Heinrich von Kleist (1777-1811)Liberté Egalité FraternitéNo tabuleiro de xadrez, as mentiras e a hipocrisia não duram muito (Em. Lasker)Monty Python forever!

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maio 2004

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Segunda, 31 Maio, 2004

MITOS FUNDADORES DOBLOG: Como se conheceram a América e o Ponziani? O episódio foi de uma banalidade comovedora, e envolveu uma pulseira perdida e um mal-entendido. Menos irrelevante será talvez relatar como sucedeu a revelação de que eles partilhavam algo mais do que a vontade indomável de transformar Lisboa (de Pedrouços a Sacavém) num imenso palco para os trânsitos e brados de Pentesileia e de Aquiles. Foi quando a América revelou que não saberia o que escolher, caso houvesse escolha: a felicidade ignorante ou a lucidez profunda e permanente sobre as razões e timbres da infelicidade. Ponziani sentia o mesmo, e estas coisas criam um vínculo menos quebradiço do que um passado de banco de escola ou de caserna partilhada. Mas as coisas não se ficam por aqui, há também a paixão comum pela gastronomia piemontesa, o "segredo mais bem guardado da cozinha mediterrânica".


A BARATA SALGUEIRO ESTAVA TODA ILUMINADA:



Quarta, 19h30, Cinemateca. A marcar em todas as agendas e organizers. "The Cook, The Thief, His Wife & Her Lover", obra-prima de Peter Greenaway (passe o pleonasmo). Enquanto não chega a saga do senhor Tulse Luper, contentemo-nos com as glórias passadas.


DIA MUNDIAL SEM TABACO:



Por favor, tentem compreender. Não julgamos, não condenamos, não ostracizamos. Não é uma questão de fundamentalismo; não é uma questão de atropelo a qualquer direito natural. Apenas pedimos respeito e consideração. Reclamamos somente o direito ao nosso quinhão quotidiano de ar relativamente puro. É só isto.




Domingo, 30 Maio, 2004

REPÚBLICA NA WEB PORTUGUESA: Indicaram-me recentemente dois enlaces com relevância republicana assinalável. No site da Associação República e Laicidade, entre outras coisas, lêem-se textos cujo teor denota uma das mais louváveis actividades que conheço: zurzir na concordata. Para além deste tema de óbvia e lamentável actualidade, muitos outros são abordados, com a laicidade e os valores republicanos (ou as suas violações) como denominador comum.
No blog Diário de uns Ateus, estas temáticas são também abundantemente glosadas, com actualização diária ou quase diária.
(Tive já ocasião de exprimir algum desconforto relativamente ao vocábulo "ateísmo" e seus derivados. A lógica de negação e contestação que lhe está implícita parece-me, em certas ocasiões, poder tornar-se contraproducente. O meu blabla relativo a este assunto está aqui.)


ANÚNCIOS D'OUTRORA (6): Este é antiguinho. Quem se lembra dele ainda?

Insecticida Banzé:

E a velha tinha moscas
E a velha tinha moscas
E dentro da casa as tinha
E dentro da casa as tinha

As moscas morriam e a velha matava
As moscas morriam e a velha dizia
Banzé!, Banzé!
- Contras as moscas bato o pé!

(Esta última linha era pronunciada pela própria velha de que fala a letra, enésima representante da "anciã sensata e espertalhona" que povoa esparsamente o nosso imaginário publicitário, e provável ascendente directa da avozinha da lexívia Neoblanc.)




VERSOS PORQUE SIM:

(para Teresa de Biase)

Gritam como facas
apressadas, afiadas
à roda do edifício.

Teresa diz-me que
procuram das frutas
o açúcar. Alerta:

que eu não deixe bananas dormirem
sobre a mesa da cozinha.
Mas, como esconder

o doce à tona de meus olhos,
quando, no escuro dos quartos e da sala,
diferentemente dos morcegos,

quero e não sei o que quero?
E quero que amanheça,
e quero não morrer.


(Eucanaã Ferraz, in "Desassombro", edições Quasi)




ILDA, A KLEISTIANA: A eurodeputada do PCP Ilda Figueiredo chamou "sósias" ao PSD e ao PS. Será que Ilda Figueiredo também assistiu à encenação da peça "Anfitrião" no Porto? E será este um sintoma de que o ideário e vocabulário kleistianos começam finalmente a infiltrar-se no discurso político luso?


Sábado, 29 Maio, 2004

O MEU BLOOMSDAY: Formosíssimas bodas reais? Megafestivais de música ró? Eleições? Campeonatos de pontapé na bola? E então o Bloomsday, ninguém fala nele? Faltam pouco mais de duas semanas para o 16 de Junho, em que passarão cem anos sobre o dia que inspirou James Joyce para escrever "Ulysses", uma das mais extraordinárias obras de ficção do século passado. Durante anos, alimentei a ilusão de que passaria esse dia em Dublin, na peripatética e extática companhia de uma turba de aficionados. As obrigações da vidinha levar-me-ão a outro destino nessa data: Budapeste. Como o pai de Leopold Bloom (a personagem principal do livro) era de origem húngara, isto significa que estarei mais perto das origens do romance do que todos aqueles que cumprirão a romagem irlandesa! (Cada um arranja as consolações que pode...)


RÓ-KIM-RIO (II): Para Judite de Sousa, "Assim Falava Zaratustra" foi composto por Wagner. Alguém ofereça rapidamente a Judite de Sousa a versão integral do Dicionário Grove. Basta abrir no "S", de Strauss, e toda a verdade será revelada, como numa epifania à qual não faltarão resmas de querubins.
Assim se conclui que o Crítico tem andado a pregar no deserto.


RÓ-KIM-RIO (I): Detesto o cinismo, que considero um dos menos suportáveis traços de carácter. E contudo, perante certos eventos ou situações, sinto-me capaz de desculpar todas as misantropices, os mais sarcásticos azedumes, as mais agrestes e apocalípticas condenações da natureza humana. Lembrei-me disto a propósito dos 3 minutos de silêncio "por um mundo melhor", acompanhados por lencitos brancos ondulando ao vento, no coração da "cidade do Rock". Gilberto Gil e Rui Veloso perpetrando "Imagine" em garrida jam session não fizeram mais do que estragar o que já estragado estava.


Quinta, 27 Maio, 2004

DE ANFITRIÕES E HÓSPEDES: Há um aspecto que eu acho sublime na peça "Anfitrião", de Kleist, e a que talvez a encenação de João Grosso não faça inteira justiça. Perante Alcmena, Júpiter não é apenas o deus do Olimpo que desce à terra tomado de furiosa e ardilosa luxúria conquistadora: é também um ser que duvida, como se a forma humana o deixasse vulnerável aos agudos tormentos do amor-próprio; é uma criatura que aspira a ser amada por aquilo que é, e não pelo estatuto ou pelo invólucro.

Ao teu coração, a ti, gostaria
Eu de dever tuas mercês e não,
Querida, a formalidades impostas,
Às quais talvez te julgues obrigada.
Como espantar facilmente esta dúvida
Pouca? Franqueia-me tua alma e diz
Se foi o esposo que recebeste hoje,
Teu comprometido, se o amante?


(Tradução de Aires Graça e Anabela Mendes, Edições Cotovia)

Esta ânsia pediria uma atitude de dúvida, logo de submissão perante a única pessoa capaz de lhe oferecer a resposta pretendida. Esta subversão, muda e transiente, da relação de forças exigiria uma solução de continuidade, uma quebra deliberada de ritmo. O único momento de fraqueza do deus supremo parece demasiado precioso para não ser matéria prima de alguma coisa.
É disto que se alimentam a ficção, o drama e o ensaio de Kleist: do paradoxo que resulta da comparação entre duas forças aproximadamente equipotentes, e que, pela sua natureza, nenhuma construção teórica conseguiria cotejar eficazmente. Direitos naturais do indivíduo versus coesão de uma sociedade que aprendeu a viver com a sua iniquidade ("Michael Kohlhaas"), moral burguesa versus cegueira aleatória dos instintos ("A Marquesa de O..."), violência sancionada pelo Estado versus violência desenfreada da paixão ("Pentesileia"): conflitos que só na vida se encenam, intratáveis, demasiado escandalosos e voláteis para o universo das proposições e dos corolários. Em "Anfitrião", o que está em jogo é a intersecção entre os trâmites da honra e da felicidade humana, por um lado, e a arbitrariedade absoluta dos desígnios olimpícos. O que só torna mais fascinante as raras ocasiões em que o Júpiter dos caprichos e do poder infinito cede à tentação de se comparar aos cânones mortais. Não lhe chega o poder de se metamorfosear? Com certeza que não. Júpiter quer tudo: a máscara, o proveito, a essência e o reconhecimento.


UM REAL PODE ESCONDER OUTRO:

«Pensar o ofício poético (...) é coisa que, aliás, só não fazem aqueles que crêem em excesso nas virtudes das espontaneidade e de uma inspiração colhida ao sabor dos factos da vida, que, como se sabe, não são, à partida, factos poéticos.» (Gastão Cruz, prefácio a "Desassombro", de Eucanaã Ferraz, edições Quasi)

Eu concordo!


Quarta, 26 Maio, 2004

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na linha verde do metro, uma jovem lia "O Cavaleiro Inexistente", talvez o meu preferido da trilogia "Os Nossos Antepassados", de Italo Calvino. Se ela estiver a ler isto, espero que tenha já acabado o livro, pois eu vou revelar o fim (tradução de Fernanda Ribeiro):

«Eu falei do passado e por vezes do presente quando, nos momentos mais agitados, se apoderava da minha mão. Mas eis que salto para a sela do teu cavalo, ó futuro? Que novos pendões me agitas das ameias das torres de cidades ainda não fundadas? Que fogo devastador rolará dos castelos e dos jardins que eu amava? Que idades de ouro imprevisíveis me preparas tu, ó tu mal governado, tu, foreiro de tesouros pagos a preço tão caro, tu, meu reino a conquistar, futuro...»


SOMOS TODOS REPUBLICANOS ESPANHÓIS: Eu também celebrei a boda, no passado sábado, escutando uma canção de Brassens que me pareceu adequar-se com rara felicidade ao efeito. (Na voz de Barbara.)

Mariage d'amour, mariage d'argent
J'ai vu se marier toutes sortes de gens
Des gens de basse source et des grands de la terre
Des prétendus coiffeurs, des soi-disant notaires

Quand même je vivrai jusqu'à la fin des temps
Je garderai toujours le souvenir content
Du jour de pauvre noce où mon père et ma mère
S'allèrent épouser devant Monsieur le Maire

C'est dans un char à boeufs, s'il faut parler bien franc
Tiré par les amis, poussé par les parents
Que les vieux amoureux firent leurs épousailles
Après longtemps d'amour, longtemps de fiançailles

Cortège nuptial hors de l'ordre courant
La foule nous couvait d'un oeil protubérant
Nous étions contemplés par le monde futile
Qui n'avait jamais vu de noces de ce style

Voici le vent qui souffle emportant, crève-coeur
Le chapeau de mon père et les enfants de choeur
Voilà la pluie qui tombe en pesant bien ses gouttes
Comme pour empêcher la noce, coûte que coûte

Je n'oublierai jamais la mariée en pleurs
Berçant comme une poupée son gros bouquet de fleurs
Moi, pour la consoler, moi, de toute ma morgue
Sur mon harmonica jouant les grandes orgues

Tous les garçons d'honneur, montrant le poing aux nues
Criaient: « Par Jupiter, la noce continue ! »
Par les hommes décriée, par les dieux contrariée
La noce continue et Vive la mariée !





Terça, 25 Maio, 2004



Segunda, 24 Maio, 2004

O CHEFE RECOMENDA VOL. 2: Na Formiga de Langton, escreve-se sobre ciência, complexidade, e outras cousas igualmente aliciantes. Um espaço já com tradições e justa reputação, que porém só há pouco comecei a frequentar com maior regularidade.


HÁ MUITA GENTE A TORCER POR SI: Tenho uma proposta para um novo jogo, que poderá vir a ser a nova galinha dos ovos de ouro para a Santa Casa. Trata-se do Totocésar. O princípio é de uma simplicidade infantil: o objectivo é o de adivinhar em que linha da coluna semanal de João César das Neves é feita a primeira referência a homossexuais e aos seus costumes dissolutos. Por exemplo, abrindo o "DN" de hoje na página 9 verificamos que, da crónica de JCN, faz parte uma referência ao casamento de homossexuais na linha 65. Sempre que o nosso plumitivo de estimação omitisse a menção à ameaça gay, a maquia reverteria para a semana seguinte, num jackpot que só contribuiria para tornar o jogo mais atractivo. Como as crónicas saem às segundas, o Totocésar poderia ser o prato forte de uma emissão televisiva dos serões de domingo, com apresentação da Serenella Andrade, e um ror de vedetas do mundo do espectáculo. O texto da crónica seria lido por um diseur da nossa praça, devidamente acompanhado por uma exibição de mímica. Tudo isto em horário familiar, bem entendido, e contando com a presença do júri dos concursos em versão taxidermista, para não romper com a tradição.


O CHEFE RECOMENDA: Os Espelhos Velados são um blog que eu seguia há já algum tempo, mas que só recentemente passou a ser actualizado a um ritmo mais intenso. Qualquer espaço onde se mostram fotografias da Anna Karina merece um subsídio vitalício, para além do reconhecimento eterno de todas as pessoas de bem; mas felizmente há muito mais.


VOXPOP:

- Sempre que escuto uma canção da Tori Amos, presto atenção aos pontos em que ela respira. É uma coisa que não consigo evitar.
- É um reflexo muito comum.
- De cada vez, tento fazer um esforço para pensar apenas na música e nas palavras, mas é impossível ignorar as respirações.
- É um reflexo mais comum do que pensas.
- Mas parece que é fácil retirar os ruídos respiratórios das gravações.
- Não é tão simples como isso.
- Disseram-me que basta uma operação simples de pós-produção.
- É uma tarefa complicada, remover por completo a respiração. Não é tão simples quanto se possa pensar.
- Fico a cismar nas respirações. Quando prestamos atenção, parece que não há mais nada a não ser respiração.
- É um reflexo muito normal; e, quanto mais tentas evitá-lo, mais nele incorres.
- Se não desejassem que as inspirações e expirações fossem tão nítidas, tão dominantes, teriam arranjado maneira de as eliminar, certo?
- É mais complicado do que parece.
- Contaram-me que bastavam cinco minutos, é tão fácil como dizer bom dia.
- É normal, repararmos na respiração. É um instinto.
- Nenhuma inspiração é igual à seguinte.
- Um instinto como outro qualquer.
- Às vezes penso que me impede de apreciar a canção, outras vezes parece-me que me ajuda a compreendê-la melhor.
- Muitas pessoas sentem o mesmo.
- Acho que é simples retirar as respirações.
- Se fosse assim tão simples, seria feito sistematicamente.
- Bastam cinco minutos, disseram-me. Não sei se é verdade.
- Uma inspiração normal possui uma riqueza harmónica muito superior ao que se julga.
- Não sei se com as outras pessoas sucede o mesmo.
- Garanto-te que sim. Toda a gente se habitua.
- Já conheço as alturas em que se vai ouvir a respiração. Estou à espera, mas sempre desejando que o momento passe.
- Não se pode evitar. Não se pode eliminar. Não se pode ignorar que ela está lá.
- Escuto a canção, e é como se as inspirações fizessem parte da canção.
- Há aqueles que conseguem evitar prestar atenção, mas são muito poucos.
- Se fosse uma coisa simples de suprimir, não se escutaria a respiração. Mas não pode ser tão complicado como isso, pois não?
- Não é fácil, levanta numerosos problemas.
- Acabo por me afeiçoar àquele ruído característico.
- As palmas das tuas mãos parecem cobertas de poalha dourada, a mesma que a curva do maxilar desdenha, preferindo à sua equanimidade implacável uma brancura pobre, mas que revela à língua suavidade infinita.
- Não queria que o eliminassem, mas pergunto-me se poderia ser eliminado.
- As pessoas habituam-se.
- É um ruído característico, nem agradável nem desagradável.
- É difícil deixar de reparar nele. Alguns, conseguem-no, isso é verdade.
- Tudo somado, prefiro assim. Não me incomoda.
- Faz parte da canção.
- Acho até que estranharia escutar a canção sem as inspirações, sem as expirações, mas sobretudo as inspirações, pois claro, que são as que se ouvem melhor.
- As pessoas já contam com isso.
- Aliás, o próprio canto não é mais que uma longa expiração.
- Para quê mudar?
- Não faço de propósito, mas acabo por reparar.



MUI NOBRE, SEMPRE LEAL E INVICTA: O Ponziani fez novamente das suas. Outra explicação não existe. Recorrendo às artimanhas que assimilou do workshop em artes pigmaliónicas, que frequentou há um par de anos, criou um simulacro de ser humano, de tipo "caucasiano" (como se diz hoje em dia, creio), moreno, de estatura meã, e mostrou-lhe o caminho do Porto, cidade que a nossa esfera de influências não costuma abranger. Como compreender, sem postular a existência deste espião de barro assoprado, meio fictício meio real, a profusão de pormenores que ele foi capaz de transmitir sobre uma cidade onde nunca nenhum de nós pôs o pé? Das escadarias da livraria Lello aos cães ferozes de Serralves, está lá tudo. Mesmo as dúvidas que ficaram por esclarecer ("o que é, afinal de contas, um leilão de oportunidades?") têm o esplendor da verosimilhança. E as pessoas? A Alexandra, a Ale, a Nebia, a Cristina, a Claire, a Sandra, o Luís... Quem, senão uma testemunha presencial, seria capaz de se aventurar num tal rol de observações sobre tantas pessoas de cuja existência real eu nunca me permitiria duvidar?

Eu vos disse já, esse Eu do diabo
Que em casa das portas se apoderou;
O Eu que quer ser o meu único eu;
O Eu lá de casa, o Eu do arrocho,
O Eu que me ia matando à paulada.


(Sim, porque este meu sósia, num rasgo de zelo excessivo, pretende mesmo ter assistido a uma peça de Kleist, nada menos do que Kleist, vede só que desplante.)
E tudo isto quando, em fim-de-semana de realíssima e portentosa boda, eu não saí do reduto lisboeta, e só por instantes me descolei do aparelho de televisão, conforme o podem comprovar numerosas testemunhas, nem todas subornadas.


SUSPENSÃO DA INCREDULIDADE: Ele voltou de novo o rosto para a luz, mostrando nome e fisionomia, mas sem brandir.


Sexta, 21 Maio, 2004

MISTÉRIOS PEQUENOS E GRANDES: E tudo, muito de repente, mas apenas na metade penumbrosa do rosto, se transformou em ficção.


Quinta, 20 Maio, 2004

SOMOS TODOS REPUBLICANOS ESPANHÓIS: Lido no "DN" de hoje: «Comunistas, feministas, ecologistas e republicanos formam o "Movimento popular contra o casamento real", que marcou já dois desfiles de protesto em Madrid. Amanhã, às 20.00 locais, a dezena de organizações que compõem este grupo desfilarão a partir das Portas do Sol, no centro da cidade. A contestação do que consideram ser um "espectáculo grotesco" e um "desperdício de dinheiro" continuará no dia da cerimónia religiosa: às 12.00 locais, os manifestantes iniciarão um novo desfile "com música", em torno da praça 2 de Maio. Ao mesmo tempo que decorrerá o banquete nupcial, os protestantes estarão reunidos num "banquete republicano", em Rivas Vaciamadrid, nos arredores da capital espanhola.»


A CANÇÃO DE LISBOA: Aquilo que mete medo não é uma conspiração à escala da cidade que vise a tomada do poder, ou a subversão dos valores instituídos. Aquilo que mete medo (e, ao dizer isto, ele arrancou a rosa da lapela com um movimento de raiva) é uma conspiração cujos objectivos se resumem à sua perpetuação, sem antagonizar as leis nem o quotidiano; um conluio dotado de ramificações infindáveis, protegido por ferocíssimos ritos, complexos tabus, manhosos testas-de-ferro, mas que se limita a existir, sem alardes nem proselitismos. Dela, a sociedade nada tem que temer, tanto mais que a sociedade e a conspiração se confundem: são mais numerosos os que estão dentro do que os que estão fora.
Restam os outros, a minoria dos que aceitam o vexame, percorrem as ruas assumindo a pose de quem tem algo para esconder, entram em cena e fazem questão em dar-se, cumprir cada gesto com precisão muscular, e com uma doçura que o tempo acolhe sem medir.


Quarta, 19 Maio, 2004

ESCALA DE RICHTER:



A exposição de Gerhard Richter que está patente no Museu do Chiado permite aos lisboetas e arredorenses contactarem com a obra de um dos maiores pintores vivos. Aliás, Richter pertence ao grupo de (não muito numerosos) pintores que continuam a conferir sentido à noção de "excelência" e a um conceito de "grandeza artística" que, longe de toda a celebração academizante, seja capaz de isolar os autores de contributos realmente significativos para a pintura, incontornáveis na história da arte, na linhagem de Matisse, Picasso ou Bacon, para citar apenas os maiores, e para nos cingirmos ao século XX. (Isto numa altura em que muitas das principais correntes das artes plásticas enveredam pelas sendas da conceptualização toda-poderosa e da questionação perpétua sobre a legitimidade do acto artístico, mais depressa se entretendo a devorar-se a si próprias do que a produzir obras.)



O extraordinário leque de géneros e soluções formais que Richter já explorou (do fotorrealismo ao abstraccionismo, passando pelas alegorias e pela pop-art) podem fazer suspeitar o incauto de um eclectismo de fachada, de uma espécie de decatlonista da pintura, necessariamente superficial e falho de seriedade. Nada mais longe da realidade. A carreira versátil de Richter é um esforço, sustido durante décadas, de cartografia dos limites da sua arte, de inventário dinâmico. Mas representa também uma procura de uma essência da pintura que, ao revelar algo de comum a abordagens aparentemente irreconciliáveis ou antagónicas, restituísse legitimidade às reivindicações de autonomia e validade desta arte, numa altura da história em que a imagem sofre um duplo processo de banalização e de valorização desmedida. Esta busca da essência não se confunde com demanda de um qualquer Sublime. A arte do século passado foi marcada por um crescente cepticismo que, no entanto, nunca logrou suprimir por completo o ensejo secreto de um Absoluto. Pelo contrário, todo o percurso de Richter tende para uma exploração quase científica das possibilidades da pintura: arte pela arte, mas sem a sede de transcendência; arte glosada na vastidão das suas potencialidades; mas também arte como ofício, como prática, como se a meticulosidade da pincelada significasse a própria seriedade e o próprio rigor do artista. Uma pintura, em suma, onde as facetas de arte e trabalho se completam e confundem.



A pintura de Richter é também marcada por um elemento inalienável, e assumido: o elemento estético, o desejo de provocar prazer visual. A arte de Richter tem vindo a demonstrar que sondar os fundamentos de uma forma artística implica sondar a beleza. Mais do que vontade de agradar, trata-se de uma subtilíssima reflexão sobre os mecanismos de sedução e expectativa que unem o observador e o quadro. E um dos aspectos mais fascinantes da obra de Richter é o modo como esta e outras preocupações atravessam meio século de actividade, permeiam géneros, períodos e mudanças de rumo; uma coerência na diversidade levada a um extremo raro e grandioso.


SUGESTÃO DO DIA: Prescinda de uma ida ao Museu do Traje e faça um donativo ao PND, em bolas de naftalina, com o valor equivalente ao do bilhete.


Terça, 18 Maio, 2004

SOMOS TODOS REPUBLICANOS ESPANHÓIS: Dia D - 4 para o casamento dos cidadãos Ortiz e Borbón. A intoxicação noticiosa com que o serviço público nos brinda faz vir ao de cima o meu radicalismo que, por norma, dorme o sono dos justos, embebido nos sucos anisados da pacatez e da moderação. Que se casem, pois, com muito aparato e com piedosa dignidade! Que perpetuem a dinastia, e que a plácida existência de símbolos vivos da nação lhes assente como uma luva de borracha para lavar a baixela brasonada. Que cumpram uma lua de mel livre de paparazzi, e que restituam aos nossos serviços noticiosos o espaço reservado ao escândalo Casa Pia. Enquanto o pau vai e vem, sites como este são excelentes para manter um nível de sanidade mental não demasiado afastado dos padrões recomendados pela UE. Trata-se de um site de informação alternativa dirigida aos países hispanófonos. Não subscrevo necessariamente tudo o que lá está, aliás só por alto li os conteúdos, tendo-me concentrado na parte que diz respeito à boda real e às iniciativas de protesto programadas.

«(...)nos importa un bledo que Felipe de Borbón se case o se empareje con quien sea; trabajamos y trabajaremos por acabar con tutelas odiosas. No somos súbditos de un régimen anacrónico, sino ciudadanos libres dispuestos a luchar por el futuro.»




ONDE SE FALA DE...: Este era um post em que deveria falar-se de um corpo estranho no olho da América, e de um voo em linha recta através dos céus alentejanos. E de como o branco é uma cor apropriada para separar duas desilusões sucessivas.


CINEMA: "The Brown Bunny", de Vincent Gallo. Tenho pouco a dizer sobre "The Brown Bunny", filme que se coloca, da forma mais determinada e explícita, fora da alçada de qualquer consideração sobre "excelência", "valor" ou "pertinência". Trabalho de dor infinita e de lucidez periclitante, onde a contenção e o impudor se unem em amálgama que demora todo o tempo do filme a deflagrar e a espalhar o seu sentido pelo espaço, "The Brown Bunny" é, acima de tudo, uma proclamação violenta de individualidade e de autonomia. Não há código nem simulacro dele, não há apologia, não há espessura, não há mensagem derradeira de esperança fruste, não há nada: somente o "eu sou eu que perdeu e sofre", repetido até ao infinito, ao mesmo tempo linear e recursivo. E eu sinto-me tentado a aprovar esta atitude, que não pede a aprovação de ninguém. Gallo declara-se admirador de Ozu e de Fassbinder, mas a linhagem em que se insere é a dos grandes solitários, mais do lado de Garrel ou Eustache do que de Cassavetes. Cineastas como Rohmer e Resnais demonstram há décadas que é possível construir uma obra pessoalíssima sem jamais recorrer à primeira pessoa. Vincent Gallo insiste em relembrar que também é possível construir a tal obra pessoalíssima dizendo constantemente "EU", pouco importa se em sussurro ou em brado barbárico. Gosto do cinema artesanal, do autorismo levado ao extremo; apoio aqueles que reagem às críticas de umbiguismo elevando esse mesmo umbiguismo ao quadrado. O cinema não se faz só com espíritos independentes nem com autarcia artística, mas ninguém mais parece disposto a assumir o papel de antídoto contra o consenso da mediocridade que toma conta das salas e da imprensa.


CINEMA: "Lá Fora", de Fernando Lopes. Os filmes que giram em torno de romances que se malogram poderiam constituir um subgénero à parte: dos "amores frustrados" à maneira de Oliveira às inúmeras historietas boy loses girl urbano-depressivas, as variantes são legião. Décadas de exploração deste tão produtivo filão escancararam as portas para as revisitações cinéfilas: uma paixão pode findar antes de nascer por razões próprias às peripécias de um argumento, ou então porque os próprios dispositivos narrativos que fariam falta para contar a história dessa paixão soçobram, com maior ou menor estrondo.
"Lá Fora" é um desses filmes em que as armadilhas, decepções e misérias da vida real convivem em controlada promiscuidade com as limitações dolorosas dos processos de retratar essa mesma vida real, e de lhe conferir alguma coisa que se assemelhe a "sentido". Alexandra Lencastre e Rogério Samora, apresentadora de TV e corretor da bolsa, parecem destinados a encontrar-se, no sentido romântico do termo. Mas esse movimento de convergência falha. Por razões ligadas a circunstâncias da vida (as feridas de um divórcio por sarar, preocupações financeiras, timings desencontrados)? Ou pelo esgotamento, aqui encenado de maneira voluntária, dos modos e códigos que funcionaram para a idade de ouro do melodrama, mas que perderam toda a sua eficácia à medida que a suspensão da incredulidade perdeu o seu estatuto de moeda corrente da fruição literária/cinéfila? À dupla Lopes/Lopes (João Lopes, crítico de cinema, assina o argumento) cabe o mérito pela proeza de uma crónica de uma paixão que contém em si o enunciado, penoso e gravíssimo, da sua própria impossibilidade. E fazem-no de maneira magistral, sem rupturas nem didactismos. Num filme repleto de imagens (o mundo da televisão, os ecrãs de vigilância, a "imagem" que cada pessoa escolhe para si mesma), a reflexão sobre o papel da imagem na sociedade contemporânea nunca assume papel preponderante, espraia-se sotto voce, dilui-se sem se impor. Lopes e Lopes comportam-se como dois clássicos que compreendem de maneira aguda a modernidade e as suas encruzilhadas, a sua fecundidade, mas também o seu papel desagregador nas estruturas que suportaram o esplendor do cinema narrativo tradicional.
Uma nota final para o longo e terrível plano em que Alexandra Lencastre verbaliza o descalabro sentimental que se instalou na sua vida, perante uma Ana Zanatti soberba, em grande plano. Brusco contraponto verboso a um filme em que se dá ênfase à aproximação e apropriação dos seres mediadas pela imagem, esta cena serve de argumento àqueles (entre os quais me conto) que desejem atribuir um valor moral à profundidade de campo (nem só o travelling merece transcender o estatuto de mera artimanha técnica do arsenal cinematográfico).
Conheço muito mal a obra de Fernando Lopes. De "Lá Fora", esperava um filme adulto, sólido, que me falasse das pessoas e dos tempos modernos com inteligência e escorreita eficácia, temperada pela ironia. Não estava preparado para esta odisseia às profundezas onde se joga a viabilidade da coisa cinematográfica, e, por arrasto, da própria vida.


QUASE-GÉMEOS: Três blogs do melhorio que cumpriram o seu primeiro aninho nos últimos dias. Três blogs superlativos, cada um à sua maneira única. São o Almocreve das Petas, o Crítico e o Modus Vivendi. Três blogs onde é virtualmente impossível topar com alguma coisa que não valha a pena ser lida. Parabéns, e força para as próximas 365 rotações terrestres.


ANÚNCIOS D'OUTRORA (5):

Mistura Solúvel Brasa:

(Ambiente familiar e reconfortante. Três gerações unem esforços em animado trolaró.)

Brasaaaaa! Brasaaaaaaaaa!
Parece que é, mas não é.
Que gosto satisfação.
Brasa é a bebida
Que aquece o coração.

Cevada, chicória e centeio
É a sua composição.
Brasa é a bebida
Que aquece o coração.

(Repete dois últimos versos)




Domingo, 16 Maio, 2004

AO ACORDAR DE SONHOS INQUIET0S...: Diz-se, à boca fechada, que o número de cidadãos vítimas de estranhas metamorfoses em enormes insectos rastejantes aumenta de dia para dia. O fenómeno ocorre durante a noite, e invariavelmente no quarto da vítima. Como sempre, nestas circunstâncias, o silêncio obstinado das autoridades não serve senão para confirmar a gravidade da situação.
(É nisto que resulta ter como principal fonte de mitos urbanos um único homem, de fraca imaginação, e influenciável como um adolescente. Para agravar o caso, a crise que atravessamos traduz-se numa inédita escassez de clientela, que o força a longas horas de ócio. O nosso homem é capaz de ler meia dúzia de novelas de Kafka numa única tarde. E o pior nem é a leitura, mas sim o tempo que dedica a cismar naquilo que leu.)


SE ISTO É UM HOMEM: (Este post acaba servindo como epílogo do anterior.)
"São animais", dizia, numa crónica de há poucos dias, Luís Delgado, referindo-se aos responsáveis pela bárbara execução de um cidadão americano no Iraque. Admiro-me sempre com a ligeireza com que alguns decidem do que é humano ou não. Provavelmente, possuem na gaveta da sua secretária, entre a fita-cola e os chicletes de mentol, um metro-padrão que mede o coeficiente de humanidade, e no qual se baseiam para as suas graves sentenças. Luís Delgado não ignora que, ao pronunciar como "animais" aqueles que cometem tais actos repugnantes contra soldados e civis de países da coligação, justifica, por arrasto, toda a panóplia de retaliações possíveis e imaginárias. Tratando-se de animais, a consideração e os escrúpulos humanistas passariam por fraqueza inadmissível e supérflua; tratando-se de animais, que sejam tratados como animais. Não há julgamento mais grave do que aquele que implica traçar a fronteira entre o humano e o não humano; não há julgamento que menos se compadeça com a letra de imprensa de uma coluna de jornal. Há redomas que nos devemos abster de quebrar. A indignação não justifica tudo.


MORAL LAICA: Após uma demora escandalosa, que eu não tentarei sequer justificar (com argumentos columbófilos ou outros), retomo um debate com o blog Timshel, centrado na possibilidade de uma fundamentação laica da moralidade. Resumindo o diferendo à sua expressão mais simples, eu sou a favor, e o timshel é contra. Tomei a liberdade de apresentar alguns dos excertos que me parecem mais representativos da posição do meu interlocutor, seguidos de contra-argumentação.

«Como aqui disse em tempos, parece-me que de um ponto de vista científico (ou positivista), a obrigação moral não existe. Nenhuma obrigação moral existe. A obrigação moral ou assenta em axiomas ou então é um mero produto de relações de forças conjunturais localizadas no tempo e no espaço. Nesta última perspectiva, ela varia ao sabor das circunstâncias.»

Não discordo destas afirmações, mas introduzo dois bemóis. Em primeiro lugar, contesto a exclusividade: parece-me que a moralidade tem muito de híbrido de princípios de índole axiomática e das tais "relações de forças conjunturais". Em segundo lugar, eu não falaria de "variação ao sabor das circunstâncias", por tal dar a entender uma alteridade de conceitos e valores, quase isenta de pontos de referência ao longo do tempo histórico, que me parece longe da realidade. Mais sobre isto adiante.

«Sem uma referência a um direito de origem divina não é possível nenhuma fundamentação teórica válida de uma obrigação moral absoluta.»

Sim e não. Podemos conceber um manancial de Bem infinito, que se confundiria com a própria lei moral, e podemos dar-lhe o nome que desejarmos: "Deus", por exemplo. Podemos até separar esta idealização de toda e qualquer confissão específica. Uma tal abstracção seria mesmo indispensável, caso se desejasse fundar a moralidade em alicerces absolutamente perenes, imunes ao devir dos conceitos e dos valores; ou seja, caso se pretendesse retirar da alçada do século o ideal da Justiça. Mas as tais "forças conjunturais", de que se fala acima, podem também ser eficazes geradoras de máximas e princípios que se guindam a um estatuto virtual afim do "absoluto", sem a necessidade de invocar o transcendente. Espero clarificar este ponto mais adiante.

«Poder-se-á dizer que as regras da convivência entre os homens produzem essa obrigação moral sem necessidade de recorrer à sua fundamentação divina. Mas essa afirmação impede qualquer julgamento de validade sobre uma qualquer obrigação moral. Na medida em que as circunstâncias sociais se alterem, a tortura, o assassínio, ou todo e qualquer comportamento criminoso podem deixar de o ser. O direito sem esta fundamentação divina é apenas o produto de uma relação de forças, a lei do mais forte.
Mesmo que pensemos que o direito não deve ser isto, a fundamentação de tal posição (moral, aliás) nunca poderá sair da esfera do humano e do relativo às condições históricas que produzem o direito.
Nunca será possível condenar o Mal. Ele será sempre relativo. Se agora o Mal é Mal tal não significa que noutras condições históricas o que é agora Mal não possa ser Bem.
Não consigo encontrar uma fonte de validade outra que não a divina para poder dizer que sempre o assassínio e a tortura são crimes. Independentemente de todas e quaisquer circunstâncias históricas.»


A primeira frase é aqui crucial: a convivência entre os seres humanos, e aquilo que dela emana ao nível de valores, leis, regras e prioridades, acabam por servir de fundamento para aquilo a que eu chamo moralidade, e para aquilo que o meu interlocutor considera (se o sigo bem) um mero sucedâneo. Os exemplos citados são extremos, mas, por isso mesmo, tornam-se mais eficazes para trazer à luz aquilo que separa os nossos pontos de vista. Eu acredito que a tortura e o assassínio nunca poderão deixar de ser considerados crimes, e isto porque constituem atentados contra a vida humana. E parece-me inconcebível que uma sociedade dotada de leis, ainda que na sua condição mais incipiente, deixe de condenar o assassínio; numa primeira fase, serão razões predominantemente pragmáticas que prevalecem (uma sociedade que tolera o homicídio condena-se ao aniquilamento); progressivamente, o carácter inviolável da vida incrusta-se na própria mundividência que preside ao colectivo. O respeito pela vida humana é o exemplo supremo de um princípio que, por vias estritamente seculares, se iça a lei absoluta.

«E só assim posso dizer a alguém que cometeu um destes crimes que o que ela fez foi errado. Senão apenas lhe posso dizer que será condenada apenas porque não é (tem) poder. Se tivesse poder ou se a "consciência moral colectiva" ( e já vimos isso no nazismo) lhe desse esse poder, o assassínio ou a tortura já eram coisas boas.»

Permito-me responder com um contraexemplo. Uma moralidade de origem divina (a tal "fonte de toda a verdade") parece-me, essa sim, perigosamente vulnerável a derivas. Porquê? A vontade de Deus não se exprime em boletins diários. Um conjunto de princípios não chega para orientar uma conduta; fazem falta intérpretes, intérpretes que respondam aos dilemas morais de cada um perante os problemas que o Mundo engendra. Intérpretes tantas vezes demasiado humanos, sujeitos à tentação de apelar (também eles) a uma "consciência colectiva", de se apropriarem da "fonte de verdade" para servir fins que podem percorrer toda uma gradação entre o proselitismo sincero e a simples cupidez. Pensemos nas Cruzadas, pensemos na Inquisição, pensemos no fundamentalismo islâmico. A convicção de que se está com Deus, logo com a Verdade absoluta, pode justificar tudo. O exemplo do nazismo é, aqui, enganador. Frequentemente, o nacional-socialismo (pagão na sua essência, e que apenas tolerava o cristianismo) é citado como ilustração de que o afastamento dos valores religiosos, à escala de uma nação, prepara o terreno para a barbárie. Mas a Alemanha nazi mais não fez do que substituir um Absoluto por outro, infinitamente mais perverso e tenebroso. São as sociedades democráticas actuais, fundadas na tolerância, num laicismo mais ou menos assumido, e em códigos legislativos com forte carga pragmática, e progressivamente alheios a qualquer conceito de Absoluto, que constituem hoje em dia um espaço de prosperidade, paz e justiça social sem paralelo na história universal dos últimos séculos.


Sábado, 15 Maio, 2004

MORTES DE POETAS: E depois há também isto, cidades que se revestem de farrapos de pequena história como ladrilhos, que segregam quotidiano como quem ronrona, que oferecem ao visitante uma lisura nervosa mas controlada, aparentemente privada de mergulhos no tempo.
(Não usar a palavra "mergulho". Usar outra palavra.)
Mas as memórias são mais fáceis de domesticar do que de aniquilar. Distorcem a sua vizinhança, reverberam, ruminam histórias. Por vezes, quase sempre, trazem uma data colada à nuca.
Foi da ponte Mirabeau, em Paris, que Paul Celan saltou para a sua morte. No local, não encontrei uma única placa ou memento alusivo. Ignoro se isso se deve a negligência minha, desinteresse da municipalidade, decisão expressa ou vontade dos familiares.
Nos próximos dias, mostrarei mais imagens da ponte Mirabeau, vista de ângulos diferentes.






ALEGRE EXCURSÃO: Uma comitiva de 50 personalidades portuguesas (governantes e não só) vai assistir à cerimónia de assinatura da nova Concordata, na próxima terça-feira, em Roma. Em séculos passados, os papas punham e dispunham na política europeia à força de bulas, emissários e intrigas. Esses tempos já estão longe, mas as relações com o Vaticano (essa anacrónica emanação do catolicismo disfarçada de nação soberana) continuam a revestir-se de singular importância, para um estado em cuja Constituição se lê (artigo 41, 4) «As igrejas e outras comunidades religiosas estão separadas do Estado e são livres na sua organização e no exercício das suas funções e do culto.».
O laicismo é como um animal bisonho e obstinado, que encaixa os golpes sucessivos com a convicção de que a razão e o triunfo final são seus.


FOOTBALL-FREE ZONE: Porque se fala tão pouco de futebol neste espaço? Por falta de interesse do escriba? Longe disso. Sou apreciador de longa data, com tendências benfiquistas; passei muitas centenas de horas da minha vida a assistir a transmissões televisivas de desafios, e tenciono passar muitas mais; sou o tipo de espectador que entra em estado de hiperventilação quando chega 20 minutos atrasados a um Lituânia-Grécia. Do campeonato europeu que se avizinha, só não assistirei aos jogos que não puder.
A razão é outra. Fala-se demais de futebol neste país. O ponto de saturação e de náusea foi já ultrapassado há muito, mas a nossa comunicação social consegue descobrir novas e insuspeitadas fasquias a cada dia que passa. Com o aproximar do Euro 2004, não é grande proeza prognosticar uma asfixia total de futebol, um paroxismo catalisado por essa detestável identificação do sucesso desportivo com a imagem e com a condição anímica de Portugal (a Bem da Nação!).
Daí a nossa parcimónia; daí a nossa relutância; que, a partir de agora, é elevada oficialmente a moratória e período de nojo. Salvo circunstâncias absolutamente excepcionais, não se falará de futebol aqui pelo menos até Agosto e Setembro.


JUSTIÇA: Meses atrás, manifestei o meu desejo de que a época do Real Madrid Club de Fútbol fosse repleta de fracassos, de preferência humilhantes. O desenrolar dos eventos superou as minhas expectativas mais optimistas. É sempre motivo de contentamento constatar que a lógica do poderio económico nem sempre está isenta de brechas; dá alento, verificar que contratar os melhores e mais caros jogadores do mundo não é suficiente para construir uma equipa.
Resta saber se, êxitos desportivos à parte, a temporada "merengue" foi tão catastrófica como parece: à força de publicidade e do carisma mediático de alguns dos seus artistas (ah! os penteados do Beckham, oh! o sorriso do Ronaldo), com a conivência servil de uma comunicação social com evidente apetite por números circenses, o clube da capital espanhola aumentou a sua já grande visibilidade nos ecrãs mundiais; as repercussões ao nível do volume de negócios não devem ter sido pequenas. Com estas linhas se cose o desporto-espectáculo dos nossos dias.


SABEMOS QUE CHEGOU A ALTURA DE MUDAR DE CANAL QUANDO...: ...mostram uma reportagem sobre a escala de José Mourinho em Fátima, a caminho de Lisboa. F de Fátima, F de Futebol, Z de "zapping".


SABEMOS QUE CHEGOU A ALTURA DE PASSAR A LER MAIS KLEIST E MENOS REVISTAS QUANDO...: ...deparamos com um artigo sobre os mapas astrais dos cidadãos Letizia e Felipe. Superstição, charlatanice, irrelevância e papalvice num só.


Quinta, 13 Maio, 2004

ENSAIO SOBRE O DIA CONSEGUIDO: Hoje, no espaço de poucas horas, fiquei a saber que o poeta Hugh MacDiarmid entrou para o Partido Comunista imediatamente após a invasão da Hungria pela URSS, e que Stendhal terá dito, da primeira vez que provou gelado: "Que pena não ser pecado!".


TRACTATUS LOGICO-PHILOSOPHICUS:

1 - O Mundo é tudo aquilo que é o caso.
1.1 - Aquilo que é o caso divide-se em dois grupos: aquilo que é o caso no interior do perímetro do Campo dos Mártires da Pátria e aquilo que é o caso fora dele.
1.1.1 - Dentro do Campo dos Mártires da Pátria, a lógica aristotélica não é mais do que uma hipótese escabrosa e esquecida por todos.
2 - No meu sonho vêm roubar a cabeça da estátua.
2.1 - É de noite.
2.1.1 Não uma "nuit américaine", mas noite de verdade.
2.2 - Começa a chover.
2.3 - Um dos meliantes sai muito maltratado.
2.4 - Hiato.
2.5 - A cidade desperta, em sobressalto.
3 - Quem se interessa por historietas sobre Kleist, por piadas mais-que-privadas que envolvem túneis subterrâneos e sessões espíritas numa vivenda do Restelo, perguntou ele? Ninguém, provavelmente, retorqui. Mas repara que esse teu desabafo ocupou um lapso de tempo que, de outro modo, poderia soçobrar num estéril silêncio. Não há assunto, é certo, mas nós falamos sobre ele, e entretanto vai chegando a hora de nos dirigirmos ao miradouro de Santa Catarina para assistir ao eclipse lunar. É verdade, concordou ele.
3.01 - "Ninguém" excepto, é claro, o Leitor Único, à maneira de Kierkegaard, esse que só lê os prefácios, e que sabe perfeitamente ser ele o visado por todas as segundas pessoas do singular, sejam elas acusadoras ou cúmplices.
3.1 - No teatrinho de marionetas do Jardim da Estrela representava-se desta vez O Círculo de Giz Caucasiano.
3.2 - Ainda antes de cair a noite, escutava-se já a voz de Manuel Monteiro gritando "ANNA MARIA GUARDI!!!!!". O que fazem as autoridades policiais? O que pensarão disto os visitantes do Euro 2004? Tons de púrpura tingiam o céu entre as ramagens das árvores.
3.3 - Que dizer da cena de sexo oral no filme "The Brown Bunny"?
4 - Tudo o que eu tinha a dizer era eurocracia de bruxelas que coarcta liberdades proibe aditivo fortificante para pombos correios posts atrasados que se acumulam na arca por exemplo ponte mirabeau de onde paul celan saltou para a morte descalabro do real madrid o retrato de ruy belo a exposição de gerhard richter no chiado e todos os blogs que houver por aí e ah trair as palavras com os factos e os factos com as palavras sobretudo nunca abdicar do ricto de quem acredita ser capaz de encontrar sentido para tudo.
5 - Haverá ainda quem julgue que os pastéis de nata não são relevantes?




ACHADO NÃO É ROUBADO: Hoje descobri um site formidável sobre Tarkovsky. A barreira da língua (checo) impede-me de dele desfrutar na sua íntegra, mas a galeria de imagens de filmes (incluindo muitas das rodagens) é verdadeiramente notável. Em comum com Godard e Greenaway (deve ser esta uma das poucas coisas que partilham), tinha Tarkovsky esse agudíssimo sentido do plano, que faz de cada um dos fotogramas dos seus filmes uma pequena obra por direito próprio, e um microtratado sobre a interrogação do mundo pela imagem.
Como se costuma dizer, "É fartar, vilanagem!".


Quarta, 12 Maio, 2004

SUGESTÃO DA NOITE: Prescinda de uma ida ao museu de cera para visitar o site do PND. Descubra as diferenças entre um e outro.


BRING ME THE HEAD OF SOUSA MARTINS: Na Janela Indiscreta dá-se o devido destaque à figura do Doutor Sousa Martins, e a palpitantes revelações sobre o paradeiro da sua cabeça. Urge, contudo, esclarecer uma coisa muito bem esclarecida. Uma coisa é um mito urbano, que corresponde a um desejo, ainda que incipiente, de confiar em factos do Mundo, e de isolar a verdade da mentira. Um exemplo seria "Um trineto do Dr. Sousa Martins sequestra adolescentes nas casas de banho de centros comerciais para alimentar o tráfico de órgãos". Mirabolante, mas falsificável. Os mitos urbanos de Lisboa são propagados por um artesão de reparação de calçado, que vive no Bairro dos Actores. Os seus mitos urbanos são mais tenebrosos ou mais inócuos consoante o pastel de nata que lhe servem na pastelaria do outro lado da rua vem mais ou menos queimado. Parece-me que isto não faz sentido. Um mito urbano é isto. Aquilo que se passa com o Dr. Sousa Martins é muito diferente: trata-se de um culto, de um movimento de fé e de desespero, alheio a tudo aquilo que é o caso ou deixa de o ser. Mas talvez a diferença seja mais minguada do que parece. O cepticismo metropolitano não tem outra maneira de assimilar este objecto de devoção a não ser integrando-o no seu tecido de Grandes Narrativas, disseminadas e repetidas maquinalmente como verdades um pouco aquém do limiar do escabroso. O Campo dos Mártires da Pátria (tudo começa pelo nome...) cai sob a alçada da sintaxe, e não da sociologia. Não sei se era isto que eu queria dizer. Quem se ocupa das placas votivas? Para onde irão? Quais são os planos da Carris para o elevador do Lavra? Tudo isto exige acção. A primavera chegou, e o ar limpo enche os pulmões sôfregos daqueles que saem às ruas sem objectivos mas com o corpo tenso de urgência inomeável.
Resta a estátua. Na sua material solenidade, é ao mesmo tempo o mistério e o soberbo sumidouro de todos os mistérios. Não se justifica nem aponta o caminho. Ocupa o espaço e vicia o tempo. Para chegar à Praça José Fontana, basta meter pela Rua Gomes Freire.


CINEMA POPULAR: Era a minha última oportunidade para contactar com a série "Cremaster", e falhei-a: lotação esgotada! Ignorava que Matthew Barney possuía uma tal corte de seguidores na região de Lisboa e vale do Tejo. Cai-me o coração aos pés quando constato o número de pessoas que insiste em ir ao cinema em vez de ajudar financeiramente o Manuel Monteiro. É por essas e por outras que vamos acabar sob o jugo da burocracia de Bruxelas, que acabará por nos impor os mexilhões com batatas fritas e outras detestáveis especialidades, incompatíveis com a nossa dieta mediterrânica.


DUPLA AMBIÇÃO: Eu tenho duas grandes ambições na minha vida, que passo a revelar. A primeira ambição é ser um dia capaz de cortar o meu próprio cabelo. A segunda ambição é compreender o que leva um jornal sério a enviar, ano após ano, o Eurico de Barros para cobrir o Festival de Cannes. Se o raio de acção de um jornalista da secção de artes fosse proporcional ao seu nível de profundidade e penetração crítica, Eurico de Barros não iria além do cineclube de Vila Velha de Ródão. Fala-se muito em meritocracia, mas são mais as vozes do que as nozes.


CARA LAVADA: O Quartzo, Feldspato & Mica e a Seta Despedida mudaram de template. Levará tempo até que me habitue, mas o sacudir das rotinas tem o seu quê de salutar.


I KNOW WHAT YOU DID LAST SPRING: O Little Black Spot apareceu há um ano. Não mudou a blogosfera, mas tornou-a um pouco mais frequentável e mais luminosa. Venha o Ano II.


AQUILO QUE NOS QUEREM ESCONDER: Também existe um busto do actor Taborda no interior do Teatro Nacional Dona Maria II.


Domingo, 9 Maio, 2004

BATER NO CEGUINHO: Assim de repente, não me ocorre mais nenhum ângulo de ataque à iniciativa do Manel (prescinda de uma ida ao cinema e faça um donativo ao PND). Mas porquê o cinema? O meu querido cinema? Porquê, porquê? Oh martírio! Porque não "prescinda de um jantar no restaurante", ou "prescinda da sua partida de squash semanal"? Porque insistem em fazer do cinema o mau da fita? Foi para isto que os irmãos Lumière se esmifraram até conseguirem filmar o jardineiro regado?
A minha campanha do dia é: "Prescinda de uma ida ao site do PND, e vá ver a Jean Seberg à Janela".


O OUTRO K: Bem, agora vou falar de Kierkegaard. O conceito de ser "Único" em Kierkegaard está intimamente ligado ao princípio da "retoma" ("Gjentagelsen"), essa "retoma" que, envergando a diáfana máscara da mera "repetição", a trascende e subverte. A retoma kierkegaardiana é um movimento de ascensão gradual nos "estádios no caminho da vida", um re-começo quotidiano como o maná do deserto, melhoramento obtido à custa da "mudança no mesmo", categoria (tipicamente) paradoxal na medida em que implica a conciliação impossível entre a constância e alteridade. Este percurso paradoxal traduzir-se-ia na ascensão do Indivíduo ao estatuto infinitamente desejável de "Único" perante Deus.
Mas Kierkegaard engendra subtilmente as suas categorias e os seus pontos de fuga ético-religiosos de modo a que eles se apliquem à sua vida pessoal, que, na altura, atravessa um nó crítico. O leitor que ele incita a almejar esse estatuto de "Único" é igualmente o único leitor que ele visa, o único a quem dizem respeito as tortuosas formulações sobre a possibilidade de retomar, sem repetir, algo que o tempo rompeu.
Esta problemática é interessante, deveras, mas que possibilidades existem de a converter em ficção? Existe nesta discussão algo de oblíquo, que um soalho e um estreito raio de sol poderiam emular. Paira no ar um cheiro a eucalipto, e um cheiro a pêlo de animal, menos ténue este do que aquele. Três cartas sobre a mesa, por abrir, para além dos restos do pequeno-almoço. Quem entra e se enrosca no sofá traz no bolso das calças um número de telefone, rabiscado no verso de uma multa de estacionamento, e na mão direita um CD com quartetos de Haydn. América, América, porquê uma tão brusca reacção a um tão corriqueiro estímulo?, e ainda (pergunta nº 2), a que se deve essa obstinação em arcar com um quinhão de miséria maior do que o dos que te rodeiam, alternadamente encarnado e púrpura, e duradouro no tempo?


E O PRÉMIO "WHO CARES!" DA SEMANA VAI PARA...: Perante aquela reportagem da RTP sobre a empresa portuguesa que está a fabricar as peças de porcelana alusivas à boda dos cidadãos Ortiz e Borbón, dei comigo a pensar que a primeira camisa que eu vesti possuía, afinal de contas, um interesse notável. Aquele colarinho, aqueles botões...


CONSELHO DO DIA: Em vez de prescindir de uma ida ao cinema, prescinda de uma ida ao teatro: assim, o donativo ao PND será mais generoso. (De preferência, deixe de ir ver uma peça contrária à moral e aos bons costumes do honesto e regrado povo português. A escolha é vasta.)


ANÚNCIOS D'OUTRORA (4): Bem diz o Zé Mário: o gás é um inferno. Conscientes disto mesmo, as autoridades não se têm cansado de alertar as populações incautas para as precauções que é mister tomar quando se lida com tão perigoso elemento:

(Diálogo entre Luísa Barbosa e comadre, numa rua típica alfacinha. Assunto: a leviandade crónica de uma vizinha.)
- Tem as garrafas de gás deitadas!
- E o tubo do fogão? É um bocado de mangueira. Sem braçadeira!
- Veja lá que ela até tem o esquentador montado na casa de banho!
- E se há azar, mulher? Se há azar? Põe em risco o prédio todo!
(Nisto, a vizinha visada acolhe um agente da companhia do gás, imbuída de uma sã vontade de fazer inspeccionar as suas instalações, e regressar assim ao convívio da raça humana. Assim se calam as bocas maledicentes.)




MONDAY MONDAY: Uma maneira de conciliar consciência cívica e fruição artística é ir ao cinema às segundas: o bilhete é mais barato, e a diferença pode ser convertida em donativo ao Manuel Monteiro. Todos os cêntimos contam.


QUANDO AS LUZES SE ACENDEM: Depois de "Lost In Translation", "Kill Bill Vol. 2" é mais um filme que reserva um rebuçado a quem tenha a paciência de aguardar até ao fim da ficha técnica (longuíssima, neste caso). Não vou revelar do que se trata, para não arruinar o prazer a futuros espectadores (quem quiser escreva-me, que eu descreverei a cena em questão com farta abundância de detalhes).
A propósito, a Associação Dos Espectadores de Cinema Que Ficam Sempre Na Sala Até Ao Fim Da Ficha Técnica reúne-se na próxima quarta, no nº 111 do Campo dos Mártires da Pátria, ao pôr do sol, como de costume. Caso não exista quorum, jogar-se-á bilhar às três tabelas.
Como é ingrata a existência do devorador de fichas técnicas! Arrisca-se em permanência a ser espezinhado, e aos olhares furibundos dos arrumadores que só esperam pela sua saída para revistar a sala em busca de telemóveis perdidos, blusões esquecidos e engenhos explosivos. Façamos algumas contas por alto. Numa existência cinéfila que tenha acumulado 1000 idas ao cinema, quanto tempo terá sido consagrado às fichas técnicas? A duração destas varia muito: nos filmes mais antigos, reduz-se quase sempre à sua expressão mínima, ao passo que, em produções mais recentes, sobretudo as mais dispendiosas, chega a durar largos minutos. Admitamos uma duração média de dois minutos. 2x1000 são 2000 minutos; existem 1440 minutos num dia. Cerca de dia e meio de uma vida passado a ler nomes de pós-sincronizadores de som e de assistentes estagiários de realização. Dá que pensar. E dá vontade de abdicar deste passatemto tão absorvente, e passar a fazer reverter os preços dos bilhetes para os cofres do PND.


ELVIS COSTELLO AO VIVO, ONTEM, NO COLISEU DOS RECREIOS: Elvis Costello é um caso singularíssimo de longevidade criativa (quase 30 anos de carreira, e predominância clara dos momentos altos sobre os impasses), de excelência ao nível dos textos, de continuada sofisticação musical que nunca aliena o prazer acústico imediato e a dimensão popular, de respeito pela inteligência dos seus ouvintes, de autoimposta exigência, de bulímica exploração de géneros e registos, de devoção e entrega.
A voz deste cidadão de Liverpool, Declan McManus de sua graça, é limitada no timbre, na potência e no alcance. Estas limitações, no entanto, convertem-se em virtudes, quando assumidas com honestidade, e é fascinante constatar como uma voz que pareceria condenada a voar baixo se afirma, quando trabalhada e explorada com sagacidade, como um poderoso instrumento, em perfeita simbiose com o universo musical que o seu dono engendrou. Para além de ser um dos maiores compositores da música popular recente, Elvis Costello é também hoje um intérprete de excepção.
O concerto de ontem foi parcialmente preenchido com canções recentes, nomeadamente do álbum "North". Houve ainda tempo e vontade para recuperar êxitos do passado, como "Watching the Detectives", "Veronica" e "Accidents Will Happen", para além dos muitos solicitados "She" e "I Want You".
A resposta do público pode ser descrita como uma empatia civilizada, entusiasta, fiel e calorosa. Elvis Costello foi acompanhado pelo pianista Steve Nieve, seu parceiro em lides musicais desde os longínquos tempos dos Attractions. Este concerto foi um muito bom concerto, diria mesmo um grande concerto. Não me arrependo do preço que paguei pelo bilhete, se bem que ele pudesse ter sido mais bem empregue num donativo para o partido do Manuel Monteiro. "Prescinda de uma noite de música e ajude o PND!"


Quinta, 6 Maio, 2004

EXTENSÃO DO DOMÍNIO DA LUTA: É certo que o 1bsk se quer ecléctico, mas só até certo ponto. A enumeração de tudo aquilo que o nosso raio de acção cobre esgota-se numa mancheia de linhas:

Agentes:

O tesoureiro da Sociedade Filarmónica Recreio Artístico da Amadora, os 10 últimos galardoados com o Prémio Nobel da Fisiologia e Medicina, o Rolando Furioso, Sir Edmund Hillary, a irmã que Marcel Proust nunca teve, eu, a milícia cívica de São Jorge em Haarlem retratada por Frans Hals, o Ponziani, a Nicole Kidman, a rainha Beatriz da Holanda, todas as pessoas que alguma vez foram meus vizinhos do lado, o coelho branco da Alice, Emiliano Zapata, Luís Delgado, O Incrível Hulk, a nova geração de romancistas italianos, Olga Cardoso, todos os chefes que alguma vez tiveram uma estrela no Guia Michelin e que a perderam, Arthur C. Clarke, o velho do Restelo, a América, todos os seguranças do Centro Comercial Vasco da Gama, Aquiles, Agamémnon, Clitemnestra, Antígona, Orestes, Luiz Pacheco, Martha Argerich, os cobradores de dívidas difíceis, todos aqueles que não toleram o cloro das piscinas municipais, todos aqueles que nasceram de uma coxa de Júpiter.

Acções:

Olhar em frente, caluniar, esperar cinco minutos, esperar dez minutos, flectir o músculo braquiorradial, bater as pálpebras, contrair o músculo soleus, cerrar os maxilares, desenhar um gato, dobrar o joelho, apontar, desdenhar, relaxar os músculos extensores da mão, engolir em seco, comprar um limão, comparar preços de frigoríficos, chupar um rebuçado com aroma de anis, tocar no próprio peito, tocar na face do parceiro do lado, cantar, subir um degrau, descer um degrau, ler o jornal, chorar, esperar por melhores dias, vender um castiçal na feira da ladra, citar como exemplo a vida de Hermes Trismegisto, consultar uma tabela de logaritmos, deixar de acreditar na bondade humana, levar as mãos às ilhargas, deitar-se em decúbito dorsal, estalar os dedos, massajar a cana do nariz, visitar a Tunísia.

Lugares:

A cozinha, a copa, a Ópera da Bastilha, a estrada que liga Monchique a Portimão, o edifício das Nações Unidas, o sótão, as águas furtadas, a redacção do jornal "Corriere Della Sera", o Museu de Arte Antiga, a periferia norte de Berlim, um pedestal vazio na cidade de Ljubljana, os socalcos do Douro, a província imaginária de Yoknapatawpha, o túmulo de Kierkegaard, as ilhas Galápagos, uma clínica de cirurgia plástica à beira da falência em Gary, Indiana, os bairros de Campolide, Ajuda, Xabregas, Penha de França, Madredeus, Sapadores, Príncipe Real, Sete Rios, Benfica, Lumiar e Alfama, a tundra finlandesa, os carrinhos de choque, o oceano Índico, o Jardim da Estrela, a Fnac Ternes, a casa de banho dos homens do aeroporto de Gatwick, a cidade de Santiago do Chile, a via pública, a ilha de Creta, a sala dos Botticelli na Galleria Degli Uffizi, a pastelaria Suíça, o pólo Norte.

E TODAS AS PERMUTAÇÕES E COMBINAÇÕES DESTES ELEMENTOS




HOMENAGEM A THOM GUNN (1929-2004):

«Overall, Gunn's poetry has evolved towards a more directly humane treatment of its subjects. This evolution may be seen in the changing aspects of two abiding qualities in his work: his sympathy with the outsider-rebel and his interest in the nature of courage.»(Timothy Steele, in "Oxford Companion to 20th-Century Poetry", edited by Ian Hamilton)

My Sad Captains

One by one they appear in
the darkness: a few friends, and
a few with historical
names. How late they start to shine!
but before they fade they stand
perfectly embodied, all

the past lapping them like a
cloak of chaos. They were men
who, I thought, lived only to
renew the wasteful force they
spent with each hot convulsion.
They remind me, distant now.

True, they are not at rest yet,
but now that they are indeed
apart, winnowed from failures,
they withdraw to an orbit
and turn with disinterested
hard energy, like the stars.





Terça, 4 Maio, 2004

VENTOS DE MUDANÇA NA AMADORA: A Sociedade Filarmónica Recreio Artístico da Amadora pode estar em vias de assumir a gestão da Quinta de São Miguel, que irá receber um centro de acolhimento para crianças e um espaço intergeracional. Quem o afirma é o presidente da edilidade, o que confere a esta especulação um grau de certeza satisfatório.


ANÚNCIOS D'OUTRORA (3): O Cruzes Canhoto! abriu o filão inesgotável dos anúncios de prevenção contra os perigos do gás. Ninguém que tenha vivido estes anos alguma vez poderá esquecer-se de pérolas como esta:

(Telefone toca em casa de um valente soldado da paz. Curta conversa ao telefone, seguida de pergunta aflita da estremunhada esposa.)
- O que foi?!
- Ora, o costume! Compram aparelhos a gás não estampilhados, instalam-nos sem a ajuda de um especialista, e depois é tudo assim: vai por fora e apaga o lume. Enfim, só fazem disparates.

(Numa versão subsequente, mais rara, disputada pelos coleccionadores, o telefone voltava a tocar, para anunciar um falso alarme. Terá este manto diáfano de optimismo chegado para tranquilizar uma geração que passou a viver no terror de vir a comprar aparelhos de gás não estampilhados?)


MAS O CABECILHA DOS JACOBINOS É ELE: O governo Zapatero elimina a obrigatoriedade da disciplina de religião, nas escolas de Espanha.
Invade-me uma súbita vontade de escancarar a janela e declamar as obras completas de García Lorca.


REVISÃO DA CONCORDATA: A concordata ideal, na minha modesta opinião, consistiria numa única folha em branco, mas não um branco qualquer, eu queria um branco rico e lustroso, homogéneo, pujante mas agradável à vista.
Enquanto não se converge para esta solução, gostaria de citar (trata-se de uma estreia) o bispo Eurico Dias Nogueira, que qualificou de "radicais e jacobinas" as posições daqueles que defendem a inconstitucionalidade de algumas das normas da concordata ("DN", 3/5). Vindo de quem vem, o adjectivo "jacobino" é o mais categórico elogio que se possa conceber, e indicador inequívoco de que se está a seguir a boa via.


THE SONTAG CODE: Não se exige grande perspicácia hermenêutica para descobrir o nome de um terrorista internacionalmente famoso, nesta linha de um romance de Susan Sontag ("The Volcano Lover"):

«The broader, lower-hung coach behind had been laden with most of the luggage.»

Atendendo a que este romance foi pela primeira vez publicado em 1992, conclui-se que esta grande intelectual norte-americana, para lá dos seus ensaios lúcidos e incisivos sobre arte e política, é dona de um talento premonitório que reduz o tão celebrado "Bible Code" ao estatuto de quiromante de feira pelintra.


UM HERDEIRO DE ARISTÓTELES: Vivemos num mundo às avessas, e, para quem ainda duvidasse disso mesmo, eis que a crónica de ontem de João César das Neves aparece para aniquilar qualquer resquício de cepticismo. A páginas tantas, JCN invoca a lógica. Abre citação, «Neste caso, como em tantas questões polémicas, a lógica não anda muito respeitada». O que nos reservará o futuro? Alberto João Jardim apelando à moderação?
Eu nada tenho contra aqueles que deliberadamente se autopromovem a caricaturas de si mesmos, desde que o assumam, e evitem fazer de conta que são dotados de espessura.


Domingo, 2 Maio, 2004

TEXTO, SUBTEXTO E ARTIGOS DE PASTELARIA: O fazedor de mitos urbanos exerce o seu ofício de reparador de calçado com escrúpulo e aplicação. Os clientes escasseiam; o excesso de tempo livre não é uma benesse, mas sim um amigo traiçoeiro que ele trata com cerimónia. Construir um repertório de mitos urbanos, geri-lo e propagá-lo, exige capacidade de efabulação e (sobretudo) um fino conhecimento da natureza humana. Pouco dado a incursões fora do seu bairro, o fazedor de mitos urbanos não dispensa nem os dois deditos de conversa com os seus clientes nem a leitura. A penumbra não convida a leituras prolongadas. O fazedor de mitos urbanos interessa-se pelos contos de Kafka, que ele lê na versão inglesa, largamente preferível, segundo ele, às traduções portuguesas disponíveis. Um dos textos fragmentários que mais o intriga é "On Parables".

«Many complain that the words of the wise are always merely parables and of no use in daily life, which is the only life we have. When the sage says: "Go over," he does not mean that we should cross to some actual place, which we could do anyhow if the labor were worth it; he means some fabulous yonder, something unknown to us, something that he cannot designate more precisely either, and therefore cannot help us here in the very least. All these parables really set out to say merely that the incomprehensible is incomprehensible, and we know that already. But the cares we have to struggle with every day: that is a different matter.
Concerning this a man once said: Why such reluctance? If you only followed the parables you yourselves would become parables and with that rid of all your daily cares.
Another said: I bet that is also a parable.
The first said: You have won.
The second said: But unfortunately only in parable.
The first said: No, in reality: in parable you have lost.»
(Tradução: Willa e Edwin Muir)

O fazedor de mitos urbanos alimenta durante muito tempo a ilusão de que este texto constitui um enigma, vulnerável à perspicácia e ao discernimento. Ele acredita que ao leitor é concedida a possibilidade de abarcar em simultâneo os planos da parábola e da realidade que parecem incompatíveis aos dois intervenientes no conto. A frustração apodera-se dele quando as interpretações que ensaia abrem fendas subtis, para logo se esboroarem sob o peso da própria inconsistência. O fazedor de mitos urbanos torna-se céptico quanto à possibilidade de retirar destes curtos textos aforísticos algo que se assemelhe a um "sentido último", muito menos uma "moralidade". Outros contos confortam este seu cepticismo, como por exemplo "Prometheus".

«There are four legends concerning Prometheus:
According to the first he was clamped to a rock in the Caucasus for betraying the secrets of the gods to men, and the gods sent eagles to feed on his liver, which was perpetually renewed.
According to the second Prometheus, goaded by the pain of the tearing beaks, pressed himself deeper and deeper into the rock until he became one with it.
According to the third his treachery was forgotten in the course of thousands of years, forgotten by the gods, the eagles, forgotten by himself.
According to the fourth everyone grew weary of the meaningless affair. The gods grew weary, the eagles grew weary, the wound closed wearily.
There remained the inexplicable mass of rock. The legend tried to explain the inexplicable. As it came out of a substratum of truth it had in turn to end in the inexplicable.»
(Tradução: Willa e Edwin Muir)

Faz-se tarde. O fazedor de mitos urbanos prefere o crepúsculo para sair à rua. Na pequena pastelaria da rua Actriz Virgínia, ele é bem conhecido de toda a gente. O bolo de arroz e o copo de leite a 37 graus Celsius são-lhe postos à frente com o automatismo de um hábito, e com a solenidade de uma dádiva. O tempo não está isento de culpas. Farrapos de inverosímeis vidas enchem o chão e o ar.




ANÚNCIOS D'OUTRORA (2):

Pasta Dentrífica Dentagard:

- Aiii!
- O que é que foi, pá?
- São as gengivas... Doem-me...
- Oh pá, cuidado, olha que as gengivas são muito importantes! Olha, queres ver? É aqui, entre os dentes e as gengivas, que as bactérias atacam.
- Mas... O que é que eu hei-de fazer?
- Ah, isso é contigo! Eu cá uso Dentagard, e digo-te uma coisa: agora tenho gengivas... (DÁ VALENTE TRINCADELA EM MAÇÃ VERDE)... de betão!




MAIS UMA RAZÃO PARA GOSTAR DE PARIS:






DESCOBERTA DE FIM DE SEMANA: Luiz Pacheco também editou Kleist. "O Príncipe de Homburgo", 1961.


«Gosto de Caldas da Rainha. Tem lojas montras muito bonitas, talhos cheios de carne tudo quanto é bom e uma especialidade regional deliciosa: as morcelas de arroz. O mercado das Caldas é dos mais falados do País, o peixe, fresquíssimo! vem da Nazaré ou de Peniche parece vivo. E a frutinha? os tomates? os pêssegos? nada de melhor neste subalimentado povinho. Tal abundância alegra sim alegra a vista aquece as tripas ensaliva-nos espevita o paladar. Os tubos digestivos dos Caldenses são dos que mais bem percorridos fornecidos andam. E a doçaria? uma ma-ra-vi-lha! Era por isso, talvez, que lá em casa não se faziam economias: havendo dinheiro, comprava-se de tudo, gastava-se tudo num dia. Uma alegria! um (depois) cagar nunca visto! Na verdade, os nossos tubos digestivos (apesar de estrangeiros, menos o Joca) não eram menos, vai-se insistir: valiam menos do que os outros, os autóctones; e A CADA UM CONFORME AS SUAS NECESSIDADES, fórmula consabida e que perfilho de Economia Política. Aimez-vous Marx?» >(Luiz Pacheco, "O Caso das Criancinhas Desaparecidas", in "Exercícios de Estilo")