Heinrich von Kleist (1777-1811)Liberté Egalité FraternitéNo tabuleiro de xadrez, as mentiras e a hipocrisia não duram muito (Em. Lasker)Monty Python forever!

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agosto 2003

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Domingo, 31 Agosto, 2003

ACEITAMOS PEDIDOS: A América enviou uma mensagem, para perguntar quando é que me resolverei, por fim, a escrever sobre Gerard Manley Hopkins. Passo a citar: «Alexandre, quando é que te resolverás, por fim, a escrever sobre Gerard Manley Hopkins?».
Em breve, América. Em breve. A precipitação é inimiga do rigor, e de muitas coisas mais.


DESTA VEZ QUEM ERROU NÃO FOMOS NÓS: Luís Lopes é um muito bom comentador de atletismo. Talvez por isso, as suas argoladas destacam-se de maneira mais notória de um fundo de competência e rigor rotineiro. No fim da jornada de ontem, L. Lopes anunciou que a estafeta feminina de 4x100 metros dos E.U.A. tinha ganho a medalha de ouro, quando se via perfeitamente que tinha sido a equipa francesa, com um fantástico percurso final de Christine Arron, a triunfar de forma brilhante. Confundir uma atleta com outra, sobretudo numa prova tão rápida, acontece a qualquer um. O pior foi que o erro ocorreu mesmo no fim da emissão, e que não escutei uma única rectificação na emissão de hoje. Se errar é humano, mais humano ainda é admiti-lo. (Palpita-me que isto em latim soaria melhor.)
Pronto. O post era só isto. Não há mais nada.


MAIS NOSTALGIA: Só mais ou menos a meio da entrevista com o maratonista português Alberto Chaíça (que, a propósito, merece vigorosas felicitações pelo seu brilhante 4º lugar), na RTP, me apercebi de que, em fundo, o edifício que se avistava era o edifício central da cidade universitária internacional de Paris. Entrando e inflectindo para a direita, chegava-se à cantina, que para mim estará para sempre associada a massas com queijo que desafiavam o mais potente suco digestivo, ao frango assado (segura solução de recurso quando tudo o resto falhava), ao "filet de colin" com arroz e à suculenta "spécialité du jour", que se esgotava num ápice.
Alberto Chaíça tem o curioso e muito português hábito (pelo menos entre os desportistas) de falar de si próprio na terceira pessoa. O "Chaíça" assume assim contornos de uma personagem, marcadamente autobiográfica, mas não necessariamente coincidente com o seu criador. Nem de outro modo procedeu Proust para criar o narrador da "Recherche".


VISITA PANORÂMICA: O autor destas linhas descobriu-se hoje uma inesperada costela masoquista: apesar de tudo mo desaconselhar, acompanhei em directo a segunda metade da maratona feminina dos campeonatos do mundo, com uma planta de Paris, seguindo o trajecto das atletas. Trocadéro, Pont d'Iéna, Torre Eiffel, Quai Branly, Invalides, Boulevard Saint-Germain, Odéon, Pont de Sully, Bastilha, Boulevard Beaumarchais, Place de la République, Canal Saint-Martin... (A partir daqui, perdi-lhes o rasto.) Não corri os 42 quilómetros e picos, mas o peso das recordações não esteve longe de induzir uma forte taquicardia.


O CHEFE RECOMENDA: Meus caros, um dos mais formidáveis e originais blogs dos últimos tempos encontra-se neste endereço. Ver para crer. Vai directamente para os Favoritos. (Obrigado à Ana Alves pela sugestão.)


Sábado, 30 Agosto, 2003

A PANÓPLIA DO FETICHISTA CINÉFILO, 11 A 20 (DE 100):

11 - Relógio sem ponteiros ("Morangos Silvestres", Ingmar Bergman)
12 - Armadura medieval ("As Asas do Desejo", Wim Wenders)
13 - Exemplar do livrinho vermelho do camarada Mao ("La Chinoise", Jean-Luc Godard)
14 - Vela acesa ("Nostalgia", Andrei Tarkovsky)
15 - Marca de mão ensanguentada numa peça de roupa (ou na pele das costas, junto ao ombro) ("Céline et Julie Vont en Bateau", Jacques Rivette)
16 - Par de brincos ("Madame de...", Max Ophuls)
17 - Clarinete ("Recordações da Casa Amarela", João César Monteiro)
18 - Chapéu igual ao do Gabriel Byrne ("Miller's Crossing", Joel Coen)
19 - Lata de ananás com data de validade de 1 de Maio ("Chungking Express", Wong Kar-Wai)
20 - Camisa de forças ("One Flew Over the Cuckoo's Nest", Milos Forman)




ONLY IN AMERICA: Se já é difícil de engolir a possibilidade de que Arnold Schwarzenegger, esse subtil e visionário estadista, chegue a governador da Califórnia, mais nauseante se torna constatar que os principais argumentos apresentados contra ele, à boa maneira americana, parecem todos implicar histórias antigas, pecadilhos do passado que pouco ou nada têm que ver com aquilo que verdadeiramente interessa: a sua capacidade para encabeçar um estado cuja pujança demográfica e económica fariam dele uma potência no concerto das nações mundiais. Primeiro foi o putativo passado nazi do seu pai (como se a complacência pelo totalitarismo se transmitisse de geração em geração, como a cor dos olhos), agora veio a lume a inevitável entrevista escabrosa, pejada de profanidades e fanfarronices, temperada com testosterona q.b., datada dos seus tempos de Mr. Músculo recém-chegado à terra da oportunidade.
Para quê rebuscar no sótão do passado? Está tudo à vista. Se o "Exterminador" ganhar, será devido à sua popularidade como actor, e à sua projecção mediática, e não graças ao seu talento para o cargo, ou à capacidade de apresentar propostas mais válidas do que as dos adversários. E isso é mau para a democracia.


LUGARES DE PARIS: Campeonatos do mundo de atletismo em Paris... Provas a decorrer no Stade de France, próximo do qual eu passava quando seguia da cidade para o aeroporto de Roissy, ou vice-versa... Atletas alojados na Cité Universitaire Internationale, da qual guardo recordações indeléveis...
Terá algum maciço lançador de peso bielorrusso ocupado o quarto que foi o meu, na Residência André de Gouveia? Ou uma minúscula fundista etíope? Terá talvez sido um esguio saltador em altura checo quem se sentou àquela secretária, quem afixou no vasto quadro de cortiça fotografias da noiva ou da família? Especular não custa!
Quantos deles, entre as eliminatórias, as entrevistas, o sono reparador, as refeições, os controlos anti-doping, terão desfrutado da ocasião para apreciar a funcional majestade da residência suíça (desenhada por Le Corbusier em pessoa), o charme da Fondation Danoise (que evocava uma casa de bonecas ou um conto de Andersen, de preferência ambos), a delicadeza zen da residência japonesa, a solidez clássica da casa de Espanha, o discreto esplendor modernista da casa da Alemanha?
«Tread softly, because you tread on my dreams.» (Yeats, mas citado de memória.)


NOTÍCIAS DAS 64 CASAS: As felicitações mais calorosas estão na ordem do dia para o jovem mestre internacional DIOGO FERNANDO, que, com apenas 22 anos, acaba de se sagrar campeão nacional absoluto de xadrez. O triunfo de Fernando, embora só assegurado na última ronda, foi meritório e rico em panache, uma vez que conseguiu bater quatro dos cinco ex-campeões que também participavam.
Será este um prenúncio de uma muito bem-vinda renovação do xadrez luso? Esperamos sinceramente que seja o caso.
Na segunda posição ficou Sérgio Rocha; no terceiro lugar, ex-aequo, Rui Dâmaso e Luís Galego. Mais informações no muito bom site português Infoxadrez.


Quinta, 28 Agosto, 2003

A PANÓPLIA DO FETICHISTA CINÉFILO, 1 A 10 (DE 100): Inicia-se hoje a publicação de algumas sugestões de objectos sem os quais nenhum fetichista cinéfilo que se respeite deve passar.

1 - Garrafa de cerveja Heineken ("Blue Velvet", David Lynch)
2 - Lâmina de barbear ("Un Chien Andalou", Luis Buñuel)
3 - Touca de pólo aquático ("Palombella Rossa", Nanni Moretti)
4 - Bilhete de barco Saint-Malo - Dinard, de ida e volta ("Conte d'Été", Éric Rohmer)
5 - Fato de gorila ("Blonde Venus", Josef von Sternberg)
6 - Trenó de criança ("Citizen Kane", Orson Welles)
7 - Exemplar do "International Herald Tribune" datado de 1959 ("À Bout de Souffle", Jean-Luc Godard)
8 - Romã meio esventrada ("A Cor da Romã", Sergei Paradzhanov)
9 - Hélice de avião ("Blow-up", Michelangelo Antonioni)
10 - Lápis com borracha na extremidade ("Eraserhead", David Lynch)




COISAS MAGNÍFICAS E ESPANTOSAS PARA FAZER EM LISBOA: Fundar um jornal clandestino, servir-se de uma loja de peças para automóvel na Avenida Ressano Garcia como fachada legal.


SINGELA HOMENAGEM: ...a uma das maiores canções e a um dos mais belos álbuns dos últimos anos (e não só devido ao título com alusão xadrezística).

Fiiiiooooooooooona!


TO YOUR LOVE

Here's another speech you wish I'd swallow
Another cue for you to fold your ears
Another train of thought too hard to follow
Chugging along to the song that belongs to the shifting of gears
Please forgive me for my distance
The pain is evident in my existence
Please forgive for my distance
The shame is manifest in my resistance
To your love, to your love, to your love
I would've warned you, but really, what's the point?
Caution could but rarely ever helps
Don't be down when my demeanor tends to disappoint
It's hard enough even trying to be civil to myself
Please forgive me for my distance
The pain is evident in my existence
Please forgive for my distance
The shame is manifest in my resistance
To your love, to your love, to your love
My derring-do allows me to dance the rigadoon
Around you
But by the time I'm close to you, I lose
My desideratum and now you, so
Now you have it, so baby tell me what's the word?
Am I your gal, or should I get out of town?
I just need to be reassured
Do you just deal it out, or can you deal with
What I lay down?
Please forgive me, for my distance
The pain is evident in my existence
Please forgive me for my distance
The shame is manifest in my resistance
To your love, to your love, to your love


Fiona Apple
(álbum "When the Pawn")
(© FHW Music, 1999)




Terça, 26 Agosto, 2003

J'ACCUSE!: Lido no "DN" (23/8): "KUMBA IALÁ ACUSA SOARES DE FAZER FEITIÇARIAS". A imagem do ex-presidente transportando na sua mala, em viagem para Bruxelas, a panóplia do bom feiticeiro (incluindo efígie do inimigo e agulhas) provocaria, estou em crer, espasmos de hilaridade ao mais macambúzio. Mas o que é certo é que ainda não ouvi nenhum desmentido! Deveremos acreditar ser verdade que Soares se entrega a práticas de magia negra, no recato do seu lar ou em recintos pensados para o efeito?


LUGARES DE PARIS: A Rue de la Tombe Issoire prolonga para sul a Rue du Faubourg Saint Jacques, esgueira-se por debaixo da linha de comboio (RER linha B), cruza a opulenta Avenue René Coty e a sempre animada Rue d'Alésia, ladeia os reservatórios de água de Montsouris, e insiste até à extremidade ocidental da Cidade Universitária, muito embora, a dada altura, mude de nome, para desgosto e indignação de tantos. Nem bonita nem feia, mais longa do que curta, atravessa o coração do 14ème arrondissement sem nunca dar nas vistas, sem nunca se tornar memorável. As especulações etimológicas sobre a origem do seu nome permitiram-se algumas derivas românticas, ligadas a tesouros subterrâneos ou a um gigante chamado Isoret; mas as hipóteses mais plausíveis apontam para variantes arcaicas do verbo "tomber", das quais resultaria o termo "tombisoire", significando um modesto ressalto de terreno, susceptível de "fazer cair".
Nesta rua viveu uma alemã que abandonara a Alemanha, e que abandonou Paris quando Paris começou a assemelhar-se a uma pátria. Veio instalar-se em Lisboa, não longe do Estádio 1º de Maio, e aprendeu rapidamente a dominar a nossa língua, se bem que ainda lhe escapem distinções subtis, como por exemplo a diferença entre "sinecura" e "prebenda". O seu porte não é o de uma guerreira amazona, mas existe algo na sua maneira de se mover e de falar que evoca o cepticismo de um exército desgastado pelos rigores da campanha.


CITIUS ALTIUS FORTIUS: Durante o ano inteiro, quase só se fala de futebol, na rádio, na TV e nos jornais: futebol glosado e explorado até à náusea, espremido, repisado, empolado, omnipresente, invasivo, futebol ao pequeno-almoço, ao almoço, ao lanche, ao jantar e à ceia. Quando chegam os Mundiais de Atletismo ou os Jogos Olímpicos, o país lembra-se dos seus corredores e saltadores, e pedem-se medalhas. Esta atitude é tão portuguesa que pedia um fadinho do Marceneiro em fundo, um pratinho com sardinhas assadas sobre a mesa, e o jarro de vinho tinto a acompanhar.


EU TENHO UM SONHO: Eu tenho um sonho, e o sonho que eu tenho é o seguinte. Dentro de 10 anos, fumar no interior de um restaurante ou bar parecer-nos-á tão incongruente como, hoje em dia, fumar numa sala de cinema ou num supermercado. E não apenas do lado de lá do Atlântico.


Sábado, 23 Agosto, 2003

AVISO À NAVEGAÇÃO: OBRA-PRIMA A BOMBORDO!: Da sessão de ante-estreias no King da passada quinta-feira concluí que o já previsível apelo para que não percam, de modo nenhum, o filme "Silvestre" (João César Monteiro), quando estrear, merecia ser emitido desde já, e com sonora e veemente ênfase. Se mais razões não existissem (mas elas são legião...), a excelência da cópia, que valoriza de forma admirável os portentosos trabalhos de fotografia (Acácio de Almeida) e som (Vasco Pimentel), seriam, só por si, pretextos para recomendação. Talvez não se repitam muitas vezes, nos anos mais próximos, as ocasiões de ver "Silvestre", em sala, em todo o seu esplendor.
Sobre o filme propriamente dito, parece-me que fará mais sentido falar nele aquando da saída nas salas. E podem crer que muito haverá a dizer.


IDEIA PARA UM CONTO: Muito antes de ser disputada pelas maiores multinacionais de perfumes, pela invulgar (alguns preferiam dizer "sobrenatural") acuidade e sensibilidade do seu olfacto, Rachel Clint era uma adolescente de 15 anos que se aborrecia, praguejava, jogava basebol na Little League, admirava De Kooning mas desprezava Pollock, Rothko, Arshile Gorky, e outros expoentes do expressionismo abstracto. Num belo dia, Rachel fez anos, e passou a ter 16 anos. Os seus pais, se bem que não muito sensíveis a essas coisas, constataram que Rachel estiolava na sua Cleveland (Ohio) natal, e decidiram oferecer-lhe umas longas férias na Europa. Escolheram como destino o crescente que abraça a Catalunha, a Provença e a costa italiana entre San Remo e Génova, pela cultura e pelo clima. Rachel deixou-se surpreender pela luz solar, especialmente quando reflectida pelo mar. Rachel ansiava secretamente por uma aventura, mas o seu cepticismo perante as coisas do mundo e sua relevância era tão arreigada que as oportunidades que surgiam eram afogadas à nascença, como quem destrói pontes antes de atravessar para a margem oposta. Numa tarde de tempo quente e pastoso, em Aix-en-Provence, Rachel seguia pela berma de uma estrada, com a vaga intenção de pedir boleia até Marselha, quando deparou, por acaso, com um concurso de reconhecimento de vinhos, aberto a todos. Sem pensar duas vezes, inscreveu-se. Sorrisos condescendentes acolheram a sua presença. Rachel não era a única rapariga, nem era a única estrangeira, mas era a única rapariga estrangeira. Rachel ganhou o primeiro prémio, com facilidade. Uma das pessoas com quem travou conhecimento era um rapaz moreno e sorridente, que lhe propôs uma visita ao seu quarto, onde tinha instalado um equipamento de rádio semiprofissional. Rachel aceitou. No quarto do rapaz, apanharam Berlim, Atenas e Varsóvia. Fez-se tarde. A angústia turvou o ânimo de Rachel. Rachel falou do seu clube de basebol favorito, os Cleveland Indians, que atravessava uma época cheia de fracassos contundentes. Rachel recusou a proposta para irem ver o pôr-do-sol no dia seguinte a Bandol. Rachel pensava muitas vezes que, no lugar de Ariadne, abandonada por Teseu em Naxos, não evitaria um repente de despeito que talvez soubesse fazer passar por bravata.
A etapa seguinte levou a família até Grasse, através de estradas de onde se desfrutava um panorama subtil e majestoso. Rachel aspirava o ar com sofreguidão, enquanto os seus lábios se moviam, murmurando um inventário silencioso de flores, ervas e simples.



COMEDIMENTO E BOM SENSO: Certas controvérsias e discussões que por aí lavram parecem apostadas em convencer-me de que vivemos num mundo em que a sensatez, o sentido das proporções e o cepticismo são das virtudes mais deficientemente repartidas.
Eu teria preferido não intervir na polémica relativa aos efeitos da vaga de calor, por flagrante desconhecimento de causa, mas tamanhos e tão graúdos são alguns dos disparates que pelas bermas deste funesto mês de Agosto têm florescido que, francamente, denunciá-los deixa de ser tarefa para especialistas e se transforma em dever de cidadania.
De onde surgiu o número de que se fala, as tais 1316 mortes alegadamente devidas à canícula? Tratou-se ("Público", 22/8) de um estudo do Observatório Nacional de Saúde, que consistiu numa comparação do número de mortes entre o período de 30/7 a 12/8 e um período de 14 dias do mês de Julho, e cujas conclusões apontam para um excesso de falecimentos no primeiro destes intervalos de tempo relativamente ao segundo (os tais 1316). Daí a atribuir este excedente de mortes ao calor vai mais do que um passo, vai um gigantesco pulo digno do Grande Canyon, quanto mais não seja porque, ao que parece, as causas dos óbitos não foram sequer levadas em conta. E, no entanto, essa é uma extrapolação que muitos não hesitam em fazer, com arrepiante ligeireza, a começar pelo editorial da mesma edição do "Público", cuja primeira frase reza assim: «A vaga de calor do início deste mês provocou 1316 mortes e aumentou a mortalidade em 37,7 por cento relativamente a igual período do ano passado.». Tão levianas declarações conseguem a proeza de conjugar, em simultâneo, mau jornalismo, má ciência, e uma irresponsabilidade de graúdo calibre.
Admitindo, contudo, que o número de vítimas mortais provocadas pelas elevadas temperaturas ascendeu a valores dessa ordem, é extremamente abusivo falar do fenómeno, de maneira mais ou menos implícita, como de uma hecatombe que ceifou a vida a um ou dois milhares de pessoas que, sem essa desgraça, teriam vivido ainda longos e saudáveis anos: parece ser consensual que a maioria daqueles cujo estado de saúde se ressente com o calor são pessoas fragilizadas, nomeadamente idosos ou doentes, particularmente vulneráveis a condições climatéricas extremas. As condições de calor e/ou humidade mais não fazem muitas vezes, lamentavelmente, do que antecipar um desenlace inevitável a curto prazo. Daí que seja extremamente forçado falar em "X mortos devido ao calor" da mesma maneira que se falaria em "X mortos devido a um acidente aéreo". A nossa sociedade tem horror ao risco, e dela começa a apoderar-se a ideia de que todas as infelicidades podem ser prevenidas, e que, quando não o são, isso se deve a incúria ou incompetência de alguém. (Quanto às comparações com o número de mortes do World Trade Center, prefiro nem tentar rebuscar o meu vocabulário à procura de adjectivos que qualifiquem tamanho despautério. A banalização do horror é um dos males silenciosos dos nossos tempos. Ponham os olhos no que sucedeu à Shoah.)
Não me entendam mal. Não deixo de defender que a eventual mortandade devida ao calor deve ser estudada. É claro que as eventuais falhas na rede nacional de saúde devem ser investigadas, até às últimas consequências. É claro que as responsabilidades devem ser apuradas. É claro que se deve apostar na prevenção, e que se deve analisar a melhor maneira de fazer face a futuras vagas de calor com magnitude e duração semelhante. É claro que cada pessoa que perde a vida por assistência inadequada ou tardia representa um drama, e que se deve fazer tudo para minimizar o número dessas situações. Mas é de desejar que tudo isso se faça com rigor, paciência e seriedade, e não ao sabor dos apetites estrebuchantes de um certo jornalismo sensacionalista, ou dos imperativos das agendas políticas.


Quinta, 21 Agosto, 2003

COISAS MAGNÍFICAS E ESPANTOSAS PARA FAZER EM LISBOA:

Escolher um jardim de Lisboa que pudesse servir de cenário a um espectáculo de fantoches (mesmo que não seja o caso), sentar-se num banco, e debitar reflexões relativas ao ensaio que Kleist escreveu sobre as marionetas. Estas por exemplo:

«Aquilo que Kleist afirma possui um apelo imediato, mau grado ou devido à maneira como ofende as evidências. Suster que um boneco de madeira, manipulado do exterior, possui mais graça e elegância do que o melhor dos bailarinos, provoca franzir de sobrancelhas, mas também vivo deleite, quanto mais não seja porque o espírito humano se compraz em violações do senso comum tão absurdas que parecem não poder vir a constituir ameaça. O sucesso da defesa da tese encontra-se pois, em grande medida, na maneira como Kleist explora essa complacência do leitor, e como dela se nutre, como de um líquido amniótico, mas sem abusar da sua efemeridade.»

«As crianças. Como lhes agradam aqueles movimentos sincopados e falhos de naturalidade, aquele estrebuchar semelhante à dança de São Vito! O seu conceito de humanidade é ainda muito volátil, e mais fracamente alicerçado do que o nosso; aceitar um fantoche articulado como paradigma desse turbilhão de paixões e velhacarias que é o homem não exige delas que abdiquem de muitas coisas. O controlo absoluto não é ainda uma obsessão, mas sabem já o quanto baste (pelo menos as menos jovens de entre elas) para desfrutar, com maior ou menor grau de jocosidade, da visão daqueles gestos imperfeitos, sujeitos apenas a forças exteriores, indefesamente determinísticos. A fatalidade e o drama que só o livre arbítrio pode engendrar são-lhes servidos num só rectângulo de espaço; em bandeja de prata, como se costuma dizer.»



«Sob o seu diáfano disfarce de boutade, aquilo que Kleist sugere possui um potente conteúdo revolucionário. Trata-se, pois, de recuperar o acesso ao Paraíso de onde o ser humano foi expulso, após provar do fruto da árvore do conhecimento; mas de o fazer, não recorrendo a artimanhas, não por uma qualquer porta das traseiras que a tosca esperteza humana fosse capaz de descobrir; bem ao contrário, trata-se de recuperar o estado de inocência primordial novamente por via do fruto do conhecimento, não mais provado com a antecipação do remorso, mas sim mordido com convicção, devorado, digerido, até à saciedade. Ou, por outras palavras: recuperar a Graça através de um excesso de consciência.»

A dada altura, pode tornar-se aconselhável desentorpecer as pernas, entregar-se a um périplo que não deixe de contemplar o castelo, o lago, as rosas provenientes da Terra Santa, a estátua do Actor Taborda...

«É bem verdade, e verificável, aquilo que ele escreve sobre a dissociação entre a alma do dançarino e o seu centro de gravidade. Lembro-me de, ao fim da enésima repetição de uma cena, ter sentido a alma de alguém algures entre os seus dois pés, que ele teimava em manter afastados um do outro. Na altura, falei-lhe em desequilíbrio, numa desadequação dos seus movimentos. Em todo o caso, é bem certo que a palavra-chave é CONSCIÊNCIA.»


CINEMA: Notas sobre alguns filmes vistos recentemente.

"The Rules of Attraction" (Roger Avary): É ténue e quebradiça, a fronteira que existe entre mostrar a superficialidade e nela se comprazer, ou sancioná-la pela incapacidade de apontar alternativas. Esta verdade mais uma vez vem ao de cima num filme como este, que não é nem mais nem menos irrelevante do que seria de esperar de uma adaptação de um livro de Bret Easton Ellis. Alguns achados visuais não excessivamente gratuitos ajudam a atenuar uma impressão de nulidade cinematográfica que chega a ameaçar fagocitar todo o processo de apreciação do filme. Uma cena magnífica permanece na memória: uma das personagens principais (o dealer semiprofissional e aprendiz das amarguras do amor, interpretado por James Van Der Beek) visita um dos seus clientes. Frustrado por não conseguir recuperar a quantia que lhe é devida, antes de sair do quarto, põe os olhos em cima de uma tradução em inglês dos "Cem Anos de Solidão", e leva-a consigo, sem comentários. Não chega para compensar todos os microeuros que paguei pelo bilhete, mas reforça a convicção de que nem mesmo a mais absoluta mediocridade está livre de conter pepitas.

"Il Est Plus Facile Pour Un Chameau..." (Valeria Bruni Tedeschi): Nos últimos anos, tem-se desenvolvido um subgénero do cinema francês, cujas características principais são as seguintes. a) tudo se passa em Paris (com eventuais e cirúrgicas incursões à província); b) o tom é de comédia sofisticada, mas não demasiadamente intelectualizada; c) as personagens principais andam todas entre os vinte e muitos e os quarenta anos; d) predomina o diálogo; e) as personagens falam essencialmente de apartamentos, trivialidades, e, claro está, amores e desamores; f) do elenco fazem parte, pelo menos, um destes actores: Charles Berling, Fabrice Luchini, Sandrine Kiberlain, Denis Podalydès, Mathieu Amalric, Jeanne Balibar, Chiara Mastroianni. A primeira longa-metragem de Valeria Bruni Tedeschi (uma das mais inteligentes e fascinantes presenças do cinema europeu dos últimos tempos) insere-se claramente nesta tendência. A realização é fluida, o encadeamento das situações engenhoso, o filme faz cócegas aos sentidos, titila os neurónios, faz rir, leva a reflectir sobre a natureza friável das relações humanas. Isolar aquilo que separa um filme como este de uma obra-prima obriga-nos a retomar a sempiterna discussão sobre "grandes" e "pequenos" assuntos, com as devidas aspas no devido sítio. Nem só de temas fulcrais para a humanidade deve viver o grande cinema, e não convém que todos os realizadores aspirem a emular Bergman, Tarkovsky ou Sokurov. Contudo, chega a ser preocupante a maneira desempenada com que tantos filmes abdicam, logo à partida e sem complexos, da veleidade de superar o plano do mero divertimento ou da mordaz crónica de costumes, ainda que espirituosos, requintados, e urdidos com subtileza e sagacidade.
(Onde terá o Lambert Wilson aprendido a falar italiano tão bem?)

"Les Naufragés de la D17" (Luc Moullet): Este é um filme bem menos ambicioso e menos rico do que o precedente, mas ao qual se aplica igualmente a discussão relativa aos "grandes" e "pequenos" assuntos. O filme funciona na medida em que funcionam as vinhetas cómicas que o compõem; felizmente, estas cumprem, com algumas excepções evidentes (a paródia militarista, do mais primário que se possa imaginar). Um dos aspectos mais valorizantes desta comédia, e que nos relembra, com refrescante sentido de oportunidade, a herança da Nouvelle Vague, é a maneira como explora a paisagem natural, e a prontidão para transformar cada acidente de terreno num pretexto adicional para cruzar e descruzar enredos e personagens. Resumindo, "Les Naufragés de la D17" é um filme feito por alguém que não só sabe que não está a entrar para a história do cinema, como se está nas tintas para isso, e dá-o a entender desde o início, com juvenil e saudável irreverência
Num inquérito realizado em 1981, para a revista "Cahiers du Cinéma", Luc Moullet respondeu à pergunta «Y a-t-il des choses que vous vous interdisez de filmer?» da seguinte forma: «Les automobiles. J'ai peur que la vision d'une automobile amène le spectateur à en acheter une.». Pelos vistos, as suas ideias a este respeito mudaram radicalmente de então para cá!

"It's All About Love" (Thomas Vinterberg): As minhas expectativas para este filme eram moderadas, atendendo a que achei a longa-metragem anterior de Vinterberg, "Festen", um dos mais chocantes casos de sobrevalorização crítica da última década. Por outro lado, este primeiro esforço americano do autor dinamarquês foi castigado pela pluma de Eurico de Barros, o que é sempre um sinal auspicioso. Contas feitas, "It's All About Love" parece-me um filme falhado, mas também um filme que nos convida a repensar o próprio conceito de "falhanço". A grande maioria dos filmes malogrados são-no por incapacidade, incúria, ou por factores diversos, e o resultado final é um objecto aquém do que se propunha, e sem a consciência disso. Por esses, nada há a fazer. Depois, existem casos em que o falhanço se integra na própria matriz do filme, sob a forma de um processo ao qual se pode tomar o pulso, e que passa a polarizar o decurso do filme, sob a forma de uma entidade geradora de urgência narrativa. Um dos exemplos mais óbvios será "Aguirre", de Werner Herzog; de entre os mais recentes, pode citar-se "Pola X", de Leos Carax. Eu defendo que "It's All About Love" se integra nesta última categoria. A dada altura, tudo o que o filme tem de grandiloquente, de incoerente, de pomposo, começa a trabalhar a favor do próprio filme, sustendo-o numa improvável nuvem de irrealidade com tantas partes de metáfora, tantas partes de conto de fadas, tantas partes de fábula apocalíptica, e um sonoro e sensual apelo à indulgência do espectador. A isso se devem todas as coisas belas e memoráveis que o filme nos oferece, que são mais do que eu me teria atrevido a vaticinar ao fim da primeira meia hora. E esta é uma altura adequada para manifestar a minha preferência por filmes desequilibrados e férteis em pontas soltas sobre filmes laboriosos, sedentos de perfeição, overdone e regurgitantes de significados (exemplo: "Felicia's Journey", de Atom Egoyan).

"Morvern Callar" (Lynne Ramsay): Do cinema britânico nunca há a esperar muito, mas há que perseverar na esperança de que, um dia, surja um núcleo de autores capazes de forjar um cinema de autor, marcado pela ambição artística e pela vontade de imprimir um cunho pessoal; uma "terceira via" que evite os caminhos duvidosos da comédia social oportunista e previsível ("The Full Monty"), mas que evite também o estigma da originalidade radical que a tacanha opinião vigente para lá do canal da Mancha tende a associar a autores como Jarman e Greenaway (com quase certo prejuízo para a continuação das carreiras do visado). Desse ponto de vista, "Morvern Callar" aparece como um objecto capaz de alimentar algum optimismo. Lynne Ramsay demonstra evidente talento para filmar uma personagem (admirável Samantha Morton) livre de motivações e constrangimentos, radiante na sua evidência de ser humano, por vezes surpreendida com a presença do seu corpo, do correr do tempo, das peripécias e sua brutal tendência para fazer eclodir desenlaces. O filme apresenta, do princípio ao fim, uma tensão nunca abandonada mas que permanece por resolver, construída através de portentosos momentos de cinema, mas sem nunca redundar numa esforçada soma de partes. (Nesta sua maneira de ser formal, lembra um dos momentos notáveis do cinema português recente, "Glória".)
Relativamente ao invulgar nome próprio da protagonista, ele deriva de um topónimo escocês, cuja origem gaélica é "a' Mhorbhairne", "a grande fenda". Era também o nome do reino de Fingal nos poemas ossiânicos de James Macpherson. Tem sido utilizado recentemente como nome próprio feminino, sendo também grafado "Morven". Foi esta a informação inútil do dia. O saber não ocupa lugar Fim do post.


O TEMPORA! O MORES!: Lido hoje no "Público": "BEBÉ CONCEBIDO COM SÉMEN COMPRADO NA NET POR CASAL DE LÉSBICAS NASCEU NA INGLATERRA". Já imaginaram como seria tentar explicar esta notícia a um cidadão de há cem anos, desembarcado no nosso século via um qualquer atalho do espaço-tempo?


Terça, 19 Agosto, 2003

UMA BOA NOTÍCIA PARA TODAS AS PESSOAS DE BEM: Claro que não poderíamos deixar passar em claro a edição recente de uma tradução portuguesa da peça "Pentesileia", do nosso mentor e genius loci Heinrich von Kleist, ele mesmo.
O responsável de tão louvável façanha é Rafael Gomes Filipe, que assina ainda um interessante e elucidativo posfácio. A edição é da Porto Editora, da Biblioteca do Sudoeste (Copyright 2003). O livro possui, ao todo, 240 páginas, e as suas dimensões são as seguintes: 135 x 212 mm. O ISBN é 972-0-45004-5.
Não posso aferir da fidelidade da tradução, uma vez que (alguma vez chegaria o momento de o confessar) os meus conhecimentos de alemão são pouco mais que anedóticos.
Acreditamos não ser este mais do que um sintoma de uma vaga de fundo de fervor kleistiano, para a qual, modestamente, temos tentado oferecer o nosso contributo. Não faltarão as hordas de maledicentes que tentarão reduzir esta tendência a um mero e transiente pico de interesse, sem antecedentes nem continuação. Meus amigos, deixemo-los verter o seu fel. Não é todos os dias que nos é dado assestar tal bofetada de luva branca nos nossos detractores. E aproveito a ocasião para dizer que o golo do Costinha contra a União de Leiria foi precedido de falta. Se houvesse justiça, rolariam cabeças no Conselho Nacional de Arbitragem.


ODOR DE SANTIDADE: É deveras curioso constatar como o ministro Paulo Portas se tem abstido, nos últimos tempos, de aludir a eventuais intervenções de Nossa Senhora, em defesa da nossa pátria. Deveremos depreender que um país pequeno como Potugal tem apenas direito a um número limitado de milagres por ano, e que o que se passou com o "Prestige" nos fez ultrapassar a quota?


Domingo, 17 Agosto, 2003

LEITURA EM ESPAÇOS PÚBLICOS: No espaço de poucas horas: um rapaz absorvido num livro de Mário de Sá-Carneiro ("Céu em Fogo"), numa carruagem do metro, e o empregado de um estaminé da Sical que interrompeu a leitura de Rubem Fonseca para me servir um café (o meu remorso, nesse dia, teve efeitos mais duradouros do que a cafeína).
Serão as primícias de um renascimento cultural do povo português?



E O PRÉMIO "EAT THE CAKE AND HAVE IT" VAI PARA...: Luminoso, o raciocínio de Marcelo Rebelo de Sousa (hoje, na TVI), a propósito do apuramento de responsabilidades no apagão que ocorreu no nordeste do continente americano. Ora vejamos. Serão os privados responsáveis? «Talvez.» E o Estado? «Com certeza que sim.» E isto porque lhe cabia fiscalizar, verificar, e assegurar-se de que os investimentos necessários para o melhoramento da rede de distribuição eléctrica eram realizados pelos operadores privados, em vez de serem escamoteados, por não serem consentâneos com objectivos de lucro a curto e médio prazo.
A moral da história parece ser a seguinte. Por mais que aliene indústrias e serviços básicos fortemente implicados no bem-estar das populações, quando algo corre para o torto, é sempre o Estado quem deve ser apontado como culpado. Quanto às empresas privadas, aplica-se a máxima "perdoemos-lhe, pois eles não sabem o que fazem". Coitadas, pois se elas mais não fazem do que tentar distribuir dividendos aos seus accionistas, quem as pode censurar por descurar certas ninharias como o interesse público?



COISAS MAGNÍFICAS E ESPANTOSAS PARA FAZER EM LISBOA:

Envergar um fato justo, da cabeça aos pés, de cor negra, e vaguear pelos telhados de Lisboa, amarinhar por algerozes, saltar de terraço em terraço, emulando a grande Musidora, tal como aparecia no filme "Les Vampires" (1915, realização de Louis Feuillade). Tudo isto de noite, claro está.



Enquanto o inocente fuso horário da capital atravessa o período de treva, acolhendo os milhões de horas de sono aplicado e livre de preocupações, sono infantil fofo e doce, sono burguês pacato e lustroso de consciência tranquilíssima, entregar-se a peripatética vigília, noite após noite, mas não por culpa de recorrentes acessos de insónia, nem por dever profissional, mas sim por despeito, malícia e desafio, consolidado ou não por um exacerbado espírito de missão.
Vaguear por penumbrosos becos e jardins públicos adormecidos, disputando território aos felinos nocturnos e às inexistentes almas penadas, e fazê-lo com a ligeireza silenciosa de um acrobata, com a ousadia premeditada de quem sabe perfeitamente quão alto e quão longe o levam os seus membros inferiores num salto calculado, e com o desplante de quem tem alguma coisa para provar.
Os elementos nunca devem servir de dissuasor. Chuva, granizo, trovoada, nevoeiro, tudo se deve ignorar, com a olímpica sobranceria de quem sabe que, se aquilo que o move não se pode compadecer com a errática vontade dos homens, muito menos admitirá hesitações perante as contingências da meteorologia.
E quanto ao itinerário? Convém que seja variável, e imprevisível para um hipotético observador exterior. Nenhuma zona encerrada pelo perímetro urbano de Lisboa deve escapar à dedicação deambulatória; faça-se de modo a que seja necessário apenas esperar o tempo suficiente para que o bairro mais recôndito, a praceta mais esquecida, acabem sendo contemplados. Ignorar a topografia das ruas lisboetas, como se se dedicasse às plantas e às gerações de planificadores urbanos um absoluto desdém: a progressão deve fazer-se ao sabor de linhas rectas, curvas, espirais, parabólicas, que só o acaso fará coincidir com troços de artérias existentes.
Motivações? Escondê-las. Amedronta menos aquele que não olha a meios para alcançar os seus fins do que aquele que expõe ao mundo a sua engenhosa eficiência, sem se dar ao luxo de revelar um objectivo plausível.
Evitar o escândalo: convém resistir às inúmeras oportunidades que se apresentarão para surpreender o honrado cidadão no morno recato do seu lar, ou na via pública. A figura longilínea em movimento só excepcionalmente se recortará contra o rectângulo luminoso de uma janela de águas-furtadas, ou de um par de portas de uma varanda. (E, contudo, como seria fácil para ele surpreender a intimidade de uma família, de um inquilino solitário embriagado de esperança e de aspirações grandiosas, como seria fácil para ele dar largas a um eventual apetite insaciável pela vida alheia, confortado pela certeza de permanecer impune!)
Para abafar à nascença qualquer veleidade de seguir no encalço de quem assim povoa o topo da noite urbana, é importante possuir dotes de ginasta, acrobata, trapezista e saltador olímpico, para além de infalível sangue-frio e profundo conhecimento dos locais atravessados.
Por fim: deixar todos na dúvida sobre a natureza da ameaça, mas deixar também claro que, a existir ameaça, o romper da manhã saberá dissipá-la, com periódica e luminosa economia de meios.



OLÉ OLÉ: Sempre que vejo imagens daqueles imbecis que participam em largadas de touros para mostrar ao mundo até onde vai a sua virilidade, e que sofrem colhidas, cornadas, quedas, atropelamentos, enfartes, etc., PENSO ASSIM: De acordo, estes mentecaptos merecem cuidados médicos, e a estupidez, mesmo a mais refinada e incorrupta, não deve ser argumento para recusar assistência às baixas de tão edificante evento. CONTUDO: A indignação leva-me a alvitrar que todos aqueles que dão entrada em hospitais e clínicas com dói-dóis contraídos em largadas deveriam beneficiar de prioridade mínima, e deveriam passar atrás de todo e qualquer miúdo de 5 anos a sangrar no nariz, de todo e qualquer idoso com desidratação ou dificuldades respiratórias; e só quando tivessem sido atendidas todas as pessoas que sofreram acidentes e maleitas no decurso da vida normal teriam eles direito a atenção, se houvesse ainda algum médico disponível nas redondezas.


Sexta, 15 Agosto, 2003


Clique na imagem para visitar o museu Du Bellay

JOACHIM DU BELLAY: O poeta da semana é Joachim du Bellay (1522?-1560). Contemporâneo de Rabelais e de Ronsard, tendo formado com este último (juntamente com outros poetas) o grupo da Pléiade, Du Bellay distinguiu-se como defensor do emprego da língua francesa, em detrimento do latim, tendo assim desempenhado um papel semelhante ao de Dante para com o italiano. Na sua "Deffence et Illustration de la langue françoyse", Du Bellay, ao mesmo tempo que insiste na legitimidade do uso do francês para a composição poética, reconhece que se trata de uma língua pobre, e é por isso que preconiza o recurso a neologismos provenientes das línguas clássicas. Na mesma veia, e um pouco paradoxalmente, defendia as formas poéticas clássicas oriundas de Homero, Píndaro, Virgílio e Horácio, e recomendava o abandono dos géneros medievais («Rondeaux, Ballades, Virelais, Chants Royaux, Chansons et autres telles épiceries qui corrompent le goût de notre langue»).
Naquela que é talvez a obra mais importante que compôs durante a sua curta vida, "Les Antiquités de Rome", para além do seu interesse poético intrínseco, torna-se fascinante apreciar o testemunho do nascimento do francês enquanto língua literária, periclitante ainda em aspectos como a ortografia, longe de estar fixada. A obra, composta por um total de 47 sonetos, cuja inspiração muito deve a Virgílio, Horácio e Lucano, consiste numa sucessão de vinhetas relativas à grandeza passada dos romanos. O soneto número III é uma escolha óbvia para citar quando se pretente evocar a decadência das perecíveis coisas terrenas:

Nouveau venu, qui cherches Rome en Rome
Et rien de Rome en Rome n'apperçois,
Ces vieux palais, ces vieux arcz que tu vois,
Et ces vieux murs, c'est ce que Rome on nomme.

Voy quel orgueil, quelle ruine: et comme
Celle qui mist le monde sous ses loix,
Pour donter tout, se donta quelquefois,
Et devint proye au temps, qui tout consomme.

Rome de Rome est le seul monument,
Et Rome Rome a vaincu seulement.
Le Tybre seul, qui vers la mer s'enfuit,

Reste de Rome. O mondaine inconstance!
Ce qui est ferme, est par le temps destruit,
Et ce qui fuit, au temps fait resistence.




DA RESPONSABILIDADE: Aproveitar uma situação de tragédia nacional para tentar arrecadar dividendos políticos é uma baixeza, e é contrário à mais elementar ética política? Totalmente de acordo. Mas não deixa de ser suspeita a indignada prontidão com que certos responsáveis e dirigentes vêm a público denunciar a ignomínia de tais atitudes, ainda antes de serem atacados. Como se precaver-se contra as investidas da oposição fosse mais urgente do que qualquer outra coisa.
Se é certo que uma situação de calamidade, que levou à perda de vidas humanas, exige pudor e respeito pelas vítimas, não é menos verdade que a obrigação de apurar responsabilidades e causas é directamente proporcional à própria amplitude da tragédia. A apreciação de uma acção governativa não se deve resumir à atribuição de louros pelas medidas positivas. Quando algo de negativo sucede, soa a falso qualquer tentativa de reclamar imunidade, ainda que temporária, por parte de governantes máximos e responsáveis das tutelas. Deixem que as evidências e o bom senso recordem a todos quão obscenas são as politiquices no meio da morte e da devastação, mas admitam que, uma vez iniciado o rescaldo, as razões para o sucedido devem ser procuradas, doa a quem doer. (Mesmo que, já agora, isso implique recuar até legislaturas anteriores.)


Por achar que não tenho nada de relevante a dizer sobre o assunto, tenho-me abstido de comentar a trágica situação que Portugal tem vindo a atravessar. Porém, não queria deixar de dirigir uma palavra solidária a todas as vítimas, directas ou indirectas, dos incêndios, assim como a todos aqueles, bombeiros ou não, que se entregaram de corpo e alma ao combate às chamas, até ao extremo da exaustão.


DA MINHA RECENTE AVERSÃO AOS MERENGUES: Tento evitar falar de futebol, apesar de ser apreciador, por achar que tal temática é já suficientemente glosada, por vezes até à náusea, em quase todos os órgãos de comunicação social. No entanto, fenómenos existem a que não posso deixar de fazer menção. De há dois ou três anos para cá, o Real Madrid tem perseguido, com inédita pujança, a filosofia de que, para construir uma grande equipa de futebol, basta adquirir os melhores e mais caros jogadores do mundo, acrescentar um treinador de perfil baixo e que não faça demasiadas ondas, deixar cozer e temperar a gosto. A concentração de megaestrelas numa mesma equipa era já elevada desde a época passada; neste ano, com a contratação de David "This hairdo is so last week!" Beckham, franqueamos alegremente as fronteiras do obsceno. A ideia do futebol como desporto de equipa, baseado na complementaridade e na união de esforços, por oposição a uma soma de partes e de salários, a um conluio de tenores e malabaristas, sofre assim um golpe do tamanho da Gran Vía.
Cada dirigente desportivo sabe com que linhas se cose, e, desde que cada cêntimo seja ganho com honestidade e o inevitável suor do rosto, admito que cada clube gaste os seus proventos como bem entender, independentemente dos pruridos de um humilde blogger. Agora, o que acho mais duro de engolir é a atenção embevecida que a nossa comunicação social dedica a este reluzente híbrido de clube de futebol, crónica social, passagem de modelos e feira das vaidades. Serão mais ridículos os adeptos chineses que pagam 40 euros para assistir a um treino, ou os telejornais que dedicam tempo de antena a esse mesmo treino, sob o pretexto de noticiar o fanatismo oriental? Repugna-me esta lógica bacoca e espiraliforme de elevar um acontecimento ao estatuto de notícia apenas porque foi notícia noutro lugar.
A tão badalada "melhor equipa do mundo" terá de se esforçar para merecer esse epíteto, que lhe foi tão liberalmente atribuído por alguma imprensa leviana e acrítica. Sim, porque, caso se tenham esquecido, ainda vai ser necessário que estes rapazes joguem algumas vezes à bola para ganhar taças. Relembre-se que, sem Beckham (jogador claramente sobrevalorizado, aliás), mas já com todos os demais artistas, a equipa merengue teve uma época de 2002/2003 francamente aquém do esperado: falhou a Liga dos Campeões, falhou a Taça do Rei, e apenas ganhou a liga espanhola na última jornada. Um tanto escasso, para melhor equipa do mundo.
Para que uma certa moralidade prevaleça, e por tudo o que acabo de expor, desejo um ano cheio de fracassos e derrotas para o Real Madrid Club de Fútbol, de preferência contundentes e humilhantes.


Terça, 12 Agosto, 2003

BALANÇO DO ANO CINEMATOGRÁFICO ATÉ AO MOMENTO: O ano cinematográfico nas salas portuguesas tem estado morno: o nível médio, sem ser francamente mau, também não tem dado azo ao inflamado entusiasmo cinéfilo que outros anos suscitaram. As autênticas obras-primas, os filmes susceptíveis de marcar a história do cinema, têm brilhado pela ausência. Deixando de lado "Vai-e-vem" (excepcional a mais do que um título), os filmes que terão estado mais perto de causar um impacto duradouro são: "Deux" (Werner Schroeter), "10" (Abbas Kiarostami), "25th Hour" (Spike Lee), e "Dolls" (Takeshi Kitano). Com alguma boa vontade, "Cet Amour-Là" (Josée Dayan) e "Punch-Drunk Love" (Paul Thomas Anderson) poderiam vir engrossar esta curta lista. Mas ainda não me foi dado ver nenhum "Sicilia!", nenhum "Esther Kahn", nenhum "Mulholland Drive". O que, vendo bem as coisas, não deve ser motivo de estranheza, ou desproporcionada lástima. Tenho para mim que, em todo o mundo, raros serão os anos em que se produzem mais de 10 ou 12 grandes filmes. Atendendo a que, por sua vez, estes números serão filtrados pela dimensão reduzida do mercado português, e pelas distorções na distribuição que excluem à partida largos sectores da cinematografia mundial, não podemos esperar uma colheita demasiado generosa de obras-primas, ano após ano. E isto mau grado a liberalidade com que certos críticos distribuem as suas estrelinhas na imprensa nacional.


LAND OF HOPE AND GLORY: Não é preciso ter vivido em Inglaterra para perceber o alcance e a adequação à realidade das letras dos Pulp, em especial estas linhas:

"...you'll never watch your life slide out of view
and dance and drink and screw
because there's nothing else to do"

Não é preciso ter vivido em Inglaterra... Mas ajuda muito!!!


QUAL FIGO, QUAL CARAPUÇA: Leite Vigor meio gordo e línguas de veado Pingo Doce. Estas coisas é que alicerçam o orgulho nacional!
Advertência: desaconselho fortemente molhar as segundas no primeiro.


Anatoly Karpov

«Estilo? Eu não tenho estilo.» (Grande Mestre ANATOLY KARPOV)




Domingo, 10 Agosto, 2003

CONTRIBUIÇÃO PICTÓRICA PARA O DEBATE EM CURSO: Um leitor que, mau grado a minha ferocíssima insistência, preferiu que o seu nome não fosse revelado, enviou uma fotografia de um pub londrino chamado "Punch & Judy". Fantoches, marionetas e bonecadas em geral integram-se perfeitamente nas temáticas do vossoblog verde-alface: recorde-se que Heinrich von Kleist é o autor do fabuloso ensaio "Sobre as Marionetas", cuja presença deveria ser obrigatória em todos os lares portugueses. Os leitores mais atentos talvez ainda se recordem das baboseiras que escrevi sobre o assunto, não há muito tempo.



A nomenclatura dos pubs tem muito que se lhe diga, tanto, aliás, que mereceria um post por si só. A minha teoria é a de que a nomeação dos pubs serve como uma das mais fecundas válvulas de escape criativo do povo britânico.
Um post? Que digo eu? Um blog, uma tese, uma página hebdomadária num jornal de grande tiragem!!!


"AQUELA QUE IMPLORAR A MINHA PIEDADE PARA COM ELA HÁ-DE PAGÁ-LO CARO": É um facto que esteblog tem sido actualizado com medíocre frequência. Certos apelos tornam-se, por vezes, demasiado insistentes para serem ignorados. Não lembraria ao Diabo (a quem a reputação atribui prodigiosa memória) pedir-me que me assumisse como condutor de homens, mas por vezes é isso mesmo que sucede. Nos últimos dias, envolvi-me mais activamente com os elementos da confraria que insiste, contra o bom senso e contra a míngua de tudo, em ensaiar a "Pentesileia" num armazém abandonado de Alcântara. O Umblogsobrekleist (relembre-se, em benefício também dos que não acompanharam os nossos primeiros balbuceios) surgiu como uma espécie de braço ciber-virtual desse empreendimento, louco mas não desmedidamente louco. Pois bem, sucede que certas boas almas deploram que o meu "entusiasmo" pelo blog me tenha levado a descurar tudo o resto, fim de citação. Já lhes disse cara a cara aquilo que agora reproduzo: não julgo que esteja a levar demasiado a peito um lema que sempre foi o nosso, e que não me recordo de ter ouvido posto em causa: "UMA MÁXIMA QUE É VÁLIDA SOBRE O PALCO É-O TAMBÉM NO MUNDO". Assunto encerrado. Mas não ajudou nada que todas as minhas sugestões quanto à encenação tivessem sido rejeitadas. Apenas para citar um exemplo: continuo convencido de que representar as cenas mais trágicas como se fossem cómicas, e as cómicas como se fossem trágicas, seria uma solução para o impasse em que eles se encontram, quando se trata de lidar com as situações mais extremas.
A juntar-se aos dilemas artísticos, há também a hostilidade do proprietário do armazém vizinho, cujo arsenal de procedimentos grandguignolescos parece ilimitado. Não bastavam as ameaças, os telefonemas insultuosos, as vandalizações, o séquito de incompetentes esbirros... Isto já para não falar da carta anónima. Letras de revista recortadas com escrúpulo de artífice, oito-páginas-oito de requintada prosa, uma estranha obsessão por Hegel, dialéctica, sistema, espírito subjectivo, objectivo e absoluto, esse tipo de coisas.
Parece que o dono do armazém vizinho é o testa-de-ferro de um poderoso grupo que se dedica à especulação imobiliária, mas certezas é coisa que não temos. Chegou-nos ao ouvido que denúncias teriam sido feitas contra nós, no sentido de negar que as nossas actividades possuam interesse cultural, o que é manifestamente falso.


EU ATÉ NEM SOU FÃ DO MAGNUM, MAS...: ...desde quando é que a vingança é um pecado mortal?


BIZANTINICES DE TERMINOLOGIA: Tenho a anunciar, com o grau de solenidade que normalmente requer querubins com trombetas, que não tenciono abandonar a terminologia "blog" em benefício de "blogue". Aliás, surpreendeu-me a celeridade com que tantos e tão bons adoptaram a grafia aportuguesada, atendendo a que, primo, "blog" não colide frontalmente com as regras de formação de palavras em português, secundo, ninguém se lembra de grafar "internete" ou "bráuzer", palavras que estão há muito mais tempo entre nós.
Quanto àqueles que vivem na esperança de que mudemos de nome para Umbloguesobrekleist, limito-me a assegurar que não será amanhã a véspera desse dia.


MAIS LOAS À ECONOMIA DE MERCADO: Entrar na Fnac e sair sem fazer qualquer despesa é cousa tão manifestamente impossível que merecia um teorema, com os respectivos corolários. Felizmente, a actual campanha de micropreços suaviza o impacto negativo na algibeira do cidadão. Tudo isto para dizer que, ontem, comprei "Un Jour à Durban", de Claude Michel Cluny, e "Les Antiquités de Rome/Les Regrets", de Joachim du Bellay, por preços simbólicos (1 e 2 euros, respectivamente). E as pechinchas ainda não acabaram.


Quinta, 7 Agosto, 2003

CINEMA: "Vai-e-Vem", de João César Monteiro. É costume dos filmes de Monteiro combinarem uma radical irredutibilidade a explicações e palavreado com uma abundância de pontos de abordagem possível, e este não constitui excepção. Sem ordem especial, passeemos por algumas destas veredas que nos abre "Vai-e-Vem".

TEMPO E EPIFANIA: Sobretudo a partir do aparecimento em cena do Sr. João de Deus, o cinema de Monteiro tem sido uma resposta, em vários momentos, a esta questão crucial: como conjugar a irrupção instantânea do elemento estético, eventualmente sustentado durante um lapso de tempo removido de qualquer solução narrativa, com a natureza temporal e sequencial do filme? De "Recordações da Casa Amarela" a "Vai-e-Vem", assistiu-se a um fascinante apurar do modo de lidar com este problema. Uma das inúmeras coisas maravilhosas da "Comédia de Deus" era precisamente o surgimento, em força, desses blocos de movimento e acção (a "natação em seco" de Rosarinho, o episódio dos ovos), e a maneira como o próprio filme se reinventava durante o seu decurso (exibindo sem pudor os pontos de ruptura), de maneira a acolher a exuberância significante desses momentos gratuitos. Dito de outra forma: Monteiro sempre se mostrou um feroz inimigo da "economia narrativa", esse horroroso pau-de-cabeleira da arte cinematográfica em nome do qual tantos crimes se têm cometido, e tantas ousadias têm sido reprimidas. Das "Recordações" até esta última longa-metragem, assistiu-se à tentativa, consciente ou não, de construir objectos cinematográficos e um modo de operar livres das peias da "economia narrativa", mas evitando que esses esforços redundassem em mera anarquia visual ou na simples e estéril abolição de constrangimentos.
Se esta minha maneira de ver faz algum sentido, então julgo que encontramos em "Vai-e-vem" um culminar absoluto e requintado deste desiderato. Cada cena vale-se a si mesmo (a cómica sequência da lavagem da carpete ao som de "Bella Ciao", o trajecto circular da jovem ciclista no jardim do Príncipe Real, etc. etc.), mas a impressão de unidade não sai prejudicada. A epifania, a singularidade da beleza ou do burlesco (que raras vezes, na história do cinema, terão coabitado tão de perto) não matam o filme, nem têm necessariamente de pôr em causa a experiência de visionamento por parte de um espectador que espera um desenrolar no tempo dotado de coerência própria. Eis a admirável lição de João César Monteiro.

O FIM: Foi já amplamente sublinhado: Monteiro sabia, ao rodar "Vai-e-Vem", que seria esse o seu testamento cinematográfico. Não faltam os sinais exteriores, mais ou menos óbvios, da fatalidade da morte: as cenas na cama do hospital, o episódio (sonho? reminiscência?) do velório da esposa de João Vuvu, e, obviamente, o tão citado grande plano do olho, acompanhado pelo indizivelmente belo motete de Josquin Desprez. Em vez destes sinais exteriores, contudo, prefiro realçar o tom geral de magnífica e serena sobriedade que perpassa por todo o filme, a começar pela exacta elegância formal dos planos. João não se despede do mundo com um manguito, muito menos (sinistro seria se assim fosse...) com uma qualquer veleidade de regeneração ou reconciliação com a sociedade. Em vez disso, uma contenção soberba e tocante, que não exclui a angústia, e a insistência, até ao derradeiro momento, em traduzir obsessões, posição perante a vida e ressentimentos numa linguagem artística que ao mesmo tempo nada explicita e tudo revela. Estou a pensar, sobretudo, na incorruptível dignidade do episódio da saída do hospital, e na cena de Dafné, incluindo o último plano da árvore vazia, em relação ao qual me abstenho de tentar dizer qualquer coisa, uma vez que nada há para dizer.

DOMÍNIO DO ESPAÇO: Todos os cineastas importantes sabem que fazer cinema passa por uma interacção entre o cenário e aquilo que nele se pretende fazer desenrolar. O espaço é o recipiente das tensões entre os intervenientes, e um deficiente emprego do espaço pode ser suficiente para pôr em causa a possibilidade de conseguir fazer passar a essência da cena. Acredito que isto é válido tanto para o mais rotineiro telefilme, em que a palavra de ordem é a "eficácia", devidamente enquadrada pelos ditames do meio, como para o cinema com pretensões à relevância artística, se bem que o problema se coloque em moldes bastante diferentes.
O esquema formal em que repousa "Vai-e-Vem" é, deste ponto de vista, exemplar. Todo o filme se articula entre o jardim do Príncipe Real e a casa de João Vuvu, com numerosos trajectos de autocarro entre estes dois locais. Estes dois pólos concentram, respectivamente, a sua existência pública e o seu mundo privado. Contudo, Monteiro baralha subtilmente esta ordem das coisas, devido à incipiência dos contactos da personagem com o mundo exterior, e à maneira como os seus intercâmbios com as demais personagens se concentram dentro de portas. Assim, são as sequências de exterior que, de maneira geral, transmitem uma mais forte sensação de opressão, devido à escassez de eventos, ao passo que as sequências de interior, mau grado o confinamento e a exiguidade, oferecem uma muito forte impressão de abertura e amplidão. Todas estas antinomias são admiravelmente exploradas, com o notável contributo de uma subtil fotografia e da direcção artística. Quanto às cenas no interior do autocarro, funcionam como saborosos interlúdios, mas também como palpáveis testemunhos do tempo que passa, confundindo-se ou não com o espaço percorrido pela viatura. "Some came rambling"...

MANUELA DE FREITAS: Entre as coisas mais comovedoras deste filme conta-se a longa cena, que pode ser vista como uma despedida, entre João e a personagem de Manuela de Freitas. É impossível não recordar a longa história comum entre Monteiro e esta enorme actriz, que lhe valeu papéis soberbos, cenas magníficas (a aparição das trevas, ao som, se não erro, da "Norma", em "À Flor do Mar"), e deixas que ficarão para a história do cinema português («João, tu sabes que eu sempre fui uma mulher de muitos caralhos», in "A Comédia de Deus").

E assim termina este post sobre o filme "Vai-e-Vem". Fui, deliberadamente, fragmentário, por achar inconcebível a pretensão de encapsular nalgumas dezenas de linhas uma qualquer "totalidade" desta obra. A última coisa que tenho para dizer é um conselho, tão aliterativo quanto sincero. Vão (vê-lo), e venham. E depois voltem e vejam-no outra vez.


VATICANO E UNIÕES DE FACTO: O mínimo que se pode dizer é que a posição do Vaticano relativa às uniões de facto, e em particular sobre a legalização das uniões de homossexuais, não surpreende. Sob a capa de um humanismo atento aos problemas contemporâneos e de uma abertura ecuménica, o Vaticano continua a ser um bastião de um conservadorismo que, frequentemente, se vê e se deseja para descobrir vocabulário e fraseado que camuflem a tacanhez das suas tomadas de posição, e que as façam passar por mui cristão bom senso, saudavelmente rico em referências a "heranças comuns da humanidade" e quejandos. Ao longo do último século, tornou-se notório que as posições da Igreja católica andaram quase sempre a reboque da evolução da sociedade civil, abandonando, com evidente contragosto, opiniões e preconceitos antigos que a evidência ia tornando insustentáveis, sob pena do mais atroz ridículo. Opiniões e sentenças, que já eram desajustadas da realidade no momento em que foram proferidas, caem na mais risível obsolescência passada uma geração; tem sido esta a tendência, e não duvido que a história se repetirá com o odioso anátema ao uso do preservativo, ou com as uniões homossexuais.
A minha opinião pessoal é fortemente favorável à instauração de um regime de contrato civil que enquadre legalmente as uniões tanto de pessoas do mesmo sexo como de sexos diferentes, à maneira do que foi legislado em França, com o Pacto Civil de Solidariedade (nome bem achado, por sinal). Contudo, esta opinião pessoal é bem menos importante do que a indignação face a esta apetência contumaz do Vaticano em manter o monopólio da esfera espiritual (confundindo, com aflitiva regularidade, o declínio da fé religiosa com uma alegada miséria espiritual e moral do Ocidente) e, ao mesmo tempo, intervir activamente na esfera secular e política. Pelos vistos, nos arredores da Basílica de São Pedro, muito boa gente pensa ainda que é possível comer o bolo e guardá-lo, ou almejar a manteiga e o dinheiro da manteiga. Verdadeiramente escandaloso é o apelo à consciência dos parlamentares católicos, instando-os a rejeitar qualquer legislação no sentido de equiparar uniões homossexuais às heterossexuais. Qualquer parlamentar que seja mais sensível aos diktats do "Osservatore Romano" do que às obrigações que contraiu perante os seus eleitores e aos interesses da sua nação, declináveis no plano político-partidário, não merece permanecer no lugar que ocupa.


Terça, 5 Agosto, 2003

GETTING ANY?: Com notável sentido de oportunidade, o André, do Nocturno 76, enviou uma apreciação do filme "Getting Any?", que, por eu nunca o ter visto, constituiu a única lacuna da "integral Kitano" que foi aqui publicada há alguns dias. O André acedeu gentilmente a que eu aqui reproduzisse a sua crítica. Eu aproveito para reiterar a recomendação que já aqui foi feita: visitem o seu blog se não querem perder algo do que de melhor se escreve sobre cinema e música na blogosfera.

«Não gosto mesmo nada do filme, embora o tenha visto duas vezes (uma acidentalmente). Posso descrevê-lo da forma fácil: uns malucos do riso surrealizados em versão nipónica. No entanto, não gosto de ir muito por aí. Kitano dá a entender, por várias razões, que todo aquele non-sense no filme é propositado e é, de alguma forma, uma crítica ou revisão daquele humor japonês. O getting any segue-se de 'car sex', todo o filme se desenvolve a partir desta temática: o protagonista quer ter um carro para 'ter car sex'. O desenvolvimento é estranho, quase-surreal, e o final é um misto de aberração cinematográfica com 'A Mosca' de Cronemberg e os Godzilla´s originais. Penso que o filme não engana e transmite a ideia certa, de paródia séria mas exagerada, específica e muito condensada. Não gostei porque é muito cansativo, exageradamente non-sense e não consegue ter piada alguma (e o objectivo da paródia parece ser mesmo 'não ter piada'). Mas este 'não ter piada', mesmo como escolha estilística, acaba por não funcionar e talvez para um ocidental seja muito mais difícil compreender este filme. E eu nem me consigo concentrar na contextualização, com tanta alarvidade que se vê em 'Getting Any?'.» André Santos




IDEIA PARA UM CONTO: Ao descobrir a palavra "fusilli" escrita com "z" na ementa de um restaurante lisboeta, um homem entrega-se à missão de percorrer a cidade e recensear todas as ocorrências de erros ortográficos nos nomes de pratos italianos. Confundidos com esta obsessão, amigos, conhecidos e familiares afastam-se dele, a pouco e pouco. Levando o zelo até ao seu inevitável extremo, o homem parte para Itália e dedica-se a estudos de filologia e etimologia, mas acaba na indigência, transformado em ermitão que apenas a caridade alheia permite sobreviver.
O toque humano do conto seria fornecido por três bibliotecárias holandesas, ao mesmo tempo cúmplices e rivais, sendo que o sonho de duas delas era viajar até Malta e enfrentar a melancolia como se combate um anjo.


PORQUE SERÁ? ou REPUBLICANISMO E NUMISMÁTICA: As moedas de euro espanholas e belgas voam do bolso deste vosso escriba com muito maior alacridade do que as francesas e alemãs. Porque será? Será porque guardar na carteira as efígies dos monarcas desta nossa Europa é algo que não se coaduna com o meu ideal de felicidade?
E no entanto... Não é pequena a tentação de gastar moedas com a divisa "Liberté Égalité Fraternité", que conferem à mais banal transacção um especialíssimo encanto. Há lá coisa mais revigorante do que pagar o litro de leite meio-gordo ou o pão de forma com discos de metal representanto a Semeadora ou a Marianne!
Mas nada iguala o incómodo (que foi o meu durante quase um ano) de transportar quotidianamente moedas inglesas onde ainda não se prescindiu destas duas letrinhas: "D G". Concedo que não passa de um símbolo, e que, mesmo na Grã-Bretanha, pouco numerosas serão as alminhas que acreditam que a herdeira da casa de Windsor se senta no trono por obra da graça divina, qual gorducha pombinha que lhe pousou no ombro. Mas um símbolo nunca é inócuo, e muito menos o será se a alegação que a ele subjaz é a tal ponto ridícula, risível e desajustada do tempo que atravessamos.


BOM SENSO CROMÁTICO: Chapelada valente para Eduardo Prado Coelho, que, na edição do "Público" do dia 1, nos brinda com uma crónica toda em tons de verde, sob o pretexto (perfeitamente válido e louvável, aliás) de falar de chás e infusões.
Se a isto acrescentarmos a estreia do filme "Hulk", e a inauguração do novo estádio do Sporting, confirma-se que o verde é a cor em que vale a pena apostar, neste verão.


Sexta, 1 Agosto, 2003

A VIDA IMITA A ARTE (OUTRA VEZ): Todos aqueles que conhecem os argumentos de Quentin Tarantino (em particular "Pulp Fiction" e "True Romance") sabiam já que conversas em telefones portáteis sobre temas comprometedores são altamente desaconselháveis.


DO IMPORTANTE E DO ACESSÓRIO: Quando é que a comunicação social se tornará sensível àquilo que o público realmente espera dela? Será suficiente noticiar um jantar dos nossos militares, fornecer a lista dos convivas e especular sobre motivos e consequências? Não ocorre a ninguém procurar averiguar respostas a questões como: quem pagou?; qual foi a ementa?; quem escolheu Tiramisù e quem escolheu leite creme queimado?; de quanto foi a gorjeta?; quantos pediram factura?
É caso para dizer que certas verdades são demasiado incómodas para vir à superfície.