Heinrich von Kleist (1777-1811)Liberté Egalité FraternitéNo tabuleiro de xadrez, as mentiras e a hipocrisia não duram muito (Em. Lasker)Monty Python forever!

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junho 2003

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Quarta, 30 Junho, 2004

LUGARES NOS FILMES DE ROHMER: Em Paris: o bairro de Villiers ("La Boulangère de Monceau"), o café "Luco" em Saint-Michel e Bourg-la-Reine, na periferia sul ("La Carrière de Suzanne"), o bairro da estação Saint-Lazare ("L'Amour l'Après-Midi"), o jardim de Buttes-Chaumont ("La Femme de l'Aviateur"), Montparnasse e rue de la Gaîté, supermercado Prisunic da avenue d'Italie ("Quatre Aventures de Reinette et Mirabelle"), Cergy-Pontoise, na periferia noroeste ("L'Ami de Mon Amie"), neuvième arrondissement e Fontainebleau, na periferia sudeste ("Conte de Printemps"), Levallois, na periferia noroeste ("Conte d'Hiver"), o museu Picasso ("Les Rendez-Vous de Paris"), Maisons-Lafitte, na periferia noroeste ("Triple Agent"). No resto da França: Clermont-Ferrand ("Ma Nuit Chez Maud"), a Côte d'Azur ("La Collectionneuse"), o lago de Annecy ("Le Genou de Claire"), a vila de Ballon, perto de Le Mans ("Le Beau Mariage"), Biarritz, Saint-Jean-de-Luz e a costa basca ("Le Rayon Vert"), Nevers ("Conte d'Hiver"), Saint-Malo e Dinard ("Conte d'Été"), o vale do Rhône ("Conte d'Automne").


ENTRE AS BRUMAS DA MEMÓRIA: O silêncio era o luxo que ninguém se atrevia a nomear. O ruído era o bálsamo, o misterioso companheiro. Um amigo ríspido e prepotente, que oferece um grilo numa gaiola e uma vara de vedor a quem deseje penetrar na espessura do passado. Ninguém exige claridade, nitidez, só pedimos uma memória colectiva que se possa puxar pela pele com os dentes. Será de noite, uma noite com sonhos como festas galantes ateadas por despeito. Não deixa de ser sangue, apenas porque as gotículas não se vislumbram nem cheiram. É preferível a noite. Uma taça de madrepérola para guardar as escamas dos olhos. Cada um dos meus concidadãos cruza-se comigo sem erguer a mão. Nada se resgata do nevoeiro, a não ser loucos que esperneiam, marmitas de regimento. Tudo pilhado. Havia diademas, já não há diademas. Havia mementos, já não há mementos. É sempre de noite, mesmo ao romper do dia. Procuro um nome; o meu nome, não o de qualquer outro. Procuro um espelho fendido e enterrado em cinza.

- Porque me falas de guerreiros, de mártires e de Batalhas Fundadoras da Nacionalidade, nesta sala iluminada.?
- Nesta sala iluminada e de paredes brancas.
- Nesta sala iluminada, de paredes brancas e sem mobília.
- Nesta sala iluminada, de paredes brancas, sem mobília, toda em ângulos rectos, onde o som não faz eco.


VERSOS PORQUE SIM:

Mort de A.D.

et là être là encore là
pressé contre ma vieille planche vérolée du noir
des jours et nuits broyés aveuglément
à être là à ne pas fuir et fuir et être là
courbé vers l'aveu du temps mourant
d'avoir été ce qu'il fut fait ce qu'il fit
de moi de mon ami mort hier l'œil luisant
les dents longues haletant dans sa barbe dévorant
la vie des saints une vie par jour de vie
revivant dans la nuit ses noirs péchés
mort hier pendant que je vivais
et être là buvant plus haut que l'orage
la coulpe du temps irrémissible
agrippé au vieux bois témoin des départs
témoin des retours


(Samuel Beckett)


Terça, 29 Junho, 2004

SAI UM FILME DE ROHMER, UM!:

"Quatre Aventures de Reinette et Mirabelle" (1987)

Reinette-dos-campos (Joëlle Miquel, à esquerda) e Mirabelle-da-cidade (Jessica Forde):



Com esta obra, sem dúvida uma das menos conhecidas do realizador, Rohmer adoptou um figurino muito popular nos anos 60, e no qual viria a reincidir oito anos mais tarde ("Les Rendez-Vous de Paris"): o filme em episódios. (Rohmer assinara já, em 1965, uma das secções do projecto "Paris Vu Par...", ao lado de Claude Chabrol, Jean-Luc Godard, Jean-Daniel Pollet, Jean Douchet e Jean Rouch.) Sob a aparência de um filme artesanal, quase amador, "Quatre Aventures de Reinette e Mirabelle" é um delicioso e desconcertante exercício de moral no quotidiano, algures a meio caminho entre as "Meninas Exemplares" da Condessa de Ségur e o Código Civil. Reinette, a campesina, e Mirabelle, a citadina, encontram-se na sequência de um banal incidente. Uma vez juntas pelo destino (ou por aquele misto de sorte e improbabilidade controlada que faz as vezes de destino, nos filmes de Rohmer), viverão juntas aventuras que têm tanto de trivial como de rocambolesco: Reinette oferece a Mirabelle um momento de silêncio absoluto que só a alvorada ao ar livre concede ("L'Heure Bleue"); instaladas em Paris, Reinette é insultada por um empregado de café, mas insiste em pagar-lhe o que ficou a dever, apesar de nada nem ninguém esperar isso dela; Reinette censura asperamente Mirabelle por esta ter ajudado uma ladra de supermercado; Reinette, agastada com a sua própria verbosidade, faz voto de silêncio, o que se revela deveras incómodo quando se vê obrigada a discutir a venda de um dos seus quadros com um negociante de arte de modos afectados (Fabrice Luchini, num fabuloso pequeno papel).
Ao longo destas vinhetas, não faltam a Mirabelle e Reinette as ocasiões para se digladiarem em trocas de impressões intermináveis, de cariz essencialmente moral. Dar dinheiro a um pedinte é um imperativo? A cumplicidade com um delito menor é um pecadilho ou uma falta grave? Deve levar-se até às últimas consequências uma promessa manifestamente absurda? Reinette é firme e veemente, movida por uma probidade que, mau grado a sua pose risonha, não podia ser mais sincera. Mirabelle é urbana, com tendência para relativizar as coisas, dotada de convicções vagas mas pouco inclinada a bater-se por elas. Claramente, julga a amiga demasiado adepta de tempestades em copos de água.
Filme menor? No registo, sem dúvida. Contudo, como sucede com todos os grandes criadores, a menoridade assumida e praticada por Rohmer é enganadora. Na sua simplicidade de meios, "Quatre Aventures..." adquire uma dimensão eminentemente subversiva: contra o dogma, dominante hoje em dia, segundo o qual a moral (ou "o moralismo", como se de uma hedionda ideologia se tratasse) é coisa detestável, própria de comadres encharcadas em água benta, Rohmer oferece-nos uma obra tranquilamente moral. Uma obra onde agir desta ou daquela maneira não é algo de inócuo para a sociedade nem para a dignidade individual; e onde às acções podem ser atribuídos valores, sujeitos a discussão, debate e vivência. Acto, consequência, e sua evocação em discurso: afinal de contas, o principal tema do cinema rohmeriano. Tudo isto num modo parcimonioso, quase didáctico, bem de acordo com o espírito da "Nouvelle Vague". Discreto festim para os sentidos, para o humor e para a inteligência.
Como ter acesso a "Quatre Aventures de Reinette et Mirabelle"? Creio que costumava existir uma cópia em VHS, no Instituto Franco-Português, ali à Luís Bívar. Sem ser assim, é complicado.


A LÍNGUA DE MONTAIGNE: Manifestamente, Durão Barroso fala melhor francês do que inglês. Crise à parte, eis algo que faz augurar tudo de bom para a Europa.


Segunda, 28 Junho, 2004

O FETICHISMO É UMA COISA TÃO FEIA...:

«C'est ainsi que j'avais découvert, au coin de la rue Lebouteux, une petite boulangerie où je pris l'habitude d'acheter les gâteaux qui constituaient la partie la plus substantielle de mon repas.»(Contes moraux I: La Boulangère de Monceau)



A padaria na esquina da rue de Lévis com a rue Lebouteux já não existe. Paris chora, dia após dia, a oportunidade quotidianamente perdida de pedir um sablé à jovem empregadita da padaria, e de, ao receber dois, ver nisso um sinal.


AS MUITAS PALAVRAS NOS FILMES DE ROHMER, PRIMEIRA ABORDAGEM: Fala-se muito, nos filmes de Rohmer: eis um facto que não requer estatísticas nem admite contestações. É comum esta verbosidade ser utilizada como arma de arremesso pelos detractores de Rohmer, com uma falta de imaginação descoroçoante. Tentando ir um pouco mais além desta constatação escandalosa (o império da palavra numa arte supostamente baseada na imagem), é fácil reconhecer que, mais do que um simples predomínio dos diálogos, se assiste à construção de um autêntico "espaço verbal" que se substitui ao espaço físico das cenas, ou entra em diálogo com este. (E este aspecto é de pertinência crucial para responder à questão que o próprio Rohmer coloca no prefácio aos seus "Six Contes Moraux": «Pourquoi filmer une histoire quand on peut l'écrire?».) A lógica da acção e da peripécia transfere-se, com assinalável fidelidade, para essa província de argumentos e contra-argumentos que as personagens constroem e fazem prosperar, ao longo do filme. Mas nada disso faria sentido cinematográfico sem a integração num cenário, num espaço reconhecidamente à escala humana; sem a poderosa evidência visual que, na sua enganadora singeleza, esconde todos os esforços da premeditação.


Domingo, 27 Junho, 2004

O HOMEM QUE ESCREVIA CONTOS MORAIS: Rohmer ocupa, na curta história do cinema, o lugar de um moralista que se descobre num século que expurgou as noções e Bem e de Mal. Desde logo, as continuadas investigações morais de Rohmer visarão, nunca um qualquer propósito edificante, nem sequer a simples ilustração das escaramuças entre as paixões e a razão, mas sim esta coisa muito simples (e infinitamente complexa, bem entendido): capturar o ser humano no sublime e essencial acto de decidir, de agir e assumir as consequências da sua acção. A matéria dessa decisão pode assumir vários graus de trivialidade (e Rohmer tem-se esmerado em engendrar situações cada vez mais terra-a-terra, suscitando preguiçosas acusações de "telenovelização" da parte de alguma crítica); o esqueleto, esse, permanece. É a incompatibilidade entre livre arbítrio, vida ética e felicidade, num mundo ao qual preside uma aleatoriedade que faz as vezes de destino ou de providência (entidades rigorosamente ausentes da obra rohmeriana), que Rohmer nos mostra, há quase meio século.


BIOFILMOGRAFIA MÍNIMA: Maurice Schérer, nascido em 1920, em Tulle, departamento da Corrèze, no centro-sul de França. Inicialmente professor de Letras, acaba seguindo o seu interesse pelo cinema, e escreve para "La Gazette du Cinéma", onde conhece Jean-Luc Godard, Jacques Rivette, François Truffaut e Claude Chabrol, futuro núcleo duro dos "Cahiers du Cinéma", revista de que será redactor-chefe entre 1957 e 1963. Assina os seus artigos com o pseudónimo "Éric Rohmer" (ao que consta, para não embaraçar a família, pouco desejosa de ver o seu nome associado a algo de tão degradante como a crítica cinematográfica). Realiza vários filmes em 16 mm na década de 50, mas só em 1959 leva a cabo a sua primeira longa metragem, "Le Signe du Lion". (É também por volta deste ano que surgem alguns dos filmes fundadores da "Nouvelle Vague": "Paris Nous Appartient", "Les Quatre Cents Coups", "À Bout de Souffle", "Le Beau Serge"...) Continuará a filmar ao longo das décadas, totalizando até ao momento 21 longas metragens, e numerosas curtas e médias metragens, assim como uma quantidade apreciável de trabalhos para televisão. Para o teatro, encenou "Catherine de Heilbronn", de HEINRICH VON KLEIST, e "Le Trio en Mi Bémol", de sua autoria. É autor de vários livros, em particular "Le Goût de la Beauté" (recolha de artigos) e uma celebrada tese sobre o espaço no cinema de Murnau. Publicou um romance, "Élisabeth", em 1946.
Tem vindo a agrupar sua obra como realizador em três grandes ciclos: "Contes moraux" (2 curtas/médias metragens e 4 longas), "Comédies et Proverbes" (6 longas metragens) e "Contes des Quatre Saisons" (4 longas metragens). Fora destas séries, realizou "Le Signe du Lion", "La Marquise d'O...", "Perceval le Gallois", "Quatre Aventures de Reinette et Mirabelle", "L'Arbre, le Maire et la Médiathèque", "Les Rendez-Vous de Paris", "L'Anglaise et le Duc" e "Triple Agent", para citar apenas as longas metragens.


A IMPORTÂNCIA DE SE CHAMAR ÉRIC: Esta é uma opinião pessoal (há ocasiões em que abdicar da objectividade parece ser a única maneira de fazer jus à urgência de um ponto de vista): mais do que "simplesmente" um dos grandes realizadores do cinema contemporâneo, Éric Rohmer é um dos grandes artistas do século XX, ponto final. Quando se fala da grandeza superlativa de criadores como Picasso, Stockhausen, Joyce, está implícito um elemento revolucionário, de interrogação de cânones, de subversão de fronteiras do género, que transcende o mero "talento" ou "valor". Em Rohmer, pelo contrário, encontramos alguém que, na aparência, perseverou numa senda classicista, alheada de qualquer veleidade de reinvenção de formas. A lição de Rohmer foi (e continua a ser) outra, não menos revolucionária, subtilmente escandalosa: a economia de meios e o controlo dos recursos como instrumento de criação. Rohmer é talvez o exemplo maior do realizador que soube manobrar, desde o início, no sentido de se dotar dos meios para levar a cabo a sua obra: através da fundação (com Barbet Schroeder) da companhia Films du Losange, e através de uma disciplina e contenção que, reduzindo ao mínimo os custos da produção, transformou praticamente cada um dos seus filmes num (necessariamente modesto) sucesso financeiro. Mas o mais fascinante (e pedagógico) é constatar como esta abordagem, para além de conferir uma autonomia invejável, se revela artisticamente fecunda: Rohmer não pode ser confundido com um apóstolo da "arte pobre", mas, ao visionar filmes como "La Collectionneuse" ou "Le Rayon Vert", compreende-se que a simplicidade espartana dos meios é cúmplice das sóbrias manobras de isolamento do indivíduo moral e sensual que são o cerne da sua obra.


QUANDO DOIS GRANDES ESPÍRITOS SE ENCONTRAM: O poeta Cesário Verde foi tratado pelo Dr. Sousa Martins. Falando com Silva Pinto, grande amigo do autor de "O Sentimento dum Ocidental", o preclaro Doutor terá declarado, em Maio de 1886, que ele estava "irremediavelmente perdido". A precisão do diagnóstico foi digna da ciência da personagem: no mês de Julho, Cesário Verde sucumbia à tuberculose.
O que fica por explicar são as impressões digitais de numerosas figuras do submundo lisboeta, dos seus apaniguados, de personagens influentes da alta sociedade, e de um titereiro especializado em historietas de robertos, numa das placas votivas deixadas junto à estátua do Campo Santana. Do lado direito de quem está voltado para o Hospital dos Capuchos.


CAME SO FAR FOR BEAUTY: Terminou mais um apaixonante inquérito; passo a divulgar os resultados. 37 leitores acharam que a Beleza é a mais importante das coisas, 23 optaram pela Verdade, e 19 disseram que não é nem uma coisa nem outra. Parece-me que estes resultados dispensam comentários, o que é uma sorte tremenda, pois não me ocorre nenhum.


Sexta, 25 Junho, 2004

CINEMA: "Uma Rapariga no Verão", de Vítor Gonçalves. Coisa singularmente versátil é um hiato! Ferramenta ou esquiva, estratagema ou acto de pudor, um hiato pode ser o único recurso dos pusilânimes, um sintoma de abdicação, ou um gesto criativo tão legítimo como poderoso. "Uma Rapariga no Verão" vive de elipses e de omissões; ou antes: é aquilo que sobrevive às elipses e omissões da narrativa. Na sua aparente arbitrariedade, o padrão de cesuras delimita segmentos de acção e diálogos, severos na sua parcimónia, carregados de uma força emocional que, na sua lentidão, acaba por impregnar todo o filme. As fronteiras entre o que é mostrado e o que a tirania da montagem omite imitam o limite entre a claridade do sol e as sombras, ou os contornos de corpos atravessados por desejos e pela sóbria consciência de uma fatalidade que está para além do tempo e da lógica. Isabel, a personagem principal, falha os exames e falha a própria vida, e todo o filme pode não passar de uma projecção, no (misterioso) Mundo, dessa consciência do malogro, isenta de tragédia, alheia às causas e consequências. "É sempre tarde demais" neste filme, como escreve João Bénard da Costa. Desde o início. O resto são farrapos de uma possível história que fosse capaz de abraçar os fragmentos e a fragilidade das relações humanas; uma história que sugerisse que o amor (ainda que tumultuoso) é possível, que a felicidade (ainda que fugidia) é possível, que falar em "sentido" é mais do que uma grosseira extravagância. (Farrapos que, aqui e ali, ganham fulgurante densidade própria, como a intensa sequência em que João Perry enfrenta a fera enjaulada.)
Este filme, de um pudor e de uma sensualidade superlativos, rodado entre 1982 e 1986 foi a única longa-metragem do realizador Vítor Gonçalves. (Seguiu-se uma média metragem, "Meia Noite", e, tanto quanto sei, mais nada a seguir.) Mais um meteorito, entre tantos outros, que riscou o firmamento desse continuadamente único cinema português. O tempo deste filme é ainda o de hoje.


1 + 1 VELAS PARA SOPRAR: Os Espelhos Velados e A Natureza do Mal fizeram um ano. Palavras para quê? São dois blogs portugueses. Não sei se usam pasta medicinal Couto, mas sei que merecem pelo menos 30 milhões de visitas por dia. Cada um.


ANÚNCIOS D'OUTRORA (8):

Brandy Macieira:

Muito se discorreu sobre a inclusão (ou não) de referências às "raízes cristãs" na Constituição europeia. E as referências à personalidade ímpar da fadista Hermínia Silva, responsável por muito do que de bom e nobre o Velho Continente produziu neste último século? Por que razão ninguém reclamou a sua justíssima inclusão? Que fazem os nossos deputados?

(Guitarrada num restaurante. Convívio e calor humano a rodos. A fadista Hermínia Silva remata um fado, com o brio costumeiro, e, sem transição, enceta um discurso.)
- Este fadinho foi dedicado aqui ao nosso Manel, que anda lá fora a lutar pra vida. Portanto, à saúde do nosso Manel e da nossa Alzira!
(Entusiástica ronda de aplausos.)
- E não te esqueças de levar contigo uma garrafinha de Macieira, para matar saudades da nossa terra!

(Em versões apócrifas que chegaram a circular, lê-se "lutar pla vida", mas todas as pessoas de bem sabem que a Hermínia dizia "pra vida". Assim o exige a legalidade republicana.)




Terça, 22 Junho, 2004

EURO 2004: Uma adolescente de Praga descobriu uma bolha no pé. Enquanto, lá fora, a neve atrai invectivas e se confunde com o destino, ela toca na pele dorida com as pontas dos dedos. Em seguida, com os nós. Um armário de arrumações numa lavandaria de Ipswich esconde uma alegoria da Virtude, com o rótulo desfeito pela humidade. Uma única vela ilumina um ginásio muncipal nos arredores de Cracóvia. Só um homem tem o direito de a apagar. Todos aqueles que, por malícia, confundiram a cor da sua íris com a cor da humilhação penetram, um por um, no gigantesco edifício. Para pedir perdão. O idioma polaco flui dos seus lábios, feito monótona rebentação de ondas. No mar Adriático, foi pescado um peixe brilhante como um sortilégio. Numa escola primária de Essen, um rapaz triste rouba uma bússola ao melhor amigo apenas porque o arrependimento o atrai como uma tentação poderosa. Numerosas fórmulas de polidez tombam em desuso, no coração da Andaluzia. Passaram-se catorze anos desde a última vez em que o mar do Norte foi cruzado por uma garrafa contendo uma mensagem. De todas as mensagens que não transitaram pelo mar do Norte no dia de hoje, uma servia-se de rodeios e alusões para exprimir uma dor recente mas intensa. Em Copenhaga, toma-se a nuvem por Juno, aos fins de tarde, os súbitos e surpreendentes fins de tarde de Copenhaga. Um Leitor Único passeia-se por lugares públicos. Ser visto sem ver. Uma funcionária dos serviços postais de Groningen mudou-se para um quarto mais pequeno do que o anterior. Os sons da rua chegam aos seus ouvidos com uma nitidez que não é bem vinda. Nesse mesmo quarto (mas ninguém nunca o soube) viveu alguém que traduziu a obra completa de Lautréamont, com doçura, com inquebrável devoção, num verão de chuva e de hiatos que deixou (secretas) marcas.


CENAS DOS PRÓXIMOS CAPÍTULOS: No decorrer da próxima semana...

(Rufar de tambores...)

...terá lugar neste espaço, para gáudio e edificação de todos...

(Som de trombetas... Suspiros ansiosos da multidão...)

...uma sumptuosa extravagância rohmeriana, com intervenções, tributos, reminiscências, devaneios, dislates fetichistas...

E O QUE MAIS ADIANTE SE VERÁ

Tudo em honra da estreia do último filme de Éric Rohmer, e da carreira deste autor, que toda a equipa do 1bsk venera a níveis compatíveis com a emissão de baba.


BURY MY HEART AT BARATA SALGUEIRO: Amanhã, na Cinemateca, a não perder: "Coitado do Jorge", de Jorge Silva Melo, às 19h30, e "Uma Rapariga no Verão", de Vítor Gonçalves, às 22h00. Entre o fim de uma sessão e o início da outra medeiam 50 minutos, tempo mais do que suficiente para saborear uns "espinafres 39 degraus", ou quaisquer outras vitualhas oferecidas na cafetaria da Barata Salgueiro.


A MENINA DANÇA?: Na estação de caminho de ferro de Vác, escutava-se, em música de fundo, "Zabadak", dos Dave Dee, Dozy, Beaky, Mick & Tich, heróis esquecidos dos anos 60, que eu aprendi a amar graças às emissões radiofónicas do Pedro Albergaria.
Foi deveras inesperado; mas será preciso que o destino se esforce ainda mais um bocadinho para causar impressão em alguém que já escutou "Last Year's Man", de Leonard Cohen, difundido pelos altifalantes do aeroporto internacional de Barajas, Madrid.


EUROPA A DUAS VELOCIDADES: Em Budapeste como aqui, os corrimões das escadas rolantes têm a arreliadora tendência de se deslocar mais velozmente do que os degraus. Tratar-se-á de uma constante universal?
Haverá explicação para tão gritante insuficiência tecnológica? Foi para isto que o Homo sapiens descobriu o fogo, inventou a roda, a charrua, a lâmpada de incandescência e os óculos com limpa pára-brisas?


O TEMPO DAS MUITAS PALAVRAS: Parabéns ao blog do melhorio Tempo Dual, que acaba de cumprir um ano. Haverá algum ditado relativo a blogs que nasceram com o solstício? Em todo o caso, obrigado pelas palavras, pelos momentos inspirados, e por existirem.


So daily I renew my idle duty
...

Leonard Cohen, "The Traitor"




Sexta, 11 Junho, 2004

...
Preserve my room, but do not shed a tear
Should rumors of a shabby ending reach you,
It was half my fault, and half the atmosphere


Leonard Cohen, "The Traitor"




VOLTO JÁ, VOLTE VOCÊ TAMBÉM: Durante uma dezena de dias, o 1bsk entra em pousio, devido à ausência dos três elementos do seu corpo redactorial (em Santiago do Chile, na praia da Manta Rota e em Budapeste, mas não digo quem vai para onde, por razões de segurança). Prometemos regressar lá para o solstício, com nova remessa de larachas. Entretanto, propomos um novo e apaixonante inquérito, onde desta vez se tentará averiguar se o mais importante é a Verdade ou a Beleza.


PORTUGAL DO MEU CORAÇÃO:



Existe uma história por detrás desta fotografia. Ela foi tirada há exactamente cinco anos. Vivia-se então um afã alegórico de que nenhum sector da sociedade se alheou. Procurava-se a imagem que melhor representasse a falibilidade humana. A vocação do país é uma vocação pictórica. Houve quem se aproximasse de um matiz consensual, e houve quem sucumbisse à solidão e à sede. Esta fotografia foi esquecida num bolso, e mostrada à assembleia no momento exigido. As flores escondem um sistema de rega engenhoso. A ausência de elementos não significantes pesa mais do que o vermelho profundo. Aquilo que foge ao alcance das palavras. A fotografia foi tirada no centro geométrico de Portugal, de acordo com cálculos generosamente erróneos. A opacidade da imagem incomoda? É uma imagem banal. Não é uma imagem como as outras. Alguém sugeriu que a fotografia requeria um texto à laia de complemento. Outros falaram em actos. Tempo, querido tempo, nem médico nem áugure, soberano e infalível.


A NOSSA NECESSIDADE DE CINEMA É IMPOSSÍVEL DE SATISFAZER: De 3 de Junho a 1 de Setembro decorre, no cinema Ávila, o ciclo "Os Grandes êxitos", que permitirá rever alguns dos filmes que passaram recentemente nas salas da Atalanta. Esta iniciativa, que ameaça tornar-se tradição sazonal, nada traz de novo em termos de diversidade cinematográfica; é, porém, de louvar, quanto mais não seja para trazer alguma animação e visibilidade à sala da Duque de Ávila, pelo futuro da qual sinto receio, atendendo às fracas afluências que constato quando lá vou. O preço dos bilhetes é convidativo: dois euros e meio.
Entre os filmes programados, contam-se alguns que não vi nem sinto vontade de ver, outros que já vi e gostarei de rever ("Quaresma", "O Estado das Coisas"...), outros que já vi mas não faço questão de rever para já ("Dogville", "Mystic River"...), outros que não vi e poderei aproveitar para descobrir ("Estranhos de Passagem", trilogia Belvaux...).
E depois há ainda filmes que...






Terça, 8 Junho, 2004

NÃO RECONCILIADOS: Espero não ser o único a achar insuportável e aviltante a imagem de Ali Alatas recebido por Ana Gomes e Ramos-Horta, com direito a honras e elogios ao seu calibre de estadista. Durante anos, Alatas foi o rosto da cínica e reiterada intransigência indonésia face às pretensões de autodeterminação dos timorenses. Ao contrário de muitos outros, não terá sangue nas mãos, mas é como se tivesse, pois foi um dos responsáveis por uma política externa conivente com uma ocupação brutal e desrespeitadora dos direitos dos homens.
Se é na realpolitik que urge apostar para assegurar um mínimo de estabilidade para a jovem nação timorense, pois assim seja. O bem estar dos timorenses é, como é óbvio, infinitamente mais importante do que considerações abstractas e minudências geopolíticas. Porém, acredito que deve existir um limite a partir do qual a realpolitik se transforma em desvario, em atentado à decência; e esse limite, neste caso, foi transposto, en masse, e com uma ausência de reacção que me deixou pouco à-vontade.
O valor do perdão depende da possibilidade de se negar esse mesmo perdão. O perdão sistemático, em nome de conveniências e do fluxo da História com o seu Grande H, é a negação do próprio perdão. Eu não perdoo ao ex-ministro dos Negócios Estrangeiros da república indonésia. O meu não-perdão vale o (muito pouco) que vale, mas sentir-me-ei melhor depois de o deixar expresso.


EM BREVE NUMA SALA PERTO DE SI (OU NÃO TÃO PERTO QUANTO ISSO): Pude já ver em Paris "Triple Agent", o último Rohmer, mas anseio por um segundo visionamento. O que não conhecia era a banda-anúncio, que me parece excelente: num minuto ou dois, a essência do filme aparece exposta com elegância e concisão. As poucas frases da personagem principal, interpretada por Serge Renko, revelam as tensões entre afirmação e dissimulação (e seus friáveis opostos) que percorrem todo o filme. "Por vezes é mais inteligente dizer a verdade do que mentir, pois desse modo ninguém te acredita", esta sentença poderia servir de mote, à medida das máximas que abriam as "Comédias e Provérbios". "Triple Agent" é um Rohmer quintessencial, límpido e tenso de ambiguidades, perturbador e brilhante no seu classicismo que muitos, como sempre, não hesitarão em confundir com academismo de telefilme.
Deixo a promessa (assim mo permitam as migalhas de tempo livre que vão caindo das mesas inacessíveis dos Senhores do Tempo) de, para além da crítica ao filme, mobilizar as forças vivas doblog para um tributo a Rohmer, à medida da admiração que o colectivo lhe dedica.
A última data que vi anunciada para a estreia entre nós de "Triple Agent" foi 17 de Junho, o que quer dizer que estarei ausente no dia D. Depois de "Vai-e-vem", é a segunda vez que isto me sucede. Creio que estava na altura de o Sr. Paulo Branco dar um passo em frente e explicar o que tem contra mim.


ANÚNCIOS D'OUTRORA (7): Do blog do melhorio Palavras da Tribo chegou-nos um contributo para esta rubrica. Trata-se de um anúncio dos anos 50, que não terá passado mais de duas vezes na RTP, antes de ser banido, por razões que se me afiguram por demais óbvias.

«Porque teima V. Exa. em manter-se vivo? Agência Magno proporciona funerais de elevada qualidade a preço convidativo.»

Apresso-me a esclarecer que, nos loucos anos 50, este vosso criado ainda não vira a luz do Mundo, e que recuar tão atrás no tempo vai contra o propósito inicial deste espaço, que é o de dar a conhecer pérolas da criação publicitária que marcaram a minha geração. Mas a ocasião é soberba para revelar a (suspeita) fixação que tenho em anúncios de agências funerárias. Folheando as páginas amarelas de Lisboa, deparo, por exemplo, com a garbosa agência Lourenço, cujo lema é "A missão é ingrata, mas estamos para servir com nobreza, honestidade, amizade e competência"; poucas páginas adiante, quem nos propõe os seus serviços é a agência Mafrense, que anuncia "Nos piores momentos as melhores condições", um autêntico clássico do género.


VENUS IN FURS: Pode ser impressão minha, mas pareceu-me que hoje havia um buraco no sol.


Sábado, 5 Junho, 2004

NO HAY BANDA...: Hoje nem era minha intenção postar, mas não quis deixar de assinalar que este dia fica marcado por três momentos de felicidade. O segundo momento foi saber que o filme "Mulholland Drive" ia ser exibido hoje, na RTP2, às 23h15. O terceiro momento será o próprio visionamento do filme; um momento que durará 147 minutos.


Sexta, 4 Junho, 2004

SINAIS DE ALERTA: Algumas frases, supostamente de promoção, que me fazem evitar certos filmes como se fossem portadores da peste bubónica:

Uma comédia despretensiosa

Um fresco monumental (e porque não uma aguarela ou um óleo?)

O retrato de uma geração

Um magnífico retrato de mulher (por qualquer razão insondável, nunca se vêem retratos de homem, magníficos ou não)

Um filme para toda a família (alguém conhece famílias inteiras que gostem de Buñuel ou Antonioni?)




LUGARES DE PARIS: Conforme prometido, aqui está outra imagem da ponte Mirabeau, de onde o poeta Paul Celan saltou para a sua morte, em 1970.



Onde fica a ponte Mirabeau? A pergunta é legítima. A ponte Mirabeau é uma das pontes sobre o Sena que, em Paris, fica situada mais a jusante. Une as margens esquerda e direita à altura da rue de la Convention e da igreja de Auteuil, respectivamente. Léo Ferré prestou-lhe homenagem numa canção muito conhecida («Sous le pont Mirabeau/Coule la Seine»). Para lá chegar, várias alternativas se oferecem ao visitante. As estações de metropolitano mais próximas são Javel-André Citroën, Mirabeau e Église d'Auteuil, todas da linha 10, que une Boulogne à estação de Austerlitz. Há ainda a linha C do comboio suburbano (RER), com uma paragem em Javel. O autocarro é uma solução viável: a carreira 62 é a única que percorre a ponte. A pé, o número de itinerários é apenas limitado pela imaginação: seguir o curso do rio, no sentido contrário ao da corrente, a partir do intrigante parque André Citroën, ou então servir-se da ponte como ponto de chegada de um périplo pelo 16ème arrondissement são sugestões tão válidas como quaisquer outras. Tentei encontrar um poema de Celan sobre pontes, mas não consegui.


Quinta, 3 Junho, 2004

ESPÍRITO, ESTÁS AÍ?: O que tem de extraordinário que Alexandra Solnado converse com Jesus? Pelo que me toca, não dispenso o meu tête à tête bidiário com o Dr. Sousa Martins. O teor das conversas não é divulgável, mas adianto que ele nunca me trata por "cabrito", preferindo recorrer a outras espécies zoológicas (nisto gosto eu de ver um sinal de deferência). Têm sido as conversas com o Dr. Sousa Martins que me têm afastado de uma vida de devassidão e tumulto moral.


AS AVENTURAS DE MANUEL "EU TENHO UM PARTIDO NOVO, A SÉRIO QUE TENHO!" MONTEIRO: Como é possível que nenhum jornalista tenha ainda feito a Manuel Monteiro a única pergunta que importa fazer? Afinal de contas foi ele ou não foi ele quem disparou sobre a multidão de mendigos em Lahore?


AI DOS INCRÉUS!: A triste contumélia lançada por Telmo Correia ao Bloco de Esquerda é reveladora de preconceitos com vida dura. O dinheiro para a campanha do BE não virá do céu "porque eles não acreditam no céu". Deixo por comentar a insinuação relativa a financiamentos mais ou menos obscuros; mas atente-se na candura com que Telmo Correia, como quem não quer a coisa, bate na tecla da impiedade. Certas mentalidades permaneceram estagnadas desde os tempos em que o agnosticismo era, mais do que um crime ou uma afronta à sociedade, uma extravagante aleivosia reveladora de insanidade mental.


ASSIM SE AMASSA...: Custa a este meu telencéfalo compreender como é que um partido, como o Bloco de Esquerda, pode criticar a falta de conteúdo político da campanha eleitora, e depois sair-se com essa pérola de criatividade que são os cartazes do padeiro. Votar em quem lhes bate mais forte? A dimensão política e polémica da mensagem não ultrapassa o mais bacoco e caceteiro populismo. Seja. Pelo menos, deste modo, todos ficamos cientes de que as expectativas quanto ao interesse e relevância da campanha são uniformemente nulas. É bom saber aquilo com que se pode contar.


LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: O dia de ontem foi simplesmente glorioso! Na linha verde do metro, foi avistada uma senhora que lia (com a maior compenetração) uma colectânea das obras de Wallace Stevens, em versão original.
Mesmo usando os critérios mais severos e circunspectos, isto merece trinta pontos de bónus. Jogo, partida e encontro!


O TERCEIRO K: (Depois de Kleist e de Kierkegaard.) Franz Kafka morreu há exactamente 80 anos. Desde o momento em que li pela primeira vez uma frase deste autor, até ao presente, nunca deixei de o admirar. Anos, influências passageiras, rotações terrestres, gostos, interesses, foram e vieram, mas o respeito pelo poder profundo da prosa de Kafka permaneceu, mudo e intacto.

«Os leopardos invadem o templo e esvaziam os vasos sacrificiais. Esta situação repete-se constantemente. Até que por fim pode ser prevista e então torna-se uma parte da cerimónia.»("Considerações sobre o pecado, o sofrimento, a esperança e o verdadeiro caminho", Hiena editora, tradução de Cristina Terra da Motta)




Terça, 1 Junho, 2004

DA INJÚRIA COMO ARTE: Já ganhei o dia. Fiquei a saber que Paul Claudel descreveu Jean Giraudoux como «littérateur égrillard et voltairien qui est la figure dominante de notre littérature». Visivelmente, "voltaireano" era um dos mais torpes insultos de que o autor de "Le Soulier de Satin" era capaz de se lembrar. Condiz com a personagem. O homem e o artista nunca se devem confundir, mas por vezes dão-se as mãos e passam um rico fim-de-semana juntos.