Heinrich von Kleist (1777-1811)Liberté Egalité FraternitéNo tabuleiro de xadrez, as mentiras e a hipocrisia não duram muito (Em. Lasker)Monty Python forever!

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agosto 2004

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Quinta, 26 Agosto, 2004

GOING UNDERGROUND: O filme "India Song" será exibido no cinema Ávila muito em breve, entre os dias 30 de Agosto e 1 de Setembro. Chegou o momento de nos retirarmos para o nosso covil preferido Até breve.


60 ANOS E UM DIA: Há 60 anos e um dia, o mais odioso dos símbolos, a cruz suástica, foi escorraçado da cidade que eu mais amo, Paris. Existem ultrajes que nem toda a felicidade do mundo consegue lavar por completo. A não ser que conte com ajuda do tempo, da dança, da poesia, das árvores e da voz humana.


SUPER LIGA 2004/2005: A União Desportiva de Leiria conta com os seguintes centrocampistas para a temporada que se avizinha: Paulo Gomes, Torrão, Otacílio, Hugo Cunha, Alhandra, Fábio Felício, Caíco, Faria, Nelson e Fangueiro. Aqueles que se dão bem com o silêncio e com a renúncia viajam por veredas estreitíssimas, mas acabarão por se sentar ao meu lado.


A POLÍTICA DOS AUTORES: Eurico de Barros, no "DN" de hoje, a propósito do filme "La Petite Lili" de Claude Miller:

«(...)um filme equidistante quer da aridez e da cabeça metida no rabo das realizações «arte e ensaio», quer da agitação descerebrada do cinema de «grande entretenimento»(...)»

Fechando os olhos ao estilo (mau mesmo para o seu nível habitual), Eurico de Barros declara assim o seu apoio ao antigo e persistente lugar comum da reconciliação entre as asperezas do autorismo (há sempre um "ismo" pronto a mostrar a sua cabecita quando dele precisamos) e as confortáveis delícias do cinema de grande público. Este é um mito que todas as fibras do meu ser rejeitam. Nenhum cineasta digno desse nome e do passado do cinema aceita temperar o seu impulso artístico com concessões aos supostos caprichos e predilecções de uma maioria silenciosa, acomodada e ávida de entretenimento. O desejo de conciliar e a media res são incompatíveis com a criação cinematográfica. Não existe meio termo capaz de, alegre e sadiamente, associar as virtudes da arte e do entretenimento num glorioso híbrido que titile com igual desenvoltura gregos e troianos, estetas e filisteus.
Alguém se atreve a sugerir a um compositor que produza música algures a meio caminho entre Emmanuel Nunes e Nel Monteiro? Claro que não. Entre as artes maiores, e por razões várias, só ao cinema falta libertar-se da tutela da indústria e do entretenimento.


PARA QUEM...: Nem o mais mundano evita a surpresa quando alguém confunde a banda de gaze finíssima que cobria os teus olhos com esse artigo da Constituição que diz «O Estado adoptará uma política tendente a estabelecer um sistema de renda compatível com o rendimento familiar e de acesso à habitação própria».
Os teus olhos, os teus olhos profundos e presentes.


PORTUGAL EM ACÇÃO: Na revista "Focus", pode ler-se uma portentosa reportagem sobre a previsível recta final do pontificado de João Paulo II (ou "JP2", pedindo emprestada a terminologia do Diário de Uns Ateus), e ainda (rufar de tambores, esganiçar da vozearia dos egrégios avós) sobre AS HIPÓTESES DOS NOSSOS CARDEAIS.
Não haja dúvidas: o esforço de recuperar a maltratada auto-estima lusitana conhece avatares catitas. Com que se poderia equiparar, em graus centígrados de ebulição patriótica, o supremo orgulho de ver um prelado português envergar as sandálias de São Pedro? Cinco golos cinco do fulgurante C. Ronaldo, com o respectivo inchar de torso? Um punhado de prémios Nobel mais uma medalha Shields para arredondar a conta? Uma sonda enviada a Júpiter, revestida com cortiça alentejana, tripulada por três latagões nados e criados algures entre Melgaço e Faro?
Mais um osso duro de roer para aqueles que julgam haver limites para o impudor humano.


Terça, 24 Agosto, 2004

FRAGMENTO DE UM DESABAFO:«Eu não pertenço a ninguém. Muito menos àqueles que julgam a sua sombra capaz de conter o meu corpo. Uma receita culinária é muito mais do que um elenco de preceitos ordenado. Vivemos num mundo repleto de significados. Alguns, por causa da doçura, embotam a minha língua. Nunca fui ungida. Nem sequer apontada a dedo quando numa taberna miserável. Ofereçam-me farelo de mistério, dêem-me pão para a boca. Estarei sentada ao canto. Quase de perfil.»
As frases são concisas. Quem foi que disse que a brevidade é uma virtude menor, Judite? Tu, ou um terceiro? E isso passou-se antes ou depois de te servires, como senha e queixume, do poema de Luís Miguel Nava em que na memória se fundem o tímpano e a pupila?


CURRICULUM VITAE: Recentemente, admiti desconhecer de todo o actor principal do filme "Triple Agent", Serge Renko. Um esforço de memória peso-galo, ou uma consulta breve ao Allocine, teriam sido suficientes para verificar que Renko tem já atrás de si uma carreira digna de nota enquanto actor de cinema. Tão pouco a sua colaboração com Rohmer é uma novidade, pois fez parte do elenco de "Les Rendez-Vous de Paris" (era ele o professor que percorria os jardins de Paris na companhia da renitente amante/amiga) e de "L'Anglaise et le Duc".
Fiquei também a saber que Serge Renko participou no assombroso filme de Anne-Marie Miéville "Lou n'a pas dit non" (invisível em Portugal, tanto quanto sei), que é de origem ucraniana, e que fez muito teatro.
Eu defendo que Renko é o mais empolgante e inteligente actor rohmeriano desde o Jean-Claude Brialy de "Le Genou de Claire" (com a possível excepção desse electrão livre chamado Fabrice Luchini). A sua interpretação em "Triple Agent" é magistral.


Segunda, 23 Agosto, 2004

HÁ QUALQUER COISA DE NOVO NO AR: Há qualquer coisa, de novo, no ar.


Domingo, 22 Agosto, 2004

CAUSAS DA MELANCOLIA: «Les causes évidentes de la mélancolie sont tout ce qui fixe, épuise et trouble ces esprits; de grandes et soudaines frayeurs, les violentes affections de l'âme causées par des transports de joie ou par de vives affections, de longues et profondes méditations sur un même objet, un amour violent, les veilles, et tout exercice véhément de l'esprit occupé spécialement la nuit; la solitude, la crainte, l'affection hystérique, tout ce qui empêche la formation, la réparation, la circulation, les diverses sécrétions et excrétions du sang, particulièrement dans la rate, le pancréas, l'épiploon, l'estomac, le mésentère, les intestins, les mamelles, le foie, l'utérus, les vaisseaux hémorroïdaux; conséquemment, le mal hypochondriaque, des maladies aiguës mal guéries, principalement la phrénésie et le causus, toutes les médications ou excrétions trop abondantes ou supprimées, et par conséquent la sueur, le lait, les menstrues, les lochies, le ptyalisme et la gale rentrée. Le dispermatisme produit communément le délire dit érotique ou érotomanie; des aliments froids, terrestres, tenaces, durs, secs, austères, astringents, de semblables boissons, des fruits crus, des matières farineuses qui n'ont point fermenté, une chaleur qui brûle le sang par sa longue durée et sa grande violence, un air sombre, marécageux, croupissant; la disposition du corps noir velu, sec, grêle, mâle, la fleur de l'âge, l'esprit vif, pénétrant, profond, studieux.»(J.-Fr. Dufour, "Essai sur les opérations de l'entendement humain", 1770; citado por Michel Foucault, "Histoire de la folie à l'âge classique".)


O CHEFE RECOMENDA...: ...um interessante blog brasileiro, o Papel de Rascunho, ao qual não falta poesia, em tradução ou no original. Atenção a um poema de Delmore Schwartz, poeta que goza de crédito ilimitado no nosso estabelecimento.


O NOSSO CREDO EM 6 MOVIMENTOS: Este reatar de actividade parece ser um momento oportuno para recapitularmos os pilares que sustentam a nossa actividade.
  • O Umblogsobrekleist (acrónimo oficial: 1bsk) é umblog cuja génese ocorreu na sequência de discussões sobre a encenação de uma peça de Kleist ("Pentesileia") em Lisboa. O objectivo principal era sondar a consistência das fronteiras entre o palco e o espaço urbano; e, numa fase ulterior, promover a sua silenciosa aniquilação. Abordar por meio de frases o malogro deste projecto continua a ser uma das nossas missões.
  • Existe uma conspiração a nível nacional, protegida por um sigilo severo. O fim desta conspiração não é o de derrubar os poderes vigentes, mas antes o de criar um Estado paralelo redundante e auto-sustentado, e o de reproduzir as instituições existentes sem com ela entrar em conflito. Bizarramente, os conspiradores superam, em número, os que estão "de fora"; isto não deixa de ser motivo de angústia.
  • As placas votivas que se amontoam junto ao pedestal da estátua do Dr. Sousa Martins (ao Campo Santana) seguem uma ordenação que contraria a aparência de caos. Tão pouco a direcção para onde parece olhar o Bondoso Doutor é obra do acaso.
  • A doçaria portuguesa é a melhor do mundo, por larga margem.
  • «Oh, este olho embriagado,/que por aqui vagueia como nós/e que às vezes/com espanto nos vê unidos.»(Paul Celan)
  • Portugal é uma República soberana, baseada na dignidade da pessoa humana e na vontade popular e empenhada na construção de uma sociedade livre, justa e solidária.



Terça, 3 Agosto, 2004

FÉRIAS: O 1bsk vai agora de férias. Voltaremos depois das férias. Gosto muito de férias. Boas férias para todos! (O colectivo.)




a mão de Jean-Claude Brialy e o joelho de Laurence de Monaghan, "Le Genou de Claire" (1970)
«Je sentais à la fois la simplicité du geste et son impossibilité»


A REDUNDÂNCIA DA MORAL: Em Rohmer, a moral raras vezes assume a forma de imperativo categórico, e nunca de tonitruante mandamento dirigido a um estado de coisas iníquo. Bem pelo contrário: o gesto decisivo, na sua brevidade, na sua fugacidade à escala humana, entra em surpreendente harmonia com o mundo; confunde-se com o senso comum, com o ruído de fundo da civilização, com a ordem doméstica dos fenómenos e dos vínculos.
Tocar no joelho da jovem em lágrimas, ou não tocar ("Le Genou de Claire"); deixar para trás a impertinente coleccionadora, ou não deixar ("La Collectionneuse); prosseguir a modesta aventura com a empregada da padaria, ou retomar a corte à favorita do destino ("La Boulangère de Monceau"). A decisão pode mudar uma vida, mas o seu lastro de ética pouco pesa, quando cotejado com a enormidade da cadeia de decisões, hesitações, prognósticos e especulações que a ela conduziram. E a constatação disto mesmo não chega sem amargura. As personagens rohmerianas são muito mais hábeis na elaboração do tecido narrativo do que na justificação dos seus elaboradíssimos e palavrosos meios pelos fins. Acreditam-se no meio de uma história repleta de encruzilhadas, quando afinal os caminhos possíveis, ao bifurcarem-se, acabam por desembocar na mesma clareira, vastíssima e demasiado amena.
O livre arbítrio existe, deveras, mas é estranhamente semelhante à providência e ao acaso.
E assim se conclui esta incursão pela obra de Rohmer.


O FETICHISMO É UMA COISA MUITO FEIA: As cenas nucleares do filme "La Femme de l'Aviateur" (1980) têm lugar no parque de Buttes-Chaumont, em Paris. As personagens de Philippe Marlaud e da sua cúmplice de ocasião (Anne-Laure Meury) perseguem o casal composto por Mathieu Carrière (o aviador do título) e por Haydée Caillot. Existirá um mistério? As evidências dizem "talvez"; a própria presença física e temporal do filme, mais ainda do que as frágeis suposições dos protagonistas, pronunciam um "sim" enfático.
Um verdadeiro fetichista não teria deixado de procurar os locais onde os detectives improvisados se sentaram, os trajectos que percorreram, o ponto onde travaram conhecimento com os turistas sino-americanos...
Eu limitei-me a tirar uns quantos retratos ao parque de Buttes-Chaumont, de que gosto muito.



O subtítulo deste filme, que faz parte do ciclo "Comédias e Provérbios", é «On ne saurait penser à rien».


SOBRE LARKIN: Jorge Gomes Miranda, na última edição do "Mil Folhas", a propósito da edição de "Janelas Altas", de Philip Larkin, pela Cotovia:

«Ao recusar a atitude tradicional que fazia do poeta, colocado na situação de profeta ou vidente, um intérprete das sublimidades do coração humano, o inglês Philip Larkin(...)»

Parece-me discutível falar de "tradição" a propósito da atribuição ao poeta de supostos poderes proféticos; pelo menos em Inglaterra. Esta alegada "recusa" teve muito mais de continuidade e de comunhão com um senso comum arreigadamente britânico do que de acto revolucionário. O século XX literário inglês teve muito, mas mesmo muito pouco a ver com sublimidades de qualquer espécie.

«(...)na afirmação de um novo sentido de realidade para a expressão poética, distinto da afectação de atitudes e de tons em que continuam a obstinar-se certos poetas que persistem em ver-se como seres excepcionais, incapazes de se misturar com a realidade comum(...)»

Se não tivessem persistido em ver-se como seres excepcionais, que contributo para a literatura teria sido o de Rimbaud, Lautréamont, Valéry, Pessoa, Pound, Char? De entre todas as maneiras possíveis e legítimas de elogiar um grande poeta como Larkin, será mesmo necessário escolher uma que condene ao anátema a vontade de ver para além do quotidiano, da tigela de cereais, da barraca das ferramentas e dos graffiti na paragem de autocarro?
E o que entenderá JGM por "afectação de atitudes e tons"? O estilo? A ousadia formal? As metáforas? (Tudo coisas em que, por sinal, a obra de Larkin não é tão indigente quanto isso.)

«Numa pose franca e directa os poemas de "Janelas Altas" são (...) corajosos no modo como em termos de linguagem não erigem nenhuma barreira entre o seu território e o dos leitores.»

Ah, fazia falta o mito da transparência. O poeta que abdica generosamente do seu estatuto de intermediário, indutor de opacidades, para dar conta das coisas tal como elas são. Não existirá solução que seja alternativa quer a "erigir barreiras" (o que de facto não é coisa que se faça) quer à procura de uma utópica (e pouco interessante) transposição directa das coisas do mundo em versos? Com certeza que há. E a poesia é isso.

«(...)a poesia do autor de "Aubade", ao transmitir a força de um sentir pessoal através do sentido de testemunho comunitário, contribuiu significativamente para um sentido colectivo dos anos de pós-guerra(...)»

Aqui estou de acordo, e parece-me ser esta uma justificação muito mais concisa e consistente para o sucesso dos poemas de Larkin junto do público inglês.

«Larkin é fundamentalmente um poeta sério, jamais trivial(...)»

Não me surpreenderia que Larkin fosse o primeiro a reivindicar essa mesma trivialidade.

À parte os pontos específicos que levantei, não discordo frontalmente daquilo que JGM expõe. Contudo, incomoda-me ver o nome de um poeta que admiro (moderadamente) ser invocado em nome de uma distinção que se me afigura falsa e perniciosa: a distinção entre uma poesia que vive do artifício e da pose e uma poesia "autêntica", dirigida aos problemas das pessoas, livre de afectação. Larkin foi um grande poeta por diversas razões, que incluem: uma excelente técnica, a capacidade de explorar de maneira fecunda um leque de interesses restrito, um sábio equilíbrio entre vivências pessoais e fragmentos de memória colectiva. Porém, se olharmos para a descendência poética de que Larkin e outros elementos do grupo "Movement" (Gunn, Kingsley Amis) foram indirectamente responsáveis, o optimismo não pode estar na ordem do dia. A poesia inglesa aparece hoje dominada por débeis imitadores, que erigiram a mesquinhez do "aqui e agora" e a rasteira transcendência do quotidiano como temas quase exclusivos. A "dourada mediocridade", dotada da sua carta de alforria poética, entrou em ressonância com a natural desconfiança dos literatos ingleses pelo sublime e pelo lirismo, e o resultado é um doloroso impasse.
Saúde-se o artista, mas sem nunca abdicar do olhar crítico sobre aquilo que ele veio a representar.


MORA ALI: A Ale das Torneiras tem postado como uma douda, e a consequência natural (?) dessa hiperactividade parece ter sido a criação de um novo blog, o Moro Aqui. Residência estival ou algo de mais permanente? Seja qual for o caso, foi directamente para os favoritos, em menos tempo do que leva a dizer "Morgado de Fafe em Lisboa".


CRISTIANO RONALDO EM TRONCO NU - CRISTIANO RONALDO TORSE NU - CRISTIANO RONALDO BARE TORSO: Será desta que ultrapassamos a barreira de um milhão de visitas num só dia?