Heinrich von Kleist (1777-1811)Liberté Egalité FraternitéNo tabuleiro de xadrez, as mentiras e a hipocrisia não duram muito (Em. Lasker)Monty Python forever!

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novembro 2004

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Terça, 30 Novembro, 2004

WHO'S THAT BOY?: Quem é Kleist, afinal? Escritor de génio? Espalha-brasas sobrevalorizado? Mera nota de rodapé? Figura charneira? Kleist é o elemento legitimador doblog, quimérica justaposição de musa, pretexto e referência moral. Tem vocação para dogma. Cavalga sobre prados enlameados pela chuva, sem olhar para trás nem para os lados. Enquanto houver algo a dizer sobre Kleist (ainda que esse "algo" não seja mais do que uma observação ociosa por cada lua cheia), haverá razão para manter a bandeira verde alface hasteada.


POESIA INVOLUNTÁRIA: João Miguel Fernandes Jorge deu ao seu último volume de poesia o título "Invisíveis Correntes". Ao que parece, trata-se de um termo oriundo da esfera semântica das finanças. O mundo financeiro é um manancial empolgante de lirismo involuntário. Quase ao acaso, cito um excerto do último relatório e contas do banco BNP Paribas. «A avaliação dos instrumentos estruturados, combinação sintética de instrumentos contabilizados num único lote, é efectuada por agregação da avaliação unitária de cada instrumento elementar que os compõem. O seu registo contabilístico é em contrapartida assimilável ao de um único instrumento ao qual corresponde um montante nocional único no registo extra patrimonial consolidado, e um fluxo líquido único no seio da demonstração de resultados consolidada.» Os poetas portugueses fazem mal em menosprezar esta rispidez abstracta, diria mesmo viril. "Montante Nocional" seria um óptimo nome para um livro de Nuno Júdice, por exemplo.


A CABALA (5): A cabala insinua a sua cabecita venenosa nos socalcos pedregosos e férteis da vida pública nacional. O doutor Morais Sarmento é quem briosamente encabeça a luta contra a cabala, em todos os seus avatares. O doutor Morais Sarmento, a propósito da demissão do ministro Henrique Chaves, afirmou que a (na altura hipotética) dissolução do parlamento não passava de um "facto que não existe". Eis, pois, que no Mundo cabe também aquilo que não é o caso! O doutor Morais Sarmento nega o Wittgenstein do "Tractatus" com a desenvoltura de um exegeta incendiado por justíssima convicção. A cabala tem o condão de trazer ao de cima aquilo que de mais ousado se alberga nos âmagos dos nossos Mais Altos Responsáveis.


A IGNORÂNCIA NÃO OCUPA LUGAR: Após 33 anos de vida, mais alguns trocos, ainda não sei o que é um galão de máquina.


Segunda, 29 Novembro, 2004

FAMOSAS ÚLTIMAS PALAVRAS (4):

«Quando, um dia, num dos seus momentos de felicidade, o Conde perguntou à esposa por que razão, naquele malfadado dia três, quando parecia disposta a aceitar um qualquer depravado, tinha fugido dele como se fosse um diabo, ela, lançando-se-lhe nos braços, respondeu-lhe que não lhe teria parecido um diabo se não lhe tivesse surgido da primeira vez como um anjo.» (Heinrich von Kleist, "A Marquesa de O...", tradução de José M. Justo)





ANÚNCIOS DE GATO PERDIDO INVENTADOS (2):

PERDEU-SE LINDO GATO
Subitamente, na sequência de um momento de distracção, para o qual reclamo atenuantes
Raptado, sem dúvida, por um qualquer facínora que queria caçar sem ter cão
Soberano na sua pelagem abundante e lustrosa
Dado a ímpetos caprichosos
Gosta de leite magro ou meio gordo
Responde ao nome de "Palamède", e a nenhum outro
Pode estar neste momento por detrás de qualquer esquina, porque não da sua?
A pergunta anterior é retórica
Garras comparáveis a estiletes
Quanto ao focinho, não falemos dele
Eterna gratidão a quem o encontrar, e a mim o trouxer, aninhado num regaço com forma de corpo de felino, que visão mimosa!
E alvíssaras sonoras
Resposta a este número...
Por favor evitar a hora do programa radiofónico do José Duarte





NO CHIADO À TARDINHA ÀS VEZES: Desde Outubro que a geladaria Häagen-Dazs do Chiado se converteu (e com que graciosidade! com que discrição!) num espaço não fumador. O que não é senão uma razão acrescida para visitar assiduamente este local tão aprazível, mesmo à mão de semear do teatro São Carlos. Depois de uma sessão de vitupérios dirigidos a uma soprano incompetente, nada como uma bola de Macadamia, com topping de amêndoas lascadas, para dissipar o fel da melómana indignação.


Terça, 23 Novembro, 2004

KLEIST MANUSCRITO: Inspirados pela iniciativa "Bíblia manuscrita", temos a honra e o prazer de lançar o projecto Kleist manuscrito. Trata-se, como o nome indica, de copiar à mão a integralidade da obra de Kleist, incluindo as suas colaborações para as "Berliner Abendblätter". Esta iniciativa começará em breve a percorrer as escolas deste país, para edificação da nossa gente moça. Diversas personalidades da política, sociedade e espectáculo, manifestaram já o seu apoio. Para cobrir as despesas, o privilégio de copiar certos trechos particularmente cobiçados será atribuído a quem mais der. Por exemplo, a licitação para os diálogos em que as amazonas descrevem a maneira como Pentesileia limpa o sangue da flecha que abateu Aquiles atingiu já a meia centena de euros, superando as mais ousadas expectativas.


Segunda, 22 Novembro, 2004

VERSOS PORQUE SIM:

O vidro embaciado, uma visão por dentro.
A temperatura à volta, o olho do tempo
a velar a casa. Se a ventania sopra,
se as plantas vibram ou as sombras tumultuam
esse é o exterior. Fechadas as portas
as salas são imensas e o travejamento
arqueia devagar. Deslizam os silêncios,
as pequenas ondas, as superfícies lisas
dessa casa. Uma habitação, uma cisterna
onde a alma ecoa. O ar cai na vertical,
um eixo estende o fio, o homem está a girar
em quase nada. E esse é o interior.


(Carlos Poças Falcão)




Quarta, 17 Novembro, 2004

DOS DOIS PESOS E DAS DUAS MEDIDAS:

«The secretary of state is America's face to the world, and in Dr. Rice the world will see the strength, the grace and the decency of our country.»

Isto disse George W. Bush, ao anunciar a nomeação de Condoleezza Rice para a secretaria de estado. Pergunto eu: que magnitude assumiriam as vociferações da brigada da francofobia, se Chirac, ou outro alto responsável, falasse da "força", da "graça" e da "decência" da França? Por razões que mereceriam um estudo, uma reputação de arrogância e de prepotência colou-se à França. Mas é do outro lado do Atlântico que a grandiloquência messiânica e a vontade de dar lições ao Mundo mais viçosamente medram. Pouco importa. A reputação pode pesar mais do que todos os quintais de bom senso colocados no outro prato. E nada disto é inocente.


A CABALA (4):

A cabala está por toda a parte.
A cabala corrói as fundações da sociedade.
A cabala esquiva-se aos que a procuram, e prefere os limbos, os discretos nichos urbanos que o hábito e a cartografia esquecem.
A cabala alimenta-se de sinais maçónicos e de cambiantes de azul.
A cabala é parasita dos gestos quotidianos, da mão que ajusta a alça do vestido e do joelho que dobra para subir um degrau.
A cabala pinta orelhas gigantescas num muro de casa senhorial, com uma lata de tinta Robbialac.
A cabala contraiu uma variante rara das febre dos fenos.
A cabala vai ver uma representação da ópera "La Fanciulla del West", de Puccini, e deprecia o trabalho do barítono.
A cabala subverte os valores.
A cabala vai visitar um cunhado a Arraiolos.
A cabala não confunde epicurismo com indolência auto-complacente.
A cabala faz proselitismo num supermercado dos subúrbios.




Terça, 16 Novembro, 2004

PARTITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Os quartetos de cordas, de Mendelssohn, na posse de um jovem, sentado ao meu lado, também na infalível linha verde.


LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na linha verde do metro, um cavalheiro estava mergulhado na leitura de "Les Chouans". Espero, do fundo do coração, que o fizesse por razões estritamente literárias, e não por admiração ou afinidade ideológica para com a chouannerie anti-republicana, representada neste romance do jovem Balzac em matizes excessivamente românticos.


ANÚNCIOS DE GATO PERDIDO INVENTADOS (1):

PERDEU-SE LINDO GATO
Na trama ortogonal das artérias do nobre bairro de Campo de Ourique
Pardo da alvorada até ao crepúsculo, e deste até àquela
Com penacho branco em posição parieto-occipital
Responde pelo nome de "Saint-Loup", pronunciado com a devida suavidade
Gosto muito dele, mesmo muito
Cauda tão graciosa que quem vê nunca mais esquece
Sobre a sua silhueta permito-me guardar silêncio
Por favor estejam atentos
Não se distraiam com conversas de fila de padaria
Um segundo de desatenção pode fazer toda a diferença
Imperativo encontrá-lo antes da estação das chuvas e da concomitante queda barométrica
Telefonar para este telefone...
Se ninguém responder, contar mentalmente os números primos até 1000, e tentar de novo




TO WHOM IT MAY CONCERN: Gaivotas extraordinariamente vorazes rondam a esplanada do Palácio de Cristal, no Porto. Apreciam azeitonas, mas desdenham os caroços.


Quinta, 11 Novembro, 2004 (Aniversário do Armistício de 1918)

OPACIDADE: A propósito de um poema de Herberto Helder, António Ramos Rosa escreveu (em "A Parede Azul", Editorial Caminho, 1991): «Esta linguagem é incandescente e de uma precisão absoluta na sua opacidade fulgurante; a sua efervescência é lenta, de uma lentidão musical e de uma materialidade que não é "mundana" mas anti-mundo.». O poema em questão contém os versos:

- A lenta estátua carregando a sua estrela até se atrasar
noutras pupilas deslumbradas

Gosto da ideia de uma opacidade precisa. E, por gostar dela, decidi mencioná-la aqui.


"AMUSE-GUEULES": Enquanto não desencanto o tempo para escrever alguma coisa, com um mínimo de consistência, acerca do caso Buttiglione e da laicidade, aqui fica, em guisa de acepipe, uma divertida reacção às leis laicas que o governo Zapatero (nisto superando as minhas expectativas mais optimistas) tem feito aprovar, na tão próxima e tão distante Espanha.
Após a lei que tornou possível o casamento de homossexuais, o bisco de Alcalá de Henares, Jesus Catalá, declarou (citado no "Público" de 31/10): «Ser homossexual é uma anormalidade psicológica, digamo-lo com as palavras certas, os homossexuais são invertidos, [pois] a homossexualidade é um desvio sexual aprendido, há médicos que trataram homossexuais na América que o deixaram de ser.» E ainda: «Muitos são homossexuais porque o seu pai era bêbado e eles decidiram que não queriam ser como o pai».
Acredito, apesar de tudo, que esta será uma posição extrema no âmbito da igreja católica espanhola (caso contrário a situação é ainda mais grave do que suponho). O porta-voz da Conferência Episcopal Espanhola, Martínez Camino, terá declarado: «Cada bispo pode dizer o que bem entender, a Igreja Católica, ainda que pareça o contrário, está muito longe de ter a disciplina organizada de um partido». Há aqui confusão entre a liberdade de expressão e o disparate puro, mas passemos adiante.
Sim, com a reeleição de Bush, as tensões inter-comunitárias na Holanda e o episódio Buttiglione, urge cada vez mais discutir as contribuições que os modelos laicos poderão trazer para aliviar alguns dos problemas mais sérios que as sociedades enfrentam. E está, decididamente, na hora de opor contra-argumentação àqueles cronistas (Luís Delgado, Helena Matos, João César das Neves) que teimam em atiçar o fantasma do "politicamente correcto", suposta cartilha de uma "internacional bem-pensante" que imporia o seu pensamento único às opiniões públicas. (Muito mal estaremos se deixarmos espécimes como Luís Delgado auto-erigirem-se em campeões da liberdade de expressão.)
Sobre este último assunto, aliás, muito do que eu teria a dizer foi já dito num post recente desse excelente blog que é a Klepsýdra.


A CABALA(3): O verdadeiro artesão-conspirador não ignora as virtudes da ausência de motivo numa cabala. Derrubar governos, dominar as engrenagens de uma sociedade a partir dos bastidores, não passam de metas despiciendas, carentes de elegância, demasiado implicadas no tempo histórico e nos modos do mundo. Quem cultiva o segredo sabe que as componentes lúdica e vital (vem de "vida") de um segredo interpenetram-se, tumultuosamente comungam. Quem traz na mão um penhor, e nos lábios uma senha, mistura as tortuosas segundas intenções com a lista das compras e as migalhas para os pombos. Seria demasiado decepcionante ter de admitir que cada rosto plácido e impassível, cada sorriso largado ao ar e em público, não escondesse o seu reverso, sob a forma de frase impronunciável para os não iniciados. O segredo não se oculta: pratica-se, exprime-se por meio do corpo em movimento, desenrola-se no tempo com fúria humilde. Esta última frase é sobre a intimidade.


Quarta, 10 Novembro, 2004

O APELO DE TODA UMA GERAÇÃO: Para quando uma versão online da "Dica da Semana"?


LEITURAS: Algures no segundo terço do romance "Moby-Dick", de Herman Melville, sucede algo de surpreendente e sublime: o narrador, Ishmael, que até aí protagonizara não poucas peripécias e episódios, mais cómicos do que trágicos, abdica com elegância do seu estatuto, do seu corpo e do seu ímpeto de personagem, para se resumir a olho que vê, mão que escreve e sentido moral que julga. Neste processo de apagamento, Ishmael transmuta-se de interveniente em pura categoria literária, veículo da perplexidade que a monomania do capitão Ahab suscita. Como se possuir história pessoal e motivações, e capacidade para participar na acção, fossem predicados incompatíveis com a missão de exprimir a enormidade apocalíptica da última viagem do baleeiro "Pequod".
Ao longo das décadas, gerações de comentadores têm manifestado o seu fascínio pela vastíssima pluralidade de significados e leituras que a figura da baleia branca alberga. Talvez o preço a pagar pela possibilidade de exprimir essa sufocante densidade simbólica seja a aniquilação ontológica da personagem Ishmael (a única que dela está ciente, e que a explora com uma profusão obsessiva que quase o irmana com o tresloucado Ahab). O sacrifício ocorre unicamente na esfera literária, uma vez que Ishmael é o único sobrevivente do naufrágio final. Mas essa sobrevivência miraculosa é ainda condição necessária para que o livro exista, logo atributo do narrador. Existe continuidade entre o homem sem passado que se apresenta na primeira fase do primeiro capítulo, a personagem que se funde na escarpada paisagem dos desígnios do livro, e a singularidade ofegante que emerge por entre destroços de um navio. A história só existe se houver alguém para a contar. Em todos os momentos, Ishmael nunca deixou de servir esse altíssimo propósito, tão desmedido e implacável como o cetáceo que serviu de pretexto e agente da devastação.


Terça, 9 Novembro, 2004

O GAMBITO DIOR: Sabiam que a super-modelo Carmen Kass é também a presidente da federação de xadrez da Estónia? Incrível mas autêntico. Clique na fotografia para saber mais. (À direita, na foto, aparece o indiano Vyswanathan Anand, por muitos considerado o melhor jogador do mundo hoje em dia.)






Quinta, 4 Novembro, 2004

ENÉSIMO PARÊNTESIS: É provável que os próximos dias sejam vazios de posts de qualquer espécie ou feitio. E aproveito para pedir encarecidamente desculpa àqueles que ainda aguardam resposta à mensagem que gentilmente enviaram para o endereço do costume (umblogsobrekleistARROBAyahoo.fr). Não desesperem! O 1bsk não deixa ninguém sem resposta!


PAMELA GOLDEN: Está patente, no Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian, uma exposição temporária dedicada à artista plástica norte-americana Pamela Golden. Os quadros minúsculos de Pamela Golden são outros tantos orifícios que facultam acesso a universos ficcionais remotos, exóticos e sinistros na sua plausibilidade. O constrangimento que representa a necessidade da observação a curta distância transforma-se num sucedâneo de vínculo íntimo, e interfere com a natural propensão do espectador para se identificar com a cena que tem perante si. Por meio das suas histórias de uma vinheta só, Pamela Golden interroga ao mesmo tempo o nosso desejo de envolvimento e a tentação do distanciamento crítico. A vontade de "fazer pequeno" levada a este extremo pode não ser nem mera tentativa de desconcertar, nem veleidade de suposto alcance ético, mas apenas uma norma, tão arbitrária como qualquer outra. Talvez Pamela Golden nos esteja a indicar o caminho para um tranquilo e modesto limbo de utopia, onde pequena e grande história, irrelevância e significado, coexistam lado a lado. Há que admitir que cada quadro se presta a leituras do foro histórico, sociológico, etc., e que um esforço interpretativo nem sempre é descabido; mas também é certo que quaisquer considerações dessa índole serão subordinadas à escala comum que atravessa todas as cenas representadas.



Nevertheless, A Library (2001)


Mas os quadros de Pamela Golden funcionam igualmente como bombons de creme para a inteligência e para a visão, e como cócegas na curiosidade humana que não pede mais do que um débil pretexto para perguntar o que vem antes e o que virá depois. Títulos como "God and Mortal in Siamese Dance" ou "Mrs Watson Pours the Coffee" são provocações microscópicas à nossa tendência para contextualizar, e para projectar corpos e cenários num enredo ou num qualquer substrato de relevância.



Asserting Circumference (1997)


A entrada nesta exposição é livre. Basta ir lá e entrar.


QUAL É A PERGUNTA?: Definição de poesia segundo Joel Oppenheimer (1930-1988): «an answer to a question you didn't know you'd asked yourself». E aqui está um poema de Joel Oppenheimer:

THE LOVE BIT:

the colors we depend on are
red for raspberry jam, white
of the inside thigh, purple as
in deep, the blue of moods, green
cucumbers (cars), yellow stripes down
the pants, orange suns on ill-
omened days, and black as the
dirt in my fingernails.
also, brown, in the night,
appearing at its best when
the eyes turn inward, seeking
seeking, to dig everything but
our own. i.e. we make it crazy or
no, and sometimes in the afternoon.





EFEMÉRIDE DO DIA: O primeiro abalo foi sentido há 366 dias. De então para cá, os sismógrafos deste país não mais conheceram o descanso. Parabéns, Epicentro, por um ano de posts, todos "fabrico especial dessa casa".


DOUBLE WHAMMY: Como uma desgraça nunca vem só, chegou ao fim o blog com nome de filme de Hitchcock, com uma imagem de um filme de Bresson. Tudo o que de bom tenho a dizer sobre este blog, todo o reconhecimento que qualquer pessoa de bom gosto deve aos seus protagonistas, ficará para ocasião ulterior. Por enquanto, só a mágoa e a incredulidade falam. É assim.


FOUR MORE YEARS: Mais quatro anos de George W. Bush. Mais quatro anos de arrogância. Mais quatro anos de estupidez. Mais quatro anos de prepotência. Mais quatro anos de cinismo. Mais quatro anos de insensibilidade para com os problemas do meio ambiente. Mais quatro anos de conivência com o extremismo religioso. Mais quatro anos de desrespeito pelas instituições internacionais. Os americanos reelegeram aquele que, caso não efectue uma mudança radical no seu estilo de governar, ficará certamente para a história como o pior presidente desde... Desde quem? Nixon? Warren Harding? (Excluo deste concurso Harry Truman, o responsável último pela utilização de armas atómicas sobre populações civis.)
O dia 2 foi um dia muito mau para o mundo.


Terça, 2 Novembro, 2004

A CABALA (2): E se fosse uma cabala que, para além de desprovida da tal vontade objectiva, dispensasse (com alacridade!) desiderato, substância e fautor, e perdurasse em roda livre, sustentada por dezenas de milhar de cidadãos, mesquinhamente cúmplices na certeza de partilharem algo de maior do que eles, guardando segredos como bocados de guita ou carcaças do dia anterior? A cabala dos honestos, dos trabalhadores por conta de outrem, dos remediados, dos que contemplam placidamente o mundo. A irmandade da maioria, traduzível em signos pavorosos desenhados em vidraças embaciadas e no senso comum burguês.
Toda uma cidade em quotidiano conluio. Um bichanar de esquina em esquina. A dor, a magnífica dor dos excluídos do círculo.


«Quem é belo é belo de ver, e basta;/mas quem é bom subitamente será belo.» (Safo, tradução de Eugénio de Andrade)


LUGARES DE PARIS RECONHECIDOS NO FILME "BEFORE SUNSET", DE RICHARD LINKLATER: A livraria Shakespeare & Co., onde ocorre o reencontro entre as personagens de Ethan Hawke e Julie Delpy, pode considerar-se herdeira (ainda que sem vínculo directo) do lendário estabelecimento de Sylvia Beach que, entre as duas guerras, funcionou como porto de abrigo para numerosos artistas expatriados em Paris. O mais famoso destes, James Joyce, viu a sua obra-prima "Ulysses" publicada por Beach, depois de sofrer várias recusas. O estabelecimento actual mudou de sítio (da rue de l'Odéon para a rue de la Huchette, junto ao Sena), é hoje dirigido por George Whitman (auto-alegado descendente do autor de "Leaves of Grass"), e conserva o espírito independente e a tradição de assistência activa a autores necessitados. Muito pessoalmente, o seu interior caótico, assim como as condições de higiene duvidosas, dissuadiram-me de alguma vez me tornar frequentador habitual. Admito, porém, que se trata de um lugar único e merecedor de visita não distraída.
Confesso ter tido dificuldade em identificar as etapas seguintes que as personagens cumprem no seu afã peripatético, mas uma placa onde se lê "Rue Charlemagne" permite-me conjecturar que foi feita a travessia para a margem direita, possivelmente pela ilha Saint-Louis, e que o café onde consomem um café (não há que temer a repetição!) e um "citron pressé" se situa próximo da zona do Marais.
Pareceu-me reconhecer em seguida a "promenade plantée", percurso arborizado, parcialmente em viaduto, que se estende do bosque de Vincennes até perto da Bastilha. Se não errei, foi essa uma decisão digna de aplauso de Julie Delpy, pois trata-se de uma atracção parisiense que mereceria ser mais bem conhecida. Escapou-me o percurso do loquacíssimo casal, até ao momento em que embarcam num barco turístico. Quanto ao cais Henri IV (nome cuja pronúncia tantas dificuldades suscita em Ethan Hawke), fica este imediatamente a montante da supracitada ilha Saint-Louis, e frente ao Jardin des Plantes e ao complexo universitário de Jussieu.
Pelo que Julie Delpy diz ao dócil motorista, fica claro que o seu lar (que acolhe uma notável imitação de Nina Simone) se situa junto à rue des Petites Écuries, metro Château d'Eau, Xème arrondissement. Por se tratar de uma zona que conheço muito mal, abstenho-me de comentar. O gato é adorável.


Segunda, 1 Novembro, 2004

«Um subtil fogo me arrepia a pele...» (Safo, tradução de Eugénio de Andrade)