Heinrich von Kleist (1777-1811)Liberté Egalité FraternitéNo tabuleiro de xadrez, as mentiras e a hipocrisia não duram muito (Em. Lasker)Monty Python forever!

arquivos do 1bsk

janeiro 2004

para regressar ao blog, é favor clicar no kleist

 

Quinta, 29 Janeiro, 2004



DO MODO E DA CONVICÇÃO: «Não quero convencer ninguém de que existe uma maneira de beber um copo de água, ou de descascar uma banana, moralmente mais correcta do que as outras. Peço-lhes apenas que ajam no Mundo como se isso fosse o caso.»(Ponziani)




53 POESIE: Recentemente, o "modo citação" do Epicentro ofereceu-nos Salvatore Quasimodo. Quasimodo está longe de ser um dos poetas que mais admiro, mas ocupa um lugar na bancada VIP do meu imaginário, pela razão que passo a explicar, para vosso gáudio e edificação. Foi de Quasimodo o primeiro livro que adquiri em Itália. Alvoroçado pela dimensão e riqueza das livrarias milanesas, preocupado em abafar tentações despesistas, optei por aquela antologia de bolso ("tascabile"), como poderia ter escolhido outra, ao sabor do momento. Custou-me 3900 liras, não mais de 400 escudos; uma ninharia. A escolha foi temerária: o meu italiano limitado não me permitia compreender mais do que um verso em cada dois, e não há maneira mais deprimente de ler poesia do que com um dicionário ao lado.
E este foi o meu desabafo pessoal do semestre. Lá para Setembro, contarei aquela vez em que perguntei a pronúncia correcta do nome "Van Gogh", num museu holandês.


O QUE ELES NÃO INVENTAM: A Janela Indiscreta, tem vindo a brindar os seus leitores com imagens da actriz Anne Wiazemsky no filme "Au Hasard Balthazar". (Se não vou lá roubar nenhuma, não se trata de escrúpulo, mas sim de preguiça.) Tal como sucede com 99,7% dos actores e actrizes franceses, Wiazemsky enveredou pela escrita, tendo já numerosas obras de ficção no seu activo. Num dos seus romances, "Canines", tudo gira em torno de uma encenação da "Pentesileia" no festival de Avignon, e na maneira como interagem os papéis e as vidas dos actores. Do que não se lembram estes escritores, na sua busca insaciável de emoções baratas!
Não é este o único exemplo de modelo bressoniano que se veio a distinguir fora do domínio da representação. Humbert Balsan, o Gauvain de "Lancelot du Lac", tornou-se produtor independente de cinema, ao passo que Florence Delay, a Jeanne d'Arc, se tornou também autora consagrada, tendo inclusivamente sido eleita para a Academia. Da morte na fogueira à imortalidade vai uma distância mais curta do que se supõe.


A TALHE DE FOICE: Outros dois aspectos imensamente louváveis do mercado livreiro francês: a extraordinária profusão de livros de bolso (ficção, ensaio, ciências humanas, poesia), a preços muito acessíveis, fruto de uma longa tradição de difusão da cultura pelo grande público; e a ausência (pelo menos no que toca às principais editoras) da detestável dicotomia "hardback"/"paperback", perversa e mercantilista prática anglo-saxónica.
Uma das melhores maneiras de perceber as diferenças de mentalidades entre Grã-Bretanha e França é visitar, com alguma demora e espírito crítico, uma filial da livraria Blackwell's e a Gibert Joseph de Paris. Os ensinamentos que se retiram da comparação são sólidos, inequívocos, e extrapoláveis.


LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Hoje, a minha carreira de observador de leitores em lugares públicos atingiu um zénite glorioso. O êxtase foi ocasionado pela observação de um cavalheiro ainda jovem, absorvido pela leitura de "Le Marin de Gibraltar", de Marguerite Duras, na edição da Gallimard, com a inconfundível capa, letras vermelhas e negras sobre fundo creme. (O prazer que nos proporcionam os romances franceses começam pela capa. Gallimard, Minuit, Grasset, e várias outras, dispensam grafismos e desvarios icónicos, não temem a uniformidade despojada, a objectividade absoluta. Autor, título, nome da editora. E mais nada, ou quase nada.)
O local? Metropolitano de Lisboa, linha vermelha.


CES GENS-LÀ:


D'abord d'abord y a l'aîné
Lui qui est comme un melon
Lui qui a un gros nez
Lui qui sait plus son nom
Monsieur tellement qui boit
Ou tellement qu'il a bu
Qui fait rien de ses dix doigts
Mais lui qui n'en peut plus
Lui qui est complètement cuit
Et qui se prend pour le roi
Qui se saoule toutes les nuits
Avec du mauvais vin
Mais qu'on retrouve matin
Dans l'église qui roupille
Raide comme une saillie
Blanc comme un cierge de Pâques
Et puis qui balbutie
Et qui a l'oeil qui divague
Faut vous dire Monsieur
Que chez ces gens-là
On ne pense pas Monsieur
On ne pense pas on prie

Et puis y a l'autre
Des carottes dans les cheveux
Qu'à jamais vu un peigne
Qu'est méchant comme une teigne
Même qu'il donnerait sa chemise
A des pauvres gens heureux
Qui a marié la Denise
Une fille de la ville
Enfin d'une autre ville
Et que c'est pas fini
Qui fait ses petites affaires
Avec son petit chapeau
Avec son petit manteau
Avec sa petite auto
Qu'aimerait bien avoir l'air
Mais qui a pas l'air du tout
Faut pas jouer les riches
Quand on n'a pas le sou
Faut vous dire Monsieur
Que chez ces gens-là
On ne vit pas Monsieur
On ne vit pas on triche

Et puis y a les autres
La mère qui ne dit rien
Ou bien n'importe quoi
Et du soir au matin
Sous sa belle gueule d'apôtre
Et dans son cadre en bois
Y a la moustache du père
Qui est mort d'une glissade
Et qui regarde son troupeau
Bouffer la soupe froide
Et ça fait des grands chloups
Et ça fait des grands chloups
Et puis y a la toute vieille
Qui en finit pas de vibrer
Et qu'on attend qu'elle crève
Vu que c'est elle qui a l'oseille
Et qu'on n'écoute même pas
Ce que ces pauvres mains racontent
Faut vous dire Monsieur
Que chez ces gens-là
On ne cause pas Monsieur
On ne cause pas on compte

Et puis et puis
Et puis y a Frida
Qui est belle comme un soleil
Et qui m'aime pareil
Que moi j'aime Frida
Même qu'on se dit souvent
Qu'on aura une maison
Avec des tas de fenêtres
Avec presque pas de murs
Et qu'on vivra dedans
Et qu'il fera bon y être
Et que si c'est pas sûr
C'est quand même peut-être
Parce que les autres veulent pas
Parce que les autres veulent pas
Les autres ils disent comme ça
Qu'elle est trop belle pour moi
Que je suis tout juste bon
A écorcher les chats
J'ai jamais tué de chats
Ou alors y a longtemps
Ou bien j'ai oublié
Ou ils sentaient pas bon
Enfin ils ne veulent pas
Enfin ils ne veulent pas
Parfois quand on se voit
Semblant que c'est pas exprès
Avec ses yeux mouillants
Elle dit qu'elle partira
Elle dit qu'elle me suivra
Alors pour un instant
Pour un instant seulement
Alors moi je la crois Monsieur
Pour un instant
Pour un instant seulement
Parce que chez ces gens-là
Monsieur on ne s'en va pas
On ne s'en va pas Monsieur
On ne s'en va pas
Mais il est tard Monsieur
Il faut que je rentre chez moi.

(Jacques Brel)



Terça, 27 Janeiro, 2004

ISTO ANDA TUDO LIGADO (3):

A diferença entre tectos falsos e tectos verdadeiros atenua-se de dia para dia.


AS MINHAS 5 CANÇÕES PREFERIDAS DE JACQUES BREL:
  • Ces Gens-Là
  • Chanson des Vieux Amants
  • Les Bonbons
  • Marieke
  • Jacky
Não é necessário abusar do "modo hipérbole" para afirmar que "Ces Gens-Là" é uma das maiores criações do século XX, no domínio da música popular.


"OS LIVROS EM VOLTA", BALANÇO DO SEGUNDO ASSALTO: Hoje, ficção estrangeira. Falou-se da Odisseia, da Ilíada, de Walser e da "Recherche" de Pedro Tamen. Todos os intervenientes falaram bem. Repito. Todos os intervenientes falaram bem. É coisa difícil, escrever uma frase como esta sem desencadear suspeitas de ironia. Todos os intervenientes falaram bem. Dito sem enésimas intenções sarcásticas ou irónicas. Todos os intervenientes falaram bem.
Os lisboetas são uns privilegiados. Durante hora e meia, discorreu-se (e bem) sobre Homero, Virgílio, Walser, Proust. Debitaram-se doses (nem homeopáticas nem cavalares) de erudição, pequena história, especulação crítica. Ao alcance de todo e qualquer que passasse pela Culturgest e decidisse entrar. E de borla. O que permite consagrar euros e cêntimos a causas mais comezinhas, como por exemplo um bolo de arroz e uma água tónica.


Segunda, 26 Janeiro, 2004

ISTO ANDA TUDO LIGADO (2):

1) A empregada da loja de conveniência diz ao cliente que o iogurte já passou do prazo, mesmo quando ainda não passou do prazo.

2) O mesmo homem que passeia pelos telhados da cidade durante toda a noite, envergando um uniforme justo em borracha de uma só peça, assiste, incógnito, a todas as reuniões da Sociedade dos Altos Estudos Olissipográficos.

3) Uma mulher bem vestida, na casa dos 50 anos, olha discretamente em torno de si antes de voltar o seu copo ao contrário, num restaurante japonês.

4) A chuva parou às 15h59, para recomeçar às 16h24.

5) A carreira de autocarro nº 33, como que por acaso, passa pela Av. do Brasil, pela Av. de Roma, pela Estefânia e pelo Campo dos Mártires da Pátria.

6) Um jovem finge procurar a palavra "petulante" num dicionário que retirou da estante de uma livraria.

7) A deambulação pelas ruas de Lisboa transforma-se numa questão de moral.




(...)je portai à mes lèvres une cuillerée du thé où j'avais laissé s'amollir un morceau de madeleine.


GOETHE, POR UMA VEZ: Entidades mefistofélicas e malignas, aproveitai; proclamo alto e bom som a minha vulnerabilidade transiente à tentação. Se me oferecessem o dom da ubiquidade por uma noite, em troca de um gomo da minha alma, eu aceitaria sem um microssegundo de hesitação. E isto porque, no próximo sábado, dia 31, estão programados o filme de Charles Laughton "The Night of the Hunter", na Cinemateca, e uma sessão sobre Marcel Proust ("Literatura, Música & Cinema"), na Culturgest, precisamente à mesma hora (21h30). Haverá limites para o cinismo?
A escolher, lá terei de escolher o Proust. A não ser que a tal ilícita transacção com as potências das trevas me permita assistir aos dois. (Claro que isso implicaria acreditar na alma e na existência do diabo, o que seria tudo menos trivial, mas não desfaçamos doces ilusões com base em insípidas tecnicalidades.)


Domingo, 25 Janeiro, 2004

ISTO ANDA TUDO LIGADO:

1) O novo sistema de acesso ao metro de Lisboa recusa-se a funcionar, de vez em quando. Mas serão as suas disfunções tão aleatórias como se julga? Não haverá um padrão inerente às distribuições de passageiros que as portinholas deixam ou não passar? Um denominador comum, ao mesmo tempo óbvio e inconcebível?

2) As melhores morcelas da cidade vendem-se numa charcutaria do Bairro Alto.

3) Alguns dos autocolantes da American Express, que se vêem à entrada dos estabelecimentos comerciais, apresentam diferenças subtis relativamente ao figurino normal.

4) O sem-abrigo cujo rádio portátil está permanentemente sintonizado para a Rádio Luna não aparece em dias de jogo do Atlético. Simples coincidência?

5) Na montra de um antiquário, uma água-forte representando um poço com nora, na zona onde hoje existe o bairro de Campolide, desperta a cobiça de muita gente que não se interessa por arte.

6) Das numerosas placas votivas deixadas junto à estátua do Dr. Sousa Martins, algumas estão invertidas, outras contêm inscrições em caracteres desconhecidos, nas estreitas faces laterais.




QUINTO FARRAPO DE VESTIDO DE NOITE DE PALAVRAS A PROPÓSITO DE "INDIA SONG":O filme já se foi. Como uma festa dentro de portas que, secretamente, deixa atrás do seu fim um remanso de alívio. O filme, o calor, a noite de Calcutá, obtiveram a atenção que se julgou merecerem. A insistência equivalerá a abuso? Aos exércitos vestidos de farrapos de vestido de noite serão negados os restos, o côncavo agora habitável, a muito solene memória das imagens?
Mas uma obsessão não conhece lógica nem conveniências. Os seus ímpetos cheios de gumes despertam para as suas surtidas predatórias sem qualquer sincronia. Deploravelmente fora do tempo, como numa récita de amadores. Uma obsessão cultiva-se com vergonha, vergonha cujo avesso é a ácida volúpia do dever cumprido; e com efeitos sonoros, veleidades de voz humana.


OS MEUS 5 ÁLBUNS PREFERIDOS DO TINTIM:
  • As Jóias da Castafiore
  • O Lótus Azul
  • O Segredo do Licorne
  • A Ilha Negra
  • O Caso Girassol



ABUSOS HERTZIANOS: "Se quer saber aquilo que dizem os astros, ligue para XXXX", assim reza um anúncio publicitário da operadora TMN que se tem instalado nas manhãs da TSF. Se isto não é publicidade enganosa, então o que é publicidade enganosa? Desconheço em que termos está redigida a legislação pertinente; porém, um mínimo de bom senso e de exigência ética deveria obrigar a que qualquer entidade anunciadora estivesse em condições de demonstrar os eventuais benefícios, ou características, do produto ou serviço que anuncia. Neste caso, caberia à TMN o ónus de provar não apenas que o seu canal de astrologia era eficaz no desvendamento dos trâmites do zodíaco, mas também que a própria expressão "aquilo que dizem os astros" faz algum sentido.
À falta de legislação, ou de vontade de a aplicar, talvez uma pontinha de moralidade e seriedade chegasse para evitar estes descalabros poluidores do éter.
(Acrescento ainda que acho impagável a tentativa de reivindicar uma superioridade ética de um canal de astrologia via telemóvel sobre um qualquer marabu africano. Tão charlatão é aquele que extorque algumas dezenas de euros a uma dona de casa da Rinchoa graças à sua lábia de pseudo-feiticeiro, como aquele que colabora activamente numa intrujice alimentada por centenas de chamadas de anónimos a X cêntimos cada uma.)


LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: No espaço de poucos dias, houve a registar duas observações de leitores de Kafka no metropolitano: uma cidadã lia "O Processo", e um cidadão lia "América", sendo que este último estava de pé, o que vale 10 pontos de bónus.
Também no metro, foram avistados um leitor de Almeida Faria ("A Paixão") e uma leitora de Tahar Ben Jelloun, neste último caso em versão original (10 pontos de bónus).
Se houvesse mais gente a ler Kafka nos transportes públicos, o país não se teria atolado no lodaçal de depravação e iniquidade onde se atolou.


Sábado, 24 Janeiro, 2004

KLEIST CONTADO ÀS CRIANCINHAS: Permito-me também emitir algumas sugestões para novos títulos de livros da Anita: "Anita é violada por um oficial de um exército invasor e publica anúncio no jornal para saber quem é o pai da criança", "Anita apaixona-se pelo seu jovem preceptor, consuma a sua paixão nos jardins de um convento, é condenada à decapitação e salva por um evento sísmico de elevada magnitude", e ainda "Anita revolta-se contra a prepotência do soberano que dela exigiu um salvo-conduto para atravessar uma fronteira e que maltratou os seus cavalos, e faz-se flagelo de Deus".


«(...)les vrais livres doivent être les enfants non du grand jour et de la causerie mais de l'obscurité et du silence.»>(Marcel Proust, "Le Temps Retrouvé")




MESSIÂNICO UMA OVA: Concluo a divulgação de alguns excertos do boletim da paróquia de Santa Joana Princesa. «O DESTROÇAR E ISOLAR DE PORTUGAL: No princípio com os Cruzados (para a motivação de um povo do Novo Testamento), vinte séculos depois, com a NATO (para nos obrigarem a dividir) aí chega a altura de cedermos, sem regras e amizade, separações que todos desejávamos de outro tipo. Como isolados é-nos difícil viver, isso não é do nosso agrado, e assim surgem as hipóteses de benemerência numa integração europeia, muito sem nos ouvirem e sem nos auto-exigirmos.» Ora bem, esta parte não comento, pela simples razão de não ter percebido nada. Dir-se-ia prosa redigida numa língua não indo-europeia, e traduzida automaticamente pelo Babel Fish. Logo a seguir, porém, o caso muda de figura: não só se compreende muito bem, como chega a altura de desactivar o modo burlesco: «Vamos tornar a ser o que sempre fomos, amigos de todos e sem nos demitirmos. E não nos seja perguntado como será; pois o nosso auxílio surgirá da nossa índole de povo messiânico, da nossa Rainha, e do Céu.». Deixo de lado a impossibilidade de se tornar a ser aquilo que sempre se foi (se sempre se foi, então ainda se é, e não se pode tornar a ser). Pouco se ganha em ser-se demasiado literal, muito menos perante um escriba tão carente de talento e clarividência. Faço também por esquecer a menção à "Rainha". Não me consta ser essa uma entidade reconhecida constitucionalmente, a não ser que tenha havido uma revisão recente que ninguém se deu ao trabalho de noticiar. Mas não é este o terreno adequado para dirimir tais contendas. Fico-me por duas ou três considerações a respeito da "índole de povo messiânico". Que quer isto dizer? Esta minha pergunta é retórica, mas em simultâneo não o é. Por vezes, periodicamente, urge questionar os disparates para pôr em evidência a sua inanidade. "Povo messiânico?" Discreta mas eficazmente, este termo contém quase tudo: o primado da providência sobre as instituições seculares; a inutilidade dos esforços de melhoramento da sociedade (ou, no mínimo, a sua menoridade perante os desígnios e ditames insondáveis "da nossa Rainha, e do Céu"); a superioridade espiritual do nosso bom e crente povo sobre as nações menos imbuídas de catolicismo; a certeza de estarmos investidos de uma missão; a inutilidade de questionar seja o que for, dos dogmas às práticas, do "porquê" das coisas ao "como" das coisas ("não nos seja perguntado como será"). Tanta coisa em tão poucas palavras. Pena é que a clareza e elegância do estilo não estejam à altura da concisão. O que me inquieta é o receio de que, por detrás de tantos membros das altas esferas do clero português que dão mostras de honestidade, inteligência e abertura, esta liga de falácia e mediocridade represente ainda o verdadeiro âmago da Igreja.
E, posto isto, vou juntar o útil ao civicamente correcto, e vou depositar o boletim no monte de papel para reciclar.


EM BENEFÍCIO DE INVENTÁRIO: Quem se recorda ainda da predilecção que manifestámos, num dos posts inaugurais do 1bsk, por listas e elencos de toda a espécie? Valha a verdade que não tem sido feito jus a essa afinidade. Nos próximos tempos, tentaremos mostrar-nos mais assíduos nesta vertente, com listas de todo os feitios e jaezes, das completamente inúteis e supérfluas às um pouco menos inúteis e supérfluas.
Hoje, as minhas 10 canções preferidas de Leonard Cohen. A ordem é a cronológica.
  • Master Song
  • Sisters of Mercy
  • Avalanche
  • Last Year's Man
  • Dress Rehearsal Rag
  • Famous Blue Raincoat
  • Came So Far For Beauty
  • Hallelujah
  • First We Take Manhattan
  • Take This Waltz



Sexta, 23 Janeiro, 2004

ERRATUM: Na autobiografia sentimental da América, redigida em verso livre e distribuída gratuitamente numa área com centro em Évora, e que cobre Reguengos, Montemor e Estremoz, onde se lê «...marcas de dedos e de sílabas dotavam-se de eco, mas de um eco fruste, tristemente escarlate...» deve ler-se «...quarta-feira no planalto, palavras erradas, gestos correctos, regresso à tardinha...».


Quarta, 21 Janeiro, 2004

"OS LIVROS EM VOLTA", BALANÇO DO PRIMEIRO ASSALTO: Hoje, ficção portuguesa. Maria Alzira Seixo falou bem, e com a loquacidade do costume. Depois, vim-me embora.


NO METRO: Nenhum leitor em lugares públicos dignos de relevo foi assinalado nos últimos dias, mas não posso deixar passar esta pepita da literatura oral. Duas senhoras de idade estão sentadas uma frente à outra. Às tantas, uma diz, repetindo em seguida: «Ainda não estou rarefeita do susto.». Concedo o benefício da dúvida. Talvez fosse sua intenção fazer espírito. A língua portguesa é fecunda em recursos, opulenta em possibilidades de exploração lúdica. Mas pode também dar-se que a senhora quisesse dizer isso mesmo: que ainda não estava rarefeita do susto. Fim do post.


CINEMA: "Choses Secrètes", de Jean-Claude Brisseau. Sobre este filme já me pronunciei brevemente, aquando do visionamento que dele fiz, na Festa do Cinema Francês. O que nele mais me impressiona é a maneira como, depois de um começo que pode parecer tudo o que há de mais banal (estratagemas de poder e sexo engendrados por duas jovens cúmplices dispostas a tudo), se reinventa por completo, se autoeleva a uma inesperada potência de perversidade e intensidade. Os corriqueiros ardis das duas parceiras são violentamente subjugados pelo maquiavelismo libertino de uma das supostas vítimas. Os rituais lúbricos que consumam este triunfo absoluto da amoralidade aristocrática e decadente sobre o pequeno e médio intriguismo proletário têm tanto de solenemente grandioso como de fancaria. O realismo e naturalismo "made in France" coexistem pacificamente, em cada plano, com um esforço denotativo que nunca hesita em recorrer ao imaginário popular do erotismo pseudo-sofisticado para exprimir essa impressão de "maior que a vida" que é também, acima de tudo o mais, uma impressão de "negação da vida, mais jactante e mais cínica do que esta". O "segredo" que o título implica pode ser essa versão amplificada e monstruosa que subjaz a cada pecadilho que nos permitimos na vida. Nesse sentido, "Choses Secrètes" é um grande filme moral, com a originalidade de, em vez da rectidão, contrapor à perfídia a evidência pictórica e narrativa da maldade isenta de fim e de ambição, infinitamente mais destruidora por isso mesmo. Mas o segredo pode também, muito simplesmente, ser o irredutível segredo do amor, o amor que uma das personagens femininas nutre pelo seu verdugo, por aquele que, com humilhante facilidade, vira o feitiço contra as feiticeiras. "Choses Secrètes" é um filme sobre a fragilidade humana, e sobre quão perigoso é expô-la deliberadamente, por mais que um sinistro final feliz, sob a chuva de Paris, sugira a ilusão de que o tempo ou a ordem natural do Mundo acabam por tudo remendar e recompor.


O CHEFE RECOMENDA: Chamo a atenção para o excelente artigo do Francisco Frazão sobre o filme "Elephant".


Domingo, 18 Janeiro, 2004

MEIO GÁS: Na semana que agora se inicia, o ritmo dos posts decrescerá de maneira sensível, por culpa de uma agenda inusitadamente sobrecarregada. Bem tentei convencer o Ponziani a pegar no leme, mas ele prefere gastar o seu tempo numa ociosidade cismadora, quase sempre fora de portas, nem sempre no Jardim da Estrela. O seu ensimesmamento deve-se a malogros recentes, a dissabores que o envolvem e aos seus próximos, e eu respeito isso; quem não respeitar, que atire o primeiro tijolo. Uma das suas ocupações predilectas (se a tal se pode chamar "ocupação") é assistir às representações do teatrinho de fantoches ao ar livre. Fixa a atenção nas trajectórias dos centros de gravidade dos bonecos, distingue elipses de hipérboles, adivinha, mais do que calcula, as assimptotas. Muito amiúde, detém-se nas atitudes dos jovens espectadores. O Ponziani não é prudente. Nos tempos que correm, para um homem solteiro, a frequência de locais onde se concentram crianças pode dar azo a toda a espécie de maldosas especulações.


O EIXO DO MAL: Não contentes com serem o ponto em torno do qual gira o Eixo do Mal, e em assumirem-no, A Natureza do Mal acaba de adoptar um novo e conseguido visual. E ainda citam Baudelaire, esse valdevinos, esse desregrado. O que faz a polícia deste país?


NÓDOAS DE SANGUE NA NEVE: Mais versos de Anne Carson sobre Anna Akhmatova.

SIEGE

In March 1940 dark disconnected lines of verse
   began to appear on the margins of her manuscripts.
      Slowly they wandered out their wounds, she
let them rest there. Saw they were a woman
   setting off on "the way of all the earth."
      Under the iron roof at night she lay listening
to their wooden legs go tapping up the sidewalk,
   woman heading east along the canal toward
   the sour-milk smell of Asia.
      Last things she saw as she left Leningrad were
today the wall with a long soaked mark on it.

RETURN TO LENINGRAD WHERE EVEN THE SHADES HAVE DIED OF HUNGER (1944)

Borders trembled all around her.
She saw friends by now gone mad with wolvish grins.
"This is some terrible mistake."
Poking past smashed glass of her apartment
   she sat
on a rusty bedspring
which sank to the ground.
A tart smell of sacred oak came to her
whispering Pushkin's most daring line,
   
Into the darkness of someone else's garden....


(Anne Carson, in "Men in the Off Hours")




Sábado, 17 Janeiro, 2004

ESCALA DE RICHTER: No Epicentro, fala-se de placas tectónicas e de abalos sísmicos em países distantes, e de muitas outras cousas mais, afins na letra ou no espírito. O próprio Kleist, nosso amado patrono, não hesitaria decerto em aprovar e conceder o seu beneplácito. Nem todos os blogs têm o potencial de estender ao mundo as suas ondas de choque, e de interferir com objectos e pessoas, do prato que se quebra ao livro que se desloca infinitesimalmente sobre uma prateleira de canto de sala; e este é um deles.


Sexta, 16 Janeiro, 2004

LUGARES DE PARIS: Um apartamento vazio no 13ème arrondissement. Contém um único objecto: uma bola de ténis. O óculo da porta de entrada, estranhamente, encontra-se instalado ao contrário do que é normal: consegue-se ver do patamar para o interior, mas não do interior para o patamar.


A TRAMA ADENSA-SE: Quem nos acompanha há algum tempo sabe já da importância capital (nos sentidos literal e figurativo) que atribuímos à estátua do Actor Taborda, no Jardim da Estrela. Mas não se pense ser este o único foco de mistério, o único manancial de ominosos segredos que há a assinalar na cidade de Lisboa. Na base do memorial dedicado ao grande Sousa Martins (ao Campo dos Mártires da Pátria), algumas das lápides depositadas por populares reconhecidos encontram-se voltadas ao contrário. Lidas de acordo com uma sequência especial, essas lápides revelariam a resposta a perguntas que os lisboetas, por um inconsciente terror, se têm abstido, desde sempre, de colocar.


REVISTA SEMANAL DE BLOGS IMAGINÁRIOS:

  • O Pequeno Almoço Continental dissemina a sua essência à flor do asfalto da cidade, nunca esquecendo reentrâncias nem declives.
  • O Ditadura do Proletariado protesta contra o défice democrático na Federação Portuguesa de Cicloturismo.
  • O Do Atlântico ao Morais descobriu a pedra filosofal.
  • O Caçador Com Gato e Sem Cão dá conta de um rumor inquietante: níveis de radioactividade gama 0,11% acima do máximo permitido pela União Europeia na secção de cortinados do "Corte Inglés", para além de duas almas penadas (ou três, as versões divergem).
  • O Nada Me Prende a Nada apaga a luz da sala.
  • As quatro autoras do Quadrado dos Prosadores Por Nascer tiram fotografias umas às outras, esquecendo-se de destapar a objectiva.
  • O Berbigões & Falocratas confunde-se com a paisagem.
  • No Estado das Loisas, aqueles que pressentem a gravidade da situação estão em minoria face aos que preferem minimizar os estranhos sinais que teimam em atravessar-se no caminho.
  • No Capitão Meu Capitão vendem-se peças para tractores Fiatagri.
  • No A Gente Somos de Vila Velha de Ródão, a Graça desce sobre uns quantos, muito de mansinho.



Quinta, 15 Janeiro, 2004

MAIS COISAS DA ANNE SOBRE A ANNA:

CAMPAIGN AGAINST AKHMATOVA BEGINS (1922)

She ran from lamppost to lamppost, the wind slammed.
Trotsky reviewed her in
Pravda: One reads with dismay...
and an unofficial Communist Party resolution banned her poetry (1925).
She didn't notice, didn't know what a Communist Party was in those days.
Fog choked the city.
Russia's great poets were all about 35 years old.
Scraggly trees wandered by the canal in dim sun.

MANDELSTAM

Akhmatova was translating
Macbeth in the early '30s
   (a time she called "the vegetarian years" to distinguish
      its charm from "the meat-eating years" still ahead).
For a poem in which he likened Stalin's fingers to worms
   Osip Mandelstam was arrested in May 1934. All night
      the police searched his papers and threw them
out on the floor
   to the sound of a ukelele
      from the next apartment.
Akhmatova never finished
Macbeth although
   she liked to quote the hero saying people
      in my homeland die faster than
the flowers on their hats.


(Anne Carson, in "Men in the Off Hours")





QUARTO FARRAPO DE VESTIDO DE NOITE DE PALAVRAS A PROPÓSITO DE "INDIA SONG":

Savannakhet:
Sightseeing in Laos
The second largest town, Savannakhet, on the Mekong River bank, shares its borders with Vietnam and Thailand. Its commercial activities, as well as being a trade center between neighboring countries, give it an excellently
GARDEZ-MOI!!!!! lively atmosphere. Savannakhet is a place where a number of dinosaur remains and Stone Age equipment were discovered. In addition, LAISSEZ-MOI RESTER!!!!it also has a number of noteworthy pagodas and ruins that were perhaps constructed in the period 553-700 AD. The That Ing Hang is located 15 kilometers in the northern section of Savannakhet. It is the highest point in the province. The relics that one will find here date back several centuries and attract a number of tourists and Buddhist pilgrims each year. This is especially the case during the full moon in ANNA MARIA GUARDI!!!!! February, when a religious ceremony is celebrated in its honors.


STOP THE PRESS!: O Ponziani acaba de mudar da TMN para a Optimus.


ANYTHING GOES: Mais um excerto do boletim da paróquia de Santa Joana Princesa. Oliveira Martins, morde de inveja o teu chapéu, porque a história lusa está prestes a ser abalada nos seus alicerces por uma pena mais brilhante do que a tua. Ora vede: «A ESTABILIZAÇÃO DE PORTUGAL: Teve bastantes dificuldades, entre amigos e indiferentes, alguns nos inimizaram. Nós já desculpámos, damo-nos bem com todos. Como naqueles sessenta anos que tivemos em comum com os nossos vizinhos uma dinastia e ela teve de ser quase naturalmente desfeita... somos diferentes. As revoluções francesa e outras, a invasão napoleónica, as ideologias maçónica, comunista, nazista, de terrorismo e, ultimamente, os globalismos socio-económico-políticos.» Ena pá, que grande salada! Faltam apenas a guerra dos Boers, a guerra do Chaco, a carbonária, a nau catrineta e a Maria Rapaz! Ah, que benfazeja teria sido a porfia nas nossas vias rectas, modestas, virtuosas, século após século, sem as influências desses ventos bastardos que nos chegam do estrangeiro.
O autor dá pelo nome de António Adragão. Partilhamos as mesmas iniciais, mas já se sabe que isso nada quer dizer (cf. Jesus Cristo e Jarvis Cocker).


É UM TRABALHO SUJO MAS... ALGUÉM TEM DE O FAZER: Última contagem dos bolos de arroz no bar da Faculdade de Ciências: 19 (dezanove).


LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Local: linha verde do metro. Dia: hoje. Uma cidadã lia "Du Côté de Chez Swann". Proust em versão original vale 40 pontos de bónus. Um dia mais do que proveitoso. A edição era uma edição de bolso, da Folio. Pela minha parte, só juro pela Flammarion.


Quarta, 14 Janeiro, 2004

GOOD THINGS COME IN THREES: Quanto mais leio o Caim & Abel, o Little Black Spot e o Tempo Dual, mais vontade tenho de ler o Caim & Abel, o Little Black Spot e o Tempo Dual.


Terça, 13 Janeiro, 2004

A PROPÓSITO DE...: Na Janela fala-se de Akhmatova, e eu, impenitente citador de citadores, falo de alguém que também falou de Akhmatova: a assombrosa poeta canadiana Anne Carson. Talvez me sirva como incentivo para por fim discorrer um pouco sobre esta autora, que tanto conta para mim. Seria já tempo. A partir de uma dada altura, a procrastinação transforma-se de vício em anedota.

AKHMATOVA'S MARRIAGE (1910) HAS LITTLE EFFECT ON HER

Do you love him? I don't know. I believe he is my fate.
    Inside the church ikons glowed vastly.
Out on the steps the fog hustled people away, in groups or alone.
    At last only she was left. She had tossed her wing
over one arm. Poetry has no such use,
    and starkly paced inside her.

NOT A WIFE BUT A WITCH, WRITES HUSBAND GUMILYOV (1912)

Afternoon grays over shot gold - the Schönberg color -
    and noiseless winterblasted crows halt on branches that
       resent them halting. Below sat Akhmatova with her
    symbols as if in soft pillows. Little sinner
of a sunbeam wandered onto her.


(Anne Carson, in "Men in the Off Hours")





CINEMA: "Japón", de Carlos Reygadas. Não, "Japón" não é "Tarkovsky de trazer por casa", nem "Kiarostami de plástico", para usar as tão elegantes formulações de Eurico de Barros. Eu vejo-o como uma tentativa magnífica, para lá do sucesso e do fracasso, de estender uma singularidade (de sofrimento, desespero, e surdo desejo de redenção) até a fazer coincidir com a imensidão do espaço físico, dos horizontes insuportavelmente vastos que desafiam constantemente cada plano. Reygadas filma como se o seu ideal fosse um cruzamento de demiurgo com divindade destruidora, tremendo choque de contrários que paradoxalmente escolhe um corpo de homem fraco, dotado de passado, para se manifestar. Na sua agreste, paciente, a espaços dulcíssima beleza, "Japón" é daqueles objectos que ajudam a pôr a nu o carácter falacioso da dicotomia "difícil"/"fácil" a propósito de filmes, e da tendência que existe para comparar rigor e exigência criativa com arrogância e vontade de alienar. Como se Sokurov, Bresson, Schroeter, Antonioni, e, claro está, Tarkovsky e Kiarostami, esses pintores de coisas secretas e no limite do nomeável, não passassem de manhosos agitadores de águas, equiparáveis a feiticeiros que receassem perder o seu ascendente se permitissem ao leigo penetrar as suas maquinações sublimes.


DAS PIRÂMIDES INVERTIDAS: A ordem natural das coisas seria a seguinte. Primeiro, impunha-se concentrar os esforços no ensejo de viver uma vida decente e recta. Tal passaria pela esfera do social, pela esfera do privado, e pelo teatro de atritos e de sombras que é a interface entre ambas. Em seguida, tratar-se-ia de desvendar Lisboa como se resolve um problema. Chegaria depois o momento das proposições, sopesadas, circunspectas, obra do receio e da tentativa. A celebração, o culto pelo supérfluo, as considerações sobre arte e artigos de pastelaria, só então ganhariam direito de cidade.
Nesteblog, a pirâmide aparece invertida. Sobe-se do ápice para a base. Cada linha escrita é um esforço no sentido de a devolver à sua posição natural. Mas nesse momento o próprio blog perderá a razão de existir. Isto que se vê é um hino à inadequação.


DESVARIOS REPUBLICANOS: E agora, mais uma pérola do "Boletim da Paróquia de Santa Joana Princesa", que um bom samaritano insiste em colocar na minha caixa de correio: «Como povo de brandos costumes, sofre-se por vezes algumas estranhas influências. O caso de uma época pós-monárquica em que nos degradámos nos juízos de povo amante de Deus. Como que nos alheámos que tínhamos convidado Nossa Senhora a ser nossa rainha, a ter em sua imagem de Vila Viçosa a nossa coroa real.»
Impõe-se um acto de contrição. Nada de mais degradante existe, com efeito, do que os valores bafientos e perniciosos da 1ª República, como sejam a liberdade, a alfabetização popular, a separação Igreja/Estado. É mais do que certo ter sido esse "alheamento" o principal, que digo eu, o único responsável pelas calamidades que o século fez abater sobre o nosso bom Portugal, desde o vulcão dos Capelinhos até à derrota em Wembley-66. Quase um século depois do grande desvario, felizmente, a dívida parece saldada. A Virgem protege as nossas águas territoriais com um escudo que até desvia manchas de crude, o Niemeyer vai desenhar a nova Catedral, e consta mesmo que Vila Viçosa se guindou ao estatuto de local de peregrinação. A Restauração está para breve! O algodão não engana.


BOLOS DE ARROZ DE TODO O MUNDO, UNI-VOS!: Na Póvoa de Santa Iria existe um café chamado "Partido Comunista Português". Neste PCP, a renovação faz-se com empreiteiros em vez de ser com dissidentes.


ANÁTEMA CONTRA...: ...a música ambiente nas carruagens da linha da Azambuja.


POR UMA CAUSA NOBRE: O "Quem Quer Ser Milionário?" acaba de enobrecer o autor de "Bouvard et Pécuchet": Gustave de Flaubert. É este o fascínio dos grandes autores clássicos: podemos revisitá-los vezes sem conta, sem nunca deixar de lhes descobrir aspectos novos.


ADENDA E AMARGURA: Não me sentiria bem comigo mesmo sem fazer um reparo relativo à minha lista dos 10 melhores filmes de 2003. Qualquer consideração que diga respeito à excelência dos filmes que estrearam, num período de 365 dias, em salas portuguesas, não pode deixar de ser acompanhada pelo habitual voto de protesto e ressentimento perante o inconcebível défice de diversidade das propostas cinematográficas que chegam até nós. Monopólios, a estreiteza do mercado, a falta de gosto e a falta de ousadia conspiram para fazer com que apenas um exíguo segmento da produção mundial nos esteja regularmente acessível. A talhe de foice: fora do circuito das estreias, o panorama passou, no fim do ano, de periclitante a francamente deprimente, com o fim das sessões no Cinema Paraíso, e com a interrupção das actividades da Zero em Comportamento.


«(...)un azur profond enivrait mes yeux, des impressions de fraîcheur, d'éblouissante lumière tournoyaient près de moi et dans mon désir de les saisir, sans oser plus bouger que quand je goûtais la saveur de la madeleine en tâchant de faire parvenir jusqu'à moi ce qu'elle me rappelait, je restais quitte à faire rire la foule innombrable des wattmen, à tituber comme j'avais fait tout à l'heure, un pied sur le pavé plus élevé, l'autre pied sur le pavé plus bas. Chaque fois que je refaisais rien que matériellement ce même pas, il me restait inutile; mais si je réussissais, oubliant la matinée Guermantes, à retrouver ce que j'avais senti en posant ainsi mes pieds, de nouveau la vision éblouissante et indistincte me frôlait comme si elle m'avait dit: «Saisis-moi au passage si tu en as la force, et tâche à résoudre l'énigme de bonheur que je te propose.» Et presque tout de suite je la reconnus, c'était Venise dont mes efforts pour la décrire et les prétendus instantanés pris par ma mémoire ne m'avaient jamais rien dit et que la sensation que j'avais ressentie jadis sur deux dalles inégales du baptistère de Saint-Marc, m'avait rendue avec toutes les autres sensations jointes ce jour-là à cette sensation-là, et qui étaient restées dans l'attente, à leur rang d'où un brusque hasard les avait impérieusement fait sortir, dans la série des jours oubliés.»(Marcel Proust, "Le Temps Retrouvé")




Domingo, 11 Janeiro, 2004

LEITURAS: "La Noia" ("O Tédio"), de Alberto Moravia. Neste romance, Moravia brinca com o fogo, fazendo coincidir (na aparência), de maneira exacta, o problema (único, dir-se-ia) do narrador e personagem principal com o próprio busílis que a ficção propõe ao leitor. As cartas são postas na mesa com toda a limpidez. Dino, pintor em crise de inspiração, filho de mãe abastada, vê-se atormentado pela impossibilidade de estabelecer relações entre si e as coisas do mundo, e chama a isso o seu "tédio". A consciência do problema é aguda, e quase sempre isenta de dramatismos. O conhecimento que trava com Cecilia, adolescente que rapidamente se torna sua amante, oferece-lhe a ocasião de aprofundar o problema e de dar maior consistência ao respectivo diagnóstico. A banalíssima e átona personalidade de Cecilia funciona como exemplo supremo do mal que aflige Dino: a incapacidade de penetrar nos seus pensamentos íntimos não é mais do que uma nova concretização do gritante défice de relacionamento entre ele e o mundo. Ansioso por apanhar Cecilia em flagrante delito de infidelidade (para assim, ao sabê-la inserida num enredo, num envolvimento dotado de lógica narrativa, coisificá-la, transferi-la de uma vez por todas para a inacessível esfera dos objectos), Dino vigia os seus passos como um vulgar ciumento. O desenlace desta espiral obsessiva é moderadamente trágico, mas não lhe falta um epílogo quase-feliz (e forçosamente denso de ambiguidades).
A principal força do romance reside, a meu ver, nessa coexistência, numa só personagem, da resignação perante o mundo wittgensteiniano composto unicamente de estados de coisas, destituído de valor, por um lado; e de um terror-pânico perante a impossibilidade absoluta de penetrar além dessa plácida superfície das coisas-como-elas-são, que o consome num frenesim inquisitório rapidamente transformado em ladaínha de perguntas para as quais tanto o mundo como a amante têm sempre resposta, porém sem nunca lhe conceder uma brecha, uma falha no verniz da sua uniformidade, que servisse de ponto de entrada (ou vazadouro, para o caso tanto dá) para o sentido, a relevância, o valor. Moravia urde o seu romance de maneira a parecer deixá-lo livre de paradoxos, quando, afinal de contas, o próprio romance é o seu próprio e único paradoxo. Ao leitor, é deixada essa intermitente satisfação de se julgar um passo à frente do narrador na apreensão do problema, satisfação que repousa sobre a falaciosa ideia de que o ponto de vista do observador exterior representa forçosamente uma vantagem, satisfação que se dissipa ao longo da leitura, com celeridade, secura, precisão.


O HÁBITO DO ACASO (ROHMER): Tanto tempo passara desde que Judite vira Cristina pela última vez. Tanto tempo passara desde que Cristina vira Judite pela última vez. Judite estava disposta a conceder à multidão urbana todas as virtudes possíveis, mas a custo lhe perdoava não conter no seu bojo Cristina. Não conter, entre os seus elementos, um elemento cuja figura mais encorpada do que esguia fosse a figura de Cristina. Cristina que, mau grado todo o tempo que passara em Lisboa, falava ainda com algum sotaque alemão.
Judite entregou a sua sorte à cidade de Lisboa. Jamais lhe sucedera compará-la a uma tômbola. Para que serve um aglomerado de ruas e casas senão para induzir acasos felizes, com a perversa e intrigante exactidão da estatística? Todos os pretextos eram bons para visitar as cercanias do Estádio 1º de Maio. Faltando estes, o Príncipe Real e o Jardim da Estrela eram outros tantos destinos que não regateavam o seu modesto quinhão de esperança
Ao fim de um certo tempo de permanência em Lisboa, Cristina lograra eliminar parte do seu sotaque alemão.
Foi num fim de tarde cálido que Judite avistou alguém que, de costas, sentada no anfiteatro ao ar livre da Gulbenkian, lia "O Tédio", romance de Moravia que muitos consideram datado, mas que problematiza com agudeza várias questões fundamentais da vida e do processo criativo que permanecem actuais. A leitora livrou-se de uma criatura inoportuna ("Gosta de literatura?") fingindo-se turista italiana, o que até condizia com o livro. Judite percebeu que não poderia ser outra senão Cristina, e sentiu um pequeno nó no ventre, como que provocado pela certeza de que a graça concedida excede o merecimento. Judite tinha símbolos para partilhar, signos daqueles que se atravessavam no seu caminho. Judite aproximou-se, apoiou a mão na aresta de uma cadeira para se mostrar.


AQUELE QUE: Aquele que afirma ser a persecução de um objectivo na vida incompatível com um abandono do corpo que as vagas promessas do dia embalam, corpo ciente da sua infinita ductilidade, prolongado em dedos riscados por caneta de feltro, que frequentam a terra talvez húmida, FALTA À VERDADE. A acanhada inépcia dos seus modos faz as vezes de malícia.
Era o mesmo que contava a parábola da sentinela. Para ele, a vida na Cidade obrigava a essa postura de alerta perpétuo. As semanas cumpriam-se na dor, comensurável com o hiato que existia entre a sua fraca e nobre pessoa e uma sua imagem idealizada situada, não nas aspirações dos outros (isso seria demasiado simples), mas num purgatório frouxamente iluminado, acessível mas esquecido.
Aquele que percorre as ruas como um soldado, acossado por um alvoroço tenso e juvenil, espanta-se com a calma de que dão mostras os seus concidadãos. A comezinha impassividade com que empreendem o seu quotidiano enche-o de vergonha, reconhecimento e dúvida. E se o inimigo não fosse completamente destituído de misericórdia? Hipótese bizarra, inverosímil, temível entre todas as demais.


OS 10 MELHORES FILMES DE 2003 (ESCOLHA DO COLECTIVO):

  • 1 - "Dogville", Lars von Trier
  • 2 - "Elephant", Gus Van Sant
  • 3 - "Mulholland Drive", David Lynch (este filme é anterior a 2003, mas merece na mesma ser mencionado)
  • 4 - "25th Hour", Spike Lee
  • 5 - "Dolls", Takeshi Kitano
  • 6 - "Deux", Werner Schroeter
  • 7 - "Morvern Callar", Lynne Ramsay
  • 8 - "Il Est Plus Facile Pour Un Chameau...", Valeria Bruni Tedeschi
  • 9 - "Quaresma", José Álvaro Morais
  • 10 - "The Tulse Luper Suitcases #1: The MOAB Story", Peter Greenaway (este ainda não estreou em Portugal, a sua presença nesta lista vale como alerta e como apelo!)
  • Extra concurso: "Vai-e-Vem", J.C.M.



LUGARES DE PARIS:

«Dans toute la partie de la ville que dominent les tours do Trocadéro le ciel avait l'air d'une immense mer nuance de turquoise qui se retire laissant déjà émerger toute une ligne légère de rochers noirs, peut-être même de simples filets de pêcheurs alignés les uns après les autres, et qui étaient de petits nuages. Mer en ce moment couleur turquoise et qui emporte avec elle sans qu'ils s'en aperçoivent les hommes entraînés dans l'immense révolution de la terre, de la terre sur laquelle ils sont assez fous pour continuer leurs révolutions à eux, et leurs vaines guerres, comme celle qui ensanglantait en ce moment la France. Au reste à force de regarder le ciel paresseux et trop beau qui ne trouvait pas digne de lui de changer son horaire et au-dessus de la ville allumée prolongeait mollement, en ces tons bleuâtres, sa journée qui s'attardait, le vertige prenait, ce n'était plus une mer étendue mais une gradation verticale de bleus glaciers. Et les tours du Trocadéro qui semblaient si proches des degrés de turquoise devaient en être extrêmement éloignées, comme ces deux tours de certaines villes de Suisse qu'on croirait dans le lointain voisiner avec la pente des cimes.»(Marcel Proust, "Le Temps Retrouvé")




Quinta, 8 Janeiro, 2004

PROBLEMA DO DIA:

  a b c d e f g h  
 8   8 
 7   7 
 6   6 
 5   5 
 4   4 
 3   3 
 2   2 
 1   1 
  a b c d e f g h  


Jogam as brancas, e dão mate em 3 lances.

(Conta-se que o grande Goethe ficou obcecado por este famoso problema, a ponto de ter passado quatro dias a fio sem pregar olho. Terá a frustração subsequente influenciado o julgamento muito negativo que o vate de Weimar destinou ao fragmento da peça "Pentesileia", que o próprio Kleist lhe fizera chegar às mãos? Eis o que divide os historiadores.)


COISAS MAGNÍFICAS E ESPANTOSAS PARA FAZER EM LISBOA: Hoje em número de 10 (dez).
  • Demonstrar a conjectura de Poincaré numa loja de artigos dietéticos ao Poço do Bispo.
  • Encostado a um distribuidor de bebidas frescas na estação de Alcântara, dizer de si para si que valeu a pena, apesar de tudo.
  • Ser mais papista do que o papa na paragem do 27.
  • Saudar a lua-cheia e embriagar-se de constelações, numa varanda tão estreita que os pés têm de estar oblíquos um em relação ao outro.
  • Seguir longos trajectos rectilíneos, ortogonais aos meridianos, sem nunca violar propriedade alheia.
  • Privilegiar a forma sobre o conteúdo no coreto do Jardim da Estrela.
  • Mimar cenas dos "Dois Cavalheiros de Verona" numa repartição de finanças, adoptando um estilo minimalista para melhor fazer realçar o efeito cómico.
  • Abster-se de trair as próprias convicções, em Campolide ou em Sete Rios.
  • Passar diante da porta de um prestamista com indiferença fingida, sem pensar em Dostoyevsky.
  • Descobrir sentidos ocultos nas ementas de restaurantes rasbiscadas em rectângulos de ardósia.



CONTENÇÃO: O Presidente da República pediu contenção à comunicação social. Algo que não deveria ser necessário solicitar expressamente. Algo que deveria ser um dos atributos da imprensa responsável. O futuro próximo dirá quão roto será o saco onde cairá esta exortação. Para já, constata-se que o "24 horas" não parece estar pelos ajustes. Não há aqui motivo de admiração. Pedir contenção a quem ignora o significado da palavra "deontologia" (entre outras) é como abandonar um cleptómano no interior do "Corte Inglés" e esperar que ele de lá saia de mãos a abanar.


Terça, 6 Janeiro, 2004

MITOS FUNDADORES DOBLOG: Tudo começou quando reparei que prestava mais atenção aos (súbitos) movimentos respiratórios dos cantores do que às melodias ou letras. Por exemplo, a intervenção da Filipa Pais em "Queda do Império", do Vitorino. Passou-se há 10 meses e alguns dias.


Mas de certeza que eu já vos disse que Odilon Redon sabia coisas sobre a felicidade?






MITOS FUNDADORES DOBLOG: Aquilo que nos move camufla-se de palavreado e de excesso, mas a sua fragilidade é daquelas que se dissolve ao primeiro zéfiro, e três frases de cartilha chegam para o resumir. De todas as desculpas, de todos os motivos de força maior que podem ser evocados para esse hábito de acumular linhas e didascálias com medíocre regularidade, as nossas são das mais frouxas. Queríamos contar Lisboa como terreiro para a nossa vontade de fundir "ser" e "fazer", em pleno quotidiano; queríamos atenuantes, em forma de avenidas e largos de coreto, para as nossas acções, para a sofreguidão com que estas se narram a si próprias em vez de se resignarem a serem, meramente, executadas. Queríamos algodão-doce com sabor a hortelã pimenta.
A polifonia dos discursos seduzia-nos, seduz-nos, desde que acompanhada pela devida lucidez. A profusão das sintaxes ocorre em exuberante projecção radial que implica a própria, e abrasiva, concavidade interior, onde cabe o que é irredutível às palavras. Ser feliz ou ser infeliz: este enunciado só admite duas respostas, que se excluem uma à outra; resiste a adjectivos e perífrases. Nenhum discurso do mundo tem o poder de protelar eternamente o momento do confronto. E esse momento deve ser um momento de infinito pudor, um pudor que se devem mutuamente ambas as partes: aquele que por fim se mostra, despido de artefactos, e aquele que presencia o resvalar dos sentidos, o esmorecer do verbo.


FELIZ ANO ESCAQUÍSTICO: O calendário dos eventos xadrezísticos possui as suas balizas, os seus pontos fortes incontornáveis com que os amadores se habituam a contar. Ao dobrar dos anos civis estão associados os torneios de Reggio Emilia, em Itália, e de Hastings, em Inglaterra, sendo este último uma autêntica instituição. O Reggio Emilia deste ano foi ganho pelo grande-mestre grego Miladinovic, com um ponto de avanço sobre Komarov, da Ucrânia. Em Hastings, a principal curiosidade prendia-se com a participação da jovem prodígio ucraniana Kateryna Lahno, que cumpriu 14 anos pouco antes do arranque do torneio...



...E que justificou a sua presença bem para lá da sua componente mediática, com um desempenho (4 pontos em 9 possíveis) que se pode considerar positivo, atendendo à categoria dos adversários. Lahno, cuja margem de progressão é enorme, é sem dúvida uma das mais fortes candidatas a tornar-se a próxima mulher no Top 100 absoluto do xadrez mundial, na senda da grande Judit Polgár. Outras xadrezistas com ambições legítimas a lograr este feito, todas na casa dos 15/16 anos, são a indiana Humpy Koneru e a francesa Marie Sebag, às quais se deve acrescentar o inevitável punhado de russas e chinesas.
O torneio de Hastings foi ganho pelo escocês Rowson, em igualdade pontual com o cipriota Kotronias. A devida chapelada para ambos.


IN PRAISE OF...: As Torneiras de Freud e as Palavras da Tribo são dois blogs excelentes. Cada nova visita que lhes presto reserva-me uma surpresa, um momento de saudável subversão verbal e uma maliciosa abordagem do mundo. Mas isso são 3 desejos, dirão vocês! Não é possível! Sim, é possível, nesses nichos, limbos e orlas da blogosfera onde nem o banal comentário à banal actualidade nem a estéril troca de galhardetes estendem as suas leis.


EU LANÇO O MEU PIU BARBÁRICO...: O meu pessoalíssimo balanço do ano blogosférico resume-se a uma sucinta enumeração das respectivas fases principais: houve um "antes do Pintainho", um "durante o Pintainho" e um "depois do Pintainho". Parafraseando André Breton, o futuro da blogosfera será galináceo, ou não será.


Domingo, 4 Janeiro, 2004

UM POEMA DE THOMAS KINSELLA PARA SAUDAR O INÍCIO DA PRESIDÊNCIA IRLANDESA:

MIGRANTS

A pair of living things,
frail, with wings folded up,
are resting on a leaf,
looking in all directions.

They have worked in base impulses,
apart, up out of the earth.
Laboured in change, feeding on their own fat.
And met, resting on their first flight.

Voluptas: stinging and sweet,
starting to die already, exposed to the air.
Vulgaris: restless and sullen.
Lasting a little longer.

Migrants. Of limited distribution.





UM POEMA DE SALVATORE QUASIMODO PARA CELEBRAR O FIM DA PRESIDÊNCIA BERLUSCONIANA DA UNIÃO EUROPEIA:

ANTICO INVERNO

Desiderio delle tue mani chiare
nella penombra della fiamma:
sapevano di rovere e di rose;
di morte. Antico inverno.

Cercavano il miglio gli uccelli
ed erano subito di neve;
così le parole.
Un po' di sole, una raggera d'angelo,
e poi la nebbia; e gli alberi,
e noi fatti d'aria al mattino.





ENFIM! (FIM DE CITAÇÃO): Jorge Silva Melo saúda, no "Mil Folhas", a tradução portuguesa da "Pentesileia" que este ano ficou disponível; e nós saudamos a saudação.


AS PESSOAS CERTAS NOS LUGARES CERTOS: Tentar ignorar o problema da consistência interna de um blog é algo que não pode deixar de conduzir a amaríssimos dissabores. Se é bem certo que reduzir um blog a um sistema lógico de proposições seria redutor, e de utilidade contestável, não deixa de ser verdade que uma excessiva reincidência de contradições ameaça levar ao soçobro, que pode assemelhar-se menos a um desmoronar ruidoso do que ao aniquilamento incógnito de uma bolha de sabão. Como é natural, este risco agrava-se quando se trata de um blog escrito a várias mãos, como é, manifestamente, o caso deste. Foi a pensar neste problema que, num já distante dia de verão (a mais bela das estações), de céu azul mas com vento, decidimos delegar em pessoas da nossa confiança certas facetas, tarefas e ingredientes que julgámos indispensáveis para nos assegurar uma vida longa e isenta de sobressaltos. Da autoirrisão, por exemplo, passou a encarregar-se um bibliotecário açoriano, a quem pusemos casa (avenida do Brasil), sem mordomias, mas decente. Algumas amigas de infância da América encarregam-se da revisão ortográfica, da harmonização vocabular e da coerência ideológica. Algumas delas estão a estudar em Évora, outras vieram para Lisboa para seguir os cursos que pretendiam, mas estão constantemente em contacto umas com as outras, e os seus diálogos crepitam de gargalhaditas e de senhas e contra-senhas complicadíssimas. Os seus lápis azuis são certeiros e impiedosos. No que toca ao cepticismo, e à adequação da forma ao conteúdo, o caso fiava mais fino. Voltámos o nosso olhar esperançoso para uma pessoa que sabíamos talhada para o papel, persuadimo-la à custa de bolos de creme, copos de grogue, e palavras. Oferecemos-lhe um destino à sua escolha, por exemplo Génova, a subestimada Génova...

Génova, Levante Citadino


Mas a sua preferência acabou recaindo em Nova York, uma cidade muito grande, com muitos museus e muitas galerias comerciais.

Foto do autor. A cópia ou utilização não autorizadas serão objectos de severíssimas sanções de acordo com as leis em vigor.


A sua preocupação número 1 era o aquecimento, por sofrer de circulação deficiente. Mas não há inverno frígido que resista a uma boa escalfeta. Por fim, manufacturámos uma válvula de escape burlesco, com a altura de um homem, que foi instalada num antigo campo de aviação, perto de Castro Verde, protegida das intempéries por um oleado.
Nada nos deixaria mais felizes do que receber testemunhos de bloggers que enfrentaram problemas análogos a estes. A morada é a do costume. A partilha de experiências foi um dos grandes motores da evolução das espécies, juntamente com aquele cometa que caiu e matou os dinossáurios todos.


Sexta, 2 Janeiro, 2004

PARA BEM DA CAUSA: A Memória Inventada e o Almocreve das Petas citaram esteespaço nos seus balanços de fim de ano. Kleist, em pessoa, lá da sua poltrona num nicho do paraíso dos dramaturgos malditos, agradece com um aceno. O Ponziani e a América enviam também os seus "bem hajam". Não será talvez o momento ideal para falar disto, mas o que é certo é que a América amuou porque alguém lhe disse que eu prefiro Robert Desnos a Apollinaire. Como se estas coisas se prestassem a juízos quantitativos. Ainda que assim fosse, eu não o confessaria nem às paredes nem ao chão. Que é feito do segredo de justiça neste país? Fim do post.


AS INTEGRAIS DO 1BSK: Haverá melhor maneira de encetar um ano do que uma integral? Sem ser um dos meus realizadores de eleição, daqueles a quem se dedica santuário e cujo nome se transforma em mantra contra as agruras da existência, Lars von Trier merece a minha grande admiração, pela sua vontade permanente de inovar e de apalpar os limites da linguagem cinematográfica. Esta integral contempla apenas as longas-metragens para cinema do cineasta dinamarquês, deixando de lado, em particular, "The Kingdom" (de que apenas vi parte).

"THE ELEMENT OF CRIME" (1984): Exercício de estilo sem complexos de o ser, voluntariamente claustrofóbico e estilizado, este filme anuncia uma das constantes da obra de Von Trier: a aposta num dispositivo formal arrojado e original ao serviço de uma ideia criativa. Von Trier é sem dúvida um dos cineastas contemporâneos que mais aprofundou os conhecimentos dos aspectos técnicos do cinema; neste caso, as suas proezas formais sustentam um universo ficcional vagamente policial, em que o "macguffin", de tão denso e omnipresente, quase cintila. História de um detective cujo método passa por entrar na mente de um assassino em série, "The Element of Crime" é, antes de tudo o mais, uma declaração de intenções criativas, pautada pela contenção mas também pelo entusiasmo de um jovem criador perante as possibilidades que se lhe abrem.

"EPIDEMIC" (1988): Pouco tenho a dizer sobre este. Deixou-me uma recordação extremamente vaga, e associo esta abordagem do fenómeno da epidemia, a meio caminho entre o falso documentarismo e o delírio fantástico com incursões pelo gore, ao primeiro impasse criativo de Lars von Trier. Talvez um segundo visionamento ajudasse. A título de curiosidade, é este o único filme em que o realizador aparece em frente da câmara.

"EUROPA" (1991): Foi esta obra que tornou o nome de Lars von Trier mais conhecido do grande público, e o elevou ao estatuto de nome incontornável do circuito dos grandes festivais europeus. O universo estético prolonga o de "The Element of Crime", mas "Europa" é um filme com outra ambição e outra dimensão. Pela maneira como explora um episódio pouco conhecido da Segunda Guerra Mundial (a resistência à ocupação da Alemanha pelos aliados), como convoca a memória cinéfila com volúvel engenho (o expressionismo, Fassbinder), como dá largas à sua veia manipuladora e controladora sem abdicar da vontade de transmitir prazer visual, "Europa" figura como um dos momentos altos e fundadores do cinema europeu contemporâneo.

"BREAKING THE WAVES" (1996): Na plena posse dos seus recursos, Lars von Trier concedeu-se a primeira grande inflexão criativa com esta caudalosa rapsódia de emoções e fatalidades, batida pelos elementos setentrionais, com a luta entre rigorismo e prazer como fulcro, e os anos 70 como música de fundo. Emily Watson, no papel da protagonista, excede-se de tal forma que a expressão "estado de graça" pecaria por tibieza. "Breaking the Waves" é ao mesmo tempo manifesto e tributo à liberdade de filmar, e raras vezes se terá visto prova tão eloquente de que a premeditação não é, nem pode ser, inimiga da vontade de criar. Cada plano desta obra-prima arrebatadora fala-nos de cinema, e traz consigo a sua ideia de mundo. Ainda antes de se falar em dogmas, os movimentos de câmara eram já nervosos, à medida do ombro e da urgência do momento. (Uma menção ainda para a soberba interpretação de Katrin Cartlidge, que faleceu prematuramente, poucos anos depois.)

"OS IDIOTAS" (1998): Falemos, pois, do "Dogma 95", esse movimento de realizadores dinamarqueses que, alegando a necessidade de um regresso às origens, se autoimpuseram um leque de mandamentos (não usarás luz artificial, não deixarás que o teu nome conste do genérico...). Pessoalmente, encarei esta conspiração de interesses com curiosidade, atento sobretudo a esse propósito (infinitamente louvável) de jogar com os constrangimentos formais, tanto mais fecundos quanto absurdos e arbitrários. Nunca atribuí aos "dogmáticos" uma relevância ética significativa, e duvido que eles próprios tivessem visto neste exercício de ascetismo pós-moderno mais do que um estímulo, engenhoso e um tudo-nada perverso, às suas capacidades.
"Os Idiotas" é, até à data, o único filme Dogma de Von Trier, um dos fundadores do movimento. Foi rodado com uma equipa de actores dinamarqueses, pouco conhecidos fora do seu país, e com meios que sugerem o cinema amador. Sei que voto vencido quando afirmo ser esta a obra máxima deste realizador. "Os Idiotas" é um filme sobre a capacidade de perseverar num objectivo comum, e de se tornar digno desse propósito ainda que tal implique lamber as proverbiais fezes do cálice. O seu feito mais notável é o de moldar a sua própria forma ao princípio que lhe serve de mote e conteúdo: as angústias e dúvidas dos actores, violentados até aos seus limites, são também as que atravessam as personagens e o próprio tecido do filme; "ir até ao fim" é um desafio que se coloca tanto aos que escolheram desafiar a sociedade, fingindo-se atrasados mentais, como àqueles que encarnam, na tela, este bizarro grito de revolta. O duplo sucesso fica a dever-se à personagem feminina principal, que, de forasteira, alheia aos jogos dos que a acolheram, se transforma na única cuja coragem resiste aos abalos e às conveniências. À sua maneira, assegura a linhagem das personagens femininas dotadas para o absurdo do sacrifício.
"Os Idiotas" é muito mais do que um filme que apalpa o pulso à vida. Os ecos que nele se escutam são os de um poderoso latejo, com tanto de fisiológico como de telúrico.

"DANCER IN THE DARK" (2001): Por uma vez sem exemplo, sucedeu-me detestar um desses filmes dos quais se diz que "ou se ama, ou se detesta". Custou-me vislumbrar algum interesse, propósito artístico ou validade nesta variação do melodrama, levado a embaraçosos extremos de crueldade. Nem as regras do género são exploradas com a malícia que seria de esperar de Von Trier, nem a sua subversão dá lugar a algo de fecundo, original ou sedutor. O facto de Björk não me arrefecer nem me aquecer, como actriz ou como cantora, não terá sido alheio à minha desolação. E há ainda aquela consagração programada no festival de Cannes, com o inenarrável Luc Besson a trautear "It's Oh So Quiet". Bhlllak!



"DOGVILLE" (2003): Para além de ter implicado a minha reconciliação com Lars von Trier (circunstância de interesse absolutamente menor), "Dogville" confirmou à saciedade qual é o principal trunfo deste cineasta: essa capacidade de envolver a sua criatividade num dispositivo formal inovador que, nas mãos de alguém menos hábil, correria permanentemente o risco de oscilar entre o risível e o gratuito. Em "Dogville", a tentação do voyeurismo é desarmada desde o início, com categórica elegância: não há paredes, não há portas, tudo está à vista. Como se se quisesse lançar uma troça benigna sobre a tradição do narrador omnisciente que foi uma das pedras basilares do romance ocidental, e, por arrasto, também da ficção filmada. A profundidade de campo, que o espectador normalmente assume ser pouco mais do que um estratagema, aparece como uma arma atroz. Se olharmos durante tempo suficiente, disporemos da informação necessária para prever o futuro; pelo menos, parece ser isso o que nos prometem. Mas depressa resulta claro que o decurso da acção, o destino da fugitiva, o eventual desfecho, não dependem daquilo que está à vista, mas sim de atavismos, de cupidezes, de ruminações interesseiras, e da estupidez do acaso, e todos eles intervêm, cada um por sua vez, como numa preguiçosa litania. Talvez isso ajude a explicar a indolência com que decorre a conversa entre pai e filha, no interior da viatura, onde se decide a sorte dos habitantes da aldeia. Tudo estava previsto. Está-se a julgar um estribilho já antigo, e não um acontecimento recente.
A personagem de Nicole Kidman (soberba de inteligência, e de uma perspicácia entre o animal e o sofisticado; irmã de Julianne Moore, Isabelle Huppert e Sandrine Kiberlain, outras tantas actrizes cerebrais e magníficas; será atributo das ruivas?) descende de Bess e de Selma, mas inverte violentamente a lógica do sacrifício que decidira do destino daquelas. Ela vinga-as e vinga-se, faz-se anjo de espada em riste, ainda que disfarçando de capricho de miúda mimada a sua ira. Penso estar em boa companhia ao duvidar do efectivo alcance ético da conversa final, da qual resulta a mais terrível das sentenças. Libelo contra a humanidade? Crítica contra a sociedade americana? Sinto-me mais inclinado a ver, naquela (demasiado) tranquila troca de impressões, o culminar dessa obsessão pela moral de que Von Trier dá mostras, com regular abundância. "Dogville" é, obviamente, um filme moral, mas um filme moral sem destinatário, ou (o que vem a dar no mesmo) em que o destinatário é todo o género humano e a sua natureza, rica em arestas e inconsistências. "Tudo é moral", poderia afirmar Lars von Trier, parafraseando o "Tudo é amor", da Gertrud do seu ilustre compatriota Dreyer.


Quinta, 1 Janeiro, 2004

LUGARES DE PARIS:

«Je savais bien que Paris est une ville obscure et pleine de mystères, que les hommes qui y évoluent sont souvent des êtres qui se cachent, traqués ou perdus, mais je ne croyais pas qu'il fût réellement possible d'échapper ainsi à toutes les sanctions dont on menace à chaque instant les naïfs de mon acabit. Je semblais ignorer la nuit et je me souvins tout à coup de longues promenades solitaires, pendant lesquelles il m'eût été loisible de commettre les actes les plus irréguliers sans attirer l'attention. Et pour m'en donner une preuve immédiate je m'étonnais que personne ne semblât se soucier de l'attitude singulière du groupe que nous formions, le marin et moi, assis sur les marches du pont des Arts.»
(Philippe Soupault, "Les Dernières Nuits de Paris")



PARA UMA ESTÉTICA DO MALOGRO: O posfácio de Rafael Gomes Filipe à sua recente tradução da "Pentesileia", de Kleist, é interessante, denso em ideias e temas que espero ir abordando nas semanas que se seguem. Limito-me, para já, a transcrever a penúltima frase. «Uma encenação da peça, susceptível de procurar e atingir o coração de muitos mais, afigura-se-nos, no entanto, bem pouco provável no presente circunstancialismo do nosso teatro.»
Outra não era a convicção de Ponziani quando se lançou nessa aventura de recrutar pessoas para montar a peça onde a rainha das amazonas comete a proeza de dilacerar o coração de Aquiles, o herói de Tróia, tanto no sentido figurado como no sentido literal do termo. Quando abordava X e Y, Ponziani fazia-o deixando transparecer que a empreitada, mais do que "irrealista" ou mesmo "louca", implicava o seu próprio fracasso com a limpidez de um silogismo. A sua verdadeira meta era a seguinte: cortejar o falhanço, provocá-lo como se provoca o choro, fazer com que a desagregação do grupo se confundisse com a vida real; mas confiando na energia paroxística das deixas de Kleist (deixadas subitamente sem brida nem conduta) para subverter essa rarefacção de significado que infesta o quotidiano. Ou ainda: elaborar uma imitação da vida simultaneamente mais intensa e mais volátil do que a própria vida.
A raiz última deste tipo de atitude remonta a uma ocasião em que Ponziani se sentou ao lado da sua amiga Judite, e lhe disse isto:
- Quero que tu sejas a minha Pequena Catarina de Heilbronn.
- Não me parece que seja eu a pessoa certa. Despir a pele de uma personagem tão heróica e devota, todos os dias, ou dia sim dia não, para voltar a penetrar nas contrapartidas e cogitações corriqueiras do mundo exterior, exigiria mais do que aquilo que tenho para dar.
- Mas eu procuro justamente alguém a quem custe abdicar de um dos mundos para entrar no outro. Preciso de uma actriz que arvore esse seu "estar-na-vida-real" em permanência, e que se sirva disso.
- Receio não estar à altura.
- Receias não estar à altura do papel?
- À altura da vida real, quero eu dizer.
Uma semana depois, discutiam a posição dos pés em palco.


QUEM QUER UM MILAGREZITO?: Poucas coisas me abespinham com maior eficácia do que a volubilidade com que certos jornalistas empregam o termo "milagre", para qualificar eventos perfeitamente explicáveis, e que nem sequer desafiam com excessivo desplante os limites da verosimilhança. Quando ocorre um sismo de proporções consideráveis, a tentação de recorrer a tão estafada muleta costuma ser forte demais; mais uma vez isso se verificou, na sequência da terrível catástrofe que assolou o Irão, quando algumas pessoas tiveram a fortuna de serem resgatadas dos escombros com vida, várias dias após a ocorrência. Por uma vez, não se trata de dar largas aos meus pruridos laicos. Penso, aliás, que aqueles para quem o termo "milagre", por via das suas convicções, possui significado, deveriam ser os primeiros a insurgir-se contra este tipo de banalização.
Num cataclismo cujas vítimas ascendem aos milhares, haverá forçosamente uns quantos que deverão a sobrevivência a capacidades invulgares, à sorte e/ou a alguma circunstância rara. Numa perspectiva que poderá parecer cínica (mas que me parece útil para formular o problema de maneira clara), esses poucos cujo resgate à morte assume contornos excepcionais são a contrapartida probabilística dos muitos que, sem apelo nem agravo, sucumbiram. Estarão aqueles que sacam da palavra "milagre" a torto e a direito a sugerir implicitamente uma explicação sobrenatural para o ocorrido? Provavelmente, não. A palavra é usada de forma desleixada e acrítica. A falta de critério e a indigência imaginativa dão-se as mãos e dançam de roda. Citando de memória o precioso Nanni Moretti: quem fala mal, pensa mal e vive mal.


RIDENDO CASTIGAT...?: Por mais sofisticada que seja a comédia, por mais subtis que sejam os gags, as gargalhadas mais sonoras e francas que se fazem ouvir numa sala de cinema surgem inevitavelmente quando um actor se espalha ao comprido. Esta é uma inexorável lei da vida, que mais uma vez tive ocasião de verificar em tempos recentes, nos filmes "Zatoichi" e "Play Time".