Heinrich von Kleist (1777-1811)Liberté Egalité FraternitéNo tabuleiro de xadrez, as mentiras e a hipocrisia não duram muito (Em. Lasker)Monty Python forever!

arquivos do 1bsk

julho 2003

para regressar ao blog, é favor clicar no kleist

 

Quinta, 31 Julho, 2003

MISTERIUM LUSITANUM: Existem muitos mistérios ligados ao nosso país e à maneira de ser portuguesa, o menor dos quais não será o seguinte: porque será que os nossos militares de alta patente são todos conhecidos por dois nomes de família, e nunca pelo nome próprio? Exemplos: Loureiro dos Santos, Silva Viegas, Rocha Vieira, e assim por diante. Será por pensarem que isso de Manéis, Joões e Antónios é coisa de Amélias, tíbia e intolerável concessão à sociedade civil?
Palpita-me que a resposta a este enigma ajudaria a esclarecer o nosso estranho hábito de designar os jogadores de futebol por nomes próprios e alcunhas. No resto da Europa (à excepção da Espanha), é tudo corrido a apelidos.
Como de costume, alvíssaras a quem trouxer alguma luz a este espírito eternamente confuso e perplexo.


POR UM PUNHADO DE YENS: No Japão, Takeshi Kitano é conhecido sobretudo como comediante e apresentador de concursos acéfalos. Mal acomparado, à escala portuguesa, seria um pouco como se o Carlos Ribeiro realizasse filmes e ganhasse o Leão de Ouro em Veneza. Dá arrepios, não dá?
"Beat" Takeshi é tão famoso na sua terra que faz publicidade aos mais variados produtos, e até aparece em cartões de telefone...






AS INTEGRAIS DO 1BSK: Takeshi Kitano (suite et fin).

Hana-Bi


"HANA-BI" (1997): Foi com este filme, consagrado no Festival de Veneza, e coberto de elogios entusiásticos, que Kitano se revelou em definitivo ao público ocidental. Compreende-se porquê. Sem ser um filme de abordagem fácil, "Hana-Bi" representa um expoente na arte, que Kitano cultiva, de combinar a representação da violência com uma poesia visual de assombrosa beleza, o que fornece ao filme o poder de apelar ao sentido estético e às emoções do espectador de maneira poderosa e isenta de mediação. Aparecendo pela primeira vez frente às câmaras depois do seu acidente (que deixou marcas evidentes no seu rosto, causando um défice de expressividade de que não deixa de se alimentar a composição da personagem), "Beat" Takeshi veste a pele de um polícia cuja atitude e trajectória destrutiva não são essencialmente diferentes das do protagonista de "Violent Cop", 8 anos antes, porém reinterpretadas à luz de um niilismo sereno, e da abundância de efeitos que a espartana economia de meios salva da auto-indulgência. Autêntica bíblia da contenção e da elipse, fértil em inesperadas invenções formais (em particular os notórios "raccords" com forte conteúdo significante, que se tornaram numa das imagens de marca do realizador), "Hana-Bi" representa o auge dessa obsessão kitaniana de se isolar do mundo dos homens, criando vazio à sua volta tanto do ponto de vista metafórico como literal, num movimento que, alheio ao mero solipsismo, se destaca com nitidez e tremenda intensidade, na sua evidência de reacção ao sofrimento e ao absurdo.

"O VERÃO DE KIKUJIRO" (1999): Como quem se diverte a defraudar as expectativas daqueles que esperavam, com mui cinéfila ansiedade, o novo filme do criador de "Hana-Bi", Kitano saiu-se com uma comédia ligeira, pacatamente on the road, que surpreendeu em especial todos aqueles que desconheciam a sua faceta extra-yakuza ("A Scene at the Sea", "Getting Any?"). Explorando o tema, tantas vezes glosado, do adulto que se vê obrigado a cuidar de uma criança que não esperava nem desejou, Kitano não deixa de dar largas a alguns dos tiques a que nos habituou anteriormente, como por exemplo a propensão para a elipse, para a redução de um evento ou episódio ao seu prólogo e às suas consequências, de tal forma que chega a maliciosamente pôr em causa a razão de ser e as virtudes da imagem-em-movimento. Pessoalmente, apesar de reconhecer que o burlesco agridoce de "O Verão de Kikujiro" chega a ser tocante, a espaços, e que resulta enquanto veículo para Kitano dar largas, de maneira benigna, à sua caudalosa veia cómica, considero que não faz parte das suas obras mais interessantes. Vejo este filme acima de tudo como uma pausa, que coincidiu com um momento delicado da carreira do realizador, atendendo ao muito que era esperado dele após a consagração. (O que não quer dizer, como é óbvio, que tenha sido um filme no qual ele se investiu menos do ponto de vista criativo.) É curioso notar que este foi o primeiro de uma série de quatro longas-metragens muito diferentes entre si do ponto de vista formal, o que parece denotar uma saudável tentativa de se desfazer da etiqueta de fazedor de filmes de gangsters.

"BROTHER" (2000): Primeiro filme de Kitano realizado na América, "Brother" parece claramente uma obra mal amada, por razões que me custam a entender. A alguma crítica especializada, com a impaciência que é seu apanágio, pareceu fazer espécie a insistência nalguns temas (violência, luta entre gangs, mudez sorumbática da personagem principal, pendor de auto-destruição); é bem sabido que não há maior pecado para um cineasta do que dar a impressão de fazer sempre o mesmo filme, mesmo que essa impressão se deva apenas a 2 ou 3 detalhes superficiais (se há coisa que nunca escape a uma certa crítica, são precisamente os detalhes superficiais...). Pelo que me toca, acho admirável a coerência de Kitano, e apreciei a maneira como, ao filmar pela primeira vez num ambiente estranho, se esforçou em reunir as condições para realizar o seu filme, em vez de procurar um pacífico e consensual meio termo entre duas culturas, motivado ou não pelas exigências de produtores, ou por requisitos de mercado. Como não ver, na contida e tranquila determinação de "Beat" Takeshi actor, a feroz obstinação de integridade de que todos os que seguem a sua carreira sabem Takeshi Kitano capaz? "Brother" é um filme negro, sujo, amargurado e desesperado, mas também indestrutivelmente honesto; desprovido do deslumbrante lirismo pictórico de "Hana-Bi", possui, contudo, algo que nem essa nem nenhuma das obras anteriores possuía: o sobressalto de esperança e calor humano, sob a forma da amizade que liga o protagonista ao seu brother in arms, e que se materializa, sob forma de penhor, para lá do último e fatal tiroteio.

"DOLLS" (2002): Sobre este filme escrevi já, com alguma demora, recentemente. Com vossa licença, para lá vos remeto.

"ZATOICHI" (2003): Este filme, já a entrar (se não erro) em fase de pós-produção, terá a curiosidade de ser a primeira reconstituição histórica de Kitano. O enredo gira em torno de um mestre de artes marciais. Para mais pormenores, sugiro a consulta deste site, que já aqui recomendei, e de onde, aliás retirei todas as imagens aqui apresentadas.




Terça, 29 Julho, 2003

FIEL AO PROMETIDO, O PONZIANI RELATA-NOS O QUE SE PASSA NOS ENSAIOS: «Hoje, o Amadeu, que faz um Ulisses extremamente convincente, encontrou um pacote de Doritos por encetar na caixa dos adereços.»


AS INTEGRAIS DO 1BSK: Considero Takeshi Kitano um dos poucos cineastas realmente significativos que se revelaram nos últimos 10 ou 15 anos. Por isso, e aproveitando também a estreia recente da sua última longa-metragem ("Dolls") entre nós, escolhi-o para iniciar esta nova rubrica, que se quer ao mesmo tempo homenagem, esboço de intervenção crítica e visita guiada pela filmografia do autor.

"VIOLENT COP" (1989): Inicialmente, Kitano deveria ser apenas actor neste filme. A indisponibilidade do realizador, contudo, acabaria por levá-lo a assumir as rédeas do filme, e a assinar aqui a primeira obra da sua filmografia. Para me servir de um termo de comparação retirado do imaginário ocidental, "Violent Cop" pode ser visto como um "Dirty Harry" nipónico, minimalista, directo nos meios e na brutalidade, mas ao mesmo tempo oblíquo na sua absoluta recusa de qualquer vestígio de estatuto de paladino do Bem para o seu anti-herói. A animosidade da personagem principal (um inspector da polícia) contra a criminalidade pequena e grande, contra a crueldade e a corrupção humana, é obstinada, monótona, intensa, desprovida de altos e baixos, e alheia a qualquer veleidade de melhorar o mundo. A este estado de espírito adequa-se a repetitiva estrutura do filme, marcada por longas sequências que mostram Kitano caminhando, simplesmente, na rua, como que isolado de qualquer destino e de qualquer propósito. "Violent Cop" é um filme que anuncia todos os outros, apresentando temas e obsessões que Kitano teria oportunidade de trabalhar mais tarde com outra liberdade criativa.

Jugatsu


"JUGATSU/PONTO DE EBULIÇÃO" (1990): Primeiro filme 100% pessoal de Kitano, "Jugatsu" constitui uma excepção na sua obra na medida em que ele aparece como actor (usando o pseudónimo pelo qual é mais conhecido no Japão, "Beat" Takeshi) num papel secundário. Em todas as outras suas obras, Kitano ou não participa como actor ou é protagonista principal. "Jugatsu" impressiona pela maneira como, tão cedo na sua carreira, o cineasta manipula já com tanta segurança os meios ao seu dispor, a ponto de construir um espectáculo sumptuoso onde o argumento e o refinado tratamento das imagens se conjugam naquilo que apetece ver como uma reflexão sobre uma obra por vir. Explico-me: na sua lógica, algures entre sonho, visão e aspiração da personagem principal (um jovem apático, que penetra quase por acaso no universo dos gangsters), "Jugatsu" integra diversos elementos dos filmes subsequentes (os yakuza, o desporto, a praia, a violência gratuita) num todo que apenas o burlesco, o absurdo e o inverosímil sustentam, na maior das precariedades. E é precisamente esta gritante fragilidade do conjunto que salienta o papel e a função de cada um dos elementos, e a sua importância na duvidosa coesão do edifício. Como se Kitano precisasse de adquirir confiança a este respeito, projectando na ordem do hipotético aquilo que, em obras subsequentes, apareceria como realidade sólida, inescapável, sem fissuras.
É também em "Jugatsu" que pela primeira vez se nota outra das imagens de marca de Kitano: a coexistência da beleza mais sublime com a mais crua violência (inesquecível, a sequência da arma escondida no meio do ramo de flores).

"A SCENE AT THE SEA" (1991): Um jovem surdo-mudo; a sua namorada, também surda-muda; ele trabalha na recolha do lixo; um belo dia, encontra uma prancha de surf no lixo; o seu sonho é tornar-se surfista e participar em competições; conseguirá? Os ingredientes parecem reunidos para uma pessegada sentimentalona. Mas com Kitano atrás da câmara, como é evidente, sentimentalismo é a última coisa que se poderia esperar. Com uma contenção absoluta, Kitano alcança a proeza de ao mesmo tempo contar uma história simples e poderosa de dignidade e proceder a uma profunda reflexão visual sobre a relevância ética de elementos fílmicos básicos, em particular o plano, que 99,9% dos filmes tomam como um banalíssimo dado adquirido, e que aqui percebemos ser o veículo que exprime e define a realidade das relações humanas nas suas vertentes mais simples: ausência, presença, distância.

Sonatina


"SONATINA" (1993): Na minha pessoalíssima opinião, o melhor e mais coerente filme de Kitano. Entre dois períodos onde predomina a violência, encontramos os yakuza do costume perdidos numa praia remota, sem nada para fazer. É o momento dos jogos, mais ou menos perigosos, numa terrível dilatação do tempo em que o lúdico e o comezinho ocupam a concavidade deixada pela súbita ausência de barbárie. Quanto mais se assemelha a um gentil período de recreio, mais a fatalidade parece obscena. Passa algum tempo até que nos apercebamos de que, nessa solarenga suspensão do enredo, aquilo que mais angustia é a naturalidade com que aceitamos a ausência de alternativas. Nada há a fazer a não ser aguardar a retoma da violência. Nada, a não ser, precisamente, ocupar o tempo, e isto é tão válido para aqueles dias de lazer roubados à fatalidade como para o próprio tempo do filme, imitando a vida na sua obsessiva necessidade de ser preenchida, seja com o que for. Para evitar o vazio, tudo é legítimo, até campeonatos de sumo na areia.

"GETTING ANY?" (1995): Nunca vi este. Relata quem viu que nesta comédia, deliberadamente alarve, "Beat" Takeshi dá largas à faceta de comediante que o popularizou no seu Japão natal. O mau gosto, a vulgaridade e o burlesco têm lugar de honra. Dificilmente exportável, presume-se. Não posso dizer que morra de desejo de o ver; porém, Kitano já nos deu múltiplas razões para merecer o benefício da dúvida.

"KIDS RETURN" (1996): Primeiro filme depois do grave acidente de motorizada que deixou Kitano com uma paralisia facial parcial. As recordações que guardo deste filme são muito vagas. Na maneira como aborda a vulnerabilidade e volubilidade da juventude, aparece como um gémeo de "Jugatsu", mais sombrio e realista.

CONTINUA AMANHÃ (OU PROXIMAMENTE, EM TODO O CASO). Faz-se tarde, e tenho ainda de transmitir um recado do colega Ponziani.



MAIS DO MESMO: Um cidadão expõe-se à chacota pública quando assume comprar "A Capital" todas as terças-feiras apenas por causa da página de xadrez. Porém, tal persistência acaba tendo compensações adicionais tão inesperadas quanto bem-vindas: no caso da edição de hoje, mais um artigo sobre blogs! Infelizmente, peca tanto por falta de originalidade como por imprecisão. Os blogs citados nestes artigos tendem quase sempre a ser os mesmos; se bem que quase todos sejam de excelente qualidade, a ideia que é transmitida ao leigo é a de que o essencial da blogosfera se reduz a 10 ou 12 blogs, e pouco mais. A páginas tantas, diz-se que «em Portugal existem já cerca de 500 mil pessoas que se dedicam à manutenção dos blogs», no que parece ser mais um exemplo da incompatibilidade entre jornalismo e a noção das ordens de grandeza. Também se afirma que o Blog de Esquerda «tem certos vínculos com o Bloco de Esquerda», o que, tanto quanto sei, não é correcto, mau grado as colaborações regulares de Daniel Oliveira (que aliás foi entrevistado para o artigo).
Estranhamente, não é feita uma única referência ao Meu Pipi.


BANDEIRA VERDE: A época balnear está aí, em força. No Umblogsobrekleist, a bandeira verde está hasteada em permanência: as nossas correntes são vigorosas mas nada traiçoeiras, as marés vivas mas leais, as ondas altas mas inofensivas (desde que se evite a rebentação). Um "bem hajam" a todos os leitores habituais pela sua fidelidade, e uma palavra de gratidão àqueles que nos frequentam mais esporadicamente, pela curiosidade e espírito empreendedor que os trazem a estas paragens. Quanto aos novos visitantes, algumas palavras de apresentação talvez venham a propósito. Este é umblog vocacionado para as Artes, a Actualidade, e todas as Grandes Questões da Humanidade (sem ofensa para as Pequenas e Médias Questões). Gostamos do cepticismo, da dúvida metódica, do cinema francês intelectualóide, e das tradições culinárias da região da Emilia Romagna. Não gostamos de dogmas, de touradas e da Teresa Guilherme. Jovem, se tens mais de 18 anos e o 12º ano de escolaridade, alista-te e escolhe uma carreira aliciante, escrevendo para o endereço que encontras em cima e à esquerda.


Segunda, 28 Julho, 2003

THE ODD COUPLE: Saborosa ironia. Nos noticiários televisivos passam, com poucos minutos de intervalo, discursos de Fidel Castro e de Alberto João Jardim. No populismo abjecto, nos despudorados alertas contra os inimigos do costume e contra a perversão de supostos perseguidores e adversários, no inane apelo ao cerrar de fileiras, na megalomania, no predomínio de invectivas e exortações inflamadas em detrimento de qualquer esboço de argumento racional, as semelhanças são gritantes entre duas personalidades que tudo deveria diferenciar. Felizmente para os madeirenses, as semelhanças ficam-se por aqui. Mas o que é preocupante é que certas criaturas políticas procedem de maneira a que o modo e o estilo ganhem ascendência sobre o conteúdo, de tal maneira que estranhas afinidades acabam saltando à vista, quer se queira quer não, para além de qualquer diferença ideológica e de grau.


O ENLACE CÉPTICO DA SEMANA: No site Talk Reason, encontram-se numerosos artigos que denunciam o Creacionismo, a teoria do "Intelligent Design" e o chamado "princípio antrópico" (teoria segundo a qual numerosas constantes físicas do universo parecem ajustadas de maneira muito precisa para permitir a aparição da vida), entre outras investidas, mais ou menos subtis, contra a ciência, em geral, e o darwinismo, em particular. O nível dos textos é, de uma maneira geral, muito bom, pelo que este site, embora menos completo do que outros que já tivemos oportunidade de recomendar, merece que nele nos demoremos. Um pequeno óbice é o facto de se centrar muito fortemente na realidade norte-americana. Contudo, tal está longe de lhe retirar interesse, atendendo a que é neste país que este tipo de debates tem conhecido maior intensidade e suscitado mais amplas contagens de espingardas.


Domingo, 27 Julho, 2003

Portanto, chegámos a isto. Não desejei uma situação destas, mas tão pouco a temia. Uma crise pode ser uma oportunidade, se o momento de feroz lucidez que a ela sucede for explorado ao máximo, em vez de receado. Ponziani, a tua mensagem chegou às minhas mãos, e, se é verdade que não percebi mais do que uma frase em cada duas, compreendo que a mistura de alegórico e factual com que se compraz a tua pluma não se compadeça com a pobre chama do senso comum. Não é isso que importa. O âmago da comunicação, esse, não está em dúvida. Falemos, pois, desses teus turbulentos estados de alma a respeito do blog. Falemos desse papel que insistes ser o teu: o de virgem vestal dos sagrados óleos e das essências kleistianas, incorruptível e incompreendido, abandonado por todos aqueles que preferiram a sua dulcíssima versão de diletância aos rigores lacedemónios da Vida De Comediante Com Uma Missão Na Vida (entre os quais, obviamente, agoro me incluo também). De acordo com o que dizes, o blog está descaracterizado, dispersa-se aos 4 ventos com a leviandade de uma criança que descobre as primeiras letras, e desviou-se de maneira radical dos seus propósitos fundadores (partindo do princípio que estes existem...). Chegas a defender que o exílio alentejano da Miss América foi uma atitude mais coerente do que a minha actividade quase quotidiana de escriba.
Ponziani, não te reconheço. É certo que as tuas palavras se adequam ao homem que nos submetia a suplícios inenarráveis até adoptarmos a postura que julgavas correcta para um soldado hoplita armado de lança; o seu fundamentalismo não desmerece do encenador que nos mantinha suspensos, durante horas, com uma discussão relativa à prosódia de uma deixa de Pentesileia, rainha das Amazonas, e que, quase literalmente, nos persuadia a tactear o vazio em busca desse ilusório ponto equidistante entre o amor, a cólera e a humilhação. Porém, pareces esquecer-te que eras também tu quem mais insistia na subordinação dessas bizantinices ao MUNDO REAL, à sua assustadora complexidade polimórfica, e, acima de tudo, à resposta à ÚNICA pergunta que realmente interessa: «Como viver?». Como transpor para a Pólis as considerações ociosas que nos permitimos emitir no recato do nosso minúsculo mundo, na modorrenta pacatez dos nossos ensaios onde nós insuflamos, artificialmente, toda a sorte de conflitos?
Este blog é (como se tu não o soubesses...) uma tentativa de resposta a essa questão. Como bem sabes, melhor do que eu, Wittgenstein referiu-se, em carta a um amigo, ao seu Tractatus como uma obra dotada de um propósito essencialmente ético; ao desenvolver uma teorização sobre os estados de coisas, e à maneira como a linguagem e a lógica podem referir-se a eles, o livro define a ética a partir do exterior, delimitando-a, como que em negativo, por meio da exaustão de tudo aquilo que pode ser dito, de todas as proposições sobre o Mundo, destituídas de qualquer valor. Pois bem, passe a colossal imodéstia, aquilo que tentamos fazer neste blog (e não me digas que não estavas ciente disso) é algo de semelhante. Se é admissível que o amontoado de informação, as frivolidades, as veleidades de eclectismo em que tem sido fértil este espaço careçam de sentido à primeira vista, não visamos outra coisa que não seja a delimitação, ainda que por omissão, da medula da vida, daquilo que realmente possui significado e relevância para a felicidade das pessoas.
Lembra-te sempre disto, por favor, quando te assaltar de novo a desilusão pelo facto de "não tocarmos nos assuntos que verdadeiramente interessam".
Porque não nos comunicas mais amiúde novidades sobre o decurso dos ensaios? Quer do teu ponto de vista quer do meu, seria algo de imensamente positivo e frutuoso.
Ponziani, aquilo que nos movia, em tempos, era um segredo comum, e um também comum interesse em investigar em que circunstâncias é que o Segredo cede o lugar à Lei, e que aspectos pode assumir a respectiva solução de continuidade. Nada disso perdeu a sua actualidade. Quem te disser que os mistérios do mundo caducam, mente e não é teu amigo. Eu sou teu amigo.


SUGESTÃO DO CHEFE: O Ivan, da Memória Inventada, permitiu-se emitir um parecer elogioso sobre o 1bsk, que eu assinalo e agradeço com vivo e sincero reconhecimento. Por saber que o elogio de blog para blog é um gesto que, quando dele se abusa, corre o risco de degenerar num enfadonho exercício de autocongratulação em circuito fechado, vou dar mostras de comedimento na minha resposta. Assim, acho preferível omitir o facto (no qual acredito piamente) de que as apreciações encomiásticas que o Ivan teve a gentileza de publicar se aplicam como uma luva, mutatis mutandis, ao seu próprio blog. Resistirei à tentação de deixar escrito, preto no verde, que a Memória continua a ser um dos blogs mais inventivos e ricos do ponto de vista literário que alguma vez este vosso criado visitou. Abster-me-ei ainda de assinalar que a sua originalidade polifónica continua a ser motivo de deleite e admiração, e que só a falta de tempo poderá ser desculpa para que o blogonauta médio não leia na íntegra cada um dos seus posts. Por fim, terei o cuidado de evitar revelar a minha convicção de que a eventual publicação em livro de alguma da prosa que lá tenho lido seria uma excelente notícia para a literatura portuguesa.
(Foi ainda interessante ficar a saber que aquele era o East River. Na minha imperdoável ignorância, eu julgava tratar-se do Hudson.)


DOIS-VERSOS-DOIS DE JOSEPH BRODSKY:

A dog painted in bright hues of sunrise
barks at the back of a passerby of midnight color.

("Vertumnus", XII, tradução do autor)



REGRESSO A DORIS LESSING: Da expressão que empreguei num post recente sobre Doris Lessing ("notória aversão a piruetas estilísticas") não se depreenda, por favor, que a senhora escreve de maneira desleixada, ou que prescinde (por incapacidade ou convicção) de se servir dos inesgotáveis e prodigiosos recursos da língua inglesa. Não se vejam eufemismos onde eufemismos não existem. O extracto que transcrevo é uma das mais tocantes descrições, que me lembro de ter lido, das hesitações maljeitosas e dos pequenos nadas que pontuam uma despedida entre pessoas que acabaram de se conhecer, e que sabem que um novo encontro não tardará.

«They left the restaurant, slowly. At this very last moment, it seemed they did not want to part. They said goodbye and walked away from each other. Only then did they remember they had been together for nearly three hours, talking like intimates, had told each other things seldom said even to intimates. This idea stopped them both, and turned them around at the same moment on the pavement of St Martin's Lane. They stood examining each other's faces with curiosity, just as if they had not been sitting a few feet apart, for so long, talking. Their smiles confessed surprise, pleasure, and a certain disbelief, which latter emotion - or refusal of it - was confirmed when he shrugged and she made a spreading gesture with her hands which said, Well, it's all too much for me! At which they actually laughed, at the way they echoed, or mirrored, each other. Then they turned and walked energetically away, he to his life, she to hers.»
("Love, Again", Flamingo, p. 42)



Sábado, 26 Julho, 2003

O NOME DO JOGO: No artigo que escreveu para a revista "Os Meus Livros", a Charlotte menciona, entre tantos outros blogs valorosos e dignos da nossa estima, este que o amável leitor está a ler neste preciso momento. A distinção do nome doblog como "o melhor da blogosfera", por inesperada, encheu-nos de pudica estupefacção e rubor. Perante tão generoso elogio, as minhas glândulas da falsa modéstia engataram, acto contínuo, em quinta velocidade, o que me levou a alinhavar uma lista muito pessoal dos melhores nomes da blogosfera lusa (alguns dos quais originaram dolorosos extremos de auto-recriminação, por não ter sido capaz de me lembrar deles antes). Aqui vai, pois, a lista dos 10 nomes eleitos, por ordem crescente da graça que acharam aos meus olhos:

Porque me agrada tanto este nome? Talvez por, em três singelas palavras, evocar Poe, Lacan, o prazer que é receber uma carta, o receio de ver a sua privacidade violada, a pacata normalidade da troca epistolar e a sinistra anomalia que a ameaça. Ou talvez tenha sido a atraente sonoridade, com a sucessão dos 5 "a" infiltrados pelo recalcitrante ditongo. O que é certo é que é um nome que apetece repetir vezes sem conta.
O interesse da Carta Roubada está muito longe de se esgotar no nome, o que me leva a lamentar a falta de actualizações de que tem sofrido ultimamente.
Não me sentiria em paz com a minha consciência se não revelasse que o Umblogsobrekleist esteve para se chamar "Na Cama com Gilberto Madaíl". Fica assim a blogosfera a saber daquilo que se livrou. Afortunadamente, saiu cara em vez de coroa.


Sexta, 25 Julho, 2003

FELIZ ANIVERSÁRIO, JUDIT! (MAS ISTO EM HÚNGARO): Cumpriu anteontem 27 anos a maior xadrezista de todos os tempos. No site Chessbase, ponto de paragem obrigatório dos adeptos das causas e cousas escaquísticas, foi publicado um interessante artigo de homenagem a Judit Polgár, com fotografias imperdíveis.


UMBLOGSEMTOMATES: Serão necessários muitos "thank yous" da Natalie Merchant (ver abaixo) para contrabalançar a soturna desolação que suscitam em mim os spots publicitários da Santàl Rad. É bem verdade que a brejeirice é a melhor aliada do puritanismo mais serôdio.


AGORA SIM!: Agora sim, compreendo o alcance dos elogios que a Voz do Deserto faz à economia de mercado. Ontem, comprei na Livraria Barata, por cinco euros, o CD das suites para violoncelo (o mais nobre dos instrumentos) de Britten, por Truls Mørk. O Guia da Penguin atribui-lhe 3 estrelas (máximo).


Quarta, 23 Julho, 2003

OUTRA DAS RAZÕES QUE ME LEVAM A NÃO PERDER A FÉ NA HUMANIDADE: A maneira como a Natalie Merchant pronuncia "thank you", no final de cada uma das canções que constam do CD "10,000 Maniacs MTV Unplugged".




LEITURAS: "Love, Again" (1996), de Doris Lessing. Doris Lessing descreve-nos neste romance um mundo tenebroso, semeado de ameaças latentes; um mundo onde uma estabilidade de décadas, uma sólida satisfação profissional, uma modesta mas eficaz autarcia, se encontram perpetuamente à mercê das aleatórias irrupções do amor, amor romântico, amor físico, amor em todas as suas vertentes, em sucessão ou atroz simultaneidade, transformado em suplício pela sua natureza irrealizável, ou pelo aluvião de contradições que revela. Sarah Durham, uma produtora teatral de sessenta anos, viúva há mais de vinte, apaixona-se subitamente por dois homens muito mais jovens, um a seguir ao outro, ambos envolvidos num espectáculo baseado na vida e música de uma singular compositora francesa. Durante o período que o livro abarca, Sarah passará por uma fase de incredulidade, por dois tumultuosos picos de paixão, e por um declínio amargurado, que é também uma reconciliação com o seu celibato, embora marcada pela consciência de que a experiência abriu feridas que o tempo pode ser incapaz de curar. Este ciclo, devidamente dotado de apogeu e perigeu, tem o seu contratempo em Stephen, mecenas da peça que está a ser encenada, e cuja obsessão amorosa pela personagem principal (a compositora, morta há muito) o leva, em linha recta, ao suicídio. Ainda outra vez, tudo se joga entre a capacidade de relativizar aquilo que sucede (ainda que isso implique a geração de tensões que podem parecer insuportáveis, prontas a dilacerar corpo e sanidade), como faz Sarah (ou o romance por ela), e a compulsão, motivada por uma ilusão ou pela falta de alternativas, de permanecer no reino do absoluto, aparentemente a menos cruel das soluções, mas que priva de saídas aquele que por ela envereda.
A escrita de Doris Lessing baseia-se essencialmente numa narração, fortemente objectiva, daquilo que se passa, acompanhada pela descrição dos estados de espírito que acompanham o progresso da(s) personagem(ns) através da narrativa. Nada disto foge de maneira flagrante àquilo que tem sido a matriz da literatura ocidental (e anglo-saxónica em particular) no último par de séculos; contudo, poucos serão os autores actuais que se servem com tão devastadora eficácia da clivagem entre eventos, por um lado, e a sua apreciação subjectiva (com os respectivos vórtices e abalos morais e emocionais, mais ou menos discretos, mais ou menos denotados pelo gramatical fluxo do texto), por outro. É ao nível dessas minúsculas desfasagens que tudo aquilo que interessa revelar é revelado: a nudez da alma e da inteligência, e tudo aquilo de nobre ou mesquinho a que uma pessoa recorre para dissimular a miséria desse espectáculo de si mesma ou dos outros, como quem tapa as partes vergonhosas com as mãos ou com um trapo.
Bastariam a pentalogia "Children of Violence" e o romance "The Golden Notebook" para garantir a importância da obra de Doris Lessing, poderosa caixa de ressonância das interacções da grande História e das pequenas histórias do século XX. Acredito que o tempo lhe trará o estatuto que ela merece, e que, talvez porque os seus livros requerem paciência e uma visão de conjunto, talvez pela sua notória aversão a piruetas estilísticas, ou talvez simplesmente por uma questão de modas, cânones e tendências, tarda em lhe ser atribuído de maneira tão generalizada quanto eu acharia justo.


Terça, 22 Julho, 2003

LUGARES DE PARIS: A 2 passos do túmulo de Samuel Beckett. Cemitério de Montparnasse. Esta distância corresponde a um compromisso entre afinidade, admiração, e um pouco desse pudor que se adequa a dias claros, secos, frios.


VENI VIDI VICI VEZES CINCO: Serve este post para endereçar os nossos mais sinceros parabéns a Catarina Leite, do Ginásio Clube de Odivelas, que, com apenas 20 anos, acaba de se sagrar campeã nacional de xadrez pela quinta vez consecutiva. Tamanha proeza merece, desde já, um lugar de honra no panteão escaquístico luso, e um sumptuoso fauteuil ao lado direito da deusa Caissa. E, mais singelamente, o nosso aplauso.
Saliente-se ainda que a vitória foi obtida da maneira mais categórica possível, com 7 vitórias em 7 possíveis.
Se este feito tivesse recebido nem que fosse a centésima parte do destaque mediático que mereceram outros pentacampeonatos que eu cá sei, eu seria uma criatura mais feliz.


Segunda, 21 Julho, 2003

EPISTOLARIA MONTEIRENSIS: Enquanto as condições logísticas, atmosféricas e temperamentais necessárias para escrever sobre "Vai-e-vem" teimam em não se reunir, decidi transcrever uma carta dirigida por J.C. Monteiro ao "Público", provavelmente em 1997 ou 1998 (por imperdoável lapso, esqueci-me de datar o recorte). Pessoalmente, acho-a deliciosa, sobretudo quando a imagino lida pela vozita e pela dicção inimitáveis do sr. João de Deus (cujos ensinamentos, a julgar pela maneira troglodita como são servidos os cones de gelado nos dias que correm, a poucos aproveitaram).
Tratando-se de uma carta que foi publicada num diário de grande tiragem, julgo não estar a cometer nenhuma inconfidência.

«O jornal PÚBLICO insere na sua edição de 29 de Novembro uma notícia [com base em informação da agência Lusa] sobre alguns incidentes provocados pela minha pessoa, no âmbito de uma retrospectiva de alguns dos meus filmes, organizada pelo festival de cinema de Gijón.
Dado que a referida notícia não corresponde à inteira verdade dos factos, solicito a publicação das rectificações que se seguem.
Ao chegar a Gijón foi-me fornecido o catálogo do festival. Após leitura das sinopses, verifiquei que as mesmas não correspondiam aos filmes que havia feito. De aí, a pergunta: quem foi o imbecil que escreveu estes disparates?
Verifiquei que o filme "Le bassin de John Wayne" figurava no catálogo, apesar de eu não autorizar a sua passagem, pela razão simples de ainda não o ter visto.
Solicitei à direcção do festival que me fosse dada a possibilidade de proceder publicamente às rectificações julgadas necessárias para o que considero lesivo dos meus filmes. No dia seguinte, meia hora antes da projecção do filme intitulado "Recordações da Casa Amarela" (e não de "Le Bassin de John Wayne", conforme foi noticiado), dirigi-me para a cabine para acertar questões de projecção. Fui informado pelo projeccionista que alguns dos meus filmes haviam já passado num formato errado (1:1.66 em vez de 1:1.37). Foi possível proceder-se à correcção, pelo menos da imagem, dado que, no que diz respeito ao som, e atendendo a que a sala estava regulada para o sistema Dolby, não havia grande coisa a fazer. Já na sala, dirigi-me delicadamente aos espectadores, começando por lamentar não falar asturiano e prestando as minhas homenagens aos mineiros massacrados em 34 pelas tropas franquistas.
Afirmei, desdizendo o que vinha escrito numa das famigeradas sinopses, que nunca tinha tido conversas com Deus, que era um cineasta comunista "sui generis", etc. Admito que, a páginas tantas, a coisa azedou e que não terei dirigido palavras de grande afabilidade para o certame de Gijón e mesmo para o senhor primeiro-ministro da monarquia espanhola.
Nunca me dirigi em termos ofensivos a uma cidade que não conheço e na qual até descobri dois Rossini raríssimos.
Finalmente, não pedi desculpas a ninguém. Quem me conhece sabe-o perfeitamente.
João César Monteiro - cineasta»





UM VERÃO VERDE-ALFACE: Bem-vindos a mais uma semana de blog. Ou, como diria Kleist: «Ich habe eine Tragödie (Sie wissen, wie ich mich damit gequält habe) von der Brust heruntergehustet; und fühle mich wieder ganz frei!».


Domingo, 20 Julho, 2003

O 1BSK RECOMENDA: Numa pesquisa rápida que efectuei sobre Kitano, deparei com um excelente site (em francês) sobre este realizador e actor japonês, contendo centenas de magníficas imagens dos seus filmes, programas televisivos, aparições em festivais, "making of", etc. Altamente recomendável.




CINEMA: "Dolls", de Takeshi Kitano. Como sucede com todos os autores realmente significantes, cada filme de Kitano representa um momento de uma perpétua interrogação sobre a natureza do cinema, e sobre aquilo que distingue um filme de uma (mais ou menos hábil) justaposição de cenas, ideias, nacos de diálogo, piruetas narrativas. Em "Dolls", assistimos a um fascinante esforço de resgate de elementos que a brutalidade de um destino, à maneira de enxurrada, tenderia a arrastar consigo, num movimento que se identificaria com a própria aniquilação da possibilidade de cinema. Ao procurar reparar o irreparável (a loucura da mulher que ele abandonou, ao aceitar um casamento de conveniência), a principal personagem masculina não visa outra coisa senão subtrair alguém ao império do Absoluto, do sofrimento e da dor sem limites, que nenhuma mediação poderá mitigar; e fá-lo da única maneira possível, ou seja, tentando reinstalar a sua amada nesse mundo do Relativo onde a felicidade é possível, ainda que duvidosa; onde as pessoas estabelecem laços no tempo e no espaço, que por vezes, mas apenas por vezes, se traduzem em peripécias e enredos. Se esse caminho de regresso fosse coroado de sucesso, o resultado poderia ou não ser um filme; do óbvio malogro, Kitano faz uma solene aproximação à irredutível omnipresença da dor. À falta de um vínculo, à falta do vínculo que a sua leviandade comprometeu para sempre, a corda de que o homem se serve para amarrar um ao outro os corpos de ambos é mais do que uma desesperada artimanha, ou um mero dispositivo de segurança: é a própria materialidade do filme, o penhor da sua existência, o patético mas necessário sucedâneo de uma relação que nunca o será, e que concentra, em negativo, a totalidade das narrativas possíveis, todas elas nado-mortas, cada uma delas uma pequena porta para um matiz diferente de felicidade, com o seu estado de coisas associado, assim como imagens e sons.
Parece-me ainda que, deste ponto de vista, os dois episódios anexos (o yakuza que reencontra a sua amada da juventude num banco de jardim, e a cantora que sofre um acidente) funcionam, mau grado os seus desfechos trágicos como uma discreta vingança contra a funesta esterilidade da não-história principal. Como se o seu poder fecundador, ainda que debilitado, fosse suficiente para engendrar (e ilustrar) situações de argumento independentes, graças unicamente à proximidade física.
Quanto à intensidade estética de algumas das cenas, que chega a roçar o dificilmente tolerável, a única coisa que se me ocorre dizer é que, para quem conhece "Hana-bi", tais extremos de beleza surgem como algo que se toma quase como garantido, vindo de quem vem. Mas sem que tal prejudique a fruição.
Nem uma palavra a respeito das marionetas. Mencioná-las, e à tradição japonesa do bunraku, obrigaria a uma laboriosa construção de pontes até à outra margem, que seria a de Kleist e a de um certo ensaio... A delicadeza da tarefa leva-me a desistir da tarefa. Fim do post.


DA FAMA E DO PROVEITO: Na secção "Pessoas" do DN de ontem (página 45), Garry Kasparov aparece referido (duas vezes na mesma notícia) como "campeão mundial de xadrez".
Ignoro qual terá sido a origem desta informação errónea. Seja como for, o lapso merece que sobre ele nos debrucemos.
No final dos anos 90, Kasparov, na altura campeão em título, provocou uma cisão com a Federação Mundial de Xadrez (FIDE). De então para cá, o seu título careceu da legitimidade que lhe era conferida por um organismo minimamente sólido e consensual. Ainda assim, a superioridade que continuou a evidenciar face aos demais xadrezistas, assim como a satisfatória regularidade com que colocou o seu título em jogo, levaram a que ele continuasse a ser considerado campeão do mundo por uma grande parte do mundo xadrezístico, e pela imprensa especializada.
Há coisa de poucos anos, Kasparov foi categoricamente derrotado num match por outro russo, Vladimir Kramnik, que se apossou desse título mundial oficioso. Entretanto, a FIDE nunca deixou de organizar o seu próprio campeonato do mundo, sendo o actual detentor do título o ucraniano Ruslan Ponomariov. (Poupo os leitores desteblog a detalhes e considerações acerca dos esforços para a reunificação dos dois títulos - um assunto ao qual terei com certeza oportunidade de voltar.)
A moral da história é de uma limpidez cristalina. Kasparov NÃO É campeão mundial de xadrez. Pode ser o primeiro classificado no rating, o mais conhecido, o que faz mais reclames de máquinas de lavar, o que assina mais autógrafos, o que fala mais alto, o mais pródigo em diatribes e contumélias dirigidas aos seus pares; mas campeão, ele já não é, e mesmo ele não se atreveria a reivindicar tal estatuto, hoje em dia. E o facto de continuar a ostentar esta aura diz muito sobre a maneira como a fama, o jogo de cotovelos, a esperteza e a visibilidade mediática podem mais do que a humilde verdade dos factos.
Acrescento ainda que jogar 20 partidas em simultâneo não é proeza de grande monta, e que está ao alcance de qualquer grande mestre ou mestre internacional. O que interessa saber é a qualidade dos adversários, assim como o resultado.


ESPÍRITO, ESTÁS AÍ?: Em data ainda a anunciar, vai ter lugar proximamente uma mega sessão espírita, na rua do Nadir-das-Maçãs, número 7b, ao Restelo. Foi possível negociar com a médium um pacote especial, que inclui numerosos autores germanófonos dos séculos XVIII e XIX: para além de Kleist, constarão da ementa Ludwig Tieck, Achim von Arnim, Fichte, Schiller, Schelling, Lessing e E.T.A. Hoffman. Haverá ainda a possibilidade de contactos extra, como Alfredo Marceneiro ou Fontes Pereira de Melo. A entrada será livre, mas será exigido o conhecimento de uma palavra de passe especial, para filtrar os indesejáveis. Os interessados devem escrever para o blog, a/c Sr. Dr. Jorge Bacelar.
(Pede-se a cada participante que traga o seu próprio tabuleiro Ouija.)


Quinta, 17 Julho, 2003

O ENLACE CÉPTICO DA SEMANA: Há já muito tempo que não arriávamos num charlatão. O pretexto surgiu com um artigo de Michael Shermer, publicado na revista "Scientific American". Conhecem o livro "The Bible Code"? O seu autor, num louvável esforço de proselitismo, de que o chorudo sucesso de vendas não é mais do que inocente efeito colateral, acaba de publicar um segundo volume, com mais profecias extraordinárias alegadamente contidas no texto original da Bíblia, desde que lido segundo um determinado algoritmo, relativamente simples.
Felizmente, não faltam pessoas que se deram ao trabalho de denunciar o carácter falacioso destes prodígios de pseudociência - e, o que é mais, com forte dose de humor. Se forem a esta página, verão exemplos de como a aplicação do algoritmo descrito em "The Bible Code" permite encontrar qualquer mensagem em qualquer texto de dimensão razoável. Assim, constata-se que Herman Melville, para além do papel decisivo que desempenhou na génese do romance americano, previu também acontecimentos como os assassinatos de John e Robert Kennedy e de Martin Luther King, com copiosa profusão de detalhes. Está tudo no "Moby Dick"... Os dons proféticos de Tolstoy eram também assombrosos, como o revela o seu romance "Guerra e Paz", onde até a vitória dos Chicago Bulls no campeonato da NBA de 1998 aparece prevista.
O que livros como "The Bible Code" revelam é que a vontade do ser humano em acreditar, conjugada com a sedução do jargão pseudocientífico e com a apetência para descobrir padrões no meio do caos (que é uma das mais fascinantes características da cognição humana) levam a extremos de credulidade preocupantes.
Para complementar esta lufada de saudável cepticismo e bom senso tongue in cheek, podem ainda fazer um desvio por aqui.


COWBOY JUNKIES: A voz da Margo Timmins é uma dádiva resgatada aos insondáveis confins da improbabilidade, mas travestida de queixume de miúda sorumbática.


IDEIA PARA UM CONTO: Rapaz encontra rapariga. Rapaz gosta de rapariga. Rapariga gosta de rapaz. Idílio nasce entre rapaz e rapariga. Os anos passam. Rapaz repara que o sorriso de rapariga é insolitamente semelhante ao do Ronaldo (o do Real Madrid). Frieza instala-se entre ambos. Separam-se num dia de outono. Acordes melancólicos fazem-se ouvir no momento certo. Schopenhauer tinha razão.


FOTOS DE NEW YORK:

A esta, chamo-lhe "Arranha-céus com árvore e céu nublado, número 21".



Em NY, existe um "Dante Park". Porque não um "Kleist Park"?






Terça, 15 Julho, 2003

THERE OUGHTA BE A LAW: Sugiro o seguinte: proibição absoluta de publicar livros com capas inspiradas em obras de Magritte, Hopper e Escher. Isto para espicaçar a imaginação das equipas de design gráfico que, com assustadora previsibilidade, tendem a apostar nestas opções. Às editoras que violassem a lei, seria retirado o imprimatur durante um período de 10 (dez) anos.
Klimt, Dalì, Paula Rego, Vermeer e De Chirico continuariam a ser autorizados, mas sujeitos a quotas.


Ó ALEGRIA! Ó ÊXTASE!: O Guia "365 Dias" que saiu com O "DN" do último sábado é dedicado a Évora. O fascículo, de leitura obrigatória, está recheado de inúmeras informações que visam ajudar o leitor a descobrir essa bela cidade, em que cada rua, cada casa, cada esquina, cada pedra da calçada respiram História com H grande.
Como seria de esperar, não tardaram a chegar rectificações por parte de quem seria de esperar. A América, who knows enough about it, estranha a indicação segundo a qual a visita à Capela dos ossos da Igreja de S. Francisco custa 1 euro. Ela entra lá quando quer, de graça, em troca apenas de um sorriso enigmático e de uma curta troca de impressões sobre a carreira do Lusitano de Évora.


PARALAXE: É bem verdade que o ponto de vista e as circunstâncias modificam radicalmente a nossa maneira de ver as coisas, e a sua capacidade de fabricar escolhos e mementos a partir de insignificâncias (e vice versa) não deixa de me surpreender. Quando, por motivo de estudos, eu residia em Paris, o 14 de Julho pouco mais era para mim do que um feriado associado a dores timpânicas motivadas pelo rebentamento dos abomináveis pétards, e à salobra pompa patriótica dos desfiles militares. Agora, o aniversário da tomada da Bastilha adquiriu a virtude de polarizar as recordações dos meus tempos de cidadão parisiense (com cartão de eleitor e tudo), e, sobretudo, de celebrar a duradoura consolidação do meu amor por uma cultura, um povo, uma história. A evocação de um momento histórico concreto associado a este feriado representa muitíssimo mais do que um feliz anexo à minha vivência pessoal da data. Impossível (mau grado os esforços de tantas boas almas) de reduzir à sua componente de convulsão social, ao Terror e à violência sansculottista, a Revolução foi um acontecimento absolutamente fulcral da história contemporânea, e tubo de ensaio para valores, conceitos e instituições que a nossa sociedade democrática toma hoje como garantidos. Afirmar que merece, ainda e sempre, respeito, estudo e reflexão profunda não é mais do que natural consequência dessa simples constatação.


EFEMÉRIDES REVOLUCIONÁRIAS: 15 de Julho de 1789. O rei, ladeado pelos seus dois irmãos, vem anunciar à Assembleia a sua decisão de fazer retirar as tropas da capital. Uma delegação de 88 deputados dirige-se a Paris, e, perante a multidão reunida junto ao Hôtel de Ville, lê o discurso de conciliação do rei. Bailly é aclamado presidente da câmara, e La Fayette general da guarda nacional. Revoltas populares em Dijon e Le Havre.


PEDIMOS DESCULPA POR ESTA INTERRUPÇÃO: Uma mudança inopinada no nome do servidor FTP do Clix levou a que as actualizações mais recentes deste blog só há poucos minutos pudessem ter sido publicadas. Pelo facto, apresentamos as nossas mais humildes e rastejantes desculpas. Não será devolvido dinheiro.


Segunda, 14 Julho, 2003



EFEMÉRIDES REVOLUCIONÁRIAS: 14 de Julho de 1789. Após sucessivos boatos de intervenção militar, a obtenção de armas torna-se uma obsessão para as massas populares em revolta. Os Invalides, onde se encontravam milhares de espingardas e uma dúzia de canhões, são pilhados. Faltam, contudo, as munições, conservadas na prisão da Bastilha, para onde se dirige a multidão, encorajada pela passividade das tropas, que não ousam entrar em acção. Na sequência de negociações confusas e infrutíferas, a Bastilha, símbolo do poder absolutista, é tomada, invadida, pilhada. No seu interior, apenas se encontram 7 prisioneiros.


Domingo, 13 Julho, 2003

EFEMÉRIDES REVOLUCIONÁRIAS: 13 de Julho de 1789. Em Paris, as multidões multiplicam os assaltos com vista à obtenção de armas. O convento de Saint-Lazare, onde se diz poderem estar guardadas reservas de trigo, é também pilhado. Perante o clima de motim generalizado em Paris, os deputados reunidos em Versailles pedem ao rei que retire as tropas e chame de volta os ministros expulsos. O rei responde que não tem contas a prestar à Assembleia. Esta decide passar a reunir-se em sessão permanente.


Sábado, 12 Julho, 2003

SÉANCE DE RATTRAPAGE: Circunstâncias várias (muito custa ganhar a côdea...) têm impedido o 1bsk de acompanhar a actualidade do país e do estrangeiro com a assídua atenção a que temos habituado os nossos leitores. Impõe-se, pois, uma resenha de alguns assuntos que têm merecido destaque nos últimos dias, devidamente comentados com uma concisão que não é forçosamente proporcional à importância.
  • MOTA AMARAL DECIDE NÃO ACEITAR AS JUSTIFICAÇÕES DE FALTAS DOS DEPUTADOS QUE FORAM VER A BOLA: Penso que foi um gesto ajuizado, e que representa um assomo de bom senso e ética. O assunto, não sendo de importância maior (mal estaríamos se assim fosse), não era tão irrelevante e comezinho como alguns oportunamente quiseram fazer crer. Será tão difícil assim de ver a relação entre episódios deste tipo e a deplorável reputação de que os políticos gozam no nosso país?
  • OS TAXISTAS E O PAGAMENTO ESPECIAL POR CONTA: 10 000 táxis a bloquear o trânsito em Lisboa seria algo capaz de desafiar a ordem e legalidade republicanas, pelo que há que nos regozijarmos por esta situação extrema ter sido evitada. Sobre questões de direito fiscal não me pronuncio, por manifesto défice de competência (mas de bom grado vos revelarei o segredo para que os "gnocchi de patate" adquiram a consistência ideal durante a cozedura).
  • A VISITA DO PRESIDENTE LULA AO NOSSO PAÍS: Achei boa ideia.
  • PAULINHO SANTOS PÕE PONTO FINAL NA SUA CARREIRA DE JOGADOR: Com Paulinho Santos em campo, nenhuma cana do nariz estava segura dentro das 4 linhas, e durante os 90 minutos do jogo. A bem da paz e da coexistência pacífica entre os povos, esta é, pois, uma excelente notícia, ensombrada contudo pela decisão de atribuir ao inefável Paulinho um cargo no departamento de futebol juvenil do FC Porto. Para além da transmissão dos seus completíssimos conhecimentos sobre a anatomia do membro inferior e da resistência ao impacto de cada uma das suas regiões (tíbia, perónio, rótula), pergunto-me de que outra maneira o ex-internacional poderá exercer influência sobre as jovens mentes dos futuros craques.
  • PEDRITO DE PORTUGAL CONDENADO A MULTA DE 100 MIL EUROS POR MATAR TOURO NA ARENA: Sou uma pessoa cuja maneira de actuar e pensar muito deve à moderação e à tendência para relativizar as coisas. Assim, são muito poucas as coisas em relação às quais sou 100% contra, sem nuances. Uma delas são as touradas. Não, 100 mil euros não são multa demasiado pesada para quem infringiu as leis da República de maneira tão consciente e tão despudorada. Receio bem que, até "Pedrito de Portugal" (mas será que o indivíduo não tem nome próprio e apelido, como toda a gente que é gente?) ser obrigado a levar a mão ao bolso, muitos meandros jurídicos existam ainda por vencer, mas tenho esperanças de que, desta vez, triunfe o Estado de Direito sobre a arrogante leviandade apoiada em pretensas tradições culturais.



EFEMÉRIDES REVOLUCIONÁRIAS: A 12 de Julho de 1789, a notícia da expulsão, por parte de Luís XVI, de Jacques Necker, o popular controlador geral das Finanças, gera a indignação do povo parisiense, que vê neste gesto o primeiro passo para a dissolução da Assembleia. Durante este dia, sucedem-se os tumultos, que culminam com uma afluência maciça ao Hôtel de Ville, onde se acredita existirem armas escondidas.


Quinta, 10 Julho, 2003

LUGARES PARISIENSES: Rue Gay-Lussac, pela alternativa oblíqua ao Boulevard Saint-Michel, pelo ensaio de tangente aos Jardins du Luxembourg, e pelo improvável sabor de 3 bagos de uma romã comprada numa das suas mercearias, com a devida vénia à tarde em declive e às paixões (as da alma).


VERSOS PORQUE SIM: John Berryman, ilustre continuador da tradição dos Grandes Poetas Barbudos Americanos, na esteira de Whitman, Pound, et al.

Great citadels whereon the gold sun falls
Miss you O Lise sequestered to the West
Which wears you Mayday lily at its breast,
Part and not part, proper to balls and brawls,
Plains, cities, or the yellow shore, not false
Anywhere, free, native and Danishest
Profane and elegant flower,-whom suggest
Frail and not frail, blond rocks and madrigals.

Once in the car (cave of our radical love)
Your darker hair I saw than golden hair
Above your thighs whiter than white-gold hair,
And where the dashboard lit faintly your least
Enlarged scene, O the midnight bloomed..the East
Less gorgeous, wearing you like a long white glove!

("Sonnets", 9)




EFEMÉRIDES REVOLUCIONÁRIAS: 10 de Julho de 1789: em resposta à moção de Mirabeau do dia 8, o rei Luís XVI dá a entender que os acontecimentos em Paris exigem a presença de tropas, e propõe a transferência da Assembleia para Noyon ou Soissons.


Quarta, 9 Julho, 2003

TRÊS METÁFORAS DA AMÉRICA PARA DESCREVER LISBOA:
  • um floco de insolência branca e cinza, com ciúmes do tempo
  • um livro aberto, mas com erros de paginação e o charme vetusto de uma cabala de ocasião
  • um arrabalde de Tróia, com terreno livre para equídeos de pau, e um lugar de mangas-de-alpaca reservado para Cassandra
Mas agora pergunto eu: será isso motivo para alguém se fechar num celeiro, com um termos de chá e as obras completas de Guy de Maupassant, e pensar em cada légua que a separa da Grande Cidade como um motivo de satisfação e alívio?


CINEMA: "Mischka", de Jean-François Stévenin. O aspecto mais fascinante deste filme é a maneira como o próprio tempo da acção, idas e vindas, desencontros e vicissitudes servem de matéria prima para a consolidação de laços, num processo brusco e atabalhoado que coloca ao mesmo nível o parentesco, o acaso puro e simples, e uma espécie de fatalismo difuso e benigno, ligeiro como a França estival, entregue aos turistas, ao calor e ao "chassé-croisé" nas autoestradas. A demanda parece ser a razão de ser dos itinerários das personagens, mas o reencontro tão esperado aparece como um momento deliberadamente demasiado frouxo para servir de ponto de inflexão ou desenlace de um fluxo de peripécias que adquiriu solta e humaníssima autonomia, e que tanto poderia cessar ali mesmo, quando a película acaba, como durar mais um par de horas, ou confundir-se com a vida. Tudo isto num ambiente tão copiosamente franco-francês, libertário e "Copains d'abord" que quase se consegue sentir o aroma a Camembert, cidre doux e rillettes.
À sua maneira, e mau grado o meu cepticismo relativamente à expressão, "Mischka" é mesmo um "hino à vida". Tinhas razão, Nuno!
É importante assinalar que Jean-François Stévenin tem feito carreira essencialmente como actor, tendo participado em nada menos de três filmes de Rivette: "Out 1", "Merry-Go-Round" e "Le Pont du Nord".


EFEMÉRIDES REVOLUCIONÁRIAS: A 9 de Julho de 1789, a Assembleia Nacional reunida em Versailles declara-se Assembleia Nacional Constituinte. Esta conquista surgiu na sequência do juramento do Jeu de Paume (em que os membros do Terceiro Estado juraram não se separar antes de dar uma Constituição à França), e da famosa recusa de Mirabeau («Estamos aqui pela vontade do povo, e só sairemos pela força das baionetas.»).


Segunda, 7 Julho, 2003

A: Pretendia-se conquistar a cidade, não era assim?
B: Sim, mas atenção: com gestos humílimos e córneas enxutas.
A: E a dicção, no meio disso?




THE UNUSUAL SUSPECTS: Para além de escalar o Kilimanjaro e demonstrar a conjectura de Poincaré, uma das coisas que faltava ao meu currículo era ser incluído por alguma boa alma da blogosfera na lista dos suspeitos de ser o autor do Meu Pipi. Está feito, e devo-o ao Satyricon (grande filme, por sinal). (Quanto aos epítetos "pacato" e "insuspeito", pois bem, quem já se deu ao trabalho de vasculhar os ficheiros do FBI na letra A apreciará quão pouco eles se aplicam à minha pessoa.)
Caríssimos: se já não tenho mãos a medir com o Kleist, onde desencantaria eu o tempo (para não falar da inspiração) para uma vida dupla pipizesca? Porém, se o desmentido é firme e peremptório, não queria deixar de acrescentar um nome à lista dos potenciais candidatos a autor do blogdequesefala:

CHRISTOPHER MARLOWE!!!




Snoopy pondo em dia o seu blog...


CAVALEIRO DA TRISTE FIGURA: Eu não queria bater mais no ceguinho (haverá muito tempo para isso, até 31 de Dezembro), mas não queria deixar de comentar aquela tirada de antologia do compincha Berlusconi, a respeito da série televisiva dos anos 60 onde aparecia um tal Schulz, e cuja reminiscência longínqua teria estado na origem da repugnante laracha sobre o "kapo" do campo de concentração. Perante tão delirante demonstração de bazófia e inanidade, avolumam-se as suspeitas de que o caso Berlusconi não pode deixar de relevar do foro psiquiátrico.
O único Schulz que eu conheço é o autor dos "Peanuts", e não é por isso que confundiria o eurodeputado alemão seu homónimo com o Snoopy.


BLOGSAGOGO: Ninguém ignora que o número de blogs portugueses cresce com assustadora celeridade, e só os mais fanáticos podem aspirar ainda à exaustividade nas suas consultas. Pela minha parte, não quero deixar de assinalar alguns que me chamaram a atenção ultimamente, concentrando-me naqueles que, de maneira mais ou menos directa, tratam de literatura e artes.
O Crítico e o Modus Vivendi são dois excelentes blogs que eu, mais do que tentar definir de maneira concisa, prefiro recomendar que visitem e leiam com calma. O Latinista Ilustre(apreciem a alusão asterixiana) dedica-se, como o nome indica, à nobre língua do Lácio, supostamente morta, mas cuja influência se faz sentir com inesperado vigor ainda hoje em dia. O Beco das Imagens é um ponto de paragem obrigatório para quem se interessa por BD e artes gráficas em geral.
Por fim, dois blogs de elevado interesse onde marcam presença dois amigos meus: no Tecnofantasia, esperem encontrar muito material sobre Ficção Científica (mas não só), por uma das pessoas que mais tem feito por ela em Portugal nos últimos anos, o Luís Filipe Silva; já A Aba de Heisenberg, onde pontifica, entre outros escribas, o Nuno Ferreira, ex-companheiro de exílio em Paris, assume a incerteza como divisa, e discorre sobre variadíssimos tópicos com verve e sagacidade.
Boas leituras, mas lembrem-se que amanhã é dia de trabalho (pelo menos para mim é).


A NÃO PERDER AMANHÃ NA RTP2: "Jugatsu/Ponto de Ebulição", um dos mais brilhantes filmes de Takeshi Kitano. Para variar, "Beat" Takeshi faz de gangster, mas desta vez com enfeites na cabeça.


Sábado, 5 Julho, 2003

MAIS UM DISTINGUO (PELO PRINCIPAL INTERESSADO): Eu poderia ter poupado o esforço de distinguir entre "lamentar" e "pedir desculpa", pois o próprio Silvio "Quem, eu?" Berlusconi acabou por fazê-lo em público, com o brio que se lhe reconhece. É óbvio que Berlusconi pertence àquele género de pessoas cuja maneira de ser tornam um pedido de desculpas tão improvável como uma combustão espontânea. Todos conhecemos pessoas assim; porém, normalmente elas não são presidentes do conselho de ministros do país que preside à União Europeia. Esse é que é o problema.


OUTRO DISTINGUO: A Linha dos Nodos teve a boa ideia de explicitar a diferença entre "capo" (palavra italiana que significa simplesmente "chefe"), e "kapo" (palavra cujo uso, tanto quanto sei, não se generalizou em português, ao contrário do francês, e, pelos vistos, do italiano também). "Capo" é uma palavra grave, pelo que não podem restar dúvidas de que Berlusconi, ao acentuar a última sílaba tónica, pretendeu empregar o termo mais insultuoso ("kapò"), que se refere assumidamente à função de guarda de campo de concentração. Verdade seja dita que, mesmo que assim não fosse, a atenuante seria bem fraca.
Quanto à origem da palavra, o precioso "Petit Robert" indica duas etimologias alternativas para "kapo": ou a própria palavra italiana ("capo"), ou uma abreviatura de "Kamerad Polizei".


APROPÓSITODEKLEIST: Na livraria Almedina do Saldanha, vi "A Marquesa de O.../O Terramoto no Chile" à venda por 7,33 euros. Pareceu-me um número simpático. É o preço de uma refeição, ou de 4 quilos de pêssegos, ou de um filme seguido de café e de um brigadeiro, acompanhado pelo "Expresso". Sobre os pêssegos, esta obra-prima da literatura tem a vantagem de nos proporcionar uma fruição ilimitada no tempo, ao passo que os pêssegos são perecíveis, condenados a transformar-se no bolo alimentar, no quilo e no quimo, sendo decompostos nas suas moléculas constituintes pela acção da digestão.


BECKS!: No Telejornal, Cesário Borga brindou-nos com uma cornucópia de significados e alusões relativos ao número 23, que, como ninguém no sistema solar deve ignorar neste momento, é o número que o Spice Boy David Beckham vai usar na sua camisola do Real Madrid CF. (Exemplo: 23 foi o número de punhaladas com que Júlio César foi assassinado.) Faltou acrescentar que 23 é um de apenas dois números inteiros (o outro é o 239) que requer 9 números positivos elevados ao cubo para ser representado. É também o maior número inteiro que não é uma soma de potências distintas. Finalmente, nunca deixemos de ter presente que 23! (factorial de 23) é um número com 23 dígitos. Palpita-nos que esta razão terá sido decisiva para a escolha de Beckham. (Fonte: "The Penguin Dictionary of Curious and Interesting Numbers", David Wells.)
Aproveito para fazer notar que 23 era também a idade de Heinrich von Kleist no famoso inverno de 1801, mencionado no ensaio "As Marionetas".


UMA BOA NOTÍCIA: A detenção de Yvan Colonna, principal suspeito do assassinato do prefeito da Córsega, Claude Érignac, em Fevereiro de 1998, deve ser motivo de regozijo. Cada dia que o homem mais procurado de França passava a monte era um motivo suplementar de descrédito para as autoridades e para a República, sobretudo atendendo a que todo o inquérito foi marcado por graves manifestações de incompetência e por inquietantes suspeitas. Esperemos que, por fim, estejam reunidas as condições para que venha ao de cima a verdade por detrás deste odioso crime.


ESCUTADO NO RÁDIO CLUBE PORTUGUÊS: Demis Roussos, já pensaste em fundar uma seita, da qual tu serias o guru, olímpico e ventripotente? Eu não hesitaria em aderir, e pagaria o dízimo com escrupulosa regularidade.


O 14 DE JULHO APROXIMA-SE!: Vai estando na altura de ir buscar os barretes frígios ao baú...


Quinta, 3 Julho, 2003

QUATRO VERSOS DE PAVESE, CONTENDO A PALAVRA "MANANCIAL": A Itália também é isto:

O homem só conhece uma voz de sombra,
cariciosa, que brota em tom calmo
de um manancial secreto: absorto, bebe-a
de olhos fechados, não parece estar junto a ela.

(In "Virá a Morte e Terá os Teus Olhos", tradução de Rui Caeiro)



BIS REPETITA PLACENT: Pela segunda vez em 43 anos, depois de Gillo Pontecorvo, um italiano causa indignação por causa de um "Kapo". Hoje, como então, impõe-se uma rivetteana vontade de apontar o dedo a abjecções e indignidades.


E ENTRETANTO, EM FLORENÇA...: Camus escreveu que "era preciso imaginar Sísifo feliz". Eu estou convencido da urgência de imaginar uma personagem feminina de Botticelli com uma marca de vacina no braço. O esquerdo.


DISTINGUO: Ao que consta, Berlusconi acabou por "lamentar", e mostrar "arrependimento" pelas suas declarações. Ora bem: é perfeitamente possível "lamentarmos" algo que dissemos, e "arrependermo-nos" daquilo dissemos, não porque a cabeça fria e 24 horas de reflexão nos tenham convencido de que procedemos mal, ou porque discordemos daquilo que dissemos, mas simplesmente porque achamos que podíamos ter evitado um escândalo desnecessário, guardando aquilo que pensamos para nós. "Lamentar" não equivale a "pedir desculpa". Mais depressa acreditaria que o príncipe William se vai casar com a Lili Caneças do que na inocência desta escolha de palavras.


PORQUE FIQUEI A GOSTAR AINDA MENOS DE BERLUSCONI: O comentário insultuoso dirigido ao eurodeputado europeu foi, sem dúvida, de execrável gosto, e condenável a todos os títulos; mas prefiro evitar chover no molhado e repisar evidências que outros já escreveram.
Mais interessante parece-me ser a tendência para evocar circunstâncias atenuantes que teriam a ver com a hostilidade em torno da intervenção de Berlusconi, com os insultos que choveram de várias bancadas, etc. Um homem não é de pau, e pode existir a tentação de admitir que, ao fim de uma hora ou duas de discursata séria e contida, um único dislate, uma simples piadola, por mais grosseira que seja, seria estatisticamente inevitável.
Devo dizer desde já que deploro algumas das formas utilizadas por alguns eurodeputados para se manifestarem em pleno hemiciclo contra Berlusconi. Um Parlamento é essencialmente um lugar de debate e de exercício do poder legislativo, e um dos exemplos supremos da sacralidade laica das instituições da Democracia. Cartazes, assobios, apartes foleiros, não deveriam ter lugar num parlamento.
Mas será que isto minimiza a gravidade do gesto de Silvio "Cada tiro cada melro" Berlusconi? Certamente que NÃO.
O que é mister aqui é evitar dar rédea solta a esse mito (alimentado de forma deliberada por Berlusconi e pelos seus seguidores) de que o PM italiano é vítima de uma campanha esquerdista difamatória e antipatriótica. Existem aqui duas atitudes possíveis: considerar que as múltiplas manifestações de cepticismo e repúdio que se têm feito ouvir por essa Europa fora são fruto de uma cabala multinacional, dopada por algumas boas almas ingénuas e pelo desconhecimento dos factos; ou considerar que relevam de uma reacção civicamente válida, e que, em última análise, demonstra preocupação pelo futuro da União Europeia e da democracia na Europa. É evidente que sustento firmemente esta segunda alternativa, e que considero que a intensidade das vozes que se erguem contra Berlusconi é proporcional à gravidade da situação, por todas as razões que esmiucei no post anterior.


PORQUE NÃO GOSTO DE BERLUSCONI: Ainda antes do infelicíssimo episódio no Parlamento Europeu, era já minha intenção enunciar algumas das razões pelas quais o patrão do Rui Costa nunca figurará na lista dos meus 36 000 políticos preferidos:
  • Berlusconi é, simultaneamente, primeiro ministro e proprietário de várias cadeias de televisão de expansão nacional (para além de um poderoso grupo de imprensa escrita). Por mais que a situação tenha sido denunciada, a sua gravidade merece um alerta constante. Isto é mau para a democracia. Isto colide com os princípios democráticos mais fundamentais. Isto não devia acontecer.
  • Berlusconi usa e abusa do populismo mais atroz e primário, a que alia uma obsessiva tendência para assumir o papel de vítima. O homem mais rico, poderoso e influente de um país membro do G7 tem a desfaçatez de envergar as roupagens de underdog, num mundo inevitavelmente dividido entre Aqueles Que Querem Fazer Avançar A Itália, por um lado, e os comunistas, por outro lado. Como todos os líderes totalitários, ou que o seriam se os tempos não fossem outros, Berlusconi é exímio na arte de deflectir os ataques que lhe são dirigidos de maneira a fazer parecer que atingem todo o povo do país que dirige: quem ataca Berlusconi é forçosamente italiano. E isto é um insulto grosseiro a todos aqueles (entre os quais me conto) que, amando a Itália (onde residi durante um período breve, mas de gratas memórias), a sua cultura e as suas gentes, se opõem a Berlusconi e acreditam que a oposição àquilo que ele representa é um dever democrático e cívico.
  • Berlusconi afirmou pretender gerir a Itália como uma empresa. Um país não é uma empresa, e não pode ser gerido como tal.
  • Berlusconi não é um político, mas sim um eficaz híbrido de empresário, Cresus, relações públicas e Pepsodent. O seu "partido", Forza Italia, não passa de uma megaoperação de marketing, mero veículo para "Sua Emittenza", desprovido de conteúdo ideológico ou fundamento susceptível de alicerçar as suas práticas. (Seria com isto que sonhavam os encarniçados inimigos da ideologia na política, que tanto alarido fazem de vez em quando?)
  • Berlusconi deu legitimidade aos seus aliados da Lega Nord, detestáveis arruaceiros que fizeram das declarações xenófobas um hábito. Estes separatistas de opereta, liderados por Umberto Bossi (o único homem na Europa que faz Alberto João Jardim passar por um indivíduo cordato e cheio de savoir-vivre), cometem a proeza de inquietar mais do que os ex-fascistas de Gianfranco Fini, que pareceriam, à partida, condenados a ser o elo mais fraco da coligação.
  • Berlusconi manipulou cinicamente as regras do jogo judicial para não ser julgado por diversos crimes de corrupção. (No entanto, devo dizer que a delicadeza destas questões de imunidade levam-me a pensar que este é um argumento que deve ser usado com mais conta, peso e medida pelos detractores do PM italiano do que tem sucedido até ao momento.)
  • Prefiro a Inter ao AC Milan. (E a Juventus à Inter, já que estamos com a mão na massa.)



Terça, 1 Julho, 2003

THE VOICE OF AMERICA: Para a América, onde quer que estejas. Escuta: ontem, deixámos pairar no ar uma deixa que era só para ti. Lembras-te daquela violenta mancebia entre ressentimento, ternura e aniquilação que só poderia ter saído da pena de um bastardo do Romantismo alemão? Pois era disso que se tratava. Quando se esgotou o eco, como um animal que desiste de lutar, fomos ver o rio. Do seu aspecto oleoso, consolou-nos em parte o luar intermitente.


OS MEUS 5 FILMES PREFERIDOS DE WIM WENDERS: A propósito do que aqui foi escrito há dias sobre "O Estado das Coisas", aqui segue, para vosso gáudio e recreação, a lista dos meus 5 filmes preferidos de Wim Wenders.
  • "Movimento em Falso"(1974): Espécie de "Gata Borralheira" dos seus filmes do "período da errância", esta é uma obra que parece comprazer-se em acumular as fragilidades, as vulnerabilidades desfraldadas como bandeiras de papel a meia haste. Não só não existe "história", como a possibilidade de uma qualquer narrativa capaz de concentrar elementos díspares num todo com sentido se esgota ao ritmo de cada respiração e passo em frente. E porém, o final sugere (com a devida contenção elíptica) a inevitabilidade de uma situação em que o gesto possui significado, e que do seu malogro ou do seu sucesso dependem a realização do ser e do grupo (a palavra "felicidade" exigiria uma atmosfera menos rarefeita para ser pronunciada). As recordações que guardo deste filme são, apropriadamente, ténues e escassas. Este foi o primeiro filme de Nastassja Kinski.
Rüdiger Vogler e Hanna Schygulla em Movimento em Falso
  • "Ao Correr do Tempo"(1975): A força desta obra resulta da maneira como combina o seu estatuto de súmula das ideias cinematográficas de Wenders com um despojamento e liberdade que diluem a gravidade dos filmes anteriores e que, conjugados com a invulgarmente longa duração e com alguns detalhes engenhosos (a começar pelo genérico), fazem deste um trabalho de uma ousadia formal empolgante. Rüdiger Vogler (um dos mais subvalorizados actores do cinema europeu) e Hanns Zischler são notáveis. Um capítulo fecha-se com abundância melancólica de imagens e de diacronia, sem que inesperados momentos de euforia deixem de ocorrer. O filme seguinte seria "O Amigo Americano". Go west, my friend...
  • "O Estado das coisas"(1982): Sobre este já disse que chegue. Insisto apenas no seu papel charneira, baliza de um período em que, após as homenagens explícitas ("Lightning Over Water", "Hammett"), Wenders integra numa ficção a reflexão sobre as imagens, os seus meios de produção, emprego e fruição e a sua relação com a evolução das sociedades.
  • "As Asas do Desejo"(1987): Verboso, impossivelmente belo, este filme consagra as núpcias da palavra, da imagem, da história e do sonho num todo que se quer encruzilhada e ponte entre o passado e algo que Wenders pareceu querer perseguir a partir de então, mas sem que os seus contornos e matizes alguma vez se tenham tornado definidos. O problema de como filmar o inefável num contexto eminentemente terreno (Berlim na sua evidência material, deselegante, cindida, suja) é resolvido com uma melancolia barroca absolutamente nova na filmografia deste realizador, vagamente mórbida na maneira como explora, ao mesmo tempo que a edifica, uma fronteira entre história e irrealidade. A colaboração com Peter Handke é um sucesso comparável em importância às duplas Resnais/Robbe-Grillet, Resnais/Duras e Oliveira/Agustina.
  • "The End of Violence"(1997): Na minha opinião pessoal, a única ocasião pós-"Asas do Desejo" em que Wenders soube dar corpo a um objecto cinematográfico consistente e digno do seu talento. Sem ser um filme de tese, todo ele se articula em torno da resposta a uma questão («O que é a violência?»), e a esse ímpeto de abstracção corresponde uma obra admiravelmente coerente em termos de ideias e soluções narrativas. Um comentário aos tempos e costumes que não esconde (e é isso que faz a sua força) essa sede de imagens e situações, e essa proximidade relativamente às pessoas que desde cedo sustentaram a vontade de fazer cinema deste realizador.



DOIS FALECIMENTOS NO CINEMA: Mais pelo acaso das frequências cinéfilas do que por qualquer predisposição negativa, conheci pouquíssimos filmes onde tenha entrado Katharine Hepburn. Não tendo, para além disso, nenhuma opinião sobre aquilo que ela simbolizou ou não na sua longa carreira, limito-me a assinalar o seu desaparecimento com tristeza. Não posso deixar de notar a inevitável abundância de referências, nos obituários e referências da comunicação social, a essa suposta "idade de ouro" Hollywoodiana em relação à qual sou mais que céptico. Mas deixemos estas farpas para outras ocasiões mais apropriadas.
Muito mais despercebida passou a notícia do falecimento de Jean-Claude Biette. (Aliás, dela só tive conhecimento graças ao programa de Julho da Cinemateca.) Notável crítico nos "Cahiers du Cinéma" e na "Trafic", Biette realizou também meia-dúzia de longas metragens. Aquela que, tanto quanto sei, foi a derradeira ("Trois Ponts sur la Rivière", parcialmente passada em Portugal) foi trazida às nossas salas por Paulo Branco. Recordá-lo-ei sobretudo por um outro dos seus filmes, o tocante e original "Le Champignon des Carpathes", feliz memória cinéfila da Cinémathèque dos Grands Boulevards, Paris.


BUSH REAFIRMA APOIO A "CUBA LIVRE": (Lido na "Capital" de hoje.) Pelo que me toca, nunca digo que não a um dedal de Cointreau. Mas só nos dias de festa.


SOLIDARIEDADE DE CLASSE: A melhor frase do fim-de-semana pertenceu a Santana Lopes, na RTP1. «Eu também sou funcionário público.» Pois pois. E o Spielberg é um modesto assalariado da indústria do audiovisual.