Heinrich von Kleist (1777-1811)Liberté Egalité FraternitéNo tabuleiro de xadrez, as mentiras e a hipocrisia não duram muito (Em. Lasker)Monty Python forever!

arquivos do 1bsk

outubro 2003

para regressar ao blog, é favor clicar no kleist

 

Sexta, 31 Outubro, 2003

AINDA AQUELE FILMERUSSOSOBRENADA: Uma das coisas que teria desejado comentar mais cedo foi a troca de mensagens relativamente ao filme "O Espelho", e que envolveu a Janela Indiscreta (como não poderia deixar de ser), a Montanha Mágica, o Lérias e as Palavras da Tribo (aproveitei para descobrir este último blog, altamente recomendável). Impressões, espantos, reacções e testemunhos criaram um efémero nodo, como que nascido de um desejo de prolongar a experiência de visionamento deste filme único sob tantos e tão inefáveis aspectos.
Já disse que me oponho à redução da blogosfera a fórmulas e a meia-dúzia de tendências. Se me perguntam o que trouxeram de novo os blogs em termos de modalidade de expressão e intervenção, prefiro apontar exemplos como este.
A Montanha Mágica conseguiu até meter Kleist ao barulho. Por esta cereja no bolo, o meu reconhecimento infinito vai direitinho para eles.


NORTE MAGNÉTICO E NORTE GEOGRÁFICO: Pergunta a Cristina: «Passou por aí uma tempestade magnética. "Uma invasão de protões que ionizou atmosfera", explicou a jornalista. Dizem que só afectou as comunicações e que no norte se viram auroras coloridas no céu nocturno. Alguém sentiu alguma coisa? Alguém viu?»
Eu nada vi e nada senti. Mas a tempestade magnética não foi isenta de efeitos perversos na vida desteblog. Os pombos correios que trazem nas patinhas os posts que nos alimentam não se orientam sem o campo magnético terrestre. Qualquer perturbação deste leva às consequências que se vêem: columbídeos à deriva e um brutal atraso no acompanhamento da actualidade extra e intrablogosférica. E isto num período em que tantas e tão lindas coisas acontecem: botões de sobretudo que são encontrados depois de perdidos, profetas da desgraça que se reconciliam com a vida depois de comer um esplêndido pão-de-ló, bicicletas de montanha que se consertam só com um safanão.
Quem paga, em última análise, é sempre o leitor.


Terça, 28 Outubro, 2003

O NOSSO HOMEM NA RUA DAS PORTAS DE SANTO ANTÃO: Este post destina-se aos 0,0001% de blogonautas que ainda não estão ao corrente do encontro de blogs que vai ter lugar, na próxima quinta-feira, na Sociedade de Geografia de Lisboa, a partir das 15h. Pois bem, vai ter lugar um encontro de blogs, na próxima quinta-feira, na Sociedade de Geografia de Lisboa, a partir das 15h. Afazeres profissionais impedir-me-ão de comparecer antes do fim da tarde, mas o Ponziani, que nada em tempo livre, quase sempre de bruços, já prometeu não perder pitada.


POST EM DOIS TEMPOS: No trailer relativo ao filme "Dirty Pretty Things", a inevitável voz paspalhona pronuncia o apelido da actriz Audrey Tautou como se rimasse com "tattoo". É este o preço da fama, ou pelo menos uma das suas prestações: saber o seu nome estropiado e repetido em milhares de salas escuras por esse planeta fora, e ainda por cima em Dolby (IN SELECTED THEATERS).
Não queria fechar este post sem transcrever, na íntegra, o nº1 do Artigo 267 da Constituição da República Portuguesa: «A Administração Pública será estruturada de modo a evitar a burocratização, a aproximar os serviços das populações e a assegurar a participação dos interessados na sua gestão efectiva, designadamente por intermédio de associações públicas, organizações de moradores e outras formas de representação democrática.»


O EVENTO ERRADO NO LUGAR ERRADO: Não posso deixar de concordar com José Lello, quando este se insurge contra a realização do lançamento do último "Harry Potter" (TM ©) junto ao Panteão. É um verdadeiro escândalo, e não dos menores.
Pena é que a indignação cidadã de José Lello tenda também a extravasar sob a forma de homofobia pura e não adulterada, tal como sucedeu aquando da Gay Pride. Mas isso são outros contos.


O JOGO DO SÉCULO: Quando se referiu ao imortal jogo de xadrez que disputámos em Sintra, há mais de 10 anos, o Zé Mário teve a amabilidade de omitir que me derrotou, na altura, de maneira sucinta e categórica. Contudo, diversas irregularidades rodearam esse jogo, perante a impassibilidade do árbitro, subsequentemente irradiado da profissão por estas e outras tropelias. Um recurso para o Supremo Tribunal não é medida que eu tenha posto de parte por completo.


THEEEEEERE SHE IIIIIIS, MIIIIIIISS AMEEEEEEERICA!: América, foi bom ver-te de novo! A megalópole precisa de sonoridades como a sonoridade da tua voz, precisa de sinais de nascença e de pessoas cujos pais e avós beberam vinho do odre e usaram chapéu de palha com fitinha. Foi um gosto e um privilégio voltar a passar horas e fracções de horas contigo, inteirar-me das tuas opiniões sobre a separação dos poderes e sobre a calda açucarada dos fofos de abóbora, percorrer contigo ruas que, por qualquer estranha razão, se chamavam quase sempre "Rua do Alecrim", escutar histórias sobre a vida no interior, sobre a tua correspondente italiana que te envia fotografias da lava do Etna com desenhos de carantonhas no verso, e sobre o teu poeta preferido, Apollinaire, cuja vida e obra estudas graças a muita determinação e a um modem de 56 K que às vezes funciona, às vezes não. América, não esperava de ti outra coisa que não fosse a colocação de pontos em is e em jotas, de cedilhas em cês, e de diacríticos diversos, com gestos pachorrentos de bicho satisfeito e ponderado. Que seria de nós sem o teu bom senso? Concordo contigo quando dizes que a nossa existência, se exceptuarmos as lágrimas e as gotas de saliva, se resume à arte e rotina de gerir segredos. Recapitulando (e ninguém o faz melhor do que tu): o segredo relativo à peça de Kleist tinha inscrita, na sua própria natureza, a necessidade de ser tornado público. Assim foi feito, se bem que com um défice de parcimónia que chocou alguns; mas isso são águas passadas. Quanto ao OUTRO segredo, sucedeu uma coisa bizarra. Quando chegou a altura em que divulgá-lo deixou de ser impensável, tudo o que ele tinha de risível e grandguignolesco irrompeu e procriou. Quem acreditaria num Graal nos tempos de hoje? Quem acreditaria em Perceval, o cavaleiro galês, percorrendo os arredores de Lisboa em busca do castelo do Rei Pescador?
Tudo isto pertence ao passado, e tu, América, és uma moça que vive o presente como quem defende uma causa, e que gosta de precaver o futuro apenas por causa da infinitude de momentos presentes contidos no seu bojo. Concordar contigo transforma-se num hábito que se transforma em litania: sim acredito que o momento, agora, não é o de cultivar novos segredos, congeminar santos-e-senhas, adoptar a postura furtiva daquele que sabe e que sabe que há quem não saiba. Sim, percebi e apoio: trata-se agora de encarar Lisboa como uma cidade potencialmente apta a conter conspirações, conluios, irmandades, coisas magníficas e extraordinárias partilhadas em subterrâneos por um punhado de iniciados. Trata-se de viver esta cidade como um sítio denso de apetites pela dissimulação.
América, bem sei que era abstractamente que formulavas estas hipóteses escandalosas. Mesmo assim, gostaria de saber mais acerca dessa bizarra história de um ex-bonecreiro, que costumava exercer no Jardim da Estrela, e que agora encontrou um emprego estável como condutor de um veículo ligeiro de carga. O que sustenta as tuas suspeitas, se suspeitas existem?


Segunda, 27 Outubro, 2003

FIGHTING THE GOOD FIGHT: A revista "Marianne" especializou-se na denúncia dos atropelos aos princípios republicanos, dos relativismos morais de todo o jaez, das charlatanices e imposturas intelectuais, dos dislates da globalização, dos fanatismos e dos fundamentalismos. O seu estilo, truculento, verrinoso, arrebenta-montras, roça demasiadas vezes o populismo, e a sua cruzada contra certos intelectuais e contra a clique bem-pensante fazedora de opiniões redunda muito amiúde em tiro (de volumoso calibre) no próprio pé. Ainda assim, a coerência dos seus princípios e a obstinação em tocar com dedos em feridas e chamar bovinos pelos nomes tornam-na insubstituível. Acrescente-se ainda que o empolamento e a virulência não obstam a que a prosa seja de muito bom nível, na pior das hipóteses, e ocasionalmente excelente, em particular nos editoriais de Jean-François Kahn. Não indico nenhum enlace porque o site da revista "Marianne" parece ter sido descontinuado. Os leitores interessados encontrarão a revista "Marianne" à venda nas boas casas da especialidade, ou talvez mesmo até nas sofríveis.


PREMISSA E CONCLUSÃO: Não resisto a transcrever, na íntegra, o comentário de um leitor da revista "Marianne", de sua graça Frederik Kinsorg. «En 2002, dans le monde, on a dépensé cinq fois plus d'argent pour les implants mammaires et le Viagra que pour la recherche contre la maladie d'Alzheimer. Conclusion: dans trente ans, il y aura de nombreuses personnes avec de gros nichons et de superbes érections, mais elles seront incapables de se rappeler à quoi ça sert!»


Domingo, 26 Outubro, 2003

A: E se eu desenterrasse o machado de guerra?
B: Ele nunca saiu do bolso do teu casaco.
A: Isso explica muita coisa.




O 1BSK ERROU: Do blog Fruta da Época chegou-nos uma mensagem com uma rectificação relativa ao ciclo de cinema experimental "Designmatography". Com efeito, este ciclo tivera já uma sessão inaugural há quase um mês, no dia 27 de Setembro, que contou com música ao vivo interpretada por Lee Ranaldo.
Reitero a sugestão de uma visita ao São Jorge para assistir a uma das sessões que terão lugar até ao próximo dia 2. Uma semana invulgarmente preenchida deverá impedir-me de ser tão assíduo quanto gostaria.


A PANÓPLIA DO FETICHISTA CINÉFILO, 71 A 80 (DE 100):

71 - O bikini da Sue Lyon ("Lolita", Stanley Kubrick)
72 - Prancha de surf remendada ("A Scene at the Sea", Takeshi Kitano)
73 - Microscópio ("O Microscópio", Rudolf Thome)
74 - Cone de gelado ("A Comédia de Deus", João César Monteiro)
75 - Recibo de prestamista ("Une Femme Douce", Robert Bresson)
76 - Turbante ("Lawrence of Arabia", David Lean)
77 - Câmara fotográfica ("Peeping Tom", Michael Powell)
78 - As calças da Mireille Perrier ("Boy Meets Girl", Leos Carax)
79 - Mangueira ("L'Arroseur Arrosé", Louis Lumière)
80 - Ukulele ("Some Like It Hot", Billy Wilder)




Sexta, 24 Outubro, 2003

RESUMO DA TELENOVELA "O TEU OLHAR": SATURAÇÃO TEMÁTICA (ORNITOLOGIA):

Daniela procura a mãe no jardim e quando a encontra pergunta-lhe pelo ninho de toutinegra. Preocupada com o estado de saúde do canário de Vera, Daniela chama Júlia. Vera não encara com bons olhos a presença de Júlia no território de nidificação das garças, acusa-a de ter danificado os binóculos de Francisco e pede-lhe que saia de sua casa. Desesperada, e sem se conseguir explicar, Júlia convence-se de que a observação de um Anas rubripes (pato negro) na Europa é improvável. Rui conta a Miguel que Margarida ligou e que a cegonha está viva. Miguel não cabe em si de contentamento. Miguel, contra a opinião de Rui, diz que a fotografia que tirou mostra uma gaivota mediterrânica (Larus melanocephalus). Rui insiste que se trata de uma gaivota vulgar, como o demonstram a coloração mais escura da ponta da asa e a ausência de máscara em torno do olho. Sérgio liga para o seu telemóvel que está na posse de Paula e fica a saber que ela partiu para uma saída de campo sem o avisar. Miguel reencontra Margarida e pede-lhe desculpa por ter pensado que a sua tese sobre modelos populacionais das espécies passariformes nos Açores era plagiada. Margarida diz-lhe que se recordou dessa situação, embora tenha confundido com a actualidade, uma vez que essa suspeita persiste nos círculos académicos. Miguel entra em pânico, a ponto de confundir o canto de um tentilhão com o canto de um rouxinol.




TANTAS ROSAS, TANTAS LANÇAS: Na sua nova e originalíssima lista de enlaces, o Cruzes Canhoto! associa a cada blog um livro. A este espaço sempre-verde coube a "Pentesileia", de Kleist, o que faz todo o sentido e mais algum. Desde a primeira hora que nos esforçamos para traduzir, dia após dia, o espírito da peça em que a líder das amazonas mata selvaticamente Aquiles por amor e despeito, mas sobretudo aquela parte (cena XV) em que Aquiles, ao escutar o rumor longínquo da batalha, revela a sua duplicidade, o que desencadeia da parte da sua prisioneira uma violenta imprecação: «Monstro!».



ROSTO E LINGUAGEM: Emmanuel Lévinas escreveu:

«Si par contre, la raison vit dans le langage, si, dans l'opposition du face à face, luit la rationalité première, si le premier intelligible, la première signification, est l'infini de l'intelligence qui se présente (c'est-à-dire qui me parle) dans le visage; si la raison se définit par la signification, au lieu que la signification se définisse par les impersonnelles structures de la raison, si la société précède l'apparition de ces structures impersonnelles, si l'universalité règne comme la présence de l'humanité dans les yeux qui me regardent, si, enfin, on rappelle que ce regard en appelle à ma responsabilité et consacre ma liberté en tant que responsabilité et don de soi, le pluralisme de la société ne saurait disparaître dans l'élévation à la raison. Il en serait la condition.»("Totalité et Infini", III.B.4)

Amélie-saaaaaan!

Sylvie Testud em "Stupeur et Tremblements"


(E eu, meu caro EL, acrescento, com um par de íris azuis como única e desmesurada prova:)

A beleza de um rosto é a menos estanque de todas, a menos redutível a proposições estéticas desirmanadas das pulsações e das catástrofes da vida. Essa antecâmara do significado que é a face humana revela tanto a possibilidade do discurso como o agonizante receio do vácuo significante. A beleza de um rosto não é como a beleza de um par de mãos: as feições, na impassibilidade como no ricto, oferecem-se acompanhadas por uma promessa de sentido que é também um pavoneio, mas sem para isso precisarem de vampirizar semânticas alheias. Transparente à sua própria fragilidade, à vontade com a sua nudez, o rosto parece apontar o mundo como álibi definitivo para a melancolia; é este o nosso mundo, olhem-no tão chão e tão baço! O dom de si é ao mesmo tempo ordem absoluta, estremecimento ético e vulnerabilidade soletrada baixinho. Todas as violações da vida estão inscritas na fisionomia.




Quarta, 22 Outubro, 2003

A CULPA FOI DO ROBESPIERRE: Na minha caixa do correio (refiro-me ao correio caracolês, aquele que cheira a cola e que corta os dedos) recebo inúmeros artigos de interesse desigual, desde catálogos de hipermercados a um número surpreendente de cartões de empresas de caixilharia, passando pelos inevitáveis folhetos, escritos em excelente português de Pontevedra, convidando-me para uma excursão publicitária ao Porto ou ao mosteiro da Batalha, com azeite ou um volumoso presunto à laia de engodo. Mas esta hegemonia do marketing é rompida de vez em quando por aves raras. Aqui há dias, deparei com o "Boletim da Paróquia de Santa Joana Princesa". Tanto o estilo como o conteúdo são previsíveis; porém, a páginas tantas, um encantador apontamento político-barra-sociológico premeia aqueles que se deram ao trabalho de ler a publicação. Uma das entradas na copiosa lista de Avé-Marias recomendadas diz assim: «dezena de Avé-Marias revendo as dificuldades que surgiram por sobreposição duns que se julgavam, a si próprios, superiores. As consequências aproveitadas pelo Maligno foram várias, e refira-se a Revolução Francesa, levada ao desnorteamento, determinações maçónicas, as lutas de classes, aconselhadas com todos os erros do comunismo e do nazismo e não só (...)».
A língua e a lógica sofrem tratos de polé, as premissas confundem-se alegremente com as conclusões numa singular amálgama, mas a mensagem principal recorta-se com clareza (e não é invenção recente, bem entendido): todos os movimentos históricos que tenderam à reforma social e à emancipação dos povos relativamente a tutelas tirânicas e/ou dogmáticas, e que ameaçaram a plácida ordem natural das coisas em que toda a gente conhece o seu lugar, devidamente consolidada pela argamassa da moral e tradição cristãs, foram forçosamente erros e perversões, obra de uns quantos que se julgavam superiores, e que não geraram mais do que miséria, desolação, e (pior do que tudo) ateísmo.
Faltou acusar Voltaire, o enciclopedismo, a Constituição, a escola pública, a "Clarissa" de Richardson, a música rock e o "Império dos Sentidos". O cabaz do Maligno é largo e fundo, a sua malícia não tem limites, e os sinais da sua presença multiplicam-se a cada dia que passa.


BWV 988: A escolha das "Variações Goldberg" de J.S. Bach para a banda sonora de "Stupeur et Tremblements" acaba funcionando como mais uma judiciosa opção de casting. Pode ser criticada por pouco dever à originalidade; porém, sendo a "aria" uma das melodias mais belas alguma vez compostas desde o surgimento da vida na Terra, qualquer ocasião de a escutar é mais do que bem-vinda. A interpretação de Pierre Hantaï, em cravo, é um modelo de sobriedade e ligeireza compatível com a inteligência, e com uma discreta odisseia pessoal, formal e recreativa.
No blog do Crítico existe um enlace para excertos de uma entrevista com Pierre Hantaï.


Amélie-saaaaaan!


CINEMA: "Stupeur et Tremblements", de Alain Corneau, visto na Festa do Cinema Francês.
Depois de "Nocturne Indien" (Tabucchi) e "Tous les Matins du Monde" (Quignard), Alain Corneau confirma-se como um especialista na adaptação de obras literárias contemporâneas que pareceriam, a priori, prestar-se pouco à transposição para o ecrã. "Stupeur et Tremblements" acumula as escolhas judiciosas e sóbrias, e as soluções visuais discretamente elegantes, fecundas e adequadas. A ironia ácida de Amélie Nothomb transparece com crescente acutilância, raras vezes ameaçando destruir o equilíbrio de uma narrativa pessoal que deve tudo à contenção e à convivência entre introspecção e impiedoso auto-retrato da artista enquanto jovem ocidental perdida no poço sem fundo da hierarquia de uma grande empresa japonesa. Deste modo, o recurso à voz "off" aparece como a mais natural das soluções, e é com uma naturalidade que desencoraja a contestação que Corneau a adopta.
Muito pouco nos é dito sobre "Amélie-san". Sabemos apenas que viveu no Japão até aos 5 anos, tendo-se mudado em seguida para a Bélgica, e que a nostalgia pelo país natal a levou a regressar e a entrar para os quadros de uma companhia nipónica de import-export. Nada sabemos sobre a sua vida social, nunca chegamos a ver o local onde habita, ignoramos até que ponto a sua situação financeira confere gravidade à possibilidade de vir a ser despedida. Existe apenas uma mulher determinada, mas consciente de um vago absurdo no seu estatuto; existem apenas os dias úteis, as tarefas e a hierarquia. E existe também, dominando tudo o resto, essa aspiração a integrar-se numa cultura, a mais violenta de todas as aspirações, acompanhada ao longo de um ano, mais do que sondada em profundidade; esse desejo sufocante de aceitação, que passa invariavelmente pela fluência na língua, e que aqui (existirá paradoxo, mas paradoxo hábil) adquire maior intensidade devido ao domínio perfeito que Amélie possui do japonês. Como se, vencida a barreira linguística, todos os intangíveis que lhe sucedem emergissem com repentina ferocidade. Se balbuciasse, se arrastasse a fala, se demonstrasse incompreensão, tudo seria mais aceitável e redutível a fórmulas.
Os 20-30 minutos finais são admiráveis pela maneira como Corneau, longe de procurar um apático registo equidistante do drama, da comédia mordaz e da narrativa de aprendizagem, faz coexistir tudo isto em impulsos curtos e disciplinados. Sai-se da sala com a sensação de que deixar de gostar do filme é tão impossível como convencer-se de que se fez história do cinema. Perdura a dulcíssima ilusão de que, afinal de contas, não custa demasiado crer que existe um equivalente visual para a palavra literária, e que a extraordinária invenção dos senhores Lumière teria valido a pena só por isso.


DESIGNMATOGRAPHY: Vivem-se tempos impiedosos para os cinéfilos... Já a partir de quinta, tem início um ciclo de cinema experimental, designado por "Designmatography", integrado no evento Experimentadesign. Prolonga-se até dia 2 de Novembro. Entre os nomes representados encontram-se Stan Brakhage, Jean-Claude Rousseau, Pierre Clémenti, e muitos outros de que nunca ouvi falar. Em suma: uma ocasião imperdível para contactar com propostas cinematográficas tão radicalmente diferentes daquilo que nos é proposto no circuito comercial que faz pensar até que ponto se justifica insistir no emprego de um termo ("cinema") que ambicione abarcar todas estas manifestações.


Terça, 21 Outubro, 2003

NÃO HÁ FESTA COMO ESTA: As aparências iludem. Neste caso, as aparências parecem indicar que a Festa do Cinema Francês já acabou, o que não corresponde à verdade. Com efeito, a Cinemateca apresenta até dia 29 uma retrospectiva Maurice Pialat ainda integrada na festa. Pialat, falecido este ano, foi talvez o realizador que mais influenciou o cinema francês a partir dos anos 70, ou seja a partir da ressaca da Nouvelle Vague. É esta uma excelente oportunidade para ver alguns dos filmes menos conhecidos da primeira fase da sua carreira, como sejam "Nous ne viellirons pas ensemble" (amanhã, quarta, às 22h00) ou "Loulou" (quinta, 19h30), ou então uma das suas obras mais recentes, como por exemplo "Van Gogh" (dia 27 às 19h00 e dia 29 às 19h30), um dos 4 ou 5 filmes mais citados como referência decisiva pelas mais jovens gerações de cineastas franceses.


O 1BSK SATISFAZ O DESEJO DE REQUINTE:

- Ambrósio, apetecia-me algo...
- Paramos para a senhora tomar alguma coisa?
- Não... Apetecia-me algo... Bom...
- Compreendo, senhora.
- Apetecia-me ler mais versos de William Butler Yeats.
- Tomei a liberdade de pensar nisso.
- Bravo, Ambrósio!

Who goes with Fergus?

Who will go drive with Fergus now,
And pierce the deep wood's woven shade,
And dance upon the level shore?
Young man, lift up your russet brow,
And lift your tender eyelids, maid,
And brood on hopes and fear no more.

And no more turn aside and brood
Upon love's bitter mystery;
For Fergus rules the brazen cars,
And rules the shadows of the wood,
And the white breast of the dim sea
And all dishevelled wandering stars.





Domingo, 19 Outubro, 2003

A PANÓPLIA DO FETICHISTA CINÉFILO, 61 A 70 (DE 100):

61 - Machado ("The Shining", Stanley Kubrick)
62 - Gravador de bobinas ("Blow Out", Brian DePalma)
63 - Carteira/porta-moedas ("Pickpocket", Robert Bresson)
64 - A espingarda da Lillian Gish ("The Night of the Hunter", Charles Laughton)
65 - Megafone de realizador ("8 1/2", Federico Fellini)
66 - Espartilho ("Picnic at Hanging Rock", Peter Weir)
67 - Fato de Pierrot ("Les Enfants du Paradis", Marcel Carné)
68 - Boné de carteiro ("Jour de Fête", Jacques Tati)
69 - Escova de engraxador ("Sciuscià", Vittorio De Sica)
70 - Tractor ("A Terra", Aleksandr Dovzhenko)




QUAL É A DIFERENÇA ENTRE O UMBLOGSOBREKLEIST E OS OUTROS BLOGS?: São muitas, a começar pela cor.
Outra diferença é a seguinte. Ao passo que, na maioria dos blogs, os artigos são escritos na pacatez do lar ou nuns minutos roubados ao frenesim do local de trabalho, e segundo a inspiração do momento, o processo aqui é bem mais complexo. Os posts são redigidos pelo Ponziani, pela América ou por um colaborador de ocasião; são transcritos com uma caligrafia minúscula, no verso de ementas de restaurante; são enviados para um local incerto do barlavento algarvio, por via aérea e columbófila; estagiam durante um lapso de tempo nunca inferior a 24 horas num baú de roupa branca; são codificados e descodificados (por razões que me ultrapassam) por meio da única máquina ENIGMA existente em Potugal; e só depois chegam até mim, ainda outra vez graças a pombos correio.
Perante isto, é, no mínimo, compreensível que não acompanhemos a actualidade com a prontidão que a gravidade da situação exigiria.


Levitação em O Espelho, de Tarkovsky


ESCOLHO UMA IDADE À MINHA MEDIDA: A Associação Zero em Comportamento prossegue, no Cine-Estúdio 222, a exibição do filme "O Espelho", de Andrei Tarkovsky.
"O Espelho" é o filme da minha vida. E o que é mais: é um dos poucos filmes que atribui sentido a essa expressão, "filme da vida", perenemente ameaçada de banalização.
Não vou apresentar razões. Tal redundaria numa definição da minha própria pessoa e do que me formou, exercício tão arriscado quanto enfadonho.
Limito-me a informar que as sessões são às 17h00, 19h15 e 21h45, todos os dias, só até quarta, inclusive.




LEITURAS: "Manuscrit Trouvé à Saragosse", de Jean (Jan) Potocki.
Este romance, absolutamente brilhante, estabelece a ponte entre dois bastiões longínquos: os ciclos como o "Decâmeron" e os "Contos de Canterbury", por um lado, e o experimentalismo que as ficções modernistas e pós-modernistas do século XX adoptaram copiosa e alegremente. Não sendo, em rigor, equidistante no tempo de Boccaccio e Joyce, como mereceria, o conde Jan Potocki, que viveu entre 1761 e 1815 contribui, ainda assim, para minar as fundações dessa ideia falaciosa segundo a qual a história da ficção consiste essencialmente num longo e plácido período dominado pelo naturalismo (mais ou menos exacerbado por este ou aquele soluço romântico), pela mimésis e pela linearidade narrativa, ao qual puseram fim os desmandos de uns quantos vanguardistas hirsutos, que complicaram as regras do jogo com escusada animosidade, contrariando a essência do género, que remontaria aos primórdios da narrativa oral, devidamente acompanhada por uma fogueira e pelo assombro amedrontado da tribo. O "Manuscrito Encontrado em Saragoça" é mais uma prova de como o experimentalismo (termo com o qual, aliás, não me sinto confortável), a exploração dos limites da ficção e outras intertextualidades não só não são fenómenos recentes, como ajudaram a formar o próprio género nos seus primórdios. Outros dois exemplos óbvios são "Dom Quixote" e "Tristram Shandy", que são dos romances mais ousados alguma vez escritos. Tendo Laurence Sterne vivido apenas uma ou duas gerações antes de Potocki, este último romance seria talvez aquele que se teria tendência a comparar com o "Manuscrito"; mas as diferenças de modo e de propósito são abissais. Ao passo que "Tristram Shandy" é essencialmente uma empolgante odisseia formal, a ousadia de Potocki reside essencialmente na acumulação torrencial e orquestrada de conteúdos. Potocki não possuía a malícia nem o aguçado engenho de Sterne, mas a sua erudição e imaginação, juntamente com a capacidade de as gerir, são decerto das mais prodigiosas da história da literatura.
"Manuscrito Encontrado em Saragoça" enceta-se com o propósito, na aparência modesto, de acompanhar o jovem Alphonse van Worden, que chega a Espanha no intuito de incorporar a guarda do rei. As suas aventuras rapidamente adquirem um cariz fantástico e apavorante: duas belíssimas jovens que se afirmam suas primas, e que procuram convertê-lo à fé islâmica, um patíbulo ao ar livre onde os mais incautos se arriscam a acordar, depois de uma noite turbulenta e cheia de visões... Forçado à inacção devido a complicações burocráticas, Alphonse passa a conviver com um bando de boémios nómadas, e os seus dias decorrem a partir daí ao sabor das histórias que os outros contam, histórias rocambolescas de amores e desamores, traições e vinganças, intriga e aventura, demónios e fantasmas. À maneira de repositório de subgéneros narrativos, atestado de erudição enciclopédica (estamos em pleno século das Luzes), sucedem-se os enredos, embutidos uns nos outros num intrincado telescópio de peripécias e pontos de vista. Uma vez desvendado o segredo, que inclui uma mina de ouro e as lutas fratricidas entre facções muçulmanas, o final é relatado com uma tepidez sumária, como que reconhecendo a incapacidade de uma qualquer realidade plausível para suplantar a riqueza de uma conspiração subtilmente urdida. Se tema existe no "Manuscrito", será o do carácter perecível dos valores que se quereriam sólidos e imunes à alteridade do século: a honra, a fé, a identidade. Pois se até as mulheres mais belas se transformam em súcubos, com inquietante regularidade...
Faltam as breves notas biográficas. O conde Jan Potocki, cuja vida movimentada incluiu dois casamentos, inúmeras viagens e o convívio com alguns dos grandes estadistas da altura, foi um nobre polaco, que se dedicou essencialmente à política, à diplomacia e a história dos povos eslavos. A sua obra-prima no campo da literatura conheceu uma posteridade tão rocambolesca quanto o foi a existência do seu autor. Escrita originalmente em francês, publicada em fragmentos, ignorada durante muito tempo, só recentemente foi possível estabelecer uma edição completa e que aspire a ser definitiva. Chegou-se ao ponto de retraduzir para francês um fragmento que só subsistiu numa das suas versões previamente transpostas para o polaco.
O ISBN da minha edição é o seguinte: 2-253-06353-3.



FALTOU A FADA: No livro de visitantes da Experimentadesign, a decorrer no cinema São Jorge, alguém rabiscou os meus versos preferidos de Yeats. Apesar de não vir a propósito de nada (um dos pecadilhos mais dignos de perdão que eu conheço), e apesar de se terem esquecido de um dos versos intermédios, a ideia foi excelente.
Os versos são do poema "The Stolen Child".

Come away, O human child!
To the waters and the wild
With a faery, hand in hand,
For the world's more full of weeping than you can understand.





LIVRO DE ESTILO: Doravante, passarei a empregar o itálico para as citações quer de versos quer de prosa. Parece-me ser esta a opção mais adequada do ponto de vista gráfico.
Mais um grande passo para a humanidade, etc. etc.


KRAPP'S LAST TAPE: Ao contrário do Prof. Freitas, aprecio sobremaneira peças com apenas duas ou três pessoas em cima do palco, debitando coisas desconexas. Aliás, duas ou três pessoas podem ser gente a mais. Basta uma, e um gravador.


Sexta, 17 Outubro, 2003

UMA MIGALHA DE BOM SENSO: Felizmente, foi decidido manter o fuso horário de Portugal continental alinhado com Greenwich, depois das especulações sobre o possível regresso à hora da Europa ocidental. Esta parece-me ser claramente a melhor opção, sob todos os pontos de vista, excepto no que toca às muito hipotéticas vantagens económicas que adviriam de termos a mesma hora dos nossos principais parceiros comerciais.
Se seguisse apenas o que me diz o coração, claro está que preferiria viver em sincronia perfeita com Paris do que com Londres.


RÉSEAU AUTONOME DES TRANSPORTS PARISIENS: Quanto ao filme de hoje, "La Petite Lili", o ponto alto foi uma curta cena que se passa num autocarro da linha 21, que liga a Cité Universitaire à Gare Saint-Lazare, e que é uma das que me traz mais recordações.


ATRAVÉS DO CANAL: Quem tiver assistido ao filme "Petites Coupures", apresentado na Festa do Cinema Francês, poderá ter ficado surpreendido/a com o desembaraço e ausência de sotaque com que Kristin Scott Thomas fala francês.
Outra personalidade de além-Mancha que se exprime nessa mesma língua com a fluência de uma nativa é Paula Radcliffe, recordista mundial da maratona.
Quem, a não ser o 1bsk, oferece aos seus leitores revelações sobre os dotes poliglotas dos corredores de fundo e meio-fundo? Inútil procurar. Mais ninguém.


LUFADA DE AR FRESCO: E de súbito, irrompendo como um raio de sol por entre morosos e sombrios estratocúmulos, desafiando esta enfadonha realidade feita de diplomacia e de declarações suaves, estudadas palavra por palavra, de contenção e sagacidade, de meias palavras e bons entendedores...
SURGE alguém como o presidente da câmara de Proença-a-Nova, cujas declarações acerca do destino das ajudas às vítimas dos incêndios foram das coisas mais hilariantes que ouvi neste ano que vai já longo. Sobretudo as referências aos fatos de treino, aos sacos de ração e aos ucranianos.
Para Proença e para o seu edil, vai direitinho o nosso "bem-haja!", sentido, sonoro e verde-alface.


ESSE POVO DE MULHERES GUERREIRAS...: Das muitas maneiras que existem de fazer uma figura ridícula na via pública, só um reduzido número contempla movimentos de recuo e de aproximação, adequados a uma situação em que, após a derrota pela sorte de armas, se faça alternar a submissão e o temor com o desejo de ver mais de perto o triunfador e o amante, ou ambos coincidindo num só.
O ajoelhar e debruçar-se para a frente deve demorar apenas o tempo suficiente para se ser coroado com uma grinalda de rosas entrelaçadas.


O HOMEM DO SÉCULO(2): Pergunto-me se o número de pessoas infectadas com o vírus HIV em consequência, mais ou menos directa, das posições intransigentes do Vaticano sobre contracepção, dariam para encher o Estádio do Dragão. Talvez não. Talvez sim.


O HOMEM DO SÉCULO(1): Na opinião de Pinto da Costa, João Paulo II é o "homem do século".
Presumo que, no renhido segundo lugar desta hierarquia pessoal, tenha ficado o guarda Abel.


Terça, 14 Outubro, 2003

À SOMBRA DOS CRÍTICOS TEATRAIS EM FLOR: Freitas do Amaral, ex-reserva moral da Direita, ex-"senhor 49%", reencarnou em dramaturgo, como decerto não o ignora quem estiver minimamente bem informado. Mas as pulsões de crítico teatral também o atravessam, o que está de acordo com o espírito de juntar ao acto a reflexão sobre o acto que, para o melhor e para o pior, fez da civilização ocidental aquilo que ela é hoje. Numa entrevista escutada hoje na TSF, Freitas do Amaral revelou assim, de forma cortez e desempoeirada, o seu credo a respeito da excelência dramática: «Do que eu não gosto é daquelas peças em que estão 2 ou 3 pessoas a dizer coisas desconexas, e a gente não percebe nada daquilo.».
É impressionante como, havendo tantas maneiras de criticar as vanguardas, a mais escolhida, de longe, continua a ser, aquela que é ao mesmo tempo a mais grosseira e a mais populista. O desejo, muito salutar, de estigmatizar o pedantismo cultural engendra o seu negativo, não menos risível, e por certo mais enfadonho. Nada disto, porém, é muito grave (o éter já acolheu bem maiores disparates); é apenas triste, demagógico, e vagamente pueril.


É A MINERALOGIA, ESTÚPIDO!: No Quartzo, Feldspato & Mica fala-se sobretudo de letras e outras artes, sob fundo de discreta celebração da cidade do Porto, que infelizmente conheço muito mal. A qualidade e apuro dos textos são excelentes, e nem era necessário o soneto de Berryman para me persuadir que o lugar deste blog é também nos favoritos.


PARA LÁ DO BEM, MAS NÃO DO MAL: A Natureza do Mal é um blog original e cativante, em que cada artigo surpreende e deleita. É um blog que resiste a definições, e cuja razão de ser parece construir-se post a post. Moral da história: pròs favoritos também.


INTRUSOS BEM-VINDOS: Um dos blogs recentes que não queria deixar de mencionar é o Intrusos, que conta entre os seus autores com um dos mais notáveis poetas portuguesas da sua geração, José Tolentino Mendonça. Pelo que se viu até aqui, qualificá-lo levanta apenas o embaraço da escolha entre "obrigatório" e "imprescindível".


CHAPELADA TAMBÉM AO ESPAÇO CLEPTOEPISTOLAR: A Carta Roubada continua a ser um dos blogs mais originais do burgo, e um dos poucos que conseguiu criar um estilo e maneira de existir individuais e inconfundíveis, que passam por (mas não se resumem a): escolha dos assuntos, ironia verbal, inventividade visual, originalidade das propostas, exposição de um ideário que vai muito para além do mero repositório de ideias bem ou mal passadas. Favoritos com ele.


O DIA DAS PETAS É QUANDO UM HOMEM QUISER: Há muito que o Almocreve das Petas merecia constar dos favoritos, devido à excelência da sua prosa, à amplitude do seu leque de interesses, à pertinência de muitas das suas observações e aos seus suculentos inventários bibliófilos. Agora já consta.


I HEARD IT THROUGH THE GRAPEVINE: Estação de metro da Avenida. Sentido Baixa/Chiado. Logo a seguir à exibição do filme "Stupeur et Tremblements". Ao meu lado estão sentados dois jovens. Um deles diz esta coisa singelamente bonita: «O cinema francês é o melhor do mundo.». Palavras como estas são bálsamo, incenso e rebuçado para a minha alma, tudo ao mesmo tempo.


ESTRANHO MODO DE VIDA: Ganha terreno a tendência para completar a expressão "se bem que..." com um verbo no modo indicativo.
A meu ver, "se bem que" é uma locução concessiva comparável na função a "embora". E não lembraria ao mais aluado empregar uma frase nestes moldes: «Embora o Schwarzenegger é uma pessoa de bem, o défice da Califórnia vai causar-lhe dissabores.»*.
O puritanismo linguístico não faz parte da nossa agenda, mas há questões que ultrapassam o domínio da gramática e que extravasam suavemente para o domínio dos valores e dos princípios. O conjuntivo é uma conquista civilizacional, menos obviamente útil do que o desodorizante em stick, mas com um alcance infinitamente mais significativo.


Domingo, 12 Outubro, 2003

Odilon Redon sabia coisas sobre a felicidade.






BLOG IS A BLOG IS A BLOG: Todos sabemos que, nos últimos meses, a magnitude que o fenómeno dos blogs atingiu levou a comunicação social (e em especial a imprensa escrita) a interessar-se pelo assunto, e a desmultiplicar-se em reportagens. Nada disso é surpreendente, nada disso se me afigura lamentável ou negativo. O que me confrange, isso sim, é constatar a maneira como as categorias e prioridades criadas e promovidas pela imprensa clássica quando fala de blogs se reflectem, mal sofrendo crítica ou cepticismo, nos próprios debates entre blogs. Nada melhor do que um exemplo para esclarecer onde pretendo chegar. Antes do verão, muito se discutiu até que ponto o fenómeno dos blogs sobreviveria às férias grandes, até que ponto a desenfreada expansão que se verificou na primeira metade do ano continuaria a ocorrer quando chegassem Setembro, as primeiras chuvas e o equinócio. Não é este um debate que careça de legitimidade; mas é pena que tenha sido conduzido na óptica de um "fenómeno blog" criado e nutrido pelos jornais, essencialmente a partir do momento em que alguns nomes sonantes "legitimaram" a blogosfera. Era desse "fenómeno blog", moldado aos cânones jornalísticos, convertido ao espaço noticioso com a benevolência interessada que se reserva a um ovino tresmalhado, que se discutia a sobrevivência. E, se esta questão é importante a partir do momento em que se reduzem os blogs a estereótipos (espaço de intervenção, forte ou moderadamente politizado, meio de divulgação de opiniões pessoais, clone de crónica jornalística), bem menos o será se tivermos em conta a espantosa diversidade do fenómeno, e se nos resignarmos à impossibilidade manifesta de se identificarem denominadores comuns. A blogosfera é uma constelação de partes que resistem a ser adicionadas ou amalgamadas. Para além da magreza lacónica da sua definição, um blog é uma ferramenta com um número virtualmente infinito de aplicações
O que procuro eu num blog? Acima de tudo, isto: a criação de um modo de estar e de intervir próprio, que reflicta, afinal de contas, o carácter único de uma personalidade. Regra geral, pouco interesse me despertam blogs que pouco mais sejam do que repositórios de opiniões e desabafos. Procurar a originalidade a todo o custo pode não ser algo recomendável, mas sou particularmente seduzido por aqueles espaços onde sinto existir uma componente forte de ousadia formal, mas também de simulação (a transparência absoluta, em 99 % dos casos, horroriza-me). É talvez por isso que tendo a dar preferência aos blogs pessoais em detrimento dos colectivos, se bem que também existam alguns excelentes, escritos por um número de colaboradores apreciável (Aba de Heisenberg, Janela Indiscreta, País Relativo...).
O que procuro eu num blog? Talvez pouco mais ou pouco menos do que procuro numa pessoa com quem trave conhecimento. Diz-se frequentemente que «Viver é mais importante do que blogar», ou «Há coisas mais importantes na vida do que os blogs», ou variantes destas máximas. Por detrás da robusta evidência, parece ocultar-se a convicção de que as horas passadas frente ao computador, a teclar textos para o ciberespaço, são excrescências da "verdadeira vida"; na melhor das hipóteses, um luxo; na pior, uma tara. Eu creio que blogar é uma parte da vida, cuja importância relativa variará, como é natural, de indivíduo para indivíduo. Sendo uma parte da vida, por definição, faz parte de um combate quotidiano pela felicidade.
O que procuro eu num blog? Partilhar as palavras de alguém que posso não conhecer, mas que me suscita estima, admiração ou interesse; coleccionar instantâneos dessa luta pela felicidade, a única que vale a pena; espantar-me com as declinações que tais esforços admitem, de pessoa para pessoa, de dia para dia. Expor-me, em suma, à inteligência e à sensibilidade alheias em flagrante delito de interacção com o Mundo das coisas e dos factos.
O que eu procuro num blog é aquilo que eu aprecio numa pessoa, na vida "real".
O que os blogs nos trouxeram foi um meio. Uma resposta à pergunta "como agir?". De hoje para amanhã, os blogs podem deixar de ser mencionados noutros lugares; a moda pode passar. Mas o meio existe; e a única questão que me interessa é saber se continuarão a existir pessoas que dele se sirvam.


ÚLTIMO AVISO À NAVEGAÇÃO: Muitos dos filmes que estão a ser exibidos na Festa do Cinema Francês têm já estreia prevista entre nós, o que servirá para minimizar o desgosto daqueles que percam um ou mais dos filmes que não queriam perder, devido a compromisso inadiável, acto de Deus, ou esquecimento puro e simples.
Em nome da honestidade, convirá ainda relembrar que estamos a falar aqui de cinema francês, o mais protegido do mundo, ponta-de-lança do jacobinismo cultural da pátria dos irmãos Lumière, logo forçosamente conformista e acomodado, para além de narcisista e autocontemplativo. Um aviso com este teor deveria figurar nos bilhetes, e ser repetido oralmente por um mestre de cerimónias, com ar lúgubre e sobrecasaca, antes de cada sessão.


DESTAQUES DA SEMANA: Ao longo da semana, os pontos altos da programação, na minha opinião pessoal, serão: o double-bill de Sylvie Testud, uma das actrizes francesas mais fascinantes do momento, na segunda-feira; "Un Homme, un Vrai", dor irmãos Larrieu, terça às 21h30; "Ce Jour-Là", do incorrigível Raoul Ruiz, quarta às 21h30; "Les Égarés", de André Téchiné, sexta também às 21h30.


PUGRAMA PARA HOJE: Os filmes mais nteressantes programados para este domingo parecem-se ser "Petites Coupures", de Pascal Bonitzer (19h00), e "Novo", de Jean-Pierre Limosin (21h30).
Bonitzer é outro ex-crítico (e dos melhores que há, por sinal) que passou à realização, tendo sido também argumentista, por exemplo de Rivette ("L'Amour Par Terre", "Haut Bas Fragile", "Va Savoir"...) e de Téchiné. Parece ter-se especializado em comédias sofisticadas, com forte teor de sátira ao meio "intello-bobo" parisiense. Quanto a Limosin, seguiu um percurso algo atípico, com frequentes passagens pelo documentarismo, incluindo episódios da série "Cinéma de Notre Temps" sobre Kiarostami, Kitano e Alain Cavalier (este último notabilíssimo).
Mais informações e horários podem ser encontrados aqui.


NOTÍCIAS DO SÃO JORGE: A Festa do Cinema Francês, 4ª do nome, está animadíssima. Há um ror de anos que eu não entrava no São Jorge. As sessões decorrem na Sala 1, a mais grandiosa das três, que nos transporta inevitavelmente aos tempos do cinema como evento social de envergadura, aos tempos das grandes estreias, aos tempos em que não havia a pílula, nem os fornos de micro-ondas, nem o GPS, nem o Ice Tea da Lipton (TM).
A varanda, de onde se desfruta de uma visão panorâmica sobre a bela Avenida da Liberdade, tem o mérito acrescido de permitir fugir à atmosfera enfumarada do foyer. Ontem, assisti a dois filmes que me tinham aguçado as expectativas: "Saltimbank", de Jean-Claude Biette, e "Choses Secrètes", de Jean-Claude Brisseau.
De Biette, crítico e co-fundador (com Serge Daney) da revista "Trafic", prematuramente falecido há poucos meses, eu conhecia "Trois Ponts Sur la Rivière", estreado entre nós, e "Le Champignon des Carpathes", filme dos anos 80. "Saltimbank" aproxima-se muito mais deste último do que do primeiro, pela ausência de centro de gravidade, pela maneira como o ténue enredo se dispersa por personagens aparentemente secundárias, e pela temática teatral. Se bem que eu deteste caracterizar criadores em termos de combinações lineares de outros criadores, não pude deixar de ver em "Saltimbank" um cruzamento entre os universos de Jacques Rivette e Otar Iosseliani. Este excelente filme é valorizado ainda pela presença de uma das grandes actrizes francesas contemporâneas: Jeanne Balibar. Pela subtileza e inteligência do seu jogo de representação, Balibar, à semelhança, por exemplo, de uma sua contemporânea como Sandrine Kiberlain, insere-se na tradição de actrizes como Isabelle Huppert, mas nunca deixa de fazer bom uso de uma vertente mais física e dinâmica.
De Brisseau apenas tinha visto "Noce Blanche", que me parecera pouco mais do que um veículo para uma Vanessa Paradis então em início de carreira. "Choses Secrètes" é, obviamente, um filme de outra divisão, que se apresenta como um conto iniciático (a stripper que ensina à jovem protegida como servir-se dos seus encantos para subir na escala social), e que, aproximadamente a meio, se transfigura, auto-eleva-se a um expoente inesperado de cinismo e gravidade, transforma os manipuladores em manipulados, e deixa ainda lugar a um desenlace que nunca poderia ser feliz, mas que vai no sentido de restabelecer uma (muito suspeita) normalidade após, quase literalmente, termos visitado o Inferno. Creio que o filme peca por, em momentos decisivos, as soluções cinematográficas encontradas por Brisseau não terem estado à altura daquilo que o dramatismo da situação exigiria: demasiado banais por vezes, demasiado a reboque de um erotismo ostentatório de pacotilha, noutras ocasiões. Compreendo que certos excessos se enquadrem perfeitamente na lógica do filme, mas parece-me que nem sempre foram geridos da maneira mais feliz. Trata-se aqui, essencialmente, de uma questão de gosto, mais do que de uma insuficiência ou deslize.


POLÍTICA DOS AUTORES: Nenhuma eventual "Idade de Ouro" da humanidade poderá deixar de ser anunciada pela decisão de, nos escaparates das lojas da especialidade, os DVDs de cinema passarem a estar ordenados por realizador, em vez de o estarem pelo título.
Um cidadão que visite uma Fnac, ou um dos seus émulos ou precursores, animado pelo propósito louvável de enriquecer a sua colecção de obras de Antonioni (por exemplo), vê-se obrigado a fazer o percurso do A ("A Aventura") ao Z ("Zabriskie Point"), gastando quantidades absurdas de calorias e de minutos.
Foi para isto que indivíduos como Buñuel, Stroheim, Welles, Cimino, travaram batalhas contra produtores e preconceitos?
Enquanto esta situação não mudar, não se admirem com o meu semblante macambúzio, com a minha postura descrente, com o meu olhar de difuso e apocalíptico pessimismo.


Quinta, 9 Outubro, 2003

ESCUTADO NO RÁDIO CLUBE PORTUGUÊS: Noites longas passadas com o Lionel Richie?
Citando João César Monteiro: «Preferia não o fazer.».


CINEMA: "La Finestra di Fronte", de Ferzan Ozpetek.

«Este filme repousa sobre dois logros. ("Logro" é entendido aqui no seu sentido artístico, não forçosamente pejorativo, não beliscado pela ética.) O primeiro é essa ideia de que uma vida falhada ou infeliz pode ser resgatada por interposta pessoa, beneficiária de uma boa acção desinteressada. Assim, o velho pasteleiro amnésico, que perdeu o amante durante a guerra, realiza-se e resgata-se a um passado de amargura graças à amizade que trava com a jovem que o recolhe. Jovem que, por sinal, atravessa uma crise no seu casamento, e que, divina surpresa, também gosta de fazer bolos e tortas, o que propicia uma transmissão de saberes ao mesmo tempo sensual e rica em simbolismos.»

- E o segundo logro, Ponziani? - perguntei eu.
O Ponziani bebeu três goles rápidos de sumo de laranja e manga, antes de prosseguir.

«O segundo logro é este: sugerir que existem numa vida encruzilhadas que existem durante um lapso de tempo que se mede em segundos, durante os quais se joga a felicidade, o sentido, a ausência deste, e toda a plêiade de razões de ser, convenientemente amalgamadas num todo susceptível de ser filmado em plano americano. Assim, a cena em que a personagem de Giovanna Mezzogiorno desce as escadas à pressa para tentar falar uma última vez com o bancário seu vizinho (que parece saído de um horroroso telefilme erótico) é do mais insuportavelmente convencional que me tem sido dado ver. Os momentos mais conseguidos do filme ocorrem quando estas duas correntes (a felicidade perdida, cujo fantasma atormenta ainda; a felicidade contemporânea, que se joga no aqui e no dramático agora) se cruzam e interagem, em momentos de singular beleza que o rosto de Giovanna Mezzogiorno suporta com estóica e humaníssima profundidade. São esses instantes, servidos por uma mise-en-scène de elegante sobriedade, que perduram na memória do espectador. Uma vitória do acto de filmar sobre a história.»




RESUMO DA TELENOVELA "O TEU OLHAR": MONONOMIA:

Daniela procura a mãe no jardim e quando a encontra esta acaba por desfalecer nos seus braços. Preocupada com o estado de saúde de Daniela, Daniela chama Daniela. Daniela não encara com bons olhos a presença de Daniela, acusa-a de ter colocado Daniela contra ela e pede-lhe que saia de sua casa. Desesperada, e sem se conseguir explicar, Daniela vai-se embora. Daniela conta a Daniela que Daniela ligou e que está viva. Daniela não cabe em si de contentamento. Daniela, contra a opinião de Daniela, diz que vai ter com Daniela. Daniela insiste que Daniela vai-lhe estragar a vida. Daniela liga para o seu telemóvel que está na posse de Daniela e fica a saber quem é que o tem. Daniela reencontra Daniela e pede-lhe desculpa por ter pensado que ela tinha morrido. Daniela diz-lhe que se recordou do acidente, embora tenha confundido com a actualidade, uma vez que ele aparecia nas suas memórias. Daniela entra em pânico.




O NOVO GOVERNADOR DA CALIFÓRNIA (ANUNCIADO NA TV!): A eleição de Arnold Schwarzenegger para governador da Califórnia deveria, mais uma vez, fazer pensar duas vezes todos aqueles que vêem os EUA como um modelo democrático. A democracia norte-americana terá muitas virtudes; as suas instituições são sólidas e bem implantadas; acredito sinceramente que (talvez a par com o Reino Unido) os Estados Unidos são o país do mundo menos susceptível de degenerar em ditadura. O reverso da medalha, porém, não é bonito de se ver. Começa pela bipolarização sem fissuras, que redunda, na prática, numa quase monopolarização, e que só é ameaçada por um ou outro milionário ambicioso, eleição sim, eleição não. O rol das fragilidades prossegue com o peso excessivo dos donativos e financiamentos privados das campanhas, o que amarra os candidatos a promessas, favores e lobbies, e veda o acesso ao poder a quem não tenha capacidade de angariar as quantias necessárias para aparecer em horário nobre. O reino sem partilha da política espectáculo, a rarefacção extrema do debate de ideias, e a obsessão por questões importantes mas secundárias (aborto, controlo da venda de armas) contribuem para um panorama deveras desolador.
Não sei se Schwarzenegger será um governador competente ou não. No limite, isso acaba por não ser relevante para esta discussão. Haverá alguém, para além dos cínicos e dos fustigadores de serviço da "politiquice" profissional, que não sintam um arrepio na espinha ao ver alguém sem experiência de cargos públicos ser eleito para liderar o mais rico dos estados americanos, apenas (ou quase) graças à sua fama e a um discurso tingido de populismo comedido?
Aproveito para acrescentar que é simplesmente confrangedor que o premir da estafada tecla dos escândalos sexuais e pecadilhos de juventude tenha acompanhado esta campanha, como se nenhum outro argumento de oposição mais válido existisse.


FESTA DO CINEMA FRANCÊS: As sessões começam amanhã, sexta, mas só a partir de sábado começará realmente a valer a pena trepar as escadarias do São Jorge, como quem não quer a coisa (mas querendo). Não é que a perspectiva de rever a insubstituível Marie Gillain, no novo filme de Cédric Klapisch, não seja tentadora. Perante o nutrido programa das festas que se seguem, contudo, impõe-se reservar forças para outras investidas. E ir à Festa do Cinema Francês para ver "Fanfan la Tulipe", francamente, é como ir a Veneza para comprar um livro da Taschen sobre Veronese na estação de caminho-de-ferro.
No sábado, o único embaraço é o da escolha. O filme de Jean-Claude Biette é obrigatório; o de Jean-Claude Brisseau (à noite) pouco falta para o ser. O de François Ozon ("Swimming Pool") não o seria menos, mas, como a sua estreia em Portugal está anunciada para breve, será este provavelmente o sacrificado. Também é certo que nada se opõe a que eu veja 3 longas-metragens num só dia, a não ser o bom senso.


MODUS E NODOS: Preparava-me para fazer o obituário do Modus Vivendi, devido ao anúncio de encerramento deste espaço. Mas constatei hoje a existência de um post recente, o que me leva a esperar que essa decisão possa ser reconsiderada. Aguardemos para ver.
Quem acabou de vez foi a "Linha dos Nodos" (sem o enlace, que já não funciona). Durante a sua curta existência, tinha-nos habituado a textos de grande qualidade e rara clarividência sobre ciência, artes e sociedade em geral. Lamento e assinalo.


DEPOIS DO PIU, O DILÚVIO: O Pintainho acabou.
A hora é de tristeza e de profunda melancolia.
Estamos perante o primeiro sintoma claro de decadência da blogosfera.
A altura é a ideal para esclarecer uma coisa. Não sei até que ponto este e os meus anteriores testemunhos de admiração pelo blog galináceo podem ter parecido irónicos. Não eram. O meu entusiasmo era sincero. Não sei se era essa a sua intenção, mas, durante a sua curta existência, o Pintainho serviu de irónico contraponto a todos os balofos e supérfluos devaneios que a blogosfera acolhe. Para além disso, foi uma elegante e surpreendente experiência conceptual e formal, coisa rara num panorama bloguístico em que o mérito é quase sempre atribuído em função da maior ou menor qualidade dos conteúdos (para não falar do nome do autor).
Como se tudo isto não bastasse, os comentários dos visitantes eram deliciosos. Como se o laconismo gerasse a urgência de o violar, ou suprir.
Adeus, Pintainho.
Como o autor desconhecido apenas deixou um pio de despedida, não vale a pena conservar o enlace na lista dos favoritos. Para quando a publicação dos arquivos integrais? ("O Meu Piupiu"?)


Quarta, 8 Outubro, 2003

A MONTANHA VEM ATÉ MAOMÉ: A Festa do Cinema Francês arranca amanhã (primeira sessão pública só na sexta), e prevejo que se transforme no principal predador do meu tempo livre, na semana que vem. Será a ocasião para frequentar com inusitada assiduidade o cinema São Jorge e artérias circundantes, tudo pela boa causa.
Informações detalhadas sobre os filmes podem ser obtidas aqui.


AI QUE BEM ESCOLHIDO!: É raro que um Prémio Nobel científico seja ganho por alguém cujo trabalho já conhecia, mas foi precisamente o que sucedeu este ano. Parabéns a Paul Lauterbur e a Peter Mansfield, co-vencedores do Nobel da Medicina de 2003.


Terça, 7 Outubro, 2003

OUR OWN PRIVATE FALSE ENDING: Cada um tem as crises de crescimento que merece.
No nosso caso, a crise traduziu-se num sentimento de mal-estar e desencanto que se tinha vindo a apoderar dos autores doblog, e que, desde há muito, ameaçava envenenar uma relação de amizade que prezamos muitíssimo. Foi, assim, com a convicção de que a única solução possível seria a de pôr fim a esta aventura bloguística que nos reunimos, sábado passado, num restaurante italiano do Bairro Alto. Sem que o confessássemos, sentíamos a necessidade de nos olharmos nos olhos antes de enfrentarmos o inevitável. A refeição foi precedida de uma sessão na Cinemateca, que constou de um documentário sobre artistas norte-americanos do pós-guerra (De Kooning, Newman, Rauschenberg, Warhol, Johns, Stella...), complementado por uma curta-metragem de Sokurov sobre o pintor francês Hubert Robert. O próprio João Bénard da Costa, director da Cinemateca, entrou e saiu por várias vezes da sala durante a projecção, sentando-se ora no chão, ora numa das poucas cadeiras livres. O tal restaurante italiano já tinha sido visitado tanto por mim como pela América, mas nunca pelo Ponziani. O Ponziani não é italiano, e é originário da Beira Interior. Todos pedimos sogliola pugliese al limone, mas nem todos com a mesma convicção. O molho espesso, que continha corações de alcachofra, foi copiosamente elogiado. As principais queixas do Ponziani tinham a ver com o facto de nos termos alheado e desviado dos nossos propósitos iniciais, que tinham como vector unificador um questionamento perpétuo das realidades, das aparências, do alcance ético dos nossos actos na Pólis, e das diversas actividades produtoras de discurso, tudo isto recorrendo às linguagens e aos métodos do teatro, que se prestam maravilhosamente a esta atitude, toda ela tacteios e exploração. A América fez suas as críticas do Ponziani, acrescentando que era lamentável termos dedicado tão pouco espaço a considerações sobre o episódio vergonhoso da prisão de Afonso Costa, aquando do golpe conduzido por Sidónio Pais. Todas estas observações eram legítimas e pertinentes. Chegada a minha vez de falar, "entre a pêra e o queijo", como se costuma dizer, fiz-lhes ver que o nossoblog não tinha de ser o prolongamento de nada, e que eu até via com bons olhos que ele ganhasse alguma autonomia. Para quê fazê-lo depender de uma experiência que, em boa verdade, se malogrou? Há que admiti-lo: os ensaios estão parados, a peça de Kleist nunca verá a luz do dia, os problemas que julgávamos transponíveis eram intransponíveis, e seria deslocado e malsão pormo-nos agora a apontar culpados. A tudo isto a América e o Ponziani assentiram, com uma docilidade que me surpreendeu. A última estocada esperou pelo café (um espresso de sofrível qualidade): argumentei, com um calor que as circunstâncias (parece-me) justificavam, que coisas estranhas se passam em Lisboa, e que o tempo de estarmos alerta ainda está longe de findar. Um homem percorre os telhados e terraços da cidade, confundindo-se com o escuro da noite, vestido de látex; pululam os mitos urbanos sobre cavalheiros de aspecto respeitável que assobiam melodias populares enquanto dão de comer aos pombos, e que põem em respeito as autoridades com um simples franzir de sobrancelhas; um prestamista desapareceu sem deixar rasto; fala-se numa conspiração, com ramificações tentaculares que chegam às mais altas esferas.
Não foi preciso ir mais longe. Os meus ouvintes manifestavam concordância por meio do silêncio, que é precisamente o meu modus operandi predilecto.
Assim, o Umblogsobrekleist vai continuar. Vamos seguir em frente, sem interrupções, pausas para reflexão, rupturas ou soluções de continuidade. Avessos a dogmas, e definindo-nos a cada post. Convictos de que o vermelho de Matisse era mais belo do que o vermelho dos outros pintores, de que os Zombies foram os génios esquecidos dos anos 60, e de que julgar que Albert Camus era inglês deveria ser justa causa para o despedimento de um apresentador de concursos televisivos.


Domingo, 5 Outubro, 2003 (Implantação da República)

OBJECTION, YOUR HONOUR!: Amália Rodrigues, a «maior figura da música portuguesa» (ouvido hoje na RTP1)?
Não havia também aquele tipo que cantava umas coisas, chamado José Afonso?


A PROPÓSITO DE CONSTITUIÇÃO...: Um dos artigos que mais comichão provoca ao CDS/PP (ver o "DN" de ontem, suplemento "Negócios") é aquele que diz caber ao Estado disciplinar a actividade económica e os investimentos estrangeiros a fim de garantir a sua contribuição para o desenvolvimento do país.
De facto, mais marxista do que isto é impossível...
Se os países do Sudeste asiático se tivessem mostrado um nadinha mais marxistas, talvez a crise que abalou a região nos finais dos anos 90 pudesse ter sido evitada. De facto, a situação foi despoletada por investimentos estrangeiros maciços, que visavam quase exclusivamente sectores de forte potencial especulativo (acções, sector imobiliário), e que em pouco contribuíam para o real desenvolvimento social das populações. Quando, após o optimismo inicial, a adrenalina dos investidores começou a disparar, a volatilidade destes capitais tornou-se óbvia, e o desinvestimento brutal provocou uma espiral de falências, despedimentos e inflação.
Parece-me que o artigo relativo ao controlo dos investimentos estrangeiros por parte do Estado está bem onde está. Talvez se possa trocar a ordem das palavras, ou usar um tamanho de fonte mais pequeno, ou mudar de Times New Roman para Arial, se isso chegar para devolver o sorriso aos rostos de Paulo Portas e seus valorosos correligionários.


REPÚBLICA: Dizem-nos: «A monarquia funciona essencialmente no plano simbólico, e o rei serve como elemento aglutinador e unificador da população.». Deixa-me sempre perplexa, esta fé na pujança semiótica da monarquia. Como se a República não possuísse também os seus símbolos (divisa, bandeira, hino...), que, devidamente utilizados, são poderosos instrumentos de união dos cidadãos e de divulgação dos princípios fundamentais subjacentes. A França, provavelmente o país mais republicano do mundo, fornece um exemplo soberbo de exaltação dos símbolos da República, acompanhada por um esforço pedagógico e por um debate continuado sobre valores e ideias.


REPÚBLICA: Dizem-nos: «Muitos dos países mais desenvolvidos e com maior qualidade de vida da Europa (Grã-Bretanha, Suécia, Noruega, Holanda, Dinamarca...) são monarquias.». Isso é incontestável. Mais difícil é demonstrar que existe relação de causa e efeito. Para além disso, é preciso ter em conta que a história recente de muitas destas nações foi bem menos conturbada do que a da maior parte dos países do centro, sul e leste do continente. Ora, como as passagens de monarquia para República na Europa (com uma ou outra ditadurazita pelo meio) ocorreram, quase sempre, na sequência de guerras ou convulsões sociopolíticas profundas, deduz-se que os países mais a norte tiveram menos ocasiões de realizar a transição. Mais ainda: defendo que a persistência do regime monárquico em países como Dinamarca, Noruega, etc., é mais consequência do que causa da prosperidade e estabilidade que os caracteriza.
Convém ainda não esquecer que dois países escandinavos (pela língua ou pela geografia), a Islândia e a Finlândia, por vezes esquecidos neste tipo de discussão, são ambos repúblicas do mais saudável que há.


REPÚBLICA: Dizem-nos: «Pelo menos, numa monarquia, temos a certeza de que o chefe de Estado foi treinado para reinar e servir o país desde criança.». Mas qual será o treino mais desejável para quem assume a liderança política ou moral de uma Nação? Um ócio régio de décadas (à espera que o progenitor se digne morrer, ou, falhando isso, abdicar), povoado de aparições nas capas das revistas e de sessões de pose, ou uma vida de batalhas políticas e contacto diário com os verdadeiros problemas das pessoas, que é, afinal, o percurso típico de um presidente da República?
Existem actividades em que os membros das casas reais são exímios: dar entrevistas, jogar pólo, distribuir bodos. Quanto a exercer o mais elevado cargo de magistrado, deixem isso para as pessoas crescidas, e vão brincar para o quarto.


A LIGA DOS CAVALHEIROS EXTRAORDINÁRIOS: Consta que, nesse edificante evento recreativo que foi o congresso da causa real, se abordou a questão do artigo da Constituição que impede a realização de um referendo à monarquia. Este estribilho repete-se com a previsibilidade entediante dos equinócios. Pessoalmente, acho perfeitamente natural que o texto basilar de uma Nação não contemple outra forma de governo que não a vigente; o contrário seria autodinamitar-se, deixar aberta uma porta do cavalo que legitimaria a sua própria aniquilação.
Ainda que o princípio da coisa fosse válido, porém, a sua implementação levantaria problemas e espinhosas questões de princípio. Admitindo que o regresso à monarquia seria decidido por maioria simples, e supondo (por absurdo) que a monarquia recolhia, digamos, 52% dos votos, qual seria o futuro? A decência e a reciprocidade exigiriam que um novo referendo fosse realizado, dentro de um prazo razoável (10 anos? 20 anos?). E se, nessa nova consulta, a maioria, descontente com os dislates do monarca, oscilasse novamente para o regime republicano? O que haveria a fazer? Desfraldar novamente os estandartes verdirrubros que tivessem sido poupados pelas traças, cunhar novas moedas, e fechar o parêntesis? E a seguir? Por quanto tempo sustentaria o país esta grotesca alternância?


EXORTAÇÃO ÀS NOVAS GERAÇÕES (E ÀS OUTRAS TAMBÉM): Uma coisa que se passou há quase um século pode parecer irrelevante para as nossas existências. Mas não esmoreceu ainda a urgência de reiterar, ano após ano, que foi graças àquilo que sucedeu num dia de 1910 que hoje temos como Chefe de Estado uma pessoa legitimada pelo sufrágio universal, explicitamente comprometida com a obrigação de zelar pelas instituições que suportam um Estado igualitário, livre e democrático, em vez de termos o filho do filho do filho do filho do filho (mais crise sucessória, menos crise sucessória) de alguém que, séculos atrás, soube mostrar-se mais hábil no manejo da espada, ou mais subtil nas manobras palacianas.


O MEU FERIADO: Sou uma criatura avessa a conflitos, pouquíssimo dada a altercações, e que, por norma, prefere sempre o diálogo à confrontação não verbal. Uma das pouco numerosas coisas que me faria sair à rua, seguramente e sem hesitação, erguer barricadas se necessário fosse, servir-me dos paralelepípedos de outros objectos arremessáveis, seria uma qualquer tentativa de reinstauração da monarquia. No pasarán!, e tudo o mais.


É HOJE! É HOJE!: Bom feriado, cidadãos.


LE ROI S'AMUSE: O X Congresso da Causa Real desenrola-se aqui mesmo ao pé deste vosso criado, mais precisamente no Fórum Lisboa. Marcar tão simpático evento para este fim-de-semana é uma provocação daquelas tão foleiras e canhestras que, mais do que indignação, suscitam um sentimento ao qual não é alheia uma certa ternura. Afinal, aquelas boas gentes também sabem estrebuchar, e as suas aristocráticas negaças são como uma especiaria que dá tempero à vida sem lhe prejudicar o gosto.
A vontade de armar ali mesmo um estaminé de venda de barretes frígios foi grande, mas infelizmente o dia trazia no seu bojo outras prioridades.


Sábado, 4 Outubro, 2003

DEPOIS DE "QUARESMA": A acreditar nos boatos, a próxima longa-metragem de José Álvaro Morais terá por título "Cristiano Ronaldo", e Leonor Seixas é a principal candidata ao papel de "girl next door" madeirense.


ESCOLÁSTICAS: Da pluma de Eurico de Barros nunca se espera que saia coisa de jeito, mas sucede por vezes que as suas recensões, mau grado a sua frouxidão e superficialidade, se tornem sintomáticas de certas tendências que continuam a assombrar a escrita sobre cinema que nos é dado ler nos jornais portugueses. No "DN" da passada sexta-feira, E.B. acusa José Álvaro Morais, realizador de "Quaresma" (que ainda não vi), de «[abusar] da elipse e [confiar] demais na argúcia (e na paciência) do espectador para perceber tudo aquilo que é omitido e não dito, ou que fica suspenso e sugerido». Ora bem, eu acho espantosa a obsessão que tantos críticos da nossa praça demonstram relativamente à coerência narrativa e à consistência do enredo. Parece-me incompreensível, e redutor até ao grotesco, basear a crítica a um filme na maneira mais ou menos escorreita como se desenrolam as peripécias, e censurar sumariamente um realizador por «obscurecer sentido», como se a transparência e a legibilidade devessem ser uma meta incontestável de um criador, na sétima arte ou nas demais.
Isto é tanto mais preocupante e aberrante quanto, pelo menos desde que o cinema adquiriu a sua maturidade enquanto arte (desde, digamos, os anos 50), a maioria dos filmes verdadeiramente grandes e significativos foram culpados de subversão agravada da lógica narrativa, obscurecimento de sentido em primeiro grau (o sentido!, esse Santo Graal de bazar que ainda povoa tantos sonhos), e outros delitos diversos do mesmo calibre.
De tanto ser batida, esta tecla acabará por dar de si.


A PANÓPLIA DO FETICHISTA CINÉFILO, 51 A 60 (DE 100):

51 - Trampolim de piscina ("The Last Picture Show", Peter Bogdanovich)
52 - Tambor ("O Tambor", Volker Schlöndorff)
53 - Pianola ("O Meu Caso", Manoel de Oliveira)
54 - Grinalda de flores + Tanga ("Tabu", Friedrich Wilhelm Murnau)
55 - Bola de basebol autografada pelo grande "Shoeless" Joe Jackson ("Field of Dreams", Phil Alden Robinson)
56 - Sotaina ("Journal d'Un Curé de Campagne", Robert Bresson)
57 - Relógio de pêndulo ("Ordet", Carl Theodor Dreyer)
58 - Garrafa de vinho com urânio no interior ("Notorious", Alfred Hitchcock)
59 - "Petite dalle brisée" ("Smoking/No Smoking", Alain Resnais)
60 - Metralhadora ("If...", Lindsay Anderson)




O 1BSK ERROU (3): O jogo que inspirou uma ópera foi um Ljubojevic-Kasparov, e não um Kasparov-Ljubojevic (o grande-mestre jugoslavo jogou com as brancas). Tratou-se de um jogo em ritmo rápido (5 minutos para a totalidade dos lances de cada jogador), disputado em Bruxelas, em 1987. Kasparov perdeu este jogo (yesss!), mas ganhou o torneio (isso é que já é pena). Entretanto, no campeonato europeu de clubes que está a decorrer em Creta, Kasparov acaba de sofrer uma derrota com um jogador pouco conhecido de Israel, Alexander Huzman. Isto enche-me de um júbilo vivo e duradouro.


O 1BSK ERROU (2): Onde está "Semana do Cinema Francês", leia-se "Festa do Cinema Francês". Para regozijo de muitos, com efeito, esta iniciativa dura mais de uma semana.


O 1BSK ERROU (1): No penúltimo post, onde está "Areeiro", leia-se "Roma". Onde está "Kleist", pode continuar a ler-se "Kleist".
(Teria sido mais simples corrigir o próprio post; são estes os efeitos perversos de ser pago à peça.)


Quinta, 2 Outubro, 2003

DO FUNESTO NA ARTE (ESCUTADO NO RÁDIO CLUBE PORTUGUÊS): Uma cover das Supremes pelo Phil Collins não me parece ser algo que seja consentâneo com a paz entre os Homens, a legalidade constitucional, e a harmonia geral das coisas.


À ATENÇÃO DOS ESPELEÓLOGOS DA GRANDE LISBOA E VALE DO TEJO: A água que se infiltra pelo tecto da estação de metropolitano do Areeiro (sentido Telheiras) começa a formar estalactites visíveis à vista desarmada. Isto para não falar do lago interior, cuja forma não deixa de recordar a do lago Wannsee, nas margens do qual se suicidou Heinrich von Kleist, no ano de 1811, com um tiro de pistola.


UMA NOITE NA ÓPERA: Uma ópera num acto inspirada por um jogo de xadrez (Kasparov-Ljubojevic, 1987)? Incrível mas autêntico. Leia tudo aqui. (O enlace não é directo, mas basta procurar um bocadinho por entre as entradas mais recentes.)
Nestas coisas, como em tudo, torna-se necessária alguma selectividade. Basear-se numa das minhas partidas para compor uma ópera, por exemplo, seria um erro crasso. A não ser que o género visado fosse a opera buffa, ou a comédia de enganos shakespeareana.


RESUMO DA TELENOVELA "O TEU OLHAR": VERSÃO TRÁGICA:

Daniela procura a mãe no jardim e quando a encontra esta acaba por desfalecer nos seus braços. Foi apunhalada por Clitemnestra e por Egisto, o seu amante, que não esperavam mais do que o fim da guerra de Tróia para consumar o seu crime. Preocupada com o estado de saúde de Vera, Daniela chama Júlia, e conta-lhe como o oráculo revelou que o rei Laio viria a ser morto pelo próprio filho. Vera não encara com bons olhos a presença de Júlia, acusa-a de ter colocado Francisco contra ela e pede-lhe que saia de sua casa. Desesperada, com as mãos manchadas de sangue, e sem se conseguir explicar, Júlia vai-se embora. Rui conta a Miguel que Orestes matou Egisto para vingar o pai, e que é por isso que as Erínias o perseguem. Miguel não cabe em si de contentamento. Miguel, contra a opinião de Créon, diz que Antígona tem razão em querer inumar o seu irmão, Polinices. Rui insiste que Margarida vai-lhe estragar a vida. Édipo encontra-se com Laio, o seu pai, num cruzamento, mata-o por engano, resolve o enigma da Esfinge, casa-se com a própria mãe. Sérgio liga para o seu telemóvel que está na posse de Paula e fica a saber por que razão as cinquenta filhas de Danaus juraram ao pai assassinar os maridos na noite de núpcias. Miguel reencontra Margarida e pede-lhe desculpa por ter acusado de traição Electra, que ajudou o seu irmão Orestes. Margarida diz-lhe que se recordou do acidente, embora tenha confundido com a actualidade, uma vez que ele aparecia nas suas memórias. Miguel entra em pânico, vaza os próprios olhos, erra no deserto acompanhado pela filha, Antígona.




MUITO BARULHO POR (QUASE) NADA: Todos os anos, por esta altura, revisita-me uma estranheza que não consigo sacudir, perante a atenção e expectativa mediáticas que rodeiam a atribuição do prémio Nobel da literatura. Raras vezes se deixa de fazer notar que as decisões da academia Nobel possuem um longo historial de controvérsias e arbitrariedade; enumera-se o rol de grandes autores que nunca foram contemplados (Joyce, Borges, Greene, Yourcenar...); e só é pena que poucos se lembrem de partir destas premissas para chegar à conclusão inevitável, a saber, que o prémio Nobel é um prémio necessariamente sujeito às ideias pessoais dos membros que compõem o comité que o atribui. Se a isso adicionarmos os numerosos factores suplementares (disponibilidade da obra em idioma sueco, manobras político-diplomáticas...), penso que se deve concluir que os membros da Academia estão longe de deter a verdade absoluta, à maneira de oráculo da excelência literária, e que o prémio Nobel não deveria merecer mais destaque do que outros de natureza e alcance semelhantes.
Pelo menos, desde que Saramago foi galardoado, somos poupados ao choradinho e ao afinado coro de protestos que acompanhavam, anualmente a atribuição do prémio. Chegou a parecer que a (não) atribuição do Nobel a um autor português era uma causa nacional, como se este prémio devesse ser uma consequência obrigatória da importância de uma língua no mundo, ou da qualidade e significância de uma nação literária. Causava-me sinceros e dolorosos apertos no coração, verificar o afã com que tantos e tão bons embarcavam neste logro, que tinha muito menos de genuína preocupação literária do que de manobra promotora da lusofonia e de exaltação do orgulho nacional, devidamente acompanhada por cotoveladas e apoio precário nos bicos dos pés.
Tendo dito isto, não me importo de admitir que, a cada ano que passa, alimento uma secreta esperança de ver premiado, e com direito ao spot de 60 segundos nos telejornais nacionais (entre o desporto e a meteorologia), um dos meus autores preferidos ainda vivos: John Barth, John Ashbery, Jacques Roubaud, Pascal Quignard, Doris Lessing, Peter Handke...
Li apenas um livro de J.M. Coetzee. "Disgrace". Bom romance. Muito bom mesmo. Dele se diz ser recluso e pouco dado a publicidade. Pergunto-me se irá a Estocolmo. Mas duvido que recuse o prémio. Isso sim, seria um saudável agitar de águas.


SEMANA DO CINEMA FRANCÊS: Sim, ei-la que chega outra vez! Mais francesa, mais cinéfila e mais semanal do que nunca.
Não estando ainda na posse do programa completo, limito-me a indicar alguns filmes que, na minha opinião, adquirem o estatuto de "fortemente recomendáveis", pelos antecedentes que ostentam, e que tentarei não perder, na medida em que o permita a labuta diária pra vida.
  • "Les Égarés", de André Téchiné. Um realizador já veterano, mas que tem vindo a enveredar por uma senda de radicalismo e despojamento criativo dignos de nota.
  • "Swimming Pool", de François Ozon. Filme recebido pela crítica com alguma frieza, mas que não hesito em recomendar, pelo que já conheço deste realizador ("8 Femmes", "Sous le Sable", "Gouttes d'Eau sur Pierres Brûlantes"), um dos mais originais e hiperactivos da nova geração francesa.
  • "Stupeur et Tremblements", de Alain Corneau. Corneau pode ser um tudo-nada previsível (apesar do deslumbrante "Tous les Matins du Monde"), mas esta adaptação de um romance de Amélie Nothomb é pouco menos que obrigatória, devido à oportunidade de ver Sylvie Testud a falar em japonês.
  • "Petites Coupures", de Pascal Bonitzer. Terceira longa-metragem deste antigo crítico dos "Cahiers", um dos representantes mais notórios da comédia intelectual parisiense, sofisticada e ligeira.
  • "Son frère", de Patrice Chéreau. Com este realizador, que tem vindo a conseguir um fascinante casamento das metodologias do teatro e do cinema (nunca me esquecerei da impressão que me deixou "La Reine Margot"), não são precisas grandes argumentações. É ir ver, e pronto.
  • "Saltimbank", de Jean-Claude Biette. Outro ex-"Cahiers", recentemente falecido. Se outros argumentos não houvesse, haveria Jeanne Balibar.
  • "Choses Secrètes", de Jean-Claude Brisseau. Tal como Biette (ver acima), um daqueles realizadores pouco ou nada exportados, mas que goza de sólida reputação nos meios críticos franceses.
As sessões decorrerão no Cinema São Jorge, de 9 a 19 deste mês de Outubro.