Heinrich von Kleist (1777-1811)Liberté Egalité FraternitéNo tabuleiro de xadrez, as mentiras e a hipocrisia não duram muito (Em. Lasker)Monty Python forever!

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setembro 2003

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Terça, 30 Setembro, 2003

PAREM AS ROTATIVAS!: É oficial! A América virá a Lisboa, no próximo fim-de-semana, por ocasião do seu feriado favorito. Aqui está o programa provisório.

SÁBADO:

10h00: Chegada a Lisboa, via gare fluvial do Terreiro do Paço.
10h30: Viagem de táxi até à casa da prima, que se chama Ásia (proibido rir), e que mora em Campo de Ourique.
10h45: Telefonemas, repouso, distribuição dos artigos da bagagem pelos locais devidos.
11h45: Travessia a pé da Alameda D. Afonso Henriques, no sentido do comprimento.
12h30: Refeição simples num estabelecimento de restauração.
14h00: Visita à Biblioteca/Museu República e Resistência.
15h30: Deslocação do cotovelo direito dois centímetros para a direita.
15h45: Visita ao Chiado, para comprar um incensório e outros artigos. (A América não gosta de incenso, mas é coleccionadora ávida de incensórios.)
18h30: Cinemateca!
21h30: Jantar, tardio, com os demais contribuintes doblog.
24h00: Regresso a casa da prima, abluções, sono.

DOMINGO:

8h00: Alvorada, pequeno-almoço, etc.
9h30: Comemorações do 5 de Outubro.
11h30: Duas voltas à pista do Estádio 1º de Maio, no sentido dos ponteiros. Descanso.
12h30: Refeição.
13h00: Comemorações do 5 de Outubro.
15h00: Gesticulações incompreensíveis para os que a rodeiam.
15h30: Partida de Trivial Pursuit com um amigo.
17h00: Excursão ao Parque das Nações (se a meteorologia o permitir).
19h30: Jantar em Alfama.
21h30: Devaneios peripatéticos pelas ruas de Lisboa.
24h00: Regresso a casa da prima, abluções, sono.

SEGUNDA:

Regresso ao Alto Alentejo.




Segunda, 29 Setembro, 2003

NAMEDROPPERS OF THE WORLD, UNITE!: Heinrich von Kleist, Johann Wolfgang von Goethe, Friedrich von Schiller, Theodor Fontane, Ernst Jünger, Botho Strauss, Ingeborg Bachmann, Heinrich Böll, Ignazio Silone, Vasco Pratolini, Giovanni Verga, Italo Svevo, Italo Calvino, Natalia Ginzburg, Giacomo Leopardi, Ugo Foscolo, Luigi Pirandello, Giuseppe Tomasi di Lampedusa, Primo Levi, Gianni Celati, Cesare Pavese, Salvatore Quasimodo, Giuseppe Ungaretti, Elio Vittorini, Camilo José Cela, Gonzalo Torrente Ballester, Javier Marías, Federico García Lorca, Mário de Sá-Carneiro, António Botto, Guerra Junqueiro, Cesário Verde, Gomes Leal, Manuel Teixeira Gomes, Raul Brandão, José Régio, Vitorino Nemésio, Luiza Neto Jorge, Fiama Hasse Pais Brandão, Ana Hatherly, João Miguel Fernandes Jorge, Vergílio Ferreira, Carlos de Oliveira, Luísa Costa Gomes, Maria Gabriela Llansol, Agustina Bessa-Luís, Manuel Bandeira, Machado de Assis, Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto, Clarice Lispector, Mário de Andrade, José Lezama Lima, Vicente Huidobro, Jorge Luis Borges, Adolfo Bioy Casares, Pablo Neruda, Miguel Ángel Asturias, Octavio Paz, Alejo Carpentier, Henry David Thoreau, Walt Whitman, Ralph Waldo Emerson, Nathaniel Hawthorne, William Faulkner, Herman Melville, William Faulkner, John Dos Passos, Saul Bellow, Gertrude Stein, Donald Barthelme, John Barth, Robert Coover, Thomas Pynchon, Marianne Moore, E.E. Cummings, William Carlos Williams, John Berryman, Robert Lowell, John Ashbery, Allen Ginsberg, Paul Auster, Frank O'Hara, Anne Carson, Yasunari Kawabata, Yukio Mishima, Patrick White, Rabindranath Tagore, Germano de Almeida, Mia Couto, José Craveirinha, Naguib Mahfouz, Driss Chraïbi, Mikhail Bulgakov, Anna Akhmatova, Marina Tsvetayeva, Joseph Brodsky, Ossip Mandelstam, Vladimir Mayakovsky, Stig Dagerman, Henrik Ibsen, William Butler Yeats, James Joyce, Samuel Beckett, Brendan Behan, John Millington Synge, Frank O'Connor, Seamus Heaney, Paul Muldoon, Dylan Thomas, Virginia Woolf, Katherine Mansfield, Malcolm Lowry, Sylvia Plath, Julian Barnes, Doris Lessing, Graham Greene, Guy de Maupassant, Claude Simon, Alain Robbe-Grillet, Robert Pinget, Michel Butor, Nathalie Sarraute, Marguerite Duras, Marguerite Yourcenar, Georges Perec, Raymond Queneau, Jacques Roubaud, Marcel Proust, André Gide, François Mauriac, Claude Mauriac, André Breton, Paul Éluard, Benjamin Péret, Robert Desnos, Paul Laforgue, Valery Larbaud, Joris-Karl Huysmans, Patrick Modiano, Pascal Quignard, Julien Green, Günter Grass, Siegfried Lenz, Franz Kafka, Frank Wedekind, Georg Büchner, Gotthold Lessing, Heinrich von Kleist.
A tão propalada "paroquialização" possui variadas faces, e a menos mesquinha de entre elas não será por certo essa tendência para ver em tudo o que é citação, mais ou menos erudita, uma manifestação de pretensiosismo, amigada com o desejo de alardear leituras e bagagem. O 1bsk gosta de citar e de fazer apelo a autores "muito cá de casa"; disso já se apercebeu quem nos lê. O mirífico universo de referências que dois milénios e meio de literatura colocam à nossa disposição possui uma existência própria, como o dito "mundo real", e encontra-se à mercê dos nossos apetites intertextuais. Admoestar alguém por citar com abundância não é menos absurdo do que acusar alguém que narra as suas aventuras nos mares da China de estar a pavonear uma excessiva e indecorosa experiência das coisas da vida.
E há ainda a volúpia armazenada em cada sílaba de um nome... Como bem o sabia o jovem narrador da "Recherche", que amou Veneza através do seu nome, e a explorou até à exaustão mais doentia, antes de lá pôr os pês pela primeira vez. (Son nom de Venise... Proust e Duras, mesmo combate?)
Fim do post.



LIÇÕES DOS PRÉ-SOCRÁTICOS: Liga um cidadão a TV à hora do costume, e eis que constata a inopinada e brutal substituição de Jorge Gabriel por Fernando Mendes, no plateau do concurso "Preço Certo em Euros".
Eu não fui feito para esta existência de transiência e mudança. A administração da RTP deve julgar que os seus telespectadores são maioritariamente heraclitianos, mas sucede que eu sou eleata por convicção, afinidade e intuição.


Domingo, 28 Setembro, 2003

RÁDIO CIDADE PERDE SOTAQUE BRASILEIRO: Qual será a próxima baixa desta fúria reformadora? A pastilha elástica do gelado Epá? Os vendedores do almanaque Borda d'Água? Os furinhos das bolachas Maria?
Uma nação que deixa que lhe mexam no imaginário com tamanha leviandade é uma nação que nunca o foi.


O APAGÃO EM ITÁLIA SEGUNDO BERLUSCONI: A culpa foi dos jornalistas comunistas, e de todos aqueles que têm por objectivo denegrir a Itália e o povo italiano. A não ser que tenha sido um juiz que, num acto de insanidade, puxou o fio da tomada.


Sábado, 27 Setembro, 2003

ALLEZ LES BLEUES!!!: Ainda não me foi dado escutar/ler uma única referência ao Mundial feminino de futebol, nos nossos meios de comunicação social. Visivelmente, para a imprensa portuguesa, desporto feminino resume-se às tenistas de saiote curto, às corredoras de fundo (desde que tragam uma medalhita para alegrar a plebe, de vez em quando), e a muito pouco mais.
Podem ficar a saber resultados do Mundial por exemplo aqui (com destaque para a carreira da equipa francesa).
Quando verificamos que se gasta mais tempo de emissão e mais tinta a discorrer sobre os totós do David Beckham do que sobre futebol feminino, compreendemos que algo de errado e funesto se passa neste terceiro planeta a contar do sol.


COISAS MAGNÍFICAS E ESPANTOSAS PARA FAZER EM LISBOA: Penetrar, recorrendo a um estratagema, numa residência universitária no bairro da Penha de França; trazer dois livros sobre cobras debaixo do braço; aproveitar a ausência do anfitrião para revistar um dos quartos; desculpar-se, em caso de flagrante delito, argumentando que se estava à procura de um livro de Noam Chomsky chamado "Cartesian Linguistics".


DE NOMES E DE COISAS: Quem se recorda daquela reprografia onde tive o prazer de avistar uma quase-sósia da Marie Gillain? Pois bem, esse estabelecimento possui outros predicados, como por exemplo computadores pessoais baptizados com nomes de arquitectos famosos: Rohe, Portzamparc, Wright... Digam lá se não é um toque original e louvável. Esta reprografia oferece uma vasta gama de serviços, e possui horários de abertura alargados. Não digo nome nem contactos, por achar que a publicidade a instituições com fim lucrativo não se coaduna com o espírito deste espaço (única excepção: o leite condensado Primor); mas de bom grado revelarei estes elementos a quem me escreva pedindo-o expressamente.


Sexta, 26 Setembro, 2003

OS LIVRES-PENSADORES ESTÃO POR TODA A PARTE: Hoje (ou melhor, ontem, atendendo à hora) assisti a uma apresentação sobre técnicas de modelação matemática do alastramento de manchas de petróleo no mar, aplicadas ao caso do "Prestige". Falou-se em correntes, ondas e ventos. Incompreensivelmente, não foi feita uma única referência à Virgem Maria.


TRANSPARÊNCIAS: Ludgero Marques, por não estar sujeito à tirania periódica do plebiscito, pode dizer aquilo que lhe vai na alma com muito mais à-vontade do que o político médio. Daí que as suas declarações adquiram uma transparência cristalina que se coaduna com os seus magníficos olhos claros. Para Ludgero Marques, as coisas são simples: a culpa da falta de produtividade nacional é da função pública, e só se conseguirá aumentar essa mesma produtividade reformando (ou seja, minimizando) as administrações públicas. Nesta lógica tão linear, não cabe a evidência de que só faria sentido comparar as eficiências dos sectores público e privado se os seus papéis e desígnios respectivos fossem semelhantes. E isto deveria ser óbvio mesmo para todos aqueles para quem o paraíso seria a desregulação total: uma espécie de selva com PSI-20 e stock-options, e onde correriam leite e mel livres de impostos.


Terça, 23 Setembro, 2003

O CHEFE RECOMENDA: O Almocreve das Petas tem vindo a publicar suculentos nacos de história xadrezística, complementados por interessantes enlaces que vieram já enriquecer a minha lista de favoritos. O último dizia respeito a Marcel Duchamp, sem dúvida o único homem que logrou contribuir para revolucionar a arte do século XX e defender as cores do seu país (França!) nas Olimpíadas de xadrez.
Mesmo na ausência de todas as outras muito boas razões, estas incursões escaquísticas justificariam a visita a este blog.
Tradicionalmente, tem sido na música, mais do que nas artes plásticas, que se têm distinguido os grandes-mestres com queda para as artes. Relembre-se Mark Taimanov (pianista e campeão da URSS em 1956), Vassily Smyslov (campeão do mundo entre 1957 e 1958, e barítono) e o grande Philidor (compositor de ópera do século XVIII, e o maior xadrezista do seu tempo; é mencionado em "Le Neveu de Rameau", de Diderot). Outros há, como Garry Kasparov, que se exprimem com particular desenvoltura nas artes circenses.


E AOS COSTUMES DISSE PIU: Cada vez mais loquaz, o Pintainho ousou até acompanhar um dos seus posts com uma imagem! Quanto aos comentários dos visitantes, são do melhor que há, e servem de elegante e entusiástico contraponto à pudica contenção galinácea do autor do blog. Decididamente, um espaço de visita diária obrigatória.


MERGULHO NA INTIMIDADE ALHEIA (MAIS UM): O tempo continua de vacas magras, por isso recorro mais uma vez ao diário secreto do Ponziani. O cortar-e-colar está para o blogger assim como o micro-ondas está para a dona de casa.

«Um actor é alguém que abdica de quase tudo quando sobe ao palco. E contudo, é esse mesmo "quase tudo", declinável em termos de postura, tiques de linguagem, temperamento, maneiras de reagir aos estímulos, que continua a presidir sobre a actuação do comediante, como que em negativo, numa surdina tornada rebelde pela inibição e supressão. Desde logo, são essas pulsões de normalidade, esses acordes da identidade do indivíduo, prontos a manifestarem-se com brusco exacerbamento, que se torna necessário conhecer. Num mundo perfeito, o encenador acompanharia o actor através da vida deste, à distância de uma melodia trauteada a meia voz, registando tudo aquilo que faz dele um cidadão, definindo-o por exaustão das suas atitudes; para em seguida, num recato inviolável que duraria tanto tempo quanto necessário, tudo discutirem e confrontarem. Nesse mesmo mundo ideal, o encenador não desviaria a sua atenção do actor desde o momento em que este se dedicasse a uma pacata ocupação do dia-a-dia até a esse outro momento em que pronunciasse a sua deixa, sob a insolente jurisdição da sua personagem. Chegaria depois o tempo de apurarem conclusões sobre aquilo (pele, memória, ideias) que fora necessário deixar para trás entre um momento e outro, e em que altura, e se a contragosto ou não.»




Jacques Rivette

«Il faut voir le monde comme une idée, il faut le penser comme concret; deux chemins, avec tous deux leurs risques.» (Jacques Rivette)







AOS VOSSOS VÍDEOS, CIDADÃOS!: Está anunciada para a próxima quinta-feira, às 18h30, na RTP2, a exibição de uma curta-metragem de Jacques Rivette de 1956, "Le Coup du Berger". Não sendo um filme que anuncie de maneira óbvia o resto da obra de Rivette (e em particular a sua primeira obra-prima, "Paris Nous Appartient", cuja rodagem se iniciaria apenas 2 anos depois), apresenta já como tema principal uma das pedras basilares da filmografia rivetteana, a saber a conspiração, o segredo, o estratagema. De resto, trata-se de um filme razoavelmente aparentado aos que, mais ou menos na época, surgiam das mãos de outros comparsas da Nouvelle Vague, caracterizado por grande simplicidade de meios, argumentos pouco rebuscados, profusão de piscadelas de olho mútuas, Jean-Claude Brialy num dos papéis principais, e uma urgência criativa que não deixa de impressionar.
Jacques Doniol-Valcroze (sob o pseudónimo "Étienne Loinod") faz de marido enganado, e Godard, Truffaut e Chabrol têm todos pequenos papéis (na cena da festa). O assistente é um certo Jean-Marie Straub
O título original faz referência a uma conhecida combinação xadrezística, mas consta que Rivette não é adepto deste jogo.


MAIS UM CONVERTIDO: Um leitor identificado escreveu-nos a anunciar que deveu a esteblog a descoberta da "Pentesileia", a tal peça que glosa de maneira original os temas "rapaz encontra rapariga", "rapaz ama rapariga", "rapaz vence rapariga em combate singular", "rapariga vinga-se de rapaz fazendo com que os seus cães o devorem". Este leitor resume a essência da obra por meio desta expressão: "Bué de pathos". Eu não faria melhor, por isso nem tento.
Continuem p.f. a fazer-nos chegar os vossos relatos de encontros imediatos com Kleist e o seu mundo, através do endereço do costume.


Domingo, 21 Setembro, 2003

GENEALOGIA DA TRAGÉDIA: Como hoje não há tempo para escrever mais, limito-me a deixar os nomes dos cães que Pentesileia atiçou contra Aquiles, e que acabaram por devorá-lo.
Os nomes são estes: Taïaut, Tigris, Dirké, Sphinx, Hyrcaon.
Cães mansos, pensa Aquiles, daqueles que até vêm comer à mão.


Sábado, 20 Setembro, 2003

RESUMO DA TELENOVELA "O TEU OLHAR": SATURAÇÃO TEMÁTICA (MÚSICA):

Daniela procura a mãe no jardim e quando a encontra esta está a trautear uma ária conhecida, e acaba por desfalecer nos seus braços. Preocupada com o estado de saúde de Vera, Daniela chama Júlia com a sua voz melódica. Vera não encara com bons olhos a presença de Júlia, acusa-a de ter colocado o saxofonista contra ela e pede-lhe que saia de sua casa, e que leve os seus discos. Desesperada, e sem se conseguir explicar, Júlia vai-se embora, chorando como Rodolfo em "La Bohème". Ouvem-se escalas ao piano, provenientes de uma divisão distante. Rui conta a Miguel que Margarida ligou e que está viva, e que fez uma assinatura anual para a temporada de música de câmara. Miguel não cabe em si de contentamento, e canta a plenos pulmões. Miguel, contra a opinião de Rui, diz que vai ter com Margarida para a convencer que Thelonious Monk é melhor do que Charlie Parker. Rui insiste que Margarida vai-lhe estragar a aparelhagem. O tocador de realejo bate à porta. Sérgio liga para o seu telemóvel que está na posse de Paula e fica a saber quem é o admirador incondicional do barítono de origem galesa Bryn Terfel. Miguel reencontra Margarida e pede-lhe desculpa por ter pensado que ela não apreciava música de câmara. Margarida diz-lhe que se recordou do recital, embora tenha confundido com um simples ensaio de alunos do Conservatório, uma vez que a afluência de público melómano foi paupérrima. Miguel entra em pânico, e, acto contínuo, desafina.




EU GOSTAVA DE TER UM EURO...:
  • por cada vez que o Camacho encolhe os ombros, durante as conferências de imprensa
  • por cada vez que alguém descreve um filme ou um romance como "um fresco" (e porque não uma aguarela ou um óleo?)
  • por cada vez que o nome do realizador de "Raging Bull" aparece escrito "Scorcese" em vez de "Scorsese"
  • por cada vez que, de uma personalidade, grupo musical, autor, realizador, se diz ser daqueles que "ou se amam ou se detestam", sem meio termo (em 99 % dos casos, nem amo nem detesto)



COISAS MAGNÍFICAS E ESPANTOSAS PARA FAZER EM LISBOA: Ir de carro até a uma oficina do Dafundo para requisitar um maçarico de acetileno; falhar a missão; visitar um alfarrabista do Bairro Alto, no intuito de adquirir uma edição original das "Cartas sem moral nenhuma", de Manuel Teixeira Gomes, que servisse de presente de consolação ao destinatário do apetrecho de metalurgia; encontrar o alfarrabista fechado; regressar a casa, e tentar imaginar como soaria a campainha do telefone, se tocasse nesse momento. (Nota da América: «Esta aventura é verídica, e sucedeu à minha prima direita.».)



ANÁTEMA CONTRA todos aqueles que, no metropolitano, se encostam aos varões de suporte em frente das entradas, impedindo os restantes passageiros de a ele se segurar, e assim prevenir os efeitos de uma hipotética travagem brusca.
Estes indivíduos faltam aos seus deveres de cidadania, e contribuem para perturbar a ordem republicana.


Sexta, 19 Setembro, 2003

RESUMO DA TELENOVELA "O TEU OLHAR": METACROMATISMO SIMPLES:

Daniela procura a mãe no jardim branco e quando a encontra esta acaba por desfalecer nos seus braços brancos. Preocupada com o estado de saúde de Vera, Daniela chama Júlia com um gesto branco. O branco invade os espaços, com notável desenvoltura. Vera não encara com brancos olhos a presença de Júlia, acusa-a, num modo branco, de ter colocado Francisco contra ela e pede-lhe que saia de sua casa branca. Desesperada e branca, e sem se conseguir explicar, Júlia vai-se embora. Branco. Rui conta a Miguel que Margarida ligou e que está viva e branca. Branco, Miguel não cabe em si de contentamento branco. Miguel, contra a opinião branca de Rui, pinta um muro de branco, e diz que vai ter com Margarida a um sítio branco. Brancura de lençóis sobre um palco. Rui insiste que Margarida vai-lhe estragar a vida branca. O branco das nuvens é mais branco que o branco do leite. Sérgio liga para o seu telemóvel branco que está na posse de Paula e fica a saber quem é branco. Miguel reencontra Margarida e pede-lhe desculpas brancas por ter pensado que ela tinha morrido uma morte branca. Margarida diz-lhe que se recordou do acidente branco, embora tenha confundido com a actualidade branca, uma vez que ele aparecia nas suas memórias brancas. Branco. Branco. Miguel entra em pânico branco.




O AUTOR DE QUEM SE FALA: O António Rebelo, da Janela Indiscreta, relatou ter avistado um cidadão na posse de um exemplar da peça "Pentesileia". Assinalo, com reconhecimento, o zelo e a atenção. Confirmam-se, pois, os sintomas de uma auspiciosa vaga de fundo, de consequências imprevisíveis para o panorama cultural português.
Nós aqui no 1bsk cultivamos o escrúpulo como um bonsai, e por isso não podemos excluir a hipótese de se ter tratado de um dos acólitos a quem pagámos (com dinheiro extorquido à viúva e ao órfão) para se pavonearem na via pública, com livros de Kleist bem à vista. Chama-se a isto manipulação da opinião pública. Uma obsessão é uma coisa triste, lamentável e vergonhosa.


Quinta, 18 Setembro, 2003

MONTY PYTHON FOREVER: «If only the general public would take more care when buying its sweeties, it would reduce the number of man-hours lost to the nation and they would spend less time having their stomachs pumped and sitting around in public lavatories.»
("Monty Python's Flying Circus Volume One", Episode Six)
(© Python Productions)



DA IMPORTÂNCIA DOS PRODUTOS LÁCTEOS (FONTE DE CÁLCIO E DE PROTEÍNAS): O post do Nocturno 76 a propósito do leite condensado Nestlé trouxe-me mais satisfação do que quase tudo o que li desde o fim do período mesozóico (que me seja relevado o exagero). Impõe-se, contudo, uma advertência. Quando cozer uma lata de leite condensado na panela de pressão, certifique-se que fica totalmente coberta de água e espere que arrefeça por completo antes de abrir. E já agora, acrescento eu, nunca deixe as suas garrafas de gás deitadas, nem monte o esquentador na casa-de-banho, e confie apenas em técnicos qualificados e devidamente credenciados.
Pessoalmente, a minha predilecção recai sobre o leite condensado da marca Primor. (De gustibus et coloribus...) O gosto de uma colher de leite condensado Primor é como uma festa na nossa boca, com toda a gente convidada.


Terça, 16 Setembro, 2003

ATAQUE SEGUIDO DE RIPOSTA: No rescaldo de um ensaio recente, como resposta à crítica «Porque o teu projecto era esse: fazer de nós pequenos soldados obedientes, formados no amor à causa da arte dramática, prontos a aplicar o que aprendiam em palco na vida real. Era essa a tua ideia principal, não era? O que te fazia correr. O teu credo portátil. O teu Grande Plano. O aperfeiçoamento enquanto actores devia reflectir-se na pujança ética com que agíamos e gesticulávamos na vida real.», o colega Ponziani limitou-se a abrir os braços, e a pronunciar, em voz sumida: «Há lá desafio maior do que viver uma vida decente?».
Tudo isto é muito bonito, mas não será talvez supérfluo salientar que o passatempo preferido do Ponziani é escutar Village People e Demis Roussos, com o volume no máximo.


PARA ALÉM DO BEM E DO MAL: João Lopes é um dos cronistas da imprensa portuguesa cujas considerações sobre cinema, imagens e o seu poder simbólico importa ler, e cuja acuidade e pertinência são de molde a suscitar reflexão (o que não é virtude pequena, e contrasta com o autismo auto-suficiente da maioria dos artigos de opinião). No "DN" do passado sábado, evocando a morte de Leni Riefenstahl, e servindo-se do fenómeno da pornografia como exemplo suplementar, JL entrega-se a uma reflexão sobre o poder subversor das imagens, e sobre o discurso e as acções "hiperproteccionistas" que ele suscita. JL rejeita as atitudes "moralizadoras" que tendem a distinguir imagens "boas" de imagens "más", assim como a ficção de um consumidor carente de defesas, "ameaçado" e "sem pensamento". Este ponto de vista é pertinente; contudo, aquilo que o artigo parece ignorar (ou pelo menos não frisa de maneira conclusiva) é que o desnorte, por parte dos poderes instituídos, perante o caudal de imagens que invadem o espaço público resulta menos de um juízo de valor do que do pânico perante a própria diluição de valores que as imagens tendem a instaurar. A história da relação entre imagens, comunicação social e sociedade, nas últimas décadas, é uma história marcada pela erosão da fé num hipotético valor atribuível às imagens. O mito da imagem "justa", que nunca se deu bem com os seus pés de barro, caiu de vez. Mais resistente tem sido a esperança de, de algum modo, minorar os efeitos dessa nulidade moral, por meio de medidas censórias (sempre em nome do interesse público ou da susceptibilidade dos espectadores) ou da imposição de cânones que cristalizam, para cada época, aquilo que é admissível e benigno. Uma parte considerável da história do cinema contemporâneo pode ser lida à luz desta clivagem entre a miragem do valor e a evidência silenciosa da imagem; pense-se em Rossellini, em Tarkovsky, em Wenders, na dupla Straub/Huillet, e, naturalmente, em Godard.
Deploro apenas que JL se sirva da expressão "moralismo hipócrita de tal atitude beata", ainda que porventura se justifique neste contexto específico. O Homo sapiens gosta de extrapolar, e fá-lo-á, neste caso, com tanto maior facilidade quanto a moral, nos dias que correm, goza de uma reputação deplorável, a tal ponto que "moral" e "hipócrita" se tornaram termos tão afins como "Carmo" e "Trindade", ou "mudo" e "quedo". Dizer de um filme (ou de um livro) que se abstém de "moralizar" torna-se tão indispensável à sua aceitação como garantir, num qualquer refrigerante, a total ausência de corantes e conservantes. E eu lamento. Tenho para mim que "vida ética" contém uma redundância, e que nenhuma obra de arte válida pode deixar de ser também (ainda que por ínvios caminhos) uma resposta a questões como "Que fazer?" ou "Como fazê-lo?". E é por isso que acho impossível sobrestimar a obra de um realizador como Nanni Moretti, esse terrorista da moral, que teve a inteligência de criar um alter ego que lhe garante a dose necessária de afastamento cómico, e que absorve as ondas de choque provocadas pelas violentas diatribes a que se entrega.
Mas isto é a talhe de foice...



RESUMO DA TELENOVELA "O TEU OLHAR" PARA O DIA 16/9 (EXTRACTO):

Daniela procura a mãe no jardim e quando a encontra esta acaba por desfalecer nos seus braços. Preocupada com o estado de saúde de Vera, Daniela chama Júlia. Vera não encara com bons olhos a presença de Júlia, acusa-a de ter colocado Francisco contra ela e pede-lhe que saia de sua casa. Desesperada, e sem se conseguir explicar, Júlia vai-se embora. Rui conta a Miguel que Margarida ligou e que está viva. Miguel não cabe em si de contentamento. Miguel, contra a opinião de Rui, diz que vai ter com Margarida. Rui insiste que Margarida vai-lhe estragar a vida. Sérgio liga para o seu telemóvel que está na posse de Paula e fica a saber quem é que o tem. Miguel reencontra Margarida e pede-lhe desculpa por ter pensado que ela tinha morrido. Margarida diz-lhe que se recordou do acidente, embora tenha confundido com a actualidade, uma vez que ele aparecia nas suas memórias. Miguel entra em pânico.




Segunda, 15 Setembro, 2003

A PANÓPLIA DO FETICHISTA CINÉFILO, 41 A 50 (DE 100):

41 - Gaita de beiços ("Era Uma Vez no Oeste", Sergio Leone)
42 - Espaço para uma bola de ténis ("Blow-up", Michelangelo Antonioni)
43 - Tinta azul + dinamite ("Pierrot le Fou", Jean-Luc Godard)
44 - Dedo grande de estátua ("L'Âge d'Or", Luis Buñuel)
45 - Roda dentada ("Modern Times", Charles Chaplin)
46 - Vestido branco de plumas ("L'Année Dernière à Marienbad", Alain Resnais)
47 - Guarda-chuva ("Singin' in the Rain", Gene Kelly/Stanley Donen)
48 - Chicote ("Oito e Meio", Federico Fellini)
49 - Folha de marmeleiro ("El Sol del Membrillo", Victor Erice)
50 - Bala de canhão ("The General", Buster Keaton)




Domingo, 14 Setembro, 2003

ENLACE CÉPTICO DA SEMANA: Passaram-se já várias semanas desde o último enlace céptico da semana, coisa que não faz qualquer sentido.
A Internet, o ciberespaço e os seus epifenómenos não são terreno onde seja aconselhável abrandar o zelo céptico. Muito pelo contrário! Somos constantemente assediados com anúncios, mensagens e fragmentos de informação de credibilidade duvidosa, e perante os quais urge exercer o nosso espírito crítico e a nossa vigilância. O melhor site que eu conheço, de entre os que se dedicam à denúncia e desmistificação dos inúmeros boatos e lendas urbanas que circulam na rede, é o Urban Legends Reference Pages (também conhecido por "Snopes"). Classificados por temas, muito bem escritos e ilustrados, são-nos apresentados numerosos artigos que examinam a história em questão, pesam os argumentos pró e contra, e emitem um julgamento quanto à sua falsidade ou veracidade. Para além de lendas urbanas, dessas que se propagam por "chain-mail", e de relatos de arrepiar os cabelos (contados sempre por alguém que conhece alguém que conhece alguém que conhece...), são também abordados mitos que já existiam muito antes da Internet surgir, e que ganharam raizes tão profundas no imaginário popular que será difícil exterminá-los em menos de uma geração ou duas. Por exemplo: o mito de que não existe um prémio Nobel da matemática por culpa de um matemático que teve uma aventura com a mulher de Alfred Nobel; a disparatada ideia de que só usamos 10% do nosso cérebro; e a controvérsia acerca do sentido de escoamento da água nos ralos das banheiras nos hemisférios Norte e Sul. Único problema deste site: os conteúdos estão fortemente ancorados na realidade norte-americana, se bem que muitos deles possuam alcance universal. À parte isso, recomenda-se a sua leitura, sem moderação. Um duche diário de bom senso e sólido espírito de indagação só pode fazer bem.
Os numerosos exemplos de generosidade por parte dos funcionários públicos nigerianos também merecem o seu espaço.


E A CADA MOMENTO cresce o amor da juventude alemã pela aviação sem motor!


MISTERIUM LUSITANUM PARTE 2: Do blog Marabunta, chegou-nos uma reacção às nossas considerações sobre o momentoso problema dos nomes próprios, apelidos e alcunhas: «A conclusão a que posso chegar, em modesta luz à sua dúvida, será talvez de que o mundo militar rege-se por cunhas, importando aqui o peso da família: este é destacado para tal sítio enquanto o outro fica por acolá e já agora promovemos o coronel qualquer coisa, que é filho daquele outro grande general. Já no futebol, mais que cunhas, importa o talento, daí a marca pessoal: o nome, a alcunha.»
Não me admiraria que a chave do enigma passasse, em parte, por este tipo de razões. Mas coloca-se ainda a questão de saber o porquê da "excepção portuguesa", neste capítulo. Eu avançaria a seguinte hipótese. Em Portugal, existe escassa variedade de nomes de família, se compararmos com o que sucede em França ou Itália. (Grã-Bretanha, Alemanha e Holanda serão exemplos de situações intermédias.) Pode ter nascido daí, por um lado, o hábito de apostar nos nomes de guerra para insuflar alguma individualização a um panorama onomástico dominado por Silvas, Santos e Almeidas; por outro lado, a tentação de recorrer a outros nomes de família em vez do nome próprio (exemplo: Sequeira dos Santos em vez de José dos Santos).
Esta problemática é agravada pela indigência de imaginação dos portugueses quando toca a escolher um nome próprio (sobretudo no domínio masculino). O futuro anuncia-se negro. Para quando uma intervenção estatal? O que fazem os nossos governantes?


PARA QUE SERVE A CONSTITUIÇÃO?: Para nada, a ajuizar por algumas declarações recentes de personalidades políticas. Se a constituição não passa de um espartilho, de um empecilho à acção dos governos na sua nobre missão de "modernizar" (uma das palavras mais abusadas dos últimos tempos) Portugal, porque não aboli-la?
Será assim tão esotérica e difícil de apreender, a noção de que uma constituição serve precisamente para modular as acções legislativa e executiva, e para subordinar estas últimas a um conjunto de princípios fundadores que transcendem a efemeridade das legislaturas?
Bem entendido, o encarniçamento em rever a constituição de dois em dois anos é outra maneira de pôr em causa a sua própria razão de ser.



DRAMATIS PERSONAE: Regresso à ideia de que esta opção entre relativizar e ceder ao tropismo pelos Absolutos define um indivíduo, para além de definir sociedades e momentos da História. No que toca aos colaboradores do Umblogsobrekleist, temos que a América, filha e neta de positivistas, livres-pensadores e heréticos, pende fortemente para o campo do relativo; o Ponziani é um "relativo", em quem acontecimentos recentes induziram não poucos acessos de "absolutismo"; o A e o B, nas suas esporádicas intervenções, dão mostras de um gosto pelo absoluto que toma o freio nos dentes, e que torna os seus posts irreconciliáveis com tudo o resto que aqui se escreve.



DO RELATIVO E DO ABSOLUTO (AINDA E SEMPRE): No meio das larachas que escrevi sobre um livro de Doris Lessing, aqui há coisa de um par de meses, abordei um tema que, mais do que simplesmente caro ou recorrente, é fundador de muita coisa que perpassa por este espaço verde-alface. Trata-se da distinção entre duas atitudes: aquela que privilegia o ensejo de relativizar, de contextualizar, de problematizar as questões por meio de proposições que tendam a vincular e comparar entre si as coisas do Mundo; e aquela que tende para um absoluto que pode assumir formas muito diversas, mas que sempre se distingue pela aversão ao discurso proposicional baseado na exploração e constatação de estados de coisas, e que exclui a confrontação e a crítica.
Os cinéfilos não deixarão de reconhecer a questão formulada por Jean Seberg a Jean-Paul Belmondo em "A Bout de Souffle", e alegadamente baseada numa citação de Faulkner (que eu nunca pude identificar). Entre a dor e o nada, que escolher? A personagem de Belmondo não poderia deixar de optar pelo nada: desdenha o compromisso, e não a amedronta o vazio absoluto. Escolher a dor implica aceder a relacionar-se com o Mundo, agarrar-se aos canaviais da margem do rio com o vigor de quem prefere tudo ao oblívio das profundezas, da corrente, do devir.
Godard sabe-a toda. Sempre foi assim. Esta questão encerra um dilema fundamental, singularmente crucial nos palcos da pequena como da grande História. Eu acredito que os últimos séculos da humanidade foram marcados por um descrédito crescente relativamente aos grandes Absolutos que serviram de pilares às sociedades durante tanto tempo, e isto a todos os níveis (Ciência, Religião, Política, Historiografia, Literatura, etc.), culminando (até ver) no século XX, que viu deflagrar o cepticismo lançado contra as Grandes Narrativas pelas correntes de pensamento pós-modernista.
Neste incipit de milénio, olhando à nossa volta e percorrendo as páginas dos jornais, é caso para perguntar que préstimo têm para o mundo contemporâneo os numerosos dogmas e conceitos absolutos que por aí pululam. Uma constatação que me parece inevitável é a de que a grande maioria dos conflitos que hoje persistem se devem à desmesurada importância atribuída a entidades ou princípios imunes à contestação e relativização: Deus, Pátria, Raça, Nação e variantes destes. E o mesmo se verifica se recuarmos na história, até onde as crónicas alcançam. Dir-me-ão que uma proporção considerável das guerras se devem ou deveram a factores mais prosaicos, como o acesso a vias marítimas, a água ou recursos naturais (já para não falar nos tempos em que se desencadeava uma guerra de anos quando um monarca amuava). E eu estarei de acordo, mas relembrarei que, concomitantes com essas motivações mais terra-a-terra, quase nunca faltam as hábeis propagandas fortemente baseadas num ou mais dos tais conceitos absolutos, e o impulso decisivo para a guerra parte, quase invariavelmente, da noção de que um Deus ou uma Pátria sancionam a divisão entre "Eles" e "Nós".
Pensemos na religião. Muitas das situações de conflito ou instabilidade do mundo de hoje têm por detrás delas as clivagens religiosas: Sudão, Palestina, Irlanda do Norte, Índia, Indonésia, Filipinas, Chipre. Mais uma vez, este estado de coisas não é de hoje, e foi o predominante desde há muitos séculos. Como contraponto a esta constatação, é da praxe citar o exemplo de Hitler e de Stalin, que, abolindo ou apoucando a religião nos seus países, protagonizaram dois dos regimes mais hediondos do século, e protagonizaram a guerra mais sangrenta de sempre. Mas estes exemplos são inadequados. Tanto na Alemanha nazi como na URSS estalinista, a religião foi substituída por outros eficazes Absolutos (culto da personalidade do líder, exacerbamento da Pátria, culto do herói, culto da Raça e do Sangue), em nome dos quais se fez a guerra, assim como os pogroms e as purgas. O exemplo que confirma (em vez de negar) a hipótese segundo a qual o excessivo peso dos Absolutos (e da religião em particular) na sociedade e na política é inimigo da paz vem da Europa ocidental, que, a partir de 1945, sofreu um processo de conversão gradual, mas seguro, à democracia representativa, acompanhada pela laicização das instituições, e pela instauração de um espaço de questionamento perpétuo, hostil às certezas e à retórica auto-suficiente que tanto mal fizeram. O resultado está à vista: mais de meio século de paz e de prosperidade, à excepção de redutos como Irlanda do Norte e País Basco, relíquias (sangrentas e lamentáveis) de um tempo, não tão distante quanto isso, em que o Absoluto ditava as suas leis. Não vivemos num paraíso, é bem certo que não. Porém, à luz da história, esta situação de estabilidade duradoura é uma preciosidade. E uma das lições fundamentais que há a reter será talvez esta: não há paraísos, e é por alguns fazerem crer que existem paraísos que, tantas vezes, o mundo se assemelha a um inferno.



The Draughtsman's Contract

AINDA É TEMPO: Post dirigido aos habitantes da região de Lisboa (tenho por vezes tendência a esquecer-me de que somos lidos do Atlântico aos Urais). Para quem ainda não foi ver "The Draughstman's Contract", nada está perdido!!!!!!! Ainda estará em exibição amanhã, segunda-feira, no Cine-Estúdio 222 (Av, Praia da Vitória, ao Saldanha), no seguinte horário: 17h00, 19h15, 21h45. Não percam a oportunidade de ver em sala um filme tão absolutamente brilhante que nos ensina uma lição valiosa: moderai os vossos superlativos, não esbanjai os encómios, sede comedidos com os vossos ditirambos, pois nunca estais livres de assistir a um filme que vos obrigue a elogiar com intensidade inaudita; e seria triste, quando chegasse esse momento, ver-se à míngua de palavras, apenas porque se foi demasiado liberal com outras obras menores.


HUMOR INVOLUNTÁRIO: Outro manancial de humor involuntário extremamente activo na sessão de ontem da Cinemateca foi a inépcia do tradutor da versão portuguesa. A poucos lugares do sítio onde eu estava, duas espectadoras pareciam rir com maior gosto das argoladas da tradução do que da comédia propriamente dita. O glorioso zénite foi atingido quando o tio da personagem de Katharine Hepburn, interpretada por Roland Young, diz «That remains to be seen». Tradução: «A minha relíquia foi vista».


A PROPÓSITO DE BONS COSTUMES: Fiquei a saber ontem, na Cinemateca, que, aquando da sua estreia em Portugal, ao filme de George Cukor "The Philadelphia Story" (1940) foi atribuída a classificação etária "Para maiores de 17". Pergunto-me como reagiriam os censores da época se lhes fosse dado ver obras como "Salò ou os 120 Dias de Sodoma", "The Baby of Mâcon" ou "Ken Park". Se houvesse proporcionalidade na sua reacção, seria caso para interditar os filmes em questão, destruir as cópias, queimar os seus autores em auto-de-fé e escorraçar os seus descendentes da companhia dos homens, até à sétima geração.


O POVO É SERENO: Foram salutarmente moderadas e sensatas as reacções à intervenção do fotógrafo Spencer Tunick, em Santa Maria da Feira. Não faltou o protesto de um clérigo local (não fez mais do que lhe era pedido, no fundo), mas o coro de vociferações indignadas que poderia eventualmente ser receado não sucedeu, e prevaleceu a convicção de que nada há no corpo humano de obsceno ou atentatório aos bons costumes («except for the intestines and bits of the bottom», citando os Monty Python). São situações como esta que reforçam a certeza de que os brandos costumes ainda são o que eram. Extrapolando (talvez abusivamente), isto tanto pode ser motivo de optimismo para o futuro do país como pretexto para o desânimo.
Dois enlaces para saber mais sobre o trabalho de Tunick: aqui e aqui.


IMPRENSA INTERNACIONAL: Lido no editorial do último Nouvel Observateur: «Passons sur la sortie inopportune de Jacques Chirac au printemps sur les nouveaux Européens: ils l'avaient un peu cherché. J'ai entendu la plus haute personnalité politique et morale du Portugal déclarer que Jacques Chirac avait dit tout haut ce que les bons Européens pensaient tout bas.».
A quem se poderá referir o editorialista (Jacques Julliard), quando fala na "mais alta personalidade política e moral de Portugal"? Não vejo senão duas hipóteses: Gilberto Madaíl ou Luís Delgado.


PAVLOVIANA: Quais são as estratégias mais eficazes para arrancar um copioso aplauso a uma assistência? O 1bsk revela:
  • Ganhar um Óscar (TM) para melhor Actor/Actriz
  • Executar um triplo axel num campeonato do mundo de patinagem artística
  • Empregar a expressão "redução das quotas de imigração" perante militantes do Partido Popular
Tiro e queda.


Sexta, 12 Setembro, 2003

MAS SE a obsessão com as marionetas se atenua com o tempo, a cicatriz deixada pelo ensaio em que sangue verdadeiro foi vertido permanece nítida, oculta mas sensível ao toque. Foi uma só gota, mas caiu de muito alto. No chão, deixou uma mancha circular, com o diâmetro de uma moeda de 5 francos.



PELO MENOS o Ponziani evitou, desta vez, as oblíquas menções a títeres, gigantones e bonecos de arame e cartão.



UM POSTAL do colega Ponziani! No verso, um quadro de Sérusier. Na frente, o enigma do costume. Ponziani, o que queres tu dizer com «merecer a Graça à custa de labor»? Não sentes o aroma insidioso da contradição de termos? A não ser que esse labor não se esgote num corriqueiro afã em busca de algo, seja esse algo a aceitação social, a Verdade com V desmesurado, ou muito simplesmente a ilusória essência de uma personagem de peça de Kleist. Talvez o trabalho passe por um movimento de introspecção que sonde os gestos, a sua natureza muscular, aquilo que torna possível ou escabrosa a sua existência.
Isso ajudaria a explicar esta outra máxima: «A consciência trai-nos, primeiro; conquista-se, em seguida.».
Não deve ser simples de gerir, o convívio com um encenador que se exprime por charadas.



THEY'VE DONE IT AGAIN!!!: A colectânea "54 graus à sombra", da insubstituível Janela Indiscreta, é uma delícia do princípio ao fim, e seria capaz de converter à causa estival o mais empedernido amante do inverno, desses que só juram pelas caducifólias despidas e pelos serões ao canto da lareira. Para mim, que sempre apreciei o verão acima de todas as estações, a eventual componente de proselitismo perde relevância, e resta a música, a variada e soberba música que ocupa os 3 CDs. Do impagável "Tomi Tomi", dos Sol K. Bright Hollywaiians, à magnífica "Ciaconna" de Tarquinio Merula, do envolvente e subtil "A Tune a Day" (Zbigniew Preisner) ao "Miserlou Twist" interpretado pelo Kronos Quartet (como ouvir este tema sem nos lembrarmos de Amanda Plummer em cima de uma mesa de café, com uma pistola quase maior do que ela nas mãos?), dos Pink Martini com o seu "Sympathique" jazzy e tongue in cheek até às "Chuvas de Verão" de Caetano Veloso (uma de muitas canções em português do Brasil), há de tudo; e, o que é mais notável, a esse "tudo" foi conferida uma unidade que em muito valoriza a compilação.
Quanto à arrepiante "India Song", cantada/falada por Jeanne Moreau, que encerra o alinhamento, a isto chamo eu uma brilhante decisão de casting.
Obrigado, Indiscretos!



A CAPOEIRA DA BLOGOSFERA: A questão da verdadeira identidade do autor do Meu Pipi não chega ao ponto de me tirar o sono; mas dava duas semanas de ordenado, mais o meu galhardete autografado do Juventude de Évora, para saber quem se esconde por detrás do Pintainho, e quais os seus projectos para o futuro próximo do seu blog avícola e onomatopaico.


Quinta, 11 Setembro, 2003

A PANÓPLIA DO FETICHISTA CINÉFILO, 31 A 40 (DE 100):

31 - Barba postiça ("The Life of Brian", Terry Jones)
32 - Almofada de penas ("Zéro de Conduite", Jean Vigo)
33 - Submarino de brinquedo ("Ata-me!", Pedro Almodóvar)
34 - Batata em forma de coração ("Les Glaneurs et la Glaneuse", Agnès Varda)
35 - Caco de vidro ("O Silêncio", Ingmar Bergman)
36 - Taco de bilhar ("The Hustler", Robert Rossen)
37 - Fotografia tipo passe com expressão inquisidora ("Le Fabuleux Destin d'Amélie Poulain", Jean-Pierre Jeunet)
38 - Aquário ("Rumble Fish", Francis Ford Coppola)
39 - Carrinho de bebé ("O couraçado Potemkin", Sergei Eisenstein)
40 - Chapéu alto ("Young Mr. Lincoln", John Ford)




Quarta, 10 Setembro, 2003

FANTASIA CROMÁTICA: Na Antena 2 passam neste momento um nunca-acabar de peças de Sweelinck. Há horas de sorte, como dizem aqueles que vendem cautelas na via pública. Mal sabem eles o quão ajoujados de razão se encontram.


CINEMA: Enquanto esperamos com garrida ansiedade pela data em que, por fim, a "sociedade civil" fará a sua entrada no segundo canal da televisão pública, com rufar de tambores e soar de trompetes, a RTP2 parece ter entrado em roda livre: repetem-se filmes com semanas de intervalo, e com um desembaraço e um dinamismo que dá gosto ver. Não serei eu quem me queixe. Na segunda, passaram "A Virgem e os seus Amantes", filme coreano que eu perdera da primeira vez, mas que não desesperara ainda de um dia chegar a ver - com inteira razão, como se verificou.
Compare-se o chilro título português que lhe coube em sorte com a maneira como ficou conhecido em inglês e em francês: "The Virgin Stripped Bare by her Bachelors" e "La Vierge Mise à Nu par ses Prétendants". O que desconsola em certas traduções de títulos para a nossa língua não é incompetência nem abuso: é a indigência de imaginação, agravada pela tendência para lançar o isco ao potencial espectador (com abundância de "fatais", "atracções" e outras palavras da mesma província semântica).


Anthony Higgins em The Draughtsman's Contract

CINEMA: O Cine-Estúdio 222 continua a exercer função de santuário para a fauna cinéfila alfacinha, graças à louvável acção da Zero em Comportamento. A presente proposta estará em exibição todos os dias úteis até ao final desta semana, e ainda segunda-feira, dia 15, sempre em três sessões diárias, às 17h00, 19h15 e 21h45. Trata-se de "The Draughtsman's Contract" (1982), que não foi a primeira longa-metragem de Peter Greenaway (antes houve "The Falls"), mas que foi a primeira obra com um orçamento digno desse nome, com actores profissionais e com um enredo em moldes mais ou menos clássicos (isto levava-nos longe...), e o seu primeiro passo no cinema convencional (onde desde então se manteve, como intruso malicioso e acutilante), depois de muitos anos de experimentalismo e de meta-documentarismo.
"The Draughstman's Contract" é, para além de um filme plasticamente deslumbrante, um exemplo de como a subtileza e a erudição podem ser levados a extremos inusitados sem que disso resulte alienação, contrariando os permanentes vaticínios de tantos e tão bons que desconfiam automaticamente de demonstrações de inteligência por parte de um artista, para eles sinónimo forçoso de ostentação arrogante e umbilical. Os sofisticados e intensos jogos de espírito que atravessam "The Draughtsman's Contract" são obra de um cineasta e argumentista já na plena posse dos seus meios, dotado de uma clareza de ideias assombrosa. Pelo humor requintado, pela maneira engenhosa como a formação de pintor de Greenaway é aproveitada, pelos superlativos desempenhos dos actores, este "whodunit" seiscentista merece ser descoberto por todos aqueles que desenvolveram opinião menos positiva acerca deste realizador (e que encontrarão aqui, por metro de filme, um teor moderado daqueles maneirismos que por norma se associam a P.G.), ou revisitado por aqueles que há muito transpuseram a fronteira que separa a admiração da veneração (para um exemplo, não procurem mais longe).
As casas-de-banho que servem esta sala são do mais manhoso que existe a leste do rio Pecos. Chegar com dez minutos de antecedência e aviar-se no Monumental, que fica do outro lado da praça, pode ser uma ideia preciosa.


Domingo, 7 Setembro, 2003

EXTENSÃO DO DOMÍNIO DA LUTA: O 1bsk quer-se umblog ecléctico e aberto ao mundo em que vivemos (sem esquecer os demais); porém, em apenas 6 meses, admitimos sem nenhum pejo que muitos assuntos, que teriam merecido abordagem da nossa parte, foram passados em silêncio. A lista que se segue não aspira à exaustividade.
  • Particularidades gramaticais das línguas uralo-altaicas.
  • Qualidade da água e saneamento básico da cidade de Winnipeg, Manitoba, Canadá.
  • A longa estadia de Aníbal em Cápua aquando da 2ª guerra púnica.
  • A decadência das explorações mineiras na região do Nord-Pas de Calais.
  • A controvérsia sobre a origem da pintura a óleo.
  • O caso Universidade Moderna.
  • O debate entre monetarismo e keynesianismo.
  • Jurisprudência relativa a casos de abuso de liberdade de imprensa e de difamação.
  • A procura do bosão de Higgs e a necessidade de novos aceleradores de partículas.
  • Fauna e flora da ilha de Tristão da Cunha.
Que todos aqueles que nutrem sincero interesse por estes tópicos não desesperem; que cesse o seu pranto e o seu ranger de dentes. Quem sabe se, um dia destes, neste mesmo espaço, não vos esperará uma surpresa?


COISAS MAGNÍFICAS E ESPANTOSAS PARA FAZER EM LISBOA: Dar de comer aos pombos do Príncipe Real, assobiar uma melodia de Michel Polnareff, voltar o copo ao contrário numa mesa de café.


CINEMA: "Persona", de Ingmar Bergman. Nota breve sobre este filme (1966), dos mais elementares mas também dos mais ricos em possíveis leituras que Bergman alguma vez realizou. Bergman sempre foi um realizador marcado (evito escrever "obcecado", que nos remeteria ao Tarkovsky dos últimos anos) pelo inefável, por aquilo que nunca se mostra mas que, sem se mostrar, se erige em fulcro das vidas das pessoas. Culminar desta preocupação perene, "Persona" assume o seu dispositivo visual simplicíssimo (duas mulheres louras, a bata branca de enfermeira, os fatos-de-banho escuros, a paisagem à beira-mar) para melhor realçar essa cruel lacuna que cresce até tomar conta do filme, dando-se ao luxo de esboçar um final (semi)feliz, cujo discreto desmentido assume proporções mais devastadoras do que quase qualquer outra coisa que Bergman tenha filmado. Tudo o que há para ver está à vista, literalmente preto no branco. E aquilo que não se vê? Talvez escondido na delirante profusão de imagens com que se enceta o filme (roçando as fronteiras do experimentalismo, coisa que voltaria a suceder três anos mais tarde, com o extraordinário, e infelizmente muito menos conhecido, "Uma Paixão"); talvez nesse cruel nenhures que Bergman depressa renunciou a perseguir. Com tais píncaros de intensidade atingidos tão cedo na carreira, será de admirar que Bergman tenha abandonado tão cedo a realização cinematográfica?

Liv Ullmann no seu quarto de hospital




CINEMA: "Amarcord", de Federico Fellini. Este filme de 1973 aparece como um parêntesis numa fase da carreira da Fellini em que este se dedicava a um fascinante esforço para cruzar o seu imaginário, essencialmente pictórico, com os imperativos de um meio que sugere narrativas e exige uma explanação no tempo. Forneceu esta interacção alguns dos mais poderosos e bizarros objectos cinematográficos que Fellini nos deixou, notavelmente "Satyricon", "Roma" e o "Casanova". Em "Amarcord", o realizador retoma a veia explicitamente autobiográfica que predominara nos seus primeiros filmes, com "I Vitelloni" como exemplo mais representativo. Perante o resultado, e perante tudo aquilo que antecedeu e se seguiu a este filme, não pode deixar de surgir a pergunta sobre a pertinência de, neste momento da sua evolução como cineasta, se entregar a este tipo de evocação nostálgica. Surpreende em "Amarcord" uma certa tibieza visual, que tem menos a ver com a escassez de cenas memoráveis (não há nada que possua um impacto semelhante ao Cristo pendurado no helicóptero da "Dolce Vita", por exemplo, ou à dança final de "8 1/2") do que com a decepcionante aposta em conferir às imagens um propósito essencialmente ilustrativo. O universo felliniano sempre foi predominantemente visual, e a profunda originalidade da sua obra deriva desse instável equilíbrio entre a sua faceta de fazedor de imagens e a construção do argumento, aparecendo este último, quase invariavelmente, como um suporte, engenhoso e precário, que é também uma forma de domesticar uma torrente de elementos plásticos. (O que não quer dizer que o texto funcione como espartilho nocivo à liberdade do objecto final - pensemos em "Satyricon", por exemplo, um dos filmes mais prodigiosamente livres que conheço.) Em "Amarcord", esta lógica parece inverter-se, resultando num filme amável, divertido, muito conseguido a espaços, mas que pouco parece trazer de novo a uma obra que se construiu e adquiriu a sua grandeza e originalidade à custa de uma constante interrogação de formas, impulsionada pelo simples desejo de um homem de se contar a si próprio, da única maneira que conhecia.


É A FISIONOMIA, ESTÚPIDO!: Aqui há dias, estive numa reprografia em que uma das empregadas apresentava evidentes semelhanças físicas com a actriz Marie Gillain. Tão evidentes, com efeito, que julgo até ter sentido por momentos o aroma de um perfume Lancôme. Se conhecem melhor predicado do que este, digam-mo por favor. Mereceria até figurar no CV.
Se a vida continuar nesta toada de imitar a arte, e se aceitar pedidos (à maneira de um pianista de bar), eu acharia interessante uma motorista da Carris parecida com a Julie Delpy.


Peter Greenaway

«Cinema is far too rich and capable a medium to be merely left to the storytellers.» (Peter Greenaway)







Quinta, 4 Setembro, 2003

ATENÇÃO! PÁRE ESCUTE E OLHE! UM FETICHISTA PODE ESCONDER OUTRO!: A Janela Indiscreta teve a gentileza de fazer referência a esta gigantesca tarefa que é o estabelecimento de um vade mecum para o cinéfilo fetichista, em 10 prestações de 10 objectos cada. Esclareça-se desde já que a última coisa a que aspiro é desencaminhar amantes da sétima arte, e atraí-los para o traiçoeiro sorvedouro desse detestável vício que é o fetichismo. Tendo dito isto, é com prazer e reconhecimento que aceito sugestões, tanto as que foram apresentadas na Janela como as que me forem chegando, e prometo inserir algumas na derradeira década.



A PANÓPLIA DO FETICHISTA CINÉFILO, 21 A 30 (DE 100):

21 - Cálamo e tinteiro ("Prospero's Books", Peter Greenaway)
22 - Cafeteira ("The Big Heat", Fritz Lang)
23 - Tijolo amarelo ("The Wizard of Oz", Victor Fleming)
24 - Cortina de chuveiro ("Psycho", Alfred Hitchcock)
25 - Boião de Nutella ("Bianca", Nanni Moretti)
26 - Tubo de pasta de dentes multicor ("Epidemic", Lars von Trier)
27 - Caderno escolar rabiscado em língua persa ("Onde Fica a Casa do Meu Amigo?", Abbas Kiarostami)
28 - Caixa de música ("Ensayo de un Crimen", Luis Buñuel)
29 - Buraco no bolso ("Yellow Submarine", George Dunning)
30 - Gaiola de pássaro ("Le Samouraï", Jean-Pierre Melville)




O CHEFE RECOMENDA: No blog Ruialme ainda devem ir a tempo de ler um punhado de magníficos exemplos de inventários na literatura, em especial na poesia. Aqui no 1bsk somos dedicados apologistas da arte de elencar, que não hesitamos em praticar por um sim e por um não. De Rabelais a Perec, passando por Joyce, Prévert e Torrente Ballester, muitos foram, felizmente, os grandes nomes das letras que se entregaram com copiosa alacridade ao subtil prazer de elaborar listas. E não será por certo obra do acaso que muitos desses mesmos autores se contem entre os meus favoritos.
(Obrigado ainda pela simpática referência aoblog!)


Quarta, 3 Setembro, 2003

B: Nuvem? Que nuvem?
A: Aquela de que falávamos.
B: O que há acerca dela?
A: Que, mais grave do que tê-la tomado por Juno, foi senti-la anónima, efémera, compreensiva, e dada a metamorfoses.
B: Terias preferido Juno?
A: Teria preferido saliva e um aparelho respiratório. Não mais de duas palavras. Três.
B: Portanto, tem ainda a ver com sangue.
A: Mas não daquele que se derrama.
B: Portanto, tem tudo a ver com as escaramuças do tempo.
A: A felicidade é como uma pátina: ao esconder o potencial de miséria que existe no interior, remete-o para um irrelevante segundo plano, o que é pior do que negá-lo.
B: Um corpo, em todo o caso.
A: Ah, mas dotado de punhos, pulsos finos.
B: Vontade de pelejar.
A: E de soçobrar em uníssono.
B: Um acorde. Ecos de um país distante.
A: Ah, mas combatidos pelo vento, para que os fragmentos das palavras poupem a esperança.
B: Ah, mas nefastos, à maneira de línguas.
A: Ah, mas também corriqueiros como sortilégios ou moedas.
B: Ah, sim, para que à vaidade seja atribuída uma deixa.
A: Ah, ou por vulgar medo de sofrer.
B: Ah, ferir por meio de minutos.
A: Ah, mas por abrasão, não por incisão.
B: Ruínas, por certo.
A: O inevitável punhado de cinzas.
B: Fim do inventário.
A: A tua voz é clara e as tuas palavras são justas.



Segunda, 1 Setembro, 2003

O Umblogsobrekleist é um espaço republicano, laico, céptico e francófilo. Defendemos todas as artes, e a importância vital do impulso artístico na sociedade de hoje, muito para lá da mera diversão ou do feliz e domesticável fenómeno colateral. O nosso lema é de Richard Dawkins, e diz o seguinte: «There's this thing called being so open-minded your brains drop out.». Praticamos a dúvida metódica. O nosso contacto é umblogsobrekleist@yahoo.fr. Também vamos a casa.



SEISMESESDEBLOG: Foi há exactamente 6 meses que esteblog nasceu, ainda balbuciante, mas já verde-alface. Meio ano depois do seu incipit, o balanço parece-nos altamente positivo, mas não nos iludimos com a enormidade da tarefa que nos aguarda: na blogosfera, os posts que nem sequer remotamente têm a ver com Heinrich von Kleist continuam a ser larguíssima e esmagadora maioria. Na dita "vida real", o panorama é, se possível, mais sombrio ainda. Sois vós, leitores, quem me dá alento para tentar pôr cobro a esta situação. Aos que nos visitam, ficai sabendo que continuaremos abertos a todos os que vêm por bem. Pela vossa fidelidade, ou pela inspiração momentânea que determinou esse clique com o botão esquerdo do rato, MUITO OBRIGADO.


HAS THE WORLD CHANGED OR HAVE I CHANGED?: Vitorino num disco de homenagem a Roberto Leal? Terei ouvido bem? Haverá hipóteses de se ter tratado de mera ilusão óptico-acústica?
É em momentos trágicos como este que nos valem os Smiths.