Heinrich von Kleist (1777-1811)Liberté Egalité FraternitéNo tabuleiro de xadrez, as mentiras e a hipocrisia não duram muito (Em. Lasker)Monty Python forever!

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julho 2004

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Segunda, 26 Julho, 2004

Por motivos vários, mais pessoais e intransmissíveis ainda do que o passe social, o 1BSK encerrará as suas portas durante pelo menos uma semana. Fica uma lista, não exaustiva, dos blogs de serviço:

Janela Indiscreta
Torneiras de Freud
Diário de Uns Ateus
Epicentro
Almocreve das Petas
Quartzo, Feldspato & Mica
Digitalis




O CARTEIRO TOCA SEMPRE DUAS VEZES: A todos aqueles a quem devo resposta por via electrónica, há vários dias, apresento publicamente os mais sinceros pedidos de desculpas, em meu nome e em nome do colectivo. O fraco caudal de correspondência que habitualmente recebemos fez medrar por estas paragens deploráveis hábitos de procrastinação. Esperamos regularizar a situação muito em breve.
O carteiro toca sempre duas vezes, mas sucede que, antes de tocar, se estenda um bocadinho ao sol, trauteando indolentes melodias populares.


MERITOCRACIA: Por mérito e afinidade, dois novos blogs passam a figurar na coluna dos favoritos: o Azul Cobalto e o Dias Com Árvores.


ACABARAM-SE AS DESCULPAS...: ...para não ler "Michael Kohlhaas", obra de Kleist traduzida para português por Egito Gonçalves, editada pela Antígona. A terceira edição está já disponível ao público em geral, nos bons estabelecimentos.
Ao comprar ou folhear, não deixe de reparar na cor das letras com que, na capa, se escreve o nome do autor. Depois deste sinal, subsistirão ainda renitentes e cépticos? Haverá ainda quem duvide de que ALGO DE EXTRAORDINÁRIO E FULGURANTE SE PREPARA PARA OS TEMPOS QUE SE AVIZINHAM?


A FAMÍLIA SCHROFFENSTEIN: Ainda não disse nada sobre esta peça, e o que tenho a dizer é pouco e acessório. "Tudo pode ser virado do avesso", poderia ser o lema desta primeira peça de Heinrich von Kleist: uma lógica, já de si funesta (a da querela familiar e da espiral de vingança), é perseguida até um extremo inverosímil, até soçobrar sob o próprio peso. E todavia, no côncavo deixado por este colapso não cabe a harmonia reencontrada: o avesso do avesso não equivale ao fim do pesadelo, mas sim a um seu estado mais virulento e destrutivo. Ainda antes de perderem os seus entes queridos no inevitável banho de sangue, os de Warwand e os de Rossitz são já indigentes: não contam senão com as suas projecções mentais, fantasias de perseguição e de antagonismo, mais de acordo com os imperativos da tragédia do que com qualquer empirismo. Tais castelos de cartas costumam ruir com furor, e não é raro que, através das fendas abertas, possam passar a loucura, o caos, e todos os soturnos ajudantes do vazio absoluto. A última deixa de "A Família Schroffenstein" é um cumprimento distraído à velha feiticeira, cujas artes, porém, bem débeis parecem ao lado do pujante vento de desordem que varre toda a peça.
À encenação de Luís Miguel Cintra adequam-se como uma luva os seguintes adjectivos: sólida, profissional, inteligente, eficaz, fluida. Eu teria gostado que uma maior ênfase recaísse sobre as fricções dos corpos em movimento, e que os múltiplos ímpetos que atravessam e impelem as personagens tivessem sido traduzidos de maneira mais física e mais dinâmica.
Até dia 1, no Teatro do Bairro Alto, pela Cornucópia.


O REGRESSO DOS QUE NÃO FORAM: A regra nº 1 da blogosfera poderia ser esta: Todos os epitáfios têm prazo de validade. Pouco depois de eu ter carpido o seu fim, eis que o Memória Inventada regressa, com o seu costumeiro esplendor. O Ivan e os seus homens de mão acabam de protagonizar a mais breve permanência de sempre na secção de BLOGS DESCONTINUADOS - e ainda bem. Ivan, se reincidires em anúncios de retirada extemporâneos, correrás o risco de te tornares o Michael Jordan da blogosfera. Por favor, não largues tudo para ir jogar basebol!


VERSOS PORQUE SIM:

Tes pas, enfants de mon silence,
Saintement, lentement placés,
Vers le lit de ma vigilance
Procèdent muets et glacés.

Personne pure, ombre divine,
Qu'ils sont doux, tes pas retenus!
Dieux! ...tous les dons que je devine
Viennent à moi sur ces pieds nus!

Si, de tes lèvres avancées,
Tu prépares pour l'apaiser,
A l'habitant de mes pensées
La nourriture d'un baiser,

Ne hâte pas cet acte tendre,
Douceur d'être et de n'être pas,
Car j'ai vécu de vous attendre,
Et mon cœur n'était que vos pas.
(Paul Valéry)




SORRIR É A MELHOR COISA DO MUNDO:



Yves Klein, "Blue Sponge Relief (Kleine Nachtmusik)", 1960





Quarta, 21 Julho, 2004

FAMOSAS ÚLTIMAS PALAVRAS (2):

«April 26th. Mother is putting my new secondhand clothes in order. She prays now, she says, that I may learn in my own life and away from home and friends what the heart is and what it feels. Amen. So be it. Welcome, O life! I go to encounter for the millionth time the reality of experience and to forge in the smithy of my soul the uncreated conscience of my race.
April 27th. Old father, old artificer, stand me now and ever in good stead.» (James Joyce, "A Portrait of the Artist As a Young Man")


A LEI DO SOLO: O que verdadeiramente importa não é a busca da felicidade. Aquilo que faz a diferença é a coragem para atribuir nomes à infelicidade, e para a evocar a qualquer altura por meio de sintagmas. (E isto é mais do que nunca válido nos momentos de júbilo mais feroz e inverosímil.)


MOMENTO CULTURAL DA SEMANA: Acabam de dizer a este homem que Pedro Santana Lopes é o novo primeiro ministro de Portugal.



Francisco de Goya, "Tio Paquete", c. 1820, óleo sobre tela, Colecção Thyssen-Bornemisza, Madrid



DO I CONTRADICT MYSELF?: A contradição existe, há que assumi-la: por um lado, é minha convicção que qualquer autor de blog tem o direito de se retirar de cena, na altura em que muito bem entender, sem dar satisfações a ninguém; por outro lado, o sentimento que acompanha o desaparecimento de um blog que passara a participar (ainda que modestamente) da minha vida é afim a uma perda pessoal, e à frustração, como se me espoliassem de algo a que eu, confusamente, julgara ter direito.
Nada disto sucederia se não tivessem inventado a electricidade, os computadores e a Internet. A culpa é dos Volta, Galvani, Ampère, Faraday, Babbage, Turing, Berners-Lee, enfim, toda a corja.


MÁS NOTÍCIAS NUNCA VÊM SÓS: Outro blog que se finou foi o Cruzes Canhoto!. Durante os seus cento e tal anos de existência terrena, este blog defendeu as suas convicções com ardor e desplante, e também com muito humor e suculenta ironia. Ficam os votos de que o seu principal animador caia na tentação da reincidência.


IN MEMORIAM MEMÓRIA: Foi com muita pena que assisti ao fim do A Memória Inventada. Desde o seu início, segui com deleite permanente as desventuras e desabafos do Ivan e seus apaniguados. Parece-me que este blog é dos poucos (teimo em empregar o tempo presente) que pode reivindicar ter trazido algo de novo (em termos de registo, de talento e ousadia para ocupar o seu espaço) à blogosfera. Fica a promessa de novas aventuras, num futuro que eu desejo próximo.


ROHMER, REVISTA DE IMPRENSA: Alguns extractos de críticas da imprensa francesa ao filme "Triple Agent" (mais aqui):

Le Point (Olivier de Bruyn) «Avec une délicatesse et une intelligence redoutables, Eric Rohmer plonge profond dans les mystères d'une époque ô combien trouble et ceux, définitivement insondables, de toute relation humaine. Dans son genre, du grand art !»

Le Nouvel Observateur (Pascal Mérigeau) «(...) c'est de l'Histoire au présent, jouée par des acteurs qui en parlant comme des acteurs plus que comme des personnages, font entrer le spectateur dans leur jeu. Ce que l'on regarde alors, et ce qu'on entend, c'est le cinéma en train de se faire. Et si l'on aime le cinéma, on aime forcément cela.»

Libération (Philippe Azoury) «(...) le dernier Rohmer est une merveille (...) A-t-on jamais vu Rohmer s'approcher aussi près du vertige, explorer avec un art du dépli presque effrayant et mathématique ce qui a toujours travaillé de l'intérieur son récit : la tragédie jouissive d'un moraliste qui, c'est son drame et son plaisir, ne s'accomplit que dans le mensonge ?»

Cahiers du Cinéma (Jean-Michel Frodon) «En petites scènes ciselées, à table, au salon, chez une modiste, avec une imagerie de bande dessinée "ligne claire" et des dialogues réglés par un maître-acousticien, un accordeur d'intelligence comme il en est de pianos, Eric Rohmer construit ce prisme de mots qui réfracte l'abïme.»




LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: No filme "Ma Mère", em exibição num cinema perto de si (desde que você more nas redondezas do cinema King), a actriz Emma de Caunes lê o livro de Don DeLillo "Body Art".
Um pouco antes, no mesmo filme, a personagem principal, interpretada por Louis Garrel, rasga a capa de um livro, para com os fragmentos construir um crucifixo improvisado. Não pude ficar com a certeza absoluta, mas pareceu-me que o livro era a peça "L'Annonce Faite à Marie", de Claudel. Vandalizar um livro de Claudel para cumprir um ritual católico representa uma rara mistura de blasfémia e piedade.


COUSA LINDA DE SE VER: A hiperactividade bloguística da Ale, das Torneiras de Freud, nestes últimos dias, seja ela devida a acidentes atmosféricos ou ao livre arbítrio, é motivo de regalo e louvor. A parcimónia é uma virtude, mas por vezes sucede que a prolixidade lhe pede meças.


RECADO PARA AS PESSOAS QUE FUMAM NOS ELEVADORES: Para as pessoas que fumam nos elevadores: deixem de fumar nos elevadores.


Terça, 20 Julho, 2004

NA CINEMATECA, OS PRELIMINARES TAMBÉM CONTAM: Numa das próximas vezes que o estimado leitor se encontrar na Barata Salgueiro, sem saber como matar os dez ou quinze minutos que o separam de mais uma sessão de deleite cinéfilo, experimente percorrer os rótulos das caixas de bobinas que formam uma coluna do piso térreo até ao tecto do edifício, com funções (espera-se) mais estéticas do que de suporte estrutural. Alguns dos títulos são de singular beleza: "Madeira - Ilha do Sol", "Portugal, 850 Kms de Praias", "Portugal dos Pequeninos" e "Boa semente símbolo de ambundância" (sic). A minha preferência, contudo, recai sobre o insubstituível "O Bichado das Peras e Maçãs", que muitos não hesitam em qualificar como o "Citizen Kane" dos documentários de pedagogia agrícola.


O LONGO BRAÇO DA LEI: O norte-americano Robert Fischer, campeão mundial de xadrez entre 1972 e 1975, foi detido no aeroporto internacional de Tokyo, e arrisca-se a ser deportado para os E.U.A.. O desenvolvimento da notícia, com copiosos enlaces para outras fontes, pode ser encontrado aqui. De forma sucinta, a situação é a seguinte. Depois de se ter tornado campeão mundial, rompendo pela primeira vez depois da guerra o domínio soviético da modalidade, Fischer tornou-se um recluso, deixando que os mitos dele se alimentassem, e não jogou uma única partida competitiva até 1992, altura em que teve lugar um patético match de desforra com o seu adversário de 1972, Boris Spassky. Esse match, por ter sido disputado em solo da Jugoslávia (que na altura se encontrava sob embargo), ocasionou um conflito entre Fischer e as autoridades do seu país. De então para cá, um dos mais geniais xadrezistas do século tornou-se um foragido; a sua presença tem sido assinalada em numerosos países, nomeadamente a Hungria e as Filipinas (para onde se aprestava a regressar quando foi detido). Nos últimos anos, o complexo de perseguição e a alienação moderada de que Fischer há muito vinha dando mostras degeneraram naquilo que muitos classificam como paranóia pura, associada a um anti-americanismo e a um anti-semitismo particularmente virulentos (Fischer declarou-se encantado com os atentados de 11 de Setembro, e isto diz tudo).
A minha apreciação deste caso cabe em poucas frases. Fischer é um caso clínico, e duvido que esteja psicologicamente apto a ser julgado. A insistência dos E.U.A. em deportá-lo e levá-lo a tribunal (por uma violação de embargo ocorrida há 12 anos) não poderá deixar de conduzir a uma situação penosa e descredibilizante para todas as partes. Quanto a julgá-lo pelas suas declarações odiosas, isso cabe, parece-me, mais à opinião pública do que ao poder judicial da pátria da Primeira Emenda.


Segunda, 19 Julho, 2004

NUNCA É DEMAIS DIZÊ-LO: O Diário de Uns Ateus é um blog do melhor que há! E dos mais bem escritos que eu conheço. Parabéns aos seus autores pelo autêntico serviço público que prestam.


FENÓMENOS NATURAIS EM ROHMER: O raio verde, a hora azul, a neve de Clermont-Ferrand, as marés da costa bretã. Os fenómenos naturais assumem a sua descomplexada condição simbólica, sem no entanto perderem a sua essência irredutível, telúrica. Cúmplices ou objectos de desejo, pautam o enredo, modulam a acção, na sua periodicidade recorrente ou na sua singularidade.
Elementos de uma ética de filmar como quaisquer outros...
A lição rosselliniana, apenas subtilmente modulada...
O factual... Uma ancoragem no real...

(Na realidade, o único objectivo disto era distrair-me da possibilidade de ver irromper pela porta a minha amiga J., pronta a negar que estes versos de Pessanha servissem para a descrever:

Porque o melhor, enfim,
É não ouvir nem ver...
Passarem sobre mim
E nada me doer!

Eu argumentaria com as pálpebras, as pálpebras, refúgio fácil que ela levaria a sério.
- O argumento das pálpebras.
- Ou "a querela", se preferires.
- Deixa-me adivinhar. Quando as fecho, é como se visses no fundo da minha alma, não será assim?
- Como se apregoasses a tua vulnerabilidade.
- Portanto, revelo-me quando me escondo.
- Pois então.
- Pois então.)




Domingo, 18 Julho, 2004

LISBOA, SE NÃO EXISTISSES...: Ao contrário do que sugeriam certas fontes supostamente bem informadas, certos testemunhos alegadamente oculares, uma análise à estátua do Doutor Sousa Martins no Campo Santana, neste sábado, revelou total e absoluta ausência de cachecol em torno do firme e hirto pescoço do ilustríssimo génio da Medicina.
(O que se via, isso sim, eram sacas a abarrotar de cera derretida, vestígios acumulados de centenas de ofertas votivas. Quanto mais não seja por isto, o desvio é merecido.)
Pode ter-se dado o caso, claro está, de a garrida peça de vestuário ter sido subtraída à estátua de então para cá. Mas essa seria uma solução demasiado fácil, e Lisboa já nos habituou à necessidade de rejeitar as explicações mais óbvias para os seus mistérios. Pensem no busto do Actor Taborda, pensem em todas as versões apócrifas de historietas de robertos que surgiram nos repertórios dos titereiros ambulantes da cidade...


A ESCOLHA DE UMA GERAÇÃO: Extracto de um inquérito à artista plástica Leonor Antunes, no suplemento "Mil Folhas" de ontem:

«Que livro gostaria de ver traduzido em Portugal?

"Locus Solus", de Raymond Roussel

(...)

Consegue escolher o livro da sua vida?

Há vários livros, associados a momentos e lugares, aqui e agora escolheria "Espèces d'espaces", de Georges Perec.»

Perante escolhas tão assisadas, que fazer a não ser aplaudir com mãos ambas?


O RAIO VERDE: O Raio Verde é um fenómeno óptico de observação extremamente difícil, que consiste na emissão de um feixe luminoso de coloração verde, por parte do sol poente, imediatamente antes de desaparecer no horizonte. O filme de Rohmer "Le Rayon Vert" (1986) segue as deambulações pela França estival de uma personagem interpretada por Marie Rivière, que, guiada por uma superstição, acredita que da observação do raio verde depende a capacidade de encontrar e reconhecer o verdadeiro amor. Este filme, que pertence à série das "Comédias e Provérbios", é um dos mais livres e desestruturados do autor, e um daqueles por onde perpassa um espírito semi-amador, imediato e artesanal, comum também a "Les Rendez-Vous de Paris" e "Quatre Aventures de Reinette et Mirabelle".
Em Março de 1998, por mero acaso, deparei com uma carta ao jornal "Libération" que dizia respeito directamente ao filme em questão. Segue-se a transcrição integral.
«On ne peut pas parler d'effet spécial pour le rayon vert d'Eric Rohmer. J'ai eu à plusieurs reprises l'occasion de lire des choses inexactes sur le rayon vert, et, comme je viens de terminer la lecture de votre article [artigo de Gérard Lefort e Olivier Séguret, numa edição anterior do mesmo jornal], je me permets de vous expédier quelques informations qui éclaireront j'espère votre lanterne (magique).
Je suis le mieux placé pour en parler, étant crédité au générique de ce film sous la poétique rubrique de "coucher de soleil", et, comme cette histoire est aussi jolie que révélatrice, j'ai trouvé utile et agréable de rétablir ainsi la vérité:
Le film était terminé depuis le début de l'été, et Rohmer tournait déjà
Reinette et Mirabelle. Cependant, il restait inachevé, faute de ce plan du rayon vert vers lequel tout le film convergeait.
Aucun stock-shot n'existait, et toute solution de trucage avait été écartée d'emblée par Rohmer, qui semblait ne devoir s'y résoudre que par désespoir. La production avait lancé un, puis plusieurs opérateurs à la recherche de ce phenomène atmosphérique rare. En vain. Malgré l'insistance de la production, Rohmer ne cédait pas.
Je fus contacté sept mois après les premières tentatives, en plein hiver, et proposais les Canaries. Avec un assistant, Florent Montcouquiol, aujourd'hui chef opérateur, nous nous sommes donc installés en planque avec un vieux Caméflex au sommet d'une falaise et avons filmé un rayon vert le soir même de notre arrivée. Rohmer, incrédule, insista pour que nous restions jusqu'à l'obtention d'une seconde prise. (Ce qui nous fit dix jours de vacances radieuses). La meilleure des deux prises cependant était peu satisfaisante: le rayon était présent sur une vingtaine d'images seulement. Nous eûmes donc recours à un passage en Truca pour le prolonger par un ralenti et à un étallonage plus sombre et plus vert pour en augmenter l'intensité.
On ne peut pourtant pas parler d'effet spécial, car il n'y a pas eu introduction d'élément hétérogène à l'image de départ. L'effet d'étrangeté de ce plan est dû à ce ralenti et à cette différence de tonalité d'image.
Pourquoi cette insistance de Rohmer sur la capture d'un vrai rayon? Pour des raisons de cohérence esthétiques, certes, mais aussi pour apporter sa propre pièce à un débat ouvert par
le Rayon Vert (le livre de Jules Verne, dont le livre s'inspire librement): le rayon vert, effet réel de réfraction ou illusion d'optique due à la persistance rétinienne?
Parce que ce débat est au centre aussi de la problématique rohmérienne, qui est un perpétuel questionnement sur les sentiments et leurs apparences, sur l'objectif et le subjectif; et parce qu'il est métaphorique de celui de l'heroïne sur l'amour: illusion du cœur ou vérité éternelle?
Enfin, on a dit également que Rohmer s'était arrangé pour que ce rayon soit visible sur l'écran et invisible à la télévision, je ne peux infirmer ou confirmer cette rumeur, mais je peux préciser que la commande était très précise concernant la taille du soleil dans le cadre et qu'on ne peut donc exclure la préméditation d'une telle facétie.»
(Philippe Demard, chef monteur)


OOOOUUUUUIIIIII!!!!!!: Luís Filipe Pereira reconduzido no Ministério da Saúde. Senhor ministro, toca a aplicar as medidas restritivas ao consumo de tabaco nos espaços públicos, a que aludiu mais do que uma vez num passado muito recente. O Senhor Presidente da República exigiu continuidade nas políticas! Continuidade!


Sexta, 16 Julho, 2004

AS MUITAS PALAVRAS NOS FILMES DE ROHMER, SEGUNDA ABORDAGEM: Para quê filmar uma história em vez de a escrever? Cada fotograma de cada filme de Rohmer oferece uma resposta a esta pergunta que ele próprio formulou. A sublime gestão do espaço nunca entra em conflito com os diálogos; tão pouco deles se independentiza. Como um só organismo, a palavra e o elemento visual ocupam o tempo, desenrolam-se sem revelar, acolhem os seus próprios momentos de tensão e desenlaces. As personagens rohmerianas não são necessariamente escravas do léxico e da sintaxe: a desarmonia com o mundo dos objectos e com o espaço físico é sentida com angústia (pense-se em Pascale Ogier em "Les Nuits de la Pleine Lune", ou em Anne Teyssèdre em "Conte de Printemps", ambas aspirando por um quarto onde permanecer). Dadas à efabulação, buscam instintivamente um acordo entre as suas paisagens verbais e a realidade factual e geográfica. Todo o cinema de Rohmer é atravessado pelo estremecimento de uma esperança inomeável: a esperança de que o Mundo se possa adequar à gramática, ao silogismo e às palavras dos sonhos.
Apenas um exemplo, entre muitos que poderiam ser avançados: em "Conte de'Été", repare-se como as cenas de ruptura ocorrem preferencialmente na praia, com uma maré baixa que se presta a longas correrias entrecortadas por recriminações, ou pela eventual reconciliação. Em contrapartida, os extensos diálogos entre Melvil Poupaud e Amanda Langlet sucedem durante demoradas caminhadas por carreiros e percursos lineares. É o Mundo que condiciona a possibilidade do discurso? Ou serão as criaturas dotadas de palavra que procuram a empatia entre o que há para dizer e o acidente geográfico, o nicho, o bocado de paisagem?
A unidade, se alguma vez existiu, terá existido num longínquo ponto de fuga, pelo qual Rohmer não se interessa. Mas a nostalgia por esse Éden inverosímil, essa, infiltra-se e motiva, permanece como uma convicção, por todos partilhada mas irrelevante.


FAMOSAS ÚLTIMAS PALAVRAS (1):

«'I am sure I don't know,' said Mrs Costello. 'How did your injustice affect her?'
'She sent me a message before her death which I didn't understand at the time. But I have understood it since. She would have appreciated one's esteem.'
'Is that a modest way,' asked Mrs Costello, 'of saying that she would have reciprocated one's affection?"
Winterbourne offered no answer to this question; but he presently said, 'You were right in that remark that you made last summer. I was booked to make a mistake. I have lived too long in foreign parts.'
Nevertheless, he went back to live at Geneva, whence there continue to come the most extraordinary accounts of his motives of sojourn: a report that he is 'studying' hard - an intimation that he is much interested in a very clever foreign lady.»
(Henry James, "Daisy Miller")




PIN IT AND WIN IT: No blog My Moleskine há posts sobre xadrez, o que é de saudar. A propósito, José Raul Capablanca é um dos meus heróis e ídolos. Quanto a Kasparov, não é nem herói nem ídolo, e por aqui me fico.
Já agora, o termo "pinning" traduz-se normalmente em português por "pregagem", o que é falho de elegância mas pleno de um lirismo rude a que não sou insensível.


Quinta, 15 Julho, 2004

JÁ SÓ FALTAM 364 DIAS PARA O PRÓXIMO 14 DE JULHO:

Já tem uma Marianne no parapeito da sua janela?





VALOR LÓGICO SUSPEITO: Há tempos, não me recordo onde nem a que propósito, li uma pequena lista composta por algumas das frases que, quando formuladas na vida de todos os dias, mais hipóteses têm de ser falsas. Por exemplo:
  • "Isto vai custar-me mais a mim do que a ti"
  • "O seu cheque já está no correio"
  • "Eu sou das Finanças e estou aqui para o ajudar"
A estas, eu permitia-me juntar mais uma, que tem a vantagem de ser sazonal: "O COMEÇO DO ANO LECTIVO NÃO ESTÁ EM CAUSA".


Quarta, 14 Julho, 2004 (Tomada da Bastilha)

PROXIMIDADE INAUDITA: João Barrento perdeu a oportunidade de traduzir "Unerhörte Nähe" por "proximidade inaudita", na antologia de poemas de Ulla Hahn "A Sede Entre os Limites" (Relógio d'Água, 1992). Em detrimento desta possível solução, que ele menciona no prefácio, preferiu o perifrástico "Tão longe que custa a crer".


NÍVEL ZERO: Desenganem-se aqueles que pensam que Portugal tocaria no fundo com Santana Lopes a Primeiro-Ministro e Pinto Balsemão como Presidente da República. Isto seria mera poesia, comparado com a hipótese de termos Alberto João Jardim a presidente da Assembleia, Avelino Ferreira Torres como Procurador-Geral e Manuela Moura Guedes como porta-voz do governo.
A imaginação é um dom demasiadas vezes votado ao menosprezo. Exercitemo-lo com afinco repetido, e sem moderação.


À FRENTE DAS CÂMARAS COMO ATRÁS DELAS: No próximo sábado, na Cinemateca, às 19h00, "Brigitte et Brigitte" (1966), de Luc Moullet. Não conheço este filme, mas destaco-o por se tratar de uma das raríssimas aparições de Éric Rohmer como actor. (Repete dia 21, às 22h00.)


NO 14 DE JULHO, PONHA UMA BANDEIRA À SUA JANELA:



O Terceiro Estado
A Assembleia Constituinte
O Juramento do Jeu de Paume
A Recusa de Mirabeau
Abolição dos direitos feudais e senhoriais
Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão
Liberdade, Igualdade, Fraternidade
Constituição
República

Mais do que meros eventos históricos, todo um vocabulário de ideias e de instrumentos para os séculos ulteriores.




Segunda, 12 Julho, 2004

DO NATURAL EM ROHMER: Uma das facetas menores (mas significativa e fascinante, a meu ver) deste cineasta reputado ora de "artificial" ora de "naturalista", é precisamente a atenção que atribui à realidade factual, extraficcional, alheia às manipulações e requisitos da narrativa. Fenómenos naturais são elevados à categoria de símbolos, sem que isso implique abdicar da sua condição de "objectos do real", mensuráveis, concretos, incursões da esfera elementar no tecido da narrativa. Pensemos no "raio verde", fenómeno óptico bem conhecido e descrito, e que orienta a obsessão da personagem de Marie Rivière no filme com o mesmo nome; recordemos a "heure bleue", esse minuto de silêncio absoluto entre a noite e a alvorada, que a provinciana Reinette insiste em fazer ouvir à parisiense Mirabelle em "Quatre Aventures de Reinette et Mirabelle".
É também cada vez com maior frequência que Rohmer dá largas à sua faceta etno-geográfica, permitindo-se derivas documentaristas no limite do desconcertante: graças a "Conte d'Été", ficamos a saber os nomes das ilhotas ao largo de Saint-Malo (Grand Bé, Petit Bé e Cézembre), e temos direito a escutar uma canção de escárnio da boca de um velho pescador; em "Conte d'Hiver", é sobre a cidade de Nevers que ficamos a saber mais do que alguma vez ousaríamos perguntar; sem esquecer as considerações sobre flora e viticultura em "Conte d'Automne", ou as cenas da vida na quinta em "Quatre Aventures...". Se é certo que esta tendência ganhou força na segunda metade da carreira de Rohmer, as palavras de abertura da versão escrita de "La Boulangère de Monceau" sugerem-nos que o gosto pela precisão factual vem de longe: «Paris, le carrefour Villiers. A l'est, le boulevard des Batignolles avec, en fond, la masse du Sacré-Cœur de Montmartre.».
Quando, num dos seus filmes mais livres (ainda "Quatre Aventures de Reinette et Mirabelle"), Rohmer dedica uma sequência relativamente longa ao acto de remendar um pneu de bicicleta, encontramo-nos num território de fronteiras fluidas, entre o naturalismo, a irrelevância e a pedagogia; um território onde sopra a brisa da "Nouvelle Vague", tão fresca e insolente como no dia em que Jean Seberg apregoou "NEW YORK HERALD TRIBUNE!" em plenos Campos Elíseos.


OOPS! I DID IT AGAIN: A semana rohmeriana, que afinal ia durar duas semanas, transborda para a terceira semana. Estão-me a seguir? Tudo a bem da nação. É de uma injecção de cinefilia que este país precisa. Disso, e da reforma na Justiça.


VALORES SEGUROS: O recato, a abnegação, a renúncia, a contenção, a passividade, a discrição, a lucidez, a obstinação, o recolhimento, a introversão, a elipse, a reserva.


NOCTURNE INDIEN: O Nocturno 76 tem um novo endereço. Entre outras coisas, oferece aos seus leitores um imperdível texto sobre Greenaway. Bloggers de Portugal, actualizai os vossos enlaces!


LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: No metropolitano, uma senhora lia "Les Trois Mousquetaires". Versão original. O semblante era compenetrado. Cinco pontos de bónus. Para que conste.


A FAMÍLIA SCHROFFENSTEIN: «Tudo pode ser virado do avesso.», diz-se, a dada altura, na peça de Kleist, em cena no Teatro da Cornucópia até ao próximo dia 1.


Sexta, 9 Julho, 2004



ENGANAR COM A VERDADE: "Triple Agent", de Éric Rohmer. Desconcertante Rohmer... Tal como outros realizadores admoestados por "fazer sempre o mesmo filme" (Kiarostami é o exemplo natural), encontra sempre maneira de acrescentar um nível de refinamento suplementar, uma nova e invisível volta de manivela, um filtro só na aparência diáfano. Este filme espantoso surge-nos como um repositório de todas as ideias fortes da sua obra, esplendorosas de possibilidades ainda por explorar, recortadas com uma nitidez aguda e austera, declinadas com a serenidade adocicada das coisas domésticas. A personagem principal, Fiodor Voronin (assombroso, riquíssimo desempenho de Serge Renko, actor que eu desconhecia de todo), russo branco refugiado na Paris da Frente Popular, não esconde que o seu ofício é a "informação". Mas para quem espia ele? Toda a subtil dinâmica do filme consiste em esvaziar de sentido esta questão. Rohmer agita o chamariz do enigma, para em seguida encenar o seu colapso, sob o peso das contradições. Fiodor comporta-se como alguém que domina a situação. «Vous êtes bien renseigné...», dizem-lhe. Bem comportada personagem rohmeriana, ergue catedrais de verbo e argumento que se substituem à acção. Julga-se hábil e poderoso por dominar o discurso, ocupa os planos como se isso fosse garante de algo. Porém, tal como noutras obras de Rohmer (mas nunca de maneira tão deliberada e brusca como aqui), os verdadeiros motores da narrativa encontram-se fora de campo. "Dar a ver" nunca equivale, em Rohmer, a oferecer soluções. Tal como as construções teóricas do narrador de "Ma Nuit Chez Maud", tal como as suspeitas de Natacha em "Conte de Printemps", as convicções de Fiodor são perigosamente voláteis. Pouco importa se ele mente ou diz a verdade à esposa, pouco importa quem é o seu mestre. Bolcheviques, nazis ou russos brancos, todos acabarão por se aproximar, nos bastidores ou no primeiro plano da História, à força de reconciliações ou pactos de não agressão. As rivalidades e antagonismos que sustentavam o filme (e a própria legitimidade de Fiodor e Arsinoé como personagens) dissipam-se. Pequena e grande História colidem, sem rumor, e o triplo agente é literalmente tragado pelas trevas, pelo vazio do esquecimento. Até aqui, as personagens de Rohmer tinham tendência a sobreviver aos abalos e desmoronamentos.


Quinta, 8 Julho, 2004

PERSPECTIVA CINÉFILA DA CRISE: Das profundezas da crise em que o país se encontra imerso, não é despropositado recordar que "Crise" é também o nome da primeira longa-metragem realizada por Ingmar Bergman, em 1945.


TEMPOS DE CRISE: Nenhum cidadão de corpo inteiro poderá deixar de se interrogar sobre as razões que levaram Jorge Sampaio a não consultar nem a Ágata nem "Dom" Duarte de Bragança. Eis a música pimba e a monarquia rebaixadas ao mesmo nível de insignificância institucional.


Quarta, 7 Julho, 2004

«Racontée par quelqu'un d'autre, l'histoire eût été différente, ou n'eût pas été du tout. Mes héros, un peu comme Don Quichotte, se prennent pour des personnages de roman, mais peut-être n'y a-t-il pas de roman.» (Éric Rohmer, prefácio aos "Contes Moraux".)




VERSOS PORQUE SIM:

That day when I woke
a great private blade
was planted in me from bowels to brain.
I lay there alive round it. When I moved
it moved with me, and there was no hurt.
I knew it was not going to go away.
I got up carefully, transfixed.

From that day forth I knew
what it was to taste reality
and not to; to suffer tedium or pain
and not to; to eat, swallowing with pleasure,
and not to; to yield and fail,
to note this or that withering in me,
and not to; to anticipate
the Breath, the Bite, with cowering arms.
(...)


(Thomas Kinsella, in "A Technical Supplement", 1976)




NOTÍCIAS DAS 64 CASAS: Tenho desleixado as temáticas xadrezísticas. Enquanto me demoro em considerações ociosas sobre Rohmer e o pudim do Abade de Priscos, o mundo das 64 casas mantém-se em estado de efervescência, com toques de burlesco e tiradas de grand guignol à mistura. Recentemente, a búlgara Antoaneta Stefanova sagrou-se campeã do mundo feminina, e o meu ídolo Vassily Ivanchuk conquistou o título de campeão europeu, bastante desvalorizado, há que reconhecê-lo, pelas numerosas ausências.
Neste momento, decorre em Tripoli (of all places...) a final do campeonato do mundo da federação internacional (FIDE), num match à maior de 6 partidas entre o uzbeque Rustam Kasimdzhanov e o inglês Michael Adams. Das duas partidas já realizadas, contabiliza-se um empate e uma vitória para Kasimdzhanov. Comentários diários podem ser lidos na Chessbase; transmissões em directo, por exemplo, no site da Europe Echecs.
O título oficioso, esse, disputar-se-á depois do verão, na Suíça, entre Kramnik (Rússia) e Lékó (Hungria). O processo de reunificação do título mundial de xadrez tem-se arrastado como um folhetim, sumarento e fértil em intrigas palacianas, a que nenhum resumo poderia fazer jus. Talvez um dia me visite a coragem de escrever uns parágrafos sobre o assunto.


Terça, 6 Julho, 2004

PALAVRAS PARA QUÊ, É UMA ACTRIZ ROHMERIANA: Em "Triple Agent" (falarei em breve deste filme), foi com um prazer muito particular que revi Amanda Langlet, que já marcara presença em dois outros filmes de Rohmer: "Pauline à la Plage" (1982) e "Conte d'Été" (1996). Este tipo de cumplicidade prolongada ao longo dos anos não é inédita, para este cineasta: relembre-se, em particular, Béatrice Romand, que foi adolescente com uma paixoneta por Jean-Claude Brialy em "Le Genou de Claire" (1970), candidata infeliz a nubente em "Le Beau Mariage" (1982), e viticultora quarentona em "Conte d'Automne" (1998). Todas as actrizes favoritas de Rohmer (o outro nome incontornável é o de Marie Rivière) têm em comum o instinto, a ausência de afectação, a constância, a maleabilidade, e, extremamente importante, a excelência da dicção (haverá autor de cinema que mais respeite a língua francesa do que Rohmer?).
Numa entrevista (a Jean Douchet, se não erro), Rohmer manifestou certa vez admiração pelo facto de Amanda Langlet ter, espontaneamente, adoptado a pose do quadro "La Blouse Roumaine", de Matisse, que é explicitamente citado no filme em questão ("Pauline à la Plage").






SAI UM FILME DE ROHMER, UM!: "Ma Nuit Chez Maud" (Contes Moraux III), 1969. Consagrado quase unanimemente pela crítica como o maior filme de Rohmer (o único rival será "Le Genou de Claire"), é também aquele que reúne um conjunto de actores de maior nomeada: Jean-Louis Trintignant, Françoise Fabian, Marie-Christine Barrault, e ainda Antoine Vitez (essencialmente conhecido em França pela sua brilhante carreira teatral). Última obra a preto e branco de Rohmer, é ainda notável pela curiosidade de ter sido rodado depois do número IV da mesma série ("La Collectionneuse", 1966). O protagonista e narrador começa por anunciar que «(...) il n'y a pas d'histoire, mais une série, un choix d'événements très quelconques, de hasards, de coïncidences, comme il en arrive toujours plus ou moins dans la vie(...)». Mas já se sabe que as coincidências, em Rohmer, nada têm de banal. Nunca, como neste filme, Rohmer terá explorado de maneira tão ostensiva a complexa zona de intersecção entre o acaso, o livre arbítrio e algo que é legítimo hesitar em chamar "providência" ou "destino". "Ma Nuit Chez Maud" desenrola-se sob o signo da aposta pascaliana: o narrador escolhe a felicidade absoluta, na pessoa da sua "loura desconhecida", ciente de que essa escolha é a única correcta, porque o ganho infinito colmata a reduzida probabilidade. O namoro com uma mundividência jansenista que tendemos a associar a alguém como Bresson deve ser relativizado, contudo: quaisquer manifestações de "Graça" são, aqui, enquadradas numa moldura de subtil ironia e cepticismo mundano. O narrador anónimo acabará por se casar com aquela que prometera a si mesmo, depois de "sobreviver" à tentação (carnal e intelectual) personificada por Maud, a sofisticada, divorciada, livre pensadora Maud. Um reencontro fortuito, anos mais tarde, trar-lhe-á a súbita certeza de que a loura Françoise e a morena Maud já se haviam cruzado antes de ele as conhecer, e em traumatizantes circunstâncias de traição conjugal. «(...)tout à coup, je compris que la confusion de Françoise ne venait pas de ce qu'elle apprenait de moi, mais de ce qu'elle devinait que j'apprenais d'elle, et que je découvrais, en fait, en ce moment - et seulement en ce moment...» Talvez não exista história... Ou talvez a história que existe não fosse a que o narrador pensava, talvez ela exista algures, fora de campo, perturbando (mas tão ao de leve...) o seu presente de homem casado e realizado.

Marie-Christine Barrault e Jean-Louis Trintignant em Ma Nuit Chez Maud


Nas paisagens nevadas de Clermont-Ferrand (soberba fotografia de Nestor Almendros), na cama (estranhamente larga) de Maud, na residência de estudantes onde os futuros esposos partilham o chá, é sempre da felicidade que se trata, e de quantas partes de luta e de fortuna são necessárias para a conquistar.


Segunda, 5 Julho, 2004

OS SETE CASTELOS: Ser devorado por cães durante o cerco de Tróia era destino cruel, mas comodamente dentro da ordem natural das coisas. Ser devorado por cães na Lisboa de hoje, tão limpa e cheirosa que apetece gargarejar, acrescenta à dor da dilaceração um vago aspecto de escândalo e inconveniência. Não temos vocação para cornucópia da abundância nem para olímpica chuva dourada; a nossa maneira de ser é o espinho na carne. O verde e o rubro são dois pontos, que se mascaram de alma por detrás das camadas de plasma e encardido, e que se insultam nas horas vagas. É só isto que temos para dizer. Tudo o resto são as bolas de sabão do costume.


SEGUNDA TERÇA QUARTA QUINTA SEXTA SÁBADO, DOMINGO...: Afinal, a semana temática do 1bsk dedicada a Rohmer vai durar duas semanas. Os responsáveis são os do costume: os meus rivais columbófilos, a Yoko Ono, as forças ocultas que dominam Lisboa e o diâmetro craniano do Doutor Sousa Martins. Há demasiadas coisas para escrever sobre Rohmer, e pouco tempo para as escrever. Aprendamos a aceitar esta verdade da vida. Para quê dourar a pílula?


TÍTULO IGUAL AO DO POST ANTERIOR: O blog "Digitalis" define-se nos seguintes termos: «Digitalis consiste num caderno estruturado em torno de três blocos de apontamentos:1. Apontamentos criativos/esboços literários. 2. Reflexões sobre filosofia e estética. 3. Estudos de história e filosofia da neurologia, psiquiatria e questões de género.» Junte-se a isto frequentes apontamentos sobre gastronomia, e moderada profusão de anotações pessoais, e o todo resulta surpreendente na sua heterogeneidade controlada. E mais não digo, pois estender-me em considerações sobre este blog parece-me bem menos útil e apropriado do que convidar-vos a fazer o gosto ao dedo.


FORTEMENTE RECOMENDADO: O blog "Diário de Uns Ateus" é um blog de causas: as causas do ateísmo, da laicidade, e do combate à superstição, ao obscurantismo, ao fanatismo com o rabo de fora, e às promiscuidades entre Igreja e Estado. Sucede que estas causas são também as minhas, mais cambiante menos cambiante. Sucede que este diário está muitíssimo bem escrito. Sucede que a actividade bloguística dos seus autores é tão certeira como assídua. Sucede que já não dispenso visitas regulares a este blog. Fica a recomendação.


VERSOS PORQUE...:

Flores do rochedo diante do mar verde
com veias que me lembravam outros amores
ao brilharem na lenta queda de gotas,
flores do rochedo semblantes
que vieram quando ninguém falava e me falaram
que me deixaram tocá-los depois do silêncio
entre pinheiros loendros e plátanos.


(Yorgos Seferis, in "Poemas Escolhidos", Relógio d'Água editores. Tradução de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratisinis.)




Domingo, 4 Julho, 2004

ANÚNCIOS D'OUTRORA (9):

(Este passava na rádio. Uma vez não são vezes.)

- Menina, que pólos conhece?
- Conheço o pólo norte, o pólo sul e o Polylon.
- Poly... Lon?
- Ai, que o senhor professor não sabe! Polylon são os fechos de correr que a mamã usa. A mamã e as outras senhoras...




Sábado, 3 Julho, 2004

THE WORLD WON'T LISTEN:

«Uma poesia minha, recente, publicada numa folha bem impressa, limpa, comemorativa de Camões, não obteve um olhar, um sorriso, um desdém, uma observação. Ninguém escreveu, ninguém falou, nem num noticiário, nem numa conversa comigo; ninguém disse bem, ninguém disse mal!» (Cesário Verde, a propósito do seu "O Sentimento dum Ocidental".)




O PARAÍSO ESTÁ ROLHADO:

«(...) e hoje acontece, numa poesia como a tua, o regresso pervrso de uma ingenuidade (formal e emocional), para dizer, lúdica e ironicamente, ecoando o célebre ensaio de Kleist sobre as marionetas, que "o paraíso está rolhado...!"» (Entrevista de João Barrento a Ulla Hahn, introdução ao livro "A Sede Entre os Limites", Relógio d'Água editores. Itálico meu, só meu, deliberadamente meu, devotamente meu.)




Sexta, 2 Julho, 2004

INVENTÁRIO NÃO EXAUSTIVO DE ENIGMAS, CONLUIOS E DUPLICIDADES NOS FILMES DE ROHMER: O paradeiro do homem que herdou ("Le Signe du Lion"), o desaparecimento inexplicável de Sylvie ("La Boulangère de Monceau"), os passados da mulher loura e da mulher morena ("Ma Nuit Chez Maud"), a verdadeira natureza da jovem Haydée ("La Collectionneuse"), o mistério do castelo do Graal ("Perceval le Gallois"), a identidade do progenitor do filho da marquesa ("La Marquise d'O..."), a vida dupla do aviador ("La Femme de l'Aviateur"), possível traição conjugal de Rémi ("Les Nuits de la Pleine Lune"), hipotéticos cenários de infidelidade em plenas férias de verão ("Pauline à la Plage"), mistério e capricho meteorológico ("Le Rayon Vert"), o caso do colar ("Conte de Printemps"), o que aconteceu ao amante de Félicie? ("Conte d'Hiver"), conspirações alcoviteiras cruzadas ("Conte d'Automne"), triplicidade em tempos de pré-guerra ("Triple Agent").


SEGREDOS E MISTÉRIOS EM ROHMER: Éric Rohmer é frequentemente aparentado a baluartes do classicismo francês como Marivaux, mas uma outra filiação possível (e reivindicada pelo próprio), se bem que menos óbvia, é a de Balzac: o Balzac do romanesco quotidiano, o Balzac etnólogo na sua própria terra, o Balzac pedagógico da "Physiologie du Mariage", mas sobretudo o Balzac folhetinesco, o autor de narrativas articuladas em torno de um segredo ou de um enigma, mais ou menos embaraçoso. (Numa das suas raras aparições como actor, Rohmer assume o papel de um especialista balzaciano. Nesse filme de Rivette, "Out 1", ele contracena com Jean-Pierre Léaud, protagonizando um desopilante "diálogo" sobre a "Histoire des Treize", dificultado pelo facto de Léaud se fingir surdo-mudo.) Também na maioria dos filmes de Rohmer o segredo assume tranquilamente a posição fulcral. Os cenários de conspiração que as personagens urdem com ansiedade, as paisagens mentais que eles atribuem a terceiros, são os verdadeiros motores da narrativa. Existe sempre algo de oculto: uma verdade, um corpo, um movimento. Os hors-champ rohmerianos são singularmente ricos, os subentendidos tensos de significado; os ilhéus de opacidade são tanto mais intrigantes quanto a claridade cartesiana parece reinar.
A maioria dos filmes de Rohmer "resume-se" (mas a tentação da sinopse pode ser o caminho mais curto para os trair) ao processo de elucidação do enigma, do propósito escondido, da constelação de segundas intenções. Esse movimento de desconstrução representa um risco: o de aniquilar a própria base de sustentação do filme. É possível que a presença do retrato de Wittgenstein em "Conte de Printemps" seja fortuita; e porém, é impossível não pensar numa das sentenças-chave do "Tractatus", aquela que diz que a solução do problema se manifesta pelo desaparecimento do próprio problema. Com a solução do enigma, é a razão de ser do filme que vacila. A angústia latente na frase do narrador de "Ma Nuit Chez Maud" («D'ailleurs il n'y a pas d'histoire») ecoa por toda a obra rohmeriana. Contador de histórias por excelência, Rohmer é também um impiedoso cronista da fragilidade da própria ficção. É possível que não exista história. É possível que o destino das personagens rohmerianas seja descobrir isto mesmo, depois de um momento de inconfessável ilusão. (Lembremo-nos das lágrimas de Anne Teyssèdre em "Conte de Printemps"; lembremo-nos do olhar derradeiro e melancólico de Marie Rivière, que quase nos envergonhamos de surpreender em "Conte d'Automne".) Mas, que drôle de chemin é o deles até chegarem à constatação final...


A TRADIÇÃO DA DOÇARIA PORTUGUESA: Uma ouvinte da RPL escreveu para o Prof. Alfredo Saramago, perguntando onde, em Lisboa, é possível saborear um bom pudim do Abade de Priscos. Creio poder contribuir para este debate. As melhores receitas são as que se transmitem de geração em geração, propagadas pelo esforço, atrasadas ou truncadas pelas renitências e pelo ciúme, protegidas por uma armadura de segredo raramente penetrada. O melhor pudim do Abade de Priscos não se confecciona: existe em latência, sob a forma de preceitos apenas conhecidos de um punhado de homens bravos e resolutos, como os treze de Balzac. A sede desse conhecimento é conhecida: uma vivenda na zona do Restelo. Uma conhecida minha, chamemos-lhe J., visitou-a em circunstâncias extraordinárias. A receita do melhor pudim do Abade de Priscos é simultaneamente a genuína e a mais de acordo com a época presente. Envolve noz moscada, um dedal de anis, moderação nos movimentos de bater as gemas ("o pudim sabe mais do que a mão que persiste em trabalhá-lo"), a adição dos paus de canela retardada até ao último momento. Entre um segredo e um insulto negligente, a fronteira é das mais ténues. J. admirou-se com a profusão de viaturas de elevado luxo, com a eminência de algumas das figuras que cruzou. Organizou-se uma sessão espírita. Havia quem acreditasse, havia quem fingisse. Madrugada adentro, serviram a J., num prato de delicada majólica, uma porção informe, amarelada, excessivamente doce, alvoroçante para o paladar. Ninguém lhe prestou atenção, enquanto comia. Sobre um fundo de negligente franqueza, a evidência compacta do segredo alheio dói muito mais. J. enxugou dos lábios a calda reluzente.


ESTABILIDADE POLÍTICA: Temo que a actual crise governativa leve ao adiamento das medidas antitabagísticas prometidas pelo ministro da Saúde (cessante?). Doutor Santana Lopes, o país precisa de estabilidade e de continuidade! Reconduza o ministro Luís Filipe Pereira! Mostre a sua fibra de estadista!


MES NUITS CHEZ JOÃO BÉNARD SONT PLUS BELLES QUE VOS JOURS: As propostas da Cinemateca para este mês de Julho são deveras aliciantes. Ora vejamos: ciclo John Cassavetes, um dos maiores autores de sempre do cinema americano, ao longo de todo o mês; ciclo "Humor Absurdo", com "Duck Soup" (o meu filme preferido dos irmãos Marx, juntamente com "A Night At the Opera"), "Zelig" de Woody Allen, e "Monty Python's The Life of Brian" (um dos maiores filmes cómicos desde "O Jardineiro Regado"), sem esquecer, dia 22, "Zazie Dans le Métro"; ciclo Luc Moullet (a partir de dia 9); e, no ciclo "Noites Brancas", preciosidades como "Lost In Translation", "Lost Highway", "Rear Window", e "Vampyr". Como dizia o outro, só eu sei porque não fico em casa.
Já quanto às "Noites na Esplanada", o cepticismo substitui a euforia cinéfila. Uma sessão de cinema, para além de permitir ver umas coisas com piada a mexer na tela, possui essa vantagem inestimável de oferecer um ambiente livre de baforadas tabagísticas. Esta prerrogativa perde-se a partir do momento em que se comete o erro de passar para o ar livre. Desejo boas projecções e condições meteorológicas impecáveis a tutti quanti; quanto a mim, continuarei a apostar na alternativa insalubre da sala escura e bafienta.