Heinrich von Kleist (1777-1811)Liberté Egalité FraternitéNo tabuleiro de xadrez, as mentiras e a hipocrisia não duram muito (Em. Lasker)Monty Python forever!

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maio 2003

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Sábado, 31 Maio, 2003

SOBRE A MINHA VISITA À SEPULTURA DE WITTGENSTEIN: Ludwig Wittgenstein (1889-1951) morreu e foi inumado em Cambridge, Cambridgeshire, Inglaterra. Para visitar o local da sepultura, a pé, pode-se, a partir do centro da cidade, seguir pela Bridge Street, na direcção NW, até esta mudar de nome para Magdalene Street; cruzar o rio Cam; prosseguir na mesma direcção, cruzando a Chesterton Lane e percorrendo a Castle Street até ao fim; enveredar pela Huntingdon Road, sempre na mesma direcção; deixar sucessivamente à mão esquerda o edifício do Fitzwilliam College, o Trinity Hall Sports Ground; virar à esquerda, na estreita alameda logo após Storey's Way; seguir sempre em frente, até se chegar ao St. Giles's Burial Ground. As indicações sobre a localização do túmulo são escassas e discretas. Existe uma carreira de autocarro que serve a zona: trata-se da carreira número 6, que liga Fulbourn a Oakington, passando por Teversham, Cherry Hinton, Cherry Hinton Road, City (St. Andrew's Street), Girton Corner, Girton (church) e Oakington (crossroads). Funciona de segunda a sábado (excepto feriados). Passagens todas as meias horas. Outra alternativa é fazer o trajecto em bicicleta. Podem-se alugar bicicletas, por exemplo, nos seguintes estabelecimentos: Geoff's Bike Hire (65 Devonshire Road) e Ben Hayward Cycles (69 Trumpington Street). Em cima da pedra tumular, encontrei: duas pilhas de moedas; uma escada de madeira em miniatura; um ramo de flores secas. Wittgenstein escreveu: «A solução do problema da vida é uma maneira de viver que faça desaparecer o problema.».


Quinta, 29 Maio, 2003

B: Falavas em...
A: ...espanto.
B: O espanto de quem vê e não esperava?
A: De quem suspeita e sonda o eco.
B: Usavas como imagem...
A: ...lábios inchados pelo frio.
B: Mas exprimias-te como se fosse um hino; admirei-te por isso.
A: Um hino pobre, um hino de folhas e de cal, tocado em instrumentos de brinquedo.
B: Ainda assim.
A: Estavas presente quando tremi?
B: Eu estou sempre presente.
A: Mas oculto, por vezes.
B: Disfarçado de sombra, de seta do tempo, de pele da nuca.
A: Tremi, mas sem verter.
B: Obra de um momento.
A: Mão esquerda e mão direita.
B: Pois, o uníssono.
A: Sou todo eu, a minha transparente pessoa.
B: A tua pessoa no meio da...
A: ...clareira.
B: Ânsia da espera e resignação. Rara mistura.
A: O tempo não é meu amigo.
B: O tempo não é amigo de ninguém. Benigno agente duplo, quando muito.
A: O áspero do tempo flui e faz-me recear a verdade.
B: Toda a verdade?
A: Não. Apenas uma verdade.



Terça, 27 Maio, 2003

Ludwig Wittgenstein

«Die Welt des Glücklichen ist eine andere als die des Unglücklichen. (O mundo dum homem feliz é diferente do dum homem infeliz.)» (Ludwig Wittgenstein)







B: E o que fazes quando o pânico ronda?
A: Cito Wittgenstein.



A: É verdade. Havia ainda isso.
B: Tinhas-te esquecido?
A: Um pouco.
B: Ou ignorado, apenas?
A: Não, esquecido mesmo.
B: Usa-o como uma medalha, ou como um espinho espetado na carne; mas nesse caso, acarinha-o sempre.



Segunda, 26 Maio, 2003



Não se exige do repertório do bonecreiro que este seja demasiado versátil: os enredos mais clássicos, envolvendo bruxas, arlequins, princesas e patuscos agentes da polícia nas doses certas, e segundo os cânones consagrados pelo uso, sobejam tanto para os fins como para os meios. As histórias não podem deixar de envolver uma forte dose de violência, violência gratuita, absurda, prolongada até a uma exaustão que se confunda com a própria essência do burlesco. Uma das personagens deve ser punida impiedosamente, sem que se perceba exactamente porquê. Esta injustiça flagrante não pode deixar de chocar o espírito infantil, que possui já um sentido da moralidade, ainda que incipiente. Porém, a criança é capaz de assimilar com surpreendente rapidez esta brusca irrupção de um elemento estranho ao seu universo. À segunda vez, aquela angústia dilacerante que a fazia gritar, um grito que era mais guincho do que grito, superiormente belo e puro, e agudíssimo, será já modulada pelo conhecimento de causa, e o efeito de surpresa não terá mais poder sobre ela. O medo volta a fazer-se sentir, mas a certeza de que tudo aquilo terá em breve um fim, e a familiaridade (os enredos nunca devem mudar, nem os tempos de entrada das personagens, nem as falas, tão pouco o número de golpes desferidos), como que o domesticam, cada vez com maior eficácia. A criança, por indução, convence-se de que aquele, o horror mais arbitrário que alguma vez viu perpetrado, é o maior horror que existe no mundo - da mesma maneira, para os antigos, Homero era, por si só, toda a literatura, e no entanto esses indivíduos amavam profundamente as letras, na sua diversidade e riqueza incomensuráveis -, e isto transmite-lhe uma sensação de domínio, quase afim à volúpia, uma vez que vem acompanhada pela certeza de que, se for suficientemente robusta para suportar aquilo que vê, passará a ser invulnerável ao sofrimento. E é por tudo isto que a petizada acorre, largando aquilo que estava a fazer, sem olhar para trás, assim que escuta o som do pífaro de plástico de que o titereiro se serve para efectuar o seu chamamento. E é por isto que o silêncio se faz espontaneamente, sem admoestações nem necessidade de segundos avisos, em torno da barraca dos fantoches.
O grito, todavia, faz-se sempre ouvir, independentemente do facto de se tratar da primeira, da segunda ou da décima vez. Não se pode evitar, o grito. Soa como se rasgasse o ar, e - dir-se-ia - na vertical, edificando uma delgadíssima e efémera coluna de som.
E a GRAÇA das marionetas, de que falava Kleist, no meio disto? Se bem que acanalhada e pintalgada, ela está ainda presente nas violentas tropelias dos robertos: a verdade despida de artefactos seria demasiado insuportável (outro nível de horror, que ninguém nos preparou para suportar).



COMENTÁRIOS AO PALMARÉS DE CANNES: Sem ter visto nenhum dos filmes, limitamo-nos a comentar tendências. Independentemente dos filmes propriamente ditos, satisfaz-nos que o palmarés tenha sido ousado, avesso a conformismos, idiossincrásico. Não foram defraudadas as esperanças que depositávamos em Patrice Chéreau: sob a sua batuta, o júri deu à luz um quadro de premiados que foge à morna previsibilidade que tinha vindo a prevalecer, nos últimos anos. Não podemos deixar de evocar a entrega dos prémios do Festival de 1999, em que, sob a presidência de um David Cronenberg cujo sorriso malicioso nunca o abandonou, dois filmes resolutamente contra a corrente ("Rosetta" e "L'Humanité") açambarcaram as principais distinções, para escândalo dos profissionais do cinema, cuja indignação corporativista chegou a raiar o ridículo.
Quanto a Greenaway, saiu com as mãos vazias. Outra coisa não seria de esperar. Seria necessária uma qualquer conjunção astral inverosímil (ou então, que o júri fosse composto por clones do João Lopes) para que se decidissem a prestar alguma atenção àquilo que diz e filma o autor the "The Tulse Luper Suitcases". Aquilo que posso garantir é que um tal esquecimento não o fará perder nem sono, nem quilogramas, nem seguidores.


LETTER FROM AMERICA: A América escreve-nos, nós transcrevemos: «No meu sonho, era capaz de me lembrar do final do filme "Détective" com surpreendente nitidez, mas eram baldados os esforços para me lembrar do final de um outro filme, "Éloge de l'Amour". Assim que acordei, consegui recordar-me imediatamente dos dois! Depois disto, não me venham dizer que o mundo real é mais hostil do que o mundo dos sonhos.» Para a América, é fácil falar... Vive no Portugal profundo, visita com assiduidade a bonita cidade de Évora, onde joga gamão com um responsável pelo pelouro da habitação, ambiciona cruzar a pujança plena de convicção de Courbet com a urgência nervosa de De Kooning, e tem cabelos morenos, longos, lisos e lindos, que lhe dão pelos ombros.


MAISUMBLOGPARAOSFAVORITOS: Queria deixar uma referência muito especial para um (relativamente) novo blog, Linha dos Nodos, da autoria de um bom amigo meu (e colega de andanças científicas), o David Luz. O David teve o bom senso de se exilar em Paris; entre as solicitações constantes de que a mais prodigiosa cidade do universo é capaz e as suas investigações astrofísicas, descobriu tempo para manter um blog que, pela amostra, será ecléctico, abordando desde a ciência e a literatura à actualidade e ao cinema. Não deixem de visitar! Até (muito em) breve, David.


Jacques Rivette

«Quel est le but du cinéma? Que le monde réel, tel qu'offert sur l'écran, soit aussi une idée du monde.» (Jacques Rivette)







24 VEZES POR SEGUNDO: Os comentários recentes do "Abrupto" sobre cinema francês geraram um mini-debate blogosférico (onde tomaram parte ainda o "De Esquerda" e o "Espada Relativa"). Dizem que se deve malhar no ferro enquanto este está quente; porém, infelizmente, o volume de trabalho tem sido incompatível com a taxa de libertação de calor do ferro, por isso é com algum atraso que volto a abordar este tema que tanto me diz. Algumas notas soltas, tão somente.

1) A origem da reputação de profundidade (com ou sem aspas, para o caso tanto dá) filosófica do cinema francês não é clara, mas tudo indica que emana da geração dos "Cahiers du Cinéma" e da Nouvelle Vague, cujas principais figuras (Truffaut, Rohmer, Godard, Rivette, Doniol-Valcroze, Douchet) possuíam uma apetência muito forte para a teorização da coisa cinematográfica, na esteira da influente personalidade de André Bazin. Esse esforço de teorização, não sendo "filosófico" no sentido estrito do termo, entrava em forte ressonância com a paisagem das ciências humanas francesas da época, e possuía uma profundidade e pujança intelectual absolutamente notáveis. No entanto, não é nada límpido estabelecer um elo entre esta fase da história da crítica cinematográfica e a praxis do cinema nas décadas subsequentes. Pessoalmente, defendo que a influência da Nouvelle Vague no cinema contemporâneo é bem menos importante do que alguns apregoam (quase sempre num propósito depreciativo), e que a propensão filosófica da geração actual de cineastas franceses não é mais nem menos forte do que noutros países. O que existe é a gravidade e a consciência de um cinema que se assume como um fenómeno artístico maior, que encontram eco numa crítica que não perdeu o hábito salutar de pensar o cinema, em lugar de se limitar a opinar sobre as virtudes e defeitos de um filme. É esta sinergia que, possivelmente, continua a alimentar, como uma chama sagrada, a ideia de um cinema francês pesadão, dado à reflexão, melancólico, umbilical, pretensioso.

2) Esses mesmos papas da Nouvelle Vague, envoltos na sua reputação de monges estilitas do cinema, de áridos e savonarolescos inimigos do cinema lúdico e divertido, foram responsáveis por obras plenas de ligeireza e de graça vaporosa: "Tirez sur le Pianiste", "Une Femme Est Une Femme", "Le Rayon Vert", "Va Savoir", "Adieu Philippine" (de Jacques Rozier, uma autêntica pérola), etc... etc...

3) A quase totalidade do cinema artisticamente relevante que se faz fora dos EUA faz-se, nos dias de hoje, com dinheiro francês. Isto não é apenas uma questão meramente comercial; é também uma ideia do cinema em acção.




Domingo, 25 Maio, 2003

FREEDOM FRIES ANYONE?: Numa carta recente, o embaixador francês nos EUA denunciou a odiosa campanha de desinformação antifrancesa a que se entregou a grande maioria da comunicação social norte-americana, na sequência da batalha diplomática entre os dois países a propósito da intervenção militar no Iraque. Nesta campanha, na qual participaram órgãos da imprensa escrita que são tidos geralmente por bastiões do rigor informativos, valeu de tudo: calúnias, insultos, alegações de veracidade mais do que duvidosa, e rasteiras alusões a tudo o que emanasse de França ou que participasse da sua cultura. Numa altura em que tanto se fala de antiamericanismo, é irónico constatar que esta investida feroz, brutal e maciça assumiu proporções várias ordens de grandeza superiores a quaisquer manifestações de antiamericanismo que tenham surgido deste lado do Atlântico. Qualquer jornalista que se tivesse permitido produzir um discurso cuja virulência atingisse um por cento da que certos editorialistas americanos empregaram seria imediatamente crucificado e acusado de antiamericanismo (primário, já se vê).


AINDA GREENAWAY: Vasco Câmara, crítico do "Público" que merece respeito e crédito, escreve hoje acerca de "The MOAB Story": «(...) a primeira amostra do projecto é enciclopédica, voraz na acumulação de informação, citações (cita tudo, até Greenaway) e números, no estilhaçar do plano como unidade cinematográfica e na ausência de modéstia». Falta de modéstia? Seja. Se a profusão de ideias sobre o cinema e a Arte em geral, a vontade de as explorar de maneira coerente, criativa e ousada, a erudição, a articulação dos pontos de vista num discurso claro, incisivo e cáustico, a hiperactividade e a desmultiplicação em inúmeras actividades e projectos equivalem a presunção, então Greenaway é o mais imodesto dos cineastas, a anos-luz do medalha de prata.


Sábado, 24 Maio, 2003

Richard Dawkins

«Most people, I believe, think that you need a God to explain the existence of the world, and especially the existence of life. They are wrong, but our education system is such that many people don't know it. .» (Richard Dawkins)







MISTÉRIOS DA FÉ: Um bilhete misterioso na minha caixa do correio! Nele se lê o seguinte (escrito à mão, caligrafia regular, mal cortado): «Senhora, religiosa, honesta, oferece-me [sic] para limpeza o [sic] passar ferro. 2ª - 6ª feira de manhã 8.00 - 14.00 h. TM. 9XX XXX XXX - Xxxxx».
Aquilo que me escapa aqui é a relevância da religiosidade, reivindicada numa posição prioritária, para a execução de trabalhos domésticos desta índole. Contudo, não deixa de fazer um certo sentido: sentir-me-ia eu em paz comigo mesmo se um pagão ou um agnóstico, na sua impiedade trapalhona, se ocupassem dos colarinhos das minhas camisas? Certamente que não.
É por essas e por outras que o Richard Dawkins aparece em público com as roupas cheias de vincos e borbotos.


ECOS DA CROISETTE: Eurico de Barros comenta o filme de Peter Greenaway, "The Tulse Luper Suitcases - The MOAB Story", apresentado na Selecção Oficial do festival de Cannes: «(...)não passa de poeira para os olhos de "vanguardismo" laboratorial, repetitivo e estéril». Faltou falar do misantropismo terminal e da sobranceria, outras das críticas recorrentes que costumam ser dirigidas a Greenaway. Quanto a este vosso criado, e já que nenhum órgão da imprensa escrita me paga alojamento, viagem e ajudas de custo para ir à Côte d'Azur debitar inanidades, resta-me desejar que o vanguardismo laboratorial, com ou sem aspas, estreie rapidamente num cinema perto de mim. Estarei na quinta fila a contar do ecrã, sexta cadeira a contar da coxia do lado esquerdo, com um ou dois livritos de Kleist gentilmente tombados no regaço.


POUSIO: Tanto tempo sem posts... A culpa foi das taxas de juro, da vaga de calor, da conjuntura internacional, do patronato, da segunda lei da termodinâmica, ou da Yoko Ono. À escolha.


Quinta, 22 Maio, 2003

BRODSKY PORQUE SIM:

(...)

I was practically blind.
You, appearing, then hiding,
gave me my sight and heightened
it. Thus some leave behind

a trace. Thus they make worlds.
Thus, having done so, at random
wastefully they abandon
their work to the whirls.

(...)

Joseph Brodsky
(in "To Urania", tradução de Paul Graves)
(© the Estate of Joseph Brodsky)



Segunda, 19 Maio, 2003

A PROPÓSITO DE ABERTURA AO MUNDO: Mas não foste tu mesmo, Ponziani, quem insistiu para que nos abríssemos ao exterior, que nos humilhássemos perante a variegada paleta da natureza e perante a rouquidão da voz humana, antes de nos tornarmos dignos de pronunciar palavras de morte e paixão aniquilada pela sua fome de absoluto, sobre um palco improvisado? Põe os teus olhos verdes/azuis em nós: tornámo-nos cidadãos exemplares, os nossos membros tremem de fúria cívica, a sociedade tem confiança em nós e prova-o por meio de dádivas; seguramos as portas para deixar passar quem vem atrás de nós, deixamos sair os outros passageiros antes de entrar na carruagem do metro, e a candura do nosso trato é tamanha que alguns a confundem com ecumenismo. Povoámos a pólis, e agora regressamos para empunhar a lança numa posição mais letal, com nova e segura destreza. Que mais nos é pedido? Agora que a nossa vida é digna das nossas deixas, vais exigir-nos também o inverso?


CINEMA(2): Escreve Pacheco Pereira no seu "Abrupto": «Uma das coisas que me faz ainda gostar mais do cinema americano e abominar a "excepção cultural" dos franceses é a capacidade que tem de manter o cinema como espectáculo e de tratar histórias complexas sem perder a complexidade. Porque imaginem o que a basófia filosófica dos franceses faria a histórias, como a do Blade Runner , do Matrix , ou do Minority Report , ou do Crash , ou as dos filmes de David Lynch transformando-as em filmes de tese , impossíveis de ver com prazer e perplexidade.». Claramente, não temos estado a ver os mesmos filmes franceses. A tendência predominante no cinema francês, pelo menos desde os anos 70, tem sido um naturalismo voltado para o quotidiano e para a exploração das relações pessoais (alcunhado depreciativamente de "cinema deux pièces cuisine"), cujos expoentes máximos são Maurice Pialat e Jacques Doillon, e cuja componente "filosófica" (mesmo entendida na sua acepção simplificada de "dada à reflexão sobre o mundo") é francamente ténue. Invertendo o sentido da especulação, não resisto a imaginar aquilo que faria o rolo compressor hollywoodesco de filmes como "Les Roseaux Sauvages", "La Reine Margot", "Conte d'Automne" ou "Ressources Humaines", para citar apenas alguns exemplos de obras relativamente recentes que obtiveram uma apreciável projecção no nosso país. Quanto à incompatibilidade entre filme "de tese" e "prazer", quem tem seguido este blog com um mínimo de regularidade sabe que ela não tem aqui direito de cidade.


CINEMA(1): Escreve Eurico de Barros sobre o filme "Les Égarés", de André Téchiné, apresentado recentemente em Cannes, que «...passa hora e meia a perseguir a própria cauda, enquanto Emmanuelle Béart faz cara de neura.». Palpita-me que vou gostar. Uma apreciação negativa de Eurico de Barros, sobretudo se lacónica e categórica, é das melhores recomendações que conheço.


Domingo, 18 Maio, 2003

Richard Dawkins

«Faith is the great cop-out, the great excuse to evade the need to think and evaluate evidence. Faith is belief in spite of, even perhaps because of, the lack of evidence.» (Richard Dawkins)









CONTAGEM DECRESCENTE: Já só faltam 6-dias-6 para que o novo filme de Peter Greenaway seja exibido em Cannes!!!!!!


LEITURAS: Os leitores atentos terão possivelmente estranhado a escassez de posts sobre livros e filmes, nos últimos tempos. Isto deve-se em parte a um emprego do tempo carregadíssimo, mas não é esta a única explicação. Antes de receber o imprimatur, todo o palavrório sobre arte e cultura aqui publicado é revisto por um colega meu, que dá pelo nome de Agatão, que tem a seu favor uma erudição e um sentido do gosto apuradíssimos que justificam o seu estatuto de árbitro das aparências, e que tem contra si ser dado a caprichos, qual deles o mais escabroso. Na sua correspondência, Agatão é dos poucos cidadãos da República que ainda utiliza lacre do verdadeiro. Infelizmente, e mau grado a abundância de estabelecimentos do ramo com tradição de excelência na capital, ele insiste em utilizar uma variedade de lacre que é importada apenas por uma papelaria de gestão familiar, situada em São Brás de Alportel. Assim sendo, o nosso intercâmbio epistolar encontra-se dependente das incursões do Agatão ao sotavento algarvio, bem mais infrequentes do que ele desejaria. A cereja no bolo é a insistência, da parte dele, em ser atendido apenas por uma das duas empregaditas da papelaria, com quem ele simpatiza, e que retribui, e nunca, em caso algum, pela outra, com quem ele antipatiza, e que também retribui. Sempre que depara com a "jovem harpia" (assim lhe chama ele) atrás do balcão, retira-se imediatamente, de péssimo humor.
Mas chega de Agatão. Queria deixar algumas palavras sobre "Course d'amour pendant le deuil", romance da autoria de Florence Delay, publicado pela Gallimard (1986). O percurso da autora não é dos menos singulares, mesmo em França, onde toda a gente que é alguém acaba por escrever um livro. Actriz, protagonizou o filme de Bresson "Le Procès de Jeanne D'Arc", tendo mais tarde enveredado por uma carreira literária, que acabou por levá-la à Academia. Essencialmente romancista, colaborou também com Jacques Roubaud (do Oulipo) num projecto intitulado "Graal Théâtre". "Course d'amour..." apresenta, antes de mais, interesse pela maneira eficaz e poderosa como evacua o problema da "razão de ser" de um texto ficcional. Sebastiano Lavia, esteta sem obra publicada, mestre desmesuradamente amado por discípulos espalhados ao longo de um crescente Itália-Áustria-Midi, morre; no ano que se segue, a teia de rivalidades, paixões, invejas, arrependimentos, mal entendidos, tece-se a si próprio, fruto do cruzamento entre a natureza humana posta a nu pelo desgosto, do acaso e de uma vontade que perdura após o falecimento daquele que foi tudo para todos. O "mestre sem obra" deixa assim à posteridade como que um prolongamento dos seus talentos, sob a forma de mulheres e homens no espaço e no tempo, em rota de colisão, matéria viva demasiado maleável, friável, decepcionante, e no entanto inimitável na sua natureza pulsátil e variegada. O romance dura aquilo que dura a vontade de um morto de oferecer a sua vontade e a sua memória como um pólo que sustente meia dúzia de vidas paralelas, atravessadas, emaranhadas umas nas outras. Uma traição, uma recusa amorosa, uma alegria súbita, também se emancipam, como uma pessoa; ao reclamarem o seu espaço, fragmentam essa unidade insuportável que subjugou destinos e quotidianos. O enredo traz consigo a própria necessidade de se autodestruir. Enquanto esse momento não chega, aquilo que se assiste é à urgência constante de criar uma estrutura e preencher os seus interstícios. Alguns dos nichos valem, só por si, o desvio, como por exemplo o malogro anunciado de um monólogo dramático baseado nos diários de Pontormo, mestre renascentista e hipocondríaco inveterado.


CASUS BELLI: Não resisto a transcrever na íntegra esta "curta" do sempre útil semanário "Marianne": «Selon l'ambassadeur américain à l'ONU, John Negroponte, les inspecteurs de l'Organisation chargés du désarmement n'ont aucun rôle à jouer en Irak. C'est exactement ce qu'avait dit Saddam Hussein en son temps, et c'est d'ailleurs pour ça qu'on lui a fait la guerre.»


O MUNDO É TUDO AQUILO QUE É O CASO: Nos últimos dias, assiste-se a uma tendência, por parte da comunicação social, para consagrar uma absurdamente alta proporção do tempo ou espaço disponíveis com notícias que não o são, que podem vir a sê-lo, ou que talvez sejam: aparições de Fátima Felgueiras, casos suspeitos de pneumonia atípica, boatos sobre a integridade física de Saddam, Bin Laden e quejandos, candidatos a candidatos a candidatos às presidenciais de 2006... E se os senhores jornalistas se decidissem a falar mais amiúde daquilo que realmente se passa no mundo? Deixem o deboche especulativo para a imprensa desportiva, que o faz melhor do que ninguém.


Os lamentáveis acontecimentos de Felgueiras, que culminaram com as agressões repetidas a Francisco Assis, foram vergonhosos, chocantes, degradantes, deploráveis. Assistimos, tal como tantos milhares de portugueses, com um misto de incredulidade e de repúdio a esta violenta manifestação de hostilidade que faz pensar até que ponto o mito dos "brandos costumes" das nossas gentes não esconde uma realidade bem sinistra e pouco reconfortante. Os energúmenos que fizeram o possível para passar a vias de facto não merecem viver em democracia. Quanto a todos aqueles que, bem à portuguesa, e a coberto da multidão, se limitaram a assistir, "para ver no que é que dava", sem abdicar de lançar uma boca ou duas de vez em quando, são culpados de conivência moral perante tão cobarde acto. A atitude de Francisco Assis foi exemplar: na impossibilidade clara de argumentar de maneira racional com os "populares" (que assim redefiniram com enorme brio o conceito de "vigília pacífica"), Assis retirou-se, sem fugir, sem apressar o passo, e sem esboçar uma riposta, que não deixaria de ser encarada como provocação. As suas declarações após o sucedido foram também um modelo de sensatez, moderação e sentido de responsabilidade. Devemos todos condenar, com toda a veemência, estes odiosos actos, independentemente da situação político-judicial que lhes deu indirectamente origem, e evitando toda e qualquer recuperação ou extrapolação apressada relativa à conjuntura actual do país (Carvalho da Silva, Carlos Carvalhas, isto é convosco).


Sexta, 16 Maio, 2003

USO E ABUSO: Na sua coluna da última página do DN de quinta-feira, Francisco Sarsfield Cabral, jornalista que é por norma cordato e razoável, permite-se uma deriva simplista que nem a brevidade inerente ao espaço reduzido justifica. (Por acaso, tem também a ver com o palindrómico ex-candidato Menem.) «A globalização dá muito jeito: tornou-se a explicação fácil para as desgraças do mundo. (...)Mas, depois do colapso do comunismo, ainda não se encontrou melhor do que estas asneiras para exprimir a raiva contra o capitalismo.» Não é preciso ser-se jovem borbulhento com t-shirt do Che e cartão da ATTAC no bolso esfarrapado para se admitir que as manifestações contra a globalização reflectem muito mais do que uma desconfiança pacóvia contra o mercado e o capitalismo. Uma das tácticas mais antigas e eficazes para desacreditar o adversário num debate é caricaturizar os seus argumentos, de preferência menorizando-os e reduzindo-os um dislate unidimensional. Pode-se fazê-lo com cínica elegância, com verbosidade quezilenta, ou com primitivo laconismo. Parece ser esta a via seguida por FSC. Resta saber se se tratou de deliberação ou desabafo.


ENTRETANTO, NA ARGENTINA...: Uma boa notícia neste mundo de brutos: o Menem desistiu das eleições. Se bem que, de um ponto de vista de diletante, seja de lastimar perder-se a oportunidade de os dois maiores países da América do Sul serem governados por presidentes com nomes linguisticamente interessantes: palíndromo (Menem) e aliteração (Lula).


Máscara de Agamémnon

UMPOSTSOBREÉSQUILO: Amanhã, dia 17 de Maio, das 10h00 às 12h30 e das 14h30 às 18h00, terá lugar na Fundação Calouste Gulbenkian uma LEITURA ENCENADA da "Oresteia", de Ésquilo. A organização é da FCG, a partir de uma ideia de Maria João Seixas. Produção: A4 - Paula Moura Pinheiro, Maria da Conceição Caleiro e Helena Vasconcelos. O apoio é da STORM MAGAZINE. Venham em grande número!!!


AINDA A ABJECÇÃO: O Luís Miguel Palma Gomes, bom amigo e colega das lides literárias, teve a gentileza de escrever para pedir explicações sobre a indignação que as declarações de Paulo Portas me suscitaram. «Foste explícito, mas subjectivo relativamente ao discurso do P.Portas. Quais os fundamentos que te levam a ter esta opinião? (...) Eu apenas ouvi parte do discurso, mas pareceu-me que existia uma colagem perversa ao "êxito" da invasão efectuada pela aliança EUA/GB. A posição do Portas faz-me lembrar aquele adágio que diz:"Por cada leão, trinta abutres".»

De facto, teria talvez sido conveniente ser mais claro nas minhas críticas. Num momento tão delicado da situação internacional, em que os equilíbrios e relações de força se fazem e desfazem de um dia para o outro, desgosta-me, enquanto português, que o ministro da Defesa do governo do meu país oriente tão exclusivamente os seus discursos de acordo com a tónica da "visibilidade" (palavra que tem assumido, nos últimos tempos, uma acepção detestável) de Portugal. O seu convencimento é tão absoluto e difícil de conter que ele nem se dá ao trabalho de temperar as suas declarações com as vagas referências da praxe ao direito internacional e à democracia: importante mesmo é Portugal ter estado do lado dos vencedores (mesmo se a componente activa deste "estar ao lado" se limitou ao empréstimo de um bocado de terra para a descolagem e aterragem de aviões), e por isso ter "direito" aos respectivos dividendos. Uma coisa é a realpolitik, outra é o cinismo, e PP encontra-se firmemente do lado de lá da fronteira que separa estas duas coisas. E, o que é mais, plenamente ciente e satisfeito com esse facto. Eu talvez me indignasse um bocadinho menos se não fosse aquele tom tão supinamente arrogante e agressivo, como se cada sílaba, cada pausa, cada sintagma, cada preposição fosse antes de mais uma arma de arremesso lançada contra os que dele discordam.


Quarta, 14 Maio, 2003

LUGARES DE PARIS: O jardim do museu Delacroix. Place Furstemberg, 6ème arrondissement. Silêncio e paz no coração da metrópole.


O CHEFE ACONSELHA: Fusilli da marca Delverde. À venda nos pequenos retalhistas e nas grandes superfícies. Aconselho 10 minutos de cozedura. Firmeza, sabor, textura. Garanto que ninguém me paga para dizer isto. Pagam-me para fazer outras coisas. Fim do post.


SUMMARIZE PROUST COMPETITION: Isto de resumir Proust traz felizes e saudáveis reminiscências pythonianas...

«Good evening, and welcome to the Arthur Ludlow Memorial Baths, Newport, for this year's finals of the All-England Summarize Proust Competition. As you may remember, each contestant has to give a brief summary of Proust's 'A La Recherche du Temps Perdu', once in a swimsuit and once in evening dress.»

...

«Well ladies and gentlemen, I don't think any of our contestants this evening have succeeded in encapsulating the intricacies of Proust's masterwork, so I'm going to award the first prize this evening to the girl with the biggest tits.»

("Monty Python's Flying Circus Volume One", Episode Thirty-one)
(© Python Productions)



À ATENÇÃO DO CARLOS ALBERTO PARREIRA: Se sempre é verdade que a Fátima Felgueiras tem dupla nacionalidade, será que pode ser seleccionada para o escrete canarinho?
Com o Deco, a coisa funcionou.
Ça marche dans les deux sens...



Terça, 13 Maio, 2003

DA OBSCENIDADE: Na primeira página d'"A Capital" de hoje, acompanhada pela desastrada manchete «Peregrinação a Fátima cada vez mais jovem», aparece a fotografia de uma criança (6 anos? 7 anos?), de rastos, por terra, «no cumprimento de uma promessa».
Pergunta inocente: NÃO HÁ NINGUÉM PARA IMPEDIR ESTE GÉNERO DE COISAS?
Os debates sobre laicismo passam também por aqui. Uma sociedade que atribuísse maior ênfase aos valores cívicos e ao simples bom senso republicano teria desenvolvido os devidos anticorpos contra esta amálgama de fé, fanatismo e mortificação histérica.
Mas nem tudo são agruras. 23 páginas mais adiante, no mesmo jornal, oferecem-nos duas-vitórias-duas de Vassily Ivanchuk, sendo uma delas uma defesa Francesa. Oba! Oba!


O 1BSK ERROU: A classificação que aqui referimos relativamente ao torneio Sigeman não estava inteiramente correcta. O pódio ficou assim ordenado: 1º Ivanchuk (Ucrânia), 7 pontos; 2º Nielsen (Dinamarca), 6 pontos; 3º McShane (Inglaterra), 5,5 pontos. A Nielsen o que é de Nielsen.


Domingo, 11 Maio, 2003

A nossa dedicação tem algo de estilita. (...) Não é trivial fazer caber numa só vida Kleist (Heinrich von), um segredo que nos pesa sobre as omoplatas, a necessidade de sermos bons cidadãos, um mínimo de delicadeza para com os estranhos, e detalhes mínimos como a necessidade de acrescentar sumo de limão à salada de frutas para que fique mais saborosa.


AQUELE GRANDE RIO TIGRE: Fabuloso! Espantoso! Brilhante! Mágico! António Ribeiro Ferreira, director-adjunto do Diário de Notícias, foi enviado para Bagdad! Agora sim, vamos ter direito a um ponto de vista isento e imparcial sobre aquilo que se passa realmente no Iraque. Para já, tudo parece correr como num idílio, que meteu até umas braçadas no rio Tigre, seguidas de «um chá estupendo e de uma cigarrada de fazer saltar de alegria os pulmões». Eu mais depressa teria tendência a associar o fumo às metástases do que ao júbilo saltatório, mas cada um é que conhece os seus brônquios e alvéolos.
Não perca os próximos capítulos, onde António Ribeiro Ferreira encontra sozinho um enorme bidão de gás de nervos, sem precisar da ajuda de uma pessoa crescida. Diariamente, no DN.


É SEMPRE BOM FICAR A SABER CERTAS COISAS: Vamos lá a ver se percebi bem o discurso do Primeiro-Ministro Durão Barroso. O governo tem objectivos macroeconómicos. Até aqui tudo bem. Para além disso, se os sindicatos e os patrões se entenderem e perderem esse detestável hábito de andar ao estalo, então o governo passa a ter também objectivos sociais.
É isto, não é?



OPERAÇÃO TRIUNFO: Quando Warhol fez a sua profecia sobre os 15 minutos de fama, não podia prever a invenção dos cromos do Bollycao, que duram com certeza muito mais do que isso.


MAISBLOGS: A rápida expansão da blogosfera lusa é uma realidade. Respondendo a essa galopante diversificação da oferta, aqui fica uma lista de blogs que merecem o desvio. Nem todos são recentes (alguns serão até mais antigos do que o 1bsk), mas todos eles, na minha humílima opinião, deveriam constar dos Favoritos de qualquer blogonauta que se preze.
"A Montanha Mágica" é um blog dedicado às artes e à cultura, com forte ênfase dada à literatura. A concorrência com a "Janela Indiscreta" promete ser renhida. O "Gato Fedorento" é um blog da autoria de vários elementos das Produções Fictícias. A componente humorística, que a generalidade dos blogs cultiva abundantemente, é aqui predominante. Entre os blogs mais pessoais, de autor único (que, admito-o, são normalmente aqueles onde recai a minha predilecção, e com os quais me sinto mais irmanado), gostaria de destacar o "Prazer Inculto" (da autoria do escritor Possidónio Cachapa) e a "Bomba Inteligente". A temática é das mais variadas, e é disso que o meu povo gosta
Nos últimos dias, as águas tranquilas da blogosfera foram agitadas pelo aparecimento de um "blogger" muito especial, tão especial que dúvidas sobre a real identidade do autor (prontamente dissipadas) surgiram com viva celeridade. Quem quiser auscultar as opiniões do conhecido homem político do PSD José Pacheco Pereira apenas tem que visitar o "Abrupto". Será interessante acompanhar as polémicas que não deixarão de eclodir.
Por fim, queria deixar quatro sugestões de "blogs sobre blogs": dois portais (blogs.em.pt e blogo.no.sapo), um espaço pessoal e peripatético que nos dá conta das blogdeambulações do seu autor ("Paragem de Autocarro"), e, por fim, o "Posto de Escuta", com citações aleatórias, que nos permite petiscar, à laia de acepipes, sábios e divertidos posts pescados no oceano da lusoblogosfera.
Moral da história: urge actualizar a minha secção de enlaces!



Carl Sagan

«Widespread intellectual and moral docility may be convenient for leaders in the short term, but it is suicidal for nations in the long term. One of the criteria for national leadership should therefore be a talent for understanding, encouraging, and making constructive use of vigorous criticism.» (Carl Sagan)





Sexta, 9 Maio, 2003

RECTIFICAÇÃO: Mesmo com uma fractura exposta, irei ver o Garrel em Junho.


CINEMATECA EM MAIO: Os destaques não são muitos. Diria mesmo que Maio será um mês algo morno. "I Confess" no dia 16. "The Hustler" já no dia 12. "East of Eden" no dia 19. E um Godard, mas não certamente um dos melhores ("Une Femme Est Une Femme"), no dia 30. Quanto ao ciclo Jacques Tourneur, o que me dissuade é a sensação de que, para ver só 2 ou 3, mais vale não ver nenhum. Para Junho, no entanto, o caso muda de figura, pois anunciam-nos um ciclo Philippe Garrel. Salvo em caso de afazeres inadiáveis, ou de uma fractura exposta, estarei plantado na Barata Salgueiro. Mais informações aqui.


OS PRESIDENTES DA REPÚBLICA: Decorreu hoje, no Museu Bernardino Machado, em V.N. de Famalicão, uma conferência dedicada a Teófilo Braga, no âmbito de um ciclo sobre os presidentes da República Portuguesa. O orador foi o Prof. Dr. Amadeu Carvalho Homem. Penitenciamo-nos pelo anúncio tardio. Somos serviço público, mas o nosso timing ainda deixa a desejar.


AS SOBRANCELHAS ATACAM OUTRA VEZ: Porque razão admiro o ucraniano Vassily Ivanchuk acima de todos os outros xadrezistas (com a óbvia excepção do imenso Anatoly Yevgenyevich Karpov)? As razões são várias. Há a estrondosa vitória no supertorneio de Linares em 1991, que marcou indelevelmente o meu imaginário. Depois, há a sua excentricidade, deveras refrescante num meio que por vezes parece demasiado compostinho e baço. Acrescente-se a isso o seu estilo (ou deveria dizer ausência de estilo?), feito de simplicidade desconcertante, profundos conhecimentos teóricos, agudíssima percepção posicional, clareza de ideias, e quanto baste de proeza táctica. Por fim, existe a evidência de que, se não fosse a notória incapacidade de controlar os seus nervos, "Vassia" teria chegado ainda mais longe do que chegou (e ele tem estado entre os 10 primeiros do mundo, quase ininterruptamente, nos últimos 10-12 anos), talvez mesmo ao posto mais elevado de todos... Tanto me sinto fascinado com um jogador capaz de manter a cabeça fria nos momentos decisivos como sinto empatia com aqueles que claudicam por não saber lidar com a pressão.
Vem tudo isto a propósito do torneio Sigeman (categoria XIII), que decorreu em Copenhaga e Malmö, e onde Ivanchuk triunfou com um ponto de avanço. Só foi pena rematar o seu torneio com um empate "de salão" (18 lances), frente a um adversário claramente inferior. O problema dos empates curtos é recorrente ao mais alto nível; voltaremos por certo a falar dele. No segundo lugar ficaram o dinamarquês Nielsen e a jovem esperança Luke McShane (Inglaterra). Mais informações em www.chessbase.com.


CACOFONIA SEM FIOS: Eu disse "protololita"?


O 1BSK ERROU: No penúltimo post, como os nossos leitores terão decerto percebido, trata-se de "Traz Outro Amigo Também", e não "Traz Um Amigo Também". Quanto à nossa sugestão dos Excesso para interpretar este clássico de José Afonso, retiramo-la para não atrair acusações de atentado contra a salubridade pública. Em alternativa, porque não a mui laroca Rute Marlene, de preferência numa versão acústica? Dedicamos uma ternura muito especial a Rute Marlene, que descobrimos numa fase ainda incipiente da sua carreira, quando a mega-fama nacional não passava ainda de um sonho bonito. Eram os tempos gloriosos da Rádio Eco, de Alcochete, e a moçoila, que investia numa imagem de lolita, ou, melhor ainda, protololita, interpretava então êxitos locais como a "Consulta dos Namorados". Poucos eram os corações adolescentes da Margem Sul que resistiam.


Vera acredita que a peça "Pentesileia" levanta dificuldades técnicas que exigiriam uma outra abordagem, sobretudo nas cenas que requerem ao mesmo tempo movimento de pessoas e poderosas manifestações de paixão e desvario. Vera está convicta de que a raiz do problema se encontra num deficiente conhecimento das expectativas e juízos que cada um deles trouxe consigo, como se fossem bagagem de mão. Conversaram muito, mas não conversaram bem. As respostas surgiram com fluência, mas as perguntas necessárias não foram colocadas. A urgência de agir manifesta-se no tónus muscular e na catadupa de frases que lhe acorrem, mas o frio e a fadiga dissuadem-na. Vera sente-se bem em Lisboa. Junto ao Tejo, há quase sempre brisa. Corre um boato sobre lâminas de barba encontradas dentro de maçãs reinetas. Vera celebra o centenário da morte de Gauguin à sua maneira, ou seja, intrigada com os azuis de Degas.


THERE OUGHTA BE A LAW!: No Nocturno 76 fala-se de uma versão de "How Soon Is Now?" dos Smiths, pelas meninas T.A.T.U.. A minha reacção ora pende para o "ouvir para crer" ora para o "please show me the way to the next poison bottle". Mas a atitude mais sã nestes casos é pensar sempre no pior, para tornar o menos mau mais fácil de tragar. Já pensaram em...

  • "Subterranean Homesick Blues" pelas Spice Girls
  • "Space Oddity" por Mariah Carey
  • "Love Calls You By Your Name" por Eros Ramazzotti
  • "No More Affairs" pelos Corrs
  • "Traz Um Amigo Também" pelos Excesso
  • "Me and Bobby McGee" pela Céline Dion
  • "Light My Fire" pelo José Feliciano (espera lá... este aqui foi mesmo perpetrado!)




Quinta, 8 Maio, 2003

A MINHA MODESTA CONTRIBUIÇÃO para a nobre missão de condensar obras-primas literárias.
"Em Busca do Tempo Perdido", de Marcel Proust.
Quando o sr. Swann vinha jantar a nossa casa, a mamã não me dava o beijo de boas noites. Que outras recordações conservei de Combray? Nenhumas. Que madalena deliciosa. Ah, havia também Gilberte, brincando atrás da sebe, e muitas coisas mais. Depois, apaixonei-me por Albertine. Charlus gosta de homens. Albertine gosta de mulheres. O salão dos Verdurin é medíocre, mas os Guermantes não são melhores. Só me resta dedicar-me à minha obra.



DO PODER DE SÍNTESE APLICADO A UMA BOA CAUSA: A princípio pensei que era a sério; durante breves mas desanimadores momentos, acreditei que o site "Book-a-Minute" citado pela Janela Indiscreta reivindicava a ambição de condensar a essência de grandes clássicos da literatura num só minuto de leitura, para benefício de burgessos interessados em cultivar o espírito, mas sem para isso dispender mais do que as suas escalas de valores lhes sugerem. Afinal, vi-me perante uma deliciosa paródia, que merece, creiam-me, mais do que um minuto do vosso tempo, à guisa de refrescante pausa na vossa blogodisseia de cada dia. Um dos meus favoritos é o "Fausto".


AS SOBRANCELHAS NÃO ENGANAM: A página semanal sobre xadrez de Luís Santos n'"A Capital" da última terça-feira contém, como é costume, riquíssimos ensinamentos. Desta vez, saúda-se em particular a magnífica actuação do ucraniano Vassily Ivanchuk num torneio repartido entre Suécia e Dinamarca. Contudo, a foto do grande Vassia (de cujo talento e temperamento nos confessamos fervorosos admiradores) aparece com a legenda errada. Quem quiser dar-se ao trabalho de apreciar as diferenças entre Ivanchuk e Peter Svidler verificará que elas são numerosas, e que nenhum deles pode aspirar a ganhar a sua côdea a fazer de sósia do outro. Na dúvida, aplique-se o critério das sobrancelhas. (Fotos extraídas de www.chessbase.com.


Terça, 6 Maio, 2003

UMBLOGSOBREOOUTROKLEIST: E agora, o nosso confiteor do mês. É com o coração pesado que o confessamos: na verdade, esteblog não é sobre o Kleist dramaturgo e novelista, mas sim sobre Ewald von Kleist, inventor da garrafa de Leyden, percursora do actual condensador eléctrico. Se alguém se sente defraudado, lamentamos profundamente, mas não devolvemos dinheiro.


L'OISEAU TIRELIRE: Eu não sabia que a Sabena tinha quadros do Magritte nos seus cofres. Mas que jeito que dá para pagar as dívidas. Custa separar-se de uma obra de arte, mas era isso ou o Cobrador do Fraque.


Segunda, 5 Maio, 2003

SUBLINHADO A VERMELHO (mas com uma convicção vacilante) num exemplar do livro "Molière et la Comédie Classique", de Louis Jouvet, pertença de Ponziani: «Tu avais ton sentiment pour toi tout seul, c'était un quant-à-soi que tu faisais sur scène, mais tu ne faisais rien pour nous. Je voudrais que tu sentes corporellement ce que c'est la présence du public.»
O público, esse elemento que, mais por pudor do que por diplomacia, Ponziani tem vindo a omitir de todas as discussões. O público, que o agride como uma vaga de maré viva, mais do que como uma presença. Ponziani desejaria oito ou dez anónimos, mudos, inertes, que aplaudissem no final do espectáculo com um afã beato que fosse também uma rotina; e que em seguida dispersassem, e que os seus dias seguintes fossem como os precedentes sem que um único arabesco ou paixão da alma se reclamassem subitamente da paisagem. Todos eles ficam perturbados com a perspectiva de mudar vidas. Seria de noite. Sem frio, mas com vento. Nos camarins, à falta de línguas de fogo, seriam distribuídas malgas contendo líquido quente e aromático.
O problema é que a relação com o público se constrói sobre camadas de antagonismo, ao passo que, na própria peça ("Pentesileia"), a hostilidade já é quanto baste para os deixar a todos esgotados e saciados, e para se sublimar vezes sem conta, e ainda para consumir os seus próprios restos. Perante isto, como poupar à consciência a noção desses espectadores cujos olhos ardem de bravura e cepticismo, e que se verão afinal relegados ao débil estatuto de animaizinhos de colo?


DA ABJECÇÃO: A propósito da tirada de Paulo Portas sobre a "visibilidade" de Portugal, e do seu merecido papel na reconstrução do Iraque: raras vezes me sucede escutar um discurso onde a repugnância, mais do que mero atributo, se instala nas palavras e no que as rodeia, no todo e nas partes, até à dicção e às respirações. Raras vezes sucede que uma declaração se subtraia à esfera do senso comum e da elementar decência de forma tão infinitamente (deliberadamente?) cheia de ignomínia.


VERSOS PORQUE SIM:

Brûlure au sang léger
Brûlure où je revis
Transparentes années
Tout brille tout me fuit
Tout renaît en fumée
Et je te suis Soleil
sur les mouvants chemins
qui vont dans la forêt
Bien en dessous du cours
général des pensées
Dans les profonds marais
Dans la salle interdite
Parmi les jeux secrets

Georges Haldas
(extraído de "Sans Feu Ni Lieu")
(© Georges Haldas, 1968)




L'ÉPHÉMÉRIDE DU JOUR...: Hoje é dia de Santa Judith. E feriado no Japão (daí a ausência de índice Nikkei); tem a ver com flores, se bem me lembro.


Sábado, 3 Maio, 2003

Emmanuelle Devos

O QUE HÁ NUM ROSTO?: O rosto habita o plano, e algo de perverso se insinua nessa sua promessa de terceira dimensão. A boca culpa-se por existir, mas ao tempo pavoneia-se nos Grandes Boulevards, e é com um suspiro que evoca penhores de admiração e reflexões no espelho sujeitas à corrupção. Não falarei dos olhos. Sobretudo, esconderei as palavras sobre os olhos num fundo falso sem forro de veludo nem verosimilhança. O rosto lembra-se do corpo, e enrubesce. O inevitável pincel do inevitável artista abdica. O que é mostrado enterra o punhal na ferida aberta tantas vezes por segundo. A afinidade com o olhar é também uma história de ruptura, dos atentados do tempo que a pele absorve na sua matriz e exibe com um pudor agreste, trocista.
Emmanuelle Devos nasceu em 1964. Seria manifesto abuso, desde logo, inseri-la numa qualquer vaga categoria de "novas actrizes" do cinema francês. Revelada essencialmente graças aos filmes de Arnaud Desplechin (em especial "Comment Je Me Suis Disputé... (Ma Vie Sexuelle)", Devos tem passeado a sua figura singular, intensa e relutante, os seus olhos, cintilantes de risonha insolência, o seu radioso talento e a sua desconcertante versatilidade (de "vamp" a eterna adolescente fragilizada) por um cinema francês abundante em presenças femininas carismáticas. Em Portugal, vimo-la recentemente em "Esther Kahn" (a bailarina exótica que rivalizava com a protagonista no plano amoroso) e em "L'Adversaire" (a amante de Daniel Auteuil).
A notícia da estreia do filme "Sur Mes Lèvres" em Lisboa é uma boa notícia. O filme em si (um "thriller" envolvendo uma deficiente auditiva, engenhoso a espaços, quase sempre eficaz) será tudo menos um festim cinéfilo, e o embaraçoso desempenho de Vincent Cassel num papel de ex-presidiário seria, em princípio, um poderoso argumento dissuasor. Mas a presença da grande EMMANUELLE pesa mais na balança. Melhor ainda: é ela própria a balança, e a espada, e o gabinete de Pesos e Medidas que tem por missão calibrar a balança, e também a respiração e o movimento que tudo isto sublimam.


LEITURAS: "Calamity Town", de Ellery Queen. Este livro narra mais um caso deslindado por Ellery Queen. Uma mulher é envenenada por meio de arsénico. Tudo leva a crer que foi envenenada por engano, e que outra pessoa era visada. Mas será mesmo assim? Ellery Queen entrega-se ao caso com uma devoção benevolente que nem o facto de ele próprio ser parte interessada parece justificar por completo. A solução do enigma surge tarde demais. Corre o ano de 1941. O estilo é pragmático, conciso mas desdenhando as elipses, percorrido por um fôlego poético esparso e consciente da sua própria inutilidade. Tudo se passa no coração da América profunda, ou então nas profundezas do coração da América. Emerge um sentimento de desencanto que serve de prenúncio às calamidades da História, e que envolve o final, tão feliz quanto as circunstâncias deixariam esperar. Ellery Queen serve de testemunha, de observador, de pólo, de confidente, de homem de mão e de demónio-na-caixa maiêutico. A sua dedução final é mais um desabafo taciturno do que uma revelação. Ellery Queen regressa a Nova York. O "Boston Globe" escreveu: «He has never written a better book, and very few people have written as good a detective novel». O livro tem 284 páginas. O ISBN é o seguinte: 0-06-097437-0.


Sexta, 2 Maio, 2003

PARA QUANDO uma reapreciação crítica da obra de Alfredo Pedro Guisado?


TEXTO, BRAGANÇA, CONTEXTO, SUBTEXTO: Confesso que o artigo de Eduardo Prado Coelho no "Público" de hoje (sobre o manifesto das "mães de Bragança" contra as prostitutas brasileiras) me deixou perplexo, por não perceber onde acaba a literalidade, onde começa a ironia, e onde acaba esta para começar um segundo nível de ironia que ameaça redundar aritmeticamente (menos por menos dá mais?) em cristalina sinceridade. Um pouco de clareza kleistiana, que diacho! Ou isso, ou sinalefas especiais para separar aquilo que se quer mesmo dizer das figuras de retórica.


Quinta, 1 Maio, 2003 (Festa do Trabalho)

TESTES PARA QUÊ?: Não preciso de teste nenhum para saber qual a personagem dos Monty Python que se identifica comigo. É o cardeal Ximinez, da Inquisição Espanhola!
«Nobody expects the Spanish Inquisition. Our chief weapon is surprise... surprise and fear... fear and surprise... our two weapons are fear and surprise... and ruthless efficiency. Our three weapons are fear and surprise and ruthless efficiency and an almost fanatical devotion to the Pope... Our four... no... amongst our weapons... amongst our weaponry are such elements as fear, surprise... I'll come in again (exit and exeunt)
("Monty Python's Flying Circus Volume One", Episode Fifteen)
(© Python Productions)



EUFEMISMO DA SEMANA: Na sua imprescindível página semanal sobre xadrez, n'"A Capital", Luís Santos escreve: «Mas o seu [de Garry Kasparov] temperamento negocial ainda nos deixa muitas reservas quanto ao cumprimento dos acordos de Praga [que visam a reunificação do título mundial].» Isto é dizer pouco. Ao longo da última década, Kasparov apenas mostrou interesse em reunificar o título (na sequência da cisão com a federação internacional, que ele próprio provocou) quando tal, manifestamente, servia os seus interesses pessoais. Agora que já não é campeão de coisíssima nenhuma, o "ogre de Baku" só investirá o seu prestígio e o seu tempo no processo de reunificação se for esse o caminho mais directo para a recuperação do título, de preferência com um mínimo de obstáculos. A verdadeira relação de forças em termos de poder negocial e de consistência ética tornou-se clara para todos aquando dos acontecimentos que precederam a assinatura dos acordos de Praga, onde Kasparov saiu nitidamente beneficiado, graças também a não poucas cumplicidades em lugares-chave das hierarquias.
Voltaremos a este assunto, tão certo quanto o Conde de F... ser o pai do filho da Marquesa de O...


IMPÕE-SE O REGOZIJO: O concurso público para a adjudicação da biblioteca de Palmela foi aprovado pela edilidade local. Prevê-se que as obras respectivas arranquem no segundo semestre do corrente. Muito em breve, os palmelenses deixarão de ter desculpas para não citar Ungaretti na bicha para o autocarro.


ESCLARECIMENTO À NAÇÃO: É do conhecimento comum que existem numerosíssimas perspectivas diferentes sobre aquilo que deve ser o serviço público. Para pegar num exemplo recente da RTP1, existe (pelos vistos) quem pense que o serviço público passa por emissões sobre sexualidade animadas pela Serenella Andrade e pelo Júlio Isidro. Que os nossos leitores se tranquilizem: nada de semelhante está nos nossos planos para os séculos mais próximos.


UAU!!!: Já "semos" serviço público!!!!!!


BORROWED TIME: Lamentamos, com sentida e kleistiana sinceridade, este invulgarmente longo período durante o qual o blog não foi actualizado. A culpa foi da Yoko Ono.