Heinrich von Kleist (1777-1811)Liberté Egalité FraternitéNo tabuleiro de xadrez, as mentiras e a hipocrisia não duram muito (Em. Lasker)Monty Python forever!

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junho 2003

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Domingo, 29 Junho, 2003

A FEW VERMEERS IN NEW YORK: Num daqueles que eu considero ser, sem vestígio de exagero, um dos filmes da minha vida ("All the Vermeers in New York"), todos os quadros de Jan Vermeer de Delft existentes em museus de NY são enumerados, e a sua influência exerce-se de maneira poderosa sobre os dois protagonistas.
A falta de tempo (sem esquecer a cabala que continua a ser urdida contra mim, caso se tenham esquecido) impediu-me de os ver todos, tendo-me ficado pela modesta (apenas na dimensão) galeria Frick, onde se encontram "Officer and Laughing Girl", "Girl Interrupted at Her Music" e o fabuloso "Mistress and Maid".
Para além destes e de outras preciosidades, a Frick conta ainda com alguns Whistlers soberbos e um número considerável de obras de Van Dyck, que me fizeram nascer a vontade de rever a opinião pouco favorável que dele guardo.
Na sua novela "City of Glass" (ainda a sua obra-prima absoluta, na minha opinião), Paul Auster refere-se explicitamente à Frick e a Vermeer, embora atribuindo ao quadro um título em inglês diferente:

«An hour later, as he climbed from the number 4 bus at 70th Street and Fifth Avenue, he still had not answered the question. To one side of him was the park, green in the morning sun , with sharp, fleeting shadows; to the other side was the Frick, white and austere, as if abandoned to the dead. He thought for a moment of Vermeer's Soldier and Young Girl Smiling, trying to remember the expression on the girl's face, the exact position of her hands around the cup, the red back of the faceless man.»
Paul Auster, "City of Glass" ("The New York Trilogy"), capítulo 2, terceiro parágrafo.

A posição das mãos da rapariga, ei-la:



(Clicar sobre a imagem para ver o quadro completo. Com o botão esquerdo, por favor, como mandam as regras.)


Sábado, 28 Junho, 2003

SEMPRE QUE me acontece ler a palavra "estórias" escrita assim, sem h e com e, sinto vontade de embarcar no primeiro avião para a Sibéria profunda, construir com as minhas próprias mãos uma cabana de madeira, e passar a viver uma vida contemplativa, sustentando-me apenas de líquenes, bagas e água de gelo derretido.
(Expressões como «o filme tal é um autêntico hino à vida» suscitam reacções do mesmo género.)


Quinta, 26 Junho, 2003

MAIS DOIS VERSOS DE DELMORE SCHWARTZ, MAS DIFERENTES DOS DE HÁ BOCADO:

And left me no recourse, far from home,
And left me no recourse, far from home.




O QUE ESTÁ MAL NA PROPOSTA DO MINISTRO MORAIS SARMENTO PARA A RESTRUTURAÇÃO DO SEGUNDO CANAL?: Muita coisa.
O ponto mais contestável é sem dúvida esse tão apregoado propósito de entregar (leia-se "despachar", à laia de rafeiro que esgotou o seu crédito de ternura) a RTP2 à "sociedade civil", entidade abstracta e vaporosa cuja verdadeira natureza permanece por esclarecer. Os exemplos que já vieram a lume não são de molde a aliviar as inquietações a esse propósito. As condições parecem reunidas para que o segundo canal da televisão pública se transforme num viveiro de comunitarismos e particularismos, que consagre a ideia de Portugal como uma fragmentada soma de partes, em vez de promover uma política integradora. Existem muitas maneiras de servir as "minorias". Uma delas aspira a um nivelamento assimptótico por cima, e a ela subjaz a ideia de que a cultura, as artes, a informação séria, a ficção de qualidade devem estar ao alcance de todos. É com esta perspectiva que concordamos. Outra maneira consiste em elencar as minorias, seleccionar umas quantas com base em critérios mais ou menos discutíveis, e apaparicá-las com palmadinhas dorsais e meia hora semanal de tempo de antena. Esta perspectiva implica a aceitação tácita de um panorama audiovisual crivado de constelações de grupos, famílias, credos, comunidades, seitas, corporações, guildas e o diabo a quatro. Se é isto a "sociedade civil", deixem-me pegar num papo-seco ou dois, numa bilha de água, trepar para uma coluna e fazer-me anacoreta.
Outro aspecto francamente sinistro é a indefinição que persiste quanto à manutenção do controlo público do segundo canal. Alguém duvida de que, se a intenção do governo fosse claramente a de não alienar a RTP2, teriam sabido exprimi-lo sem lugar para ambiguidades?



DOIS VERSOS DE DELMORE SCHWARTZ:

A dog named Ego, the snowflakes as kisses
Fluttered, ran, came with me in December




DO VIL METAL E DE NOBRES PARÁGRAFOS: Aqui estão alguns dos livros que adquiri em NY. (Não quero deixar de agradecer aos senhores Greenspan e Duisenberg e a todos os especuladores anónimos cujas manigâncias levaram o dólar a mínimos históricos face ao euro, o que me permitiu fazer despesa bibliófila com menos problemas de consciência.)
  • "Further Fridays - Essays, Lectures, and Other Nonfiction 1984-1994", de John Barth. Barth tem sido um dos mais importantes representantes do chamado "pós-modernismo" da ficção norte-americana (que integra ainda Donald Barthelme, Kurt Vonnegut e Robert Coover, entre outros), e provavelmente o seu mais prolífico e incisivo teorizador. Por $3.95, é uma pechincha de ficar nos anais.
  • "A Private Life of Henry James". À primeira vista, não me parece uma biografia excessivamente profunda. A ver vamos.
  • "Zurich International Chess Tournament 1953", de David Bronstein. Um dos livros de xadrez mais celebrados de todos os tempos.
  • "The Postmoderns: The New American Poetry Revised". Ferlinghetti, Koch, Ginsberg, O'Hara, Ashbery e outros, que aproveitarei para ficar a conhecer. Para quem acredita, como eu, que a melhor e mais original poesia escrita em inglês nas últimas décadas tem surgido com muito maior abundância do lado de lá do que do lado de cá do Atlântico, este volume assume estatuto de indispensável.
  • "Complete Poems", de Marianne Moore. Alguma vez havia de ser.
  • "The Complete Poems", de Walt Whitman. Idem aspas.
  • "Selected Poems - Summer Knowledge", de Delmore Schwartz. De acordo com o princípio das afinidades transitivas, se eu admiro profundamente John Berryman, e se este admirava profundamente Schwartz, segue-se que este último não me deve ser indiferente. A primeira abordagem é mais que prometedora.
  • "Heinrich von Kleist - a Study in Tragedy and Anxiety", de John Gearey. QUAND-MÊME!!!!!!!!!!!
As livrarias visitadas foram a Barnes & Noble (grandiosa mas previsível), a Gotham (reduto de caos e de amor aos livros tão denso que se respira) e a Strand. Visitar esta última com apenas menos de uma hora disponível não é das menos hediondas torturas que conheço.




Quarta, 25 Junho, 2003

Ponziani, se estiveres a ler isto, fica sabendo que tive novas ideias para aquela cena em que Aquiles, reagindo às exortações insistentes de Ulisses, Diómedes e os outros, recoloca o seu capacete e reafirma a sua vontade inabalável de combater a rainha das Amazonas. Hesitávamos entre um tom de cólera enfadada e impaciente, que as primeiras palavras parecem sancionar («Se vós quereis bater-vos como eunucos, sois livres de o fazer!»), um ímpeto sonhador em consonância com a irrealidade fantasista das suas intenções, ou um registo que fosse evoluindo, e que culminasse em malsã ferocidade («...antes de lhe talhar na fronte a golpes de lâmina a sua coroa de noivado, e de poder arrastá-la pelos cabelos nas ruas da minha cidade»). Parece-me que negligenciámos o trabalho do corpo, que suprirá as soluções de continuidade com as quais lutamos há demasiado tempo, demasiado do teu precioso, dúctil e tão frágil tempo, meu amigo, meu amigo pródigo em refregas com gigantes de palha e marés de algodão. Por enquanto, apenas te digo isto. Esperar-te-ei no local do costume. O fim do dia sem ti ressoará com abafada e solene melancolia.


BLOGGERMEETSBLOGGER: «There are eight million stories in the Naked City. This has been one of them.» Assim se dizia naquela série televisiva que alguns ainda recordarão, e que foi reposta pela RTP nos meus tempos de juventude irrequieta. O que faz um pobre blogger, no meio desta profusão sheherazadesca de narrativas latentes? Muito fácil: telefona àquele que, longe de se contentar com uma única história, gere dezenas delas num dos mais criativos blogs lusos, e que, por assinalável dose de sorte, vive precisamente em New York. O meu encontro com o Ivan, da Memória Inventada, assumiu os contornos de intercâmbio blogotransatlântico que, espero eu, inspire outros para aventuras semelhantes. Numa cantina universitária, ao ar livre (o sol, com esplêndido sentido do timing, decidira mostrar-se por fim), e num bar da Primeira Avenida (creio eu, corrige-me se estiver a dizer disparates, Ivan!), falámos disto e daquilo, de blogs, de desterros, da nossa pátria, e de um percurso comum que incluiu infância nos Olivais Sul, estudos de ciências, Paris e esta bizarra mania de poluir o éter blogosférico com escritos, notas e desabafos. Com muita pena minha, os meus ditirâmbicos elogios a esse fascinante desporto que é o basebol enfrentaram um cepticismo delicado mas férreo. Pelo seu lado, o Ivan teve a gentileza de me dar a entender discretamente que eu faria melhor em deixar uma gorjeta mais choruda no café, livrando-me assim da mordacidade de um empregado de mesa yankee.
Blogar é giro, mas sem a certeza renovada de existirem pessoas por detrás, este seria o passatempo mais cretino do mundo e arredores.


FORÇA, FORÇA, COMPANHEIRO BLOOMBERG: A coisa que mais apreciei em NY, de longe, foram as restrições ao consumo de tabaco nos locais públicos. Em aeroportos, cafés, restaurantes, lojas, a actividade tabagística é nula. Isto denota duas coisas: legislação e meios e vontade para a aplicar e fiscalizar. A civilização passa também por aqui. Onde muitos verão uma criptofascista limitação às liberdades individuais de cada um, eu vejo a simples garantia de me poder sentar a sorver um chá ou outra beberagem, em goles pequenos e demorados, sem ser incomodado por baforadas alheias.


NEW YOR, NEW YOR...: Confirmando as mais fúnebres expectativas, tive oportunidade de constatar in situ a desoladora escassez de actividade kleistiana em New York.
Não existe nenhuma "Kleist Street", "Kohlhaas Avenue" ou "Penthesilea Drive". Tão pouco algum destes nomes consta das listas telefónicas de Manhattan, Queens, Brooklyn, Bronx ou Staten Island. A mais diligente porfia foi insuficiente para localizar um único espectáculo de marionetas em Central Park, ou sequer uma encenação ao ar livre do "Príncipe de Homburgo". Asseguraram-me ainda não haver memória de alguém ter organizado um combate de esgrima entre um urso e um homem, no Madison Square Garden. A arquitectura dos edifícios em nada evoca a cidade de Santiago do Chile do século XVII. Finalmente, a degradação moral omnipresente leva-me a duvidar de que um oficial russo que engravidasse uma mulher nobre alguma vez reconhecesse, de livre vontade, a vileza do seu gesto, quanto mais tentar repará-la.
Remediar este deprimente estado e coisas é tarefa grandiosa de mais para um humilde e inofensivo blogger. Ainda assim, cheguei a esboçar o quixotesco gesto de desenhar um "K" de descomunais proporções com o meu trajecto pelas ruas da cidade. Mas tal propósito (inspirado pela inspiradora novela de Paul Auster, "City of Glass") saiu gorado, tendo-me ficado por algo que só com boa vontade se assemelharia a um medíocre e minúsculo "r".
Com os olhos enxutos mas dormentes, contemplámos o rio Hudson ao entardecer.


So daily I renew my idle duty
...

Leonard Cohen, "The Traitor"




Terça, 17 Junho, 2003

...
Preserve my room, but do not shed a tear
Should rumors of a shabby ending reach you,
It was half my fault, and half the atmosphere

Leonard Cohen, "The Traitor"




START SPREADING THE NEWS, I'M LEAVING TODAY, BLA BLA BLA: Devido a uma estadia curta em Nova York, o 1bsk estará suspenso durante alguns dias. A não ser, claro está, que o Ponziani, a América, o A ou até mesmo o B decidam manifestar-se entrementes, para quebrar o hiato.
Em "Reminisce (Part One)", o grande Kevin Rowland, dos Dexys Midnight Runners, narra a sua odisseia de bar irlandês em bar irlandês, em busca do espírito de Brendan Behan (dramaturgo fortemente constestário e politicamente implicado), até lhe revelarem que este se encontra em Nova York, do outro lado do Atlântico. A minha ambição será consideravelmente mais modesta. Visarei tão somente auscultar até que ponto a obra e a existência de Heinrich von Kleist (1777-1811) deixaram traços que perdurem ainda na capital cultural e económica da mais poderosa nação do mundo.


Segunda, 16 Junho, 2003, (Bloomsday!)

CINEMA: "O Estado das Coisas", de Wim Wenders. Ao ver este filme, compreende-se tudo. Compreende-se a importância de Wenders como personalidade que funcionou como caixa de ressonância de tendências, frustrações e melancolias de uma época do cinema (mais do que de uma "geração"); compreende-se a sua identificação estreita com o paradigma da errância (o fascínio passivo pelo movimento, sempre "em falso", como sucedâneo, ao mesmo tempo hipnótico e terra a terra, das grandes narrativas de que o cinema do passado, em especial o americano, se apropriou); compreende-se, enfim, a inevitabilidade da evolução da sua carreira, rumo a um estatuto de "referência moral" do cinema europeu, paciente divulgador de desencantos, raro híbrido de diletante e estóico. A abdicação de uma qualquer veleidade de se tornar um Grande Realizador conhece aqui mais um dos seus intermináveis actos, nas dunas de uma praia portuguesa. A singularidade deste belo e subtil filme será talvez a maneira como alberga um esboço de "ars poetica" que aparece como contrapartida, longínqua e desiludida, do projecto que Godard enuncia em "Pierrot le Fou": filmar, não as pessoas, não as histórias, mas aquilo que existe entre elas, as relações, os predicados, essa espessura traduzível em claro-escuro e, bem entendido, na dolorosa passagem do tempo. Que resta deste filme, que dura o quanto baste para que se escoe qualquer vestígio de elemento redentor? Trocas de afectos. Sons e suspiros. Farrapos de futuro. E também, claro, o olhar da câmara.


SINAIS DOS TEMPOS: A pertinácia e crispação com que alguns republicanos da velha cepa levavam até às últimas consequências a sua luta pelo laicismo, e contra a intromissão da religião na esfera secular, desgostou muitos e bons. Não deixa de ser oportuno, de quando em vez, recordar o tipo de mentalidade vigente nessa era distante, e a enormidade dos obstáculos com que se defrontavam. Para que se compreenda que aquilo que, à distância de décadas, nos parecem exageros dispensáveis, era, na altura, o mínimo indispensável para superar uma barreira de preconceitos e marés contrárias difíceis de conceber nesta época de consensos e retractações em série.
Do papa Pio IX (que declarou os direitos do Homem «ímpios e contrários à religião»), transcrevemos as seguintes pérolas. Trata-se de excertos do sílabo anexado à encíclica "Quanta cura".

«ANÁTEMA A QUEM DISSER:
«Art. XI: Cada homem tem a liberdade de abraçar e professar a religião que ele tiver julgado verdadeira segundo as luzes da sua razão.
«anátema a quem disser:
«Art. LXXVII: Na nossa época, deixou de ser útil que a religião católica seja considerada como a única religião do Estado, sendo excluídos todos os outros cultos.
«anátema a quem disser:
«Art. LXXIX: Com efeito, é falso que a liberdade civil de todos os cultos, e o pleno poder acordado a todos de manifestar abertamente e publicamente todas as suas ideias e todas as suas opiniões, contribuam para corromper os costumes, para perverter o espírito dos povos, e para propagar o flagelo do indiferentismo.»


Este texto data de 1864.
E agora, antes que me acusem de anticlericalismo, vamos falar de filmes.


RETRATO DA CIDADE ENQUANTO MUNDO: Chega ao fim a contagem decrescente que nos levou até ao dia de hoje, Bloomsday, segundo dia nacional da Irlanda (ainda que oficioso) depois do São Patrício. Reza a lenda, nutrida por gerações de devotos, que foi no dia 16 de Junho de 1904 que o jovem (22 anos) James Joyce saiu pela primeira vez com aquela que viria a ser a mulher da sua vida, Nora Barnacle. Mais tarde, Joyce haveria de imortalizar esta data, fazendo-a coincidir com a acção do seu mais célebre romance, "Ulysses". Nesta obra-prima absoluta (um dos poucos textos de ficção verdadeiramente indispensáveis do século XX, juntamente com a "Recherche", a trilogia de Beckett, "O Mestre e Margarita", "La Vie Mode d'Emploi" e poucos mais), um dia na vida da cidade de Dublin é repartido em capítulos que coincidem com outras tantas horas (e com outros tantos episódios da "Odisseia"), e que acompanham as aventuras e deambulações de duas personagens principais: Leopold Bloom, angariador de publicidade, marido enganado, ressumando espírito do século, ciência popular e sentido prático; e Stephen Dedalus, aspirante a génio, peripatético numa época platónica, alter-ego de Joyce que fora já o protagonista do romance anterior ("A Portrait of the Artist as a Young Man"). "Ulysses" é um prodígio de inventividade, erudição, humor e humanismo, e acima de tudo um poderoso e refinado instrumento de interrogação sobre os mecanismos da ficção, e - por arrasto - da própria vida.
O culto que rodeia "Ulysses" deu origem a celebrações anuais que transformaram o 16 de Junho num pretexto para relembrar Joyce e evocar uma Dublin que já não existe. Leituras, excursões, colóquios e eventos vários concentram-se em torno do "Bloomsday" (irónico trocadilho com "Doomsday", enfatizando o contraste entre o dia do Julgamento Final e a pacatez burguesa e conciliadora do Sr. Bloom). Reproduzem-se os trajectos das personagens principais, consome-se rim de porco ao pequeno almoço e uma sanduíche de queijo ao almoço, visita-se o bairro da prostituição e o cemitério de Glasnevin, discute-se Shakespeare na Biblioteca Nacional e passam-se alguns bons momentos na praia de Sandymount. E tudo isto, bem entendido, com uma batata num bolso, e uma carta clandestina dirigida a um certo Henry Flower no outro. Tudo em nome da grande literatura, e desgraçado (e desterrado para o Hades) seja quem não vir aqui senão infantil fetichismo. (Para saber mais coisas, outras coisas, ainda mais coisas sobre as festividades deste ano ou dos anteriores, é só seguir os enlaces.)
A minha ambição pessoal de passar o 16 de Junho de 2004, ano do centenário, em Dublin vai provavelmente ser dura de realizar, por afazeres profissonais prognosticáveis à distância de um ano. Seja. Se não for em corpo, serei dublinês em espírito nesse dia. E beberei cacau à noitinha, como manda o livro.


Domingo, 15 Junho, 2003, (Bloomsday -1)

B: Tudo em silêncio novamente...
A: Chhht...
B: Chhht...



A PROPÓSITO DE UM DIÁLOGO DE BALZAC: «...les mœurs ont bien changé. Avec ces idées d'ordre légal, de kantisme et de liberté, la jeunesse s'est gâtée.» ("Le Bal de Sceaux")
Cada geração inventa o seu bricabraque de causas, tendências, modas e pulsões que ameaçam subverter e abalar os pilares da sociedade, mistura tudo num cadinho e serve com acompanhamento de advertências e sombrios prognósticos. Não será exercício difícil, lendo os jornais, escutando a rádio e vendo a TV, substituir "ordem legal, kantismo e liberdade" pelos seus equivalentes contemporâneos, amalgamados em discursos que são outros tantos gritos de alarme contra a degeneração moral dos tempos que atravessamos. Convém nunca esquecer que certos conceitos, ideias, conquistas de que todos beneficiamos, e que são parte integrante de um modo de vida que prezamos, começaram a sua já longa carreira como desvarios de um punhado de iluminados, condenados em bloco por opiniões e autoridades. Será preciso acrescentar que nunca se impuseram sem luta (e nem sempre no sentido figurado do termo)?



Para um blog que nasceu de um insulto, isto tem estado notavelmente upbeat!


Sexta, 13 Junho, 2003, (Santo António, Bloomsday -3)

LUGARES DE PARIS: O Square René Le Gall, na órbita da Fábrica de Tapeçarias dos Gobelins. Este jardim, um dos mais antigos de Paris, oferece ao visitante um obelisco, "gloriettes" de rosas, uma tranquilidade excepcional mesmo para os padrões dos espaços verdes parisientes, elevada a uma sublime potência durante o verão, e a proximidade dos declives e sinuosidades de um rio subterrâneo. Sugestão de leitura: Reverdy ou Saint-Pol-Roux. Itinerário para lá chegar: ao sabor do dia e das petulâncias da luz.


DESMENTIDO: A América nega rumores segundo os quais ela deteria uma participação de 50 % nas Publicações Europa-América. (Ela admite ter chegado a investir na Bertelsmann, mas vendeu tudo quando julgou chegado o momento de diversificar o seu portfólio.) Desde logo, é inútil escrever-lhe para encomendar exemplares de "As Rosas Adoram os Alhos". Façam como toda a gente. Vão à Feira, comprem meia dúzia de churros, e aproveitem para dar uma forcinha à malta de Olivença.


NEM SÓ DE PAULO COELHO VIVE UM HOMEM: A Feira do Livro de Lisboa entrou na sua recta final, mas ainda sobra muito tempo para um desvio pelo Parque Eduardo VII. Últimas sugestões do ano:
  • "A Minha Tia É Uma Baleia", de Anne Provoost, Afrontamento, stand 75
  • "Aconteceu nas Berlengas", de Margarida Castel-Branco, Litexa, stand 49
  • "Bisbilhotar a Bolsa do Canguru", de Tomás de Montemor, Livros Horizonte, stand 17
  • "Molhar a Cama Não Interessa", de Mário de Noronha e Zélia de Noronha, Plátano, stand 32
  • "Feng Shui do Lar Saudável", de Günther Sator, Plátano, stand 32
  • "As Rosas Adoram os Alhos", de Louise Riotte. Europa-América, stand 47
E para concluir, um título que se candidata ao recorde do maior número de preposições idênticas consecutivas. Estamos, claramente, perante um admirador de Gertrude Stein.
  • "Manual de Regulação de Velocidade de Motores de Corrente Contínua", de Francisco Ruiz Vassallo, Plátano, stand 35



MAIS DO MESMO...: Prossegue o debate sobre a omissão de qualquer referência às "raízes cristãs" da Europa no projecto de constituição. Do "Público" de hoje constavam pelo menos uma notícia e um artigo de opinião relativos à questão.
Independentemente da razão que assiste àqueles que reclamam para as religiões cristãs um papel primordial e fundamental na fundação dos valores e da civilização europeus, urge, antes de se entrar em conflito verbal, tentar assentar ideias sobre o seguinte: deverá uma constituição ser um texto que procura fornecer princípios basilares propícios ao desenvolvimento e estabilidade de uma sociedade, ou uma tentativa de traçar uma genealogia de ideias, conceitos e identidades, necessariamente vulnerável a generalizações tendenciosas? Não terá um texto constitucional uma obrigação de secularidade, visto que a própria emergência das aspirações constitucionalistas das populações e dos estados de Direito andou, ao longo dos séculos, a par com os combates pela emancipação da esfera política das tutelas clericais e das justificações divinas?
A própria natureza de uma constituição torna a referência às Luzes muito mais apropriada do que a referência a qualquer religião. No entanto, devo também dizer que a menção a quaisquer circunstâncias históricas, seja qual for a sua natureza, não me parece absolutamente indispensável num texto deste tipo.
Espero voltar a este assunto, em particular para comentar a interessante afirmação de João César das Neves (não tenho aqui o enlace à mão de semear, mas podem ir ler o excerto em questão ao Valete Fratres!), segundo quem a Europa deve "tudo" (fim de citação) ao cristianismo.


VERSOS PORQUE SIM:

Toujours l'arbre du cœur
dans la nuit repoussait
La tache d'or strié
Toi qui étais partout
Toi l'arc des jours tendus
Toi l'étoile polaire
Où en est maintenant
ta vendange ô lumière?
Où sont les jeux d'enfants
les lilas les moulins?
Le lait qui descendait
sur le petit matin
des condamnés à mort
Les souvenirs éteints

Georges Haldas
(extraído de "Sans Feu Ni Lieu")
(© Georges Haldas, 1968)




Quarta, 11 Junho, 2003, (Bloomsday -5)

CHEGARÁ A ALTURA DE FALAR do Amadeu, funcionário dos Correios, dedicado e fiel amigo, que vive em Alfragide, com os pais e um irmão pequeno, e cuja inclinação é a de galgar o espaço entre texto e gesto com soberano desplante, energia feroz e sacudida, mas também uma candura que é toda sua, e que só pertence aos que preferem aflorar e cingir em vez de assestar o golpe. (O que não é necessariamente um óbice, nas cenas de batalha.)


FALARAM EM SERVIÇO PÚBLICO?: A citação de Henry James que o André, do "Nocturno 76", fez recentemente, foi das coisas mais válidas e inspiradoras que li nos últimos tempos. É preciso dizer que este conto, "The Beast in the Jungle" me obcecou a ponto de o citar na minha tese (na versão francesa de Marguerite Duras). Alturas há em que, mesmo sem o querer, não resisto em dividir a humanidade entre aqueles que resistem incólumes à leitura deste texto e aqueles que sofrem metamorfose, por mínima e lenta que seja. Raramente um escritor terá privado de tão perto com o sublime, a ponto de confirmar quão vizinho este é do horror e do vazio absolutos.



J'ACCUSE!: O 32º crime da Fátima Felgueiras: pontapés na gramática e no vocabulário. "Póssamos"??? "Um crime hodiondo"??? Eu confio no bom povo português para repudiar tão grosseiros deslizes. Pode-se perdoar quase tudo, até o peculato, o desvio de fundos e os sacos azuis, mas há que traçar a linha nalgum lado. Se deixarmos de saber usar o conjuntivo, é o nosso futuro como Nação que se esboroa.


TRIFONIA SEM FIOS: Num ano já longínquo do século passado, surgiram 2 canais privados de televisão. Um dos objectivos era o de diversificar a oferta. Em vez disso, temos direito à conferência de imprensa de Fátima Felgueiras, em directo, na TV pública como nas outras duas. Como cada canal filmava a plangente ex-autarca segundo um ângulo diferente, um zapping suficientemente célere talvez tivesse permitido obter uma ilusão de terceira dimensão.
Valha-nos a RTP2, que, no mesmo horário, transmitia o Noddy!



FÁTIMA FELGUEIRAS QUEBRA O SILÊNCIO: Sucede porém que nós preferimos o silêncio intacto e inteiro, e não aos bocados.


BLOGOSFERA MAIS POBRE!: Alguma alma caridosa saberá esclarecer-me sobre o que aconteceu à "Paragem de Autocarro", de que eu me tinha tornado visitante regular? De há vários dias para cá, só uma mensagem de erro do Blogspot responde às tentativas de acesso. Alvíssaras a quem souber do paradeiro da viatura.
(Será consequência de uma greve da Carris?)



O 1BSK ERROU: O nosso leitor Francisco Frazão assinalou um erro num post de ontem. Mencionámos um certo "Charles Daney", quando, como é óbvio, o verdadeiro nome do malogrado crítico e ensaísta é Serge Daney. Pelo lapso, imputável à senilidade que progride a largas passadas, as nossas desculpas. Com leitores tão atentos, dá gosto fazer umblog.


Terça, 10 Junho, 2003, Dia de Portugal (Bloomsday -6)

PRIMEIRO, A BIOGRAFIA: Jacques Rivette nasceu a 1 de Março de 1928, em Rouen, cidade que abandonará em 1949. Em Paris, Rivette envolveu-se com o grupo que viria a fundar a mítica revista "Cahiers du Cinéma": Truffaut, Godard, Rohmer, Jacques Doniol-Valcroze, Charles Bitsch... Leitor e cinéfilo voraz, Rivette viria a distinguir-se pela firmeza e profundidade das suas críticas cinematográficas, ao ponto de adquirir a reputação de intelectual entre os seus pares da "Nouvelle Vague", o que, convenha-se, tem o seu quê de notável.
Tal como os seus cúmplices, Rivette passou à realização durante a década de 50; ao contrário daqueles, não beneficiou de nenhum estado de graça por parte do público, e a sua primeira longa-metragem, "Paris Nous Appartient", foi um fracasso estrondoso. Ao longo dos anos que se seguiram, Rivette prosseguiu uma carreira de realizador em que o sucesso de audiências raramente acompanhou o reconhecimento crítico. A sua aura de personalidade enigmática, pouco dada à exposição mediática, justificada ou não, foi-se consolidando. Depois de uma década de 70 complicada, em termos quer artísticos quer pessoais, Rivette participou do segundo fôlego da "Nouvelle Vague" nos anos 80 e 90, com obras-primas como "L'Amour par terre", "La bande des quatre", "La belle noiseuse" e "Haut bas fragile", ou o mais recente "Va savoir". Paralelamente, a sua faceta de prolífico e penetrante pensador sobre a natureza do cinema foi encontrando ocasiões para se manifestar, nomeadamente através de entrevistas e de um excelente documentário-conversação com Charles Daney, filmado por Claire Denis.


Jacques Rivette

E AGORA, CINEMA!: O nosso leitor Francisco Frazão teve a amabilidade de nos escrever, com palavras simpáticas sobre o blog, e sobre as (muito esporádicas) referências que temos feito ao realizador Jacques Rivette.
Agradecemos o comentário e a atenção, e também o excelente pretexto para passarmos a discorrer de maneira mais abundante sobre alguém que tem ocupado um lugar singularíssimo no panorama do cinema das últimas décadas, e que admiramos até à mais absurda desmesura.


A TALHE DE FOICE...: Nem de propósito, na sua coluna do "DN" de ontem, Francisco Sarsfield Cabral espanta-se com o facto de que aqueles que se opõem à inclusão da menção às "raízes cristãs" na Constituição Europeia (ver a nossa opinião sobre este assunto aqui), sob pretexto de que se arrisca a alienação das populações muçulmanas, serem os mesmos que contestam o uso do lenço pelas mulheres islâmicas.
Onde está o paradoxo?
O espírito republicano é tão contrário ao lenço nos espaços públicos, nomeadamente na escola (por representar uma pseudo-afirmação do direito à diferença, que redunda numa reivindicação de integração comunitarista contrária aos princípios do laicismo) como à consagração ao nível de texto constitucional de uma religião em detrimento de outras, espécie de proselitismo camuflado de didascália histórica, absolutamente incompatível com o princípio da igualdade entre as confissões.
Nada mais do que coerência...
(Aproveito para acrescentar que, para além dos muçulmanos e dos judeus, e de outras religiões minoritárias, existiria ainda a sensibilidade dos agnósticos a ter em conta. Mas já se sabe que esses raramente entram na equação...)


RAPPEL À L'ORDRE: Para benefício dos leitores mais recentes, relembramos que o umblogsobrekleist é um blog filo-republicano (no sentido europeu do termo), laico, francófilo, e que faz da dúvida metódica, do cepticismo e da denúncia das superstições e embustes pseudocientíficos outros tantos cavalos de batalha. Somos adeptos de um Estado forte que assegure princípios sem os quais nenhuma democracia sobrevive (como a igualdade de todos os cidadãos perante a Justiça, e a manutenção da lei e da ordem), e de um sector público robusto que dele emane, capaz de garantir serviços básicos de qualidade nas áreas da Saúde, Educação, etc. (o slogan "Menos Estado, melhor Estado" basta para nos induzir taquicardia, ansiedade e erupções cutâneas). Somos ainda defensores apaixonados da Arte, não como passatempo ou aprazível acessório da "vida real", mas como uma rica e fecunda extensão da própria vida. Desejaríamos que a possibilidade de fruir da Arte e das suas manifestações fosse prerrogativa da totalidade dos cidadãos, mas não pactuamos com facilitismos nem mediocridades. Gostamos de torres de marfim e de "estopadas para intelectual ver" (para empregar as palavras de um escriba da nossa praça que ainda hoje deve acreditar piamente que é crítico de cinema).
O mais perto que estivemos de redigir um manifesto foi quando debitei este naco de prosa, já longínquo no tempo.
Falta dizer que esteblog é mantido por Alexandre Andrade, este vosso criado, pela América, estudante de Belas-Artes, e pelo Ponziani, encenador nas horas vagas, e também (cada vez mais) nas outras. A América inspira a sua conduta na 1ª República portuguesa (é admiradora de Afonso Costa, e está envolvida num projecto de casa-museu de Manuel de Arriaga), ao passo que eu só juro pelos princípios da 3ª República francesa (Jules Ferry, artesão da escola laica e universal, Gambetta, e os outros). Quanto ao Ponziani, a sua abordagem é mais "bottom-up" do que "top-down": ele prefere investir na actividade dramática, convencido que daí sairá uma clarificação de ideias propícia a uma melhor definição do espaço que cada um deseja ocupar na pólis.
Há ainda mais dois intervenientes nesteblog, o A e o B, entidades sem biografia nem morada, vagamente ectoplásmicas, que ocupam o espaço vago quando os outros se remetem ao silêncio.


Segunda, 9 Junho, 2003 (Bloomsday -7)

YOUNG, GIFTED AND UKRAINIAN: O xadrez feminino é um tema que nos é caro. Enquanto não chega o vagar para intervenções de maior fôlego, aqui fica o enlace para um artigo sobre Kateryna Lahno, uma menina ucraniana de 13 anos cuja precocidade suscita comparações com Judit Polgár (a mais talentosa jogadora de todos os tempos, que recentemente acedeu ao Top 10 "masculino"). Lahno é a única jogadora a disputar o campeonato europeu individual "misto", que se realiza na Turquia, e amealhou já 4 pontos ao fim de 9 rondas, o que, atendendo à categoria dos adversários, é um resultado mais do que honroso.


MOMENTO CERTO, LUGAR ERRADO: A estreia do derradeiro filme de João César Monteiro, "Vai e Vem", está marcada para o próximo dia 20. Infelizmente, nesse dia deverei estar em Nova York, aproveitando a fraqueza do dólar para comprar livralhada e CDs. O sentido de timing do sr. Paulo Branco deixa clamorosamente a desejar.


RECTIFICAÇÃO: O nosso lema não é nada "a verdade acima de tudo". O nosso lema é uma citação de Richard Dawkins, que diz o seguinte: «There's this thing called being so open-minded your brains drop out.»


Domingo, 8 Junho, 2003

CONFESSO! CONFESSO! É HEDIONDO!: A audição da voz do Demis Roussos, plena de nobreza e majestosa ressonância, enche-me de uma euforia difícil de conter, e inexprimível por palavras. É triste, lamentável, mas é assim mesmo. O lema desteblog é "a verdade acima de tudo".


PARQUE ACIMA, PARQUE ABAIXO: Na minha visita de hoje à Feira do Livro, verifiquei com surpresa e agrado que a bicha para os autógrafos da Agustina Bessa-Luís era ainda mais longa do que a bicha para as farturas. Para quem, como o autor destas linhas, considera que Agustina é actualmente (e por não pequena margem) o zénite absoluto da literatura portuguesa, pelo menos nas suas vertentes de ficção e de ensaio, tal não pode deixar de constituir um autêntico regalo para os olhos, e um sinal de que AINDA HÁ ESPERANÇA.
Curiosamente, na mesa do José Saramago, se bem que a afluência fosse também grande, as pessoas tinham tendência a amontoar-se em torno do "Nobelizado", em vez de formar uma fila ordeira. Deve haver uma explicação simples para este fenómeno, mas, a uma hora destas, sou incapaz de a encontrar.


RAÍZES E PROBLEMAS: Uma polémica menor, que se tem arrastado em surdina há meses, diz respeito ao projecto de constituição europeia, e da pretensão, por parte do Vaticano e de numerosos grupos e instituições religiosos, de nela incluir uma referência às "raízes cristãs" da Europa (ver, por exemplo, aqui e aqui).
Na minha opinião, a cedência a esta reivindicação seria negativa, inútil e perniciosa.
Se é indiscutível que o cristianismo, a moral que dele emanou, as mentalidades e as matrizes de pensamento que impôs ao longo dos séculos, foram determinantes para a formação do continente europeu enquanto entidade cultural, política, social, não é menos verdade que um texto constitucional, enquanto conjunto de princípios fundadores de um espaço de tolerância e justiça, deve atribuir ênfase a tudo aquilo que promova a coesão, a estabilidade das suas instituições, e não a alusões a um passado que entre em antagonismo com uma ideia fundadora de Europa baseada na defesa da coisa pública, no espírito cívico e na cidadania.
Por outras palavras: deixemos a constituição reflectir aquilo que se pretende que a Europa seja, deixemos aos historiadores a tarefa de investigar géneses e raízes e de averiguar onde é que as fracturas de produziram, e façamos por evitar clivagens e incitações ao comunitarismo.


LIDO NA IMPRENSA ESCRITA (2): No "Diário de Notícias" de hoje, a notícia da enésima situação de internamento de um indivíduo com sintomas semelhantes aos da pneumonia atípica é acompanhada por uma fotografia de página inteira de um enfermeiro mascarado, enluvado e protegido dos pés à cabeça, e pelo vistoso título «Caso suspeito gera pânico na Terceira». Lendo o artigo até ao fim, fica-se a saber que o doente em questão foi colocado em regime de isolamento no hospital de Angra do Heroísmo, e que os procedimentos de segurança previstos foram accionados. Nem sinal do "pânico" a que alude o título.
A cereja em cima do bolo é o curto parágrafo onde se lê: «Segundo o DN apurou, este caso não alterou o programa oficial da visita [do presidente Jorge Sampaio aos Açores].» Seria minimamente verosímil que a visita presidencial fosse afectada pelo facto de, no hospital de Angra, estar internado um indivíduo com suspeita de SARS? Porque não colocar todo o arquipélago de quarentena, já que estamos numa de alarmismo galopante?
Entretanto, as análises já revelaram que as suspeitas não se confirmam. Quem diria?
Há ocasiões em que a irresponsabilidade de certos jornalistas supera fasquias que, por ingenuidade ou optimista confiança no bom senso humano, julgávamos intransponíveis. E se isso já é inquietante da parte de uma qualquer folha de couve onde a deontologia é embrulhada em papel kraft e guardada na arca frigorífica, mais grave será quando se trata de um diário que se pretende de referência.


LIDO NA IMPRENSA ESCRITA (1bis): Por reconhecer que o post anterior pode ser suspeito de ironia, acho bem frisar que não foi essa a intenção. É mesmo isto que eu penso.


LIDO NA IMPRENSA ESCRITA (1): Na sua crónica publicada no "Público" de sexta-feira, dedicada a três novos livros de Silvina Rodrigues Lopes, escreve Eduardo Prado Coelho: «No seu conjunto, é difícil lê-los sem a emoção que deriva de uma imensa alegria: a inteligência comove-nos, sobretudo quando se inclina em termos de afecto e protecção infinita para aqueles que mais amamos.» A possibilidade de ver escrito, em letras de imprensa, que a inteligência comove, valeu, só por si, os 80 cêntimos que custa o jornal.


UMA COMBINAÇÃO SURPREENDENTE: Maltesers com chá Earl Grey. Experimentem e verão! Fim do post.


Quinta, 5 Junho, 2003

LÁ VAI MAIS DISTO: Respondendo aos anseios de uma larga fatia da população, aqui vão mais algumas sugestões de leitura, disponíveis na Feira do Livro de Lisboa:
  • "Bovinos Leiteiros Jovens", de Carlos Lucci, Nobel/Edusp, stand 106
  • "Adestramento sem Castigo", de Bruno Tausz, Nobel, stand 106
  • "Sirácida ou Eclesiástico", de Ney Brasil Pereira, Sinodal, stand 171
  • "21 Minutos de Poder na Vida de um Líder", de John C. Maxwell, MC, stand 177
  • "Revelações de um Iniciado em Melquisedeque", de Joshua David Stone, Pensamento, stand 109
  • "A Esponja Demoníaca", de R.L. Stine, Abril/Controljornal, stand 110
E finalmente, o livro sem o qual nenhum lar português deveria passar:
  • "É Fácil Fazer Bichinhos de Pano e Almofadas em Forma de Bichinhos", Ediouro, stand 164
Então agora já sabem. Todas estas maravilhas, e muitas outras que revelarei em momento oportuno, encontram-se à vossa espera no Parque Eduardo VII. Mas evitem folhear os livros com os dedos sujos de gordura de farturas.


Peter Greenaway

«Creation, to me, is to try to orchestrate the universe to understand what surrounds us. Even if, to accomplish that, we use all sorts of stratagems which in the end prove completely incapable of staving off chaos.» (Peter Greenaway)







Terça, 3 Junho, 2003

AINDA O GRITO: Ponziani adquiriu o hábito de percorrer os jardins de Lisboa, e de se demorar sempre que encontra um espectáculo de marionetas a decorrer. Não é para os bonecos, ataviados de cores garridas, que ele olha. Ponziani não desvia a atenção da petizada, à espreita do momento em que os gritos isolados se fundem num único guincho, em resposta às absurdas sevícias que as personagens da peça protagonizam.
Ponziani evita a custo um aceno de aprovação: afinal de contas, o que é a tragédia senão uma sucessão de coisas "assustadoras e dignas de piedade" (ou "assustadoras e lamentáveis", como prefereria dizer a América, que também conhece o Aristóteles como a palma da mão)? Ponziani gostaria de transplantar todo o horror e espanto que ali se derramam, num só bloco, e de se servir dele nos ensaios.
Em vez disso, retira-se de cabeça baixa, para evitar dar nas vistas, e contenta-se com aproximar os escândalos da atracção física e emocional por meio de trocas de berloques, a que se seguem discussões a que só a fadiga absoluta põe fim.


DE CIDADANIA E DE ESCOVAS: Informa "A Capital", na sua edição do dia de hoje, que quarenta voluntários residentes em São João de Brito vão dedicar-se à limpeza das placas toponímicas e monumentos da freguesia, alvo de vandalismo e de graffiti. Não só aplaudo com ambas as mãos, como me atrevo a sugerir que, se todas as freguesias de Lisboa seguissem este exemplo, a qualidade de vida das suas gentes só teria a ganhar.


A ALEGRIA DE LER: A Feira do Livro de Lisboa abriu há 5 dias. Excepção feita a um punhado de novidades (é impressão minha, ou as farturas e os churros, já para não falar das inefáveis "porras", ganham paulatinamente terreno face às queijadas?), a sensação é a de um ritual repetido, cuidado ao pormenor, indutor de fidelidades que perduram de ano para ano.
Perante a previsível e confrangedora maré de Paulos Coelhos, Ritas Ferros e outras Margaridas Rebelos Pintos, o 1bsk vem propor um selecto conjunto de obras que abordam uma vasta panóplia de temas da actualidade, e que a falta de uma promoção adequada ameaçaria subtrair à atenção do visitante desprevenido. Qualquer um destes volumes merece um lugar de honra nas estantes tanto do leitor médio como do atípico.
  • "Morcegos da Guiné-Bissau", de Ana Rainho e Cláudia Franco, Instituto de Conservação da Natureza, stand 86
  • "Horror no Acampamento do Rei Geleia", de R.L. Stine, Abril/Controljornal, stand 110
  • "Tecnologia Química numa perspectiva industrial de gastar dinheiro sem perder dinheiro", de Luís de Almeida Alves, Fundação Calouste Gulbenkian, stand 103
  • "Projeto Evacuação Mundial", de E. Roka, Ergom, stand 164
  • "Coelho + Técnica = Lucro", de Alex Scandian, Nobel, stand 106
  • "Guia prático para o inseminador e ordenhador", de Paulo M.B. Vasconcellos, Nobel, stand 106
  • "O melhor que pode acontecer a um croissant", de Pablo Tusset, Âmbar, stand 141
E, para finalizar, o meu favorito:
  • "Como Conseguir Tudo Aquilo que Deseja", de M.R. Kopmeyer, Brasília, stand 90
Mais sugestões úteis ficam prometidas para os próximos dias. Continuem atentos a este espaço!


Segunda, 2 Junho, 2003

PÁGINAS ARRANCADAS AO DIÁRIO SECRETO DE PONZIANI (COM CONSENTIMENTO DO PRÓPRIO):

«Julguei-me capaz de me servir da vida privada dos que me rodeiam como de uma matéria prima, moldável, agradável ao tacto. Os meios justificavam os fins. O fracasso foi gentil e urbano; mortificou e ensinou com fartura. Agora, limito-me a ler diálogos e a interpretar didascálias. Mas cada sombra de cada criatura misteriosa a quem dou as deixas enxerta-me o ânimo de cada dia.»

«Kleist, Kleist, Kleist, Kleist, Kleist. O meu homem. Rima e razão, gesto e palavra. Kleist. Kleist. Kleist. Obsessão, sem dúvida, mas vulnerável à repetição.»

«Hoje, pedi-lhes para inventarem a grande cena de sedução que não existe na peça. Um após outro, à vez. Sentados no chão. Se não serviu para desbravar terreno, a coluna do activo assinala pó negro entre os dedos e noções de topografia.»

«Que será feito da rapariga que murmurava sílabas de Leopardi?»

«O antigo colaborador de Giorgio Strehler, agora reformado e a viver em Cascais. Deverei ir visitá-lo? E quem levarei comigo?»

«Muito bem. À falta de um tom justo, procuremos impor um tempo, uma cadência, um ímpeto.»




«Je vais goûter le silence cette belle algue où dorment les requins» (Robert Desnos)


Summer Phoenix: a arte de revelar quando nada há para esconder
«...The note had been struck, she had responded to it, as she responded to every suggestion, faultlessly; she knew that she could repeat the note, whenever she wished, now that she had once found it. There would be no variation to allow for, the actress was made at last. She might take back her lover, or never see him again, it would make no difference. It would make no difference, she repeated, over and over again, weeping uncontrollable tears.»
(Do filme "Esther Kahn", realizado por Arnaud Desplechin, argumento de Arnaud Desplechin e Emmanuel Bourdieu, adaptado de uma obra de Arthur Symons.)



B: Três! De um só jacto!
A: Nada mau, não?
B: E essa máscara?
A: Que máscara?
B: Ah! Compreendo.



CINEMA(3): "Los Lunes al Sol", de Fernando León de Aranoa. A estrutura deste muito conseguido filme espanhol imita a própria situação em que se encontram as personagens, desempregados de longa duração, cujo próprio estatuto de pessoa ameaça sofrer a erosão de um quotidiano onde nada acontece. O evento, a heterogeneidade na passagem do tempo, surge como iguaria rara, e, a esse respeito, é exemplar o estatuto da personagem principal (Javier Bardem, imenso na sua casmurra dignidade): apesar de, graças à sua personalidade, polarizar as existências dos seus colegas de infortúnio, é aos outros que acontecem as coisas (agradáveis ou funestas), exercendo ele o papel de observador, acólito carrancudo, ajudante ineficaz. A urgência da vida, os seus acasos felizes ou não, surgem como espasmos, tímidos e estranhos no seu isolamento; cabe ao cinema enquadrá-los numa dimensão temporal de amarga banalidade. Se a passagem do tempo é um processo áspero, a contemplação, as fantasias sobre a Austrália, as trocas de recriminações acerca de uma multa de 8 mil pesetas, tudo é lícito para diluir a melancolia. Mais precioso do que tudo isto, porém, é o simplicíssimo dom de estar lá. E é essa permanência, na sua vertente física e afectiva, que o cinema nos oferece com uma intensidade que nenhuma outra arte pode igualar.




Domingo, 1 Junho, 2003

CINEMA(2): "Peau d'Ange", de Vincent Pérez. Este é um filme descarada e retintamente francês, no fascínio evidenciado face à fragilidade dos seres, e na maneira como essa fragilidade é erigida em sujeito ficcional primeiro, com prioridade absoluta sobre trama, motivação, iniciação, zeitgeist, sociedade, futuro. Neste filme, que passou relativamente despercebido nas salas portuguesas, a fragilidade é repartida por duas personagens: a da jovem Morgane Moré, fatalmente vulnerável, na biografia como no semblante, e a de um Guillaume Depardieu que abandonou o romantismo malsão de "Pola X" como uma pele de cobra, instalando-se agora num registo de criatura marcada pela vida, que exacerba o seu cinismo para combater uma memória demasiado viva. A colisão efémera destes dois não-destinos exclui desde o início, de modo peremptório, qualquer perspectiva de um final que não seja trágico e doloroso. O percurso de ambos, ao sabor de acasos e bruscos assomos de motivação, desenrola-se em toada de cantata, à falta de gabarito digno de um hino.
Queria deixar uma nota final a respeito de uma sequência do filme, aparentemente tudo o que há de mais anódino. A jovem Angèle pergunta a uma religiosa se pode tomar conta do pequeno jardim (junto à prisão onde se encontra detida, suspeita de um crime que não cometeu). Em vez de resposta, surge o raccord para a cena seguinte, em que Angèle esgravata a terra do jardim. Esta sólida confiança no poder auto-explicativo da figura cinematográfica que substitui o elemento narrativo omitido (a resposta afirmativa da religiosa) é estarrecedora. A convicção de que o cinema pouco mais é do que uma tradução audiovisual de elementos narrativos convencionais predomina, nos dias de hoje, já se sabe; mas nem sempre a homenagem a tão redutor credo se materializa de modo tão explícito.




CINEMA(1): "Bowling for Columbine", de Michael Moore. Raras vezes terá sucedido que a discussão relativa aos méritos, atributos e pertinência de um filme tenha sido a tal ponto subalternizada em favor de picardias e trocas de galhardetes ideológicas, conjunturais, e também, valha a verdade, francamente nulas. Mesmo a discussão relativa ao real estatuto do filme (documentário ou ficção?) acabou por se esgotar em aspectos superficiais, inevitavelmente associados ao maior ou menor grau de manipulação dos factos e das situações, por parte de Moore. E o cinema no meio disto?
Pessoalmente, não tenho dúvidas em qualificar "Bowling for Columbine" como uma ficção. Quando Moore entrevista o irmão do cúmplice do atentado de Oklahoma, a sua atitude perante os risíveis (mas inquietantes) desvarios do seu interlocutor é, a este respeito exemplar. Moore entrega-se (com evidente prazer) ao papel de entrevistador disposto a ser convencido, bonacheirão q.b.; os silêncios são cirurgicamente pesados para isolar, na sua atroz imbecilidade, a torrente de dislates que vão sendo ditos. Moore passeia, ao longo do filme, esta sua figura de "americano médio", e tira partido disso mesmo para inserir numerosas pepitas ficcionais, dotadas de unidade temporal, crescendo e desenlace, e que contribuem para a eficácia persuasiva do filme. Teria sido soberbo que esta interacção (mais subtil do que parece) entre postura documental e prática narrativa tivesse dado azo a debate menos viciado por querelas antigas ou modernas.
Quanto ao César de melhor filme estrangeiro, este foi, no mínimo, despropositado. Uma coisa é concordar com as ideias expressas (consistentes e bem defendidas, mau grado ocasionais laivos de simplismo e demagogia); outra, bem diferente, é transformar essa adesão num plebiscito que se desejaria estritamente baseado em critérios de excelência artística.