Heinrich von Kleist (1777-1811)Liberté Egalité FraternitéNo tabuleiro de xadrez, as mentiras e a hipocrisia não duram muito (Em. Lasker)Monty Python forever!

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março 2004

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Quarta, 31 Março, 2004

ABRE PARÊNTESIS: O Umblogsobrekleist vai entrar em pousio durante uma semana e picos, por motivo de deslocação em massa da nossa equipa a paragens distantes, incluindo uma estadia pascal na cidade mais prodigiosa do mundo. Entretanto, a sondagem destinada a apurar se a América deve ou não fazer um "piercing" continuará activa. Continuem, pois, a manifestar as vossas e-opiniões. Não interpretem mal a América: ela de estouvada nada tem, mas passa por um período bizarro da sua vida, repleto de dúvidas, de passagens perigosas, e de arroubos de paixão que os seus próximos tomam por febre dos fenos. Repare-se que a América já ostenta uma tatuagem: de minúsculas dimensões, junto ao pulso direito, representando um animal mitológico vagamente cinocéfalo. Mas isso nada quer dizer, pois toda a irmandade kleistiana possui uma igual, e tal não deve servir para influenciar o sentido do voto.
Até breve. Passem uma agradável Páscoa. Leiam o Epicentro, leiam as Torneiras de Freud, leiam o Almocreve das Petas, leiam o Modus Vivendi. Vão ao cinema, estejam com a família, visitem exposições de artes plásticas. Façam bolos, descasquem fruta, façam cálculos mentais com os números das carreiras de autocarro. Desconfiem das estátuas.


ADENDA CESARIANA: O enlace que foi aqui deixado ontem, relativo ao inenarrável artigo de João César das Neves (o homem que nasceu para fazer parecer o cardeal Cerejeira um progressista libertino), não funciona, e conduz a uma zona de acesso exclusivo para clientes do Sapo. Não sei se a suculenta fatia de prosa se encontra em linha algures, mas, em todo o caso, podem ler-se excertos generosos no Quartzo, Feldspato & Mica e no Tempo Dual.
Só o César é o César. Não aceite imitações.


Terça, 30 Março, 2004

O BOBO: Grande, enorme, sublime e surpreendente filme, este de José Álvaro Morais, visto no sábado na Cinemateca. Só peço aos impiedosos deuses dos blogs que se dignem conceder-me o tempo e a arte para o cantar devidamente, numa ocasião próxima.


THE TIMES THEY ARE A-CHANGIN': Até onde a memória alcança, nunca se viu coisa igual: os pastéis de nata ultrapassaram os bolos de arroz no bar da Faculdade de Ciências. Vivemos tempos de mudança. Vou escrever outra vez a mesma coisa, por uma questão de ênfase. Vivemos tempos de mudança.


MAU SERVIÇO PRESTADO AOS MUNÍCIPES: Estranha "coincidência"... As carreiras que acabam de ser suprimidas pela Carris são precisamente aquelas que passavam pelas ruas onde se encontram as únicas edições de bolso do livro "Les Filles du Feu", de Gérard de Nerval. Não é forçoso que as decisões relativas à racionalização da rede de transportes públicos sejam tomadas à custa de nostalgia, de lombadas quebradas ao meio e de dedadas de chocolate em páginas que ganham uma textura mais macia com o uso.


CÉSAR, O IMPARÁVEL: Se ainda existisse o prémio "Tatuagem Farfalhuda" do BdE, João César das Neves teria rebentado alegremente com a escala graças à sua última crónica no "DN". O último naco de prosa do imparável César representa para a escrita jornalística aquilo que o salto em comprimento de Bob Beamon nos JO de 1968 representou para o atletismo: um feito de colossal valor, que perdurará ao longo de gerações. O que mais admirar? O surrealismo da argumentação? A distorção dos factos? Ou o paternalismo insuportável e nauseabundo com que lamenta o desaparecimento de um estado de coisas que nunca existiu senão na sua singular imaginação? JCN assentou há muito arraiais na corda bamba que o suspende entre o odioso e o simplesmente ridículo: ora balança para um lado, ora balança para o outro, mas sem nunca abdicar da prerrogativa de mostrar ao mundo as suas facetas de caluniador e de bufão, em voluntária alternância. O mundo de JCN é um mundo admirável, onde entram fadas e dragões, mitos e ladaínhas, manias de perseguição, um lirismo salobro e intermitente, convicções apocalípticas, e pequena e média escatologia. O único denominador comum das suas crónicas é este: (todos em coro...) A culpa de tudo é dos homossexuais!. Enquanto as suas derivas não o transformam no caso de polícia que ele está prestes a ser, fica a questão: não caberia a um jornal responsável eliminar do seu quadro de colaboradores um tal prodígio de vácuo, grandiloquência e cretinice? A não ser que o propósito do "DN" seja o de divertir os seus leitores, mas essa seria uma intenção pouco caritativa.
(No Tempo Dual há uma estupenda reacção a esta crónica. Não percam.)


O TEMPO E O MODUS: Estava para escrever há semanas sobre o Modus Vivendi, pela menos agradável das razões (o seu fim anunciado), e eis que o tempo ultrapassou as minhas intenções, afortunadamente desta vez: o Modus está de regresso. O que permanece é a certeza de que tudo o que eu dissesse sobre este blog especialíssimo ficaria tragicamente aquém de tudo o que de bem penso dele. Enquanto melhores e mais inspirados tempos não chegam, limito-me a reproduzir esta citação lida no MV:

«Soyez résolus de ne servir plus, et vous serez libres.»(Étienne de la Boétie)




UM BLOG SOBRE MANN: A Montanha Mágica fez um ano. Desde o seu primeiro post, as andorinhas partiram e regressaram, o planeta descreveu a sua kepleriana e costumeira elipse, e muitas outras coisas sucederam, mas a Montanha continua a ser um dos mais infalivelmente interessantes blogs literários do país e cercanias. Quem não o sabia ainda, fica a saber.


Domingo, 28 Março, 2004



A REPÚBLICA NO PORTA-MOEDAS: Receber uma moeda francesa nos trocos não chega, só por si, para salvar um dia; mas de que para isso contribui, e de forma substancial, não haja dúvida. Gosto muito da frase "Liberdade Igualdade Fraternidade". Na minha hierarquia de dizeres indutores de prazer estético e somatossensorial, coloco-a ao nível de outros clássicos do género, como sejam "serviço público", "sem fins lucrativos" ou "legalidade constitucional".


E DIGAM LÁ SE SE PODE OU NÃO CANTAR O KLEIST: Do nosso leitor Augusto M. Seabra, recebemos utilíssimos apontamentos sobre óperas baseadas em textos de Kleist, e autores seus próximos. Os nossos sinceros agradecimentos por ter aceite partilhá-los com o nosso auditório. (O artigo mencionado é aquele que veio a lume no "Público", e que deu azo a um nosso post recente sobre a ópera de Henze.)

«Se a minha nota sobre "O Príncipe de Homburgo", ópera de Hans Werner Henze, o interessou, como constatei, informo-o de que também "Penthesilea" foi matéria de uma ópera, estreada em 1927, do compositor suíço Othmar Schoeck (1886-1957), com libreto do próprio, uma "condensação" do texto do nosso caro Heinrich (todo o texto provém do original). Existe de resto em disco, em teoria disponível no mercado português; tal como essa outra ópera de Henze que eu referia no texto, "Die Bassariden", é um "Festspieldokumente" de uma execução em concerto no Festival de Salzburgo, editado pela Orfeo.»

«(...) sobre a exclusão de Kleist dos horizontes musicais, também me intriga. Do que me venho debruçando, em torno do romantismo, diria que sendo esse um caso de exclusão radical, poderemos ainda assim atender a que não deixa de ser intrigante que tenham tendido também a uma menor consideração Novalis e até Hölderlin, situação particularmente intrigante porque se há um momento da história da música que é também um momento literário, esse é o romantismo, e isso quer dizer o romantismo alemão. Schumann não podia desconhecer Kleist, mas não há na sua obra qualquer referência, diferentemente dos evidentes paralelismos com Novalis ou da referência, críptica mas manifesta, a Hölderlin. Mas Schumann justamente esclarece-nos como esse romantismo se constituiu como discurso público na dupla referência ao fantástico de E.T.A. Hoffmann, escritor e também, não o esqueçamos, compositor, e à enunciação de um sujeito lírico em Heine, além da sombra tutelar de Goethe. Mas sobre a exclusão de Kleist, também nos podemos interrogar (mera hipótese) se a radicalidade do pacto suicida dos amantes não é uma das razões. Não deixa ainda assim de ser interessante notar que a dramaturgia do "sturm and drang" e da 1ª geração romântica só teve consequências musicais no século XX, com as duas óperas coincidentes do "Woyzeck" de Büchner, a bem conhecida de Alban Berg e outra de Manfred Gurlitt, aliás também autor de um "Os Soldados" segundo Lenz, o mesmo texto que deu origem à genial ópera de Berd Alois Zimmermann que eu falava no mesmo artigo.»




Quinta, 25 Março, 2004

É A TOPONÍMIA, ESTÚPIDO!: Senhor Roubado, Meia Laranja, Montes Claros... Há mais lirismo nos nomes de lugar de Lisboa do que em muitos versos impressos e expostos em escaparates.


TENHA VERGONHA, DR. SANTANA LOPES: Do que Lisboa precisa não é de um túnel nas Amoreiras, mas sim de restaurantes chineses com bolinhos da sorte com tirinhas de papel com versos de Celan escritos em marca de água. Teria a vantagem de não requerer modificação do Plano Director Municipal.


ISTO ANDA TUDO LIGADO: A humanidade divide-se em dois grupos: aqueles que pensam que uma prestamista chamado José de Arimateia, com estabelecimento próprio no coração de Lisboa, é coisa que não merece mais de dois segundos de atenção, e aqueles que vêem na acção imediata a única via para enfrentar esta situação.
Eu já escolhi o meu lado da barricada.


CINCO FILMES EM QUE A TERRA TREME:
  • "San Francisco" (W.S. Van Dyke, 1936)
  • "Stromboli" (Roberto Rossellini, 1951)
  • "E a Vida Continua" (Abbas Kiarostami, 1991)
  • "Short Cuts" (Robert Altman, 1993)
  • "8 1/2 Women (Peter Greenaway, 1999)



BARATA SALGUEIRO, MON AMOUR: A não perder, a retrospectiva que a Cinemateca dedica ao malogrado José Álvaro Morais, já a partir desta sexta. "Zéfiro", "Peixe Lua" e "Quaresma" são três filmes que têm em comum o estranho e o belo. Nunca vi os três restantes, "Ma Femme Chamada Bicho", "Cantigamente Nº 3" e "O Bobo"; para este último, as minhas expectativas são elevadas.
É justíssima, esta homenagem, assim como o foi aquela dedicada à actriz Ingrid Thulin. Homenagens post-mortem desta índole correm sempre o risco de se confundir com tentativas oportunas de compensar o esquecimento em vida, mas isso não é razão para se deixar de prestar o devido tributo àqueles que verdadeiramente o merecem. Esta actriz e este realizador trouxeram-nos prazer e fruições artísticas, reincidiram uma e outra vez, e o mínimo que a decência nos pede é revisitar as suas obras.


ONDE FICA A CASA DO MEU AMIGO?: Muito fácil. NO CAMPO DOS MÁRTIRES DA PÁTRIA, claro está.


Quarta, 24 Março, 2004

HIGIENE E QUALIDADE NOS RESTAURANTES: A Câmara Municipal de Loures promove amanhã, quinta-feira, o II Seminário de Segurança Alimentar, subordinado ao tema "Higiene e Qualidade nos Estabelecimentos de Restauração". O seminário terá lugar na biblioteca municipal, a partir das 9 horas.


OUTRO DINAMARQUÊS QUE SABIA O QUE FAZIA: No prefácio aos seus "Dois Discursos Edificantes", Kierkegaard introduziu a categoria do "leitor único", estágio último e máximo do indivíduo no caminho da sua vida, etapa suprema na misteriosa e terrível via da fé. O "leitor único" era também, como o referiu explicitamente o próprio Kierkegaard, o "único leitor" que os seus escritos visavam, naquela fase intensa e penosa da sua vida pessoal. Este é um conceito ao qual dedicamos evidente simpatia verde-alface: o leitor único, esse que se olha à altura dos olhos, no silêncio de pó que sucede à batalha.


GAUDEAMUS IGITUR, JUVENES DUM SUMUS: Num dos mais recentes "Magazines", dizia-se ser "Hamlet" uma peça da "velhice" de Shakespeare. Como a peça foi escrita em 1602 ou arredores, e tendo o bardo de Stratford-upon-Avon nascido em 1564, depreender-se-ia que ele já era velho aos 38 anos. Este é um erro factual, mas um erro factual menor, e que não colide com o bom senso: há pessoas cuja terceira idade começa antes dos 18. Mantenhamos vivo o adolescente que existe dentro de nós, deixemos que a fogosidade da juventude coexista com a maturidade que os anos trazem, escrevamos obras-primas da dramaturgia que envolvam príncipes dinamarqueses e homicídio em massa; poderia ser esta a mensagem a retirar daqui.


Segunda, 22 Março, 2004



SEXTO FARRAPO DE VESTIDO DE NOITE DE PALAVRAS A PROPÓSITO DE "INDIA SONG": Um erro cruel entre todos consiste em menosprezar uma obsessão. Aqueles que escolhem esta armadilha têm o seu hectare reservado no purgatório. Não conheço os seus nomes, e o som das suas palavras pouco pode face ao púrpura da noite cantada. Nada resta a não ser a luz magnífica, e a memória cromática da intenção funesta, vista através do vidro embaciado e derramada nos sulcos do tempo. Alguém os confundiu com cadinhos. Os acordes repetem-se, cada um separado do anterior pelo tempo de espera de um novo grito. Uma obsessão não se escolhe, espreita-se do alto da inevitável árvore. Nunca sucede nada. Mas o terrível sobressalto seria digno de uma peripécia sublime, e a pele de um toque tão breve que as duas transpirações não se misturariam.


Sábado, 20 Março, 2004

FRUTA OU CHOCOLATE: Alguns sabores de gelado que não existem em mais lado nenhum, mas que estão disponíveis por meio do 1bsk, mediante encomenda:
  • Gelado de pipocas de micro-ondas
  • Gelado de suspensão da incredulidade
  • Gelado de água do rio Volga
  • Gelado de sangue arterial
  • Gelado de boné de marinheiro que perdeu as graças do mar
  • Gelado de pão da véspera
  • Gelado de plâncton
  • Gelado de ministério da Administração Interna
  • Gelado de Valium
  • Gelado de medula de sabugueiro
  • Gelado de rímel
  • Gelado de voltas a mote
  • Gelado de pêssego sem caroço
  • Gelado de teorema de Cauchy



A NATUREZA DO MEL: A "Paixão" é, sem a menor dúvida, um grande filme, que deveria ser visto por todas as famílias portuguesas, de preferência com bilhetes subsidiados pelo erário público. Claro está que não me refiro ao tonitruante épico bíblico de Mel Gibson, maila a sua polémica pré-fabricada, mas sim ao filme "Passion", de Jean-Luc Godard, com Isabelle Huppert, Jerzy Radziwilowicz, Hanna Schygulla e Michel Piccoli.
(Uma chapelada à Natureza do Mal, blog do melhorio cujo nome pedi emprestado para o dispensável trocadilho do título.)


ESPANHA (6): Comoveu-me ver aquele jovem espanhol que lia em voz alta artigos da Constituição espanhola, no local dos atentados de dia 11. Demasiadas vezes, a realidade parece conspirar para nos tentar convencer de que só a retórica ou a religião são respostas viáveis para a dor colectiva. Como se cidadania e compaixão fossem incompatíveis.
Comoveu-me, e pronto. Mais nada.


Sexta, 19 Março, 2004

TEMOS DECANO!: Outros blogs contentam-se em fazer um ano. O Cruzes Canhoto! não faz a coisa por menos, e está a festejar o seu centenário. Este blog pioneiro atravessou o conturbado século XX, tendo assistido a momentos marcantes, como as duas guerras mundiais, a República, o 25 de Abril, o assassinato de Kennedy, o Maio de 68, a queda do Muro de Berlim e o peeling da Lili Caneças. Como se não bastasse esta história ilustre, o Cruzes dá mostras de dinamismo e vitalidade, mudando-se para uma nova casa. Desejamos as maiores felicidades a este blog, que, desde a sua remota fundação, tem constituído exemplo de como se pode defender convicções de maneira categórica, porém sem recorrer ao dogmatismo nem ao sectarismo, sem abdicar do humor, mas tão pouco hesitando em colocar o dedo na ferida, quando isso se impõe. Parabéns, e até ao segundo centenário!


UM ESTRATOCÚMULO, UM!: No episódio de ontem da série "Bom Dia Miami" via-se uma nuvem cuja semelhança com o mapa da Islândia era extraordinária.
Queria agora fechar este post afirmando que gosto muito de alguns livros de Gertrude Stein.


MAIS SANTOS: Celebrou-se hoje o dia do Pai. Nas televisões do nosso país, dir-se-ia que o São José é quando um homem quiser, ou seja todos os dias, atendendo à profusão de personagens que respondem por este nome de baptismo, e que povoam o pequeno ecrã em perpétuo milagre de ubiquidade. Concedo que José Manuel Fernandes, José Mourinho e José Maria Martins não intervêm com o mesmo nível de clarividência e de a-propósito, mas une-os essa capacidade de atrair as câmaras, de exercer fascínio catódico, de sorver tempo de antena. Não há debate, controvérsia futebolística ou palpitante caso judicial que dispensem a presença do José de serviço.
O problema dos media actuais não é a efemeridade warholiana, mas sim a intrigante durabilidade de uns quantos, dispensada com uma liberalidade que custa a perceber.


ESPANHA (5): Se os resultados das eleições do domingo passado tivessem dado uma vitória clara ao PP, não faltariam sábias sentenças dos cronistas do costume a justificar o facto com um desejo de liderança forte, com a vontade, por parte do eleitorado espanhol, de se unir em torno do líder num momento de aguda crise e angústia. Falhada a oportunidade de empregar essa argumentação, viram-se obrigados a recorrer a um previsível plano B (o tal medo do terrorismo), atabalhoado mas capaz de suscitar rápido consenso.


ESPANHA (4): É muito frequente eu não estar de acordo com Francisco Sarsfield Cabral. Desta vez, porém, aquilo que ele escreve ("DN", 18/3) faz sentido, e tem a concisão daquilo que é justo e límpido. «São por isso injustos os que afirmam terem os espanhóis votado por medo e vêem no resultado da votação uma vitória do terrorismo. (...) Os espanhóis nunca foram cobardes. Nisso, não mudaram.»


Quarta, 17 Março, 2004 (São Patrício)

ESPANHA (3): E se os resultados de 14 de Março fossem também um sintoma de que os espanhóis confiam mais nos métodos e na postura de Zapatero para combater o terrorismo do que nos métodos e na postura do PP? Mas não, tal implicaria atribuir vontade própria e discernimento aos eleitores espanhóis, coisa que nunca passaria pelas cabeças da dream team lusa de cronistas e editorialistas.


ESPANHA (2): Um cenário simples e plausível, que alguns dos nossos ases da pluma (com o inefável Luís Delgado à cabeça) parecem incapazes de acomodar nos seus cristalinos raciocínios, resume-se em dois pontos: A) as sondagens enganaram-se (como já tantas vezes sucedeu no passado); B) a decisão dos eleitores espanhóis foi livre, e fundamentada numa diversidade de motivos, se bem que condicionada (como não podia deixar de ser) tanto pelos efeitos dos terríveis atentados como pela gestão catastrófica da situação por parte do governo.
Querer fazer passar o gesto democrático supremo, ou seja o voto, por um reflexo colectivo de cobardia e egoísmo revela um apetite pela distorção dos factos verdadeiramente enternecedor.


ESPANHA (1): As reacções dos nossos profissionais da opinião aos resultados das eleições espanholas foram ao mesmo tempo instrutivas e edificantes. Uma das teses mais repercutidas, com menos ou mais nuances, defende que a derrota do PP foi a vitória do terrorismo, tendo os eleitores, na sequência dos atentados de Madrid, castigado aqueles que atolaram a Espanha no lodaçal iraquiano. Para além de superficial (pecado menor, pois afinal cada um dá aquilo que pode), esta análise reduz habilmente umas eleições legislativas a um plebiscito relativo ao papel da Espanha no Iraque e no combate ao terrorismo, ignorando todos os outros factores que, ao longo de uma legislatura, pesam na decisão de cada eleitor no momento do voto. A verdadeira vitória do fanatismo e da internacional bombista seria fazer com que cada acto eleitoral fosse subordinado quase exclusivamente às temáticas do terror. Uma vitória do PP apenas por os eleitores terem julgado que Rajoy daria mais garantias de segurança interna seria, esse sim, um tenebroso revés da democracia.


St. Patrick's day!
SÃO PATRÍCIO: O único santo que o 1bsk celebra é São Patrício, patrono da terra que nos deu Joyce, Yeats, Beckett, Heaney, Wilde, Shaw, Synge, Behan. Obrigado, santo, pelo esforço evangelizador, e por todos os séculos de complexos de culpa, frustrações, rebates de consciência, remorsos, crises espirituais e incentivo ao exílio que marcaram a relação entre a Irlanda e a Igreja, e que tão copiosamente nutriram algumas das páginas mais empolgantes da literatura universal.


LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Após um longo período de vacas magras, há a assinalar uma senhora que lia "O Velho e o Mar", de Hemingway, na linha verde. Não me conto entre os admiradores incondicionais do grande Ernest, mas tudo o que vem à rede é peixe (nenhum trocadilho implícito).


AINDA LINARES: Outrora, o principal organizador do torneio de xadrez de Linares, Luis Rentero, tornou-se conhecido pela maneira acintosa como zurzia os jogadores pouco combativos, e como incentivava o jogo de ataque e o espectáculo. Infelizmente, Rentero abandonou o leme do torneio após um acidente de viação que trouxe terríveis sequelas. Durante a competição deste ano, perante a profusão de partidas mornas e monótonas, terão decerto sido muitos os aficionados que recordaram com saudade os tempos áureos de "Don Luis".


Segunda, 15 Março, 2004

CONSELHO DO DIA: Cuidado com os idos de Março, não façam aos outros aquilo que não querem que vos façam, escutem muitos CDs dos 10,000 Maniacs. Não são três conselhos, é apenas um.


ENTRETANTO, EM LINARES, BOCEJA-SE: Devido a problemas no seu telefone de satélite, só agora o nosso correspondente em Linares nos relata o que se passou nesta cidade andaluza, aquando do seu supertorneio anual de xadrez. A edição deste ano do "Ciudad de Linares" foi, na opinião da esmagadora maioria dos especialistas, uma decepção. 79% das partidas acabaram em empate, o que, mesmo para o mais alto nível, é muito. A percentagem de empates, em si, não constitui um problema: há empates apaixonantes, empates de luta, são numerosíssimos os exemplos de empates em que se aprende muito mais sobre xadrez do que em partidas que terminam na vitória de um dos contendores apenas devido a um qualquer erro grosseiro. Infelizmente, a maioria dos empates de Linares foi marcada pela abulia e pela falta de combatividade: em muitos casos, os antagonistas limitaram-se a repetir lances teóricos, preparados em casa, e a assinar a trégua em posições repletas de possibilidades, se bem que equilibradas.
Esta atitude é incompreensível. Por mais que o calculismo e a economia de esforços sejam necessários para singrar no xadrez de elite, por mais que este tipo de atitude compense em termos de resultados práticos, é incrível como os grandes-mestres do mundo se obstinam em não ver que tamanha desconsideração por todos os muitos milhares de amadores que seguem avidamente as partidas só contribui para uma imagem negativa da modalidade, uma modalidade que tão carente está de patrocinadores, de visibilidade e de credibilidade. O estado actual do xadrez é, em boa verdade, calamitoso: continuam a existir dois campeões do mundo (ou apenas um, ou nenhum, ao gosto do freguês), o processo de reunificação marca passo, anuncia-se que o próximo campeonato do mundo terá lugar na Líbia (e ele há tanto lugar no mundo...), e o presidente da federação mundial é um tiranete de uma república autónoma da Rússia. Com tudo o que este panorama tem de confrangedor, esperava-se que, pelo menos da parte dos grandes tenores do "jogo dos reis", partisse um exemplo de seriedade e voluntarismo.
O mais amargamente irónico é que o vencedor isolado do torneio foi quem mais abusou dos empates curtos e insípidos. Com duas vitórias e nenhuma derrota, Vladimir Kramnik (Rússia) apagou o seu mau resultado de Wijk aan Zee, e venceu sozinho Linares pela primeira vez, embora sem grande glória. Em segundo lugar ficaram Péter Lékó (Hungria) e Garry Kasparov (Rússia). Por uma vez, e mau grado a aversão ao "ogre de Baku", sou forçado a reconhecer que Kasparov foi dos poucos a dar mostras de uma combatividade digna da ocasião, tendo falhado várias ocasiões de vitória de forma pouco menos do que escandalosa. (Daí a dizer que Kasparov mostrou mais uma vez ser o melhor, como o fez o Infoxadrez, vai um passo gigantesco que ninguém de bom senso deveria dar. Para mostrar que era o melhor, conviria que Kasparov tivesse ganho o torneio, em vez de ser segundo ex aequo.)
Enfim, a cortina caiu, façamos das tripas coração, e deliciemo-nos com uma das gaffes de Kasparov, frente ao jovem azeri (e seu conterrâneo de Baku) Teimur Radjabov:

  a b c d e f g h  
 8   8 
 7   7 
 6   6 
 5   5 
 4   4 
 3   3 
 2   2 
 1   1 
  a b c d e f g h  

Radjabov - Kasparov, nona ronda


As negras (Kasparov) têm défice de material, mas a ameaça dos peões deveria ser decisiva. Depois do natural 55...Tb2-b1, o cavalo vai ter de se sacrificar para impedir a promoção do peão negro a dama, e a final de torres que resulta deverá ser vitoriosa para as negras. Por exemplo: 55...Tb2-b1 56.Cg1-f3 g2-g1=D+ 57.Cf3xg1 Tb1xg1 58.Ta4-d4 Tg1-e1, etc. Em vez disso, Kasparov, apesar de não estar pressionado pelo tempo, optou por 55...Tb2-f2?, o que permitiu 56.Ta4-a6+ e 57.Rc5-d4, e Radjabov salvou a pele. (Baseei-me nas anotações de Luís Santos em "A Capital", sozinho não teria arcaboiço para isto.)
Na Chessbase, recuando no tempo, poderão encontrar crónicas de Linares jornada por jornada, com a qualidade a que este site nos habituou.


Domingo, 14 Março, 2004

LANÇA EM ÁFRICA: Sofia Coppola, o simples facto de teres escrito e realizado "Lost in Translation" já te fizera granjear a minha consideração e o meu respeito, para além de um suplemento de elogios a que de muito bom grado me prestei. Ao teres mencionado o nome de Antonioni e de Godard no teu discurso de aceitação do óscar (TM, ©), essa consideração metamorfoseou-se em dedicação canina e reconhecimento eterno. Mais do que uma lança em África, tratou-se de um míssil balístico intercontinental no planeta Plutão.


JÁ VI ISTO ACONTECER NA VIDA DOS OUTROS, E AGORA ESTÁ A ACONTECER NA MINHA:

- Posso usar a tal palavra?
- Não preferes uma imagem, ou uma sugestiva atitude do corpo?
- Não é de uma pantomima que eu preciso. Preciso de fazer sentido com sílabas e labiais.
- Não preferes banhar-te duas vezes no mesmo rio, citar um poeta simbolista, cobiçar os bens do próximo?
- Gostava de ter força para ser cínica.
- Uma imagem, sabes, vale 1000 palavras. Um número redondo.
- É apenas uma palavra que me tenta.
- Talvez julgues que ela contém tudo o que te aflige ou enche de euforia. Enganas-te. A concisão não é uma virtude, é um simples atributo, como ser solteiro ou gostar de sopas de pão.
- Não é pela concisão. É uma questão de salvação.
- Não preferes conhecer-te a ti mesma? Guardar o que não tens para achar o que é preciso?
- A minha imagem seria elíptica, austera, somítica de luz.
- Ah, como a "Madalena" de La Tour?



- Por exemplo, mas não essa, antes a outra, aquela em que a chama de vela está oculta.



- A tua escolha é excelente.
- Mas gostava ainda de empregar a tal palavra.
- Ambos sabemos ser esse o vocábulo mais abusado de todos.
- Essa não é uma objecção, bem pelo contrário.
- Sabes quais serão as consequências?
- Não. Essa é a parte mais bela.
- Talvez tenhas razão. Se o pior suceder, os fragmentos hão-de caber num vulgar bolso de casaco.
- Se quiseres, podes tocar na cicatriz.
- Alguma vez te disse que gosto muito da tua dicção?




«(...)I don't see any reason for going on in the grand sense of the word but I can't help going on. For me it's a compulsion to make order out of chaos, I've spent my life doing it, and it doesn't have to do with personal material. Somewhere I'm not trying to be understood, I'm not trying to communicate to an audience. I'm just trying to make some sort of pleasurable order that will make people like me.» (Elizabeth LeCompte, 1979)



CHAMAM AO TELEFONE O SR. SABZIAN: Ontem, procurando bem, após a projecção do filme "Francisca", lá encontrei algumas pétalas ressequidas no chão da sala Luís de Pina. Portanto sempre era verdade.


Quinta, 11 Março, 2004

DA PSICOPATOLOGIA: Recentemente, A Natureza do Mal falou de um compêndio de doenças raras e bizarras, aliás tão raras e bizarras que têm mais a ver com o burlesco e com a fantasia do que com a verosimilhança médica. (Tanto melhor.) A minha preferida é, sem dúvida, a síndrome de Menard, em que o doente está convencido de ter sido o autor de obras-primas da literatura universal.
Permito-me acrescentar uma magra contribuição para este rol.

A semiomania consiste na tendência para ver símbolos e prenúncios em tudo o que é objecto, facto e atitude. O doente converte-se, para consternação daqueles que lhe estão próximos, numa mistura de vidente, discípulo de Saussure e prognosticador de almanaque. Para o infeliz que é acometido por este mal, qualquer frase está pejada de segundas intenções, a mais inocente peça de mobiliário urbano aparece como um foco de tenebrosas presciências, a menos improvável conjunção de eventos conota uma realidade extraordinária e oculta. Os falsos significados que o doente julga decifrar na lisura do mundo tanto podem corroborar os seus medos profundos como encorajar as suas esperanças mais loucas. Em qualquer dos casos, a alienação rápida e irreversível é um desfecho inevitável. Não é comum que os indivíduos com esta síndrome representem um perigo para a sociedade.

O perfeccionismo citatório compulsivo consiste num impulso para encontrar a citação adequada para responder à letra a alguém, ou para ilustrar um estado de coisas (possivelmente carregado de melancolia). É este um impulso amplamente disseminado pela população em geral, mas que atinge extremos preocupantes em indivíduos que sofrem de PCC, a ponto de esquecer a necessidade de se alimentar, de dormir e de socializar. Por exemplo, o doente pode passar dias a fio até deparar com versos como estes (de Delmore Schwartz):

The unfed hope, the unfed animal,
Being the servant of incredible assumption,
Being to my own heart merely a serf.


Ainda que estes versos cumpram com poderosa eficácia o fim em vista, o doente perderá ainda tempo e energia infindáveis até que o acaso o coloque perante estoutros versos (de John Berryman):

From undergrowth & over odd birds call
and who would starv'd so survive? God save the King.


O perfeccionismo citatório compulsivo é benigno na esmagadora maioria dos casos. É de modo espontâneo, e graças à experiência acumulada, que o doente se apercebe da inutilidade das suas canseiras. A citação nunca é um objectivo em si, mas apenas um estranho meio para um estranhíssimo fim.


DA VACUIDADE: Não, este ano não falei ainda dos óscares (TM, ©, e tudo o resto). As detestáveis estatuetas, e todo o estadão que as rodeia, merecem ao mesmo tempo o silêncio absoluto e o vilipêndio mais loquaz; na impossibilidade de conciliar estes dois extremos, opte-se por um post conciso, mais para dar exercício aos músculos da derisão do que para qualquer outra coisa. Não sei o que mais me repugna nos óscares: se a auto-satisfação complacente, se a pompa, se a previsibilidade das nomeações, se os vestidos e maquilhagens (que se diriam estudados por um batalhão de doutores ès iconoclasmo para desfear as mulheres), se a atenção subserviente e embevecida que os media internacionais lhe consagram. O palmarés deste ano teve a vantagem de deixar claras as intenções e as linhas estéticas com que se cose a Academia: ganhou o produto industrial, ganhou o blockbuster, 11 em 11. Que mais seria de esperar de prémios que são atribuídos pela indústria à própria indústria? As grandes locomotivas, os grandes fazedores de dinheiro, têm de ser recompensados de alguma maneira. A gratidão é uma coisa bonita.
Na noite da entrega dos óscares, fez-se história do cinema. Mas não necessariamente em Los Angeles. Antes em Buenos Aires, na Palestina, em Teerão, em Taiwan, na Finlândia, em França, e em todos os lugares onde se reunem e trabalham mulheres e homens que acreditam na imagem em movimento como meio de expressão artística e pessoal, e que partilham a convicção de que existe vida para lá do entretenimento e da fancaria descartável que povoa noventa e tantos por cento das salas do mundo.
Há cerca de um ano, quando surgiu o 1bsk, eu hesitava antes de formular proposições da forma "O verdadeiro cinema é...". Com o tempo, as hesitações diluíram-se. Definir gostos e ideias pessoais sobre uma arte tem de equivaler a balizar aquilo que, no entender de quem se pronuncia, essa arte deve ser. A tolerância pelas maneiras de ver alheias não se deve confundir com a aceitação de que não existem escalas de valores. O cinema é importante. A poesia é importante. A música é importante. A ficção é importante. A pintura é importante. O cinema que eu amo é íntegro, pessoal, intenso, ousado, grave, fulgurante, e não pactua com a mediocridade. E nada tem a ver com bonecos de metal distribuídos a tarefeiros que não merecem sequer atar os atacadores dos sapatos de Jean Vigo.
E foi este o meu post conciso.


Quarta, 10 Março, 2004

IDEIA PARA UM ROMANCE:

Capítulo 1: A rapariga está sentada numa esplanada. O tempo ameaça chuva. Um cavalheiro passa pela sua mesa, e desvia o olhar de maneira pouco natural. A rapariga tem o amante embarcado, algures no mar de Barents, e nenhum dos seus pretendentes a consegue fazer esquecer aqueles olhos simpáticos e aquelas feições perfeitas. A rapariga suspira. Um encontro de extrema importância está marcado para o Padrão dos Descobrimentos, junto ao Infante Dom Henrique. O grande sonho da rapariga seria poder apertar a mão ao famoso pianista Radu Lupu. Deverá resignar-se a nunca poder fazê-lo? Procura com o olhar o empregado. Na mão direita, na estranha mão direita, uma nota de 5 euros.

Capítulo 2: A rapariga está sentada numa esplanada. Um cavalheiro aborda-a para lhe perguntar as horas, apesar de ostentar no pulso um relógio que funciona bem, como o comprova o tiquetaque bem audível. O grande sonho da rapariga seria poder apertar a mão ao famoso pianista Alfred Brendel. As primeiras gotas de chuva tombam, parecendo relutantes. A rapariga recebe o troco, e levanta-se.

Capítulo 3: A maneira mais rápida de se dirigir ao Padrão dos Descobrimentos é usando os transportes públicos. A rapariga compreende que foi enganada no troco. A rapariga suspira. O seu grande sonho seria poder apertar a mão à famosa pianista Martha Argerich, mas sabe que se deve resignar a nunca o fazer. O seu amante passou a noite no mar do Norte. Faz-se tarde. Mas é ainda é cedo para o seu encontro. Um homem pergunta-lhe as horas. O homem tem ar de ser um cavalheiro. A rapariga sorri e revela o nome. Não chove, dentro do comboio. Um ucraniano de olhos simpáticos, feições perfeitas, volta-se para trás como se alguém o perseguisse desde a sua Ucrânia natal.

Capítulo 4: A rapariga surpreende-se mais com coisas banais (um pacote de amendoins partilhado por dois estudantes de liceu) do que com um homem que rasga notas de 5 euros nas escadarias do metro. A rapariga apercebe-se de que o seu relógio deixou de funcionar. O homem rasga as notas no sentido da largura, uma a seguir à outra, mas nunca se desinteressa pela sorte dos fragmentos esvoaçantes. Chove no golfo da Biscaia, chuva compacta e morosa.

Capítulo 5: «Se pelo menos um dos meus pretendentes fosse dono de um sorriso como o daquele estudante de belas-artes...» A rapariga recorda os seus anos de formação. Cada trimestre é simbolizado por um objecto, quase sempre um utensílio. A rapariga faz questão em manter-se fiel. Tudo a comove, até mesmo um reclame do Bollycao. Dissertação sobre a composição da sociedade portuguesa nos primeiros anos dos descobrimentos, e sobre as complexas relações de forças que tornaram possível e fizeram perdurar o empreendimento (20 páginas).

Capítulo 6: A pessoa não aparece ao encontro. A rapariga sente-se tentada a romper com aquela vida, a deixar para trás aquilo tudo, mas faz um esforço para pensar apenas nos dedos delgados e ágeis do famoso pianista Maurizio Pollini. Passam dois ucranianos, conversando em ucraniano. A rapariga vive com a mãe. Pretende enveredar pela carreira de enfermagem. Não gosta de animais. Faz anos num feriado nacional. Pratica tiro com arco. Faz amizades com muita facilidade. Gasta quantias consideráveis em produtos para a pele. Nos poemas que escreve, o motivo da porta que se fecha é repetido incessantemente.

Capítulo 7: O cabo Finisterra é, por fim, dobrado.

Capítulo 8: A rapariga dirige-se ao porto de Lisboa. Paga o táxi com uma nota de 5 euros. Pensa naquilo em que se teria transformado a sua vida, se aquilo que esteve para acontecer tivesse acontecido. Enquanto espera, pensa no CD da serenata ao luar que comprou, e que guardou no bolso do casaco. Guardou-o no bolso do casaco porque não traz consigo a mala.


LA VOXXE DELLA LUNA: Voxx e Luna, dois nomes que poderiam ter sido retirados de um título de Fellini, e que designavam (pretérito doloroso, para além de imperfeito) duas das rádios mais originais e audíveis da região de Lisboa. Outros blogs já assinalaram o evento, pelo que serei sucinto, evitando chover no molhado. Abstenho-me, por simples desconhecimento de causa, de emitir considerações de índole económica, ou relativas ao suposto filistinismo de Luís Nobre Guedes. Limito-me a assinalar, e a lamentar. Arriscando-me a pecar por excesso de optimismo, não vejo neste duplo desaparecimento um sinal dos tempos, do declínio irremediável dos gostos, de uma vulgarização e uniformização galopantes. Estou convencido de que projectos alternativos deste tipo são viáveis, e que será apenas uma questão de tempo até que alguém decida investir tempo, esforço e dinheiro para reconquistar os ouvintes deixados órfãos pela Luna e pela Voxx.
Onde encontrar propostas diferentes, e um mínimo de ousadia na programação, no espectro FM da Grande Lisboa, hoje em dia? Há a Antena 2, a Radar, e, bem entendido, a RPL. É possível que existam outras. Sou ouvinte pouco assíduo e pouco aventureiro. Mas as rápidas amostragens que efectuo, de vez em quando, não são de molde a sugerir oásis escondidos.


CANTAM AS NOSSAS ALMAS: Que giro, mais um dos meus blogs preferidos fez um ano. Foi também em Março marçagão que a Memória foi inventada. O Ivan e os seus apaniguados souberam criar um espaço sedutor e infalivelmente original, rico em vinhetas ficcionais e saborosas anedotas urbanas; um espaço único, mas que não cai no erro de querer ser diferente a todo o custo; um espaço que fornece argumentos àqueles que vêem nos blogs um meio com possibilidades expressivas diferentes de tudo o que os precedeu.
(Para assinalar esta efeméride, e para agradecer a homenagem cromática do cabeçalho do Memória, uma foto clicável da Grande Maçã ocupará temporariamente o lugar do pé dos Monty Python, no canto superior direito.)


Segunda, 8 Março, 2004

VERSOS PORQUE SIM:

ESTOS PENÚLTIMOS DÍAS

   Los penúltimos días están llenos de luz
aún, y quiero retornar, de los ojos del niño
que murió, los pájaros aquellos:
los que siguen cantando en estos pájaros.
Llevo en mi mano un cuenco de cenizas,
son escasas.
      Su levedad tan pura es un misterio.
Me queda un tiempo breve
desde el que amar aún lo que no he comprendido:
lo eterno, revelado por la felicidad,
o la estéril razón de la existencia.

(Francisco Brines, in "La última costa")




OS SEUS EGRÉGIOS AVÓS: Na sua fascinante entrevista ao "DNA", o Grande Bragança menciona displicentemente o facto de contar entre os seus ascendentes nada menos do que o rei David (esse mesmo, o dos salmos) e o profeta Maomé. A imaginação não foi a ponto de estender a sua linhagem até Viriato, Buda, São João Baptista, Ptolomeu, Homero, Tutankhamon e o Prestes João. Não haja dúvida que a genealogia é uma arte completa.


OS MEUS 5 FILMES PREFERIDOS DE JEAN-LUC GODARD: Esta é difícil; mas, se fôssemos do género de recuar perante as dificuldades, já há muito teríamos organizado o nosso piquenique de despedida, com muito queijo Camembert e garrafas de litro e meio de cidra.
A ordem é a cronológica.
  • Bande à Part (1964)
  • Pierrot le Fou (1965)
  • La Chinoise (1967)
  • Passion (1982)
  • Nouvelle Vague (1990)



APELO ÀS MASSAS: O filme "Close Up" repete na quinta-feira, às 19h30. Cinéfilos de Lisboa e Vale do Tejo, bute encher a sala Luís de Pina!


Domingo, 7 Março, 2004

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: No filme "American Splendor", a personagem Harvey Pekar está sentada a uma mesa de restaurante, e, antes de começar a discutir com a mulher, vê-se distintamente que está a ler um livro de Katherine Mansfield. Esta observação não vale pontos de bónus, por se tratar de um filme, mas qualquer leitura de Katherine Mansfield justifica menção e aplauso.


O DIREITO AO DISPARATE: Calhou não comprar esta semana o "DN" de sexta, o que foi providencial, pois evitei assim a tentação de dedicar à entrevista de Duarte de Bragança (sem o "Dom", que já deveria ter tido como destino o cesto de papéis da história) no "DNA" mais tempo do que ela merecia. Acabei por me limitar a folhear um exemplar alheio, e dois minutos de leitura em diagonal foram mais frutuosos em asneiras e falácias do que eu me permitiria esperar nos meus prognósticos mais fantasistas. É tarefa espinhosa isolar uma única resposta do nosso monarca sem coroa que não esteja eivada de erros de raciocínio, generalizações apressadas e tendenciosas e/ou (mais amiúde "e" do que "ou") distorções da história. Ele é o cidadão Bragança que critica o euro (como se Portugal tivesse alternativa credível à adesão à moeda única), ele é o cidadão Bragança que deplora o atraso acumulado por Portugal desde 1910 (como se uma grande fatia desse período não tivesse sido ocupada com ditadura e estado novo, como se os avanços sociais e económicos desde 1974 não tivessem sido extremamente significativos), ele é o cidadão Bragança que leva o seu requinte asinino ao ponto de dizer que o 5 de Outubro e o 25 de Abril "não serviram para nada". Com franqueza, penso que a causa monárquica ficaria mais bem servida (dentro dos limites inerentes à sua fragilidade intrínseca) por alguém com outra envergadura e outra acutilância argumentativa - já para não falar de se tratar do indivíduo menos insuspeito de Portugal para nos falar dos benefícios de termos um rei. Continue o cidadão Bragança a julgar-se no direito e no dever de cultivar uma responsabilidade "superior" perante Portugal. O país não agradece nem se eriça: ignora, simplesmente.


CINEMA: "Close Up", de Abbas Kiarostami.
Muito bem. O tal filme. Aquilo. Ora bem. Pois seja. Aquele filme que. Pois então. Faça-se assim. O tal. Aquele que a dada altura. O filme em que. Isto.
"Close Up" é antes de mais um poderoso desmentido àqueles que pouco mais querem ver em Kiarostami do que um herdeiro de um naturalismo rosselliniano em versão terceiro-mundista, cujos trunfos mais graúdos se limitariam à linearidade, à pureza e ao "olhar justo" (noção ilusória por excelência). "Close Up" é um dos filmes mais sofisticados que conheço, e os diversíssimos níveis em que se esplana só ao fim de vários visionamentos se prestam a ser sondados e explorados. E, no entanto, é também um filme com um impacto imediato de uma potência devastadora. Ninguém, como Kiarostami, soube criar um léxico da grandeza e miséria humanas, que se manifesta em momentos isolados no tempo fílmico, perfeitamente determinados, sem pompa mas também sem tibieza. Estes momentos (estou a pensar na flor no caderno escolar em "Onde Fica a Casa do Meu Amigo?", no cágado em "O Vento Levar-nos-á") funcionam como penhor e saturação de um conteúdo emocional tão diluído na temporalidade serena do filme que poderia escapar a um visionamento menos atento. Do mesmo modo, em "Close Up", duas singularidades do mesmo género fazem um elo entre o princípio e o fim do filme, entre o tempo do fait-divers ficcionalizado e o tempo da vida real: as flores, em princípio de decomposição, que o taxista recolhe do monte do lixo podem (ou não) ser as mesmas que Sabzian oferecerá ao dono da casa, no fim do filme, à guisa de presente de reconciliação por se ter feito passar por um famoso cineasta, enganando toda uma família. O tempo do evento inicial, da sua reconstituição e da filmagem disputam-se a primazia, subordinam-se mutuamente, anulando a legitimidade de qualquer ponto de referência que se desejasse, levianamente, estabelecer. A suposta "linearidade" do modus operandi kiarostamiano voa em estilhaços, substituída por uma assombrosa polifonia da natureza humana. Kiarostami oferece-nos, como estratos de uma única realidade, a intenção, a consequência, a aspiração, as peripécias, o remorso, a dignidade, a história, o ponto de vista, mas abstém-se de privilegiar um itinerário através desta realidade. A única maneira de fazer jus à pessoa que se esconde por detrás da anedota é navegar transversalmente todos estes estratos, esforçar-se por abarcar a sua inconcebível profusão.
O mais inquietante, e ao mesmo tempo o mais grandioso, é o modo como Kiarostami está consciente da necessidade de, para dar conta da manipulação do senhor Sabzian, operar uma manipulação ainda maior. A aparente transparência dos seus métodos (o close-up e a câmara de grande angular, na sala de tribunal, devidamente explicados e anunciados) esconde uma perversidade a que nenhum cineasta honesto se entrega sem amargura. Tudo se passa como se Kiarostami soubesse ser ele o único participante do filme que compreende quão sublime é o que está em jogo, e a enormidade dos meios que foi preciso empregar para cumprir o (aparentemente simples) desejo de Sabzian: contar ao mundo a miséria da sua vida. Cinema do tamanho do Homem, mas plenamente consciente de que mostrar não basta, e que a veleidade de dar a palavra a alguém de nada serve sem a consciência dos artefactos envolvidos, da técnica, das relações de poder.


Sábado, 6 Março, 2004

ISTO ANDA TUDO LIGADO:

1 - O sumo de romã nas páginas de Apollinaire está ligado ao coreto da Praça José Fontana.
2 - Um quadro de Vieira da Silva está ligado a uma inexplicável apreensão que se apodera de três em cada quatro cidadãos lisboetas.
3 - A geladaria da Avenida João XXI onde agora existe uma loja de produtos dietéticos está ligada ao tempo.
4 - Os pregões dos cauteleiros estão ligados ao facto de o dia do mês ser número primo ou não.
5 - A marca de água das notas de 20 escudos do Santo António está ligada aos operadores de telemarketing que nos telefonam para casa para vender ADSL.
6 - As dimensões do relvado do estádio da Reboleira dependem do diâmetro de um Malteser, segundo uma relação matemática muito simples.
7 - Oblog existe para ligar as coisas. Faz parte do seu caderno de encargos. A sua longevidade exprime-se em elos, arames, fios de saliva. A associação, a justaposição, a analogia, são ferramentas e são paupérrimos substitutos para autênticos fenómenos do Mundo.


HOW GREEN WAS MYBLOG: Blog em forma de arma branca, blog com cabo e gume. Blog que se cavalga, que solta imprecações em uivos meio mastigados, que dorme de dia para tremer de vergonha de noite. Tudo aquilo que se queira, menos aquilo que se exprime por palavras. Blog que escorre e coalha, blog de ventre brilhante, de montante em riste. Aqui trabalha-se para a autodestruição, aqui não se brinca em serviço. Blog deixado em jejum durante 40 dias e 40 noites, e depois largado na arena, lobo de si mesmo a tempo inteiro. Denunciem-se aqueles que disfarçam o mundo de algo que não seja luta. Ah, oh, blog que assobia melodias de romaria num cemitério, que come os restos do dia anterior temperados com a estupidez da esperança. Sete vidas, ferradura para dar sorte, boca para ir a Roma, e todo o proveito de um pacto com Mefistófeles, sem as obrigações. Blog cantado e coscuvilhado, fendido e manietado com pinças e fórceps ferrugentos. Blog em forma de pedestal demasiado largo.


QUEM PINGA QUER CASA: As Torneiras de Freud entregam-se a uma migração interdomiciliária que enche de perplexidade a blogosfera. Para fazer de uma história longa uma história curta, a morada antiga foi reocupada, e a morada nova foi abandonada. Queridas torneiras, não sobrestimem aquilo de que são capazes os vossos leitores: recolher pingos de boa água da EPAL que brotam de dois pontos do ciberespaço tão distantes entre si não está ao alcance de todos. O estado virtual terá o seu encanto quando aplicado a gatos de Schrödinger, mas os riscos existem, e basta recordar algumas personagens de Rohmer (Pascale Ogier em "Les Nuits de la Pleine Lune", Anne Teyssèdre em "Conte de Printemps", que também se encontraram entre uma casa e outra) para aprender que esses não são riscos de magnitude modesta. O lado positivo da coisa é que a possibilidade de continuar a par das vossas doudices justifica todos os sacrifícios, incluindo o recrutamento de um detective privado de um romance "hard-boiled" dos anos 40.


fotografia de Véronique Ellena


O CHEFE RECOMENDA: Uma excelente exposição de fotografia, na Culturgest: "Douce France, Imagens de França na Colecção da Caisse des Dépôts et Consignations".
«A Caisse des Dépôts et Consignations é uma instituição pública francesa, criada em 1816, que tem por missão fundamental a gestão e salvaguarda dos fundos privados que, por decisão do Estado, beneficiam de protecção especial. A instituição coloca estes fundos ao serviço do interesse geral e do desenvolvimento económico e social do país.» (extracto do programa da exposição).
Achei particularmente fascinantes as propostas de Véronique Ellena, entre crónica do quotidiano e subversão subtil da banalidade consumista, com o seu quê de celebratório.


Quinta, 4 Março, 2004

A FLOR DO ÉTER: Eu não queria reincidir, mas eles é que começaram. Mais 10,000 Maniacs na Radar FM. Só música dos anos 80 de segunda a sexta, das 22h às 24h.
Natalie Merchant (sem "h") possui uma daquelas vozes que chega para justificar a invenção do fonógrafo.


OS DOCES DA IO: Qualificar como "pedrada no charco" a publicação na blogosfera da receita dos bolos de arroz da Io Apolloni pecará, talvez, por exagero; mas que esta nobre e desinteressada acção permitiu esclarecer muita coisa que até aqui permanecia mergulhada no breu do mistério, lá isso permitiu.
Resta-me acrescentar que Io Apolloni nasceu em Roma, e que entrou em filmes com Joselito e Tony de Matos. Dificilmente um começo de carreira dramática pode ser menos auspicioso, a não ser que o actor em questão participe também numa revista chamada "Sopa no Mel", e infelizmente foi precisamente isso que sucedeu no caso de Io. Mais tarde, felizmente, ganhou respeitabilidade enquanto actriz. Com os bolos de arroz, eis que a redenção fica completa.


HEDONISMO SFF: Hoje almocei um esplêndido Bacalhau à Lagareiro!


PROFETA NA SUA TERRA: A Voz do Deserto cumpriu hoje um ano. A melhor maneira que encontro de assinalar o evento é repescar um dos seus posts antigos (28/11), dos meus preferidos dos últimos 12 meses de blogosfera:

Entrei resoluto na Worten e disse
Era um DVD do Johnny Cash, por favor.




Quarta, 3 Março, 2004

«A performance work was like a trope for the organized world outside the individual. If the audience could penetrate a performance and make a collaborative determination of their mutual situation, that could become a praxis for seeing a political situation.(...) What would happen normally in that period is that they would absorb a sense of our sensitivity, attentiveness, and trust with one another and begin to build their own risks out of that, incorporating our work because they needed it and wanted it and because the other kind of blind, hostile, unrelational reaction wasn't possible anymore.»(Carolee Schneemann, 1979)


REVISTA DE BLOGS IMAGINÁRIOS:

  • O Volta Groucho Tás Perdoado adopta um ponto de vista original para abordar a importância histórica do Aqueduto das Águas Livres no desenvolvimento da cidade de Lisboa.
  • O Ditadura do Proletariado explica por que é preciso cuidado quando se ferve água no micro-ondas.
  • O Caçador Com Gato e Sem Cão esteve a escutar a banda sonora do filme "O Exorcista" de trás para a frente, e diz ter descoberto 3 mensagens ocultas.
  • No Engenheiro António Manuel Coelho dos Santos, prevalece a opinião de que mais vale um coração empedernido do que uma generosidade aparentemente viva e pródiga, mas que se revela volátil a longo prazo.
  • No Mikmik, atribui-se mais valor àquilo que cada um pode fazer pela cidade de Lisboa do que àquilo que a cidade de Lisboa pode fazer por cada um.
  • O Nada Me Prende a Nada acende a luz da sala.
  • No A Gente Somos de Vila Velha de Ródão, discute-se política local, regional, nacional, europeia e global, ao que se seguem 10 posts sobre a cintura de asteróides.
  • No Estado das Loisas, o debate sobre premissas e planos de acção é intercalado por piadas sobre informáticos e engenheiros.
  • O Infinito às Rodelas tem uma teoria sobre a reforma da Justiça, mas só a revela a quem enviar um bilhete postal ilustrado.



COMO DIRIA KLEIST...: Daqui envio um agradecimento, fleumático mas convicto, a todos aqueles que tiveram a amabilidade de nos parabemizar, por ocasião do primeiro aniversário deste e-pasquim. As vossas palavras funcionam como grãos de areia na maléfica e perversa engrenagem que ameaça aniquilar a civilização. Bem hajam por isso. Que mais dizer? Nas encruzilhadas das vossas vidas, façam sempre aquilo que Kleist faria no vosso lugar. (Excepto aquela peregrina ideia do pacto suicida.) A isto se resume a nossa mensagem.


FELIPE E LETIZIA NO MUSEU DE CERA: O príncipe e a sua "novia", valha a verdade, já pouco tinham a ver com a esfera do real, com o mundo das coisas dotadas de massa e espessura: cadeiras, garfos, autocarros, serrotes, pacotes de Chocapic. Da virtualidade ao museu, a distância é bem mais curta do que se possa pensar. Felipe e Letizia são a sua própria efígie, a sua própria sublimação, a sua própria máscara num baile frívolo, mas mediatizado até à exaustão, que se desenrola em permanência nas monarquias europeias.


ANOS OITENTA PARA SEMPRE: Sintonizar a Radar FM e topar com "Duel", dos Propaganda (uma das mais fabulosas canções dos anos 80), é daquelas experiências comparáveis à degustação de uma iguaria rica em sabor e em textura, como por exemplo um fruto exótico no grau exacto de maturidade.
Não contentes com isto, os senhores da Radar alinharam em seguida Smiths ("Please, Please, Please Let Me Get What I Want") e 10,000 Maniacs ("Don't Talk").
É de momentos como este que depende a sanidade mental de um cidadão, e, por arrasto, toda a coesão das instituições republicanas.


Segunda, 1 Março, 2004

RUBRICAS PARA OS PRÓXIMOS MESES: E que me roubem os meus cavalos, e me confisquem o meu passaporte, se eu não cumprir o compromisso.
  • RETRATOS DE POETAS: o nome diz tudo
  • PEDRA PAPEL TESOURA: uma crónica semanal, dura de roer, envolvente e cortante
  • A ENCICLOPÉDIA DE ABERTURAS DE XADREZ DO 1BSK: para principiantes, jogadores de clube e mestres confirmados; segundo um método inovador patenteado
  • FICHAS DE COZINHA ITALIANA: tudo aquilo que você nunca quis saber mas fartava-se de perguntar
  • OS FILMES DA MINHA VIDA: narcisismo e celulóide
  • OS LIVROS DA MINHA VIDA: a mesma coisa que os filmes da minha vida, mas com livros em vez de filmes
  • O CÉPTICO VERDE-ALFACE: dedo apontado à pseudociência e ao obscurantismo
  • FIGURAS DA PRIMEIRA REPÚBLICA: este também é autoexplicativo
Teorias de conspiração, elos entre eventos improváveis e desabafos avulsos nunca deixarão de estar na ordem do dia.


HEUREUX ANNIVERSAIRE...: Faz hoje um ano que nasceu o 1bsk, na sequência de um insulto, e ao som dos Jethro Tull. Balanços para quê? O 1bsk é uma quotidiana reinvenção das suas razões de ser e das suas limitações. Não existe desiderato nem Santo Graal, mas apenas a perplexidade do instante, que é simultaneamente motor, solução de continuidade e ponto de ebulição. E um duvidoso cumprir de missão equivaleria à própria aniquilação doblog.
Balanços para quê? A única "mensagem" que as circunstâncias impõem será o agradecimento, caloroso e sincero, a todos aqueles que nos visitam, movidos pela fidelidade ou por uma ociosa decisão do momento. Obrigado.
Balanços para quê? Enunciem-se, isso sim, as 10 obsessões que nos movem (ou que ajudam a olear a engrenagem), então como agora. A lista é oficial, e aprovada pelo colectivo.
  • "India Song"
  • Bolos de arroz (sem esquecer a tira de papel)
  • A estátua do Actor Taborda, no Jardim da Estrela
  • Eurico de Barros, Luís Delgado e outros cronistas de que não gosto
  • Demis Roussos
  • A "Pentesileia" de Kleist
  • A Terceira República francesa, especialmente as leis sobre a escola laica e as campanhas de alfabetização, e figuras como Jules Ferry e Léon Gambetta
  • A columbofilia
  • A actriz Emmanuelle Devos
  • Cinema francês (existencialista e intelectual, de preferência)



É A CONFEITARIA, ESTÚPIDO!: Apenas 7 bolos de arroz no bar da Faculdade de Ciências, e isto em pleno período de aulas. São tempos de penúria, estes que atravessamos.


EM LOUVOR DA IMPRENSA QUADRIENAL: O meu amor pelos anos bissextos é cousa bem débil, quando comparado com a dedicação à causa destes cavalheiros franceses que editam um jornal que sai apenas de de quatro em quatro anos, sempre a 29 de Fevereiro, chamado "La Bougie du Sapeur". Neste ano de 2004, por calhar a um domingo, o jornal saiu acompanhado por um suplemento dominical, ao qual não faltam as palavras cruzadas.
Esta iniciativa, entre sátira e canular, digna da pátria da "'Pataphysique" e do Oulipo, merece o nosso mais veemente aplauso, e só nos faz lamentar ter de esperar até 2008 para que o próximo número chegue aos quiosques. Uma assinatura por 10 números seria uma opção viável. Tudo depende da esperança de vida de cada um.