Heinrich von Kleist (1777-1811)Liberté Egalité FraternitéNo tabuleiro de xadrez, as mentiras e a hipocrisia não duram muito (Em. Lasker)Monty Python forever!

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fevereiro 2004

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Domingo, 29 Fevereiro, 2004

DAS IMAGENS, DAS PALAVRAS, E DOS SEUS VALORES RELATIVOS, NÃO NECESSARIAMENTE EXPRIMÍVEIS EM POTÊNCIAS DE 10: Segui com atenção um interessante debate, nas caixas de comentários do BdE, sobre a adaptação de grandes livros para cinema. Pareceu-me que a este debate subjazia um problema fundamental, que é o da excessiva importância atribuída à base textual de um filme. A própria noção de um argumento como peça essencial de uma obra cinematográfica (como sua "coluna vertebral", para empregar uma metáfora plausível) não é tão inquestionável como pode parecer, decorrendo, como decorre, do paradigma narrativista que as circunstâncias e a história impuseram ao cinema (pelo menos no que toca ao cinema "visível" em salas, fora das galerias de arte e dos circuitos de performances/instalações/artes visuais). Não acredito na possibilidade de transpor um romance para o cinema, ou seja, de encontrar um equivalente visual da experiência de leitura; quanto a este ponto, não creio que a minha posição seja minoritária. Quanto à possibilidade de se servir de um texto como base para um filme, sendo "base" entendida como "conjunto de ideias", "soluções narrativas", etc., a minha reacção é um plácido "Porque não?". Mas o que me parece mais fecundo é servir-se do texto como mero ponto de partida, erigir a recriação e a traição em desideratos, e criar algo onde não subsista senão a ténue presença do livro, à laia de escadote que serviu para a escalada do muro, e que faz barulho ao cair, mas que se tornou supérfluo. E os exemplos ilustrativos não faltam: os dois filmes balzaquianos de Rivette ("Out 1" e "La Belle Noiseuse"), o "Stalker" de Tarkovsky... Sem esquecer que um dos mais belos filmes do mundo, "Bande à Part", se baseia num obscuro romance policial chamado "Fool's Gold".
Seria com prazer que eu continuaria a discorrer sobre o assunto, mas a hora é tardia, e é ainda preciso ir dar comida aos meus pombos-correio. A dieta nunca muda: bolo de arroz esmigalhado e um suplemento alimentar contendo creatina. Ainda não os conheço todos pelo nome, mas pouco falta.


REVIVER O PASSADO: As declarações de Luís Villas-Boas relativas à adopção de crianças por casais homossexuais têm o condão de nos transportar a um passado muito longínquo. Para quê gastar milhões de euros do contribuinte a investigar os caprichos do espaço-tempo, buracos de verme e quejandos? Luís Villas-Boas ri-se da teoria e passa à prática, com rara elegância. A retórica é pré-pré-socrática, a argumentação é paleolítica, e os preconceitos, esses, são antediluvianos. Este cocktail de épocas e estilos não é o aspecto menos sedutor da verborreia deste cavalheiro. Tendo estas declarações visto a luz poucas semanas depois dos dislates de Mariana Cascais, pode-se falar em double whammy. Seria criminoso esbanjar as energias e os perfis complementares destas duas personagens tão interessantes. Várias hipóteses me ocorrem: promovê-los a santinhos de andor, a consciência bicéfala da Nação (com direito a chapéu de grilo falante), ou, mais modestamente, a comediantes de vaudeville.


29 DE FEVEREIRO: Tenho um fraco pelo último dia de Fevereiro dos anos bissextos. Assemelha-se a uma dádiva, extraída do nada, de uma qualquer cartola de ilusionista do calendário, e que seria grande estultice não aproveitar até à medula.
Em "Ulysses" existem referências a tudo, logo também aos anos bissextos. «I can throw my cap at who I like because it's leap year», diz Gerty MacDowell (cap. 13), a Nausícaa dublinense.


DO TODO E DA PARTE: O Manuel Resende do Quartzo, Feldspato & Mica escreveu-nos, manifestando a sua perplexidade pelo remate de um recente post meu sobre a controvérsia joyceana, que passo a citar: «Controvérsias como esta dizem mais sobre o actual estado da literatura das ilhas britânicas (quando os filhos não estão à altura do pai, mate-se o pai) do que sobre a obra que escolhem como alvo.»
Penitencio-me: fiz uma extrapolação apressada, e que ficou por explicar. De uma polémica essencialmente irlandesa (tanto quanto me apercebi) fiz um sintoma de um estado de coisas que julgo ser extensível a toda a literatura de ficção nas ilhas britânicas. É possível que a pulsão parricida afecte essencialmente os prosadores irlandeses, mas não creio que sejam eles os únicos com razões para desconfiar da sombra tutelar de Joyce: afinal, "Ulysses" inscreve-se mais num movimento modernista continental do que em qualquer tradição de romance irlandês, que é bem modesta, diga-se de passagem.
Não defendo o cânone pelo cânone, mas estou convicto de que, em cada dez tentativas revisionistas de pôr em causa o valor e relevância dos grandes clássicos, nove são movidas pelo despeito, pela mediocridade, ou (na melhor das hipóteses) por um juvenil afã iconoclasta. A história da arte faz-se de revoluções, é certo, mas também de pseudo-rupturas, feitas de alarido e frenesim, suportadas por bicos de pés; duram aquilo que duram, que costuma ser pouco; sujam mais do que destroem.


UM MUNDO INFESTADO DE DEMÓNIOS: Uma leitora atenta (a quem agradecemos) indicou-nos uma página-barra-blog cujo nome diz tudo: "Museum of Hoaxes". O seu principal objectivo parece ser analisar e dissecar embustes e boatos sem fundamento, desses cuja abundância parece aumentar proporcionalmente à velocidade dos meios de comunicação. Um dos seus destaques mais recentes é a famosa fotografia de John Kerry ao lado de Jane Fonda, pequena acrobacia photoshópica que ludibriou jornais de referência. O "Museum of Hoaxes" vai directamente para a lista de enlaces favoritos, sem passar pela casa "Partida" e sem receber dois mil escudos.


LE SOLEIL BRILLE, IL FAIT BEAU: Quem quer visitar este blog francófono?


Sábado, 28 Fevereiro, 2004

AGENDA PARA ESTE DIA 28:

(As horas indicadas são as horas de Portugal Continental, sem menosprezo para quem nos lê noutros fusos horários, em particular o povo açoriano.)

9h00: Comprar um bilhete de camioneta para o Pinhal Novo.
10h00: Citar um verso de Sylvia Plath, mas esquecendo-se de um advérbio.
11h00: Justificar os meios com os fins, no bairro da Penha de França.
12h00: Receber a Ordem de Santiago de Espada.
13h00: Forjar autógrafos de um conhecido cantor pimba.
14h00: Abster-se de comer ostras, de tocar flauta de bisel e de confundir "dedicação" com "amizade".
15h00: Recordar bons momentos do passado, um passado que não voltará jamais, e onde se era feliz mau grado a arbitrariedade na qual o Mundo parece comprazer-se, como se se tratasse de um fato de fino corte que se enverga para levar a festas.
16h00: Conjugar 10 verbos alemães irregulares.
17h00: Reconciliar dois inimigos mortais.
18h00: Nada, a não ser o tónus muscular.
19h00: Assistir ao filme "Close Up", de Kiarostami, na Cinemateca.
20h00: Nada (o filme ainda não acabou).
21h00: Assumir-se sujeito de uma oração subordinada, de preferência com um sorriso nos lábios.
22h00: Escrever um postal ilustrado.
23h00: Oferecer uma talhada da Via Láctea ao vizinho do lado.
24h00: «Até que haja na parede/um corte entre luz e menos luz.» (Fiama!)




Sexta, 27 Fevereiro, 2004

POUCOS MAS BONS!: Uma das edições recentes dos DVDs da Atalanta foi o filme de Nobuhiro Suwa "H-Story". Aplaudo a mãos ambas. Este filme, crónica do falhanço (anunciadíssimo!) de um remake de "Hiroshima Mon Amour", oferece-nos um trajecto fascinante por um fio de navalha que é a própria fronteira entre o cinema e a sua impossibilidade. As deambulações de Béatrice Dalle, entre o agreste desafio do seu papel e a normalidade do exílio, sucedem em paralelo com um soçobrar dos significados, com uma incapacidade de ocupar o espaço do filme que se converte em poderosa interrogação sobre a relevância do gesto artístico, disputado pelas memórias pessoais e pelas memórias cinéfilas, que não são (já se sabe) forçosamente aliadas.
Este filme é um dos objectos mais radicais do cinema dos últimos anos, e a minha recomendação para que o adquiram é viva e convicta. A única coisa que contesto é ter sido inserido numa série chamada "Grandes Êxitos". Que eu saiba, "H-Story" não conheceu carreira comercial, e apenas foi projectado em duas sessões especiais, em Dezembro passado. Naquela em que estive presente, os espectadores eram tão poucos que, mesmo contando com as bactérias E. coli que povoavam as entranhas de cada um deles, dificilmente chegaria para ocupar todas as cadeiras da sala. Daí que o termo "êxito" peque por inadequação. (Ainda que se referisse a "êxito artístico", seria uma demasiado cruel ironia empregá-lo para este filme, assumido testemunho de um malogro.)


AINDA ESTOU PARA VER...: ...um post do Little Black Spot que não mereça a pena ser lido.


Quarta, 25 Fevereiro, 2004 (Cinzas)

WIR SETZEN UNS MIT TRÄNEN NIEDER: Se tudo o resto falhar, há sempre Bach. A vida seria demasiado dura sem os planos B.
Höchst vergnügt schlummern da die Augen ein.



Terça, 24 Fevereiro, 2004 (Mardi Gras)

O CHEFE RECOMENDA: (Postado por mim, Ponziani, visto que o Alexandre foi a um baile mascarado. Não me sabia com vocação para Gata Borralheira. Sinto uma vontade súbita de comer sonhos de abóbora.)

A ementa, perdão, o programa da Cinemateca para esta semana está cheio de propostas aliciantes, mas talvez me permitisse, muito subjectivamente, dar destaque apenas a uma delas: "Os Cavalos de Fogo", de Paradzhanov, quinta-feira às 19h00. Pelo que conheço deste realizador, e pela raridade com que os seus filmes são exibidos entre nós, não hesito em recomendar este filme, sem nunca o ter visto.
evidente que o ciclo Kiarostami é um caso à parte, que dispensa os meus encómios e as minhas exortações dirigidas à brigada cinéfila.)
No sábado fui ver "Io La Conoscevo Bene", de Antonio Pietrangeli, agradabilíssima surpresa de um autor que desconhecia por completo. Filme na linhagem directa da Nouvelle Vague, pletórico de invenções visuais e narrativas, marcado por um perfeito domínio formal, por uma espontaneidade que nada tem de ingénuo. É uma autêntica lástima que Pietrangeli tenha falecido prematuramente poucos anos depois deste filme.
O melhor cinema que passa em Lisboa passa na Barata Salgueiro. E isto é dito por alguém que, cinefilamente falando, de saudosista pouco tem.


Segunda, 23 Fevereiro, 2004

CRÍTICA DA CRÓNICA: Numa coisa, Luís Delgado e Vasco Pulido Valente estão em plena sintonia de onda: este diz que John Kerry parece saído de um filme de terror, ao passo que aquele, concretizando, o vê como uma personagem da "Família Addams". Seja. Entre as liberdades de que goza qualquer cidadão português, conta-se a liberdade de apoucar figuras públicas em função da sua fisionomia. (Na mesmíssima linha estética, Eurico de Barros chamou um dia "mutante" a Chelsea Clinton, o que, diga-se de passagem, nos diz muito mais sobre Eurico de Barros do que sobre Chelsea Clinton.) Não serei eu quem lhes quererá mal por fazerem uso dessa liberdade, e nem levo o meu zelo ao ponto de revelar a que género cinematográfico associo eu o palavrório destes ilustres fazedores de opinião. O que é um pouco mais difícil de compreender é a maneira como, da parte de Luís Delgado, um partidarismo pró-Republicano e anti-Democrata se traduz com tanta frequência em prognósticos pré-eleitorais, pequenos milagres de facciosismo transfigurados por uma fachada de objectividade. Quem acompanha o percurso jornalístico de LD há alguns anitos sabe ser esta uma sua predilecção quadrienal. Invariavelmente, em ano de eleições, LD carrega de tons sombrios o panorama do partido Democrata, e dá como mais que provável a vitória do candidato do "Grand Ole Party". Às vezes acerta; outras vezes erra. Quem se importa? Mesmo um relógio parado está certo duas vezes por dia, assim o afirma o senso comum. O tempo passa, as crónicas do dia anterior são apenas vagamente recordadas, as de há dez dias é como se não existissem. E quantas eleições cabem na vida útil de um jornalista? Não tantas que se corra o risco de atingir um número excessivo de vaticínios incorrectos.
Não nego a LD o direito às suas obsessões de estimação. Nós, aqui no 1bsk, também as temos, e não são poucas (Demis Roussos, bolos de arroz...). Pedia-se apenas, a um plumitivo tão respeitado e influente, que as explorasse de maneira um pouco mais criativa.


Ingrid Thulin e Victor Sjöström em Morangos Silvestres


ÓBITO #2: Um óbito que ocorreu há já algum tempo, mas de que só agora tomei conhecimento, foi o de Ingrid Thulin. Juntamente com Harriet Andersson, Bibi Andersson e Liv Ullmann, Thulin constituiu o quarteto de actrizes que monopolizou os papéis femininos nas obras-primas de Ingmar Bergman, tendo participado em 9 filmes deste realizador, incluindo "Morangos Silvestres", "O Silêncio" e "O Rosto" (o meu preferido de entre todos os seus desempenhos que conheço). Os seus papéis raramente eram simpáticos: contrastando com a sensualidade de Harriet e com a simplicidade solar de Bibi, Ingrid Thulin vestiu a pele de personagens marcadas por uma ambiguidade magoada, soturna mas não isenta de ironia; por vezes ácidas e refractárias, por vezes vagamente andróginas. Thulin filmou ainda com Resnais, Visconti e Ferreri, entre muitos outros, mas será sem qualquer dúvida através das obras de Bergman que ela será recordada.


ÓBITO #1: O 1bsk chora o falecimento de Jean Rouch, um dos verdadeiramente grandes mestres do cinema documental do século passado. Independentemente de qualquer discussão sobre a marginalidade ou menoridade do género documental, Rouch foi um grande cineasta tout-court, dos mais prestigiados e mais admirados pelos seus pares. Godard escreveu, a propósito de um dos seus mais conhecidos filmes: «"Moi, un Noir" est, en effet, le plus audacieux des films en même temps que le plus humble. (...) Le metteur en scène de l'admirable "Jaguar" ne traque pas la vérité parce qu'elle est scandaleuse mais parce qu'elle est amusante, tragique, gracieuse, loufoque, peu importe. L'important c'est que la vérité est là.»


Domingo, 22 Fevereiro, 2004

K.M.R.I.A.: Foi por meio do Quartzo, Feldspato & Mica que tomei conhecimento da polémica que agita o meio literário irlandês, a respeito do mérito real do "Ulysses" de Joyce, agora que se aproxima (16 de Junho) o centenário do "Bloomsday", o dia que serviu de inspiração para o romance, e ao longo do qual se desenrola toda a sua acção. Não pude evitar uma sucessão de sorrisos enternecidos. Não haja dúvida: daria imenso jeito a muitos escribas convencer o mundo de que "Ulysses" não passa de um megalómano exercício de estilo, datado e ilegível, promovido a monumento nacional graças à cumplicidade de um punhado de académicos com tendência para o obscurantismo elitista. Mas a verdade nem sempre se compadece com cenários ao mesmo tempo tão simples e sedutores. Para mal dos nossos pecados, "Ulysses" é, hoje como em 1922, uma assombrosa obra-prima, para além de uma aventura linguística que encerra uma miríade de motivos de deleite para quem se disponha a dedicar-lhe algum tempo e atenção. A reputação de ser um livro de leitura difícil não é inteiramente imerecida, mas restringe-se a dois ou três capítulos, que são tão refractários a traduções como ingratos mesmo para quem domine bem a língua inglesa. Se exceptuarmos uns quantos devaneios formais mais radicais, a "ilegibilidade" resulta das numerosas referências à situação política e cultural irlandesa do virar do século XIX para o XX. Algumas noções prévias a este respeito, assim como conhecimentos relativos aos antecedentes de algumas personagens (nomeadamente Stephen Dedalus, que já protagonizara "A Portrait of the Artist as a Young Man"), contribuem para melhor desfrutar da obra. São numerosas as obras de referência que oferecem um resumo sucinto do enredo, e a sua consulta pode ser útil ao leitor, para que, abstraindo-se da necessidade de entender "o que acontece", possa mais facilmente captar tudo aquilo que "Ulysses" tem para oferecer em termos de estilo, sátira, ousadia formal, humor, reflexão sobre o processo criativo. "Ulysses" exige tempo e disponibilidade, mas retribui com juros, e em moeda fortíssima. Se os compêndios do futuro dedicarão mais espaço a "Ulysses" do que a todo o corpus de um autor como Roddy Doyle, isso não se deverá a qualquer conspiração ou má vontade, mas simplesmente a uma questão de excelência literária. Controvérsias como esta dizem mais sobre o actual estado da literatura das ilhas britânicas (quando os filhos não estão à altura do pai, mate-se o pai) do que sobre a obra que escolhem como alvo.
(Nota final: não vou dizer o que se esconde por detrás da sigla K.M.R.I.A., porque sou um rapaz prendado. Leiam o livro, e tudo se esclarecerá.)


LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Registe-se a observação de uma moça que, na linha verde do metropolitano, lia Thomas Hardy ("The Return of the Native"). Por momentos, julguei tratar-se de "The Return of the King", mas a realidade superou o pessimismo das minhas expectativas. A vida, por vezes, traz dádivas de que não a julgaríamos capaz. Existe aqui uma lição para todos nós.


WHY WE FIGHT: Eu não sabia que Hans Werner Henze tinha composto uma ópera baseada no "Príncipe de Homburgo", com libreto de Ingeborg Bachmann. Fiquei a sabê-lo graças à recensão de Augusto M. Seabra. Torna-se (mais uma vez) evidente que a obra de Kleist continua a ser um manancial de ramificações e glosas multidisciplinares, muitas das quais carentes ainda do devido reconhecimento público. A nossa razão de ser e de insistir vê-se assim reforçada.


SURSUM CORDA!: No Epicentro, fala-se de Tarkovsky. Na Retorta, é Resnais quem está na berlinda. Decididamente, este país vai pelo bom caminho! Quem tem razão é o Dr. Durão Barroso.


MAIS SITES DE XADREZ: Acredito ser este o momento psicologicamente correcto para vos brindar com mais uns quantos enlaces xadrezísticos. Aqui poderão encontrar um manancial de curiosidades e trivialidades da autoria de Tim Krabbé. Aconselho particularmente esta página, onde são reveladas e comentadas as partidas mais longas da história, entre outros recordes mirabolantes. Dois sites franceses de excelente qualidade são o Notzaï e o Échiquier Niçois, sendo este último uma das melhores fontes que eu conheço para obter notícias recentes do mundo das 64 casas, com actualizações diárias. Aqui encontram um site eminentemente comercial, mas onde podem aceder gratuitamente às crónicas de Mig Greengard, de cuja pluma sai muita da prosa sobre xadrez mais divertida e contundente de toda a Internet. Por fim, uma palavra muito especial para The Week In Chess, da autoria de Mark Crowther. Há já muitos anos que acompanho esta crónica semanal de eventos xadrezísticos. Aqui, nada de blabla, mas simplesmente uma compilação de resultados de torneios, com a possibilidade de descarregar as respectivas partidas. O seu único defeito será talvez o de nele coexistirem eventos de primeiríssima ordem e torneios locais de interesse muito limitado, mas também este aspecto é parte da sua filosofia: enumerar e relatar, sem juízos de valor. Uma instituição.


Sexta, 20 Fevereiro, 2004

DESCUBRA AS DIFERENÇAS: Descubra as diferenças entre os seguintes textos:

Este diurno Amor está em corpo,
e num e noutro, como o pão partido
no banquete dos convivas silenciosos
que é o de cada um consigo e os outros.
Nenhuma coisa ausente o partilha,
quando as estações do tempo passam
por nós depois da Primavera e param
na longa mesa posta para o Verão.
Tudo é presença aqui, e o tempo é dia.


(Fiama Hasse Pais Brandão, in "Cantos do Canto")


«Requerida a apreciação de um decreto-lei elaborado no uso de autorização legislativa, e no caso de serem apresentadas propostas de alteração, a Assembleia poderá suspender, no todo ou em parte, a vigência do decreto-lei até à publicação da lei que o vier a alterar ou até à rejeição de todas aquelas propostas.»(Artigo 169º, número 2)




O PROBLEMA DA HABITAÇÃO: As Torneiras de Freud mudaram de casa. Desejo-lhes muitas felicidades na sapolândia, e que esta improvável combinação de psicanálise e canalização se continue a revelar profícua, para gáudio de todos.


TRADUTORE TRADITORE (VISTO NA CINEMATECA):No filme de Valerio Zurlini "La Ragazza con la Valigia" (estreado em Portugal em 1962), a páginas tantas, Claudia Cardinale refere-se ao pai do seu filho nos seguintes termos: "é de Turim, comunista, riquíssimo". O autor da legendagem em Português, como que por acaso, esqueceu o "comunista". O lápis azul não dormia, nesses tempos. (Quando muito, dormitava de vez em quando.)


OS BOIS PELOS NOMES: Gosto muito das palavras de abertura do artigo que os "Cahiers du Cinéma" dedicaram, no mês de Dezembro, à edição integral em DVD da obra de João César Monteiro: «Appelons un chat de gouttière un prince, et João César Monteiro ce qu'il fut, et demeure: un génie.». Está tudo dito.


10 GRANDES FILMES EM VOLTA DO TEATRO (ORDEM CRONOLÓGICA):
  • "Les Enfants du Paradis" (Marcel Carné)
  • "All About Eve" (Joseph L. Mankiewicz)
  • "Le Carrosse d'Or" (Jean Renoir)
  • "O Que São as Nuvens?" (Pier Paolo Pasolini)
  • "Out 1" (Jacques Rivette)
  • "Opening Night" (John Cassavetes)
  • "O Meu Caso" (Manoel de Oliveira)
  • "La Bande des Quatre" (Jacques Rivette)
  • "The Baby of Mâcon" (Peter Greenaway)
  • "Esther Kahn" (Arnaud Desplechin)



Quarta, 18 Fevereiro, 2004

AH ÇA IRA, ÇA IRA, ÇA IRA...: No DVD inglês do filme de Rohmer "L'Anglaise et le Duc", as indicações destinadas a pais e encarregados são impagáveis, e merecem reprodução na íntegra:

Language: None
Sex/nudity: None
Violence: Once, mild
Other: Infrequent mild horror

Aprecio sobretudo a maneira como um filme sobre a Revolução Francesa é encapsulado pela frase "Infrequent mild horror". No fundo, no fundo, Robespierre não passou de um amanuense.
Não custa sonhar... Segundo estes mesmos parâmetros, que apreciação mereceria um filme como, digamos, "Blue Velvet"?

Language: Heaps of profanity, especially when Dennis Hopper is around
Sex/nudity: Torrid and unhealthy/Full frontal + buttocks
Violence: A fair amount, and then someone's ear is cut off
Other: Frequent extreme horror




ISTO ANDA TUDO LIGADO:

1 - Edward Said estabeleceu uma distinção entre dominar o tempo e habitá-lo, no contexto de uma obra artística. Por um lado, o paradigma da dominação/desenvolvimento, no qual assenta o grosso da tradição artística ocidental; por outro, a proliferação baseada na variação e na polifonia. «(...)the question of whether you try to resist the time and erect the structure, or you try to ride time and live inside the time.» Said cita os nomes de Olivier Messiaen e Gerard Manley Hopkins para ilustrar esta sua tese. Esta maneira de ver parece-me extremamente interessante e fecunda. O debate sobre sincronia e diacronia não anda longe, se bem que subtilmente transfigurado, e injectado com nova relevância. Porém, esse "habitar o tempo" não exclui a luta, a obrigação de ocupar um espaço vital. Causa e consequência escapam à... À tirania da linearidade. Um elogio à liberdade de... Preferir ao decurso do tempo a sua textura... Prolongamentos ideológicos... Leitura pós-moderna... Sem esquecer...

2 - A América veio ver-me. Trazia uma luva branca e uma luva encarnada. Sentou-se na única cadeira, ligeiramente curvada para a frente.

3 - Do lote de livros antigos vendido em hasta pública constava um opúsculo in-octavo, anónimo, com data de 1777, cujo título era "Coufaf magnificaf e extraordinariaf para fazer em Lifboa". O bordo das páginas encontrava-se levemente chamuscado, e a contracapa estava riscada por 5 sulcos de estilete, de maneira a sugerir grosseiramente uma taça ou copo.

4 - Um rasto de sangue no soalho da sala.




COMPLEMENTO: Num artigo recente, falei do filme "Pai e Filho". Insiro aqui uma imagem do filme para complementar a discursata, e escrevo este post para assinalar isso mesmo.


Segunda, 16 Fevereiro, 2004

GUARDADO ESTÁ O BOCADO: Lança-me sempre em cruel confusão a avidez com que o espectador médio de cinema abandona a sala, assim que começa a exibição da ficha técnica, como se o filme já tivesse acabado, como se nada mais houvesse para ver nem descobrir. Muitas salas tornam-se cúmplices deste barulhento tropel, ao reacender as luzes prematuramente. Certos filmes, porém, reservam uma recompensa àqueles que aguentam a pé firme até ao último fotograma, até ao último decímetro de película. E "Lost in Translation" pertence a esse número. Se ainda não viu, preste atenção; se já viu sem reparar, vá ver outra vez. No fim de tudo, no verdadeiro fim, há uma derradeira imagem, fugaz mas perfeitamente visível. Não a vou descrever nem especular sobre intenções e significados. Apenas é importante saber que a vi. Se não estivesse lá, não a teria visto. Mas estava, e vi.


DA MORAL E DA LAICIDADE: Recebemos deste blog um pedido de explicações relativo a algo que escrevemos recentemente sobre a fundamentação de uma moral laica, e nomeadamente sobre esta frase: «O conceito de uma moral laica, felizmente, já se emancipou do estatuto de divagação fantasista, e encontra-se consolidado, teoricamente escorado, e cada vez mais solidamente implantado na opinião pública.» É com muito gosto que satisfaço esta solicitação, até porque me permite regressar a um assunto que me é caro. Quando escrevi o que escrevi, visava essencialmente todos aqueles que arqueiam as sobrancelhas de espanto perante uma confissão de ateísmo, por não conceberem que alguém carente de fé possa reivindicar uma vida moral. Do ponto de vista destes, a ausência de Deus, do ponto de referência absoluto do qual emana todo o Bem e toda a Justiça, não pode senão dar origem a um Raskolnikov em potência, desprovido de valores, pronto a brandir o machado contra o seu próximo. Passe a (ligeira) caricatura, muito boa gente há que pensa deste modo. Pois bem, eu não só defendo que um manancial supremo de bondade e rectidão não é condição necessária para que um indivíduo se cumpra no plano moral, como entendo até que isso pode constituir um grave obstáculo (pelo menos do ponto de vista teórico, visto que, na prática, o bom senso civil, mais ou menos convicto, mais ou menos bonacheirão, costuma prevalecer sobre a literalidade dogmática). Não conheço melhor exposição disto mesmo do que a que fez Kierkegaard. Ao aceitar cumprir a vontade do Senhor ("Temor e Tremor"), que o instava a oferecer o próprio filho em sacrifício, sem discutir nem duvidar, Abraão escolheu a via da fé em detrimento da via da ética: assumindo-se como "cavaleiro da fé", entregou-se ao paradoxo, rompendo as amarras com o mundo das causas e consequências, da responsabilidade e do delito. E Abraão estava "certo", na medida em que, a partir do momento em que se aceita a existência de uma fonte de Bem absoluto, nada mais resta do que vergar-se a todo e qualquer mandamento que dela emane. Da mesma maneira, aqueles que cometiam as mais ferozes atrocidades nas cruzadas acreditavam-se absolvidos de qualquer falta remível no mundo dos homens. (Dir-se-á: «Mas os tempos mudaram muito, desde as cruzadas!». Com certeza que sim. Mas é precisamente porque certas coisas foram abandonadas e levadas pela enxurrada da história que hoje podemos dizer que os tempos mudaram.)
Quando falei em consolidação e consistência teórica, referia-me simplesmente aos trabalhos de todos os pensadores que têm vindo a colocar as problemáticas da ética na esfera do humano, e a dinamitar dogmas em favor do domínio do relativo: Kant, certamente, mas também, por exemplo, os utilitaristas como Mill e Bentham. Para concluir, a minha referência a uma implantação na opinião pública cada vez mais sólida foi, talvez, infeliz e optimista. (Costumo desconfiar da locução "cada vez mais", muleta de que se serve a inata tendência do ser humano para lobrigar tendências onde elas não existem.) Mas não me parece descabido admitir que as noções de secularização da moral têm vindo a afluir ao ideário do "homem da rua" (essa entidade ao mesmo tempo tão imaterial e tão útil), sem pompa, e não necessariamente pelos caminhos mais directos.




CINEMA: "Lost in Translation", de Sofia Coppola. Bob e Charlotte vivem numa vigília fatigada permanente, misto de jetlag, desilusão conjugal e estado de alma. "Lost in Translation" é, antes de mais, uma colagem de devaneios nocturnos que se confundem num só, uma exploração das qualidades da noite entendida não como palco de mistérios e introspecção onírica, nem como promessa realizada de exaltação sensual, mas sim como espaço de possibilidades, sucessão de horas por ocupar. Durante a primeira parte do filme, o pendor modorrento e chiaroscuro da noite é menosprezado em favor de uma sucessão de cenas de cariz paródico, que parece anunciar um filme baseado na crónica de costumes transcultural, engenhosa mas limitada. O primeiro mérito de Sofia Coppola é saber onde situar a primeira subtil inflexão. O preâmbulo histriónico funciona como preparação de terreno, exaustão de recursos e situações cómicas que traz na sua esteira os primeiros hiatos melancólicos. O encontro entre Charlotte e Bob não é um ponto definido no tempo. A familiaridade entre ambos não tem verdadeiro começo, e nunca deixa de se metamorfosear, do princípio ao fim do filme. É por gradações que se instala a cumplicidade entre ambos, e o segundo mérito de Sofia Coppola (de maior calibre do que o primeiro) é gerir esta fase com sábio comedimento, depositando nas imagens uma fé infinita, mas muito longe de ser cega; uma fé de que, bem vistas as coisas, poucos realizadores contemporâneos parecem capazes, preferindo-lhe a manha, a pirueta no argumento, a batota ou a manobra de retirada. O núcleo do filme é essencialmente feito de rostos e corpos, ora vagamente ansiosos por ocupar o seu tempo, ora entregues à suave perplexidade de existir. Não há nada de mais íntimo do que isto; nada. E Sofia Coppola compreende-o, e pouco mais faz (mas este "pouco" é "muitíssimo", são mundos e eternidades) do que ser fiel a essa evidência, prestando tributo à nobreza do humano num cenário de vulgaridade e anonimato, naquilo que também é (sem ser "apenas isso") um tocante tributo ao bom gosto, à mesura, à decência, à introspecção, à discrição, à serenidade, ao escrúpulo.
Mas ninguém ignora que uma cumplicidade traz consequências, indutoras ou não de desgosto, e que não se termina como quem desliga uma televisão; o livre arbítrio não estende o seu poder a estes estranhos domínios. O terceiro mérito de Sofia Coppola (o maior de todos) é nada escamotear, e encarar de frente o beco sem saída que o seu engenho e o seu impulso traçaram. Bob e Charlotte (sublimes Bill Murray e Scarlett Johansson) sabem que estão prestes a viver uma perda, para a qual nenhum deles se sente suficientemente forte. A perda será tanto mais aguda quanto nenhum deles teve tempo de se aperceber da dimensão daquilo que vão perder; e ambos sabem que essa consciência os visitará mais tarde, quando a inevitabilidade de tudo já se tiver instalado. Nenhuma palavra do mundo os salvaria; apenas o espectro do indizível parece ainda digno de ser perseguido. E não é outra coisa senão o indizível que encerra o filme, um indizível bichanado ao ouvido. Pouco importa se funciona como banal consolo, como sucedâneo: a última deixa é intenção pura. À sua fé na imagem, Sofia Coppola acrescenta uma fé dreyeriana na palavra. O que, por si só, talvez não fosse suficiente para fazer de "Lost in Translation" um pequeno prodígio (mas há também o pudor com que olhares e vozes são filmados, como coisa com vida e estratos, coisa que se apalpa sem jamais se possuir).


O REGRESSO DO JEDI: O regresso às lides de Vasco Pulido Valente foi anunciado pelo "Diário de Notícias" com uma pompa discreta, mas triunfante. Compreende-se. Cada um joga os trunfos que possui, e não há dúvidas de que o estilo de VPV, acintoso, desencantado, pleno de azedume, é de molde a criar adeptos. A primeira crónica do filho pródigo (30 de Janeiro), subordinada à corrida eleitoral americana, não deixa margem para dúvidas: mantém-se a postura de misantropo franco-atirador, e o laconismo lapidar que fará as delícias daqueles que confundem brevidade com lucidez e capacidade de penetração. VPV escreve como se ambicionasse, remotamente, conjugar as funções de oráculo e de profeta da desgraça; faltam-lhe, porém, tanto a verve prognosticadora do primeiro como a fogosidade moralizante do segundo. Do alto do seu monte Ararat, mal disfarçando um bocejo entediado, balbucia "depois de mim o Dilúvio", ciente no entanto de que o Dilúvio já começou, convenientemente redimensionado à sua escala portuguesa de mesquinho aguaceiro. Quanto à vulgaridade elevada a exercício quotidiano ("Dean gritou e saltou como um verdadeiro alucinado; precisa de uma camisa-de-forças", "Kerry saiu ontem de um filme de terror", "Wesley Clark, como bom militar, oscila entre a gabarolice e a parlapatice"), ela já pouco surpreende da parte de quem há muito se desembaraçou de qualquer ambição de comedimento ou elegância.


Domingo, 15 Fevereiro, 2004

THIS POST INTENTIONALLY LEFT BLANK:











ANTES E DEPOIS:

Philip Larkin, 1939:

Now night perfumes lie upon the air,
As rests the blossom on the loaded bough;
And each deep-drawn breath is redolent
Of all the folded flowers' mingled scent
That rises in confused rapture now.
As from some cool vase filled with petals rare:
And from the silver goblet of the moon
A ghostly light spills down on arched trees,
And filters through their lace to touch the flowers
Among the grass; the silent, dark moon-hours
Flow past, born on the wayward breeze
That wanders through the quiet night of June.
Now time should stop; the web of charm is spun
By the moon's fingers over lawns and flowers;
All pleasures I would give, if this sweet night
Would ever stay, cooled by the pale moonlight;
But no! for in a few white-misted hours
The East must yellow with to-morrow's sun.


Philip Larkin, 1971:

THIS BE THE VERSE

They fuck you up, your mum and dad.
   They may not mean to, but they do.
They fill you with the faults they had
   And add some extra, just for you.

But they were fucked up in their turn
   By fools in old-style hats and coats,
Who half the time were soppy-stern
   And half at one another's throats.

Man hands on misery to man.
   It deepens like a coastal shelf.
Get out as early as you can,
   And don't have any kids yourself.





PEQUENO DETALHE: Na sua secção de aniversários, o "Público" de ontem anunciava que Gregory Hines fazia 58 anos. E teriam carradas de razão, não se desse o caso de este actor e bailarino ter falecido a 9 de Agosto do ano passado. Impõe-se uma pequena actualização de registos.


Sexta, 13 Fevereiro, 2004

MENSAGENS DE ERRO II - AS DUAS TORRES: Mas a mensagem de erro que eu temo acima de todas as demais é, sem dúvida, esta: "SEGMENTATION VIOLATION". Trocada por miúdos, significa que ocorreu um erro num programa, de natureza não identificada, algures, num ponto indeterminado, protegido por tabus e diversas camadas de mistério. Mas a aliteração é bonita, e aqui entramos novamente no domínio da lírica.


A VIDA E TUDO O RESTO: Graças ao "Público" de quinta, ficámos a saber que Eduardo Prado Coelho compra no "El Corte Inglés" os tinteiros para a sua impressora. Pormenor crítico ou meramente acessório? Tanto se nos dá. Uma proposição não depende nem do seu valor lógico, nem da sua suposta relevância ontológica, para ter direito de cidade. Wittgenstein tinha razão. «O mundo é a totalidade dos factos, não das coisas.»("Tractatus", 1.1), e «Um elemento pode ser o caso ou não ser o caso e tudo o resto permanecer idêntico.»(ib., 1.21). A meu modestíssimo ver, no Office Center saía mais em conta.


CONTAGEM DOS BOLOS DE ARROZ NO BAR DA FACULDADE DE CIÊNCIAS: Hoje eram 32 (trinta e dois). As potências de 2 têm outro encanto.


CONTRA O PESSIMISMO: Aquela concorrente do "Quem Quer Ser Milionário?" que sabia quem era o pintor Paul Signac contribuiu para restaurar parcialmente a minha confiança nas forças vivas da Nação, e para dar alento à frágil esperança de que o futuro da humanidade possa conter algo que não seja a infâmia e o descalabro.


KNOCK ON WOOD: Sexta-feira 13 é sempre um dia muito especial para um inimigo da superstição como o autor destas linhas. É um daqueles dias que pede grandes decisões e viagens longas.


Quinta, 12 Fevereiro, 2004

PROBLEMA DO DIA:

  a b c d e f g h  
 8   8 
 7   7 
 6   6 
 5   5 
 4   4 
 3   3 
 2   2 
 1   1 
  a b c d e f g h  

(...)
Voici les dédains du regret
Tout écorché comme une fraise
Le souvenir et le secret
Dont il ne reste que la braise

(Apollinaire, "Calligrammes")



Terça, 10 Fevereiro, 2004

CONNECTION CLOSED BY FOREIGN HOST: Na Seta Despedida celebra-se, com inteira razão, o fôlego lírico das mensagens de erro informáticas. Ocorreu-me uma passagem do conto "The Explanation", de Donald Barthelme, um dos génios da literatura do século XX.

«Q: I have a number of error messages I'd like to introduce here and I'd like you to study them carefully...they're numbered. I'll go over them with you: undefined variable...improper sequence of operators...improper use of hierarchy...missing operator...mixed mode, that one's particularly grave...argument of a function is fixed-point...improper character in constant...improper fixed-point constant...improper floating-point constant...invalid character transmitted in sub-program statement, that's a bitch...no END statement.
A: I like them very much.
Q: There are hundreds of others, hundreds and hundreds.»


Pelo que me toca, gosto muito desta: "This page intentionally left blank". Pouco lhe falta para ser um haiku.
Nos primeiros tempos de Internet, quando usava ftp's, archies e outras engenhocas, havia uma mensagem cuja frequência se tornava vagamente sinistra: "Connection closed by foreign host".


between pain and nothing, I choose.....


«O homem enquanto ser vulnerável à dor, a inutilidade de antecipar a dor, o estratagema para a disfarçar de algo que não seja dor, a ingenuidade do estratagema, a improvável beleza da ingenuidade, o preço a pagar pela beleza, o momento e as consequências futuras, as metáforas para o tempo como uma grinalda gasta e suja, as palavras reencarnadas para uma última e embaraçosa missão, o chão de terra e a parede de cal. A voz humana. A voz humana.» (Ponziani).


ISTO ANDA TUDO LIGADO:

1 - Marat, director do jornal "O Amigo do Povo", foi assassinado, em 1793, por Charlotte Corday, com uma faca de cozinha que ela comprara nos jardins do Palais Royal.

2 - Uma finíssima película de gelo que cobre a janela impede quem está na cozinha de distinguir a rapariga que estuda com doloroso afinco as deixas da peça Kätchen von Heilbronn.

3 - Na sessão "Livros em Volta", o poeta Manuel António Pina virou uma garrafa de água ao contrário.

Coincidência ou não? Cabe a si decidir.


NÃO: Recentemente, Jorge Silva Melo recusou um prémio do Instituto das Artes. Os argumentos que apresentou não me convenceram totalmente. Não considero que a relação entre o artista e os poderes instituídos tenha de ser forçosamente uma relação de antagonismo. Não entendo que devam ser, a priori, negadas às entidades estatais a capacidade e a autoridade para julgar desempenhos e relevâncias no domínio das artes. Não partilho da convicção de que a coerência artística passa necessariamente pela recusa de distinções oficiais.
E, não obstante tudo isto, sinto vontade de aplaudir a decisão. A atitude de recusa reveste-se de um apelo muito poderoso, um apelo que, em última análise, não escapa ao domínio da estética. Contra os falsos e bafientos consensos, contra a odiosa ditadura dos sorrisos de circunstância e da palmadinha na omoplata, contra a mediocridade elevada a desporto e passatempo nacional, cuidada com o escrúpulo de um floricultor, a rejeição surge como acto de hombridade e de sanidade pública. O "não" convicto e responsável pode ser tão belo como o mais sincero e delicado "sim"; melhor ainda, completam-se com ferocíssima perfeição.
Ainda não perdi a esperança de assistir, em dias da minha vida, a uma recusa de prémio Nobel da literatura, como o fizeram Sartre e Pasternak (se bem que este último, ao que consta, não por vontade própria), ou, muito melhor ainda, de um Óscar (TM, ©), como o fizeram George C. Scott e Marlon Brando.
Muito a propósito disto, não percam "Não reconciliados", de Straub, na Cinemateca, dias 17 e 20, às 22h00.


Domingo, 8 Fevereiro, 2004

QU'EST-CE QUE C'EST "DÉGUEULASSE"?: Foi a terceira ou quarta vez que vi "À Bout de Souffle", mas só desta vez me chamaram a atenção alguns pormenores curiosos e absolutamente acessórios (o que só vem demonstrar que o fetichismo cinéfilo é algo que se agudiza e desenvolve com os anos). Por exemplo, o nome da rua parisiente onde fica o apartamento no qual Michel Poiccard passa a sua última noite: rue Campagne Première (e não "Première Campagne", como diz Jean Seberg, ao telefone, no momento da denúncia). Esta rua fica situada no 14ème arrondissement, por sinal um dos meus preferidos, e onde vivi durante alguns meses. Partindo do princípio de que é essa mesma a rua onde a personagem de Jean-Paul Belmondo acaba por ser abatida, a passadeira para peões situa-se na esquina ou do Boulevard du Montparnasse ou do Boulevard Raspail. Seria preciso estar no local para tirar a limpo esta questão, que reputo de importância capital.
E quanto à origem do nome da rua? Socorre-me o indispensável "Histoire et Mémoire du Nom des Rues de Paris", de Alfred Fierro. «Le général Taponnier, propriétaire des terrains qu'il lotissait, baptisa Campagne Première la rue qui les traversait pour rappeler sa première campagne militaire en 1793 à Wissembourg.»


ENCORE UNE FOIS CETTE AFFAIRE DE FOULARD...: Gostei muito destas declarações de Jean Glavany, ex-ministro francês da agricultura. Aqui ficam alguns extractos da notícia:

«Jean Glavany s'est félicité vendredi que le "dialogue restera la valeur première" dans les établissements scolaires en matière de voile.»

«Quant au principe de "dialogue" avec les jeunes filles voilées, l'ancien ministre de l'Agriculture a rappelé que "la mission de l'école de la République, ce n'est pas d'exclure mais d'intégrer les jeunes".»

«"Nous voulons que, par le dialogue, par la concertation, la pédagogie, la conviction, un très grand nombre d'équipes pédagogiques et chefs d'établissements arrivent à convaincre des jeune filles qui arrivent voilées au lycée et de le retirer et poursuivre leur scolarité", a expliqué Jean Glavany.»


Estas palavras ilustram, de maneira límpida, aquilo que muitos teimam em não compreender. Legislar sobre a interdição de símbolos religiosos ostensivos na escola pública não significa colocar, à porta de cada estabelecimento de ensino, um inspector encarregue de medir os centímetros quadrados de tecido que cobrem a cabeça de cada aluno, e de barrar a entrada, sem contemplações, a todo aquele que ultrapasse uma fasquia imposta pela decência republicana. A lógica prevalecente deverá ser a da inclusão, a da mediação, a da persuasão, aplicada caso a caso. A lei deverá servir como ponto de apoio, como limite último, como alicerce para uma atitude de vigilância firme mas esclarecida.


POEMA EMPÍRICO EM RESPOSTA A UM POEMA MÍSTICO:

(Para a Sandra)

AN EGYPTIAN PULLED GLASS BOTTLE IN THE SHAPE OF A FISH

Here we have thirst
and patience, from the first,
   and art, as in a wave held up for us to see
   in its essential perpendicularity;

not brittle but
intense - the spectrum, that
   spectacular and nimble animal the fish,
   whose scales turn aside the sun's sword by their polish.


(Marianne Moore)




ECOS ESCAQUÍSTICOS NA BLOGOSFERA: Descobri recentemente (graças a uma referência ao 1bsk, que desde já agradecemos) um blog chamado Meia Livraria. Fiquei muito contente por nele descobrir referências à actualidade xadrezística internacional, nomeadamente ao recente torneio Corus, em Wijk aan Zee, conquistado com brilhantismo pelo indiano Vyswanathan Anand. Tenho negligenciado o xadrez, por culpa da falta de tempo. Gostaria de falar de mais torneios, de mencionar mais enlaces, de lançar mais farpas contra aqueles que transformaram o mundo das 64 casas num híbrido de casino, ringue de luta livre e asilo de lunáticos.
(Apreciei particularmente, como não poderia deixar de ser, a referência ao "ar agressivo e arrogante de Kasparov".)


CINEMA: Chama-se a isto borrar a pintura. Chama-se a isto um retrocesso. Ao programar o filme "Peixe Lua", poucos dias após o falecimento de José Álvaro Morais, a RTP2 deu mostras de justiça e sentido de oportunidade. Mas escusava de interromper o filme a meio para impingir mais uma das suas intermináveis sequências de autopropaganda, com "publicidade institucional" à mistura. A nova grelha já demonstrou reservar ao cinema um papel de parente paupérrimo. Seja. Mas não é por isso que deixa de ser exigível um mínimo de respeito pelos filmes programados. E esse mínimo de respeito passa, entre outras coisas, pela exibição do filme na sua integralidade e sem interrupções. Tudo o resto (respeito pelo formato da imagem, qualidade da tradução e legendagem), estando longe de ser acessório, vem em segundo lugar.
Um bom filme cortado a meio é como uma degustação de vinhos finos interrompida por um bochecho de água salgada.


LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Ontem, sábado, assisti a uma coisa extraordinária: um segurança da Cinemateca folheava um livro chamado "Public Attitudes Towards Church and State", e fazia-o como quem consulta, à procura de alguma coisa específica. Se isto não merece 50 pontos de bónus, não sei o que é que merece 50 pontos de bónus.
(Nota mental: tenho de começar a usar de maior discrição nesta rubrica dos leitores em lugares públicos. Não é meu desejo comprometer seja quem for. Lisboa não é uma cidade tão grande quanto isso.)


Samuel Beckett

«The expression that there is nothing to express, nothing with which to express, nothing from which to express, no power to express, no desire to express, together with the obligation to express.» (Samuel Beckett, "Three Dialogues with Georges Duthuit") (Fotografia © Jerry Bauer)







Sexta, 6 Fevereiro, 2004

UMA GOTA DE JUSTIÇA: A RTP2 programou 2 filmes de José Álvaro Morais em 2 dias consecutivos: o documentário "Ma Femme Chamada Bicho", e "Peixe Lua". Tentarei escrever alguma coisa a respeito deste último. Soberba ideia seria agora a reposição de "O Bobo" no circuito comercial.


CINEMA: "Pai e Filho", de Aleksandr Sokurov. Escrever sobre este filme não é fácil. Sokurov é, de entre os realizadores contemporâneos, um daqueles que mais fortemente se insere na tradição da pintura ocidental. Isto não significa que os seus filmes se esgotem na sua componente plástica (por mais que os interiores façam lembrar o melhor de Rembrandt, por mais que certos exteriores remontem a Hubert Robert); significa, bem pelo contrário, que o filme surge como uma concatenação, ou uma hierarquização, de problemas cuja resolução ou impasse são de natureza essencialmente visual. Por outras palavras, o elemento narrativo nunca é preponderante, nem detém o exclusivo da produção e do desatar dos conflitos. "Pai e Filho" é, acima de tudo, aquilo que é, não transponível para qualquer outro plano que não seja o icónico, e, intimamente associado a este, o espiritual. A simples vivência temporal do filme, o seu visionamento, constituem a relação privilegiada a que ele se presta. Qualquer consideração, aproximação, teorização a seu propósito, não complementam nem prolongam: limitam-se a coexistir com o próprio filme, sem redundância de funções. O próprio estado de coisas que nos é apresentado, em "Pai e Filho", propicia a lenta asfixia da narrativa: o pai, pelo seu vigor, pela sua beleza e exuberância física, como que sonega o livre trânsito a uma ordem natural dos eventos que passaria pelo declínio, pelo venturoso e simbólico passar de testemunho ao filho que sai da adolescência. Os motes que a tradição costuma anexar a uma situação desta índole são serenamente aflorados, e deixados à sua impotência para alterar rumos: a namorada que ameaçaria precipitar a partida do filho; as mansas arremetidas de um passado mal resolvido. A definição das personagens, a delimitação dos seus contornos, das regiões de sombra e de luz, alheia a qualquer realismo psicológico ou pathos, a pintura de um devir fluidamente a-histórico, são o verdadeiro assunto de "Pai e Filho". Tudo isto balizado por dois sonhos, em que pai e filho surgem sozinhos num infinito que nenhum procurou: aspiração pura, limite, terrível euforia.
Faltou mencionar, neste comentário:
- o abismo entre carícias tangenciais e carícias radiais (únicas toleradas entre homens), entre afloramento e percussão, transposto na espantosa cena de abertura
- a viagem de eléctrico pelas ruas de Lisboa
(hipóteses: manuscrito ilegível, omisso, ou ocultado por razões de força maior)



OUTRA VEZ OS FERREIRAS DE MANCHESTER: O Rui, da Klepsýdra, divulgou também a sua lista de canções preferidas dos Smiths, que eu passo a comentar, de forma muito sucinta.
"Panic" é a única que constava também da minha selecção. O estribilho "hang the DJ, hang the DJ, hang the DJ" chegaria para tornar este um momento alto do rock dos anos 80. "Still Ill" figuraria possivelmente num top 20 pessoal, muito graças aos esplendorosos versos "Does the body rule the mind or does the mind rule the body? I dunno". "Last Night I Dreamt That Somebody Loved Me" possui, nisto estou de acordo, uma das mais intensas e perturbantes introduções que conheço, mas acho que o resto da canção não está à altura. "Girl Afraid" e "Heaven Knows I'm Miserable Now" são temas que nunca me disseram muito. "Reel Around the Fountain", pelo contrário, é excelente, ao mesmo tempo críptico e cândido, uma alquimia sublime de que só Morrissey possuía o segredo.
Quanto aos restantes, "The Last of the Famous International Playboys", "The More You Ignore Me, the Closer I Get", "Everyday Is Like Sunday", "We Hate It When Our Friends Become Successful", pertencem todos, salvo erro grosseiro da minha parte, à fase a solo de Morrissey, que eu conheço mal. (Mas "Vauxhall and I" é um grande álbum".)


ISTO ANDA TUDO LIGADO:

1 - O barão de Charlus, apesar de ser ele próprio um "invertido" (para empregar a terminologia de Proust), tinha horror aos efeminamentos dos que o rodeavam, e contra eles se manifestava de maneira violenta.

2 - Os vegetais não cabem na gaveta dos vegetais do frigorífico.

3 - Robert Desnos chamou a Gérard de Nerval "autêntico herdeiro da doutrina" e "perfeito alquimista do verbo".

4 - É com muita frequência que se ouve assobiar melodias de Michel Polnareff, para os lados do Príncipe Real.

Coincidência ou não? Você decide.


ESCUTADO NA RPL: De acordo com uma sondagem recente, mais de 70% dos professores franceses concorda com a lei relativa à interdição de símbolos religiosos ostensivos na escola. Eis o que ajuda a compreender até que ponto esta medida, longe de ser uma imposição autoritarista por parte de uma clique bem-pensante, surge como resposta a preocupações legítimas de toda uma classe, preocupações essas que, muito amiúde, têm mais a ver com questões práticas do funcionamento dos estabelecimentos escolares do que com quaisquer nebulosos meandros ideológicos.
Mas é também possível que a classe docente em França seja maioritariamente composta por jacobinos. Seria uma explicação mais simples.


LIDO NO "DESTAK": O actor Rogério Samora pensa que a mudança da Feira Popular para Monsanto pode ser uma boa medida.


QUEM TE AVISA TEU AMIGO É: Há poemas de Benjamin Péret para ler no Quartzo, Feldspato & Mica. «Mais qui me donnait-on charge ainsi, plus que chimériquement, d'accueillir, de conseiller? Quelques jours plus tard, Benjamin Péret était là.» (André Breton, "Nadja")


Quarta, 4 Fevereiro, 2004

MITOS FUNDADORES DOBLOG: Amar aquele verso de Baudelaire não chegava. Era também preciso construir uma vida que suportasse esse amor, uma vida preenchida com sustos, refeições, viagens ao estrangeiro, e sobretudo longos lapsos de espera. Mas a cidade não se prestava a isso. Era preciso refazer uma cidade, chamar-lhe "Lisboa" também, em jeito de chiste que era também um desafio. Mas certas pracetas, certas escadarias, rejeitavam os sonetos, destilavam malícia. Foi necessário proceder caso a caso, usar da astúcia, bochechar sílaba por sílaba ou esconder dedos nos dedos das luvas. E o factor humano? Um inventário de partes anatómicas revelou-se escasso. O homem pode ser a medida de todas as coisas, mas urge demonstrá-lo, galgando quilómetros inúteis, penetrando em espaços públicos sem deixar de olhar em frente, transpondo soleiras. Representou-se a cena do costume, no Jardim da Estrela. Dois seres que se perseguem, o medo mais forte do que o (dúctil e colorido) desejo. Depois cai a noite, muito de repente, como sempre acontece no mês de Fevereiro.


PONTOS NOS IS E BARRAS NOS TÊS: Foi já há um ror de dias que o Tiago, da Voz do Deserto, escreveu o seguinte:

«O BlogSobreKleist tem um poste sobre empregar "o termo "milagre", para qualificar eventos perfeitamente explicáveis, e que nem sequer desafiam com excessivo desplante os limites da verosimilhança". O Alexandre tem toda a razão. Leiam o texto. Às vezes é preciso um ateu para nos trazer o esclarecimento de Deus.»

Com um graúdo atraso (meus pombos-correios, porque sois tão indolentes?, tendes porventura medo de danificar uma das vossas magníficas asas?), reajo não ao teor da resposta, mas ao epíteto "ateu". Não me revejo nele, por uma questão que pode parecer mera bizantinice semântica, mas cuja importância me parece merecer a distinção, e o tempo gasto com ela. A palavra "ateu" possui o poder de confinar a um reduto aquele que assim se vê qualificado: contumaz por garotice, na melhor das hipóteses; obstinado na rebarbativa recusa da evidência teísta, na pior. "Ateu" é aquele que recusa, que se opõe, que se priva de algo que história, necessidade e bom senso conspiram para impor aos homens. Este termo implica que, subjacente à vida, se encontra uma escolha da mais elevada relevância, entre a fé numa entidade divina e a sua recusa.
Por outras palavras, à divisão da humanidade entre ateus e crentes está associada a convicção de que a fé e a sua ausência são questões fundamentais no mundo contemporâneo. Será que assim é? Eu penso que não. Olho em meu redor, e todos os fenómenos da natureza ou são explicáveis racionalmente, ou estão já explicados. Intervenções sobrenaturais, ou a própria noção de metafísica, são inúteis, excepto como passatempos intelectuais. Quanto à vivência moral, quem segue esteblog com um mínimo de regularidade sabe já que me oponho, com a maior veemência, à falaciosa ideia segundo a qual um comportamento ético não se concebe sem o recurso a uma divindade, e a um ponto de referência absoluto do qual emane todo o Bem. O conceito de uma moral laica, felizmente, já se emancipou do estatuto de divagação fantasista, e encontra-se consolidado, teoricamente escorado, e cada vez mais solidamente implantado na opinião pública. Será que o simples facto de a grande maioria da humanidade professar uma religião legitimaria considerar este um problema de importância conceptual maior? Julgo que nenhum crente aceitaria de bom grado transformar a questão numa questão de demografia.
As palavras importam. Esta palavra, "ateu", mesmo quando pronunciada por um campeão da tolerância, traz no seu bojo o estigma, e uma séria distorção das premissas. Define por defeito, por carência, circunscreve algo que falta, de cuja transcendental significância não seria permitido duvidar. Prefiro evitá-la.


1 VELA SOPRADA PELA CORRENTE DE AR: Aqui há um par de dias, a Janela Indiscreta cumpriu um ano de existência. Preparava-me eu para comentar o post que anunciou a feliz efeméride, quando o absurdo de tal veleidade me saltou aos olhos, com paralisadora evidência. Entre o banalíssimo "Parabéns, continuem o bom trabalho" (que soaria, atendendo às circunstâncias, como o eufemismo da década) e a tentativa de exprimir por escrito toda a gratidão e admiração pela excelência, pela delicadeza, pela infalível exigência ao nível das escolhas e dos conteúdos, pela litania de descobertas deliciosas com que somos brindados há mais de 365x360 graus de rotação terrestre, achei que qualquer meio termo soaria forçosamente a falso. Mesmo este post será coisa pouca e modesta, mas passar em claro este primeiro anito de indiscrição também me pareceria inaceitável.


O 1BSK TALVEZ TENHA ERRADO: Num post recente, dei a entender que José Álvaro Morais tinha falecido aos 59 anos, fiando-me na notícia do "Público". Contudo, o "Dicionário do Cinema Português 1962-1988", de Jorge Leitão Ramos, refere que o nascimento do cineasta ocorreu a 2 de Setembro de 1943. Fica a dúvida.


Segunda, 2 Fevereiro, 2004

PROBLEMA DO DIA:

  h v k l e i s t  
 1   1 
 7   7 
 7   7 
 7   7 
 1   1 
 8   8 
 1   1 
 1   1 
  h v k l e i s t  


As brancas jogam, e dão mate em 4 lances.




Domingo, 1 Fevereiro, 2004

AS MINHAS 10 PREFERIDAS DOS SMITHS (ORDEM CRONOLÓGICA):
  • This Charming Man
  • What She Said
  • Suffer Little Children
  • That Joke Isn't Funny Anymore
  • Panic
  • The Queen Is Dead
  • Cemetry Gates
  • Half a Person
  • A Rush and a Push and the Land Is Ours
  • I Started Something I Couldn't Finish



DAS ARMADILHAS DA REPETIÇÃO: «(...)It ends, it passes, it disappears, it's not there, while we dream of an Eternal Return. Of what? Whatever "it" is. It's sort of like a director saying, "Do it again." Even when I used to say to the actor, "Do it again," there was always the second thought: "What 'it' are we talking about? And do we really want it?" For that would be merely repetition. "It all, it all," says the woman in Beckett's Footfalls, which also implies the repetition you don't quite want to repeat. So do it again, but not that.» (Herbert Blau, em entrevista ao "Performing Arts Journal", 1992).

Judite acabou de ler. Num gesto que era típico dela, humedeceu os lóbulos das orelhas com dedos de saliva. Aquele sentimento de rubor nas extremidades, acompanhado de vertigens, costumava acompanhar revelações de modesto alcance. Portanto, aquele nojo da repetição, que a fazia sentir-se impostora desastrada ou criminosa relapsa, podia ser mais do que mero desconforto ou teimosia. Procurar reviver um ilusório momento de graça, de perfeita comunhão com a sua personagem, à força da reprodução de um gesto, era, mais do que estultice, a melhor maneira de cavar a sua própria armadilha. Urgia, isso sim, aniquilar esse remoto idílio, desfazê-lo, olhá-lo com desconfiança; devolver o corpo ao domínio da cinemática, à sua condição de grave; com as cinzas e os fragmentos, tentar criar algo que contivesse toda a história dos malogros e sucessos passados, mas que não se parecesse com nenhum deles.
Assim?

«So do it again, but not that.»




FEVEREIRO NA CINEMATECA: A programação da Cinemateca para Fevereiro oferece-nos muitas e aliciantes razões para passar boa parte do mês na Barata Salgueiro. O ciclo "As Novas Vagas Europeias" deverá ser útil para dar mais um empurrãozito no sentido de dissipar o mito, recorrente e obstinado, segundo o qual a Nouvelle Vague não passou de uma invenção de um grupo de iluminados da "Rive Droite" parisiense, de um movimento egocentrista e estéril responsável por 4 em cada 5 impasses do cinema europeu actual. A diversidade dos filmes programados ajudará a tornar claro que muitos dos movimentos de renovação criativa que eclodiram no mundo do cinema nos anos 60, de Inglaterra à Checoslováquia e do Brasil à Itália, são devedores, de maneira mais ou menos directa, daquilo que se passou em França.
Contudo, o meu grande destaque pessoal deste mês, que faço desde já (só será exibido no dia 28), é "Close Up", de Abbas Kiarostami, que não hesito em qualificar como um dos filmes mais fascinantes, ricos, estimulantes, líricos, intrigantes, inteligentes, subtis, originais e complexos dos últimos 20 ou 30 anos, tudo diafanamente camuflado pela habitual superfície de aparente simplicidade e ingenuidade que faz parte do modus operandi do cineasta iraniano.


ÓBITO: Morreu José Álvaro Morais. Aos 59 anos. O cinema português perde um realizador em plena posse das suas capacidades criativas, e que ainda no ano passado estreara uma longa-metragem, "Quaresma". Aqui há tempos, a propósito da minipolémica sobre as bolsas literárias, discutiu-se o argumento segundo o qual algo se perde quando a um criador não são proporcionadas condições para exercer a sua actividade. Este prematuro falecimento é ilustração eloquente disso mesmo, num modo mais funesto e irreversível. As obras que José Álvaro Morais estaria ainda para realizar nunca existirão. Perderam-se.
Morreu José Álvaro Morais. E eu lamento não ter chegado a escrever sobre "Quaresma", filme que me pareceu ter sido recebido com uma relativa frieza crítica, imerecida, mas talvez não totalmente inesperada. "Quaresma" é um filme belo, mas de uma beleza sotto voce, de uma tranquilidade narrativa que fornece contraponto eficaz e melancólico à exacerbação de sentimentos da personagem de Beatriz Batarda. "Quaresma" não é um filme frágil, mas antes um filme que exibe a fragilidade latente da condição humana com pudica naturalidade, consumido pela lucidez entristecida de quem reconhece a uma história, a um romance, o direito tácito de existir e de assombrar vidas, mas que é impotente para fazer algo pelos seus protagonistas.
Morreu José Álvaro Morais. Apenas conheço um outro filme dele, "Zéfiro", outra história de ventos e de fugas, desta vez num registo solar e mediterrânico. A narrativa como um fio que assobia com as rajadas, que estende e ameaça ceder, em risco perpétuo de se fundir no céu ou noutra variante do nada.
Morreu José Álvaro Morais. A notícia apareceu no rodapé do telejornal das 13h00 da RTP1, numa nota de que só consegui ler metade. Não acharam por bem falar dele; relegaram-no para a periferia do ecrã, entre o índice PSI 20 e os resultados do futebol. Para Mourinho e para Fernando Santos houve tempo, muito tempo. Para as vacuidades, para a imbecilidade, há sempre tempo e reverência. É em alturas como estas que frases como "este país tem aquilo que merece" ultrapassam a simples condições de lugares comuns. Faltou a José Álvaro Morais morrer em directo, num relvado de futebol, para desfrutar de um minuto de reconhecimento mediático póstumo.


PAROLE, PAROLE, PAROLE: Eu sinto-me contente por viver num mundo do qual fazem parte as palavras "arúspice", "sacabuxa" e "usucapião".


«Ainsi passa près de moi ce nom de Gilberte, donné comme un talisman qui me permettrait peut-être de retrouver un jour celle dont il venait de faire une personne et qui, l'instant d'avant, n'était qu'une image incertaine. Ainsi passa-t-il, proféré au-dessus des jasmins et des giroflées, aigre et frais comme les gouttes de l'arrosoir vert; imprégnant, irisant la zone d'air pur qu'il avait traversée - et qu'il isolait - du mystère de la vie de celle qu'il désignait pour les êtres heureux qui vivaient, qui voyageaient avec elle; déployant sous l'épinier rose, à hauteur de mon épaule, la quintessence de leur familiarité, pour moi si douloureuse, avec elle, avec l'inconnu de sa vie où je n'entrerais pas.»>(Marcel Proust, "Du Côté de Chez Swann")