Heinrich von Kleist (1777-1811)Liberté Egalité FraternitéNo tabuleiro de xadrez, as mentiras e a hipocrisia não duram muito (Em. Lasker)Monty Python forever!

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abril 2004

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Quinta, 29 Abril, 2004

PROMETEU AGRILHOADO: Muito se especula sobre a origem dos mitos urbanos (exemplo: um prego dissolve-se num copo de Coca Cola). A verdade pode ser muito mais simples do que se pensa. O homem que concebe e propaga as lendas que se insinuam no imaginário lisboeta tem uma modesta oficina de reparação de calçado, ao Bairro dos Actores. O negócio já correu melhor, mas ele não se queixa. Consertar um salto é obra de um momento; para se saber qual a invenção mirabolante que correrá de boca em boca nas semanas seguintes, basta meter conversa. Este artesão do espantoso, mestre ressabiado do vagamente verosímil, não é homem para se fazer rogado. Depois, haverá ainda tempo para lanchar numa pastelaria próxima, onde a empregada de mesa é daquelas para quem roubar sabonetes em hotéis é a maior travessura que conseguem imaginar-se a fazer.


ACREDITE SE LER NO 1BSK: O rigor e a exactidão dos factos são o nosso objectivo de sempre, desde a primeira hora. Temos um compromisso com a verdade, desde que a verdade não entre em conflito com aquilo que exige o equilíbrio lírico e cromático da natureza. O mundo é tudo aquilo que é o caso, como dizia Wittgenstein, e esta máxima só deixa de se aplicar dentro do perímetro do Campo dos Mártires da Pátria. Evitamos insistir em demasia nos buracos de espaço-tempo recenseados entre Lisboa, Paris e Calcutá, porque as obsessões são criaturas que requerem esmero e pudor em doses iguais. O proscénio são umas águas furtadas de um prédio na Lapa, e os camarins são toda a cidade, principalmente um grande quarto sudoeste. Aqui, os meios justificam os fins. A verde e púrpura.


ANÚNCIOS D'OUTRORA (1):

Fantasias de Natal, chocolate de leite

- E depois?
- Depois, estava o peixinho, veio o gato, e comeu-o!
- ...
- Mas veio o cão, e o gato teve de se esconder!
- ...
- Depois veio o coelhinho...
- Nã nã, o coelhinho foi com o Pai Natal e o palhaço no comboio ao circo.
(Cai o pano)




Ó TEMPO VOLTA PRA TRÁS: Como explicar às gentes mais moças o pico de emoção que a SIC proporcionou a toda uma geração, no fim-de-semana passado, ao entrevistar aquela que foi a miúda laroca das "Fantasias de Natal"? À laia de analogia, ainda que mal acomparada, as "Fantasias" estiveram para os anos 80 assim como o Ambrósio do "Ferrero Rocher" esteve para os anos 90 e princípio do século XXI.


DE TIROS E DE MELROS: Eurico de Barros, no "DN" de hoje: «Paralelamente, realizadores mais novos como Joaquim Leitão, Leonel Vieira ou João Canijo, e produtores como Tino Navarro, têm pugnado por uma alternativa comercial de qualidade ao "autorismo" ainda endémico(...)». Reparem bem na escolha do termo: "endémico". Para Eurico de Barros, os malefícios do "autorismo" são comparáveis aos da hepatite B. Com Eurico de Barros, sabemos sempre com o que contamos, estamos sempre à espera da colherada. Não há necessidade de ler nas entrelinhas, chegam amplamente as próprias linhas. (Só não percebo o que faz o nome de João Canijo nesta curta lista, mas passemos.)
Cambada de autores. Manoel de Oliveira, João César Monteiro, Paulo Rocha, José Álvaro Morais, João Botelho, Pedro Costa, Teresa Villaverde, todos uns vende-pátrias, todos obstinados nesse perigoso intento de transmitir uma visão pessoal e de fazer arte. A posteridade separará o trigo do joio. Dentro de 50 anos, haverá teses de doutoramento sobre Leonel Vieira, semana sim semana não, de Tóquio a Copenhaga, enquanto que a última cópia de "À Flor do Mar" estará a apodrecer numa cave bafienta de cinemateca.


O TERCEIRO HOMEM: Mas nem só o fino diplomata e o decatlonista da tradução literária abrilhantam a lista da coligação "Força Portugal" às próximas eleições europeias: Nuno da Cãmara Pereira, fadista e vice-presidente do Partido Popular Monárquico, aparece num 20º lugar que não faz jus ao seu colossal potencial político.
A malta do 1bsk gosta tanto de reis, de fado aristocrático e de garraiadas, que vamos todos en masse votar no homem. Aqui fica uma bonita guitarrada para dar o tom:

Mas certa noite houve alguém
Que lhe disse, erguendo a fala:
«Embuçado, nota bem,
Que hoje não fique ninguém
Embuçado nesta sala»

Ante a admiração geral,
Descobriu-se o embuçado.
Era el-rei de Portugal,
Houve beija-mão real,
E depois cantou-se o fado.





TESTEMUNHO IMPARCIAL E DESINTERESSADO: Vasco Graça Moura, tradutor de Ronsard, Shakespeare e Petrarca, homem de erudição notabilíssima e de eclectismo renascentista, serviu-se da sua crónica no "DN" (28/4) para cobrir de ditirambos o eurocandidato João de Deus Pinheiro, em vez de discorrer sobre a arte de versejar ou de prosar, nas quais ele é igualmente fluente. Mais de meia página em caracteres de imprensa para dizer bem do homem que lidera uma lista eleitoral de que Vasco Graça Moura é... o número dois. Bom dia imparcialidade!


«Gosto muito de Caldas da Rainha. É uma terra muito bonita que tem um parque muito catita. Com cisnes. Os cisnes passeiam-se devagar pela água do lago. As criancinhas correm brincam nas áleas do jardim. Se os cisnes trocassem com as criancinhas e viessem patinhar no seu andar baloiçado para o jardim, as criancinhas podiam (sem o perigo de em tal convívio aprenderem a grasnar) passear então no lago, o que lhes era um prazer, julgavam. As que soubessem nadar ou tivessem bóia adequada à cintura, vogavam. As outras iam logo ao fundo e nunca mais ninguém as via porque o lago tem um abismo que dá para a vala-comum. Por isso, às vezes, quando os cisnes sobem a terra, muitas muitas criancinhas descem ao fundo, vão parar à Lagoa de Óbidos pelos esgotos da cidade e dali ao vasto mar. Se meninas, transformam-se em sereias; se rapazes, em rochas modeladas, em duros querubins. Esta a razão por que nos roteiros turísticos lá vem indicado a normando que Caldas da Rainha é a terra onde desaparecem mais criancinhas. Todos os forasteiros o sabem; os indígenas é que fingem disfarçar.»(Luiz Pacheco, "O Caso das Criancinhas Desaparecidas", in "Exercícios de Estilo")



Terça, 27 Abril, 2004

MELHOR DO QUE O TESTE DO ALGODÃO: O filme "Demain On Déménage" (ver último post) mereceu uma estrela por parte do crítico Eurico de Barros. Querem mais eloquente selo de qualidade?
Existe um método muito simples para aferir da qualidade de um filme. Não é preciso ter lido Serge Daney de uma ponta à outra, nem tirar um curso universitário ou politécnico. Basta proceder do seguinte modo. Tome-se o número inteiro X, sendo X o número de estrelas que Eurico de Barros atribuiu ao filme em questão, e subtraia-se X do número 5. Obter-se-á o verdadeiro índice de excelência da obra. Exemplo: no caso de "Demain On Déménage", teremos 5-1=4. Façam o teste! Resulta!


CINEMA: "Demain On Déménage", de Chantal Akerman. A personagem principal (Sylvie Testud, magnífica como sempre), empenhada em satisfazer um autor que lhe solicitou um romance erótico, enfrenta algo de bem mais grave do que mero bloqueio de escritor: é a própria linguagem, feita coisa friável e fugidia, que a deixa mal, e não o clássico défice de inspiração ou de ideias para um enredo. Isto pode também dever-se a uma mãe excessivamente presente (Aurore Clément, que no entanto lhe fornece de boa vontade uma panóplia de grosserias prontas a usar no romance que tarda em nascer), ou talvez à falta, excesso ou subtil inadequação do espaço do apartamento onde acabam de se instalar. Mãe e filha passam a totalidade do filme planeando uma nova mudança, visitando casas ou mostrando a sua a potenciais compradores. Este processo tem como paralelo a reaquisição e exploração de um capital linguístico, à medida que a jovem autora, literalmente, reaprende a servir-se das palavras, como instrumento de conhecimento do mundo e de interacção social. A linguagem é um atributo complicado, mas repleto de recompensas para quem a domina. A obrigação de fazer sentido, essa, é muito mais branda do que se quer fazer querer. Obra de festiva construção e desconstrução do fenómeno linguístico, híbrido de farsa intello e comédia de costumes, "Demain On Déménage" atinge os seus melhores momentos quando se nutre, sem complexos, das suas próprias e abundantes reservas de absurdo, e quando deixa vir ao de cima a muito conseguida gestão dos espaços; e perde-se quando a inverosimilhança latente se converte em anedota pesada e desinspirada. Se bem que carente da densidade e do rigor que aproximaram "La Captive" do estatuto de obra prima, "Demain On Déménage" não merecia o acolhimento frio que lhe foi reservado pela crítica nestas paragens lusas.


Segunda, 26 Abril, 2004

ALL THIS USELESS BEAUTY: A decisão foi tomada, e assumi-la-ei, aconteça o que acontecer. Sempre vou ouvir o Elvis Costello ao Coliseu, no dia 8.


NÃO PERQUEM: «Oyez oyez oyez! Informa-se os respeitáveis leitores que o cidadão AA protagonizará uma intervenção sucinta mas oh-quão-incisiva na emissão "Literaturas", de Alexandra Lucas Coelho, na Antena 2, amanhã, terça, 17h30. O tema é a livralhada, mas garantiu-me o AA ter conseguido trazer à baila o tópico que verdadeiramente o interessa neste momento, a saber, a discussão sobre qual o "topping" que melhor faz justiça ao gelado de papaia.» (Ponziani)


ISTO ANDA TUDO LIGADO: Elenco de regras de etiqueta urbana:

1 - Antes de entrar nas carruagens do metropolitano, deixar sempre sair os outros passageiros.
2 - Sempre que se detectar uma pedra da calçada solta, retirá-la do caminho, não vá um transeunte distraído nela tropeçar.
3 - Prevenir os serviços da câmara sempre que encontrar alguém em flagrante delito de vandalização de mobiliário urbano (excepção: versos de Celan rabiscados nas paragens dos autocarros 3, 47 e 67, este só no sentido Areeiro-Damaia).
4 - Levar sempre a sério alguém que afirme não conseguir dormir porque a janela da sua casa se encontra no enfiamento de uma perpendicular imaginária ao plano das córneas da estátua do Dr. Sousa Martins.
5 - Nunca dar de comer aos pombos, excepto se trouxerem mensagens amarradas às patitas e aparentarem debilidade.
6 - Se ler um livro em lugares públicos, soerga-o de modo a que os demais possam indagar do título e nome do autor.
6bis - Nunca forrar os livros que são destinados à leitura em público.
7 - Nada pretender, nada desejar, a nada aspirar senão ao bom funcionamento das instituições e ao feliz desenlace dos minúsculos imbróglios do dia-a-dia.
8 - Manifestar de forma clara, pela contenção dos gestos e pela bonomia dos modos, a ausência de pretensões referida no ponto anterior.
9 - Evitar ambiguidades, abster-se de segundas intenções, preferir a denotação à conotação.
10 - Escrever críticas a livros de autores importantes, como Katherine Mansfield ou Graham Greene, sem cair na simples recensão nem visar a monografia de cariz académico.
11 - Sorrir sempre.
12 - Nunca punir os petizes que se lembrem de esculpir um busto do actor Taborda em puré de batata.
13 - Numa sessão espírita, se a médium for incapaz de comunicar com o defunto, arvorar um sorriso condoído e encaixar as acusações de cepticismo.
14 - Referir-se aos bolos de arroz de um bar apenas quando o seu número for primo, potência de 2 ou número de Fibonacci.
15 - Acima de tudo, nunca, mas nunca mesmo, interfira em vidas alheias.
16 - À segunda tentativa de contacto sem resposta, não insista. (A primeira pode ter-se ficado a dever a um extravio ou erro de comunicação.)
17 - Trazer à razão aqueles que fundem ódio e amor num único e indiferenciado ímpeto guerreiro que só o derrame de sangue fará deter.
18 - Não chegar nem adiantado nem atrasado aos encontros.
19 - Usar de circunspecção.
20 - Olhar nos olhos a pessoa com quem se fala.



Domingo, 25 Abril, 2004 (Dia da Liberdade)

DUPLA VOCAÇÃO: Folheando o excelente (e sempre útil) "Dicionário do Cinema Português 1962-1988", de Jorge Leitão Ramos, fiquei a saber que a actriz Glicínia Quartin é formada em Ciências Biológicas pela Faculdade de Ciências de Lisboa, e que foi investigadora em Biologia Marítima antes de se dedicar a tempo inteiro ao palco. Se não é esta uma informação que merece ser partilhada com os estimados leitores, não sei qual o será.
Folhear dicionários ao sabor do acaso é actividade recomendada ao mais alto grau. Deveria ser introduzida nos hábitos das criancinhas desde a mais tenra idade, e cultivada ao longo da vida. Pena é que a lufa-lufa diária não me permita dedicar-me a ela mais amiúde.


TELHADOS VÍTREOS: Alberto João Jardim, esse denodado democrata, recusa-se a comemorar oficialmente o 25 de Abril por não querer alinhar em "folclorismos". Vindo de quem já se mascarou de zulu para um desfile carnavalesco, a escolha do termo dá que pensar.
Outra coisa que eu acho interessante nos discursos do presidente do Governo Regional da Madeira é a insistência com que ele alude à "Terceira República". Eu até gosto muito da Terceira República, mas da francesa, bem entendido. Ainda está por fazer aqui nestas páginas a devida homenagem à figura de Jules Ferry; outras prioridades têm-se erguido mais alto.




LEITURAS: "In a German Pension", de Katherine Mansfield. Quando esta colectânea de contos veio a público (1911), Katherine Mansfield contava apenas 23 anos, mas o seu passado recente continha um número de situações traumatizantes que muitas vidas completas não chegam a conter: transferência da sua Nova Zelândia natal para Inglaterra, um casamento que durou apenas dia e meio, e uma gravidez que resultou num filho nado-morto. É na ressaca deste evento funesto que Mansfield compõe as treze histórias de "In a German Pension", inspirando-se nas figuras que cruzava diariamente na casa de hóspedes bávara onde se instalara. Esta recolha representa mais uma batalha perdida por aqueles que sustentam não ter a biografia de um escritor qualquer influência na sua obra e no "valor literário" (conceito tão ambíguo e friável, mas a que alguns aludem com o mesmo desembaraço com que se batem claras em castelo) desta. Na maior parte destes contos, Mansfield refugia-se numa ironia cerrada e mordaz, numa crítica aos costumes alemães (o provincianismo, a falta de gosto, a excessiva deferência perante a aristocracia, os hábitos alimentares, o desconcertante cocktail de sentimentalismo e pragmatismo) que denota mais espírito de observação do que animosidade. (Noutros contos, o tom de reportagem dá lugar a um figurino ficcional mais clássico, marcado, aqui e além, pela influência chekhoviana que nunca deixaria de acompanhar esta autora.) O cinismo não anda longe; a autora corteja-o, mas sem a ele ceder, como que ciente de que os espécimes e as migalhas de vida que perante ela desfilam são demasiado risíveis, demasiado singulares na sua mirabolante enormidade para se prestarem a extrapolações sobre o género humano. O mais extraordinário de tudo é o modo como Mansfield assume a posição daquela que observa, daquela em torno de quem todas as personagens burlescas orbitam. O seu explícito desejo de apagamento (enquanto narradora, a sua personagem busca essencialmente a paz e a solidão, as suas respostas são quase sempre lacónicas e descomprometidas) é contrabalançado por esse papel de agente indutor das peripécias alheias, dos desabafos cómicos, dos demasiados humanos tropismos que o amor, a inveja e a ambição engendram. Como se a autora se entretivesse a cotejar o seu desencanto com a sua paixão pela vida, que mais tarde viria a levar a melhor de forma decisiva. Enquanto não chegava a altura dos seus contos mais ambiciosos e conseguidos, que viriam a servir de alicerces da sua reputação como uma das grandes autoras da modernidade de língua inglesa, "In a German Pension" pode ser visto como uma etapa crucial na sua construção como pessoa e como escritora, amálgama de terapia, diário de bordo e fantasia, deambulações pelos bosques da ficção com uma componente de crónica sociológica à maneira de lastro; mas nunca (a meu ver) como obra menor. Raras vezes a língua inglesa terá sido levada a tais extremos na procura de um efeito cómico minimalista, no testemunhar da fricção entre a lucidez e a prolixa estupidez que o Mundo tem para esbanjar (o único exemplo que me ocorre é o do seu contemporâneo Hector Hugh Munro, "Saki"). Em esforços subsequentes, Mansfield abandonou este pendor, desistiu quase por completo da primeira pessoa, voltou a sua atenção para a complexa alquimia de estados de espírito, constrangimentos pessoais e relações humanas que sustenta contos como "Prelude" e "At the Bay". Independentemente da excelência do seu trabalho nos anos que decorreram até ao seu falecimento prematuro em 1923, "In a German Pension" permanecerá como um admirável momento de pausa, de distanciamento clínico e ponderado que é já prenúncio de reencontro com o elemento humano.


DUBYA GOES TO THE MOVIES: Vincent Gallo afirma continuar a gostar muito de Ronald Reagan, e defende que George W. Bush está a ser um óptimo presidente. Não resisto a duvidar de que a admiração seja recíproca. Vincent Gallo não ignora por certo que, por vontade de Bush e dos seus seguidores, filmes como "The Brown Bunny" nunca existiriam, ou pelo menos nunca seriam exibidos em nenhum dos estados da União, e todos aqueles que o tivessem perpetrado, do realizador até ao cão do adjunto do assessor de imprensa, seriam condenados a dez anos de trabalhos forçados, privados de passaporte, e recambiados para o mais remoto e mais vergonhoso dos círculos do inferno.
Vincent Gallo tem o direito, inquestionável e inalienável, de exprimir as suas opiniões. Mas não posso deixar de achar graça a alguém que alinha por algumas das posições mais extremas e rançosas da moral majority, e que depois realiza, escreve e interpreta filmes que são um concentrado de tudo aquilo que essa mesma moral majority combate com a mais zelosa energia: independência artística, liberdade de expressão, representação das variedades mais radicais do desespero e dos afectos humanos.
A expressão "morder a mão que dá de comer" aplica-se, neste caso, exactamente ao contrário: Vincent Gallo insiste em lambuzar a mão que não hesitaria em aniquilá-lo, não fosse o respeito pelas leis e conveniências.
Quais serão as preferências cinéfilas do grande "Dubya" Bush? Entramos aqui no domínio da pura especulação, mas atrevo-me, por aquilo que conheço da personalidade, a lobrigar uma forte afinidade estética e teórica com os pioneiros do cinema russo, em particular Pudovkin, Dziga Vertov, os tempos heróicos do "Kino pravda" e a primeira fase de Eisenstein e de Dovzhenko. Isto estaria plenamente de acordo com o agudo interesse que o 43º presidente tem, desde sempre, demonstrado por movimentos vanguardistas como o futurismo, o construtivismo e o suprematismo malevichiano, tanto numa perspectiva de exegeta como na sua qualidade de diletante. Rumores segundo os quais Bush limitaria os seus horizontes artísticos aos expressionistas abstractos (Pollock, De Kooning, Rothko, Arshile Gorky) carecem de fundamentação, e não podem ser senão obra de maledicentes da Velha Europa.


Sexta, 23 Abril, 2004

Marie Stuart e balão da McDonald's


«Paris est un véritable océan. Jetez-y la sonde, vous n'en connaîtrez jamais la profondeur. Parcourez-le, décrivez-le! quelque soin que vous mettiez à le parcourir, à le décrire, quelque nombreux et intéressés que soient les explorateurs de cette mer, il s'y rencontrera toujours un lieu vierge, un antre inconnu, des fleurs, des perles, des monstres, quelque chose de inouï, oublié par les plongeurs littéraires.»(Honoré de Balzac, "Le Père Goriot".)



NESTE DIA MUNDIAL DO LIVRO...: ...lanço um apelo aos leitores da região de Lisboa. Que se passa convosco? Cada vez avisto menos leitores em lugares públicos. Não os posso inventar. E não é por falta de atenção e de espreitadelas furtivas a transeuntes e vizinhos de assento de carruagem. No limite, traduções em português de Nicholas Sparks ou Pérez-Reverte podem ser dignas de menção, mas não merecem pontos de bónus. Vá lá, um piqueno esforço.


ACONTECE NA BARATA SALGUEIRO: Perder o filme "A Marquesa de O...", devido a deslocação ao exterior, foi algo deveras lamentável. (Felizmente, já conhecia o filme, graças a uma sessão de há vários anos atrás, na Sociedade Portuguesa de Autores, of all places.) Falhar "Ninguém Duas Vezes", de Jorge Silva Melo (Cinemateca, amanhã, sábado, às 22h00) assemelhar-se-ia a uma piada de mau gosto.


CINEMA: "O Bobo", de José Álvaro Morais (visto na Cinemateca). Houve filmes que ofereceram resposta categórica e copiosa a todos os ensejos de excelência cinematográfica que eu pudesse alimentar (caso de "Mulholland Drive", por exemplo), outros que se tornaram parte da minha vida com discreta mas soberba eficácia ("Conte d'Été"), outros que me obrigaram a visitá-los vezes a fio, numa compulsão que dispensava explicações ("Éloge de l'Amour"). Uma outra classe ainda é a daqueles filmes que nutrem a chama sagrada do realizador frustrado que está dentro de nós, e que aparecem como resposta à pergunta "Que filme gostaria eu de fazer, se me fossem dados os meios e a bagagem teórica?". "O Bobo" pertence a esta última categoria. Senti-o, antes de tudo, como um filme em quase completa sintonia de fase com aquilo que eu mais amo no cinema, com as minhas concepções e partidarismos; entenda-se todo o bem que eu tenha para dizer dele a esta luz (isto sem querer relativizar, mas apenas para dar a entender que estamos muito para além do simples deleite estético). A intriga de "O Bobo" envolve os ensaios e a representação de uma peça baseada no texto de Herculano, juntamente com uma complexa história de tráfico de armas na Lisboa pós-revolução, na qual estão implicados alguns dos participantes na peça. As cenas do teatro e da "vida real" partilham, de forma muito aproximadamente equitativa, o tempo do filme. Nenhuma destas vertentes é privilegiada, e talvez resida aqui a grande força do filme: não se insiste em "paralelismos", não se sente que exista um esforço para impor analogias ou ilacções. É óbvio que o destaque dado ao texto de Herculano não deixa de realçar uma inegável carga alegórica, e que as peripécias narradas/representadas não deixam de promover uma contaminação de situações entre o tempo da acção e a época da fundação da nacionalidade. Porém, a um sincronismo óbvio e forçado prefere-se um deslizar serenamente diacrónico, equânime, fértil em conflitos que nunca se convertem em fáceis clímaces susceptíveis de concentrar o poder dramático de cada cena. É com poderosa maestria que JAM gere o tempo e o pulsar das acções, mostrando mão seguríssima na maneira como promove uma continuidade entre trabalho, quotidiano e peripécias (mostrando uma afinidade de métodos e preocupações com o Godard de "Passion" ou com o Rivette de "La Bande des Quatre" e "L'Amour Fou"). O que desfila em "O Bobo" é a própria vida, modulada e contínua, manta de retalhos de emoções, cortes abruptos, repouso, baixeza, entradas em cena, paixão, lealdades e sofrimentos; a vida, que se cansa demasiado depressa da grandeza e da pompa, e que assenta espontaneamente nos aprazíveis estratos da mediocridade e da demasiado humana contemplação desassombrada (vejam-se as belas cenas finais, povoadas por uma lucidez esparsa que é a de quem passou uma noite em branco a recapitular sem nada compreender, porque não há nada a compreender, e que reencontra com surpresa a nitidez dos contrastes da Lisboa que se deixa amanhecer).
Há ainda outra coisa que eu queria transmitir, mas que não posso, pois trata-se de algo que nenhuma prosa é capaz de transmitir. Nada substitui o visionamento do filme, sobretudo quando se trata de fazer jus ao sentido de cinema do realizador, à diferença entre mostrar simplesmente e gerir o espaço e o tempo de uma cena de maneira fecunda e criativa. E esse sentido do cinema, JAM possuía-o já nesta sua primeira longa-metragem, em altíssimo grau. Cada cena é tratada com um misto de fluidez e rigor notável; a continuidade, estabelecida em diversas componentes (diálogos, raccords, deslocações dos actores, jogo entre planos), produz uma ideia de movimento que preside à totalidade do filme. Não existem pontos de suspensão, nem centros de gravidade susceptíveis de dominar uma cena, apenas uma cinética sustida quase sem interrupções, à imagem de um país que se via obrigado a avançar e encontrar o seu caminho, sem saber ainda por onde enveredar.
"O Bobo" é um grande filme da polifonia e do devir, tal como aliás "Peixe Lua". Na face oposta da obra de JAM, encontramos "Zéfiro" e "Quaresma": mais do que dois filmes lineares, dois filmes que jogam subtilmente com o próprio conceito de linearidade, com a possibilidade de um enredo, entendido como algo que resiste ou que quebra. Admiravelmente coerente e rica em diálogos internos é a obra de JAM, apesar de escassa em quantidade, por força das circunstâncias. Não restam dúvidas: a par de dois génios (falamos obviamente de Oliveira e Monteiro), o cinema português contemporâneo tem sido marcado por autores capazes de produzir obra original, poderosa, perfeitamente enquadrada nas principais turbulências que marcam e fertilizam a sétima arte a nível mundial (para além de Morais, lembro-me de Paulo Rocha, Pedro Costa e mais três ou quatro). Em termos relativos, o cinema português além-fronteiras tem um prestígio incomparavelmente superior a outras artes, como a literatura ou a pintura. E contudo, muitos dos nossos grandes realizadores continuam a ser tratados como parasitas, sobretudo por uma certa imprensa ignorante e mesquinha. Espero voltar a estender-me sobre estes temas, quando tiver tempo para comentar a nova lei do cinema que por aí se anuncia.


UMA EFEMÉRIDE PODE ESCONDER OUTRA: Não me resta outro remédio senão elaborar uma lista de aniversários dos meus blogs favoritos, para juntar à lista de aniversários de pessoas. Enquanto essa tarefa não é levada a bom termo, apresento as minhas desculpas, antecipadas ou retroactivas, àqueles cujo primeiro (ou mesmo segundo, para os veteranos) ano de existência me for esquecendo de assinalar. Sou um leitor de blogs medíocre, penisqueiro e pouco dado a aventuras. Por favor, não confundam o meu desleixo com falta de consideração.


Quinta, 22 Abril, 2004

«(...)It is hard to say what it is. I don't mean the sorrow that we all know, like illness and poverty and death. No, it is something different. It is there, deep down, deep down, part of one, like one's breathing. However hard I work and tire myself I have only to stop to know it is there, waiting. I often wonder if everybody feels the same. One can never know. But isn't it extraordinary that under his sweet, joyful little singing it was just this - sadness? - Ah, what is it? - that I heard.»(Katherine Mansfield, "The Canary")



Quarta, 21 Abril, 2004

POESIA URBANA: Paris, Boulevard Saint-Michel. Num painel de sinalização onde estava escrito "BUS À CONTRE-SENS", alguém acrescentou um "H" num sítio estratégico, de maneira a ler-se "BUSH À CONTRE-SENS". (Tentei fotografar a obra, mas não conseguia aproximar-me o suficiente sem correr o risco de ser reduzido a uma papa informe por um autocarro 21.)
Por norma, sou resolutamente contra vandalizações e degradações de sinais de trânsito e mobiliário urbano; neste caso, porém, a condescendência transforma-se em imperativo cívico.


A NÃO PERDER: A Exponáutica, primeira feira náutica do Alentejo, vai decorrer entre os dias 13 e 16 de Maio, no Parque de Feiras e Exposições de Reguengos de Monsaraz.
Todos aqueles que se interessam por temáticas como a vela, a canoagem ou o windsurf poderão, pois, ter interesse em deslocar-se a esta localidade nas datas indicadas, e desfrutar de tudo o que esta feira terá para oferecer.


SALERO (2): Mas nem tudo são espinhos, existem também rosas de caule firme, dotadas das respectivas pétalas sedosas, sem esquecer as gotículas de orvalho! Vai ser revogada a lei que, em Espanha, conferia carácter obrigatório ao ensino da religião, e que a equiparava às demais disciplinas. Uma pitada de bom senso desce sobre a península ibérica, impregnando o ar de um perfume agradável e bem-vindo.


SALERO (1): Os ministros do novo governo espanhol prestando juramento, aquando da tomada de posse, perante uma mesa onde se encontra um crucifixo não é propriamente visão susceptível de levantar o moral por estas bandas verde-alface.


DUAS FRASES DO FILME "CONTE DE PRINTEMPS", DE ROHMER, O GRANDE ROHMER:A primeira é dita por Hugues Quester, a segunda por Anne Teyssèdre.

«Quand je dis oui, c'est oui.»

«Et je crois les gens qui disent oui.»




PÚRPURA O MAPA: Disseram-lhe que ninguém se opunha a que apagasse a Índia do mapa, mas que, em troca, deveria inserir pequenas frinchas de cor púrpura que fizessem as vezes de lembrete e de larguíssima ferida, de vez em quando. Ela aceitou. Imune perante os vaivéns do tempo, sorri para os látegos que se passeiam pela avenida principal. Mostra o peito e as pupilas com um desplante que é a sua maneira de contar o novelo de ternura e alívio a que dá abrigo. Aqui estou eu, a suspirante que se emudeceu a si mesma. Aqui estou eu, a de conduta imaculada, que observa uma paixão como quem observa um espécime vegetal. Aqui estou eu, aquela que cuida a sua sintaxe e modera os superlativos. O século tem algo de tectónico e de agreste, mas, dentro de portas, o ar, deliciosamente viciado, não se move nem pede satisfações.


Segunda, 19 Abril, 2004

O ENCONTRO INESPERADO DO DIVERSO: João Lopes escreveu, recentemente, no "DN" (15/4), as seguintes palavras: «O mercado cinematográfico português tem evoluído positivamente no sentido de favorecer uma crescente diversidade (geográfica e cultural) dos filmes que nele circulam.» João Lopes escreve (muito) bem sobre cinema e sobre o papel das imagens na sociedade contemporânea, mas, por vezes, ao ler o que ele opina sobre os mercados de produção e distribuição, e sobre as vertentes sócio-económicas da coisa cinematográfica, não posso evitar de me perguntar se vivemos no mesmo sector da Via Láctea. Como se pode falar de "crescente diversidade" na ressaca do fim dos ciclos da Zero em Comportamento, que tinham vindo a afirmar-se como uma das mais fecundas fontes de bem-vindas heterogeneidades no panorama cinéfilo lisboeta? Como se pode vislumbrar uma diversificação de propostas num mercado (e falo apenas da capital, que é o caso que conheço melhor, não acredito que a situação seja mais brilhante noutras paragens) onde apenas duas cinematografias se encontram regularmente acessíveis, de maneira significativa, a saber a norte-americana e a francesa (e esta essencialmente por via das salas de Paulo Branco)? Que é feito das cinematografias italiana, alemã, espanhola, brasileira, chinesa, japonesa, coreana, russa, africana, canadiana? Praticamente invisíveis, à excepção de um ou outro peso-pesado, cujo prestígio garante a apresentação regular de todas as suas obras (Almodóvar, Kitano, Moretti...). Que tipo de acesso tem o espectador médio ao cinema independente que se faz por esse mundo fora? (Falo do cinema verdadeiramente independente, e não do produto médio saído do festival de Sundance.) Quase nulo. A meu ver, o panorama, de tão monocórdico e estagnado, não legitima nem o emprego do adjectivo ("crescente") nem o do próprio substantivo ("diversidade"). Vai-nos valendo a Cinemateca, que tem o grande mérito de introduzir a dimensão da profundidade cronológica nos seus programas de exibição, indispensável antídoto contra a ditadura da novidade que sustenta o circuito comercial de salas.
Em qualquer livraria de bairro, corremos sérios riscos de deparar com obras de autores chilenos, sul-africanos, japoneses, moçambicanos, irlandeses. Comparada com a somítica homogeneidade do mercado cinematográfico, esta acessibilidade das literaturas mundiais aparece como um autêntico corno da abundância. A quem argumente que o cinema, arte dispendiosa, está necessariamente condicionado pela pequenez do nosso mercado e pelos imperativos do lucro, eu acenarei em concordância, para logo retorquir que tais considerações não justificam que se ignore e escamoteie o inegável: o cinema que nos chega não é mais do que uma ínfima parcela do cinema que se cria no planeta. Aprendamos a viver com isso, mas nunca deixemos de o ter presente.
(Aproveito para acrescentar que as críticas de João Lopes ganhariam em ser mais circunspectas, mais parcimoniosas quando chega o momento de elogiar. Termos como "assombroso" surgem com exasperante abundância. Há poucas coisas verdadeiramente "assombrosas" no cinema. O olhar de Louise Brooks em "Lulu", por exemplo, é assombroso. A cura do rapaz gago em "O Espelho" é assombrosa. A cena derradeira de "Raging Bull" é assombrosa. Não se contam às centenas, os momentos de cinema capazes de inspirar temor e tremor e de suscitar violento prazer estético num único sufocante abraço.)


EN DOUBLANT LES FEUX DE SAINT-MALO: Um filme é também (é sobretudo) a história da sua descoberta, de uma assimilação lenta e minuciosa, ou capitosa e às golfadas. Tratando-se de uma obsessão, instala-se um dever de lucidez que se substitui à (irremediavelmente perdida) ilusão de poder explicar ou transmitir. Um filme pode ser também a sua transformação em carne e tempo, banco de jardim, memória de acorde, vento salgado fora de estação. O tributo é uma redundância. O filme engendra centenas de vidas nervosas que abandonam os seus nichos com uma relutância de pé descalço no soalho frio da manhã, receiam o esplendor amargo de mais uma manhã da vida, trauteiam uma canção de marinheiro.
Quem tiver olhos, que veja. Pode também servir-se das mãos. Não existe segredo.
O acaso faz bem as coisas.
"Conto de Verão", de Rohmer. Amanhã, terça, às 19h00, na Cinemateca. Repete na quarta (19h30).



GASPARD: Je joue aussi un personnage que je me suis fabriqué pour elle, pour faire face à son ironie. Elle m'y oblige. Elle me voit d'une certaine manière et, que j'accepte ou refuse, je dois sortir de moi.
MARGOT: Avec moi, non plus, tu n'es jamais le même. Je ne cesse de changer d'avis sur toi. Au début je t'avais pris pour un amoureux transi, puis pour un dragueur maladroit, puis pour plus malin que tu ne le paraissais, puis pour coquin plutôt, puis pour, pas si coquin que ça, brave au fond, mais malin quand même.
GASPARD: Il y a de ça! Alors avec moi tu ne te sens pas à l'aise?
MARGOT: Si, tout à fait bien.




A PERGUNTA (RELOADED): O Elvis Costello deveria fazer um "piercing" no umbigo?


Domingo, 18 Abril, 2004

DOS LIMITES: Tenho-me abstido de emitir comentários sobre a situação no Iraque. Na altura da invasão, limitei-me a exprimir o meu cepticismo quanto à eficácia da solução militar, e, de então para cá, julgo que o desenrolar dos acontecimentos tem, com rara eloquência, falado por si. De um lado e do outro da barricada, os comentadores não têm perdido as ocasiões que se lhes oferecem para brandir argumentos susceptíveis de trazer sustento às suas posições respectivas - e fazem-no com convicção, a-propósito, e o maior ou menor talento que a Mãe Natureza lhes concedeu. No meio destas garridas pugnas, porém, coisas há que me parecem atentatórias de um mínimo denominador comum de dignidade que nunca deveria ser perdido de vista. Se é normal que os opositores da invasão apontem a perigosa degradação da situação no terreno como evidência de que as suas posições eram justas, menos normal será que tais constatações sejam tomadas como um sinal de regozijo. Entendamo-nos: quando X insinua que Y deseja ou se alegra com perdas de vidas humanas, apenas porque essas perdas de vidas humanas demonstram que ele (Y) tinha razão e defendia uma causa justa, o bom do X está a proferir uma acusação gravíssima, daquelas que exigem provas robustas. Todo aquele que rejubilasse com mortes que lhe dessem razão seria ignóbil entre os ignóbeis. Existe um limite que separa a crítica e o ataque verbal (por virulentos que sejam) do puro vilipêndio, da alegação de um défice de humanidade naquele que se critica. E já vi este limite ser transposto, em letra de imprensa, por mais do que uma vez, nos últimos tempos deste ano da graça.




E FEZ-SE LUZ: Como sabe bem, de vez em quando, redescobrir algumas das razões que me fazem amar Paris e a França:
  • O gosto e o respeito pelos saberes, pela arte e pela cultura, patentes em tantos e tantos pormenores, demasiados para uma enumeração improvisada: a toponímia, a estonteante proliferação de eventos, exposições e conferências, o dinamismo da rede de museus, os painéis de popularização das ciências no metropolitano, as colecções de bolso dedicadas ao ensaio científico e artístico, a fabulosa rede de bibliotecas públicas de empréstimo gratuito...
  • A robustez e riqueza da vida associativa, factor de importância maior na coesão do tecido social de uma metrópole de 10 milhões de habitantes, forçosamente ameaçada pelo risco de implosão individualista e comunitária.
  • Uma saudável, e (quase diria) provinciana desconfiança perante inovações vindas do exterior, que só raramente degenera em reaccionarismo bota-de-elástico, e que eu considero largamente preferível ao seguidismo acéfalo, à deprimente volubilidade com que, noutros lugares, se adoptam e assimilam as tendências que a globalização sugere ou impõe.
  • A polidez quotidiana nos contactos com cidadãos e comerciantes. Descobre-se, com um frémito de surpresa, qual brusco rasgar de horizontes, que dizer "bom dia", "se faz favor" e "obrigado" custa muito pouco. Interrogo-me frequentemente acerca da origem desse mito obstinado que atribui aos parisienses todos os defeitos concebíveis do foro da arrogância e da grosseria. A minha teoria é a seguinte: este mito foi criado por turistas americanos que entravam nas lojas chiques dos Campos Elíseos sem a mínima intenção de fazer despesa, e, como é óbvio, sem arranhar uma única palavra da língua de Molière (o contrário seria um sinal de fraqueza). Em 90% dos estabelecimentos comerciais de Paris, sou mais bem tratado do que alguma vez ousaria sonhar sê-lo em Lisboa. E este é um facto científico.
  • Uma rede de transportes públicos eficiente, vasta, bem sinalizada, e com preços moderados.
  • Uma paixão, bem visível, pelo requinte e pelas coisas boas da vida, que transparece ao nível da gastronomia, dos jardins, da arte no quotidiano, e de uma cultura do ócio e da ocupação dos tempos livres, não totalmente imune à frivolidade, mas que lhe é largamente alheia.
  • O momento em que as luzes se apagam, numa sala de cinema do Quartier Latin ou de Beaubourg.



THE WORLD WON'T LISTEN: Por que será que os taxistas de Faro usam cinto de segurança, ao passo que os taxistas de Lisboa nunca usam cinto de segurança? Seria por estarmos fora do perímetro urbano? Serão as leis no Algarve diferentes das leis no resto do país? Serão aplicadas com outro zelo? Acatadas com diferente grau de resignação ou civismo? E o que estaria dentro da caixa que Catherine Deneuve mostra ao cliente oriental, no filme "Belle de Jour"? Perguntas, perguntas, um nunca-acabar de perguntas. Tenho saudades dos tempos em que a ignorância dos infinitos estratos de complexidade do mundo fazia as vezes de certezas absolutas. Eram tempos em que o Benfica ainda jogava só com portugueses, o João Cordovil aparecia no telejornal para explicar as peripécias das partidas de xadrez entre Karpov e Korchnoi, o outono seguia-se ao verão com benevolente placidez, e o inverno ao outono, e assim por diante, e eu ainda julgava que George Eliot era um homem e Evelyn Waugh uma mulher.


«(...)It's not just due to performance art, but to Grotowski's idea that it was no longer necessary for the actor to realize the author's intention when he wrote the part. Once that became clear, then a piece becomes the story of the lives of the performers. So the context is changing and within that changing context, you see the life of the performer. We're not really working with any material except ourselves.»(Ruth Maleczech).



Quarta, 14 Abril, 2004

POSTERIDADE: Obrigado à Ana por nos ter revelado onde se encontra agora a crónica de João César das Neves que, na altura, justamente celebrámos. A prosa nevesiana não merece outra coisa senão a posteridade, para efeitos de exegese futura e de iluminação das gerações vindouras. A "Glória feminina" mereceria fazer parte da próxima sonda espacial, à laia de mensagem para eventuais extraterrestres curiosos, traduzida para todas as línguas vivas, sem esquecer o esperanto e o código morse.


VOXPOP:

- Falaste-me de uma cidade concebida e desenhada (e com que engenho!) com um só fim, que era o de acolher a simulação de um episódio da guerra de Tróia, secundário mas escabroso. As ruas tinham a largura certa, as árvores floriam na altura certa, até as manchetes dos jornais conspiravam para se adequar à gloriosa loucura de Aquiles.
- Alguma vez sentiste os gumes das cornijas? Os afiados gumes das húmidas cornijas.
- Essa cidade tinha um lugar chamado Terreiro do Paço, e um lugar chamado Laranjeiras, e um lugar chamado Penha de França, e o seu número de freguesias era igual ao de Lisboa, e sofrera um sismo devastador em 1 de Novembro de 1755, mas não era Lisboa.
- A repetição de gestos bélicos não era a sua única razão de ser. Nalguns cafés, as cadeiras são daquelas em que nada resta senão dizer um bem infinito do filme "O Bobo" de José Álvaro Morais.
- Essa cidade tinha vendedores de gelados que vendiam gelados com gostos raros, como gelado de nevoeiro, gelado de disse que disse, gelado de gergelim.
- Os fins que justificam os meios. O vento bravio que acompanha os fins que justificam os meios.
- Certas praças trapezoidais ofendem paixões antigas, as escaditas do coreto são indutoras de angústia.
- As estátuas mais não são do que símbolos. Sorridentes e erodidos.
- Uma confiança excessiva nos génios do lugar? Falta de fé no livre arbítrio?
- Afinal, aquilo que conta são as pessoas, certo?
- No seu humilde esplendor através de janelas embaciadas.
- Vi-te num lento baldio, ao lado do campo de batalha. Lembravas-me algo, e dizias algo com os teus lábios distantes.
- Era uma deixa. Uma deixa sobre o que há de vergonhoso na memória.



Segunda, 12 Abril, 2004

A PERGUNTA: Será boa ideia ir assistir ao concerto de Elvis Costello? Espelho meu, espelho meu...


I HAVE A DREAM: Eu tenho um sonho, e esse sonho é o seguinte. Numa sala de espera de médico da caixa, a televisão passa o filme "Persona" de Bergman, do princípio ao fim, incluindo o prólogo que muitos têm dificuldade em tolerar. As pessoas que estão à espera de ser chamadas para a consulta assistem ao filme sem um único comentário. Em seguida, vão para suas casas e mudam as suas vidas.


Samuel Beckett

«Il faut passer sa vie à la recherche entêtée de ce qui ne déshonore pas la poésie.» (Paul Éluard)




PIQUENOS PRAZERES: Pagar um café com uma moeda de 1 euro do rei João Carlos, e receber em troco uma moeda de 50 cêntimos com a efígie de Cervantes é algo deveras agradável.
Literatura sim, monarquia não!


ENSAIO SOBRE A AGUDEZ: Damos por concluído o plebiscito que organizámos para saber se a América devia ou não fazer um "piercing" no umbigo. Resultado final: 37 votos "sim", 19 "nãos". Recebemos ainda uma mensagem do Sr. João César das Neves, alegando não saber o que é um "piercing".
Não podemos deixar de constatar que o número total de votantes foi inferior a 50% da população nacional, o que esvazia este referendo de qualquer valor vinculativo.


FECHA PARÊNTESIS: Karos koncidadãos, é um prazer estar de volta. A ausência durou o tempo que foi necessário para saldar contas antigas com a cidade que acolheu os últimos momentos de Celan, Mário de Sá-Carneiro e Jim Morrison. A causa foi nobre, a causa foi justa, a pugna foi leal.


So daily I renew my idle duty
...

Leonard Cohen, "The Traitor"




Domingo, 4 Abril, 2004

...
Preserve my room, but do not shed a tear
Should rumors of a shabby ending reach you,
It was half my fault, and half the atmosphere


Leonard Cohen, "The Traitor"