Heinrich von Kleist (1777-1811)Liberté Egalité FraternitéNo tabuleiro de xadrez, as mentiras e a hipocrisia não duram muito (Em. Lasker)Monty Python forever!

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novembro 2003

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Domingo, 30 Novembro, 2003

DÁDIVA: A propósito da canção "What power art thou", do "King Arthur" de Purcell, escutada na Rádio Luna. Em momentos como este, chegamos a acreditar que nenhum preço é demasiado elevado para tamanha dádiva; e que vale a pena tudo suportar, incluindo a mesquinhez e a velhacaria, incluindo os resfolegares do Gilberto Madaíl e as nasalizações da Teresa Guilherme. Pensemos numa balança de pratos. Imaginemos que, num dos pratos, se vão amontoando fragmentos do que de sujo, baço, vão, arrogante, rasca, falso e hediondo existe no mundo; será preciso meter muita coisa, serão precisas largas e numerosas pazadas, para fazer descer o prato, se do outro lado estiver Purcell.
Aqui estão os versos respectivos, de John Dryden:

What power art thou, who from below
Hast made me rise unwillingly and slow
From beds of everlasting snow?
See'st thou not how stiff and wondrous old
Far unfit to bear the bitter cold,
I can scarcely move or draw my breath?
Let me, let me freeze again to death.





FOI VOCÊ QUE PEDIU UM CONFLITO INSTITUCIONAL?: Eis as declarações do presidente Jorge Sampaio que eriçaram os ânimos dos entusiastas da revisão constitucional:

«Ninguém ganha com o frenesim da revisão constitucional, ou seja, com a obstinação em rever a Constituição de tantos em tantos anos, como se isso fosse uma obrigação inescapável, mesmo sem necessidade ideológica.»

«A permanente instabilidade e mutação constitucional degrada inevitavelmente a Constituição e mina a sua força normativa. (...) Já promulguei duas leis de revisão e interrogo-me quantas mais serei obrigado a promulgar.»


O que há aqui de tendencioso, inoportuno ou ideológico? Eu não vejo nestas palavras senão um natural sentido de Estado e uma salutar preocupação perante um fenómeno de crucial relevância para o país, condimentado por uma generosa dose de bom senso. Entende-se que frases como estas contrariem Telmo Correia e seus pares: o espernear revisionista é das poucas armas de que o PP dispõe para provar que existe e que pesa na maioria, para imprimir o seu cunho na agenda política nacional, para, enfim, arremessar alguns bombons ao seu eleitorado tradicional. Mais não fazem do que o seu papel, e fazem-no com um brio merecedor de aplauso. Já invocar a separação de poderes para criticar uma posição presidencial que nada teve de acintoso nem de prepotente acaba, francamente, por soar a falso.


FOSSEM TODOS OS LAPSOS ASSIM...: Ao que parece, na abertura da final da Taça Davis, a banda australiana tocou o hino da república espanhola, dos anos 30, em vez do actual hino do reino. Malícia ou deslize, este evento elevou a uma gloriosa potência a consideração que eu tinha pela terra dos cangurus. O próximo passo, aproveitando o balanço, seria o corte definitivo do cordão umbilical com a Inglaterra. Vá lá. Aliviem o fardo da rainha Isabel. Ousem transformar-se numa nação a tempo inteiro.


REFLEXOS ANTIGOS: Fiz algo que não fazia há bastante tempo: comprei os "Cahiers du Cinéma". Por não ser dado ao masoquismo, costumo pensar duas ou mais vezes antes de despender 6 euros para ler sobre filmes que, na sua maior parte, não terei ocasião de ver. O pretexto, desta vez, foi uma capa dedicada ao novo filme de Rivette. Na contracapa, insuflando um novo significado à expressão "duas faces da mesma moeda", um anúncio da L'Oréal sugere-me que ouse o brilho holográfico do novo bâton líquido "Glam Shine". Já fui posto perante tentações mais difíceis de resistir.
Pude confirmar, com agrado, que o nível da revista se mantém elevado. Mesmo uma colossal dose de severidade na apreciação nunca permitiria descer abaixo do "Satisfaz +". Se é certo que a evolução do grafismo e da paginação nos últimos anos dos "Cahiers" me têm deixado reticente, se é certo que algumas opções editoriais me parecem fortemente contestáveis, é inegável que a qualidade dos textos permanece o principal trunfo. Mais do que uma simples questão de prosa ou de penetração crítica, o leitor apercebe-se rapidamente estar perante um espaço onde se pensa o cinema e o fenómeno da apreensão das imagens, a partir de um punhado de ideias fundadoras. Mais do que mera recensão, ou expressão de um gosto pessoal, cada artigo reflecte uma concepção de cinema enquanto arte/processo dotado das suas especificidades e potencialidades. Em suma: faz-se crítica entendida no sentido autêntico do termo, e não a sua pálida e desleixada imitação, que nos impingem quotidianamente em jornais e revistas, generalistas ou da especialidade.


NEGAÇÃO DO POST ANTERIOR: O papel do portador de um segredo é o mais ingrato do mundo. O segredo propriamente dito não passa de um mero serviço mínimo, sem qualquer mérito associado. Tudo o resto, cenário e sinalética, fachadas e relances, propósito e significado, exige uma dedicação que transborda das semanas de vida que a tentam conter.


Sexta, 28 Novembro, 2003

DA DIFERENÇA ENTRE UM SEGREDO E UM SANTO-E-SENHA: O papel mais fácil do mundo é o do portador de um segredo. Apenas o próprio segredo é requerido, oculto dos demais por definição, jamais passível de fiscalização. Tudo o resto, suores frios, olhar oblíquo, opressiva auto-censura, surge por arrasto.


ULTRAJE À ORDEM NATURAL DAS COISAS!: Sou um indivíduo que já viu uma ou duas coisas neste mundo, incluindo um homem, dentro de um cesto do lixo, em pleno centro de Cambridge, a cantar uma canção da Nelly Furtado e a acompanhar-se a si mesmo em guitarra. Mas mesmo o cidadão mais vivido nunca está livre das capciosas investidas do bizarro, do inusitado, da perversão das hierarquias disfarçada de malfeitor que surge por detrás de uma qualquer esquina mal iluminada.
Fim do preâmbulo.
No "Público" de 23 do 11, página 46, uma observação atenta do problema de xadrez revela que uma das torres brancas tem uma ameia a menos. Ao constatar o facto, senti como se toda a estrutura simbólica imanente ao tabuleiro de 8x8 (sim! sim!) irrompesse num saussureano canto tirolês. Esta maleita do significante é mais perigosa para a ordem pública do que a falta de polícia nas ruas. Como resistir à nostalgia antecipada de um mundo em que as pessoas dizem bom dia umas às outras, em que as paredes estão sempre impecavelmente caiadas de branco, e em que «a lei pode definir sectores básicos nos quais seja vedada a actividade às empresas privadas e a outras entidades da mesma natureza» (artigo 86º, nº 3)?



O SEU A SEU DONO: Devo ao utilitário EPD2diag a possibilidade de apresentar magníficos diagramas de xadrez como o de ontem. Este utilitário, cujas possibilidades ainda mal explorei, foi concebido por Manfred Rosenboom e colaboradores, e está disponível gratuitamente aqui.
A talhe de foice, permitam-me também que recomende a página do clube de xadrez dinamarquês "En Passant", que foi onde descobri este utilitário, e que disponibiliza uma impressionante miríade de enlaces para aplicações xadrezísticas freeware ou shareware, para diversos fins.


FIM DA SAFRA: O Espigas ao Vento anunciou o seu próprio fim. Esta notícia surpreendeu-me (pois o blog acabara precisamente de migrar para um novo servidor, o que não costuma prenunciar um arrumar de botas), e entristeceu-me. Para além de ser um espaço onde se escrevia, e bem, sobre cinema, com paixão e dedicação evidentes, o Espigas fazia parte daquele pequeno núcleo duro de blogs que eu acompanhei desde os primeiros tempos de blogonauta, e que inclui também o BdE, a Memória Inventada, a Janela Indiscreta, a Voz do Deserto e o Nocturno 76.
Daqui envio ao Nuno os meus votos de muito sucesso para os seus projectos futuros. Isto partindo do princípio que esta sua escolha não é sujeita a reconsideração...


Quinta, 27 Novembro, 2003

FLUXOS MIGRATÓRIOS: O Blogue de Esquerda mudou de poiso, de nome, de versão e de visual. Não contente com isso, recrutou novos valores para a sua equipa redactorial. O BdE foi um dos factores que incentivou o nascimento deste espaço sempreverde. O colectivo do 1bsk deseja as maiores felicidades para o BdE nesta sua nova etapa, e que este seu novo nicho lhe seja auspicioso.


MITOS FUNDADORES DOBLOG: A explicação do nome da América é muito mais simples. É o nome do continente.


MITOS FUNDADORES DOBLOG:

EXPLICAÇÃO DO NOME DO PONZIANI:

Domenico Lorenzo Ponziani (1719-1796) foi um professor de direito e destacado jogador de xadrez, que integrou a famosa Escola de Modena. A sua obra mais conhecida é Il giuco incomparabile degli scacchi, onde, entre outras, analisa a abertura que acabou por ser baptizada com o seu nome. Como o "nosso" Ponziani dedica um interesse pouco mais que simbólico à genealogia, qualquer pergunta sobre os caminhos tortuosos que este apelido terá seguido de Modena até à Beira Interior do século XX ficará sem resposta. Quando muito, virá à baila o inevitável avô contrabandista, ou bisavó excêntrica e dada às mezinhas.
É frequente tomarem Ponziani por italiano, antes de o ouvirem falar. Ponziani veio para Lisboa ainda criança, com um tio que entretanto faleceu. Ponziani mudou várias vezes de casa, mas sem nunca sair do Bairro Alto. Ponziani obrigou-se a deixar esmorecer o seu interesse pelas artes dramáticas, até que pessoas e acontecimentos o fizeram voltar atrás com a sua decisão. A abertura Ponziani pertence à família das aberturas de peão de rei. Depois de 1.e4 e5 2.Cf3 Cc6 3.c3 as brancas planeiam avançar o peão para d4 na jogada seguinte.

  a b c d e f g h  
 8   8 
 7   7 
 6   6 
 5   5 
 4   4 
 3   3 
 2   2 
 1   1 
  a b c d e f g h  


Esta abertura é muito rara ao mais alto nível, coisa que Ponziani considera difícil de aceitar. Quando lhe explicam que as negras igualizam o jogo sem problema graças ao simples 3...Cf6, Ponziani assobia entre dentes, e assinala que 4.d4 seguido de 5.Bb5 garante uma estrutura sólida e lógica para as brancas.
Os tormentos de Ponziani medem-se em horas, minutos, quebradiços segundos. Camadas permeáveis de sono, impotência e vergonha entram em escaramuças como guerreiros envelhecidos e tontos de vinho e cansaço. O palco está para as paredes como a tabula rasa cartesiana para a virtude agustiniana. A evidência com que esta analogia se impõe é suspeita. Ponziani detém-se de repente, e senta-se perante o pano do seu coração, como na quarta elegia de Duíno.


Terça, 25 Novembro, 2003

SEGUNDO FARRAPO DE VESTIDO DE NOITE DE PALAVRAS A PROPÓSITO DE "INDIA SONG": A passagem nos ecrãs portugueses da obra-prima de Duras possui o mérito adicional de nos expor a um actor extraordinário, que constou do elenco de muitas dezenas de filmes, incluindo numerosas colaborações com realizadores consagrados, sem nunca alcançar a projecção que mereceria. Falo de Michael Lonsdale, o vice-cônsul de Lahore. Nascido em 1931, filho de mãe francesa e pai inglês, Lonsdale iniciou a sua carreira no teatro, tendo-se estreado no cinema em 1956. De então para cá, filmou com Truffaut (p.ex. "Baisers Volés"), Handke ("A Mulher Canhota"), Losey ("Monsieur Klein"), Resnais ("Stavisky"), Welles ("O Processo"), Malle ("Le Souffle au Cœur"), Buñuel ("Le Fantôme de la Liberté") e Jean Eustache ("Une Sale Histoire"), esticando a sua versatilidade a ponto de figurar em filmes como "The Remains of the Day" (Ivory), "O Nome da Rosa", e até um 007 ("Moonraker")! Tudo isto para não falar dos filmes que fez com Jean-Pierre Mocky, o iconoclasta franco-atirador favorito do cinema francês desde os anos 60. Para além de "India Song", participou em mais dois filmes de Duras: "Détruire Dit-Elle" (1969) e "Jaune le Soleil" (1971). Em "Out One", de Rivette, Lonsdale é o líder do grupo que encena o "Prometeu", e ao mesmo tempo uma das figuras influentes do balzaciano grupo dos 13 cuja ameaça paira (ou será que não?) sobre a sociedade parisiense.
Dono de uma das dicções mais fascinantes que alguma vez serviu a língua francesa gravada, Lonsdale alberga a sua voz profunda e solenemente timbrada num corpo ingrato, grande e largo sem ser atlético. O rosto é ligeiramente anafado; a boca, as sobrancelhas espessas, parecem prometer constantemente uma parcela de bonomia que se faz esperar. Encarnando o vice-cônsul de Lahore, essa voz e esse corpo congregam tudo o que de abjecto e desesperado pode emanar de uma paixão. Um corpo que se serve do chão que pisa como de um pedestal, e da câmara como de uma testemunha que ele quer perversa e pronta a repudiar tamanha ousadia. O corpo e o timbre de um pária que, urrando a sua degradação aos quatro ventos, pela noite malsã de Calcutá, peca também por orgulho desmedido. O orgulho de quem amarrota a própria dignidade como um trapo usado, se por isso tiver de passar a sua reivindicação ao amor daquela que todos amam, a satisfação de um direito que a ignomínia não pode tocar.


CINEMA: Mais reacções da crítica francesa ao último filme de Jacques Rivette, "Histoire de Marie et Julien":

«Rivette ne vise pas le chef-d'œuvre, il a toujours professé son goût pour les "films inégaux". Marie et Julien est inégal à plus d'un titre : hétéroclite, versatile jusqu'à la dernière seconde ; à dominante ténébreuse mais très ouvert à la malice de l'imprévu ; cérébral et érudit, mais aussi saisi de flambées charnelles.» (Louis Guichard, "Télérama")

«Sans doute aurait-il été possible, comme y insiste Jacques Rivette lui-même, de voir en ce film une complète renaissance, dédiée à l'amour fou. La vérité semble pourtant moins aimable, qui fait de l'Histoire de Marie et Julien le chiffre d'une œuvre mort-née il y a trente ans et d'un art qui, porté à ce degré d'absolu, est le plus élégant travailleur de la mort».(Jacques Mandelbaum, "Le Monde")

«Corps irradiant. De là ces alertes que le film laisse percevoir comme le Petit Poucet laissait tomber derrière lui des pierres, ce goût marqué pour le De profundis, les Chimères, les tables tournantes et les médianoches. De là, surtout, Emmanuelle Béart : géniale et s'opposant en tout point à son Julien, Jerzy Radziwilowicz, choisi pour son naturalisme inquiet. Béart y est animale, son corps irradie, dans ses spasmes comme dans son calme étrange, quelque chose de si violent que la caméra ose à peine s'en approcher. Jouer avec elle, la regarder, c'est s'exposer au risque d'une brûlure intense et indélébile.» (Philippe Azoury, "Libération")




POR UM PUNHADO DE BOLOS: Num bar da Faculdade de Ciências, vi com estes meus olhos um agregado de bolos de arroz de infundir respeito ao mais empedernido. Contei: 28 (vinte e oito). Trata-se, pelos vistos, de uma iguaria popular entre a estudantada. Senti chegada a altura de escrever ao "24 Horas" ou ao "Tal & Qual" uma carta fremente de indignação, recheada de invectivas contra os universitários que gastam mais em artigos de pastelaria numa semana do que em propinas num mês. O texto seria devidamente acompanhado por desabafos ao melhor estilo "Vão trabalhar malandros!", e outros êxitos do mesmo calibre.


REVELAÇÃO DE UM PONTO FRACO: Na livraria do King, por entre os opúsculos da colecção "Pocket Essentials" dedicados ao cinema, descobri um intruso: um volume sobre alquimia, sem qualquer relação com a sétima arte ou com as restantes. Por menos crédito que deposite em ocultismos, artes divinatórias, fenómenos ditos paranormais e espiritismos de toda a espécie, confesso-me longe de estar imune ao seu apelo estético. Numerologia, alquimia, cartomancia e astrologia são patranhas que quase mereceriam o seu modesto fundo de verdade; o esoterismo é pródigo em facetas fascinantes, que se prestam tanto mais à fruição quanto o espírito se encontra livre do grotesco fardo da crendice.
A livraria do cinema King é uma excelente livraria, com destaque dado à poesia, à gastronomia, às artes plásticas e a todos os livros da Assírio & Alvim: uma autêntica provocação aos cordões da bolsa, em suma. O principal óbice que nela vejo é a necessidade constante de fugir aos fumadores, que manifestamente se julgam ou num foyer ou em suas casas. Quando são os próprios livreiros que fumam em pleno exercício das suas funções, percebemos que algo vai mal; como uma pedrinha que, sem parar a engrenagem, a torna mais ronceira, barulhenta e pródiga em solavancos.


Domingo, 23 Novembro, 2003

AQUILO QUE DE MAIS PRECIOSO TEMOS: Cito parcialmente a resposta da Voz do Deserto a um post meu sobre os estereótipos que alimentam muitas das reacções aos recentes protestos estudantis: «Quem me conhece sabe que eu sou um feliz defensor dos estereótipos. Prefiro uma banalização rasteira a um eureka altissonante. Os preconceitos são frequentemente mais úteis do que as contemplações. A sensatez trabalha das nove às cinco mas dorme em casa. E não estamos autorizados a telefonar-lhe para o domicílio. Realmente considero uma praga espiritual esta cultura estudantil. A razão dá ao Alexandre as virtudes. Eu fico com os vícios.»
A única maneira que encontro de aprovar parcialmente este ponto de vista consiste em admitir que a defesa dos estereótipos subentende que estes, enquanto fruto de um impulso generalizador, representam (ainda que possivelmente falaciosos) um passo saudável no caminho de uma avaliação de um estado de coisas. Seja. Conceptualmente, estereótipos podem até mostrar-se mais fecundos do que contemplações abúlicas. (Do mesmo modo, os mitos e as lendas cumpriram o seu papel com escorreita eficácia, até que apareceram os senhores Aristóteles, Galileo, Bacon...) Quando se fala da eventual utilidade dos preconceitos, porém, o meu cepticismo engata em quinta velocidade. Tenho para mim que preconceitos e estereótipos são o rigor mortis do pensamento crítico e da razão, e que em nenhuma ocasião uma abdicação de exercer o espírito crítico e o raciocínio, de procurar a avaliação e apreensão das coisas tais como elas são, pode ser algo de positivo ou desejável. Não reivindico as "virtudes" da razão, mas apenas a legitimidade e interesse em me servir dela como bem precioso entre todos os restantes.
Não obstante esta divergência de pontos de vista, envio uma chapelada à Voz, que tem sido desde o início um dos blogs aos quais regresso com maior regularidade e prazer (outra vez o prazer...); isto apesar de quase tudo nos separar, a começar e a acabar pelas convicções. Ao contrário de tantos outros blogs, a Voz não confunde a defesa concisa de opiniões com a presunção, e é dos poucos que soube inventar uma forma própria de intervir e de, sem abrir mão da sua coerência, se renovar. Para além de tudo o mais, é nesse espaço que vejo serem defendidos cantores como o Marante, cujo imortal opus "Som de Cristal" deveria fazer parte do programa do ensino básico e secundário.


SAÚDE PÚBLICA: O mundo é um lugar mais luminoso, seguro e agradável sem os editoriais de António Ribeiro Ferreira no "Diário de Notícias".


MITOS FUNDADORES DOBLOG: O Amadeu, para além de excelente amigo e funcionário dos CTT, é dono de uma voz que ele projecta como socos aplicados com manha, e de um corpo ágil e vigoroso que ele empresta às suas persongens com generosidade transbordante. O Amadeu escreve, e eu transcrevo: «Alexandre, por que razão te julgas na necessidade de fazer de conta que os teus posts, em vez de serem redigidos no recato do lar, com maior ou menor inspiração, frente ao inevitável teclado QWERTY, chegam às tuas mãos por meio de pombos-correio ou por outra via igualmente extravagante, depois de encontrados numa arca esquecida num sótão de uma casa do barlavento algarvio, ou no interior oco do pedestal da estátua ao actor Taborda, no Jardim da Estrela? Cumprimentos, etc.»

Por várias razões, Amadeu. Três, para ser mais preciso.
  • Porque é verdade. Que posso eu contra a verdade dos factos?
  • Porque o gigantesco processo de edificar um sistema de lendas fundadoras para esteblog passa também pela génese dos próprios posts. Nenhum detalhe é demasiado insignificante.
  • Porque tal nos fornece um enorme leque de desculpas para quando o débito normal de prosa se reduz a um fiozito quase invisível, ou ao zero absoluto. Desculpas de ordem meteorológica, logística, mecânica...



Sexta, 21 Novembro, 2003

VERSOS PORQUE SIM:

THE SHOWER

The water began to fall quite quietly
As pipes decorate laminations of
City unit busses pass through.
A laborer dragging luggage examined
The wet place near a bug.
It sifted slowly down the sides of buildings flat
The permanent way to make a race.
So simple was the ally. Trying the lips
The spaced demons never breaking.
They imagine something different from what it is.

Just a fat man with sunglasses
Moving through shine-the uncle in the mirror-
As it is beginning again these are the proportions-
He lauds her with a smile.

Miles away in the country the performance included glue.
The abandoned airfield will have to have the imagination now
To be august, gray, against oneself

These things that are the property of only the few.


John Ashbery (in "The Tennis Court Oath")




PRIMEIRO FARRAPO DE VESTIDO DE NOITE DE PALAVRAS A PROPÓSITO DE "INDIA SONG": As imagens não mentem. Não se trata de impotência. A mentira seria algo de ocioso e escassamente relevante. Anne-Marie Stretter arrasta consigo um moroso aparato de imagens paralisadas pela sua própria incapacidade de significar, de fazer mais do que enumerar quadros vivos e lugares-onde.
Em certas civilizações (sem excluir necessariamente a nossa), a acção de nomear acarreta poder, ou sombrio ascendente, sobre o objecto nomeado. Mas um nome pode também ser a denotação da mais absoluta e terrena ausência de poder para inflectir um destino, subverter uma geografia, atrair um olhar, mendigar mais cinco minutos de companhia.
Um filme não é um cadinho; mas num filme cabem camadas e fases, cabem todos os tempos de verbo concebíveis, amalgamados num único, capaz de abarcar todos os possíveis, todos os condicionais, tudo o que a poeira e o tempo sepultam. Sem nunca cancelar por completo a cintilante linearidade do tempo vivido, do evento e da dor que o acompanhou.
Que o acompanha e alastra.


CASA DE FERREIRO...: O Almocreve das Petas mostrou-se mais kleistiano do que nós próprios, ao assinalar o aniversário da morte do Grande Homem com várias citações, enlaces oportunos, e uma efígie infinitamente mais satisfatória do que a nossa miserável fotografia tipo passe (vide canto superior direito).
Se esteblog ainda existir no ano 2011, fica desde já prometida uma festa do bicentenário, com jeropiga à discrição.
Original até ao fim, Kleist foi uma das pouquíssimas grandes figuras da Literatura Universal a tornar-se assassino e suicida no espaço de poucos minutos; se bem que o termo "assassino" peça contexto, pois tratava-se de um pacto suicida com a sua amante, cumprido com grande dose de escrúpulo.



Jerzy Radziwilowicz e Emmanuelle Béart


CINEMA: Extractos de imprensa relativos ao novo filme de Jacques Rivette, "Histoire de Marie et Julien", estreado em França no passado dia 12.

«Histoire de Marie et Julien synthétise l'oeuvre de Rivette et le cinéma qu'il aime, d'Hitchcock à Dreyer. Un récit d'amour fou porté par des acteurs incandescents et une mise en scène tranchante comme le diamant.» (Jean-Baptiste Morain, "Les Inrockuptibles")

«On pourrait ainsi gentiment écrire que Marie et Julien a été tourné à l'automne-hiver dernier. Sauf que l'information ne vaudrait plus grand-chose en regard du film que l'alchimiste JR en a tiré. Quand ce film a-t-il vraiment été tourné ? Mystère. A-t-il seulement été tourné ? !!! Ses acteurs sont-ils de ce monde ? Rien de moins sûr. Et, quand cette histoire se sera achevée, combien de saisons auront-elles été traversées ? Combien de châteaux? Combien de vies ?» (Philippe Azoury, "Libération")

«Un film qui, en cette période de célébration de Jean Cocteau au Centre Pompidou, se place délibérément du côté du Sang d'un poète. Logique, Rivette fut aux Cahiers du cinéma un chantre de Cocteau et de sa caméra. Et, avec ses camarades de la Nouvelle Vague, imposa le cinéma de Cocteau, qui le leur rendit bien. Il est émouvant que cette fidélité de cinquante ans débouche aujourd'hui, ayant longtemps mûri en l'âme de Rivette (il avoue y penser depuis vingt-sept ans), sur une oeuvre sombre sans être noire, fantastique sans être gore, et qui, policière parfois, organise des Mystères qui méritent leur majuscule: amour fou, vie et mort, persistance sensuelle de la mémoire, mécanique du temps et puissance d'une larme.« (Jean-Pierre Dufreigne, "L'Express")

Mais reacções críticas a este filme aqui.




OS PRAZERES E OS DIAS: O Crítico, num gesto de gentileza que agradeço, colocou este espaço entre os "Blogs do Prazer". O "prazer" não é algo que eu tenda a associar ao 1bsk. O espírito do 1bsk é um espírito de missão; o nosso empenho assume a forma de um par de esporas cortantes; o 1bsk é o equivalente blogosférico de uma cama de faquir, de uma espinha enterrada na glote, de um cilício laico. Chamamos a atenção para as coisas ruins deste mundo: os carros em cima dos passeios, os atentados à República, os néctares de pêssego e manga com demasiado corante. Mas também é verdade que o deleite surge e medra onde menos se espera, mesmo no meio da aridez plana do zelo prosélito.
Quanto às minhas considerações a respeito do lance 1.Cf3, elas são as seguintes. Trata-se de um lance não muito invulgar, mas que não é destituído de uma componente de desafio saudavelmente tongue in cheek: mover o cavalo antes de qualquer peão oferece, para além do mais, um efeito estético surpreendente. É curioso constatar que o lance 1.Cc3, que consistiria num avanço homólogo do cavalo da ala da dama, quase nunca é utilizado ao mais alto nível. Mais um exemplo de violação da simetria do universo...
1.Cf3 costumava ser um dos lances preferidos de Vladimir Kramnik, actual campeão do mundo não oficial. Desconheço as razões que o levaram a abandoná-lo. É um lance que deixa tudo em aberto, possibilitando a transposição para as defesas índias ou para a eslava, se bem que também existam sistemas independentes caracterizados por este lance, como a defesa Réti.
Quem nos lê desde os primórdios perceberá imediatamente que a única resposta que se coaduna com a nossa postura ética é 1...Cf6.



Quarta, 19 Novembro, 2003

Ludwig Wittgenstein

«Die Lösung des Problems des Lebens merkt man am Verschwinden dieses Problems. (A solução do problema da vida é vista como o desaparecimento desse problema.)» (Ludwig Wittgenstein)







VOX POP:

- Eu quero-a...
- Fecha a porta.
- ...ao fundo de cena e à esquerda. Em repouso mas...
- Como uma marioneta, não?
- Como é a palavra? Como é mesmo a palavra?
- Acredito em... Ti.
- Tónus.
- Isso, tónus muscular, ou os serviços mínimos do vigor físico.
- Porta fechada.
- Quem falta?
- "Virar a cara à luta."
- Depois entras, fazes a pirueta, bla bla bla, e morres.
- "O perigo é a minha profissão."
- Seno, co-seno, tangente, cotangente.
- Mas com um floreado!
- Eu dou-tas, as razões para me odiares.
- Como?
- E a seguir arrancou-me o...
- "Ele e que exército?" Que exército. Gostei.
- Grrrrrrr... Miau miau!
- Saliva.
- Esterco.
- Nevoeiro. Nevoeiro.
- Claudicas. Cais, morres. Percebes?
- Uma marquesa que publica um anúncio no jornal para revelar uma gravidez ilegítima. Não dá vontade de rir? Pois então ri.
- Não estou de acordo.
- Arrancou-me o coração, apagou semanas da minha vida.
- Como? Com quais das sílabas do meu nome?
- MAIS DEVAGAR! COMO NO MEIO DE UMA PORCARIA DE UM SONHO!
- Respiração.
- Encontramo-nos no sítio do costume, com uma flor na boca.
- Devagar, princesinha. Como no meio de um sonho.
- E as sílabas do meu nome?
- Porta fechada à chave. Cadeado. Luzes apagadas. Torneira de segurança.
- Na lapela, eu queria dizer na lapela.
- De que estamos a espera?
- E o meu nome?
- Como é que ele sabe?
- Não "de que", mas "de quem".
- Como é que ele sabe?
- O pavão não é bicho que goste de alturas.
- Como é que ele sabe?
- Silence is golden, golden...
- Como é que ele sabe?
- Deixo-te em casa?
- Como é que ele sabe?
- Bem, chegou o inverno.
- Como é que ele sabe?
- Muitos anos de prática.
- E eu?
- E eu?
- Chegou o inverno.
- E o meu nome? E eu?
- Cheira a rio. É bom.




CINEMA, DISSE ELA: Paulo Branco, com a perversidade que nele é costumeira, volta a dar trabalho e a sobrecarregar a agenda da população cinéfila da região de Lisboa. Desta vez, trata-se de uma retrospectiva da obra de Marguerite Duras como realizadora, abarcando 9 das suas longas e médias metragens, e que terá lugar do próximo sábado até à segunda-feira seguinte. Dos filmes que serão apresentados, conheço apenas dois: "Baxter, Véra Baxter" (sábado às 14h, segunda às 16h), cujo registo apresenta algumas semelhanças com o de "India Song" (conta também com Delphine Seyrig no elenco), e "Nathalie Granger" (domingo às 22h, segunda às 00h15), com Jeanne Moreau e um muito jovem Depardieu, obra um pouco menos radical em termos de formato e de postura estética.
Dos restantes, eu recomendaria "Le Camion" (sábado às 16h, segunda às 20h), discussão sobre um filme imaginário, com Depardieu e a própria Duras à frente da câmara; "Détruire, dit-elle" (sábado às 00h15, domingo às 16h), primeira longa-metragem da autora (se excluirmos a adaptação da uma peça sua em colaboração com Paul Seban); e, claro está, "Son Nom de Venise dans Calcutta Désert" (sábado às 22h, segunda às 22h), em que novas imagens acolhem a banda sonora integral de "India Song", acrescentando camadas suplementares de ousadia e abstracção ao filme-mãe.
Fica a sugestão, sobretudo para aqueles que se julgam alérgicos a propostas cinematográficas mais experimentais e tresmalhadas. Quanto aos que já foram ver "India Song" e não gostaram, talvez a escolha de um outro programa de fim-de-semana seja a decisão mais judiciosa.


Obrigado pela visita ao UMBLOGSOBREKLEIST, o seu espaço republicano, laico, positivista e céptico na blogosfera. Aqui fala-se de arte, sociedade, política e xadrez. Genuflexões a Voltaire, Comte, Galileo e Condorcet estão sempre na ordem do dia. Para além de Kleist, damos destaque a outros suicidas, como Pavese, Celan, Nerval, Sylvia Plath e John Berryman. Se este post não teve ainda o efeito de desencorajar futuras visitas, fica o aviso de que estamos abertos 24 horas por dia, salvo quebra do servidor ou catástrofe planetária. Este post não dispensa a consulta do folheto.




RESUMO DA TELENOVELA "O TEU OLHAR", SUITE ET FIN:

Daniela procura a mãe no jardim de enxofre e caramelo, e quando a encontra recita nomes de mamíferos marinhos e de soldados mortos na guerra da Argélia, até que esta acaba por desfalecer nos seus braços, que um suicida comparou aos de "um avatar remoto e delicado de Vishnu". Preocupada com o estado de saúde de Vera, Daniela chama Júlia, por meio de um assobio estridente que faz ressoar os sinos de todos os campanários de sete em cada oito cidades. Vera, cuja colecção de 78 rotações da Carmen Miranda é a segunda maior da Europa, não encara com bons olhos a presença de Júlia, acusa-a de ter aflorado com o queixo os joelhos do cobrador de dívidas difíceis e de ter colocado Francisco contra ela e pede-lhe que saia de sua casa, às arrecuas e sussurrando uma cantiga de amigo. Desesperada, e sem conseguir explicar as razões que a levam a preferir Glinka a Prokofiev, e Khachaturian a Glinka, Júlia vai-se embora. Rui, com as mãos sujas de guache preto, conta a Miguel que Margarida ligou e que está viva, se bem que agora nutra sentimentos fetichistas por plumas de faisão, de preferência falsas. Miguel, a três palmos de distância de uma natureza morta sem valor artístico nem sentimental, não cabe em si de contentamento. Miguel, contra a opinião de Rui, diz que vai ter com Margarida para lhe recomendar que acrescente noz moscada e vinagre de vinho branco ao molho. Rui apaixona-se por uma corista que o despreza, e que lhe rasga as meias e a gravata com as suas unhas longas e robustas, e insiste que Margarida vai-lhe estragar a vida. Sérgio, o mesmo Sérgio que pernoitou no pavilhão dos répteis para ganhar uma aposta, liga para o seu telemóvel que está na posse de Paula e fica a saber quem é que o tem e quem é que anda a deixar missangas e pedaços de tangerina cristalizada na sua caixa do correio. Miguel reencontra Margarida e, entre um Toyota Corolla azul de 1995 e um Renault Chamade branco de 1999, pede-lhe desculpa por ter pensado que ela tinha morrido, depois volta a pedir-lhe desculpa, e pede desculpa mais uma vez, mas desta vez entre dentes. Margarida rabisca o seu retrato de três quartos com lápis número 2, numa página do seu diário íntimo, que por sinal ela decidiu abandonar porque "a catarse em privado não passa de um masoquismo infecundo e sem o proveito", diz-lhe que se recordou do acidente, embora tenha confundido com a actualidade, uma vez que ele aparecia nas suas memórias com uma aura e sobre fundo rosa. Miguel entra em pânico. E confessa-o, ufano, jovial, luzidio.




Terça, 18 Novembro, 2003

VERSOS PORQUE SIM:

TO REDOUTÉ

To true roses uplifted on the bilious tide of evening
And morning-glories dotting the crescent day
The oval shape responds:
My first is a haunting face
In the hanging-down hair.
My second is water:
I am a sieve.

My only new thing:
The penalty of light forever
Over the heads of those who were there
And back into the night, the cough of the finishing petal.

Once approved the magenta must continue
But the bark island sees
Into the light:
It grieves for what it gives:
Tears that streak the dusty firmament.


John Ashbery (in "The Tennis Court Oath")




CINEMA: "Elephant", de Gus Van Sant. Cem anos e picos de cinema ensinaram-nos que a exposição da banalidade quotidiana é invariavelmente prelúdio ao horror, ao escândalo ou ao sobressalto: se a câmara se demora sobre uma personagem que sobe as escadas, abre a porta de casa, entra na cozinha, pousa os sacos de compras na mesa, instala-se no espectador a certeza empírica de que algo está para suceder. Em "Elephant", Gus Van Sant vampiriza este reflexo condicionado de cinéfilo, e satura a duração do filme com um vazio de eventos que estende até aos limites do suportável a expectativa de quem vê, e de quem sabe que o cinema não tolera o normal, essa irrelevância que nenhuma estética redime. Todo o filme emite um timbre de estranheza, que deriva do bizarro matrimónio entre a neutralidade da encenação e a subjectividade dos movimentos de câmara; como se GVS pretendesse assinalar que qualquer veleidade explicativa relativamente ao horror do tiroteio final exigiria a coexistência das múltiplas vivências individuais (na sua grandeza, na sua comovente ingenuidade) e de um qualquer elemento globalizante, tudo isto num impossível plano único. "Elephant" não é nem um malogro nem a constatação de um malogro: é, isso sim, a explanação daquilo que condena ao malogro qualquer tentativa de se apropriar da verdade absoluta a respeito de um acontecimento de indizível atrocidade.
No meu mapa/hierarquia/organigrama de criadores de cinema, Gus Van Sant ocupava até agora um posto peculiar: o de alguém que eu respeitava e tinha em boa conta, mas sobretudo por aquilo que lera ou ouvira dizer sobre obras suas, pois dele apenas vira um falhanço colossal, a roçar o ridículo ("Even Cowgirls Get the Blues") e um filme interessante mas sobrevalorizado ("To Die For"). Com "Elephant", aposta mais do que conseguida em jeito de elegia pudica, lenta, carinhosa e condoída, GVS reforça o seu estatuto de figura de proa do cinema americano que vale a pena seguir, de explorador de formas que se dá ao luxo de fazer oscilar a sua carreira entre um cinema mais pessoal e um cinema mais voltado para o grande público e para o respeito dos cânones comerciais.


Segunda, 17 Novembro, 2003

VERSOS PORQUE SIM:

«...taking poetry apart to try to understand how it works...» (John Ashbery, a propósito da sua recolha de poemas "The Tennis Court Oath")

«...a fearful disaster...» (Harold Bloom, a propósito do mesmo livro)

A WHITE PAPER

And if he thought that
All was foreign-
As, gas and petrol, en-
gine full of seeds, barking to hear the night
The political contaminations

Of what he spoke,
Spotted azaleas brought to meet him
Sitting next day
The judge, emotions,
The crushed paper heaps.


John Ashbery (in "The Tennis Court Oath")




DA FALÁCIA E DA MÁ FÉ: Está muito em voga um novo desporto que, a avaliar pela furiosa alacridade com que é praticado por numerosos cronistas da nossa praça, se arrisca a alcançar o estatuto de modalidade olímpica em menos tempo do que o que é necessário para dizer "José Manuel Fernandes". Trata-se de descobrir sinais exteriores de riqueza nas pessoas dos estudantes universitários, de preferência através de brevíssimas imagens televisivas ou de relatos em segunda mão, visto que o verdadeiro conhecimento de causa dá trabalho e enche de poeira os sapatos. Aparece numa qualquer reportagem um estudante com casaco de marca ou óculos Ray-ban? Pimba! É um parasita, um menino do papá, um sorvedouro dos euros e dos cêntimos dos contribuintes. O estudante atende o telemóvel num momento de fraqueza? Zumba! Não tem autoridade moral para se queixar contra propinas. O estudante admite deslocar-se em viatura própria? Catrapumba! É um estarola que não sabe dar valor ao dinheiro nem aos sacrifícios que por ele faz a nação, na sua imensa generosidade.
Acho deveras instrutiva a sofreguidão com que alguns se lançam sobre o mínimo indício para corroborar as suas teorias, e para fertilizar os seus recatados minifúndios de mundividência. Um pouco mais de contenção e de sentido das realidades não viria a despropósito. A grande maioria destas admoestações deriva, se não da má fé pura e simples, de uma colossal falta de sensibilidade relativamente à maneira como os hábitos de consumo mudaram nas últimas décadas.
Pensemos em apenas dois dos exemplos mais citados. Os telemóveis. Para quem ainda não reparou, ou insiste em não reparar, permito-me fazer notar que, no ano de 2003, na faixa etária dos 15 aos 25 anos, quem não possui telemóvel é pouco mais do que um desclassificado social. Longe de constituir um artigo de luxo, o telemóvel é um instrumento de inserção que rapidamente se tornou indispensável e quase universal. Estamos conversados.
E no que toca às festas e noitadas, nas quais, de acordo com a mitologia popular, ocupa a maior parte do seu tempo o universitário médio? Se é mais que certo que existirão excessos, sustentar que a vida nocturna e os estudos são inimigos incompatíveis releva de uma concepção das coisas fantasista e tacanha. Das duas uma: ou se defende que a frequência do curso universitário exclui uma vida social minimamente preenchida, ou se admite que a componente de divertimento e de contacto com os outros é não só legítima, como fundamental para o desenvolvimento social do indivíduo; e só aqueles que têm por hábito ou ofício tapar o sol com uma peneira negarão que, na geração em torno da vintena de anos, as saídas nocturnas são a forma privilegiada de estar em grupo, e o exercício lúdico e gregário por excelência. (A propósito: alguém disporá de estatísticas sobre a ocupação dos tempos livres por parte dos estudantes? E quem se interessará por tê-los, a partir do momento em que a extrapolação a partir de uma amostra reduzidíssima é um exercício tão cómodo e tão eficaz?)
Entendamo-nos. Não gosto de discursos desculpabilizantes, e não desejaria que este meu desabafo fosse interpretado como uma tentativa de apoucar a condição de homem ou mulher adulto e responsável de cada estudante universitário. Nenhuma destas minhas opiniões põe em causa a minha firme certeza de que a frequência de um curso universitário implica deveres, empenho e seriedade. Neste aspecto, estou em sintonia com os praticantes da "caça ao estudante egoísta e mimado". O que me revolta é constatar a leviandade com que jornalistas e várias luminárias dos mais variados sectores retiram da cartola ilações baseadas nos mais frágeis e inverificáveis lugares comuns. No exercício da minha profissão, contacto diariamente com o meio universitário, incluindo o corpo discente. Não será um tal convívio que me outorgará o estatuto de autoridade na matéria, mas pelo menos cimenta a minha convicção de que, nas problemáticas do ensino superior (como em todas as outras), os estereótipos são os mais traiçoeiros inimigos do raciocínio e do espírito crítico.


Domingo, 16 Novembro, 2003

O QUE É O GÉNIO?: Não me peçam para definir a minha noção de génio. Caso desejem exemplos, posso fornecer várias mãos-cheias deles.
Um dos exemplos seria um autor português...
Contemporâneo...
Com livro saído recentemente...
Com preço de capa inferior a 10 euros...
CLICAR AQUI.
(Botão esquerdo sfffffffff.)



PARDONNEZ À L'ÉCLAT D'UNE ILLUSTRE FORTUNE/CE RESTE DE FIERTÉ QUI CRAINT D'ÊTRE: Muitas vezes, mais do que uma ideia, um desabafo ou um anúncio, é uma postura ou atitude que projecta a sua urgência de ser posta por escrito. Penso, por exemplo, nas cenas iniciais do filme "L'Amour Fou", de Rivette: os ensaios da "Andromaque", de Racine, a sofreguidão contida com que é lido o texto, e onde coexistem o acento grave da tragédia e a compenetração obstinada e absorta de quem se familiariza com palavras e ritmos; a fluidez dos movimentos; a alteridade do ponto de vista; mesmo as numerosas transições dos 16 mm para os 35 mm pareceriam merecer um equivalente verbal.


Sábado, 15 Novembro, 2003

O ENLACE CÉPTICO DA SEMANA: Os sites dedicados ao cepticismo e ao combate contra a superstição que temos vindo a divulgar têm em comum o facto de estarem ancorados na realidade anglo-saxónica, mais concretamente nos Estados Unidos da América. (Tratando-se da pátria das teorias da conspiração e da clique creacionista, nunca serão de mais para a empreitada.) É por isso com prazer que apresento hoje um espaço francófono, o Cercle Zététique, um projecto coordenado pela universidade Sophia-Antipolis, de Nice. O que vem a ser a "zetética"? O termo provém do grego "zêtêtikos", que significa "aquele que procura", e tem vindo a ser conotado com o cepticismo, com o racionalismo, e com a exploração científica dos fenómenos ditos "paranormais". O biólogo Jean Rostand engendrou uma definição mais concisa e elegante: "higiene preventiva do julgamento". Da ementa constam o exame crítico de pseudomilagres, de experiências ditas "out-of-body", e a desmistificação de pseudociências como a astrologia.
Os responsáveis pelo projecto têm o cuidado de definir os seus propósitos num quadro estritamente científico, demarcando-se de posições que pudessem ser interpretadas como anticlericais, dispondo-se a entrar no terreno religioso apenas quando a religião se tenta imiscuir em questões científicas, e recusando-se a penetrar nos movediços terrenos da metafísica. Esta posição é ligeiramente diferente da de outros espaços de que já falámos, como por exemplo este, onde se preconiza explicitamente a procura de explicações "não teístas" para a totalidade dos fenómenos do mundo. Quer-me parecer que distinções deste género têm sobretudo a ver com contextos culturais e com uma postura mais ou menos interventiva, e que perdem importância face ao denominador comum (a valorização do espírito crítico, racional e científico, sejam quais forem as circunstâncias) que une todos estes núcleos.


MITOS FUNDADORES DOBLOG: No início, unia-nos o projecto vago de conspirar. Faltando-nos a vontade de abalar os alicerces do Estado, restava-nos o invólucro, os santos-e-senha, a contenção nos olhares e gestos, o arsenal secreto daqueles que partilham uma causa escandalosa.
Quando as nossas dedicações esmoreceram, lembrámo-nos de encenar uma peça. A "Pentesileia", precisamente. Essa mesma que profissionais calejados hesitam em abordar. A natureza irrealista do nosso projecto perseguia-nos, e sabia-nos a malte e a açúcar mascavado.
Eclodido o malogro, fundámos umblog. Falávamos em prolongamento, mas era de um recomeço que se tratava.
Inscrevemos o próprio falhanço no nosso caderno de encargos privado, para prevenir novos dissabores. Ou reduzi-los a filigrana e bolas de sabão.


É ENTRAR! É ENTRAR!:

The man with the funny spectacles


É entrar, senhoras e senhores, meninas e meninos. É entrar! O nosso circo tem a honra de apresentar, pela primeira vez no hemisfério ocidental, um espectáculo de cortar a respiração! É ele o artista, Garry Kimovich Kasparov, em pessoa, tal como anunciado na TV! Sim! Kasparov, esse mesmo que, mesmo não sendo já campeão de coisíssima nenhuma, consegue a proeza de, à custa de marketing, cotoveladas, destreza palaciana, voz grossa e outras manobras e golpes de asa continuar a ser o mais famoso xadrezista do planeta, que digo eu, da galáxia, o mais mediático, o mais influente, o mais visível, o mais esganiçado. É entrar, é entrar! Vejam o Grande Kasparov defrontar A Grande Besta De Silício, o computador X3D Fritz, sem ajudas, sem mãos, sem pés, só com um par de óculos que são um prodígio da tecnologia, mergulhado em plena realidade virtual, com peças que flutuam no ar, pairando sobre o seu precioso crânio com ameaçadora solenidade! Vejam Kasparov jogar o Gambito de Dama com os olhos vendados! Vejam-no aplicar um mortífero mate do corredor pendurado numa grua pelos pés! Vejam-no sacrificar torre, dama, os dois cavalos, o carro e a casa enquanto se escapa do interior de um cofre forte em queda livre! Move over, Houdini! Tudo isto no nosso espectáculo desta noite! Na primeira parte, o nosso domador de chinchilas, o faquir monociclista, o palhaço rico, o palhaço pobre e o palhaço da média burguesia. O espectáculo vai começar!!!!!
Mais pormenores aqui.


Sexta, 14 Novembro, 2003

A SUCURSAL LISBOETA DA GUERRA DE TRÓIA ou KLEIST NO BAIRRO ALTO: Lançamentos de livros em pleno serão são incompatíveis com a minha frugalidade e com o hábito de me deitar com os galináceos, daí que a sessão de apresentação da peça "Pentesileia", do nosso patrono Kleist, não tenha contado com a minha presença. Contudo, a honra do convento foi salva pelo Ponziani, que assim recuperou o crédito malbaratado pela sua ausência inexplicável do Encontro de Blogs (as suas extravagantes alegações apologéticas, que incluem um banco de jardim, um indivíduo misterioso que usava gabardina, e uma conferência sobre linguística chomskiana num grémio cultural de bairro, deixam-me céptico, para não dizer outra coisa menos gentil). Cedo, pois, a palavra ao colega Ponziani.

«O lançamento teve lugar na livraria Eterno Retorno, ao Bairro Alto. A função teve o seu início com quase uma hora de atraso, o que, mesmo para os padrões portugueses, é o tipo de coisa capaz de levantar escândalo e alvoroço. Dos discursos de apresentação, saliento algumas ideias soltas: a ideia da literatura como uma solução mais potente para os problemas da vida do que a própria vida; a relação com o Foucault da "História da Loucura"; a demarcação de dois lados da barricada, num dos quais figurariam Hegel e Goethe, nenhum dos quais ia à bola com o grande K., contando o outro com nomes como Stendhal, Nerval, Nietzsche. Foi também interessante ficar a saber que Robert Walser escreveu sobre Kleist, o que não deixa, bem vistas as coisas, de se adequar a uma certa ordem natural das coisas. Adiante. Na ausência do autor, escusado por se encontrar morto há quase dois séculos (poucos argumentos serão mais convincentes do que este), o tradutor, Rafael Gomes Filipe, também perorou. Não tendo a actriz Manuela de Freitas dado sinal de si, foi o providencial João Grosso quem leu a cena final da peça, juntamente com uma outra diseuse cujo nome me escapa. Quiseram os caprichos da fortuna que ambos se encontrassem à mesma mesa do que eu, pelo que pude desfrutar em pleno desse privilégio raro de escutar as palavras da agonia da rainha das Amazonas misturadas com o ruído urbano das ruas do Bairro Alto, sobre fundo de calma silenciosa induzida pelo princípio de noite.
O proprietário da livraria Eterno Retorno manifestou, sem rir, a ambição de a transformar na melhor livraria de teatro do mundo. Este espaço, sito na Rua de São Boaventura, merece a visita de todos os que habitam a região de Lisboa ou que por lá passam em trânsito, tanto aqueles que cultivam um profundo interesse pelas artes dramáticas como aqueles que não cultivam um profundo interesse pelas artes dramáticas.»


Termino este post chamando a atenção para a omissão de duas falas, uma de Prótoe e outra de Aquiles, na página 111 do livro. Foi o próprio tradutor quem chamou a atenção para este erro da editora. A seguir a «AQUILES Será que isso a amedronta?», deveria estar qualquer coisa como (arriscando uma tradução a partir da versão francesa de J. Gracq): «PRÓTOE Aquilo que não tem nome!... Tu ousarias? Nela? Este corpo tão jovem - monstro como és - vestido com os seus encantos como uma criança de flores, tu ousarias manchá-lo, ousarias rasgá-lo? AQUILES Diz-lhe que eu a amo.», só depois seguindo com «PRÓTOE Como? Que dizes?», etc.


MAIS LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: No metropolitano, uma jovem estava a ler "A Erva Vermelha", de Boris Vian, indubitavelmente uma das melhores coisas que há para fazer num local destes. Não contente com isso, fazia-o de pé, sem se agarrar a nada, o que vale vinte pontos de bónus. Se bem que o meu apego à ordem e legalidade republicanas me leve a reprovar esta violação venial das regras de segurança dos transportes públicos.


ONE OUT OF THREE AIN´T BAD: Na gare de caminho-de-ferro da Póvoa de Santa Iria, uma jovem lia Paulo Coelho (vaias); um pouco mais longe, uma senhora mais madura devorava Marion Zimmer Bradley (apupos); entre as duas, salvando o dia, um adolescente tinha entre mãos "O Livro das Ilusões", de Paul Auster (aplausos entusiásticos da plateia).


Quarta, 12 Novembro, 2003

A PANÓPLIA DO FETICHISTA CINÉFILO, SUITE ET FIN:Chegou a altura de divulgar os últimos artigos que compõem a panóplia do fetichista cinéfilo. Estes últimos 10 objectos são uma selecção das propostas de leitores (obrigado a todos!), para aqui enviadas ou deixadas na caixa de comentários da Janela Indiscreta.
Resta-nos lançar o desafio às entidades públicas e privadas deste país: quem estaria disposto a patrocinar a concretização física desta panóplia, que poderia ser vendida nas grandes superfícies ou por catálogo? Tenham em mente que a fatia de mercado cinéfila não é das menos apetecíveis: basta atentar nos anúncios da L'Oréal que empestam as páginas dos "Cahiers du Cinéma".

91 - Lanterna mágica ("Fanny e Alexander", Ingmar Bergman), sugestão de Cristina Fernandes
92 - Jukebox ("Anjos Caídos", Wong Kar-Wai), sugestão de Lídia Pereira
93 - Penso rápido na nuca de Ving Rhames ("Pulp Fiction", Quentin Tarantino), sugestão de António Lérias
94 - Livro dos "Pieds Nickelés" ("Pierrot le Fou", Jean-Luc Godard), sugestão de Zazie
95 - A buzina do Harpo (filmes dos irmãos Marx, passim), sugestão de Rui Almeida
96 - Saco de treino ("Belarmino", Fernando Lopes), sugestão de Rui Almeida
97 - Livro "Capitale de la Douleur", de Paul Éluard ("Alphaville", Jean-Luc Godard), sugestão de Cristina Fernandes
98 - Coroa de espinhos ("Stalker", Andrei Tarkovsky), sugestão de Cristina Fernandes
99 - Caixa de fósforos ("O Casamento de Maria Braun", Rainer Werner Fassbinder), sugestão de Lídia Pereira
100 - Corda do James Dean ("Giant", George Stevens), sugestão de António Lérias




Terça, 11 Novembro, 2003 (Aniversário do Armistício de 1918)

VERSOS PORQUE SIM: Aconselho a visita ao blog Ruialme, que postou alguns poemas de Marianne Moore, traduzidos por Rui Knopfli. Considero Moore um dos segredos mais bem guardados da poesia americana do século que findou. Pegando na deixa, tomo a liberdade de transcrever um poema desta autora, em versão original, e dirigido a um caracol.

TO A SNAIL

If "compression is the first grace of style,"
you have it. Contractility is a virtue
as modesty is a virtue.
It is not the acquisition of any one thing
that is able to adorn,
or the incidental quality that occurs
as a concomitant of something well said,
that we value in style,
but the principle that is hid:
in the absence of feet, "a method of conclusions";
"a knowledge of principles,"
in the curious phenomenon of your occipital horn.





Segunda, 10 Novembro, 2003

Será que eu já disse que Odilon Redon sabia coisas sobre a felicidade?






EVENTO KLEISTIANO: Está anunciada para quinta-feira, dia 13, pelas 22h, a sessão de lançamento da tradução recente da "Pentesileia". O local é a livraria Eterno Retorno, no nº 42 da rua de São Boaventura, ao Bairro Alto, em Lisboa.
Kleist é Kleist, e claro que farei o possível e o impossível para estar presente. Mas porquê uma hora tão tardia? Esta malta dos livros, classe ociosa e parasita por excelência, dá mostras de escassa consideração para com O Portugal Honesto E Trabalhador, Que Labuta De Sol A Sol Para Ganhar A Côdea.


Domingo, 9 Novembro, 2003

Ponziani recorda-se bem do dia em que tomou a resolução de levar à cena a "Pentesileia", de Kleist. Nesse dia, riu demoradamente para consigo, vagueou um pouco por ruas desconhecidas, e vestiu-se de um pudor manso, ao qual não faltava uma dose de malícia, para esconder o seu corpo e o seu ânimo daqueles que não podiam imaginar a absurda enormidade da tarefa a que se destinara, e que não iriam sofrer aquilo que ele iria sofrer.
Antes e depois, permaneceu em Ponziani a convicção de que a situação mais cruel de todas é essa em que várias pessoas atribuem (sem ousarem confessá-lo) uma importância muito diferente a um vínculo que as une ou ao projecto que partilham.
Mais do que o malogro artístico, Ponziani nunca deixou de temer o momento em que um par de ombros encolhidos ou duas frases polidas e buriladas rabiscadas num bilhete impregnariam o ar e os fluidos de uma banalíssima variedade da solidão.


CINEMA: "Um Filme Falado", de Manoel de Oliveira. O que eu tinha lido e ouvido sobre este filme fazia-me esperar o pior, e infelizmente as expectativas mais funestas confirmaram-se. Em "Um Filme Falado" vem ao de cima a vertente pedagógica e demonstrativa de Oliveira, que já fora responsável por algumas das obras mais fracas da sua filmografia, da supérflua e irritante "Divina Comédia" à embaraçosa "Viagem ao Princípio do Mundo", passando por alguns momentos de "Non". A principal virtude de Oliveira (por mais delicado que seja resumir numa só frase uma obra tão rica) é a capacidade de encontrar soluções visuais e narrativas para ilustrar e sondar os nichos mais recônditos das relações humanas e o seu enquadramento no meio social. Daí que seja incompreensível a eliminação deliberada do elemento de sombra, perversidade sentimental e mistério que fizeram de "Francisca" e "Vale Abraão" obras-primas empolgantes. Conheço poucos exemplos mais eloquentes de suicídio artístico do que este. À reincidência nesta pretensão de ter algo a dizer sobre as razões da história, e sobre os alicerces da civilização ocidental, não será de todo alheia a garantia que tem Oliveira de poder filmar uma longa-metragem por ano. Sem querer relançar a polémica sobre um eventual estatuto semioficial de "cineasta laureado", talvez uma dose moderada de incerteza relativa ao futuro, que é o pão nosso de cada dia de quase todos os realizadores portugueses, fizesse Oliveira pensar duas vezes antes de deixar extraviar desta maneira o seu imenso talento.
Que mais há a dizer? Por mais boa vontade que se queira prodigalizar, a tarefa é ingrata. Os diálogos são de uma indigência aflitiva; as inferências histórico-linguísticas são confrangedoramente superficiais; actores de enormíssima craveira são desperdiçados; o desenlace é um prodígio de ridículo pseudo-escatológico. O único (muito relativo) mérito que pareceria lícito apontar a "Um Filme Falado" será essa liberdade de ocupar o espaço do filme, em todas as dimensões, sem sinal de um qualquer jugo relativo a obrigações dramáticas, apenas ao sabor da lógica e das premissas que o realizador (se) impôs. Mas insistir neste ponto facilmente redundaria na condescendência benevolente com que se acolhe qualquer desvario de um criador nonagenário, de quem já não se espera mais nada de válido. Nem Manoel de Oliveira merece tal, nem os seus brilhantes antecedentes, incluindo em anos recentes, o justificam.


Sexta, 7 Novembro, 2003

RILKE VISITA SHAKESPEARE: Gosto muito do poema de Rilke inspirado em "The Tempest". Aprecio essa intenção que consiste em virar o mito do avesso, dessacralizando-o porque essa é a única forma de o respeitar e de merecer a sua grandeza. Transcrevo aqui unicamente os versos finais. É o espírito Ariel quem fala. A tradução é de Stephen Mitchell.

(Have I let go already? I look on,
terrified by this man who has become
a duke again. How easily he draws
the wire through his head and hangs himself
up with the other puppets; then steps forward
to ask the audience for their applause
and their indulgence.... What consummate power:
to lay aside, to stand there nakedly
with no strength but one's own, "which is most faint.")





DO LIVRE ARBÍTRIO: Eu até nem fazia tenção de comprar o "DN" hoje, mas acabei por comprar.


CONTRARIANDO TODAS AS EXPECTATIVAS... "India Song" escapa à bolinha preta do, abre aspas, crítico, fecha aspas, Eurico de Barros, e merece uma-estrelinha-uma!!!!! Eis um sintoma claro de amolecimento e de cedência face às ubíquas tendências intelectualóides, narcisistas e marxistas do cinema contemporâneo. Se já não podemos contar com o grande Eurico para separar o trigo do joio (e guardar o joio, bem entendido), a coisa complica-se. Levem-nos os anéis e os dedos, mas não as nossas referências morais.


APENAS PARA ADULTOS DE SÓLIDA FORMAÇÃO MORAL: Este aviso que, outrora, fazia parte do repertório das comissões de censura, mereceria talvez ser posto novamente em prática para um filme que acabou de estrear em Portugal: "India Song" (1975), de Marguerite Duras. Relembro a experiência de visionar este filme como o equivalente emocional a um soco no estômago, complementado por uma pressão abrasiva e duradoura, e por um bafo adocicado e malsão. O grito fora de campo de Michael Lonsdale é das coisas mais dilacerantes que me foi dado escutar alguma vez, fora ou dentro de uma sala escura.
No "DN" de hoje, João Miguel Tavares aconselha este filme «apenas a devotos fervorosos da escritora francesa». Não estou de acordo. "India Song" é recomendável a todos aqueles que: (1) possuem um mínimo de abertura e flexibilidade relativamente àquilo que esperam de um filme, e (2) aceitam que, juntamente com o bilhete que dá acesso à sala, não é suposto vir a garantia de que o espectador sairá incólume da experiência.


PORQUE NÃO TENCIONO IR VER "OS IMORTAIS": Por duas razões: (1) porque António-Pedro Vasconcelos declarou, certa vez, que a culpa de tudo o que de mal sucede ao cinema europeu é do Godard, e (2) porque Joaquim de Almeida faz parte do elenco. Portanto, uma questão de princípio e uma questão de salubridade. Respectivamente.


LUGARES DE PARIS: Na carruagem de metropolitano, entre as estações do Campo Grande e Alvalade, o homem de pé ao meu lado fala ao telemóvel, segundos antes de perder a rede: «Davái, davái. Paká.» Recordo-me instantanemente das minhas aulas de russo no Centre Pouchkine, Rue Boissière, perto da Avenue Kléber e do Trocadéro. Depois de duas horas de pugna contra consoantes e vogais inverosímeis, sempre à beira da glossoplegia, era com alívio que se saía para a rua. Um périplo pelo muito alto-burguês e muito sisudo seizième arrondissement, com passagem pela animada Rue des Belles Feuilles e pela Avenue d'Eylau, com vista para a torre Eiffel (cuja silhueta surgia, de modo não excessivamente previsível, do outro lado do Sena), contribuía para dissipar o frio, se frio houvesse, e servia de intróito ao resto do fim-de-semana.


ADVERTÊNCIA AOS JOVENS ou OS SÍMBOLOS ENTRE NÓS: Muito recentemente, tive o privilégio de pôr a vista em cima de algo deveras insólito: uma mesa de matraquilhos na qual a cabeça dos guarda-redes, e apenas dos guarda-redes, tinha sido decepada. Vivemos - é caso para dizê-lo - num universo pejado de signos, sinais, augúrios e erupções semióticas da mais diversa índole. Se a juventude deste país não lê nem Saussure nem Pierce, poderemos depositar esperança no dia de amanhã?


ARTIGO 271, NÚMERO 1:

«Os funcionários e agentes do Estado e das demais entidades públicas são responsáveis civil, criminal e disciplinarmente pelas acções ou omissões praticadas no exercício das suas funções e por causa desse exercício de que resulte violação dos direitos ou interesses legalmente protegidos dos cidadãos, não dependendo a acção ou procedimento, em qualquer fase, de autorização hierárquica.»

- Muito bem. Agora outra vez, mas com o teu trejeito de sibila cabisbaixa, um contraluz mais amigo de perfis do que de frontes, e sobretudo PROJECTANDO A VOZ.

«Os funcionários e agentes do Estado e das demais entidades públicas são responsáveis civil, criminal e disciplinarmente pelas acções ou omissões praticadas no exercício das suas funções e por causa desse exercício de que resulte violação dos direitos ou interesses legalmente protegidos dos cidadãos, não dependendo a acção ou procedimento, em qualquer fase, de autorização hierárquica.»




Quarta, 5 Novembro, 2003

O BANDO DOS QUATRO: Os gurus da Nouvelle Vague voltam a atacar. Se pretender saber informações sobre os mais recentes filmes de Jean-Luc Godard ("Notre Musique"), Jacques Rivette ("Histoire de Marie et Julien"), Éric Rohmer ("Triple Agent") e Claude Chabrol ("La Demoiselle d'Honneur"), basta recorrer ao sempre útil botão esquerdo do seu rato.
A estreia do filme de Rivette está marcada já para dia 12. Esta é, definitivamente, uma má altura para não se estar em França. Por ser obra de quem é, e por uma infinidade de outras razões, este filme merece um enlace extra, com mais informações supérfluas e crocantes.
Resta-me esperar que estes filmes, sobretudo os três primeiros, cheguem rapidamente às salas portuguesas. Farei o possível para marcar presença no dia da estreia, na sexta fila a contar do ecrã, oitava cadeira a contar da coxia do lado esquerdo.


POST ABERTO A UM BLOG: Caro blog Homem-a-Dias, eu gostaria muito de perceber o sentido das seguintes frases, passo a citá-lo:«aproveitámos para discorrer de modo alarve acerca das minorias oprimidas, incluindo os 'gays' e os leitores da sra. Maria Gabriela Llansol (perdoem a redundância)». Por mais que eu porfie, o seu alcance escapa-me. Muito obrigado. Cordialmente, Alexandre.



SEGREDO, SIGILO, SURDINA: O nosso segredo era um berlinde num fundo de bolso coçado. O tempo arredondava-se sem morder calcanhares, no interior de um recinto frio e mal iluminado.
Saíamos para a rua apressados e furtivos, lançando olhares oblíquos aos semáforos e frontarias. Os lábios moviam-se num balbuceio veloz feito de deixas e de recriminações contra a absurda crueldade das mesmas.
O Ponziani prevenira-nos contra as aparências. Que as aparências iludem é já bem sabido; faz parte do seu papel. Mais grave é quando toda uma cidade se disfarça de decreto e terreiro da coisa pública, escondendo veleidades de conspiração que fervilham sob cada tecto e em cada nicho.
Lisboa.
Agora já não somos nada. Nem sequer peões transidos pelo medo de morrer, desgastados pelas batalhas, sacudidos por vagos impulsos patrióticos. Mas o nosso segredo portátil continua a magoar a carne, a encher os nossos quotidianos e a conter inserções azuis solenemente belas.


E O PRÉMIO "WHO CARES!" DESTE MÊS VAI PARA...:...Felipe de Borbón, Letizia Ortiz e sobretudo para todos os órgãos de comunicação social que atribuem ao noivado um destaque desadequado à importância do evento, ainda que proporcional ao teor de pirosice do mesmo. Direitinho e sem hesitações.
Por qualquer razão, cada vez que escuto ou leio referências aos pombinhos do palácio da Zarzuela sinto uma vontade, difícil de controlar, de ler as obras completas de Guerra Junqueiro e Gomes Leal.


Segunda, 3 Novembro, 2003

T'AS DE BEAUX YEUX, TU SAIS?/EMBRASSE-MOI: No Quartzo, Feldspato & Mica foi feita referência ao comentário de um economista, penso que de além-Atlântico, a propósito de uma alegada indigência de ideias do cinema francês desde a Nouvelle Vague. Duvido que o cavalheiro seja entendido nas coisas desta arte a que chamam a sétima; contudo, seja qual for a autoridade desse crítico em botão, a ocasião é esplêndida para debitar uma achega que me provoca comichão nas meninges desde a recente Festa do Cinema Francês. Impressionou-me, com efeito, que tivesse sido possível montar uma retrospectiva de estreias recentes, totalizando mais de uma vintena, capaz de servir de montra da extraordinária variedade de registos, ideias e sensibilidades do cinema hexagonal contemporâneo, sem precisar de recorrer (por opção ou por uma questão de timing) a obras de alguns dos realizadores mais ousados e excitantes das últimas gerações: Arnaud Desplechin, Claire Denis, Alain Guiraudie, Laetitia Masson, Olivier Assayas... Isto já para não falar dos quatro mosqueteiros da Nouvelle Vague, Godard, Rivette, Rohmer e Chabrol (Truffaut faleceu nos anos 80), todos eles com novos filmes em rodagem, pós-produção, ou prontos a estrear (noutro dia hei-de procurar os respectivos enlaces, hoje não tenho tempo).
Que a produção cinematográfica francesa é prejudicada por certos maneirismos e círculos viciosos, sou o primeiro a reconhecê-lo, e o menor dos quais não será a aversão aos grandes temas (as excepções evidentes são Leos Carax e Bruno Dumont), que facilmente degenera, por reacção, em filmes na primeira pessoa, estéreis e narcisistas até ao extremo. Mas a diversidade é tão grande, e as excepções a esta regra tão frequentes, que é caso para dizer que a única regra é a ausência de tendências solidamente definidas. O que se adequa, de resto, ao temperamento iconoclasta, independente e inconformista que caracteriza a maioria dos intelectuais e criadores franceses.
Outra tema para discussão seria a omnipresença de dinheiro francês no cinema de autor que se faz por esse mundo real (com acento no "real") fora. Ainda outro dia, no genérico final do filme "Dogville", não deixei de assinalar a quase inevitável referência ao Canal +.


RESUMO DA TELENOVELA "O TEU OLHAR": DISCURSO DIRECTO:

«Mãe, onde estás? Ah, estás aqui.» «Oh, desfaleço.» «Júlia, vem cá. Estou preocupada com o estado de saúde da Vera.» «A malvada da Júlia colocou o Francisco contra mim. Sai da minha casa, Júlia.» «Vou-me embora.» «Miguel, a Margarida ligou e está viva.» «Essa notícia deixa-me muito contente.» «Rui, bem sei que não concordas, mas vou ter com a Margarida.» «Mas a Margarida vai estragar-te a vida.» «Ah, já sei quem tem o meu telemóvel.» «Olá Margarida, desculpa ter pensado que tinhas morrido.» «Recordei-me do acidente, mas confundi com a actualidade, pois aparecias nas minhas memórias.» «Aaaaaaaaaaaaaaaarghhhhhhhhhhhhh!!!»




RESUMO DA TELENOVELA "O TEU OLHAR": DILAÇÕES:

Daniela procura a mãe no jardim, procura-a durante muito tempo, procura a mãe por toda a parte, por todos os recantos do jardim, e quando a encontra esta acaba por desfalecer nos seus braços. Preocupada com o estado de saúde de Vera, Daniela volta-se para Júlia, abre a boca para a chamar, começa a mover os lábios, o som é produzido pela vibração das suas cordas vocais e pela ressonância nas cavidades respectivas. Vera não encara com bons olhos a presença de Júlia, hesita, olha para Júlia, hesita, arranca um borboto da camisola, suspira, fecha as persianas, vai fazer uma chávena de cacau, acusa Júlia de ter colocado Francisco contra ela e pede-lhe que saia de sua casa. Desesperada, Júlia tenta explicar-se, não consegue, tenta novamente, com maior lentidão, não consegue, separa as sílabas e soletra, vai-se embora. Rui abre a boca para falar com Miguel, pesa cada palavra antes de a pronunciar, recomeça várias vezes, conta a Miguel que Margarida ligou e que está viva. Miguel demora três semanas e quatro dias a interiorizar o significado desta notícia, e quando isso sucede não cabe em si de contentamento. Miguel faz bolinhas com o miolo de pão que vai arrancando, primeira bolinha, segunda bolinha, terceira bolinha, quarta bolinha, quinta bolinha, sexta bolinha, até que, contra a opinião de Rui, diz que vai ter com Margarida, arrastando as frases. Rui insiste que Margarida vai-lhe estragar a vida, procura-o novamente no dia seguinte para insistir que Margarida não presta, deixa passar duas estações do ano antes de insistir novamente. Sérgio procura o seu telemóvel, procura-o no quarto, na sala, na casa-de-banho, na varanda, na cozinha, entre cada divisão dorme uma sesta ou redige listas de compras, encontra o telemóvel, liga para o seu telemóvel que está na posse de Paula, carregando nas teclas com pachorrenta demora, e fica a saber quem é que o tem. Miguel reencontra Margarida na rua, avança na sua direcção, faz com que a distância entre ambos diminua, quatro metros, três metros, dois metros, meio metro, pede-lhe desculpa por ter pensado que ela tinha morrido. Passam-se duas horas sem que nenhum diga nada. Margarida abre a boca, olha para ele, cordas vocais, cavidades ressonantes (vide supra), diz-lhe que se recordou do acidente, embora tenha confundido com a actualidade, uma vez que ele aparecia nas suas memórias. Miguel não entra em pânico. Miguel não entra em pânico. Miguel não entra em pânico. Miguel entra em pânico.




O CRIME COMPENSA: Num rasgo de ousadia que deve ter provocado uma epidemia de sonhos húmidos na legião dos inimigos do politicamente correcto, o suplemento "DN Empresas" atribuiu o seu troféu ("melhor de 2002") à Tabaqueira e ao seu wunderkind Martin King (aka "King Size"), que trocou Nova York por Lisboa e se declara encantado com a beleza do nosso país (a costela humana do empresário).
Pessoalmente, repugna-me até à medula da medula ouvir falar em "quotas de mercado", "aumento de produção" e "performance" quando o produto que está em causa, em vez de rolhas de cortiça ou batedeiras eléctricas, é o maior indutor de mortes evitáveis no mundo ocidental. Por mais que se tente fazer passar a mensagem, uma tabaqueira não é uma empresa como as outras, e parece-me incorrecto, para não dizer obsceno, avaliar os seus resultados económicos sem ponderar o impacto negativo na saúde pública. E se me perguntarem se se trata de lançar o opróbrio sobre uma empresa cotada na bolsa e que é responsável por quase um milhar de postos de trabalho, pois bem, responderei que não tenho problema em falar de opróbrio. Chamemos os bovinos pelos respectivos nomes e apelidos. E quando o sr. King traz para a berlinda as "acções de responsabilidade social" (agudíssima ironia...) que a Tabaqueira conduz, eu limito-me a fazer notar que sempre houve maneiras de comprar a culpa. Na era do avião a jacto, as indulgências seriam estratagema demasiado rudimentar...
Quanto ao apelo para que seja criada legislação sobre a idade mínima para a compra de tabaco, estamos confortavelmente instalados no zénite da hipocrisia. O sr. King demonstraria por certo menor apego a essa ideia se acreditasse que uma tal legislação seria passível de aplicação eficaz. Uma redução drástica no consumo de tabaco por menores acarretaria uma forte diminuição, a curto e médio prazo, do mercado interno da Tabaqueira, pois é sabido ser nessas idades que existe maior tendência para ceder ao vício. (Mas existiria sempre o mercado de exportação, de preferência para países com legislações mais permissivas ou inexistentes, e sem restrições à publicidade.)
O segundo classificado do troféu "DN Empresas" foi a Danone, que massacra os cidadãos deste país (e provavelmente outros) com publicidade enganosa a respeito das propriedades antivirais e/ou antibacterianas do Actimel. Bom dia ética!.


Ludwig Wittgenstein

«Die Welt des Glücklichen ist eine andere als die des Unglücklichen. (O mundo dum homem feliz é diferente do dum homem infeliz.)» (Ludwig Wittgenstein)







Domingo, 2 Novembro, 2003

CINCO EM CINCO: Acabo de assistir a uma coisa fora de série. No concurso "Quem Quer Ser Milionário?", uma das perguntas da sessão de hoje era mais ou menos assim: «Com que actriz foi casado Federico Fellini? A) Sophia Loren; B) Giulietta Masina; C) Gina Lollobrigida; D) Monica Vitti.» Infelizmente, o responsável pela redacção da pergunta logrou o raro feito de se enganar na ortografia dos nomes de todas as personalidades citadas: "Frederico" em vez de "Federico", "Sofia" em vez de "Sophia", "Massina" em vez de "Masina", "Lolobrigida" em vez de "Lollobrigida", "Mónica" em vez de "Monica".
Não existirá um revisor para estas coisas? Será tarefa demasiado dura e exigente pegar numa enciclopédia, passar cinco minutos em frente a um computador ligado à Internet, e verificar?
A exactidão na transcrição dos nomes estrangeiros não é uma modalidade de pedantismo. É um sintoma da maior ou menor preocupação que se dedica às culturas estrangeiras, e é um excelente sítio para se começar a respeitar aquilo que é estranho e pouco familiar. Nos jornais e revistas portugueses, é praticamente impossível percorrer-se em diagonal as secções de actualidade internacional, artes ou desporto sem se detectar vários nomes estrangeiros estropiados, amputados ou permutados. Por vezes, sucede que as ortografias variam do cabeçalho para o corpo da notícia, e deste para a legenda da fotografia, sem que nenhuma das versões seja a correcta. E isto não tinha que ser assim. Bastava um pouco de cuidado, de profissionalismo, de humildade.
(Pequeníssimo consolo: a maioria do público sabia que a resposta certa era a B, se bem que por curta margem.)


A PANÓPLIA DO FETICHISTA CINÉFILO, 81 A 90 (DE 100):

81 - Ramo de violetas ("City Lights", Charles Chaplin)
82 - Uniforme de porteiro de hotel ("O Último Homem", F.W. Murnau)
83 - O bâton da Barbara Sukowa ("Lola", Rainer Werner Fassbinder)
84 - Tabuleiro de xadrez ("O Sétimo Selo", Ingmar Bergman)
85 - Dois biscoitos "sablés", devidamente embrulhados ("La Boulangère de Monceau", Éric Rohmer)
86 - Óculos de aviador ("Only Angels Have Wings", Howard Hawks)
87 - Arco de viola da gamba ("Tous les Matins du Monde", Alain Corneau)
88 - Candelabro ("La Belle et la Bête", Jean Cocteau)
89 - Tecla de piano ("The Piano", Jane Campion)
90 - Botas altas pretas ("Le Journal d'Une Femme de Chambre", Luis Buñuel)




Sábado, 1 Novembro, 2003

CINÓPOLIS: Fui por fim ver "Dogville". Ditirambos expansivos, divagações e bemóis ficarão para mais tarde. O que posso afirmar desde já é que considero ser este, para já, o filme do ano (deixando fora de competição o excepcional, a todos os títulos, "Vai-e-vem").


VIDA CIVIL: A revelação feita pela Natureza do Mal a respeito da minha pessoa e do meu passado requer um esclarecimento urgente. Por não ser o curso que frequentei reconhecido pela ordem dos engenheiros, a expressão "engenheiro físico", em rigor, não se deveria aplicar.
Que fique claro que não me arrependo de nada. Mas suponho que Torquemada, Casanova e Rasputin terão todos dito algo de semelhante, nalgum momento das suas vidas.


LUGARES DE PARIS: Paris é uma cidade de enormes dimensões, com muitas ruas, bairros e edifícios. Algures entre a antiga fábrica de tapeçaria dos Gobelins e o hospital da Salpêtrière encontram-se ruas com nomes maravilhosos, como por exemplo Rue Pirandello, Rue de la Reine Blanche, Rue Véronese. Foi numa destas ruas que viveu, ainda que por pouco tempo, uma pessoa chamada Cristina V., singularmente dotada para o teatro, mas que ganha a vida fazendo desenhos para revistas e dando explicações de alemão. O seu apartamento era exíguo, mas a C. sonhava com uma casa enorme, com cozinha, sala de estar, sala de comer, quarto de dormir, e um quarto para escutar e reflectir sobre cada uma das "Images" de Debussy: um quarto para "Reflets dans l'eau", um quarto para "Hommage à Rameau", um quarto para "Mouvement", um quarto para "Cloches à travers les feuilles", um quarto para "Et la lune descend sur le temple qui fut" e um quarto para "Poissons d'or".
Durante a noite, cada uma das janelas de cada quarto mostraria ao mundo exterior o seu rectângulo de luz amarela, em lenta, grave e animada sucessão.


A POESIA VAI ACABAR?: A resposta é "não", bem entendido, mas alguns repentes de alarmismo pela boa causa contribuem para espicaçar os espíritos e avivar as chamas do alerta permanente. Deste (repente) encarregou-se a Cristina Fernandes, da Janela Indiscreta, que organizou uma antologia de poemas sugeridos por bloggers, a saber: a Ana, a Lídia (permanentes) e a Zazie (colaboradora ocasional), da própria Janela, o Ivan, da Memória Inventada, o Luís da Montanha Mágica, o Rui do Quartzo, Feldspato & Mica, o José Manuel do Rainsong, o Mário da Retorta, o Crítico, e eu próprio.
O resultado final, em formato PDF, pode ser visto, lido e importado aqui.
Os poemas que constam da minha selecção pessoal não são os poemas que eu levaria comigo para uma ilha deserta, mas talvez os poemas que eu abandonaria num trigal, num dia de chuva, a dois mil quilómetros do sítio onde vivo.
Faltou o Celan. Faltou o Celan, que tão bem se adequaria a algo que evoca um fim próximo ou a sua ameaça.



EPIDERME E MÁXIMA

A intenção moral dos dois dedos que rodeiam a terceira vértebra dorsal.
A intenção moral do joelho que aflora a anca.
A intenção moral da testa que pressiona a omoplata.
A intenção moral do peito do pé que testa o tendão do tornozelo.
A intenção moral do nó do dedo rente à pálpebra fechada.
A intenção moral dos lábios colados ao ventre.
A intenção moral do queixo sobre o lóbulo da orelha.
A intenção moral da perna paralela à perna.
A intenção moral da unha que toca nos dentes incisivos.
A intenção moral da planta de pé que toca no palco que toca noutra planta de pé.
A intenção moral da palma da mão que empurra o peito.
A intenção moral do cotovelo junto à nádega.
A intenção moral do pulso solidário com o pomo de Adão.
A intenção moral do cabelo liso misturado com cabelo ondulado.
A intenção moral do polegar sobre o malar.
A intenção moral do braço que comanda o tronco.
A intenção moral do calcanhar que procura o flanco.
A intenção moral das falanges sobre a clavícula.
A intenção moral do ombro contra ombro.