Heinrich von Kleist (1777-1811)Liberté Egalité FraternitéNo tabuleiro de xadrez, as mentiras e a hipocrisia não duram muito (Em. Lasker)Monty Python forever!

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dezembro 2003

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Terça, 30 Dezembro, 2003

VOXPOP:

- Quem troca tempo por uma...
- ...quadra!
- Numa de versos?
- Desses que se alimentam de fronteiras.
- E se eu tocar aqui?
- Dói.
- "Mais do que ontem, menos do que amanhã"?
- Mas não servirei.
- Não servirás?
- Não servirei.
- E quem troca tempo por um...
- ...soneto!
- Em boa hora!
- Gosto de sonetos.
- Desses que...
- Desses que ignoram a chuva e o solstício.
- E quando toco aqui?
- Dói.
- Dói muito?
- Dói.
- Mas não servirás.
- Não servirei.
- Não servirás?
- Não servirei.
- E quem troca tempo por uma...
- ...endecha!
- Por uma endecha?
- Sim. Das luzidias.
- Eu, por exemplo.
- Experimenta este recôndito aqui.
- Aqui?
- Aí mesmo.
- Dói?
- Dói.
- Mas não servirás.
- Não servirei.
- Quem troca tempo por uma...
- ...redondilha!
- As redondilhas costumam ter saída.
- Sobretudo quando oblíquas e aos 4 ventos.
- Dói quando toco aqui?
- Dói.
- E não servirás?
- Não servirei.
- Não servirás?
- Não servirei.
- Não servirás?
- Não servirei.
- E quem será que troca tempo por uma...
-...écloga!
- Ah, uma écloga.
- Escrita com sinceridade.
- Quem resiste a uma écloga?
- Ninguém dotado de alma e juízo.
- E quando toco aqui, dói?
- Dói.
- Mas não servirás, não é?
- Não servirei.
- E quem troca tempo por um...
- ...ditirambo!
- Eis a questão.
- A tremenda e inútil questão.
- Já experimentei tocar aqui?
- Ainda não.
- Dói?
- Dói.
- Muito?
- Dói.
- E servirás ou não?
- Não servirei.
- Não servirás?
- Não servirei.



Domingo, 28 Dezembro, 2003

ÇA BOUGE!: Um cidadão que se dirija à secção de música popular francesa na FNAC (que teria obrigações especiais neste capítulo) dificilmente deixará de ficar surpreendido com a escassa ousadia da selecção. Nos destaques, encontram-se sobretudo nomes como Brassens, Piaf, Brel, Trenet, Françoise Hardy. Ou seja, quase exclusivamente cantores que atingiram o seu auge nos anos 60, como se a canção francesa se tivesse finado com Serge Gainsbourg. As figuras mais recentes que merecem posição de realce, como Yann Tiersen e Carla Bruni, devem-no claramente a razões colaterais à música, por mais excelentes que sejam os seus dotes.
E no entanto... Um rápido diagnóstico da música popular francesa contemporânea desmente, de maneira mais do que categórica, este panorama de suposta estagnação. Abundam os nomes e as propostas recentes, que testemunham de uma efervescência criativa notável. No domínio da canção em moldes mais convencionais, encontramos o incontornável Benjamin Biolay, Keren Ann, Coralie Clément, Vincent Delerm. Em termos de bandas, podem-se citar os Holden, os originalíssimos Cornu, e, numa veia mais "bal musette" dopada com ironia e doses cavalares de inventividade verbal, os Ogres de Barback. Os Louise Attaque representam a faceta rock Made in France. Tudo isto sem esquecer o excêntrico Mathieu Chédid, conhecido singelamente por "M". E muitos outros poderiam ser trazidos à baila.
Transposta para o universo da música pop anglo-saxónica, esta situação equivaleria a um domínio de nomes como Paul Simon, Beach Boys, Elvis Presley e Cliff Richard, sendo os CDs de figuras como Beck, Tanya Donelly, Rufus Wainwright, Radiohead e Divine Comedy ignorados ou, na melhor das hipóteses, simplesmente privados de qualquer promoção.
O desenvolvimento e popularização da música do mundo, nos últimos anos, foi sem dúvida um fenómeno positivo, e um importante contributo para o combate contra a obscena hegemonia da música cantada em inglês. Mas é lamentável que esse fenómeno se confine, quase sempre, à música de cariz étnico. No que toca à divulgação daquilo que culturas estrangeiras têm para oferecer no domínio da música popular, o panorama é desolador. A minha escolha do exemplo francófono, para além das afinidades electivas do costume, ajuda a perceber a perversidade da situação: tratando-se de uma cultura cujas afinidades históricas com a portuguesa são inegáveis, seria de esperar uma acessibilidade muito mais fácil. Quando se fala de universos culturais mais longínquos, aí, encontramo-nos claramente em pleno zero absoluto.


PYNCHON THOMAS PYNCHON



«Many readers take the lingering ambiguities to signal that The Crying of Lot 49 is a postmodern text, more interested in revealing the constructed nature of consensual reality than in mimetically reflecting a world that exists independent of our perceptions.»(*)

Adoro ouvir-te pronunciar estas palavras.

E a tal ponto o adoro que dois meses e outras tantas semanas é tempo demais para passar sem este glorioso ramalhete de labiais, e outras velares. Fui à agência de viagens, que fica ao pé de minha casa, do outro lado da rua, e pedi um bilhete de ida e volta em classe económica. A agente de viagens foi muito simpática, e cheirava a feno húmido e a sumo de romã, e desejou-me boa viagem com 18% mais sinceridade do que o habitual. Apanhei um táxi até ao aeroporto, cuja arquitectura me fez lembrar o grande Isambard Kingdom Brunel. A viagem foi isenta de precalços e de poços de ar. Uma conspiração de corpos e tráfego atrasou o momento em que bati à porta, com o braço não dominante. Corremos as cortinas, e adoptei a posição de espera, repouso e súplica número 36.

«Many readers take the lingering ambiguities to signal that The Crying of Lot 49 is a postmodern text, more interested in revealing the constructed nature of consensual reality than in mimetically reflecting a world that exists independent of our perceptions.»

Mas em que espécie de amontoado de espuma, farrapos e sumaúma se transformaram as nossas esperanças? Foi quando as trevas passaram a vir em embalagens de meia-dúzia. O figurino de cada despedida nunca sofria variações. Sílabas roucas num vestíbulo mal iluminado. Nuvens talvez demasiado cinzentas. Lacunas dotadas de peso e timbre. Muito mais tarde, mudava-se de calendário, e tudo o que de opressivo existe numa nova cidade metia conversa, abria o baile com maliciosa convicção. Saliva com gosto a sangue, como mandam os cânones.

«Many readers take the lingering ambiguities to signal that The Crying of Lot 49 is a postmodern text, more interested in revealing the constructed nature of consensual reality than in mimetically reflecting a world that exists independent of our perceptions.»

Esta não é uma verdade sobre o Mundo. Um lugar sobre a secretária, ao lado do pisa-papéis, assenta-lhe bem. Ligeiramente deturpada e corrompida, pode também ser encontrada num cacifo da Gare de Lyon. Todos os pincéis de pêlo de marta da província foram confiscados, numa tentativa desesperada de evitar a sua disseminação. Mas só um balbuceio de fazer estremecer muralhas foi capaz de lhe restituir a sua transparência.

«Many readers take the lingering ambiguities to signal that The Crying of Lot 49 is a postmodern text, more interested in revealing the constructed nature of consensual reality than in mimetically reflecting a world that exists independent of our perceptions.»

O dia estava claro e morno. Dirigi-me a um lugar onde havia gente disposta a escutar-me. Saudei, fiz uma pausa, e disse as palavras.

«Many readers take the lingering ambiguities to signal that The Crying of Lot 49 is a postmodern text, more interested in revealing the constructed nature of consensual reality than in mimetically reflecting a world that exists independent of our perceptions.»

(*)N. Katherine Hayles, in "New Essays on The Crying of Lot 49", Patrick O'Donnell (ed.), Cambridge University Press, 1991.



ADENDA A BORGES: Nem só os espelhos e a cópula são abomináveis. Há também as pessoas que dão largas ao hábito de bichanar para o vizinho, nas salas de cinema.


A PRAGA: A praga chegou ao metropolitano de Lisboa, e em força. A praga, se bem que não seja uma praga bíblica propriamente dita, parece denunciar uma qualquer violação de mandamento ou excesso idólatra, a ajuizar pela sua amplitude e virulento grau de nocividade. A praga assume a forma de músicos ambulantes, dotados de pandeireta, acordeão e outros instrumentos, que, sem dizer água-vai, penetram nas carruagens de metro, procuram um posicionamento central, e entregam-se à sua actividade cacofónica durante duas ou três estações, após o que solicitam gratificação monetária. O seu repertório é limitadíssimo e previsível. As suas detestáveis melopeias, cujo valor estético se situa apenas um ou dois furos acima da versão de arrotos da "Macarena", estão para a verdadeira música como as embalagens de pasta de sardinha para barrar o pão, que nos impingem nos restaurantes, estão para a gastronomia. Os transportes públicos não serão local onde seja de exigir silêncio; admito-o. Contudo, nada justifica ou desculpa tão abominável tortura timpânica. Se outros argumentos não existissem, a colocação em causa do metro como local privilegiado para uma leitura tranquila seria suficiente para invalidar a legitimidade cívica de tais violações do espaço sonoro. O que está ao nosso alcance fazer para limitar a propagação desta praga? Para além dos telefonemas indignados às autoridades competentes, a atitude mais recomendável é recusar o óbolo. Não contribuam para encorajar a prevaricação, mesmo que a isso os mova a compaixão, o hábito, ou o alívio que se segue ao fim da provação. Comprem, em vez disso, um CD da Deutsche Grammophon, e verão como o investimento será rapidamente amortizado.


Terça, 23 Dezembro, 2003

O colectivo do 1bsk deseja aos seus clientes, leitores e amigos um Feliz Natal, cheio de tranquilidade e alegria. Para descanso do pessoal, a loja estará encerrada até ao próximo dia 27, a não ser que a urgência da situação exija um romper de trégua mais prematuro.



KLEIST, RILKE, MESMO COMBATE: Em carta à princesa Marie von Thurn und Taxis-Hohenlohe, a quem as "Elegias de Duíno" são dedicadas e oferecidas, Rilke refere-se ao "Ensaio sobre as marionetas", de Kleist, como "uma obra-prima que não cessa de me encher de espanto". Na Quarta Elegia, existem diversas passagens que se inspiram explicitamente nas considerações kleistianas sobre a Graça e sobre o movimento dos fantoches. Por exemplo (versão portuguesa de Maria Teresa Dias Furtado):

Recuso estas máscaras só meio preenchidas,
prefiro um fantoche. É pleno. Quero
ficar ao pé do corpo do boneco e do cordel e do seu
rosto de aparência. Aqui. Diante de tudo.
Mesmo se as luzes se apagarem e me
disserem: acabou(...)


Ou ainda, mais adiante:

(...)quando me disponho
a esperar diante do teatro de fantoches, ou antes,
a olhar para ele tão integralmente, que, por fim,
para recompensa do meu olhar, um Anjo
aparece, actor que os bonecos puxa para o alto.
Anjo e fantoche: finalmente começa o espectáculo.
Então se unifica o que continuamente
dividimos, ao existirmos.


A razão está com ele. A razão assenta bem àquele que, tendo escolhido para si o papel de espectador dos espasmos do Mundo, prefere a marioneta ao actor em carne e osso. E antes fosse uma banal questão de coincidência entre alma e centro de gravidade! Há também a brusca evidência lírica da matéria inerte; e, sobretudo, a sublime ausência de remorso, a impassibilidade assumida como simples atributo, quase virtude.


LISBOA MAGNÍFICA E EXTRAORDINÁRIA: O facto de o pedestal da estátua do Actor Taborda (no Jardim da Estrela) ser oco, e de a cavidade ser acessível a quem souber pressionar nos sítios certos, de maneira a fazer funcionar um mecanismo de roldanas e alavancas, pode causar confusão e perplexidade. Um princípio de explicação passa pela revelação de que este espaço comunica com uma intrincada arborescência de galerias subterrâneas que percorrem o subsolo de Lisboa, e cujo dédalo só a espaços coincide com a rede de esgotos. Alguns dos túneis são amplos e regulares, noutros avança-se a custo; nalguns, degraus ou sulcos praticados na rocha facilitam o progresso, ao passo que noutros só os destemidos se aventuram. Ocasionais reentrâncias abobadadas, à maneira de casamatas, convidam a alguns momentos de repouso; algumas, pela sua dimensão excepcional, podem albergar vários homens adultos, e até mesmo servir de local de reunião.
A origem deste labirinto de galerias, largamente por explorar, é fonte de acesa controvérsia entre os olissipógrafos. Admite-se que possa ter servido de palco às querelas sangrentas entre os adeptos do zodíaco sideral e do zodíaco astral, que duraram mais de três séculos. Parece certo que uma irmandade de acolhimento e apoio a judeus relapsos se serviu abundamente desta topografia subterrânea. Segundo alguns estudiosos, várias seitas dissidentes de inspiração templária recorreram a estes túneis para acolher os seus ritos. Muito provavelmente, as galerias foram sendo escavadas ao longo dos séculos, sem obedecer a um plano unificador, e ao sabor de urgências e conjunturas pontuais.
Se o seu historial é motivo de debate, o seu emprego actual, esse, está envolto no mais denso mistério. Que dizer dos relatos, que se multiplicam entre funcionários da Câmara, e que dão conta de cânticos, de aparições e do desaparecimento de objectos necessários ao seu ofício? Que pensar dos sinais de presença humana recenseados, periodicamente, em espaços que poderiam muito bem servir como ponto de congregação: cartas de jogar, cinzas de madeira rara, manchas de um líquido acastanhado? Bem reduzida será a margem de manobra daquele que decidir dar rédea solta ao seu espírito inquisidor.
A estátua do actor Taborda é o único ponto conhecido de contacto directo entre este mundo subterrâneo e a superfície, mas considera-se mais do que provável que existam outros por descobrir. A sua função parece ser a de caixa do correio. Seja quem for que dela se serve, já estará por certo ciente de que toda e qualquer mensagem que nela é deixada se arrisca a cair em mãos alheias. Suspeito até que alguém use este meio para induzir em erro aqueles que se julgam prestes a descobrir um elemento crucial para a resolução do enigma (se é que existe enigma).
Fiquei a dever a esta fonte a revelação de que Rainer Maria Rilke se inspirou em Kleist para uma passagem da Quarta Elegia (ver post seguinte).


HONNI SOIT QUI MAL Y PENSE: Na casa de banho dos homens da Cinemateca existem oito urinóis, mas apenas um secador para as mãos. Abstenho-me de especular sobre a razão de ser desta desproporção, mas permito-me assinalar o conflito entre processamento em paralelo e processamento em série que daí resulta. Em alturas de grande afluência, a consequência pode ser o atraso do cinéfilo com preocupações de higiene, e até mesmo a chegada à sala após o começo da sessão. E em certos filmes, como por exemplo "Touch of Evil", tal seria uma verdadeira lástima.


Domingo, 21 Dezembro, 2003

CINEFILIA E BOM SENSO: Com um atraso que nem a proverbial lentidão dos meus pombos-correio justifica, aqui deixo alguns comentários ao que escreveu João Lopes, a propósito do filme "Elephant", acerca dos antagonismos Europa/EUA e arte/indústria ao nível do cinema ("DNmais", 15/11/2003). Tais assuntos são recorrentes nas crónicas de JL, com um calor e veemência que me parecem ter vindo a aumentar («(...)bastaria para nos fazer compreender como mentem a «crítica» e o «jornalismo» que reduzem o cinema americano a uma colecção de grandes produções, de grandes estúdios e muitos efeitos especiais.»). Entendo que, se é certo que maniqueísmos redutores são de evitar por parte de todo aquele que se preocupe mais em demonstrar e argumentar do que em lançar punhados de areia para olhos, a relutância em dividir o mundo em branco e preto, bom e mau, não deve ser adoptada à custa da negação das evidências. Chamo evidências a conclusões que me parecem incontestáveis, para lá de qualquer opinião ou subjectivismo. Por exemplo: parece-me evidente que a ideia do cinema como meio de expressão artística é uma invenção europeia, com uma linhagem ilustre de que fazem parte os formalistas soviéticos e os surrealistas franceses, e que atingiu o seu ponto de não retorno com o advento da cinefilia, algures na década de 50, que permitiu a criação de um ponto de vista crítico e fecundo sobre as técnicas e modos de expressão cinematográficos. Parece-me igualmente incontestável que a própria cinefilia, pelo menos a sua vertente reflexiva e promotora da diversidade, nasceu na Europa, com epicentro na margem direita parisiense. Por fim, não vejo como se possa negar que, de então para cá, a grande maioria dos cineastas que, por esse mundo fora, procuraram perseverar numa via de exploração da vertente artística do cinema, se voltaram para a Europa, e em especial para França, como farol inspirador e, não poucas vezes, como fonte de financiamento.
JL apresenta o facto de a cadeia de televisão norte-americana HBO ter produzido "Elephant", objecto obviamente atípico e, pelo menos pelos padrões americanos, fortemente experimentalista, como argumento que pretende ajudar a deitar por terra a imagem de um cinema americano conformista e avesso a ousadias. Eu acho esplêndido que a HBO tenha entrado com dinheiro para um filme como "Elephant", mas faço notar que, por cada caso semelhante, existe a contrapartida de um realizador como David Lynch que, nos últimos anos, tem filmado em grande parte graças a financiamentos europeus. Outras questões que se me colocam: qual foi a visibilidade de "Elephant" nas salas dos EUA? E, se é certo que um realizador como Gus Van Sant consegue perseverar na sua senda de marginalidade controlada, que hipóteses teriam artistas como Garrel, Eustache, Tarr, Tarkovsky, Paradzhanov, Schroeter, Duras, Sokurov, Monteiro, Herzog, esses sim, autênticos electrões livres, de filmar com a regularidade e liberdade criativa com que podem ou puderam fazê-lo na Europa?
Quando ouço ou leio menções à suposta "diversidade" do cinema americano, ocorre-me aquilo que Peter Greenaway disse a propósito de Scorsese, realizador aclamado de maneira quase unânime, e que eu admiro. Segundo Greenaway, aquilo que o autor de "Taxi Driver" faz é o mesmo que fazia Griffith, embora com outros meios, outra bagagem cinematográfica, e outra riqueza de processos narrativos. A "diversidade" do cinema americano não abarca mais do que uma estreitíssima faixa do leque de possibilidades, já exploradas ou por explorar, que o cinema oferece. E não é do outro lado do Atlântico que será de esperar o mínimo sopro revolucionário que ajude a realizar o potencial da arte que marcou o século XX.


A LER...: Merece leitura atenta a intervenção recente do Almocreve das Petas a respeito de um assunto na ordem do dia: a laicidade e a exibição de símbolos religiosos nos espaços públicos. Concordo, na generalidade, com aquilo que se lê nesse artigo (que, por sua vez, respondia a um comentário publicado no Barnabé), e permito-me citar:

«o espírito da "laicidade" pretende, a partir de um conjunto de regras comuns mínimas, estabelecer um espaço "conversável" no tecido escolar, afinal garantia de liberdade, e portanto, um espaço "protegido" pelo Estado, para além do direito à diferença que na esfera privada se reconhece. Não se trata de dar lugar a um qualquer guetto, mas tão só assumir que a "laicidade" contribui para a nossa liberdade, até pelo sentido que, se se permitisse que as regras fossem estabelecidas pelo diversos clientes escolares porquê então a aprendizagem? Que lugar do pedagógico como "trabalho" de compreensão e aceitação da diversidade e do multiculturalismo?»

Não conhecendo ainda os termos exactos do relatório Stasi nem da reacção do presidente Chirac, reservo a minha opinião sobre os desenvolvimentos e debates mais recentes, mas deixo duas ou três achegas. Em primeiro lugar, acho sintomático constatar que todas as opiniões que li, contrárias à legislação que restringe os símbolos religosos nas escolas, começam por reconhecer a gravidade do problema (derivas comunitaristas, sobreposição de lógicas confessionais à primazia da Lei e do Estado, fundamentalismos...), para logo a seguir exprimirem cepticismo perante uma solução interventiva e autoritária, mas sem proporem qualquer alternativa realista. Nada disto contribui para sacudir a minha convicção de que o problema da laicidade e da gestão das heterogeneidades culturais e religiosas das sociedades contemporâneas só está a ser encarado com seriedade em França, ao mais alto nível; ao passo que outros governos se contentam com olhar para o lado, e pronunciar discursos de circunstância, tudo acompanhado por doses maciças de paninhos quentes. A França tem a vantagem de possuir uma matriz ideológica, a República, com mais de dois séculos de existência, que serve de contexto e enquadramento ideológico; e a isto vem acrescentar-se uma tradição de debate e confronto de ideias que, na minha opinião, não tem paralelo na Europa ocidental.
Em segundo lugar: parece-me duvidoso o argumento segundo o qual legislar contra lenços islâmicos, crucifixos e kippas nas escolas públicas se arrisca a fomentar a criação de ghettos. Uma moça que se apresenta numa aula com a cabeça tapada por um lenço; uma moça que não frequenta as aulas de Educação Física por imposição dos pais; um jovem que se recusa a admitir que o professor discorra sobre as teorias de Darwin, por achar que colidem com os seus sentimentos religiosos. Tudo isto são fenómenos que, já de si, denunciam uma lógica comunitária e de formação de ghettos. O que se pode esperar da esfera pública senão uma insistência nesse propósito fundamental que é a Integração? Legislar em favor de uma perspectiva integradora, e contra a expressão de particularismos religiosos, pode ou não ser eficaz, mas tem o mérito de transmitir uma mensagem de supremacia absoluta dos princípios do interesse comum, da igualdade e da tolerância perante valores comunitários de qualquer ordem. Na ausência de uma mensagem deste cariz, não vejo como é que os problemas ligados a clivagens culturais e religiosas podem deixar de se agravar.
Por fim: a legislação é, primordialmente, uma expressão de intenções, e não quer dizer que a lógica que passará a imperar, na resolução deste tipo de problemas, será uma lógica do constrangimento e do autoritarismo. O que tem sido largamente omitido é que, em França, prevalece um espírito de mediação social, a diversíssimos níveis, que é, infelizmente, largamente alheio à realidade portuguesa. Por cada caso extremo de alunas que são expulsas de estabelecimentos de ensino por se obstinarem a usar lenços, existirão centenas de situações em que o bom senso prevalece, graças a conversações, intervenções junto dos encarregados de educação, etc. Por mais que se queira fazer passar a imagem de uma República rígida e castradora, capaz de colocar um agente (com ou sem barrete frígio) à entrada de cada escola com a missão de detectar prevaricadores, um novo quadro legislativo terá como efeito principal clarificar a posição do Estado e separar mais finamente as águas. Estou convencido de que os casos verdadeiramente conflituosos e insanáveis serão pouco numerosos. Espero não me enganar.


ANTI-SISTEMATIZAÇÃO DAS PERSONAGENS SHAKESPEAREANAS (HOMENAGEM A J.L. BORGES):As personagens de William Shakespeare dividem-se nas seguintes categorias:
  • As merecedoras de piedade.
  • As heróicas.
  • Aquelas que a ambição cega.
  • As que têm um confidente, perante o qual usam, contudo, de uma parcimónia estudada.
  • As que se chamam "Malvolio".
  • As que são comparáveis a um fenómeno atmosférico.
  • As que só falam na 2ª cena do 2º acto e na 3ª cena do 4º acto.
  • As que pertencem à aristocracia.
  • As traiçoeiras.
  • As que sofrem um fim violento às mãos de alguém do seu próprio sangue.
  • Aquelas que dizem: «I say thou liest, Camillo, and I hate thee;/Pronounce thee a gross lout, a mindless slave,/Or else a hovering temporizer that/Canst with thine eyes at once see good and evil,/Inclining to them both.»
  • As que são acusadas de cobardia.
  • As que intervêm numa peça dentro da peça, mas a contragosto.
  • As que mencionam o nome de um mamífero quadrúpede.
  • As personagens plebeias.
  • As personagens históricas.
  • Aquelas que bajulam para alcançar os seus fins.
  • As pouco conseguidas do ponto de vista literário.
  • Aquelas cujo número de falas é múltiplo de 7.
  • As que cantam.
  • Todas as outras.



A BOA LUTA: O Klepsýdra é um blog utilíssimo e muito bem escrito, que discute assuntos científicos com oportunidade e óbvio conhecimento de causa. Apreciei particularmente o artigo sobre Galileo e sobre a famigerada referência às "raízes cristãs" da Europa, que alguns gostariam de inserir na futura Constituição europeia. O invulgar acento agudo no "y" é um aspecto valorizador adicional. Perante tudo isto, a decisão de acrescentar este aos blogsdomelhorio é fácil de tomar, pecando apenas por tardia.


Quinta, 18 Dezembro, 2003

PROBLEMA DO DIA:

  a b c d e f g h  
 8   8 
 7   7 
 6   6 
 5   5 
 4   4 
 3   3 
 2   2 
 1   1 
  a b c d e f g h  


Jogam as negras, e dão mate em 2 lances.




DE COMO A ARTE NÃO SE EXPLICA, AI ISSO É QUE NÃO:Certo dia, ao passar diante de uma padaria, Judite reparou num dos cartazes que tinham sido elaborados com vista à estreia da peça "Pentesileia", de Kleist, num passado não demasiado longínquo. Teria sido optimismo a mais, ou um qualquer saracoteio de astúcia, que os tinha levado a imprimir aqueles cartazes, e distribuí-los pelo comércio local? Em qualquer caso, urgia fazê-los desaparecer. Judite aproveitou para comprar um pão de forma. O útil e o agradável. Mas por que ordem? A proprietária era risonha, mas também dada a enternecimentos que eram outros tantos sintomas de falta de à-vontade com os ângulos agudos da vida. Quis saber coisas sobre a peça. Judite tentou mudar o rumo da conversa, fingindo ter detectado um erro no troco.

- Aposto que é uma história de amor.
- Pode-se dizer que sim - anuiu Judite, sem pestanejar. - É uma história de amor.
- Quem são os amantes?
- Um guerreiro e uma guerreira, de campos opostos.
- E acaba bem? Espero que sim!
- Acabar bem? Não, lamento mas não acaba bem. Mesmo nada bem. Se há coisa que não se possa dizer é que acaba bem. Acama pessimamente. Não poderia acabar pior.
- Ah, isso é que é pena.
- Minto. Poderia acabar pior. Afinal de contas, o guerreiro recupera do desgosto, e contribui decisivamente para a conquista de Tróia.

Mas Judite não tem tempo para conversa de comadres. Aproxima-se a hora de se dirigir a um ponto bem preciso da cidade, para ser assediada e arrastada para uma aventura estranhíssima: uma parte de esoterismo, uma parte de cobiça humana, uma parte de quotidiano.


Quarta, 17 Dezembro, 2003

REVISTA SEMANAL DE BLOGS IMAGINÁRIOS:

  • O Do Atlântico ao Morais é um blog a seis mãos, sem contar com os três heterónimos, dois ortónimos façanhudos e um fogo-fátuo. A relva é rasteira, as colinas são pontiagudas, o sofá está no meio da sala. O tom é sibilino e negligente.
  • O Nada Me Prende a Nada desafia o Três Vírgula Catorze para um duelo.
  • O Três Vírgula Catorze aceita o duelo, e permite-se escolher as armas (pistoletes) e o local (um recanto sombrio do Bois de Boulogne). Escutam-se apupos de protesto contra tamanha falta de originalidade.
  • O garboso escriba do Mikmik desloca-se a uma piscina municipal, em busca de um homem de fartos bigodes cuja atitude lhe pareceu suspeita. Infelizmente, tem lugar nesse mesmo dia um torneio de terceira idade. No meio da multidão, a presa consegue escapar-se.
  • O Português de Classe Média repete a palavra "chinelo" 360 vezes, tendo o cuidado (louvável) de precisar que se trata do chinelo do pé esquerdo.
  • O Zut'Alors! divulga um verso secreto, encontrado no fundo de uma mochila abandonada no metro.
  • O Berbigões & Falocratas faz a sua revista semanal de blogs imaginários.
  • Aquilo que move o Estado das Loisas é fazer um levantamento de locais lisboetas aptos a sustentar conspirações, intrigas e conjuras, e das respectivas probabilidades e verosimilhanças.
  • O Scardanelli divaga sobre a Política Agrícola Comum, e sobre as influências de Locke nas aventuras do Batman.
  • O Purgatório de Algodão Doce enumera e descreve os ossos do metatarso.
  • O Engenheiro António Manuel Coelho dos Santos dedica-se ao anil, que é associado a uma noite ao relento por baixo de uma ponte pênsil.
  • No Capitão Meu Capitão, um bestiário do inomeável.
  • No Aguaduto, memória de crinas de cavalo.
  • No Agora e Assim, ruído de passos.
  • No Década Sitiada, um charco de saliva.



TERCEIRO FARRAPO DE VESTIDO DE NOITE DE PALAVRAS A PROPÓSITO DE "INDIA SONG": ...como se nas vozes se delegasse o melancólico ofício da explicação, do comentário...
...como se o descalabro do sentido merecesse timbre, um semilíquido laconismo.
De que lhes serve um tapete sumptuoso sem os respectivos cacos de cristal?
Como se às imagens, como castigo por terem chegado em último lugar ao baile da Criação do Mundo, lhes coubesse o peso de mostrar aquilo a que as palavras se recusam.
(Recusam, e ninguém as obriga a nada.)
...o peso, a ponderação, a curva da espinha, a única gota de suor disputando primazias à monção...
Papéis distribuídos. Papéis que não dispensam um certo cambiante de pompa.
E ainda existe quem peça um desfecho, perante tudo o que de húmido e de... áspero? Posso dizer "áspero"?
Ninguém obriga as palavras a nada. Mas como, não sendo assim?
Alguma vez se deixou de ouvir aquilo que se começara a ouvir?


VEREDAS: Conhecia este filme de um único visionamento, que me deixara recordações imprecisas e demasiado esparsas. Este reencontro trouxe certezas e um caudal manso de deslumbramentos. Falar em "obra-prima", vindo o filme de quem vem, seria uma ociosa redundância. Limito-me a dizer que "Veredas" é um poderoso e fulgurante cruzamento entre vários universos de Monteiro: o dos contos populares (revisitado no sublime "Silvestre", mas também nas três curtas que realizou para a RTP); o da crítica social; o da errância através de geografias, vinhetas e alusões; o das intertextualidades, enfim (imponente encenação das "Euménides" em plena planície alentejana, textos de Maria Velho da Costa belos até ao limiar da dor). É portanto uma obra charneira, mas também uma obra que não requer inserção em contexto ou filmografia alguns para merecer todos os elogios e toda a admiração. Espaço híbrido e bastardo, onde convivem e competem a narrativa e a elipse, a história (muito) recente e a fábula, "Veredas" molda-se a si próprio como monumento de ética e de beleza plástica; ou seja, de cinema.
(E que soberba ideia será pedir o DVD ao Pai Natal!)


HAVE BLOG, WILL POST: Já que acabei por não ir ver "À Flor do Mar", pelo menos tentarei aproveitar o tempo com meia dúzia de diatribes, em jeito de sermões adequados aos tempos bizarros que atravessamos.


Terça, 16 Dezembro, 2003

NA ENGORDA: A coluna dos blogs favoritos está mais nutrida! A visitar, sem moderação.


JURISPRUDÊNCIA: De leis pouco percebo, mas ouso opinar que um indivíduo como Saddam Hussein, com os antecedentes que lhe são conhecidos, mereceria, no mínimo, termo de identidade e residência. Tudo dependerá do juiz. Respeitemos a separação dos poderes!


O QUE FAZ A POLÍCIA?: No Pingo Doce, as empregadas das caixas registadoras exerciam a sua função sem o respectivo barrete de Pai Natal.


Domingo, 14 Dezembro, 2003

LEITURAS: "O Nariz", de Nikolay Gogol. Gogol logra a notável proeza de, numa só narrativa que ocupa pouco mais de 20 páginas, oferecer ao leitor um conto fantástico em registo burlesco e a sua própria desconstrução, implícita no recurso a sucessivos e descontínuos níveis de verosimilhança, e tornada explícita no malicioso e ambíguo final («Mas o mais estranho, o mais inexplicável, é que os autores possam escolher tais assuntos!»). O assessor Kovaliov, ao acordar num belo dia, constata que perdeu o seu apêndice nasal. Haveria aqui matéria para uma fábula cómica, para uma historieta que, não desprovida de penetração crítica e de crítica social, cumprisse a sua missão com lisa e risonha eficácia. Gogol vai mais longe. Aquilo que me delicia em "O Nariz" são precisamente aqueles episódios subversivos de uma coerência interna que parecia pronta a instalar-se. Que o assessor Kovaliov perca o seu nariz, que acuse uma dama sua conhecida de o ter roubado, que coloque um anúncio no jornal para o recuperar, tudo isto não requer mais do que um esforço modesto ao leitor prevenido. Que o nariz se passeie, vestido de uniforme e luvas, pelas ruas de Petersburgo, ou que apareça no miolo do pão que o barbeiro Ivan Yakovlevich se prepara para comer, eis o que introduz novas perspectivas e sumidouros de sentido, que transformam o texto numa entidade dinâmica, capaz de pôr continuamente em causa a sua seriedade e a sua relevância. Gogol consegue, assim, um glorioso sucesso numa empreitada formalista por excelência: toda e qualquer leitura programática, todo e qualquer plano significativo, são aniquilados de maneira elegante, mas peremptória.


Sábado, 13 Dezembro, 2003

NO CHIADO À TARDINHA ÀS VEZES: No 2º andar de um edifício que dá para o Largo de Camões, a Real Associação Portuguesa desfralda o ufano estandarte azul e branco da monarquia. No rés-do-chão do mesmo prédio, encontramos uma loja de 1,70 euros. Será a isto que se chama uma "parceria estratégica"?


SMALL IS BEAUTIFUL?: Por uma vez, não estou em total desacordo com José Manuel Fernandes ("Público", editorial de 6/12). A Constituição portuguesa poderia, com efeito, ganhar em ser menos exaustiva, e o apetite pelas revisões, para além das motivações concretas de uns quantos, deve-se também a um certo exagero normativo que torna inconstitucionais eventuais ajustes menores ao funcionamento das instituições que se pretendam introduzir. Não me parece aconselhável que um texto constitucional desça a um nível de detalhe que o aproxime de um corpo legislativo.
Contudo, será o texto da Constituição americana um exemplo a seguir? Repare-se na maneira como as emendas (em particular a mais famosa de todas, a Primeira, garante das liberdades religiosa e de expressão) são invocadas a torto e a direito. O carácter vago do magro texto abre caminho a uma latitude de interpretações que, na prática, anula o seu alcance prático e o confina a um conjunto de princípios, mais próximos de um tributo ao espírito e história de uma nação do que de uma lei fundamental e fundadora.
Uma Constituição minimalista não só seria uma má solução, como seria meio caminho andado para um esvaziamento de conteúdo que só os néscios podem desejar. Uma Constituição reduzida a uma caricatura de si mesma deixaria as mãos livres às sucessivas maiorias parlamentares para legislarem a seu bel-prazer, ao sabor de pressões e contingências. Seria esse, aí sim, e por vias travessas, o triunfo das ideologias (ou da sua ausência).


PEQUENA CIRURGIA ESTÉTICA: O BCP diz-se inspirado pela vida? Pois bem, nós também. O BCP é sensível às necessidades dos jovens casais frementes de futuro, e dos pequenos empresários ansiosos por contribuir para a economia da Nação. Nós, mais modestos, pensamos prioritariamente nos nossos leitores. Nos próximos dias-barra-semanas, procederemos a pequenas alterações no template. Nada de grande monta, nada de radical. Somente uns quantos ajustes no sentido de tornar o texto mais legível, e de equilibrar a aparência geral. Uma vez que testar todas as alterações em todos os 36 mil browsers que por aí pululam seria tarefa hercúlea, acidentes de percurso não são impossíveis, e solicitamos desde já que nos comuniquem quaisquer anomalias que notem no aspecto gráfico doblog. Quaisquer outros comentários e sugestões serão, como sempre, bem-vindos.


...SEGUIDA DE FAUX PAS:

- Não te ensinaram a respeitar a propriedade intelectual, lá na tua ilha do Pico? - perguntei eu.
- Terceira - respondeu o Agatão. - Eu venho da ilha Terceira.



CITAÇÃO DE UMA CITAÇÃO...:

- Estou farto de Lisboa até aos cabelos - disse o Agatão -, é uma cidade de danados. Eu sempre soube que assim era; mas antigamente um anjo explicava-me os tormentos desses danados. Agora tenho de ser eu a explicá-los a mim mesmo, e não encontro nenhuma elucidação decente.
- Mas essas palavras não são tuas! - protestei eu. - Estás a citar aquilo que Rilke escreveu a propósito de Paris.
- A ocasião e o propósito - respondeu ele, embezerrando - valem tanto como o conteúdo.



Quarta, 10 Dezembro, 2003

EI-LA ENFIM: A tão anunciada retrospectiva de João César Monteiro arranca dia 12, sexta, no cinema King. Primeira desilusão: o adjectivo "integral" não tem razão de ser, visto que as primeiras obras, até "Que Farei Eu Com Esta Espada?" (inclusive), assim como as curtas-metragens, não serão mostradas em sala, obrigando o cinéfilo a recorrer ao DVD. Com notável e pouco bem-vinda pontaria, os filmes programados para este ciclo são precisamente aqueles que já conheço, e àqueles que ficaram de fora nunca os vi (com excepção de "Sophia de Mello Breyner Andresen").
Todos os filmes são enfatica e vigorosamente recomendáveis, mas eu permitir-me-ia destacar dois dos menos vistos: "Veredas" (já sexta e sábado) e "O Último Mergulho" (um dos meus eleitos do cinema português, dias 20 e 21). Algumas das sessões serão apresentadas por personalidades como João Bénard da Costa, Teresa Villaverde e Luís Miguel Oliveira.
Sou avesso a recorrer a termos como "imperdível" e "obrigatório", mas sinto-me tentado a empregá-los nesta ocasião, perante a possibilidade de assistir em sala, e concentrados no tempo (de maneira a facilitar a comparação e o seguimento da evolução), aos filmes mais importantes daquele que foi o mais genial de todos os criadores de cinema português (com a excepção desse caso à parte que se chama Manoel de Oliveira), e sem qualquer dúvida o mais fulgurante e subversivo, mesmo se ignorarmos as polémicas afoleiradas "de trazer pela RTP1" que o tornaram mais visível do o grande público.
Mesmo a filmes que sinto conhecer de cor, como "A Comédia de Deus", não sei se resistirei. Pode-se dizer que não à ocasião de escutar mais uma vez diálogos imortais como:

TALHANTE: Baixa as calças!
JOÃO DE DEUS: Preferia não o fazer.

?




REVISTA SEMANAL DE BLOGS IMAGINÁRIOS:

  • No Apfelstrudel, confrontam-se pontos de vista relativos às condições de vida do campesinato chinês no tempo da Guerra dos Boxers.
  • No Zigoma de Cervantes, a origem da angústia é sondada, e uma receita famosa de Irish Coffee é divulgada, se bem que não na sua integralidade.
  • No Máximas, Sainetes, Bocas e Algumas Endechas encontramos copiosa profusão de máximas, sainetes, bocas e algumas endechas.
  • No Gargarejando Alegremente, somos brindados com uma versão em código morse da Lei das Sesmarias, promulgada por D. Fernando, em 1375, com o fim de minimizar o abandono dos campos, evitar o recurso maciço à criação de gado (menos dispendiosa) em detrimento das culturas cerealíferas e tabelar os salários dos trabalhadores da terra, entre outros fins.
  • No Pudins Maizena, podemos descobrir um magnífico poema de Anna Akhmatova.
  • No Engenheiro António Manuel Coelho dos Santos, vários tons de amarelo e o relato de um desmaio em plena via pública.
  • O Vahine No Te Tiare celebra o seu milionésimo visitante com um baile mandado.
  • O Luto de Elektra revela um episódio da infância de Kleist, com o seu quê de escabroso.
  • No Produto Interno Bruto, a obra de Lewis Carroll "A Caça ao Snark" é escalpelizada, em episódios bidiários de 50 minutos cada um. Não concordo com tudo, mas concordo com alguma coisa.
  • O valoroso autor do Mikmik recomenda-nos uma cervejaria marisqueira que foge à mediocridade, ao Campo Santana.
  • O escriba do Scardanelli culpa um antepassado seu pelo assassinato do rei Henrique IV de França.
  • O Mãe de Todos os Blogs defende que o Hugo Viana é melhor que o Rui Costa, para se desdizer logo a seguir.
  • O Acrocephalus arundinaceus esconde o rosto com as mãos.
  • O Papéis de Aspern afirma, convicto, que "no meu tempo ainda havia vergonha", e que "um homem é um homem e um rato é um bicho".
  • O Má Sorte Que Ela Fosse Truta explica a diferença entre a defesa Nimzo-Índia e a defesa Bogo-Índia.
  • O Zut'Alors! analisa os desempenhos de todos os membros dos governos dos países da União Europeia, e ensina como fazer batota ao gamão.
  • O Retrato do Dr. Gachet compromete-se a revelar um remédio caseiro infalível contra a aerofagia.
  • O Reabilitemos António Calvário! fez o seu "outing", assumindo-se como etéreo, transparente e para lá do tempo.
  • O Galinha da Minha Vizinha faz Roma e Pavia num só dia.
  • O Casa de Bernarda Alba empresta um jogo de chaves de parafusos a quem clicar 10 vezes.
  • O Derivada de um Logaritmo de Base Neperiana cumpre a promessa de se metamorfosear em pétala.



Segunda, 8 Dezembro, 2003

PROBLEMA DO DIA:

  a b c d e f g h  
 8   8 
 7   7 
 6   6 
 5   5 
 4   4 
 3   3 
 2   2 
 1   1 
  a b c d e f g h  


As brancas jogam, e dão mate em 57 lances.




LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: O dia de ontem rebentou com a escala, pois avistei um indivíduo que, encostado aos gradeamentos frente à saída da estação Baixa-Chiado, lia nem mais nem menos do que a "Pentesileia". Ó alegria! Ó êxtase! Todos os nossos esforços, em condições mais do que ingratas, não terão, pois, sido em vão.


ATENTADO AO BOM GOSTO: Um leitor (por uma vez é mesmo um leitor a sério), de seu nome Luís M. Serpa, escreveu para protestar contra um post recente, e fê-lo nos seguintes termos:

«Mas por amor de Deus, consegue explicar a quem quer que seja o que o leva a colocar a Teresa Guilherme e o Gilberto Madaíl num post sobre Purcell? Mesmo utilizando-os como paradigma de tudo o que "sujo, baço, vão, arrogante, rasca, falso e hediondo" há no mundo... É como usar o corpo de uma prostituta para explicar a beleza da mulher amada, como usar a podridão para ressaltar o gosto do prato favorito, como usar um filme para adolescentes como oposição a "Providence", como citar Elton John ao lado de Glenn Gould.

Não sou capaz de tanta antinomia. Coloquei os "Canticles of Ecstasy", de Hildegarde von Bingen, por um grupo chamado Sequentia (Deutsche Harmonia Mundi 05472 77320 2). E agora, cada vez que ouvir Purcell, vir-me-ão à memória esses nomes que citou?»


É verdade que a justaposição dos nomes de personalidades tão díspares não pode fazer-se sem desencadear confusão e ranger de dentes; é verdade que corri riscos; mas o 1bsk não seria o que é hoje (seja lá isso o que for...) sem a convicção de que os fins justificam os meios, mesmo que esses meios passem por mencionar na mesma frase a Praça da Alegria e a academia de Saint Martin in the Fields. Declaro-me culpado de terrorismo estético. À laia de atenuante, tenho apenas a dizer que fui muito menos longe do que seria de esperar da parte de quem é dado a visões tenebrosas, onde cabem duetos entre a Beth Gibbons e o Alberto João Jardim.
Gostei particularmente da referência a "Providence", enorme filme de Alain Resnais, demasiado raramente citado entre as obras-primas do cinema europeu do último meio século.


3+3=6: Os três cês podem não ser necessariamente ciência, cultura e cidadania. Outra alternativa é cemitério, cadeia e cachaça, tudo coisas que "não são feitas para uma pessoa só". (Fonte: "Tristes Tropiques", de Claude Lévi-Strauss.)


Sábado, 6 Dezembro, 2003

QUEM QUER VER NOVO CINEMA JAPONÊS?: Já amanhã, vão passar no King três filmes da nova geração de cineastas japoneses. Os horários podem ser consultados na página da Atalanta (clicar "Notícias"). Recomendo muito particularmente "H-Story", de Nobuhiro Suwa, que será exibido às 16h30 e às 22h15. A ajuizar pelo notável "M/other", única obra que dele conheço, Suwa é um criador a seguir, capaz de propostas que, pelo seu pendor experimentalista e assumidamente pós-moderno (embora não isentas de uma componente de densidade humana, quase psicologizante), fogem à imagem que o cinema nipónico tem construído para si próprio. "H-Story" encena o colapso de um remake fictício de "Hiroshima mon Amour", com Béatrice Dalle no papel que era o de Emmanuelle Riva. Pseudo-documentário e ficção partilham o precário espaço do filme, emulando o conflito entre memória pessoal e histórica (Nobuhiro Suwa é natural de Hiroshima). É tudo o que sei sobre o filme. Venham em grande número!


AINDA O SEGREDO: Se é ingrato o papel do portador de um segredo, isso deve-se menos ao risco de se trair, ou à solidão inerente, do que à possibilidade de aquilo que haveria a revelar resultar inverosímil, supérfluo, agente de incómodo mas nunca de escândalo. Quantos levarão a sério a presença dos cavaleiros da Távola Redonda, fina flor da corte do rei Artur, na Lisboa da viragem do século XX para o XXI? A rainha Guenièvre alojada numa pensão da Av. 5 de Outubro; Perceval de Gales contemplando, sobre o gelo de uma peixeira no mercado da Ribeira, as três gotas vermelhas que o fazem pensar na sua amada Blanchefleur; Bohort dividido entre o dever do sangue e o dever da honra no cenário idílico de Seteais. Eis o que não pode deixar de suscitar arquear de sobrancelhas, e o sorriso bem disposto que normalmente se reserva a um chiste de efémero alcance.
Isto explica o presente, o futuro e o semblante.


OS TRÊS CÊS: Ligo o rádio de manhã (TSF), e quais são as primeiras palavras que escuto? «Ciência, cultura e cidadania.» Os ouvidos agradecem. Conhecem melhor maneira de começar o dia? Só se for com 3 canções do Demis Roussos de uma assentada.


Sexta, 5 Dezembro, 2003

COISAS MAGNÍFICAS E ESPANTOSAS PARA FAZER EM LISBOA: Marcar encontro com um antigo colaborador de Giorgio Strehler (lendário director do Piccolo Teatro, de Milão, talvez a mais influente figura do teatro italiano do pós-guerra), actualmente reformado, na sua casa de Cascais. Apanhar o comboio no Cais do Sodré. Discutir prática, doutrina e trivialidades com o indivíduo em questão. Comprar uma dúzia de castanhas assadas enquanto se espera pelo comboio de regresso. Pagar com uma nota de 5 euros. Receber o troco. Recear que a melancolia da tarde que esmorece seja semelhante à melancolia interior, em grau e em qualidade.


GERTRUDE STEIN (III):

«A FIRE

What was the use of a whole time to send and not send if there was to be the kind of thing that made that come in. A letter was nicely sent.

A HANDKERCHIEF

A winning of all the blessings, a sample not a sample because there is no worry.

RED ROSES

A cool red rose and a pink cut pink, a collapse and a sold hole, a little less hot.»


("Tender Buttons")




EIS QUE O CASO MUDA DE FIGURA: «Mas este é diferente. Este foi redigido ao som da "Armide" de Lully.»(América)


CONTRA O UNILATERALISMO AMERICANO: América, sua estouvada, onde tens tu a cabeça? Esse post já tinha sido publicado ontem!
(Para além de não querer ratificar o protocolo de Kyoto, o seu grande defeito é uma falta de atenção crónica.)


MECÂNICA DOS FLUIDOS: «Mas será essa propensão para verter e derramar um motivo de lástima? Se o segredo, se os gestos e posturas da conspiração, exigem tempo a ponto de consumir a própria vida, transformar-se-ão eles próprios em vida. Surpreendido em plena praça pública, o corpo que carrega uma história de dissimulação não estremecerá mais do que uma vez. Apenas um frémito breve, antes de seguir o seu caminho, rumo ao quotidiano, à cidadania e a um consolo feito de pétalas e mãos.»(América)


O TIO ALEXANDRE ACONSELHA: Sabia que a água de cozer os ovos é óptima para regar as plantas? Para além disso, seja qual for o sistema de abertura, 2...g6 é sempre um excelente lance.


LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na estação de metro Roma, uma dama lia "The Heart is a Lonely Hunter", de Carson McCullers. Por se tratar da versão original, vale cinco pontos de bónus.


Quinta, 4 Dezembro, 2003

GERTRUDE STEIN (II):

«This is then a very little description of feeling disillusionment in living. There is this thing then there is the moment and a very complete moment to those that have had it when something they have bought or made or loved or are is a thing that they are afraid, almost certain, very fearful that no one will think it a nice thing and then some one likes that thing and this then is a very wonderful feeling to know that some one really appreciates the thing. This is a very wonderful thing, this is a thing which I will now be illustrating.»

("The Making of Americans")




CINEMA: Dois filmes mentais: "Eyes Wide Shut", de Stanley Kubrick, e "Swimming Pool", de François Ozon. O reencontro com "Eyes Wide Shut" foi uma decisão de último recurso, por se ter esgotado a lotação da sala da Cinemateca onde passavam "Barry Lyndon". Quanto a "Swimming Pool", teria ido vê-lo de qualquer maneira. Estes dois filmes têm em comum um estatuto assumido de "projecção mental", e pertencem a um subgénero caracterizado pela recusa em atribuir preponderância àquilo que "é o caso", e pela oscilação entre diversos níveis de realidade que penetram a própria estrutura do filme. Ao contrário, por exemplo de "Lost Highway" de David Lynch, aqui existe um "mundo real" incontroverso (a existência conjugal no filme de Kubrick, a editora londrina no de Ozon) susceptível de ser usado como contrapeso aos meandros narrativos que preenchem o tempo do filme. Mas nunca esse ponto de referência, por mais sólido que aparente ser, funciona como convite para que o espectador se ocupe em destrinçar a fantasia daquilo que de facto sucede (exercício de interesse mais que duvidoso).
Em "Eyes Wide Shut", a estrutura é a de um sonho (em harmonia com o espírito da novela de Schnitzler na qual se baseia o seu argumento). A premeditação é nula. A personagem de Tom Cruise é vítima de uma sucessão de peripécias que se encadeiam de maneira espontânea, sem transição. Mas não terá essa perigosa e alucinante espiral como função principal acelerar o trabalho de autodestruição do filme, que a primeira meia hora tão eficazmente encetara? À força de lugares comuns (o baile luxuoso, o cavalheiro húngaro sedutor, a discussão por causa de uma infidelidade passada que não chegou a sê-lo), Kubrick coloca o filme num estado tal que obriga a uma reinvenção, dando ao mesmo tempo o mote para essa mesma reinvenção: os devaneios e deambulações do jovem médico alimentar-se-ão de estereótipos, de mitos urbanos, de pequenos e médios terrores. O encontro com a jovem prostituta, a adolescente rebelde e lasciva, a missa negra de pacotilha, a bacanal de luxo, as supermodelos de mascarilha, a conspiração de poderosos, as perseguições, são outras tantas balizas num percurso de esgotamento de um imaginário, nem demasiado tacanho nem demasiado grandiloquente. Pode-se dizer, sem forçar a ironia, que "Eyes Wide Shut" acaba sendo o filme realista por excelência: esporeada a fantasia até ao ponto de saturação, visitados todos os fantasmas, resta o confronto com uma realidade bem menos dramática do que as circunstâncias de um momento pareceram fazer crer. A quezília conjugal resolve-se da maneira mais prosaica possível. O aqui e o agora impõem o seu maciço (e inquietante) domínio.
Em "Swimming Pool", estamos perante um registo muito diferente. A personagem de Charlotte Rampling é a de uma romancista policial, logo manipuladora por excelência. É numa lógica de manipulação que, sem o dar a entender, o filme se instala assim que o cenário muda da grisalha Londres para a soalheira França meridional. A escritora anseia por um solavanco da vida que a salve do bloqueio criativo, mas também pela paz de espírito necessária para o narrar. Também aqui, é o estereótipo quem surge em seu socorro, sob a forma da filha do editor, promíscua (como boa adolescente francesa que é), mal educada, e (sobretudo) fecunda em peripécias, em vórtices do real capazes de actuar como motores da ficção. Como experiente e sagaz manipuladora que é, a escritora faz com que os eventos sucedam ao ritmo da sua tensão criativa, e que conduzam a um clímax que ocorre com um timing perfeito. E o ponto alto do filme coincide com o momento em que o espectador reconhece, na personagem principal, esse supremo poder de submeter ao seu imaginário de escritora calejada essa entidade fugidia que é o tempo narrativo do próprio filme, esse filme de que a julgávamos mera personagem.
Ozon serve-se dos procedimentos do realismo francês com criteriosa malícia, aproveitando de uma tradição que não é a sua aquilo de que necessita, e rejeitando o resto. A instalação da romancista na casa do editor, os pequenos gestos de quem explora território alheio, as compras, as refeições na esplanada, são disso exemplo. Kubrick, por seu lado, persiste no tipo de abordagem que aperfeiçoou ao longo da sua carreira: uma obsessão pelo controlo que se traduz numa precisão artificial de cenários, rostos e corpos, numa intrigante profundidade de campo que tem muito de trabalho técnico deliberado, mas também (quase um paradoxo) num realismo cru que subverte modos de representação, quase sem parecer abalá-los. Muita coisa separa estes realizadores: gerações, atitude, ênfases; o que torna ainda mais fascinante apreciar como, por uma vez, os seus percursos trilharam as mesmas paragens.


CINEMA: Balanço do ciclo Marguerite Duras, no cinema King. O cinema King, como complemento da exibição de "India Song" no circuito comercial, dedicou recentemente um fim-de-semana a uma retrospectiva de filmes realizados por Marguerite Duras, que englobou mais de metade das suas longas-metragens. Aqui ficam alguns apontamentos breves sobre os filmes que vi.
"Jaune le Soleil" é um huis-clos integral, no qual meia dúzia de personagens trocam impressões sobre uma situação que percebemos ser de crise. Espera-se por alguém, um líder com poder de decisão, provavelmente de vida ou de morte. Entretanto, discute-se o passado recente e o estado das coisas. Mau grado a sua dimensão política, "Jaune le Soleil" é acima de tudo um notável exemplo do principal talento de Duras: criar, por meio da palavra e da oralidade, uma realidade independente dos eventos e da verosimilhança, um plano que recorre ao mundo real, com parcimónia ou avidez, mas sem nunca confiar nele como suporte privilegiado.
"Détruire dit-elle" é um filme em que a abstracção se disfarça de bucolismo domesticável. Num hotel isolado do mundo por uma floresta, várias personagens estabelecem e rompem relações mútuas. Mais uma vez, é a linguagem o factor dominante: uma parte de demiurgo e uma parte de roleta; obedeçam ou não a uma lógica, corpos e vozes existem em função de um discurso, que se autonomiza, sem desdém nem gravidade, apenas com seca neutralidade.
"Son Nom de Venise Dans Calcutta Désert" retoma a banda sonora integral de "India Song", acompanhando-a com novas imagens, vistas de um palácio arruinado e dos jardins circundantes. Mais do que uma tentativa de valorizar a dimensão sonora do filme-mãe, vejo "Son Nom de Venise..." como um novo e inevitável momento na apreensão de "India Song", uma insistência nessa vertente de eterno retorno e de atemporalidade que deve presidir ao convívio com esse filme.
(Estes três filmes contam com a presença do imenso Michael Lonsdale, em corpo ou em voz. E insisto na presença. Lonsdale é alguém que sabe gerir a sua figura, o seu soberbo modo de ocupar o campo de visão, com uma simplicidade imperial que tem algo de tenebroso.)
"Le Camion" é um filme perante o qual falar de "aposta ganha" ou "perdida", "sucesso" ou "fracasso", parece forçosamente descabido. Depardieu e a própria Duras, sentados a uma mesa, lêem o argumento de um filme hipotético, sobre um camionista e uma mulher que com ele viaja. Apesar de ambos terem os diálogos à frente, Depardieu faz perguntas sobre o que sucede no filme, como que respondendo a uma necessidade natural de saber mais. Vejo "Le Camion" como uma maneira de Duras se encenar a si mesma reduzida/elevada à simples condição de mulher que escreve, que produz palavras, e que esboça imagens para acompanhar essas palavras. Que as imagens se concretizem ou não, surge quase como um detalhe acessório, um acidente da natureza, que lhe cabe gerir se acontecer, mas que não lhe cabe provocar. E como ficar insensível perante dois cúmplices que partilham o pudor de descobrir um texto e as suas promessas, um texto e as primícias da sua entrada no Mundo?
Em todas as sessões a que fui as salas estavam às moscas. 10-15 pessoas, 20 no máximo. Não consigo compreender isto. Porque terão sido tão escassas as pessoas que aproveitaram a oportunidade (quando se repetirá ela?) de ver estas obras em condições devidas, ou seja em sala? Terá sido a falta de divulgação? A ausência de legendas terá influído? Custa-me a acreditar que a cinefilia lisboeta não consiga produzir uma massa crítica de espectadores para os filmes de uma autora que, possuindo reputação de "difícil", é conhecida e reputada, e cuja importância poucos colocarão em causa.


MECÂNICA DOS FLUIDOS: «...uma dedicação que transborda das semanas de vida que a tentam conter» Mas será essa propensão para verter e derramar um motivo de lástima? Se o segredo, se os gestos e posturas da conspiração, exigem tempo a ponto de consumir a própria vida, transformar-se-ão eles próprios em vida. Surpreendido em plena praça pública, o corpo que carrega uma história de dissimulação não estremecerá mais do que uma vez. Apenas um frémito breve, antes de seguir o seu caminho, rumo ao quotidiano, à cidadania e a um consolo feito de pétalas e mãos.


PORQUE TODO O MUNDO É COMPOSTO DE MUDANÇA: Os "Intrusos" e "A Carta Roubada" desapareceram sem deixar rasto. É pena. "A Memória Inventada" mudou de ares. Gosto do novo template; está mais legível. Para melhor, muda-se sempre, como diz a Marta da OK Tele Seguro.


E O PRÉMIO "WHO CARES?" DA SEMANA VAI PARA...: Dez presidentes de câmara declaram o seu apoio à re(rerererere)candidatura de Pinto da Costa à presidência do FCP.
É a isto que se chama uma "vaga de fundo", não é? Bem me parecia.


PARABÉNS...: ...a Ana Filipa Baptista, do Ginásio Clube de Odivelas, que se sagrou campeã de xadrez da União Europeia na categoria sub-14, evento que decorreu em Graz, Áustria. A sua prestação tinha já sido muito boa nos recentes Mundiais de Jovens, que tiveram lugar na Grécia, e onde, por sinal, os xadrezistas portugueses tiveram um comportamento assaz meritório. Isto só prova que o trabalho realizado ao nível das camadas jovens, nomeadamente pelas edilidades, tem sido de grande qualidade; e só é pena que o desinteresse dos clubes e das entidades públicas e privadas, conjugado com o ostracismo a que a modalidade é votada nos media, ponham em causa a continuidade deste esforço.
Mais pormenores sobre estes eventos podem ser obtidos no meu site português de xadrez preferido: o Infoxadrez.


Terça, 2 Dezembro, 2003

GERTRUDE STEIN (I):

«Then she began to get serious and say, but really seriously you ought to write your autobiography. Finally I promised that if during the summer I could find time I would write my autobiography.
(...)
About six weeks ago Gertrude Stein said, it does not look to me as if you were ever going to write that autobiography. You know what I am going to do. I am going to write it for you. I am going to write it as simply as Defoe did the autobiography of Robinson Crusoe. And she has and this is it.»


("The Autobiography of Alice B. Toklas", últimas palavras)




CÓDIGO E PARTITURA: (Lido no "DN" de sábado passado.) São tão lapidares, os comentários que alguns dos actores da nossa cena económica emitiram sobre o novo Código do Trabalho, que os achei merecedores de um fundo musical adequado:

(Abertura da "Aida", de Giuseppe Verdi. Orquestra Filarmónica de Viena, dirigida por Herbert von Karajan. Gravação da EMI. Excelente versão de uma das obras-primas de Verdi, pujante e encorpada sem prejuízo de um lirismo omnipresente.)

«Está longe do que é necessário para aumentar a produtividade das empresas e quem estiver atento à globalização entende que este código tem de ser revisto rapidamente.» (Ludgero Marques, Presidente da Ass. Empr. Portugal)

(Concerto para Piano nº 1 de Tchaikovsky, por Martha Argerich, Orquestra Filarmónica de Berlim, dirigida por Claudio Abbado. Virtuosismo e respeito pela poesia imanente à música são aqui os vectores de uma interpretação ímpar.)

«(...)está quase tudo na mesma. Avançou-se pouco na liberalização, na flexibilização.» (António Marques, Presid. Ass. Industrial do Minho)

(Pequenos motetes de Lully: "Dixit Dominus", "Laudate pueri", "O Sapientia", pelo grupo Les Arts Florissants, dirigido, como sempre, pela mão de mestre de William Christie. Delicadeza e devoção.)

«(...)precisávamos de ter ido mais longe, o que não foi possível devido à Constituição, que também precisa de ser alterada.» (Almeida Henriques, Presid. Conselho Empresarial do Centro)

(As "Lyrische Stücke" para piano de Edvard Grieg. Na interpretação histórica de Emil Gilels. Pequenos prodígios de singeleza bucólica e concisão melódica.)

«As empresas não podem ser obrigadas a manter trabalhadores que não conseguem acompanhar o desenvolvimento, que não realizam o trabalho que é necessário ou fazem-no mal.» (Ludgero Marques)

(Sonata para Violino nº 5, de Beethoven, dita "Primavera", interpretada por Maksim Vengerov (violino) e Itamar Golan (piano). O casamento da sensualidade e do rigor num glorioso apogeu da forma da sonata.)

«Hoje todo o emprego é precário. Temos de tirar da cabeça que há empregos para sempre.» (António Marques)

(Música para o bailado "Ma Mère l'Oye", de Ravel. Orquestra Sinfónica de Pittsburgh, sob direcção de André Previn. Uma proposta irresistível, tanto ao nível da clareza da interpretação como da excelência técnica da gravação.)

«Estamos num período difícil que pode potenciar desconfortos de parte a parte.» (Ludgero Marques)

(Quarto andamento da 9ª Sinfonia de Schubert, dita "a Grande". Allegro vivace. Gravação histórica da Filarmónica de Berlim com Wilhelm Furtwängler na liderança. Esplendor sinfónico de um compositor em plena maturidade.)

Uma sugestão final, em jeito de encore: que tal reinstaurar a escravatura? Em termos de flexibilidade, não se pode ir mais longe. Presumo que uma tal medida obrigasse a alterar a Constituição de maneira um tanto drástica, mas isso seria um detalhe de somenos importância. Cesteiro que faz um cesto...


USTED HABLA PORTUÑOL?: Sem ofensa para o Cesário Borga, não seria boa ideia que a RTP arranjasse um correspondente em Espanha que soubesse falar espanhol?


Segunda, 1 Dezembro, 2003

TRÊS EM UM: Transcrevo um post publicado no blog Liberdade de Expressão:

A ler na revista do Expresso

A diferença entre a atitude jacobina e a atitude liberal perante a liberdade religiosa.

Em França, as adolescentes muçulmanas vão ser proíbidas por legislação especial de usar o véus islâmico nas escolas públicas.

No Reino Unido, por decisão dos tribunais, os polícias Sikh podem usar turbante.

Este artigo envolve três temáticas que nos são caras, a saber: a República, a laicidade e a França. (Assuntos que, em boa verdade, estão longe de ser independentes entre si.) Não costumo ler o "Expresso"; ignoro o contexto da notícia original, se é que existia algum. Em todo o caso, a citação pura e simples não foge ao grau zero da argumentação, e não é ponto de partida adequado para um debate sério. Assim colocada, a questão parece ser de uma limpidez cristalina, resumindo-se à oposição entre um modelo francês crispado e castrador (os malvados... nem deixam as miúdas ir para a escola de cabeça tapada) e um modelo inglês tolerante e humanista. A anuência do leitor desprevenido está garantida. O que fica por revelar é a dimensão do debate subjacente, um debate recorrente em França, que envolve diversíssimos sectores da sociedade, e que aflora questões como a laicidade dos espaços públicos, a liberdade religiosa, o papel das escolas e a integração das minorias. Tratar-se-á de mais um daqueles debates estéreis nos quais, segundo consta, os franceses se comprazem? Muito pelo contrário. Este debate, absolutamente crucial, deveria estar a ser conduzido em todos os países da Europa Ocidental, uma vez que, com maior ou menor premência, e independentemente das particularidades de cada caso, estes problemas existem para todos.
Proibir lenços islâmicos nas escolas (ou kippas, ou crucifixos nas paredes) é muito mais do que um excesso de zelo do Estado: resulta de uma preocupação em evitar que o comunitarismo se sobreponha ao interesse público; resulta da necessidade de a lógica da Pólis prevalecer nos espaços públicos; resulta da urgência de não deixar a cidadania ser subordinada a particularismos culturais, étnicos ou religiosos. É certo: é "apenas" de símbolos que estamos a falar; mas não existem símbolos inocentes. No caso específico do lenço islâmico, ninguém negará que ele envolve uma componente, ainda que moderada, de anulação da identidade da mulher. Entre o lenço e a burqa, a diferença é essencialmente uma diferença de grau; e eu acredito que nem o mais empedernido adepto do laissez-faire evitaria um arrepio de incómodo perante a ideia de uma moça, coberta dos pés à cabeça, sentada na carteira da escola, concentrada num qualquer problema de aritmética.
Não posso ainda deixar de comentar o emprego do termo "jacobino", na sua acepção de "republicanismo levado a um extremo exagerado". A apropriação de vocábulos, a consagração, através do seu uso indevido, de sentidos e cambiantes semânticos, é uma das mais eficazes armas no debate de ideias a longo prazo. Quando acompanhava com maior regularidade a imprensa francesa, apercebi-me de como o termo "jacobino" era empregue, com malícia cirúrgica, para qualificar decisões ou acções que incomodavam os adeptos de um Estado minimalista. A carga pejorativa do termo é suficiente para obter o efeito desejado, mas não excessiva a ponto de soar a abuso de linguagem. Também aqui, como se dizia naquele anúncio de vinho do Porto, "há que ter dedo para a arte".