Heinrich von Kleist (1777-1811)Liberté Egalité FraternitéNo tabuleiro de xadrez, as mentiras e a hipocrisia não duram muito (Em. Lasker)Monty Python forever!

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outubro 2004

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Quinta, 28 Outubro, 2004

A CABALA: Rui Gomes da Silva defende que uma cabala pode existir independentemente de uma vontade objectiva. Marcelo Rebelo de Sousa qualifica tal afirmação de insulto ao bom senso e à semântica. Inclino-me a atribuir a razão ao ministro. Conspirar por negligência é algo que nada tem de extravagante. Urdir tramas não requer calculismo. Basta existir na cidade. Atribuir secretamente nomes de poemas de Celan às paragens de autocarro da carreira 67 não é coisa que se faça sem cumplicidades involuntárias. As palavras do Doutor Gomes da Silva foram retiradas do seu contexto, e cercadas por um debrum de tecido cor de ameixa. Tão culpado é aquele que mexe os cordelinhos como aquele que empresta 50 euros ao pacífico parceiro de palco do conspirador. As deixas de Kleist são transpiração de um corpo solar mas proibido pela tradição. Estou a escrever exactamente o que penso. Viver na cidade de Lisboa é o acto mais subversivo de todos. Todos estes pares de olhos cândidos, estas mãos prontas a ajudar. Todos eles dentro do segredo, todos eles ignorantes do seu nome plural.
A inacreditável verdade por revelar, e porém já cheirando a chuva urbana.


Quarta, 27 Outubro, 2004

...E OUTRO (KLEIST) É DE QUEM O APANHAR: A Sara do Beco das Imagens teve a amabilidade de nos prevenir que há exemplares de "Sur le Théâtre des Marionnettes", de Kleist, à venda na Fnac do Chiado pela quantia irrisória de 1,94 euros. Isto caso não tenham sido entretanto arrebatados por fãs do alemão estouvado. Para quem não tenha preconceitos contra traduções francesas, esta é uma oportunidade a não perder.
Não me parece descabido relembrar que este livro de Kleist é o mais fascinante livro do mundo.


Terça, 26 Outubro, 2004

PASMO: Contrariando os prognósticos pessimistas que não as viam como contendoras sérias, a palavra "pasmo" e derivadas têm galgado posições no meu "top" de preferências com uma presteza comovedora. Também aprecio o seu parceiro etimológico em francês "(se) pâmer" ("desmaiar" ou "desfalecer"), infelizmente tombado em obsolescência, mas que se encontra com profusão em textos antigos, como o "Lancelot du Lac". Por exemplo: «Quand elle apprit que Lancelot son neveu était vivant, elle eut une telle joie qu'elle ne put se tenir debout. Elle se pâme (...) - Par le nom de Dieu, dit la reine de Gaunes, qui était revenue de pâmoison (...)».
É evidente que estas fórmulas ganham outra suculência no original em francês arcaico: «Et qant ele oï parler de Lancelot, son neveu, qu'il estoit vis, s'en fu si liee que ele ne se pot sor piez tenir et ele se pasme. (...) En non Deu, fait ele qui de pasmoisons fu revenue (...)».


XADREZ E COMPUTADORES: Terá lugar na quinta-feira, às 13 horas, no anfiteatro 3.2.14 da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (edifício C3), uma palestra conduzida por Luís Santos, Grande Mestre de xadrez postal, subordinada ao tema "Xadrez e Computadores". Como "moro" (profissionalmente falando) mesmo ao lado, só perderei esta ocasião se o destino me pregar uma daquelas partidas que não se perdoam nem a um amigo do peito.
Luís Santos conduz, de há muitos anos para cá, uma página semanal (terças-feiras) de xadrez, de muito boa qualidade, no jornal "A Capital". Num país com escassas tradições escaquísticas, e em que o acompanhamento mediático da modalidade é quase nulo, isto é absolutamente notável. Mais do que uma pedrada no charco, um autêntico meteorito no lago Baikal.


Segunda, 25 Outubro, 2004

DISSE-NOS UM PASSARINHO, MULTICOR E ADEJANTE...: ...que a livraria Som das Letras, em Évora, é altamente recomendável!


PRIMEIRO O PROFESSOR MARCELO, DEPOIS O KLEIST: Soube hoje, de fontes fidedignas, que o 1bsk não está acessível a partir de certos postos Internet italianos. Alegadamente, o teor de obscenidades em italiano é demasiado elevado para os pudibundos filtros locais. Como se as vulgaridades na língua de Leopardi fossem a especialidade da casa! Não, meus amigos, o motivo é outro, e todos o sabemos: a classe dirigente de Roma não aprecia a franqueza, tem medo da verdade, e não hesita em censurar as vozes incómodas. Vítimas do lápis azul berlusconiano, continuaremos ainda assim a pugnar para que a pluralidade regresse à península transalpina, e não abdicaremos do direito de publicar a nossa versão da receita de polenta. Leia o 1bsk! Umblog de causas, agora oficialmente amordaçado por um país da UE! (E isto antes da divulgação da nossa opinião sobre o caso Buttiglione, o Comissário Que Veio Do Paleolítico.)


Sábado, 23 Outubro, 2004

O DESABAFO: Num mundo em que os pacotes de cereais não trazem versos de William Butler Yeats EU NÃO QUERO VIVER!


Terça, 19 Outubro, 2004

«Assez. Trop affreux, et d'ailleurs sans intérêt.» (Albert Cohen, "Belle du Seigneur")


DIÁLOGO NUM RESTAURANTE DO PORTO:

CLIENTE: A francesinha especial, o que é?
EMPREGADO: A francesinha especial é uma francesinha normal.
(Estupefacção e cepticismo do CLIENTE perante as cousas miríficas que este nosso mundo acolhe.)



Quinta, 14 Outubro, 2004

NO HAY BLOG: Esperemos que seja verdade aquilo que tem afirmado o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa: o silêncio pode também ser uma maneira de dizer coisas.


«Grace to be born and live as variously as possible.» (Verso do poeta Frank O'Hara, inscrito no seu túmulo.)


Quinta, 7 Outubro, 2004

RECADO PARA CINÉFILOS GULOSOS: Só ao fim de numerosas e memoráveis visitas à geladaria "Zoka", no centro histórico de Évora, é que a colega América compreendeu o alcance cinéfilo de um dos sabores mais populares: os "moranguinhos silvestres". A homenagem ao mestre Ingmar Bergman é tão oportuna quanto refrescante para o palato.


DE PROFUNDIS CLAMAVI AD TE, DOMINE: ...E tu, Senhor, escutaste-me, e enviaste mais uma Festa do Cinema Francês. Começa já nesta sexta. O primeiro dos imperdíveis surge no sábado, com "Histoire de Marie et Julien", de Jacques Rivette (14h00). No São Jorge. Atenção também à programação fora de Lisboa. Mais informações aqui.


«I have written a wicked book, and feel spotless as the lamb.» (Herman Melville, carta a Nathaniel Hawthorne, Nov. 1851)


GOTAS DE ÁGUA SOBRE DIVÃ DE COURO: As Torneiras de Freud cumpriram o seu primeiro ano de fluida e hidráulica existência. Muitos parabéns às duas autoras. Este seria um dos três ou quatro blogs que eu levaria para uma ilha deserta equipada com ADSL. Está tudo dito.


Terça, 5 Outubro, 2004 (Implantação da República)

UM BRADO BARBÁRICO EM TEMPO DE SURDINAS:

Hoje como há 94 anos...

VIVA A REPÚBLICA!!!