderança isolada pertencia à húngara Judit Polgár, única mulher em liça. Entre os participantes, destacam-se ainda Péter Lékó (Hungria), Viktor Korchnoi (suíço, de origem russa) e Nigel Short (Inglaterra). Mais informações na página oficial do torneio.
Por fim, é com especial prazer que damos conta de mais uma demonstração da classe do grande Anatoly Karpov, ex-campeão do mundo. Num match de 8 partidas semi-rápidas com o polaco Bartlomiej Macieja, realizado em Varsóvia, Karpov impôs-se por 6 a 2. Especialmente notável foi o facto de Karpov ter ganho todas as 4 partidas que disputou com as peças negras. Mais informações aqui.
«Estilo? Eu não tenho estilo.»(Anatoly Karpov)



Common chaffinch (Fringilla coelebs)
BIRDS ON THE WESTERN FRONT: Continuamos a publicar excertos deste conto de Hector Hugh Munro ("Saki"), em jeito de ensaio sobre os efeitos da guerra na fauna alada.
«At the corner of a stricken wood (which has had a name made for it in history, but shall be nameless here), at a moment when lyddite and shrapnel and machine-gun fire swept and raked and bespattered that devoted spot as though the artillery of an entire Division had suddenly concentrated on it, a wee henchaffinch flitted wistfully to and fro, amid splintered and falling branches that had never a green bough left on them. The wounded lying there, if any of them noticed the small bird, may well have wondered why anything having wings and no pressing reason for remaining should have chosen to stay in such a place. There was a battered orchard alongside the stricken wood, and the probable explanation of the bird's presence was that it had a nest of young ones whom it was too scared to feed, too loyal to desert.»


Quinta, 10 Abril, 2003

DESTAQUES DA CINEMATECA PARA ESTE MÊS DE ABRIL: "One From the Heart" (dia 12, 19h, dia 14, 22h); "Casanova" (dia 22, 19h); "Orfeo" (dia 22, 19h30); "The Baby of Mâcon" (dia 24, 19h); "Le Carrosse d'Or" (dia 24, 21h30); "A Countess from Hong Kong" (dia 26, 19h). Esta escolha é uma escolha pessoal, que não reflecte necessariamente as opiniões deste blog. Mais informações sobre a Cinemateca encontram-se aqui. Fim do post.


«Valeu a pena.» afirma, no DN de hoje, Luís Delgado. Felizes aqueles com abundância de certezas, e peremptórios quanto baste para as verter em letra de imprensa. A bem-aventurança daqueles que sabem quanto vale uma vida humana deve ser muito especial, como uma grinalda opulenta e corno de abundância num objecto só. «Se é que a morte alguma vez vale a pena.», acrescenta o cronista, entre decorosos parêntesis. A concessão retórica não faz justiça a alguém tão a par das cotações da vida e da morte. Nós, no 1bsk, somos indigentes de certezas. O que nos sobra é o degradante vício da dúvida metódica, o giz branco das palavras, saudades de Bréguet-Sabin e outras estações de metro de Paris, e muita vontade de ler Kleist.


Quarta, 09 Abril, 2003

A notícia de que, no Pinhal Novo, uma torre de sinalização e manobra ferroviária projectada por Cottinelli Telmo se encontra ameaçada de demolição devia encher de vergonha todos os cidadãos decentes deste país.


UMPOSTSOBREMÚSICA: Eis como Pau Casals qualificava cada uma das suites para violoncelo solo de J.S. Bach.
  • Nº 1: Optimista.
  • Nº 2: Trágica.
  • Nº 3: Heróica.
  • Nº 4: Grandiosa.
  • Nº 5: Tempestuosa.
  • Nº 6: Bucólica.
Depois disto, quem se atreve ainda a dizer que este blog não é serviço público?



Domingo, 06 Abril, 2003

POPCORN FREE ZONE: Na sequência de um post de há alguns dias, e de uma troca de comentários com o Nuno Centeio do Espigas ao Vento, vou tentar esclarecer a minha posição a respeito do cinema de Hollywood e dos Óscares, sua reluzente ponta de lança.
O cinema americano pavoneia a sua hegemonia pelos ecrãs de todo o mundo, com excepções pontuais. Será isto inevitável? Sim e não. Sim, porque este é o resultado de um know-how, de maciços investimentos na indústria do entretenimento e de uma máquina de promoção e distribuição que levariam gerações a contrariar. Não, porque medidas de estímulo e protecção de indústrias de cinema local têm dado os seus frutos, um pouco por todo o mundo, revelando que é possível lutar contra a maré. O que é preciso compreender é que a preponderância do cinema Hollywoodita não é resultado de uma simples escolha do consumidor que, com a mesma naturalidade com que beberica uma Coca-Cola em vez de um Sumol de ananás, prefere o produto Made in Usa em lugar de uma qualquer alternativa ao seu dispor. O que se passa é que esta alternativa ou é escassa ou, na maior parte dos casos, nem sequer existe. Ninguém ignora que isto se deve essencialmente ao forte vínculo entre salas e grupos distribuidores apostados em escoar os seus produtos, o que leva a que apenas uma fatia diminuta (e de representatividade mais do que duvidosa) do cinema mundial seja acessível ao espectador médio. Quanto a liberdade de escolha, estamos conversados. Esta situação beneficia ainda da conivência activa de quase toda a comunicação social, que não só atribui infalível destaque às estreias de qualquer blockbuster vindo do outro lado do Atlântico, como veicula com regularidade novidades irrelevantes da vida privada das estrelas, o que funciona, com temível eficácia, como processo adicional de promoção de todo um sistema.
Nada disto constitui novidade, nada disto será excessivamente controverso. A pergunta fulcral que se coloca é: será que, independentemente da vertente comercial, o público fica bem servido do ponto de vista de qualidade e diversidade? A minha resposta é um categórico NÃO. Entendo que o cinema americano, independentemente das numerosíssimas obras-primas que produziu, tem sido de entre todos o mais poderoso agente de normalização estética de uma arte que ainda está tragicamente longe de realizar uma ínfima fracção do seu fabuloso potencial. Ao impor uma estreita latitude de matrizes narrativas, de códigos, de procedimentos, os estúdios americanos ditaram uma ideia de cinema que se globalizou a ponto de excluir filmes que àqueles fogem, de os remeter à condição de objectos não identificados, condenados à marginalização. Existirão muitas excepções, mas todas elas ou terão surgido num contexto muito específico, ou terão resultado de concessões aos cânones dominantes, mais ou menos evidentes. Peter Greenaway afirma para quem o quer ouvir que os mais celebrados realizadores americanos contemporâneos, por exemplo Scorsese, ainda estão a fazer aquilo que Griffith fazia. Concordo inteiramente. É por isso que não posso conter um sorriso quando se fala na "diversidade" do cinema americano. Diversidade, de acordo, mas sempre condicionada a credos e cadernos de encargos robustecidos à força de dólares; diversidade sob custódia, com trela e açaime, vigiada de perto, submetida à tradição, à etiqueta e aos ditames do custo-benefício. Assim como existe uma enorme variedade de gaivotas, mas também existem albatrozes, andorinhas, faisões, alces, escorpiões, varanos, ouriços, gorilas, mosquitos, pumas, protozoários...
Quanto aos Óscares (©, TM, e tudo o resto), mais não são do que a supremamente arrogante emanação de uma indústria auto-satisfeita, convencida de polarizar tudo aquilo que de bom e durável se faz em termos de cinema. A nomeação de "A Vida é Bela" para melhor filme surgiu, a este respeito, como um momento revelador para mim. Até aí, na minha inocência, eu acreditara que o Óscar para melhor filme premiava necessariamente uma obra em língua inglesa, e que o prémio para melhor filme estrangeiro seria algo como um condescendente "Best of the Rest". Afinal, comprovava-se que aquelas alminhas acreditam estar a distinguir anualmente o melhor de entre todos os filmes estreados na área de Los Angeles, independentemente da língua.
Outra ocasião epifânica aconteceu quando o grande vencedor da noite foi "American Beauty". De certa maneira, é mais penoso ver triunfar um filme com pretensões do que uma baboseira destinada a acompanhar a ingestão e digestão de pipocas, e a ser esquecida em menos tempo do que se leva a dizer "Gladiador"; sobretudo quando tal decisão é aclamada como uma vitória do cinema de autor... Pessoalmente, considero que "American Beauty" está para o verdadeiro cinema (chamemos-lhe ou não "de autor", isso seria outra discussão) como o Ricky Martin está para a world music. Trata-se de uma historieta com o mérito de pôr dedos nalgumas feridas, mas que revela incapacidade de ir além de um propósito caricatural inconsistente e irrelevante, condimentado por tiradas embaraçosas sobre a beleza de um saco de plástico ao vento.
Dizem-nos e repetem-nos (a começar por João Lopes, crítico que aliás eu deveras admiro) que há que evitar simplismos e maniqueísmos quando se discutem as problemáticas do cinema, nomeadamente o confronto EUA/Europa ou EUA/Resto do Mundo. Eu sou contra maniqueísmos de qualquer espécie; contudo, também sou contra a insistência em edulcorar e minimizar situações como a que descrevi, que põem em causa o cinema enquanto arte e espaço de criação, e que, levadas ao extremo, conduzem à invisibilidade (na melhor das hipóteses) ou à negação da credibilidade de filmes e cineastas que ousam a diferença, a não reconciliação. É por isso que sou contra os Óscares. É por isso que sustento que este problema envolve uma componente de luta e de resistência que não pode ser escamoteada.


Numa frase de "The Great Gatsby", F.Scott Fitzgerald divide a humanidade entre: perseguidos (pursued), perseguidores, ocupados e fatigados.
Ponziani é, claramente, um "ocupado". Uma sua amiga, que lhe enviou uma mensagem enrolada na patita de um pombo correio, é uma "perseguida". A mensagem foi escrita em tinta simpática, com um cálamo que lhe foi oferecido, não pelo destinatário, mas por um "perseguidor" que nunca se dirige às pessoas pelo nome próprio, mesmo às mais íntimas. Conheço muitos "fatigados".
Uma quinta categoria é a daqueles que acreditam que um livro de Soupault ou Ponge serve de chamariz para a felicidade, e de quem eu gosto por causa disso mesmo.


VERSOS PORQUE SIM:

(...)
Now there's neither ticking nor blowing.
The ship has gone down with its men,
The sea with the ship, the wind with the sea.
The wind at last got into the clock,
The clock at last got into the wind,
The world at last got out of itself.

At last we can make sense, you and I,
You lone survivors on paper,
The wind's boldness and the clock's care
Become a voiceless language,
And I the story hushed in it -
Is more to say of me?
Do I say more than self-choked falsity
Can repeat word for word after me,
The script not altered by a breath
Or perhaps meaning otherwise?

Laura Riding
(© 1938 Laura Riding)



CINEMA: "Cuidado com essa Puta Sagrada", de Rainer Werner Fassbinder. Uma equipa de filmagem espera por dinheiro e pelo realizador. O dinheiro não chega, o realizador sim, mas demonstra ser parte do problema em vez de parte da solução (para usar uma terminologia em voga). Vindo de quem vem, o contrário é que seria surpreendente: para Fassbinder, as relações humanas (mais do que qualquer abstracta noção de "natureza humana") são o problema, e a sociedade uma bojuda arca de Pandora tão grande quanto for necessário, e excessivamente rica em nichos e fundos falsos. A crónica dos conflitos e tensões entre homens e mulheres condicionados por um momento da história, por um microcosmos social ou pelo preconceito sempre foi o tema predominante da obra de Fassbinder. No caso presente, a harmonia parece irromper da sua própria impossibilidade: o filme sempre se faz, a cena do assassinato protagonizada por Eddie Constantine produzirá o efeito desejado. Desengane-se, porém, quem vê uma nota optimista, devidamente ataviada de "ordem arrancada ao caos", no desenlace que se segue a tudo o que de gratuitamente violento, vulgar e tumultuoso este filme contém. A sardónica autópsia do sucesso de um filme que tudo tinha para naufragar revela, com convicção e autoironia fundidas numa só arma de arremesso, o drama irresolúvel de Fassbinder, que era o de procurar um Absoluto tenso e velhaco, escondido entre a trama densa das interacções entre seres e temperamentos, de preferência muito fortes ou muito fracos, quando lhe faltava a fé e a paciência para os Absolutos solenes e bem soantes de que a época gosta.
Este é ainda um filme com o aliciante de contar no seu elenco com Margarethe von Trotta, Werner Schroeter (muito jovem, de chapéu negro) e Magdalena Montezuma. São consumidas mais cuba libres do que em qualquer outra longa-metragem da história. Os zooms selvagens e a toada de improvisação funcionam como apologia de um cinema cru, mas refinado na sua espontaneidade festiva. Fassbinder realizou 28 filmes em 13 anos. "Cuidado com essa Puta Sagrada" ajuda a compreender tanto a sua importância como o facto de da sua carreira não constarem obras-primas.


Sexta, 04 Abril, 2003

Buzzard
SAKI, "BIRDS ON THE WESTERN FRONT": «The buzzard, that earnest seeker after mice, does not seem to be taking any war risks, at least I have never seen one out there, but kestrels hover about all day in the hottest parts of the line, not in the least disconcerted, apparently, when a promising mouse-area suddenly rises in the air in a cascade of black or yellow earth.»


«Et qu'est-ce qu'une Amérique à créer auprès d'une âme qui s'engloutit?»(Paul Claudel, "Le Soulier de Satin")



Quarta, 02 Abril, 2003

Rien sur Robert
DE ROBERT A SANDRINE EM 3 ETAPAS (SUITE ET FIN): Os actores principais do filme "Rien sur Robert" são o inefável Fabrice Luchini e Sandrine Kiberlain.
Das actrizes do cinema francês contemporâneo, nenhuma reúne tanta inteligência, carisma e subtileza interpretativa como Sandrine Kiberlain.
Cada desempenho seu é um desmentido louro e delgado da ideia de que a inteligência e perspicácia são inimigas do comediante.
Para ver o cartaz do filme, é favor clicar no cartaz do filme.
Hoje é dia de Sta. Sandrine, efeméride que junta ao agradável o útil, mão na mão.
Mas nem sequer era necessário que fosse assim. Tratando-se de Sandrine, o mais tortuoso dos pretextos seria aceitável.


Paul Valéry
VERSOS PORQUE SIM:Paul Valéry (1871-1945) foi uma figura das letras francesas cuja grandeza e relevância demorarão por certo ainda algumas gerações a ser apreciadas. Mais do que meramente poeta ou ensaísta, Valéry foi alguém que incessantemente procurou retratar a acção criadora do género humano, estudar as condições que requerem o intelecto e a sensibilidade para que a obra nasça. A recusa da inspiração, a opção pela lucidez, a primazia dada à forma, foram constantes ao longo da sua carreira.
Escolher um poema ilustrativo da obra de Valéry é tarefa comparável a procurar na praia da Quarteira um búzio capaz de representar a Via Láctea. Ainda assim...

Mon secret

Nous avons pensé des choses pures
Côte à côte le long des chemins
Nous nous sommes tenus par la main
Sans dire ... parmi les fleurs obscures.

Nous marchions comme des fiancés
Seuls dans la nuit vers des prairies
Nous partagions ce fruit de feéries
La lune amicale aux insensés.

Et puis nous sommes morts sur la mousse
Très loin, tout seuls parmi l'ombre douce
De ce bois intime et murmurant

Et là-haut, dans la lumière immense
Nous nous sommes trouvés en pleurant
O mon cher Compagnon de Silence.




Terça, 01 Abril, 2003

VERSOS DE UMA CANÇÃO DE ALAIN SOUCHON que me intrigam e atraem, sem que o motivo para tal se digne mostrar a sua patita branca:

La mer du Nord en hiver
Sortait ses éléphants gris-verts

("Le Baiser")



Num post do blog Valete Fratres!, já com algumas semanas (as minhas desculpas pela lentidão da resposta), lê-se:
«A laicidade, que a Igreja hoje não contesta, e antes respeita e defende como expressão da autonomia das realidades terrenas e como espaço de cidadania comum a todos os homens, crentes e não crentes, apresenta uma grave debilidade filosófica interna, se se limita numa racionalidade que abandonou a referência jusnaturalista e despreza a sobrenatural, acabando por se esgotar numa epistemologia relativista - que é no que vem a dar o pensamento pós-modernista, resvalando para um individualismo que desiste de procurar uma qualquer "Weltanschauung" de valor universal. Sem esta afirmação universal, não há valores comuns; sem valores comuns, não há cidadania; sem cidadania, não haverá nem paz, nem ordem, nem progresso, nem solidariedade.»
O artigo, atribuído a Mário Pinto e retirado do "Público", é apresentado sem comentários nem enquadramento contextual. Mais do que especular sobre se os autores do blog subscrevem estas palavras, interessa-me reagir ao fundo do artigo, que levanta algumas questões com aguda relevância.
O fulcro do argumento aqui apresentado parece repousar num défice de universalismo de que enferma a laicidade: aceitável enquanto modo de vivência no século, o seu alcance ver-se-ia irremediavelmente confinado por uma renúncia a transcender aquilo que é relativo, o que redunda no predomínio do indivíduo. Sob roupagens menos convencionais, encontramo-nos perante a antiga convicção de que, em consequência da abdicação de uma referência absoluta (de Bondade, Justiça, Razão), a laicidade perde legitimidade para fundar uma ética. Isto equivale a atribuir direito de cidade à postura laica, contanto que se fique pelo século e pelo barro da Terra, deixando para o teísmo o trabalhinho sério, a coesão espiritual das comunidades, todos os avatares da moral; numa palavra, o VALOR.
Faço notar que a laicidade, pelo menos tal como a entendo, não despreza a referência sobrenatural: limita-se a recusar a necessidade e a pertinência de ir procurar algo que esteja para além da natureza, daquilo que sucede no mundo. Se um tal propósito soa a "desprezo" para certas sensibilidades, é porque a componente sobrenatural foi empolada e promovida a pedra basilar da civilização, por razões históricas e sociais. O programa laico tem tudo a ver com a tentativa de edificar fundamentos éticos unicamente a partir da realidade humana, da condição mortal, falível do Homem entregue a si mesmo num universo que, infinitamente neutral no seu desconhecimento de Bem e de Mal, não lhe responde nem o consola.
A palavra chave aqui é mesmo o relativismo, mas numa acepção bem menos empobrecedora do que a que lhe é concedida no artigo supra. Qualquer que seja a definição de ética que se adopte, é de acções com sujeito e objecto que estamos a falar; de preceitos cuja jurisdição cobre as relações que se estabelecem entre seres humanos; em suma, do espaço de todos os actos possíveis, e das suas consequências em termos de felicidade humana. E este só pode ser o terreno do relativismo. O conceito de Bem absoluto, imune à relativização, abre a porta aos maiores horrores: autêntico sorvedouro de valores, ele resistirá a considerações, conjunturas, racionalizações, veleidades de construção de uma sociedade.
Leiam o "Temor e Tremor",onde o plano religioso é claramente apresentado como superior ao plano ético. Kierkegaard vislumbrou, com uma lucidez penetrante que ainda hoje incomoda, as implicações últimas da fé. Abraão faz o que tem a fazer. Como recusar-se a sacrificar o próprio filho, quando é o próprio criador de tudo quem o ordena? Contudo, se Abraão não tem razão, ele está completamente perdido. Será o Cavaleiro da Fé ou o último dos homens, mas jamais seja o que for entre um e outro.