Heinrich von Kleist (1777-1811)Liberté Egalité FraternitéNo tabuleiro de xadrez, as mentiras e a hipocrisia não duram muito (Em. Lasker)Monty Python forever!

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março 2003

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Segunda, 31 Março, 2003

EMENTA PARA A SEMANA QUE AGORA PRINCIPIA: Versos de Laura Riding e Paul Valéry; mais diatribes contra o cinema Hollywoodita; leituras recentes; Saki; uma amiga de Ponziani serve-se de um diagrama para lhe explicar quais os redutos da sua vida privada que lhe estão vedados; confirma-se o pressentimento de Ponziani em como encenar Kleist e viver decentemente na pólis são desafios que se confundem num só.


HORA DE PUXAR DOS GALÕES...: O Congresso dos EUA decretou um dia nacional de "oração, humildade e jejum num tempo de guerra e de terrorismo".
Tomei conhecimento desta decisão através do blog Replicar (não o incluí na lista do último post, mas também merece o desvio). Incrédulo, fui pescar a notícia à CNN. Aqui está um excerto que resume bem o miolo da coisa: The House passed a resolution Thursday calling for a national day of humility, prayer and fasting in a time of war and terrorism. The resolution, passed 346-49, says Americans should use the day of prayer "to seek guidance from God to achieve a greater understanding of our own failings and to learn how we can do better in our everyday activities, and to gain resolve in meeting the challenges that confront our nation."
Se um blog assumidamente laico e republicano se abstém de comentar este género de eventos, mais vale recolher às boxes.
Este tipo de resolução é escandaloso, por diversas razões.
Em primeiro lugar, porque exclui tacitamente todos aqueles que não são praticantes de nenhuma religião. A mensagem dirigida a estes, por omissão, é a seguinte: Vocês não têm direito a tomar parte nos esforços de unidade nacional que o vosso governo está a promover. O vosso não alinhamento religioso transforma-vos em cidadãos de segunda ordem.
Em segundo lugar, porque contraria o princípio de separação entre Igreja e Estado que é aplicado em quase todas as democracias dignas desse nome. A promiscuidade entre o espaço da cidadania e a dimensão religiosa não só esteve na origem de incontáveis genocídios ao longo da história, não só continua ainda hoje a alimentar conflitos, como é adversária do surgimento de um espírito cívico sólido e de uma atitude crítica e lúcida face aos problemas da sociedade. Na maior parte dos casos, são as próprias autoridades religiosas as maiores apologistas da "separação das águas".
Em terceiro lugar, porque desresponsabiliza as chefias políticas e militares: se as soluções para guerra e terrorismo passam por uma intervenção divina, cujos desígnios serão inevitavelmente tortuosos e impenetráveis, as responsabilidades de um malogro só por manifesta má fé poderão ser assacadas a generais e presidentes.
Em quarto lugar, porque, no contexto actual, reforça a componente religiosa do conflito que vivemos, contribuindo para a piedosa ficção de uma intervenção que, à falta da ONU e das opiniões públicas mundiais, tem Deus do seu lado (no antigo testamento, costumava ajudar).
Vindo do poder secular, um apelo à oração aprovado por um órgão democraticamente eleito é sintoma de uma de três coisas: um teocentrismo elevado a um expoente preocupante; um propósito de intoxicação; a tentativa de alimentar com fé e piedade o fogo sagrado do patriotismo e unidade nacional, que talvez, sem esse estímulo, ameaçasse diminuir de intensidade. Qualquer uma destas três causas é preocupante; uma qualquer combinação delas, ainda mais o será.


Domingo, 30 Março, 2003

PEQUENA VISITA GUIADA À BLOGOSFERA: Dos blogs que consulto regularmente, muitos serão já conhecidos dos leitores do 1bsk, e não precisarão da minha recomendação para continuar a receber a atenção que merecem. Ainda assim, não resisto a um breve périplo comentado pelas paragens blogosféricas onde tenho por hábito passear-me. Saliento desde já que se trata de uma selecção estritamente pessoal, que não pretende ser representativa da realidade blógica lusa, e que será por certo objecto de adendas periódicas nas próximas semanas.
Dos muitos blogs políticos que por aí há, saliento dois: o Blog de Esquerda e o Blogue dos Marretas. O primeiro, da autoria dos meus amigos de longa data José Mário Silva e Manuel Deniz Silva, tem acolhido interessantes debates sobre um vasto leque de assuntos, e não creio estar a exagerar se lhe atribuir um estatuto de blog de referência, que conquistou por mérito próprio. Quanto aos Marretas, adoptaram um estilo resolutamente tongue in cheek, baseado no imaginário muppetiano que tanto marcou a minha geração: os dois velhotes do camarote vão assestando marretadas, o Animal intervém quando lhe dá na gana, e assim vão sendo veiculadas ideias sobre política e sociedade. Sublinho que, mau grado o seu carácter assumidamente político, o âmbito destes blogs é suficientemente amplo para justificar uma visita mesmo por parte daqueles a quem a simples menção da "coisa pública" provoca hiperventilação. Outro blog político interessante surgido recentemente é o Cruzes Canhoto, cuja frontalidade promete criar numerosas ondas de choque e as respectivas réplicas.
Entre os blogs de cariz mais explicitamente cultural, cito: a Janela Indiscreta, indispensável pela cobertura que oferece a eventos ligados às artes e pela importância atribuída ao aspecto gráfico; e o Espigas ao Vento, da autoria do Nuno Centeio, incontornável para quem gosta de seguir a actualidade cinematográfica, e também muito conseguido em termos de grafismo. Não fiquem com a ideia de que o interesse destes dois blogs se esgota no seu lado "utilidade pública": o toque pessoal dos seus autores confere a estes espaços uma individualidade que é, pelo menos a meu ver, uma das coisas que se pede a qualquer blog que se preze.
Inclassificável (e tanto melhor!), definindo-se como Portugal para leigos, desactualidades, "coisas pequeninas", mentiras de um desterrado e uns postais de New York, A Memória Inventada é, muito simplesmente, o blog mais rico do ponto de vista literário que até agora encontrei. Os seus textos, pequenas peças sobre o exílio, sobre A Grande Maçã, sobre minúsculas subversões da verosimilhança quotidiana, merecem leitura cuidada, não se compadecendo com visitas apressadas. Vivamente recomendado.
Se todos os blogs citados até agora se distinguem por um forte cunho de individualidade, aqueles que vou agora referir vão ainda mais longe no propósito, premeditado ou não, de adoptar um estilo, uma postura, uma maneira de existir pessoalíssima, que, num primeiro contacto, pode parecer avessa a qualquer compromisso e refractária ao "intruso" que ali foi parar. Se for essa a impressão que de vós se apoderar ao consultarem o Timewatching, o Willsmithmustdie , o Nocturno 76 ou a Voz do Deserto, acreditem que vale a pena insistir, porque a recompensa está longe de ser de pouca monta. O último dos quatro, em particular, é um dos mais radicalmente originais que me foi dado ler: mistura antigo testamento com Marante e outros ingredientes suculentos e exóticos tratados em posts minimalistas que fazem lembrar versículos.
Espero que esta lista vos tenha dado ideias novas para as vossas navegações quotidianas...


RAINDROPS KEEP FALLING ON MY HEAD...: Que melhor maneira de passar um sábado chuvoso do que numa sala escura onde alguém teve a boa ideia de exibir um filme de Fassbinder?
Comentários ao filme propriamente dito ficam para outro dia. Pra já pra já, como dizia o Orlando Dias Agudo, contento-me com um desabafo perante a ocorrência de um intervalo nas sessões do Cine Paraíso (ao Largo Camões). Um intervalo para quê? Para ir ao buffet dessedentar-se? Para ser visto nos corredores por quem vem para ver quem vem para ser visto? Para ver quem primeiro faz a pergunta sacramental («Então, estás a gostar?») que, desde 1895, tantas idas ao cinema arruinou?
Mas nem tudo são agruras. No Nimas, os lugares deixaram de ser marcados!


E AGORA, A CRÓNICA SOCIAL DO 1BSK: Neste sábado, durante a minha visita à Feira do livro estrangeiro a decorrer no Fórum Picoas, tive oportunidade de me cruzar com:
  • António Mega Ferreira.
  • António Lobo Antunes.
  • Muitas outras pessoas que não conheço.



Common raven (Corvus corax)
SAKI, "BIRDS ON THE WESTERN FRONT": «Apart from the owls one cannot notice that the campaign is making any marked difference in the bird life of the country-side. The vast flocks of crows and ravens that one expected to find in the neighbourhood of the fighting line are non-existent, which is perhaps rather a pity. The obvious explanation is that the roar and crash and fumes of high explosives have driven the crow tribe in panic from the fighting area; like many obvious explanations, it is not a correct one. The crows of the locality are not attracted to the battlefield, but they certainly are not scared away from it.»



Quinta, 27 Março, 2003

«Onde estamos? Quando estamos?» (Rilke)
«Perdre, perdre vraiment, pour laisser la place à la trouvaille.» (Apollinaire)



DE ROBERT A SANDRINE EM 3 ETAPAS (2/3): É Desnos quem dá o nome, da maneira mais oblíqua que se possa conceber, à segunda longa metragem realizada por Pascal Bonitzer, "Rien Sur Robert". Bonitzer é um dos habituais argumentistas dos filmes de Jacques Rivette, o que, só por si, o torna digno de louvor, estima, respeito e atenção (para além de um ror de medalhas e de um lugarzinho algures num ventrículo dos cinéfilos deste mundo). É ele também o autor de um livro consagrado a Éric Rohmer que é uma das mais notáveis obras sobre cinema que alguma vez passou pelas minhas mãos.
No filme em questão, nenhuma personagem se chamava Robert, e o título provém da resposta que recebe o próprio realizador (numa fugaz aparição como actor), numa livraria parisiense: «Nous n'avons rien sur Robert Desnos». Bonitzer insinua-se, deste modo, na altamente recomendável companhia de Boris Vian, que, diz-se, chamou a um dos seus romances "O Outono em Pequim" porque não se passava em Pequim e não tinha nada a ver com estações.


E A CADA MOMENTO cresce o amor da juventude alemã pela aviação sem motor.


Magpie (Pica pica)
BIRDS ON THE WESTERN FRONT: Prosseguimos a divulgação de excertos deste conto de Saki.
«Unlike the barn owls, the magpies have had their choice of building sites considerably restricted by the ravages of war; the whole avenues of poplars, where they were accustomed to construct their nests, have been blown to bits, leaving nothing but dreary-looking rows of shattered and splintered trunks to show where once they stood. Affection for a particular tree has in one case induced a pair of magpies to build their bulky, domed nest in the battered remnants of a poplar of which so little remained standing that the nest looked almost bigger than the tree; the effect rather suggested an archiepiscopal enthronement taking place in the ruined remains of Melrose Abbey.»



Quarta, 26 Março, 2003

A SEPARAÇÃO DOS PODERES SEGUNDO O PRÍNCIPE HANS-ADAM, DO LIECHTENSTEIN: Segundas e quintas, poder legislativo. Terças e sextas, poder executivo. Quartas e sábados, poder judicial. E no domingo vou à caça.


Segunda, 24 Março, 2003

CINEMA: "Cet Amour-Là", de Josée Dayan. O menos relevante deste filme é precisamente aquilo a que ele parece resumir-se: a paixão entre o jovem Yann Andréa e a envelhecida Marguerite Duras. O idílio é sublimado na sucessão átona dos episódios que a nenhuma história a dois podem faltar (embaraço inicial, ruptura, reconciliação, querelas de território, declínio), na permanência das imagens do verão húmido da Bretanha fazendo lembrar quadros marítimos de Nicolas de Staël, em tudo aquilo (e é muito, e é perecível) cujo esplendor mate oferece carácter a este filme. Este amor, imprevisto mas assimilado, como que recua para ceder lugar a algo que dele nasce, mas que no mesmo instante o ultrapassa e percorre a matéria do filme como um frémito: falo da contaminação de um discurso por outro; dessa presença esguia e masculina que contraria a resignação de uma escritora à solidão e ao seu caudal de palavras, e da necessidade de enfrentar palavras de sedução que ela talvez preferisse confinadas às bocas de Anne-Marie Stretter e do vice-cônsul; falo de membros que acrescentam à mortalidade o facto de caminharem para a morte; falo de lábios e do gosto do vinho.
Aquele amor conteve o seu quinhão de felicidade, partilhado por aqueles que o viveram. Talvez a lição deste filme seja a constatação de que, para além da transiência desse júbilo, nada mais existe nem existiu. Nem Marguerite foi egéria, nem Yann foi Galateia; a paixão não engendrou um fenómeno de continuidade; ao génio sucederam as mediocridades da morte e da vida. Aquilo que de amargo tem esta verdade é também aquilo que de profundo e de útil este filme nos deixa.


CINEMA: "The Hours", de Stephen Daldry. Este filme engoda-nos com uma edénica conciliação entre a diacronia corriqueira da flecha do tempo, por um lado, e a promessa de epifanias sincrónicas adequadamente inseridas numa matriz de secular procura da felicidade. Quem considera, como o autor destas linhas, que nenhum esforço artístico honesto tem o direito de se furtar a esse fulcro da natureza humana que é a sede de significados, não pode negar um gesto de aprovação perante um filme cujo tema único parece ser uma aspiração pela plenitude capaz de saltitar de geração para geração com a agilidade de uma moviola. O que falha, pois, em "The Hours"? Essencialmente, isto: da subversão prometida no início nada resta, afinal, a não ser algumas bruscas elipses e raccords mais ou menos engenhosos. Cada destino pessoal joga-se na bem comportada sequência de factos, sucessos, coisas e estações; cada segmento dramático respeita convenções e códigos com uma robustez do mais louvável que há (veja-se o suicídio do poeta, veja-se a cena na plataforma da gare entre Virginia e Leonard); nem os milagres, nem os vórtices, nem as caixas azuis lynchianas se repetem.
Que mais? Meryl Streep é prodigiosa no alento dramático e na contenção, Julianne Moore é prodigiosa no orgulho resignado e na contenção, Nicole Kidman é prodigiosa na agreste impenetrabilidade anglo-inglesa e na contenção; pela enésima vez, o cinema americano expõe aos olhos do mundo a sua falta de à vontade com o génio, rejeitado, na melhor das hipóteses, à condição de neurose peso-pluma (tivesse Foucault visto "A Beautiful Mind", e alguma coisa de interessante teria daí saído, palpita-me); foi uma boa coisa que os Óscares (©, TM) não tenham consagrado esta obra, para que ninguém se iluda com fantasias de abertura a um cinema mais adulto por parte de Hollywood, como sucedeu aqui há anos com "American Beauty" (filme bem mais insignificante e apalermado do que este, de resto).


LEITURAS: "Collected Poems in English", Joseph Brodsky. Brodsky assemelha-se a um nómada que, caminhando em linha recta pela planície, não encontra senão encruzilhadas, onde só esperava encontrar campo raso. A estrada importa menos do que a maneira como se cruza. Brodsky enfrenta o problema da omnipresença da História, ruminada pelos que o antecederam (Akhmatova, Mandelstam), ao mesmo tempo inscrita na memória de um povo, avivada pelo exílio, cristalizada no denso e demasiado luminoso momento presente. A minúcia de uma descrição é tributo prestado à complexidade do mundo, mas acima de tudo inevitável crispação de significado no seio de uma realidade enfeudada tanto àquilo que passou como à solene urgência daquilo que está latente. Desta História viva, em nervosa simbiose com o cenário, o poeta dá conta por meio da metáfora. Em Brodsky, a portentosa excelência desta, o abnegado virtuosismo potenciado pela experiência do bilinguismo, servem uma tarefa que se identificou com uma vida: a de camuflar as fronteiras entre aquilo que a voz do poeta alcança, na sua luta com o tempo que não exclui um pacto com a época, e o reduto onde soçobra o sentido histórico e essa coerência de humanidade que cada verso deste poeta persegue e almeja.
Segue-se um poema de Brodsky. Os leitores interessados podem ter acesso a outros poemas do mesmo autor aqui .

To Urania

To I.K.

Everything has its limit, including sorrow.
A windowpane stalls a stare. Nor does a grill abandon
a leaf. One may rattle the keys, gurgle down a swallow.
Loneless cubes a man at random.
A camel sniffs at the rail with a resentful nostril;
a perspective cuts emptiness deep and even.
And what is space anyway if not the
body's absence at every given
point? That's why Urania's older than sister Clio!
in daylight or with the soot-rich lantern,
you see the globe's pate free of any bio,
you see she hides nothing, unlike the latter.
There they are, blueberry-laden forests,
rivers where the folk with bare hands catch sturgeon
or the towns in whose soggy phone books
you are starring no longer; farther eastward surge on
brown mountain ranges; wild mares carousing
in tall sedge; the cheekbones get yellower
as they turn numerous. And still farther east, steam dreadnoughts or
cruisers,
and the expanse grows blue like lace underwear.

translated by the author



Domingo, 23 Março, 2003

HOU HSIAO-HSIEN, TSAI MING-LIANG, WONG KAR-WAI, Abbas Kiarostami, Andrei Sokurov, Aleksei German, Otar Iosseliani, Nanni Moretti, Mario Martone, Eric Rohmer, Jean-Luc Godard, Jacques Rivette, Jean Eustache, Maurice Pialat, Anne-Marie Miéville, Alain Cavalier, Victor Erice, Manoel de Oliveira, João César Monteiro, Pedro Costa, Peter Greenaway, Derek Jarman, Lars von Trier, Aki Kaurismäki, Agnès Varda, Chantal Akerman, Jean-Luc Godard, Danièle Huillet, Jean-Marie Straub, Jacques Rozier, Jean-Luc Godard, Philippe Garrel, Claire Denis, Alain Guiraudie, Arnaud Desplechin, Jean-Luc Godard, JEAN-LUC GODARD, Rainer Werner Fassbinder, Rudolf Thome, Béla Tarr, Theo Angelopoulos, Takeshi Kitano, Nobuhiro Suwa, Nagisa Oshima, Jane Campion, Raul Ruiz, David Lynch, Hal Hartley, Stan Brakhage, Michael Snow, Jon Jost, Abel Ferrara.
Em tempo de Óscares (©, TM), interessa cerrar fileiras, e evocar, em jeito de litania, alguns daqueles que são ou foram responsáveis pela criação cinematográfica genuinamente independente, e marcada pela aspiração de fazer do cinema mais do que uma bem comportada manifestação audiovisual, subserviente face a interesses comerciais e a ditames estéticos impostos pela tradição ou pelo ar do tempo, coarctada pela obrigação de agradar a um leque de públicos tão vasto quanto possível.


O DEPARTAMENTO DE INDRE-ET-LOIRE (habitantes: 550 000, capital: Tours) deve ser apontado como exemplo ao mundo em termos de administração, gestão paisagística e aproveitamento de recursos naturais.


Sábado, 22 Março, 2003

DE ROBERT A SANDRINE EM 3 ETAPAS: A propósito de Robert Desnos, que escreveu...

Si la mort me coiffait
Avec son peigne d'ambre
Le ciel serait défait
Juillet serait Décembre

...Desnos, dizia eu, propôs-se, entre os anos de 1936 e 1937, escrever um poema por dia, acontecesse o que acontecesse. Nas suas próprias palavras: «Avec ou sans sujet, fatigué ou non, j'observai fidèlement cette discipline. J'emplis ainsi une série de cahiers, où, on l'imagine, le déchet fut grand quand, en 1940, j'entrepris de les relire. (...) Chaque mot, chaque vers était contrôlé et l'exigence mécanique se manifestait plutôt dans le rythme, dans une nécessité d'assonances et de formes primitives telle que celle des tercets à rime ou assonance unique.» Desnos, que também escreveu...

Et nous pourrons chanter
Lou la douce requine
Son cœur et sa beauté
L'amour et l'églantine

...(versos anteriores a essa época, mas que parecem respeitar essa disciplina semi-sonâmbula, esse hábito de evocação da beleza promovido a rotina), nasceu em 1900, no boulevard Richard Lenoir, XIème arrondissement, e morreu em 1945, após uma longa estadia no campo de concentração de Floha, na Saxónia. O boulevard Richard Lenoir é a artéria onde se situava a residência do comissário Maigret; se bem que escassa em atributos que justifiquem o desvio do visitante, pode servir de ponto de passagem de um itinerário que abarque também os bairros de Saint Paul e do Marais, a praça da Bastilha, e a singular rue du Chemin Vert.


Barn Owl (Tyto alba)
SAKI, "BIRDS ON THE WESTERN FRONT" (excerto) «In the matter of nesting accommodation the barn owls are well provided for; most of the still intact barns in the war zone are requisitioned for billeting purposes, but there is a wealth of ruined houses, whole streets and clusters of them, such as can hardly have been available at any previous moment of the world's history since Nineveh and Babylon became humanly desolate. Without human occupation and cultivation there can have been no corn, no refuse, and consequently very few mice, and the owls of Nineveh cannot have enjoyed very good hunting; here in Northern France the owls have desolation and mice at their disposal in unlimited quantities, and as these birds breed in winter as well as in summer, there should be a goodly output of war owlets to cope with the swarming generations of war mice.»


HECTOR HUGH MUNRO (1870-1916), QUE USAVA O PSEUDÓNIMO "SAKI", especializou-se em curtos contos marcados por um humor iconoclasta e por uma feroz componente de sátira aos rígidos costumes da sociedade vitoriana e pós-vitoriana, temperada por uma intensa ternura reservada em particular a crianças e animais. O texto de Saki que eu vos proponho, se bem que pareça fugir ao estilo e ao tipo de abordagem que ele cultivava, acaba por se inserir com admirável coerência numa obra que foi acima de tudo uma vigorosa celebração da inocência humana, e da sossegada beleza da vida que se oculta por detrás da facécia e do burlesco. Trata-se de "Birds on the Western Front". Sob a aparência de um estudo do comportamento da fauna alada em pleno campo de batalha (em plena guerra de 14-18, onde o autor viria a perecer), Saki entrega-se a uma das mais portentosas denúncias da brutal sordidez da guerra, fazendo uso de uma contenção e de uma subtileza comoventes até ao limite do suportável.
Nos próximos dias, irei divulgando excertos deste texto. (O link para o texto completo será divulgado assim que o site onde ele se encontra voltar a estar activo.)


AH, OS ÓSCARES (©, TM, e tudo o resto): Consta que o realizador Aki Kaurismäki não estará presente na cerimónia. O simples facto de que a participação de alguém que eu julgaria pouco conivente com a autocomplacência hollywoodita estivesse prevista enche-me de "choque e pavor" (para falar como os militares). O que se seguirá? Jean-Marie Straub, de smoking, ao lado de George Lucas e Jennifer Lopez, sorrindo para as câmaras, brandindo um boneco com banho de ouro?


ATENÇÃO, UMA CERIMÓNIA DE ENTREGA DE PRÉMIOS PODE ESCONDER OUTRA: Os Óscares estão para o cinema assim como a secção de livros do Jumbo está para a literatura.


Sexta, 21 Março, 2003

Flores no Jardim Botânico de Cambridge, Cambridgeshire
ESTEBLOGSOBREKLEIST SAÚDA COM ENTUSIASMO a chegada da primavera!!! Olá primavera!!!


EM TODO O CASO: De entre os muitos argumentos que se poderiam avançar contra o apoio do governo português a esta guerra, o menos cretino não seria certamente o de que Portugal se arrisca a sofrer retaliações. Com franqueza. Um governo que se abstém de tomar a decisão que julga adequada (concorde-se ou não com essa decisão) por medo de represálias (ou por recear a reacção da opinião pública face a essa perspectiva, o que vem a dar no mesmo), faria melhor em arrumar as botas, apagar a luz, fechar a porta de casa e dar as chaves ao mullah Omar.


A POSIÇÃO DESTE BLOG sobre a intervenção militar no Iraque é de cepticismo. Ao contrário de tantos e tão bons que exibem as suas certezas inabaláveis, somos da opinião de que os elementos até agora vindos a público, e apontados como prova legitimadora da opção bélica, só convenceram quem estava já pronto a ser convencido. Detestamos tiranias, ficaremos satisfeitos se deste conflito resultar o surgimento de um regime mais democrático no Iraque, e não verteremos uma lágrima por Saddam Hussein. Porém, permitimo-nos fortes dúvidas sobre os métodos empregues, e não nos declaramos persuadidos de que a ameaça representada pelo Iraque às nações vizinhas e ao mundo justificava uma solução a tal ponto drástica.
Acima de tudo, o aspecto dominante da nossa posição resume-se a um sentimento de tristeza face às vítimas que esta guerra fará, e a um apelo para que, enquanto o conflito durar, não sejam esquecidos outros problemas do mundo. Outros conflitos (Chechénia, Costa do Marfim), a subnutrição endémica, a falta de acesso a água potável, as agressões ao meio ambiente, a sida, os atropelos aos direitos humanos, as assimetrias regionais, não deixarão de existir, por mais ignorados que sejam por meios de comunicação social possessos dessa histeria orgiástica que concebe e dá à luz "edições especiais" e "directos de Bagdad" com a prodigalidade desembaraçada de um vendedor das 4 estações.


Quinta, 20 Março, 2003

A actual conjuntura parece-nos pouco consentânea com devaneios cromáticos; por isso mesmo, e até que melhores dias cheguem, adoptaremos um esquema de cores onde predominam o negro e o cinzento.


Segunda, 17 Março, 2003 (S. Patrício)

O ESTADO É ELE:Por falar em cores, podem os nossos leitores perguntar-se por que razão não estamos de luto, perante o que se passou no Liechtenstein. Os súbditos do bem-amado monarca deste minúsculo e garboso enclave atribuíram-lhe plenos poderes (dissolução do parlamento, demissão do governo, nomeação dos membros do colégio encarregues de designar os juízes...), em plebiscito. Se nós, aqui no 1bsk, não achamos necessário perder o sono com monarcas corta-fitas, desses que abrilhantam o circuito de jantares de caridade e recepções por essa Europa fora, não desmentimos a ascensão de umas quantas gotas de mostarda ao nosso apêndice nasal, face ao renascimento do absolutismo em pleno coração do velho continente, entre Áustria e Suíça. O impacte do acontecimento é, bem entendido, minimizado pela condição lilliputiana do estado em questão (16 800 eleitores, cujos nomes e moradas contamos divulgar em breve). Mas sublinhe-se que o Liechtenstein é sede de dezenas de milhares de empresas, que se dão lindamente com o regime fiscal do principado. Não consta que exista o risco de estas empresas deslocalizarem as suas actividades para a Polónia.


DIA DUIT! Espero que todos tenham celebrado a preceito o dia de São Patrício, e que este tenha sido preenchido com danças, folguedos, desfiles, e cerveja bebida com moderação.
A partir de agora, a cor de fundo deste blog volta a ser aquele matiz de verde que é uma espécie de ser e não ser, estar e não estar, e sem o qual cada vez se torna mais difícil passar.
À guisa de homenagem à Irlanda (será humanamente possível não sentir simpatia por esta nação?), fiquem ainda com os nomes dos dias da semana em gaélico: Dé Luain, Dé Máirt, Dé Céadaoin, Déardaoin, Dé Haoine, Dé Sathairn, Dé Domhnaigh.


Domingo, 16 Março, 2003

4 VERSOS DE ROBERT DESNOS:

quand il sera trop tard pour n'être plus cruelle
quand l'écho des baisers et l'écho des serments
Décroîtront comme un pas la nuit dans une ruelle
ou le sifflet d'un train vers le noir firmament




VARIAÇÕES SOBRE UM MOTE DE BERNARDIM RIBEIRO

Este divertimento inspira-se num exercício ("35 Variations sur un thème de Marcel Proust") realizado por Georges Perec, reproduzido recentemente no "Magazine Littéraire" hors-série nº 2 (2000).

MOTE: Menina e moça, me levaram de casa de meu pai.
REORGANIZAÇÃO ALFABÉTICA: aaaaaaa cc dd eeeeeee ii l mmmmm nn o p r s u v
ANAGRAMA: E se o Manel nem vier à caça? Dá-me a pá, médium!
LIPOGRAMA EM "A": Jovem e pré-púbere, foi-me imposto o exílio do domicílio do meu progenitor.
LIPOGRAMA EM "E": Gaiata, moça, fui forçada a abandonar a casa do pai.
LIPOGRAMA EM "I": Jovem e moça, me levaram da casa paterna.
LIPOGRAMA EM "O": Menina e gaiata, me levaram de casa de meu pai.
LIPOGRAMA EM "U": Menina e moça, me levaram de casa do pai desta vossa criada.
PALÍNDROMO: Iá, P.U.! E me dás (a Cê?) DM a Ravel, e maço-me. A Nin em...?
NEGAÇÃO: Menina e moça, não me levaram de casa de meu pai.
INSISTÊNCIA: Menina, sim, muito menina, e moça também, sim, extremamente jovem, me levaram, à força, de casa, dessa mesma casa que era também a do meu pai, sim, a casa do meu pai, do pai que era meu.
ABLAÇÃO: Menina, me levaram de casa de meu pai.
DUPLA ABLAÇÃO: Menina, me levaram de casa.
TRIPLA ABLAÇÃO: Menina, me levaram.
ANTONÍMIA: Velha e decrépita, trouxeram-me para um ermo que não pertencia à tua filha.
OUTRO PONTO DE VISTA: Finalmente, conseguimos que o velho abrisse mão da catraia!
PERMUTAÇÃO: Levaram-me, menina e moça, de casa de meu pai.
CONTAMINAÇÃO CRUZADA CAMILIANA:
a) Menina e moça, me levaram de casa do abade de Espinho, um dos mais ricos da diocese de Viseu.
b) Meu pai pecara na mocidade.
ISOMORFISMO (1): Atado e amordaçado, fui raptado do chalet do coleccionador de arte abstracta.
ISOMORFISMO (2): Selados e acondicionados, os detritos radioactivos foram removidos do perímetro da central nuclear.
SINONÍMIA: Criança e petiza, me retiraram do lar do meu progenitor.
ISOCONSONÂNCIA: Mano, nem ouço o Melo vaiar o medo com a sua dama ao pé.
ISOVOCALISMO: Seia em força perde, aparelhada, e sem um ai.
INTERROGAÇÃO: Terei eu sido levada, menina e moça, de casa de meu pai?
QUADRA POPULAR:
Era eu então moça,
E menina, 'scutai!;
Levaram-me da casa
Do meu querido pai.
HESITAÇÃO: Eu era... Velha? Decadente? Não!! Era menina, isso mesmo, era ainda uma menina, e moça também, por sinal. O que me fizeram? Trouxeram-me para algum sítio? Levaram-me! Foi isso. Mas de onde? Sim, de onde? De um orfanato? De um palácio? Seria de uma casa? Nem mais, foi mesmo de uma casa! Mas a quem pertencia a casa? Seria ao meu sogro? Não. A um fidalgo que engraçara comigo? Muito menos. Então a quem? Já sei! Ao meu pai. Assim é que está certo. Levaram-me de casa de meu pai.
MACARRÓNICO: Puella et juvenilia eram ego, et portarunt me domus pater meus.
CATEQUISMO:
- Que eras tu, nessa altura?
- Eu era menina.
- E que mais?
- Também era moça.
- E que te fizeram?
- Levaram-me.
- De onde te levaram?
- De casa.
- De quem era a casa?
- De meu pai.




Relata-nos a América (e nós subscrevemos): «No topo do ex-cinema Império (sublinho o "ex"), na Alameda D. Afonso Henriques, em Lisboa, a bandeira portuguesa encontra-se desfraldada, ao lado da bandeira da Igreja Universal do Reino de Deus, que se apoderou deste recinto há já um ror de anos. Ver o estandarte da República em tão detestável companhia, e tão em evidência que à ofensa se acrescenta a ênfase, enfurece-me. Pode ser que existam espectáculos mais revoltantes na nossa capital; neste momento, contudo, não me ocorre nenhum.»


JÁ NÃO HÁ PACIÊNCIA para o uso indiscriminado do epíteto "dama de ferro" para designar toda e qualquer dirigente política que dê mostras de um mínimo de firmeza de pulso e de determinação. Não esconderá esta tendência a assunção implícita de que, de uma mulher, na política ou algures, se espera acima de tudo mansidão, doçura, e outras qualidades eminentemente "femininas", a tal ponto que toda e qualquer excepção merece cognome?


St. Patrick's day! FELIZ DIA DE SÃO PATRÍCIO: Em homenagem ao dia de São Patrício, que se celebra amanhã, adoptaremos, durante 24 horas, um novo tom de verde para o fundo deste blog, mais escuro e, assim esperamos, mais vegetal, mais susceptível de evocar um trevo do que uma alface.


Quinta, 13 Março, 2003

ESCÂNDALO EM LINARES: O OGRE PASSA-SE: Na cerimónia de entrega de prémios, em Linares, ocorreu uma cena pouco edificante, e que em nada dignifica a modalidade. Ao ser anunciado o tradicional prémio destinado à partida mais bela, atribuído à partida Kasparov-Radjabov (ganha pelo jovem azeri, aliás a única derrota de Kasparov em todo o torneio), eis que o "ogre de Baku" (o epíteto não é da minha autoria) salta para o palco, vocifera, esbraceja, cobre de impropérios os jornalistas que votaram para o prémio, afirma alto e bom som que se sente insultado, e que a partida não merecia o prémio, após o que se vai embora, deixando pairar a ameaça de não regressar a Linares.
Dizem os entendidos que a atribuição do prémio à partida em questão terá sido, de facto, forçada, e motivada mais pela surpresa da derrota de Kasparov face a um miúdo de 15 anos do que devido ao seu valor intrínseco. Mas nada disto desculpa a atitude inqualificável de Kasparov. Raras vezes a sua egomania terá assumido um aspecto tão violento. Esperemos que não seja uma escalada.
O episódio foi filmado, para alegria de todos e instrução das gerações futuras. Assim que pusermos as mãos em cima de uma cópia, os nossos leitores podem contar com o exclusivo.


TRIUNFO DO BEM EM LINARES: Conforme prometido, aqui estão os comentários da equipa do 1bsk ao torneio de xadrez de Linares, que recentemente chegou ao seu fim.
Linares é uma pequena cidade andaluza, que, desde há cerca de duas décadas para cá, tem servido de palco a um torneio anual que reúne os melhores jogadores do planeta, a tal ponto que é designada frequentemente por "Wimbledon do xadrez". Para além do elevado nível competitivo, a combatividade de que os contendores tradicionalmente dão mostras, juntamente com o carinho que a população local reserva para os heróis das 64 casas, fazem deste um torneio que não se assemelha a nenhum outro.
Breve apresentação dos 7 participantes deste ano:
  • Vladimir Kramnik (Rússia), campeão do mundo da organização "Brain Games". Frio, sólido e determinado, cometeu a extraordinária proeza de bater Kasparov em match de 16 partidas sem qualquer derrota, para se apoderar do seu título.
  • Garry Kasparov (Rússia), ex-campeão do mundo, número 1 do ranking, sem dúvida o mais famoso e mediático jogador da actualidade.
  • Ruslan Ponomariov (Ucrânia), campeão do mundo da FIDE (Federação Internacional de Xadrez), título conquistado surpreendentemente aos 18 anos. Um talento notável, mas que ainda dá mostras de demasiadas fragilidades.
  • Péter Lékó (Hungria), durante longos anos acusado de falta de espírito de luta, elevou bruscamente o nível do seu jogo após a brilhante vitória no torneio de Dortmund de 2002.
  • Viswanathan Anand (Índia), ex-campeão do mundo (FIDE), um dos jogadores mais respeitados do circuito, e que vem de uma vitória tranquila no fortíssimo torneio de Wijk aan Zee.
  • Francisco Vallejo (Espanha), jovem talento que está em vias de se tornar o maior jogador que a Espanha jamais produziu desde Ruy López (século XVI !).
  • Teimur Radjabov (Azerbeijão), 15 anos apenas, destinado, segundo muitos, a ombrear com os melhores do mundo.

Após 14 rondas (todos contra todos em 2 voltas), os resultados finais foram os seguintes (infelizmente, não temos artes para vos apresentar esta classificação sob a forma de uma magnífica tabela): 1º Lékó, 7 pontos; 2º Kramnik, 7; 3º Anand, 6,5; 4º Kasparov, 6,5; 5º Ponomariov, 5,5; 6º Vallejo, 5; 7º Radjabov, 4,5. De notar que o critério de desempate empregue foi o número de vitórias, e não o tradicional Sonneborn-Berger (caso contrário teria sido Kramnik o grande vencedor), decisão com a qual estamos inteiramente de acordo.
COMENTÁRIOS: A edição de Linares deste ano não terá sido brilhante, e o número de empates foi invulgarmente alto. Contudo, algumas partidas notáveis foram jogadas, e o resultado final esteve incerto até ao último momento. As notas mais salientes terão sido: a confirmação do excelente momento de forma de Lékó, e do seu estatuto de candidato ao título mundial reunificado que (espera-se!) vai ser disputado ainda este ano; a quebra de uma longa série de vitórias em torneios por parte de Kasparov; o regresso de Kramnik ao seu melhor nível, depois do empate no encontro com o computador Deep Fritz, e de um torneio de Wijk aan Zee pouco convincente; a surpreendente fragilidade nos finais de partida por parte de Anand, que lhe custou o torneio; os pontos de interrogação que continuam a rodear Ponomariov; a solidez de Vallejo; o longo caminho que Radjabov ainda tem para cumprir, sobretudo ao nível da consolidação do seu repertório de aberturas.
Neste blog, em nenhum outro domínio ou actividade humana somos tão maniqueístas como no xadrez. A nossa visão do mundo está dividida em bons e maus. Os maus são: Kasparov e Ilyumzhinov, o sinistro presidente da FIDE, que muito tem contribuído para descredibilizar a modalidade. Os bons, bem, os bons são todos os outros. Leiam o próximo post para apreciar a verdadeira natureza de Kasparov. Agora este post vai acabar. Acabou.


E A CADA MOMENTO cresce o amor da juventude alemã pela aviação sem motor. (Só percebe esta quem costumava ver "A Roda da Sorte".)


ESTAS SÃO ALGUMAS DAS MINHAS COISAS FAVORITAS: A expressão "Le Temps Déborde", que foi o título de um artigo dos "Cahiers" sobre "L'Amour Fou", de Rivette; esferas de vidro; o Mediterrâneo; a possibilidade de declamar Anna Akhmatova enquanto se desce a Rua do Alecrim; as "Religieuses"; o pão Poilâne; o plano da pupila; estações de caminho-de-ferro; um débil tropismo de outono que espreita pelas janelas abertas e folheia segredos sem convicção; dias de chuva em 1977 e 1976; essa mão regurgitada pela História; essa outra, húmida de orvalhos; as cerejas "Burlat"; os prefácios de Kierkegaard; o verso livre e azul cobalto; Robert Desnos no metro na edição da nrf; a tensão do pulso; dois quinhões de luz; "Ce train ne prend plus de voyageurs; veuillez descendre"; "Train à l'approche, train à quai, retard cumulé de 15 minutes"...

B: Esta amostra de um imaginário estava prevista?
A: Absolutamente.
B: Cuidou-se do enquadramento, da pertinência, da relevância para a pólis?
A: Absolutamente.
B: Sabes, adoro quando dizes "absolutamente".
A: Adoras o que eu digo, a maneira de dizer, ou as circunstâncias?
B: A mesura, talvez; a dicção, sem dúvida. E as covinhas no rosto.



Correndo o risco de defraudar largos sectores da sociedade, anuncio que a probabilidade de virmos a divulgar fotografias do Ponziani ou da América são remotíssimas. A América, para mal dos nossos pecados, vive numa aldeia isolada, aonde o daguerreótipo ainda não chegou. Quanto ao Ponziani, aqueles que o conhecem sabem que uma descrição o serve melhor do que um banal fac-símile. Imaginem, pois, um Kiefer Sutherland franzino, com as feições mais discretas, mas duras, e quase imberbe.


LUCIDE, CALCULATEUR ET PASSIONNÉ: O poeta francês Alain Bosquet (1919-1998) autodefiniu-se, em 1964, da seguinte forma: «La poésie, donc, avant le reste, au lieu du reste, malgré le reste. Je me ferais tuer pour elle. Et je me flatte de connaître personnellement la moitié des poètes qui habitent ce monde. Je les thésaurise. Dire que j'ai la foi de la poésie serait me présenter sous les espèces d'un énergumène. Je suis lucide, calculateur et passionné (...) Mes vérités profondes sont dans mes mots: je devrais dire que moi, minuscule vérité de chair, j'ai ma place dans un langage immense. Ce que je suis est inutile. Le poème invente son poète. Le lecteur continue le poème. Le lecteur invente le poète. Ce malentendu est riche. Je peux, je dois me répudier.» E eu digo: se por cada 50 poetas de supermercado, por cada 100 brincam-na-areia capazes de alinhavar uma dúzia de versos, existisse um só capaz desta postura e das palavras para a descrever, talvez a esperança, como um pecado venial a passo rápido, conquistasse mais sombras para o seu campo.


PRIORIDADES, POR FAVOR: No telejornal da SIC de ontem, foi preciso esperar mais de meia hora, inevitavelmente preenchida com pedofilia e nitrofurano, para ouvir alguma coisa sobre o assassinato do primeiro-ministro sérvio. Se já houvesse SIC a 1 de Setembro de 1939, teriam aberto o noticiário com uma qualquer rixa entre compadres em Moimenta da Beira.


THE TITLE WITHOUT THE NAME? Dos cartazes de promoção do novo filme de João Botelho não consta o nome do realizador. Negligência ou sinal dos tempos?


Terça, 11 Março, 2003

BEM HAJAM os nossos confrades do Blog de Esquerda pela simpática menção que fizeram ao 1bsk. A nossa honestidade, no entanto, obriga-nos a prevenir desde já que Poussin não é pintor que esteja em odor de santidade por estas bandas. Quando muito, por cada 50 posts consagrados a Caravaggio, talvez nos resolvamos a rabiscar umas larachas sobre o "premier peintre ordinaire" de Luís XIII.


PROMETO SOLENEMENTE oferecer o seu peso em caramelos ao distribuidor que traga para Portugal o filme de Alain Corneau "Stupeur et Tremblements". Isto apenas porque gostava muito de ouvir a Sylvie Testud falar em japonês.


FOREVER, FOREVER...: De modo a desfazer quaisquer enganos, queria deixar bem claro que todos, sem excepção, são bem-vindos ao umblogsobrekleist, tanto os fãs da Shakira como os de John Cage, passando por aqueles que só juram por Giovanni da Palestrina, DESDE QUE venham por bem, como se costuma dizer nestas ocasiões.


DUPLA E TRISTE NOTÍCIA: Chegou-nos a notícia de dois desaparecimentos no mundo do xadrez. Por coincidência, tanto um como o outro são autores de livros que tenho na minha estante.
Ludek Pachman, Grande-Mestre checo, foi 7 vezes campeão da Checoslováquia, jogou pela equipa do seu país nas Olimpíadas entre 1952 e 1966, e disputou 4 interzonais, sem nunca ter conseguido qualificar-se para torneios de candidados ao Campeonato do Mundo. Depois de 1968, o seu apoio à Primavera de Praga trouxe-lhe sérios aborrecimentos, acabando por se exilar na R.F.A.. Foi ainda campeão por uma vez pelo seu país de adopção (1978). É ainda de assinalar que foi um dos poucos jogadores com resultado positivo global contra Fischer (sim, o mesmo que é vítima de uma conspiração sionista), tendo-lhe ganho por duas vezes.
Lim Kok Ann, de Singapura, foi secretário da FIDE (Federação Internacional de Xadrez), e, na sua qualidade de presidente do júri, esteve directamente envolvido nas controvérsias que apimentaram o memorável encontro entre Karpov e Korchnoi, em 1978, nas Filipinas, para o Campeonato do Mundo. Foi só graças à notícia do seu falecimento que fiquei a saber que o Dr. Lim foi também um epidemiologista de grande valor.


OS QUE AINDA VIVEM SAÚDAM-TE: Decepcionante, a notícia/obituário dedicada à morte de João César Monteiro nos "Cahiers du Cinéma". O autor, Stéphane Bouquet, começa por admitir que se esqueceu quase por completo dos filmes de Monteiro, o que, para uma revista que nunca regateou elogios ao realizador, é no mínimo bizarro. Nenhuma menção é feita ao seu último filme ainda por estrear. Para cúmulo, enganam-se na data do óbito (foi a 3 de Fevereiro, e não a 8). Independentemente de uma ou outra questão de pormenor, contudo, o que mais desconsola é um certo comedimento que parece desajustado à grandeza e à sublime originalidade de Monteiro. Impõe-se a comparação com Pialat, cujo desaparecimento mereceu reacções muito mais copiosas. Admita-se, contudo, que, em termos da influência, directa ou indirecta, na sua geração e nas seguintes, a figura de Pialat assume uma estatura imensamente mais significativa do que a de Monteiro (que não deixará herdeiros - e poderia ser de outro modo?). Desse ponto de vista, compreende-se a disparidade. Ainda assim...


GREEN IS THE COLOUR: Pensando nos leitores que se sintam maravilhados pelo soberbo tom de verde que foi escolhido para o fundo deste blog, aqui divulgo o respectivo código alfanumérico: é o 9dd05b. Usem-no à vontade nas vossas páginas. Não cobro direitos.


A TODOS AQUELES que acharam estranho, da parte de um blog Republicano, a elogiosa menção a um romance ("Une Ténébreuse Affaire") no qual a causa realista é apresentada sob uma luz tão benevolente, direi simplesmente que me comprometo a redimir-me no futuro, e a dar mostras de um encarniçamento jacobino implacável.


Domingo, 09 Março, 2003

JÁ PASSA da hora de deitar do colega Ponziani, mas ele promete para os próximos dias, visando a vossa alta recreação, explicações sobre o lugar escolhido para os ensaios da peça "Pentesileia" (Alcântara), revelações inéditas sobre o seu modus operandi, e outros acepipes requintados.


LEITURAS: "Une Ténébreuse Affaire", de Balzac. A páginas tantas deste romance, parte integrante das "Scènes de la Vie Politique", existe um momento sublime. Os dois filhos de M. d'Hauteserre, juntamente com outras pessoas que lhe são próximas, foram detidos como suspeitos do rapto de um senador do Império. M. d'Hauteserre diz ao marquês de Chargebœuf:
- Me suis-je donné de la peine pour mes deux malheureux enfants! J'ai déjà refait pour eux près de huit mille livres de rentes sur l'Etat. S'ils avaient voulu servir, ils auraient gagné des grades supérieurs et pourraient aujourd'hui se marier avantageusement. Voilà tous mes plans à vau-l'eau.
- Comment, lui dit sa femme, pouvez-vous songer à leurs intérêts, quand il s'agit de leur honneur et de leurs têtes?
- M. d'Hauteserre pense à tout, dit le marquis.

E é assim, com este prodígio de laconismo, que termina o capítulo.
Tal como M. d'Hauteserre, Balzac pensa em tudo: na política e na paixão, nas finanças e na amizade, na família, no exército, na esfera mundana, na realeza e no clero. Balzac pensa no interesse e no impulso, no público e no doméstico, na imprensa, no teatro, na pintura, na escultura, no matrimónio, na viuvez, na paternidade, na província e em Paris. Num romance da "Comédia Humana", poucos parágrafos bastam para separar a descrição do tamanco enlameado de um camponês das considerações relativas a uma intriga no estado-maior de Napoleão. E contudo, nunca este eclectismo omnívoro se confunde com uma intenção de naturalista: Balzac viveu intensamente a época que os seus livros descrevem, e o fascínio da sua obra decorre dessa perspectiva da sociedade em devir contínuo, insaciável máquina produtora de ficção, organismo infinitamente complexo, e impossível de reduzir à soma das suas partes. O prodigioso poder de síntese de Balzac disfarça-se de prolixidade, confunde-se por vezes com o mero propósito de inventariar as pessoas, os mecanismos e os sucessos de uma sociedade que conheceu mais convulsões num lapso de algumas décadas do que outras em vários séculos. Balzac foi talvez o primeiro escritor a descobrir o espaço ficcional (por oposição a um informe manancial de eventos e situações à espera de uma intenção narrativa para acolher e nutrir um romance), e a maneira de nele se deslocar, através dos seus estratos, dos seus níveis de importância, numa embriaguez telescópica de compartimentos, detalhes, fenómenos colaterais. A edificação da "Comédia Humana" foi essencialmente uma questão de espaço: um gesto que mal merece menção num romance (uma porta que se fecha, um título bancário que desaparece, um pedido de casamento que é recusado) é retomado num outro, onde a sua importância é revelada, à maneira de uma ala de um palácio até aí vedada aos visitantes, e que só uma porta fechada, decorada em gracioso trompe l'œil, deixava adivinhar.
Ao contrário do que certos títulos seus poderiam dar a entender ("Le Chef-d'œvre inconnu", "La Recherche de l'Absolu"), Balzac deve contar-se entre os escritores que menos investiu na busca de um qualquer "absoluto". Cada facto depende sempre de outros, que formam o seu contexto, e são as tensões e intenções que permeiam os factos que constituem o tecido da sociedade: esta seria uma das lições cruciais de Balzac, banal na aparência, mas demasiadas vezes esquecida, e raramente ministrada com tamanha genialidade e pujança de meios.


UM GRANDE XADREZISTA É APENAS UM GRANDE XADREZISTA: Robert James Fischer faz hoje 60 anos. Campeão mundial de xadrez entre 1972 e 1975, de nacionalidade norte-americana, o homem que interrompeu o monopólio soviético do "jogo dos reis", que fez mais do que qualquer outra pessoa pela popularização do xadrez no Ocidente, e cujo mito ainda hoje perdura, alimentado pelos seus longos anos de reclusão e pelos seus comportamentos excêntricos, vive hoje (ao que se diz) nas Filipinas. Conta-se que foi pai pela primeira vez. Infelizmente, contudo, a paternidade não parece ter contribuído para o seu bom senso. Intervenções radiofónicas regulares numa estação de rádio filipina permitem a Fischer, que manifestou publicamente o seu regozijo pelos atentados de 11/9, continuar a dar largas ao seu complexo de perseguição e ao seu anti-semitismo. Perante tão desoladora realidade, cada vez mais é de aconselhar aos fãs de xadrez que esqueçam o homem, mas não deixem de continuar a dedicar-se ao estudo das maravilhosas partidas que ele nos deixou. A coexistência de capacidades intelectuais notáveis e de um sofrível fundo moral, vulnerável a acessos de ressentimento egomaníaco, não é, ai de nós, coisa rara. Robert James Fischer foi um dos maiores xadrezistas das últimas décadas, mas regrediu, clamorosamente, como pessoa.


CIÊNCIA E ICONOCLASTIA: Merece referência muito especial a notícia de página inteira, na "Newsweek" datada de 10/03, consagrada ao físico português João Magueijo, e à sua teoria segundo a qual a velocidade da luz terá sido superior à actual nos primeiros momentos de vida do universo. O artigo começa num tom desnecessariamente folclórico («He had been born in Portugal - about as far from England, culturally, as you can get and still be in Europe. Until he was 7 a fascist governed the country, and even by the late 1980s people still half expected punishment for expressing their views.»), mas depois melhora. Especialmente interessante é a sugestão, que me parece fazer todo o sentido, de que uma teoria ousada e revolucionária pode revelar-se cientificamente fecunda, ainda que venha a ser contrariada pelos factos. Isto, claro está, desde que possua um mínimo de bases e verosimilhança (cf. a reivindicação de que a sida não é causada por um vírus, e outras inanidades do mesmo coturno).


Sábado, 08 Março, 2003

DEPOIS DESTES AMÁVEIS FOLGUEDOS chegou a altura de falar de assuntos um bocadinho mais sérios.
Uma das bandeiras do 1bsk, para além de Kleist, da(s) Arte(s) em geral, da República e do Xadrez (já agora leva maiúscula também), é o cepticismo, a dúvida metódica, e a desconfiança perante tudo o que seja charlatanice, impostura científica, e, de um modo mais geral, manipulação de factos. A convicção subjacente a estas posturas é a de que o pensamento crítico é um instrumento fundamental para a felicidade, para a correcta apreensão dos problemas, para o relacionamento com a sociedade enquanto manancial de informação e de fenómenos.
Assim sendo, contem com numerosas intervenções, nas semanas e meses que se seguirão, sobre tópicos como: pseudociência, a imagem da ciência na nossa sociedade, relação entre Ciência e Religião, etc.
A intenção destes desabafos será, acima de tudo, a de contribuir para um debate esclarecedor e frutuoso, e serão feitos os possíveis para que a animosidade e o espírito de militância, que não deixarão de vir ao de cima, sejam doseados à boa maneira da homeopatia (ela própria uma pseudociência, até prova em contrário).
Entretanto, recomendo desde já uma visita a este excelente site, da Skeptics Society, cujo principal animador costuma escrever, e bem, para a conhecida revista "Scientific American". Entre outras propostas, encontrarão recensões, pequenos ensaios, um Top 10 de livros, e referência a um opúsculo sugestivamente intitulado "How to Debate a Creationist". Única pecha que apontaria ao site: um pendor comercial muito marcado. É certo que toda a gente precisa de ganhar a côdea... E a causa é das mais louváveis.


TODOS TEMOS UM CARTESIANO DENTRO DE NÓS, até mesmo Donald Rumsfeld. Senão, atente-se a esta pérola, dada à luz num briefing do Pentágono: «There are known knowns. These are things we know that we know. There are known unknowns. That is to say, there are things that we know we don't know. But there are also unknown unknowns. There are things we don't know we don't know.» (Citado pela "Newsweek" de 10/03.) Não posso deixar de pensar que estas palavras estariam melhor num livro de Gertrude Stein (escritora que, de resto, temos em elevada conta) do que na boca de um Secretário da Defesa.


AND NOW FOR SOMETHING COMPLETELY DIFFERENT:
Stockbroker: Well I think they should attack the lower classes, er, first with bombs, and rockets destroying their homes, and then when they run helpless into the streets, er, mowing them down with machine guns. Er, and then of course releasing the vultures. I know these views aren't popular, but I have never courted popularity.
("Monty Python's Flying Circus Volume One", Episode Five)
(© Python Productions)



POEMAS PORQUE SIM: Com o zelo proselitista que nos é reconhecido (e que já nos valeu numerosas medalhas de ouro em exposições internacionais), continuamos a divulgar a poesia de Laura Riding. Chamamos ainda a atenção para o ensaio que Paul Auster dedicou a esta autora no seu livro "Ground Work".

THE WORLD AND I

This is not exactly what I mean
Any more than the sun is the sun.
But how to mean more closely
If the sun shines but approximately?
What a world of awkwardness!
What hostile implements of sense!
Perhaps this is as close a meaning
As perhaps becomes such knowing.
Else I think the world and I
Must live together as strangers and die -
A sour love, each doubtful whether
Was ever a thing to love the other.
No, better for both to be nearly sure
Each of each - exactly where
Exactly I and exactly the world
Fail to meet by a moment, and a word.

(© 1938 Laura Riding)



É REDONDAMENTE FALSO aquilo que defende no DNA de hoje o cronista Miguel Esteves Cardoso: «Em Itália o molho (...) é, na verdade, apenas uma desculpa para comer a massa.» Afirmações deste jaez apoucam a importância decisiva e histórica da relação massa/molho, que nós, neste blog, comparamos a uma dialéctica. É toda uma dinâmica interactiva que está em jogo quando se combinam o elemento farináceo (tese) e o elemento suculento (antítese). Se certos autores consideram que a superação destas duas etapas sob a forma de uma síntese esplendorosa de sabor depende essencialmente do tempo de cozedura, outros (nos quais nos incluímos) realçam a excelência do tomate siciliano ou das natas para a carbonara como factor decisivo. Não deixaremos de regressar a este assunto, visto que ele merece que a ele regressemos.


Sexta, 07 Março, 2003

LUGARES PARISIENSES(1):
A: Conheces algum lugar ou itinerário em Paris que mereça ser mencionado ou descrito?
B: Conheço muitos. Por exemplo, o triângulo escaleno formado pela Rue d'Odessa, Boulevard du Montparnasse e Rue Delambre, com a estação de metro Edgar Quinet num dos vértices, não longe da Gare Montparnasse.
A: A quem recomendarias esse lugar?
B: A toda a gente, mas especialmente aos fetichistas cinéfilos com fixações rohmerianas.
A: Isso interessa-me. Conta mais.
B: A poucos minutos do Jardin du Luxembourg, e da subestimada Rue de Vaugirard, o bairro é dominado pela impressionante profusão de crêperies, vestígio da presença bretã. É uma zona com forte animação, de dia como de noite.
A: Isso é simpático. E Rohmer, no meio disso tudo?
B: Ora bem, é num café deste bairro que tem lugar um episódio do filme "4 Aventures de Reinette et Mirabelle", mais concretamente aquele em que Reinette discute com o empregado de mesa mal educado, e acaba partindo sem pagar o café. Escapa-me o nome do café, e nem sequer está na ponta da língua. Seria preciso voltar ao local, ou rever o filme, e cada uma destas soluções é menos viável do que a outra, o que confirma a crueldade assustadora da existência.
A: E que mais?
B: A esfuziante Rue de la Gaîté; o cemitério de Montparnasse, onde estão sepultados Beckett, Sartre e Simone de Beauvoir, entre outros; e o vistoso mercado da Rue Daguerre.
A: Ainda a propósito da Gare Montparnasse...
B: O final do filme "Eloge de l'Amour"...
A: Il est possible que la vérité soit triste.
B: Assim mesmo.


TORNEIO DE LINARES: Os meios de comunicação social têm deixado passar em claro a edição deste ano do torneio de xadrez de Linares, em Espanha. Perante este silêncio incompreensível, só possível numa imprensa (como é a nossa) enfeudada a grupos de interesse manifestamente hostis às manifestações escaquísticas, a blogosfera aparece mais uma vez como espaço independente, imune à hegemonia da ideologia dominante, reduto das minorias e das forças vivas da nação.
10 empates nas últimas 12 partidas. Tudo por decidir a duas rondas do fim. Fica o rescaldo prometido, aqui no nosso blog kleistiano, para depois deste fim-de-semana, que será por certo repleto de emoções dentro das 64 casas.
«Estilo? Eu não tenho estilo.»(Anatoly Karpov)



Quinta, 06 Março, 2003

PORQUÊ A "PENTESILEIA"?: Isso agora é muito mais complicado. Dou a palavra ao colega Ponziani, que está mais próximo do assunto.
«Esta peça data de 1808, três anos antes do suicídio de Kleist. Acredita-se que a história de Pentesileia provém de uma epopeia pós-homérica, a "Etiópida", mas na origem não existia o envolvimento amoroso entre a rainha das amazonas, que tinham acorrido para combater os gregos ao lado dos troianos, e o grande Aquiles. (Kleist pode ter lido a "Continuação de Homero", de Quinto de Esmirna, onde um esboço de idílio entre Aquiles e Pentesileia existe já.) De acordo com a lenda, era Aquiles quem acabava desfeiteando e matando em duelo a sua amante e adversária implacável. A mais evidente singularidade da abordagem de Kleist é a subversão deste desenlace, sob a forma de um triunfo absoluto e sanguinário de Pentesileia. A este propósito, não deixe de se ler o que escreve Gérard Genette em "Palimpsestes" (cap. LXXVI).
Na base da escolha desta peça, e dessa figura extraordinária de mulher guerreira, que ao mesmo tempo anunciou e superou personagens mais tardias como as de Bradamante e Clorinda, terá pesado acima de tudo a intensidade extraordinária do texto. Sentimos necessidade de trabalhar sob a ameaça de um desregramento e de uma festa dos instintos aparentemente insubmissa ao esforço de encenação e à imposição da ordem. Atraiu-nos essa subversão da estratégia bélica, da sobreposição de um desvario de autodestruição à hecatombe programada de Tróia, à lógica guerreira no esplendor da sua rotina. O desafio existe, e é de monta, mas ao mesmo tempo é um desafio cujos contornos e densidade estão definidos desde o início. Impressiona a coerência na desmesura, como se o autor, ciente desde o início de todo o potencial de caos, ruptura, desmoronamento de uma peça onde as paixões são levadas a um extremo inaudito, se tivesse entregue com afã à consolidação de partes cujo destino pareceria ser o de se fragmentarem, e tivesse procurado insuflar um sucedâneo de verosimilhança psicológica, sem medo do paradoxo, ou de preferência servindo-se dele. O resultado é surpreendente.
No prefácio da sua versão francesa, Gracq defende que o triunfo de Pentesileia sobre Aquiles foi a única maneira que Kleist encontrou de "ter razão contra a evidência", e fala de uma plenitude mais elevada do que qualquer verosimilhança. Como não aprovar?»



Bem-vindos a mais um dia na vida do nosso blog verde-alface!!!
Informa-nos o DN de hoje que desde há 20 anos que não se investia em habitação social em Évora. Como foi possível?


Quarta, 05 Março, 2003 (cinzas)

PORQUÊ KLEIST? Kleist é um escritor extraordinariamente moderno. Ao empregar o termo "moderno", não quero aludir a uma singela repercussão de temas, ideias e preocupações da nossa época: adequar uma obra às emanações dos espíritos vindouros é tarefa mediocremente admirável, que pouco mais requer do que uma dose moderada de talento e plácida confiança na repetição cíclica, mais ou menos trôpega, dos medos e das coisas, ao longo dos séculos. A verdadeira modernidade consiste numa absoluta fidelidade às tensões entre sociedade e indivíduo, entre lei e pulsão, que deflagram ao longo da turbulenta fronteira entre grande e pequena história; e o que mais é, consiste em não se deter no episódio, na anedota, e em ir buscar o mudo, cristalino e perene universal que se encontra por detrás dele, sem com isso pôr em causa o dinamismo revelador da narrativa, ou do texto dramático. É desse diálogo permanente entre as mais funestas condicionantes do ser humano, bicho ao mesmo tempo gregário e egoísta, e aquilo que sucede e que se traduz em proposições, que decorre a magnífica intemporalidade da obra de Kleist, cuja força é directamente proporcional à violência dos dramas que são relatados, firmemente ancorados num lugar e num ano.
Os escritores modernos são escritores honestos. A falsidade não perdura. (Não se confunda aqui "falsidade" com "apetência pela manipulação": escritores como Cervantes ou Sterne são dos mais actuais que conheço.) Quando leio "A Marquesa de O..." ou "Michael Kohlhaas", aquilo que me surpreende é, antes de mais, a transparência, a firme e cristalina limpidez de propósitos (que nem a vaga deriva whodunit da primeira destas obras consegue desfazer): tudo é dado, tudo é mostrado, tudo é revelado. Ou melhor: tudo é dado e é terrível, tudo é mostrado e é terrível, tudo é revelado e é terrível. A grandeza de Kleist é essa capacidade de nos dar a ver o terrível disfarçado de prosa objectiva, coerente, sintética, mas dando--nos ao mesmo tempo todos os utensílios e nomes para penetrarmos além dessa superfície que nos é oferecida, num abismo que é uma vala que percorre os tempos. A escolha do 1bsk é a escolha de uma postura, de uma atitude, de um gesto, de uma intenção.


OUTRA VEZ ÉVORA: A América, sempre atenta, faz questão de frisar, a propósito da notícia sobre Évora, que os tais novos acessos não deverão estar prontos antes de 2007. Ainda assim, isso não deve dissuadir os potenciais visitantes de virem conhecer a cidade, que muito tem para oferecer. Uma hipótese aliciante consiste em acompanhar a visita de uma surtida ao castelo do Alandroal, que data de fins do século XIII.


Mardi-gras, 04 Março, 2003

Aqui no 1bsk adoramos listas. Somos loucos por listas. Não podemos passar sem listas. Se adoptássemos um lema (já estivemos mais longe disso), em latim ou em vulgar, o mais provável era que dele constasse a palavra "lista", ou que fosse ele mesmo uma lista. Estamos em boa companhia (Rabelais, Perec, Greenaway...), o que dá sempre jeito.
Serve tudo isto de preâmbulo à primeira lista que vai aqui ser divulgada, nada menos do que o top 10 do 1bsk dos maiores álbuns de pop/rock de todos os tempos.
A ordem é a cronológica.

  • Bob Dylan, "BRINGING IT ALL BACK HOME"
  • Love, "FOREVER CHANGES"
  • Van Morrison, "ASTRAL WEEKS"
  • The Band, "THE BAND"
  • The Beatles, "ABBEY ROAD"
  • Leonard Cohen, "SONGS OF LOVE AND HATE"
  • The Clash, "LONDON CALLING"
  • Dexys Midnight Runners, "DON'T STAND ME DOWN"
  • The Housemartins, "THE PEOPLE WHO GRINNED THEMSELVES TO DEATH"
  • Liz Phair, "EXILE IN GUYVILLE"

Comprometo-me a ir comentando esta lista, item por item, mas próximas semanas.



CINEMA: Ainda a quente, pouco tempo após o visionamento, eis as minhas primeiras reacções ao filme "10", de Kiarostami.
Os caminhos que Kiarostami tinha vindo a escolher, nos últimos anos, embora representassem uma aposta na depuração e na economia de meios, não apontavam necessariamente para a demonstração de arte pobre que é este filme. Uma câmara,um carro e actores: eis os ingredientes de "10". E é tudo? Não, não é tudo. Defendo que todo o sentido, toda a portentosa legitimidade da obra de Kiarostami residem na convicção de que os elementos de um filme vulneráveis à descrição, os pólos que sustentam enredos, determinações geográficas ou sociais, motivações, não são mais do que a escada que nos ajuda a saltar o muro, e que perde o interesse uma vez alcançado o topo, esquecida em favor do inebriante panorama de pomares, estradas, colinas. Ou seja, e concretizando: no caso de "10", a extrema parcimónia dos meios induz no espectador atento, à míngua de pontos de apoio, essa disposição de procurar o "algo mais" onde se move o cinema de Kiarostami, essa região tensa de significados, ao mesmo tempo ascética e sensual, corriqueira e perpétua inimiga do senso comum, essa província que outros cineastas preferem ignorar, por falta de meios, falta de vontade, falta de talento ou falta de coragem.
Deploro que a comunicação entre o cinema mais clássico (leia-se: aquele que chega às nossas salas) e o cinema dito de vanguarda ou experimental seja tão pobre, para não dizer quase inexistente. Perante "10", não pude deixar de pensar em "Beauty #2", de Warhol, no qual o plano fixo ultrapassa o seu estatuto de dispositivo cinematográfico para se transformar num interveniente, e não dos menos tirânicos ou manipuladores. Em "10", é certo, existe mais do que o plano fixo, e tanto a gestão do campo e do contracampo como as elipses temporais (já para não falar do perpétuo traveling que decorre do andamento da viatura) são inteligentemente utilizados ao serviço do fluxo dramático do filme (que existe, se bem que deliberadamente rarefeito). Porém, o constrangimento dos discursos e das atitudes, consequência do confinamento, é algo de comum a ambos os filmes. Parece-me que este apetite pela exploração de um limite funciona aqui como tentativa de colocar em evidência um aspecto específico da arte cinematográfica em que Kiarostami, manifestamente, acredita, ao contrário de tantos dos seus pares e daqueles que lhes concedem semanalmente o seu beneplácito, por meio de recensões tíbias e contentinhas.
De tudo o que acima se lê não se conclua que eu recomendaria "10" para um primeiro contacto com a obra de Kiarostami. Por menos disposto que eu esteja a defender que este filme exibe como único trunfo uma radicalização rebarbativa, acredito firmemente que obras fundamentais como "Através das Oliveiras" ou "O Vento Levar-nos-á" (para não mencionar "Close-Up", simplesmente um dos filmes fulcrais das últimas décadas) constituirão uma escolha mais frutuosa.


VERSOS PORQUE SIM:
And I,
And do I ask,
How long this pain?
Do I not show myself in every way
To be happy in what most ravages?

(...)

But how may I be hated
Unto true love's all of me?
I will tell you.
The fury will grow into calm
As I grow into her
And, smiling always,
She looks serenely on their death-struggle,
Having looked serenely on mine.

(Laura Riding)
(© 1938 Laura Riding)



Leio no jornal (DN, 27/02), que a Câmara Municipal de Évora anunciou a construção de três novas variantes com o objectivo de melhorar as acessibilidades rodoviárias no concelho.
Esta notícia deixa-me satisfeito, pois gosto muito de Évora, e tudo o que seja feito em prol de Évora merece louvor.


Segunda, 03 Março, 2003

VERSOS PORQUE SIM:
Outro segredo corre o rosto.

Fundámos uma história de água
entre nós e o mês de junho.

A pedra o nome
dos que têm esta terra
outro segredo.

(João Miguel Fernandes Jorge, in "À Beira do Mar de Junho")
(© João Miguel Fernandes Jorge e A Regra do Jogo)

Sábado, 01 Março, 2003

Hoje é dia 1 de Março.
Estou a escutar um CD dos Jethro Tull.
A primavera já não poderá tardar muito.
Hoje o dia foi desolador, por culpa da chuva contínua e da falta de sol.



 
Numa época que receia as causas, como se receiam as investidas de um vizinho importuno, com fama de lunático, a entrega a uma causa pode revestir-se de formas muito diversas. Nem todas envolvem um antigo armazém na zona de Alcântara (mediocremente aquecido), ou a encenação de uma peça de Heinrich von Kleist (1777-1811), ou tempo roubado aos afazeres, ao sono, às obrigações sociais, ou adereços vários.
Não era inevitável que este projecto transbordasse para a esfera da vida real, e que as frases, gestos, sussurros, combates simulados, amuos, versos livres, pausas, enganos, contornos de lábios, convicções, se instalassem no quotidiano, nas semanas, no domínio público.
Não era inevitável, mas qualquer um de nós o poderia prever, se as implicações do credo que nos unia tivessem sido sondadas desde o início. E esse credo era (é): UMA MÁXIMA QUE É VÁLIDA NO PALCO É-O TAMBÉM NA VIDA.
Talvez a essência daquilo que se persegue durante os ensaios acabe por ganhar hegemonia no Mundo, e talvez sirva de pólo/intérprete/rasto de pedrinhas para todos os assuntos do Mundo; e talvez a verdade daquilo que assim se desoculte seja melancólica.
Ainda assim, e ainda que seja esse o último capítulo da história do mundo
é importante (ou, pelo menos, vagamente edificante) que alguém faça a crónica.