Heinrich von Kleist (1777-1811)Liberté Egalité FraternitéNo tabuleiro de xadrez, as mentiras e a hipocrisia não duram muito (Em. Lasker)Monty Python forever!

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setembro 2004

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Quarta, 29 Setembro, 2004

Devido a uma agudização da nossa crónica falta de tempo, o 1BSK entrou num período de penúria. É previsível que, nas próximas semanas, predomine o regime de posts concisos e muito esporádicos. Para dar o exemplo, termino aqui mesmo este post. Fim do post.


SINAIS E MARAVILHAS: «Signs and wonders, eh? Pity if there is nothing wonderful in signs, and significant in wonders!»(Herman Melville, "Moby-Dick")


Sábado, 25 Setembro, 2004

DA IRREVERSIBILIDADE: A Seta foi despedida há precisamente um ano.


Quinta, 23 Setembro, 2004

I'VE SEEN THIS HAPPENING IN OTHER PEOPLE'S LIVES AND NOW IT'S HAPPENING IN MINE: Foi necessário o sangue derramado pelos liberais de 1820, a bravura dos golpistas de 31 de Janeiro de 1891, a actividade incansável de Afonso Costa e Miguel Bombarda, a revolução do 5 de Outubro, a proclamação da República por José Relvas, a mistura de ideal, realismo, militância e sorte. A erosão do tempo e o brilho agudo da esperança abriram as brechas que engendraram uma incrível verdade. Percorro as ruas da cidade grisalha e húmida sem deixar de ter presente o papel de todos os contributos individuais, ao longo dos séculos, para o destino colectivo e para a condição actual dos cidadãos e cidadãs. Subo as escadas do prédio, sem um olhar para o elevador inútil. Bato à porta, esperando e receando que alguém abra. Dentro de casa, a escuridão é densa como o lugar das promessas de hostilidade e dos dulcíssimos mistérios.


DA EXCEPÇÃO E DAS REGRAS: Não me têm faltado ocasiões para zurzir no modus operandi e nas escolhas de Eurico de Barros, cine-escriba-mor residente do nosso "Diário de Notícias". Honra lhe seja feita, a sua pluma não é absolutamente incapaz de produzir prosa de valor e de bom gosto, como o atesta este parágrafo extraído do seu artigo de hoje sobre o novo filme de Otar Iosseliani, "Lundi Matin" (que tenho muita vontade de ir ver): «Ao mandar o seu herói em passeio a Veneza, num filme placidamente deambulante, riquíssimo de observação social e humana, cheio de sentido de humor extravagante, pincelado de surrealismo e temperado por uma tristeza imponderável, Iosseliani assinou uma obra única sobre a rotina diária e a procura da felicidade, sobre o que muda a mata-cavalos e o que persiste em resistir à mudança no mundo em nosso redor.» (Só o "mata-cavalos" soa aqui a reincidência nos antigos vícios Euricianos.)
Que farei eu sem os meus bombos da festa? Afortunadamente, há sempre o inamovível Luís Delgado!


Quarta, 22 Setembro, 2004

BENFEITOR DA HUMANIDADE: Qual não foi a minha surpresa e deleite ao deparar com um artigo sobre a estátua do Dr. Sousa Martins, num dos fascículos dedicados à estatuária lisboeta que o "DN" tem vindo a publicar. O artigo revela vários factos de elevado interesse, como por exemplo:
  • O Doutor Sousa Martins nasceu em Alhandra.
  • O Doutor Sousa Martins era o mais novo de quatro irmãos.
  • A estátua é de bronze, com um pedestal em pedra.
  • A estátua tem uma altura total de 10 metros.
  • A estátua foi executada por António Augusto da Costa Mota (tio).
Isto é o que o artigo não revela:
  • O pedestal possui a largura necessária para conter um homem adulto abraçado a si mesmo.
  • Os lábios do homenageado estão na posição de quem se prepara para pronunciar o verso de Baudelaire "Le soleil a noirci la flamme des bougies".
  • A melancolia, mais do que irradiar de um qualquer centro, dissemina-se na cidade.



Terça, 21 Setembro, 2004

OS MINERAIS SÃO NOSSOS AMIGOS: O Quartzo, Feldspato & Mica cumpre amanhã um ano de existência. (Assinalo hoje a efeméride porque não tenho a certeza de poder postar amanhã.) Que dizer? Conheço poucos espaços, na blogosfera ou fora dela, onde se fale de literatura (e não só) com tão equilibrada mistura de amor à camisola, eclectismo e profissionalismo, sem esquecer um sentido de humor desarmante. Parabéns a todos os autores e colaboradores. Sou decerto apenas um de muitos a desejar que prossigam o bom trabalho durante muito mais tempo.


OS TEMPOS SÃO DE CRISE: A América aproveitou a vinda a Lisboa, por ocasião da trasladação dos restos mortais de Manuel de Arriaga para o Panteão, para se oferecer uma curta estadia na cidade que acolheu um ano da sua vida, mais mês menos mês.
A América conta-me que não ficou nada impressionada com o que tem visto. Há um charco no cais da estação de metro Roma (sentido Cais do Sodré - Telheiras), abundam os erros de ortografia nos dísticos e letreiros ("residêncial" parece ser o mais popular desta primavera/verão), e o número de representações ao ar livre da peça de Kleist "O Príncipe de Homburgo" continua em acentuado declínio.


Quinta, 16 Setembro, 2004

RETIRO ESPIRITUAL: Consternados pela indigência moral de que padece o mundo, decidimos fazer uma pausa sabática de alguns dias, para meditação do pessoal. O 1bsk reabrirá as suas portas assim que o bom senso e a rectidão voltarem a presidir aos destinos da humanidade, ou então na próxima terça-feira (o que suceder primeiro).


DO ACTO DE FECHAR OS OLHOS, PARA IMEDIATAMENTE OS REABRIR:

Não menosprezar aquilo de que é capaz um rosto humano, disseste.

Todos os deveres do mundo. Nenhum direito.

Eu encontrei a rua e bati à porta.

A cor dos olhos.

Dois pequeninos vértices de significado, disseste.

Mas isso não chega para fazer uma história. Peguei num lápis, fiz um telefonema, tornei-me recluso, bebi um copo de água.

Mas talvez tu não queiras uma história, mas apenas aquilo que o desenlace traz de mais desolado.

Para quem tem todos os direitos, serves-te das pálpebras demasiado amiúde.




E O SÃO JORGE ALI TÃO PERTO: Vai decorrer de 24 de Setembro a 2 de Outubro, no cinema São Jorge, em Lisboa, o festival de cinema Indie Lisboa 2004. Este festival dará destaque ao cinema independente e a algumas cinematografias quase invisíveis no panorama das salas portuguesas. Do programa, permito-me destacar uma das longas metragens em competição: "Le Monde Vivant", que passa no domingo, dia 26, às 17h30. Provavelmente, não o poderei rever, mas recomendo-o vivamente. O realizador, Eugène Green, tem merecido elogios entusiásticos de alguns sectores da crítica, e é, sem dúvida, um dos autores mais originais e desconcertantes do cinema francês actual. "Le Monde Vivant" é uma história de cavaleiros e dragões, passada num tempo indefinido, mas contendo numerosas chamadas para a realidade contemporânea (em particular no vestuário das personagens). Assumidamente despojado e anti-naturalista, "Le Monde Vivant" expõe-se (em sacrifício?) à chacota com toda a simplicidade de que é capaz um conto de fadas. Recordo-o como um filme que contrapõe à nudez da imagem os insondáveis problemas ligados à palavra e à nomeação. A cortesia sobrenatural de que dão mostras as personagens, os cuidados com a dicção, os numerosos arcaísmos, são outros tantos factores que contribuem para singularizar este filme.


GOSTEI DE LER: Gostei de ler a recensão, saída da pena de José Mário Silva, no "DN" de hoje, sobre "Michael Kohlhaas", de Heinrich von Kleist.
Nas livrarias de Lisboa, continuam a ser visíveis exemplares desta obra. E isto não é bom. Por cada livro de Kleist por vender existe um leitor que ainda não viu a luz.


JUSTIÇA: Os restos mortais de Manuel de Arriaga foram trasladados para o Panteão Nacional. Este acto, da mais elementar justiça, homenageia um grande homem, e um dos mais ínclitos republicanos que o nosso país conheceu. Mas dou a palavra à América, que esteve presente no local. «Foi com grande emoção que fiz a viagem da minha terra natal e local de residência, no Alto Alentejo, para a cidade de Lisboa, por ocasião da trasladação dos restos mortais de Manuel de Arriaga para o Panteão Nacional. Por falta de alternativas, o meio de transporte escolhido foi o mais poluente e desconfortável de todos: a camioneta. A viagem não deixou recordações gratas. Ao meu lado sentava-se um cavalheiro dos seus sessenta anos, que me garantiu ter sido vergonhosamente espoliado dos direitos de autor relativos às letras das canções do Duo Ouro Negro, de que seria co-autor não creditado. Em seu favor, diga-se que me ofereceu um pastel de Tentúgal, surpreendentemente fresco, de uma marmita que transportava com o cuidado que normalmente se reserva a um relicário. Mas adiante. O atraso à chegada, e dois ou três enganos no caminho, levaram-me a perder a cerimónia. Mas isso é acessório. As Instituições e a História pesam mais do que o indivíduo. Galguei as ruas da cidade corrupta com os punhos cerrados, olhos sem pestanejar, pés demasiados leves.»

Resta saber se o primeiro Presidente da República Portuguesa é digno de figurar ao lado de Amália Rodrigues. (E já nem falo de Harry Potter.)


Terça, 14 Setembro, 2004

UMA CONSPIRAÇÃO DA NORMALIDADE: Existe (pelo menos em Lisboa) uma singular irmandade entre os elementos da "maioria silenciosa"; os cidadãos normais dão-se ares de conspiradores, ocultam a sua mediocridade e os seus hábitos e gostos corriqueiros. Trocam olhares, na rua, nos transportes públicos, com a serena e empolgante certeza do denominador comum. Os livros que entre eles circulam, que eles trocam entre si recorrendo às estratégias da dissimulação, são iguais aos que se podem adquirir em qualquer livraria (Nicholas Sparks, Marion Zimmer Bradley, Paulo Coelho), PORÉM marcados com o signo invisível do secretismo, da clandestinidade.
Ai de quem tentar penetrar no círculo sem conhecer a senha nem ser apadrinhado! Esta irmandade é ciosa da sua banalidade como outras dos seus segredos. A Pólis e a Luz do Dia são as suas catacumbas húmidas: partilham-nas a contragosto, defendem-nas dos intrusos.


THE FUNDAMENTAL THINGS APPLY: É certo que "Casablanca" não faz parte da minha lista de 516 filmes preferidos; mas isso não é razão para ter protelado até agora a inclusão do blog My Moleskine na coluna dos favoritos.


«UM DOS MAIORES LIVROS QUE ALGUMA VEZ LI»: Na sua habitual coluna do suplemento "Mil Folhas" ("Público" de 11/9), Jorge Silva Melo aborda um livro de Gide, "Les Faux-Monnayeurs", que eu não sabia ter sido traduzido recentemente pela Âmbar ("Moedeiros Falsos"). Associo-me, sem hesitar, aos entusiasmos de JSM, pois foi esta uma obra cuja leitura me causou intenso fascínio, e só exageraria um poucochinho se fizesse minhas as palavras do cronista: «É um dos maiores livros que alguma vez li».
Na mesma peça, JSM faz uma distinção interessante entre uma literatura contemporânea "que se escapa ao real e prefere a máxima, o fragmento paradoxal, na sombra estreita dos fantasmas e das alegorias(...)", representada por Kafka, Borges e Llansol (e Quignard, Handke, Walser e Gertrude Stein, permito-me acrescentar, citando apenas autores do meu recatado panteão pessoal); e, por outro lado, se bem compreendi, uma literatura romanesca de eminente tradição humanista, herdeira de Balzac e Stendhal, prolongada por Gracq e Bernanos, uma literatura sem pejo de colocar questões essenciais, ainda que ciente da impossibilidade de encontrar respostas definitivas, mas sem se socorrer da esquiva oblíqua, do niilismo ou da sublimação.
Eu não tomo partido. Não penso que se imponha tomar partido. Na minha estante ideal caberiam os "Petits Traités" de Pascal Quignard, assim como a "Comédia Humana".


FAMOSAS ÚLTIMAS PALAVRAS (3):

«Mas as mãos de um dos homens estavam já colocadas na garganta de K., enquanto o outro enterrava a faca bem fundo no seu coração e a fazia rodar duas vezes. Com a vista a falhar, K. ainda pôde ver os dois homens, mesmo à frente dele, face contra face, contemplando o acto final. «Tal como um cão!», disse ele; era como se esta vergonha devesse sobreviver-lhe.»

(Franz Kafka, "O Processo", tradução de Maria José Fabião)


LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Numa fila para uma cantina universitária, foi avistado um jovem que lia "Vanity Fair, A Novel Without A Hero", de William Makepeace Thackeray, em versão original.
Ler clássicos da literatura vitoriana, em pé, e de estômago vazio, denota auto-domínio e raríssima dedicação. Digam lá que não é lindo.


HORA DE FAZER FIGAS: Como é óbvio, estamos de alma e coração ao lado destes dois senhores.


Domingo, 12 Setembro, 2004

ALGUMAS PERGUNTAS IMPORTANTES DA VIDA DIRIGIDAS A TENISTAS FRANCESAS:

«Quem somos, Nathalie Tauziat?»

«A vida tem algum sentido, Mary Pierce?»

«Deus existe, Sandrine Testud?»

«É mais importante a Beleza ou a Verdade, Anne-Gaëlle Sidot?»

«O Homem é responsável pelos seus actos, Nathalie Dechy?»

«A predestinação existe, Amélie Mauresmo?»

«Existe vida depois da morte, Stéphanie Cohen?»

«Estaremos sós no Universo, Virginie Razzano?»

«A alma existe, Émilie Loit?»

«Existe Espírito para além da matéria, Tatiana Golovin?»





CINEMA: Notas breves sobre três filmes vistos recentemente.

"Wanda", de Barbara Loden. A fragilidade da protagonista de "Wanda" não se declina em atitudes de retraimento, de renúncia ou de arrebatamento emocional. Ao longo de todo o filme, Wanda é, em simultâneo, aquela que se entrega à errância e aquela que, passivamente, se expõe ao fluxo ininterrupto e aleatório de peripécias e modos narrativos. Não só Wanda se situa fora do círculo da esperança humana, como, em paralelo, a sua personagem é alheada de qualquer possibilidade de resgate de acordo com cânones ou convenções artísticas. Não lhe está destinada a aura romântica dos amantes fugitivos à maneira de "Badlands", nem a gloriosa pompa "gore" que preside ao fim de Bonnie Parker e Clyde Barrow; nem sequer uma fusão na paisagem que a consagrasse como heroína do apagamento, como vencida por uma vida demasiado grave para ela. Não. Wanda não desaparece. O seu rosto assombra o filme até ao derradeiro fotograma. E não existe maior tragédia do que essa permanência, à maneira de sombria e agreste partida do destino.

"O Regresso", de Andrei Zvyagintsev. Como filmar o Segredo? Este estreante realizador russo oferece a esta pergunta uma resposta rude e circunspecta, muito mais subtil do que possa parecer numa primeira abordagem. Fragmentado em pequenos enigmas individuais (todos associados à misteriosa figura do pai), o Segredo, enquanto tema, adquire um grau de abstracção que em nada prejudica a sua natureza palpável e orgânica. "O Regresso" vê-se com a sensação de estarmos a penetrar um reduto de fronteiras indefinidas, situadas nessas regiões insondáveis em que coexistem a tradição e a singularidade: tradição da transmissão de saberes e poderes de pai para filho, singularidade engendrada pela longa ausência do pai, que o seu regresso súbito, em vez de anular, apenas confirma.
Filmar a grandiosidade da natureza está dentro das competências de qualquer documentarista minimamente talentoso; filmá-la com a devida humildade, mas também à altura do Homem é tarefa infinitamente mais delicada, que Zvyagintsev não está longe de demonstrar estar plenamente ao seu alcance.

"La Petite Lili", de Claude Miller. O aspecto mais interessante deste filme (não completamente isento de méritos, diga-se de passagem) é o modo como Miller retrata o seu cineasta/autor de serviço, na ridícula personagem de Robinson Stévenin, misto de grandiloquência sibilina e de ascetismo fanático, atolado em mau génio e autofagia criativa. Para Miller (erigido em herdeiro espiritual de Truffaut por questões que continuam a escapar-me), é este o rosto do criador típico, do voluntarioso inimigo do cinema de grande consumo (representado pela personagem de Bernard Giraudeau, um daqueles actores, que a França parece produzir em série, que não atingem o seu fascinante auge antes dos cinquenta anos). Nem Hollywood faria o trabalho com tamanha limpeza. Com os desvarios da Arte pela Arte reduzidos a um punhado de lugares comuns e à trapalhona fogosidade da adolescência, as boas consciências podem dormir descansadas. O "filme de qualidade francês" está bem e recomenda-se - sobretudo quando finge pôr-se a sim mesmo em causa.


Sexta, 10 Setembro, 2004

ADVERTÊNCIA AOS INCAUTOS, SEGUIDA DE BEIJINHO DE BOAS NOUTES: Recado dirigido a todos aqueles que ainda se abespinham quando, pela enésima vez, vêem uma luminária confundir anti-bushismo com anti-americanismo. Não se enervem. Não esbanjem fôlego em distinguos e explicações. Não se trata de falta de clarividência, não se trata de escamas nos olhos. Trata-se de pura má fé.


ACHEGAS LAICAS: Palavras de Miguel Portas, na edição do "DN" de ontem, quinta-feira:

«(...)Qual o seu crime? Quererem frequentar a escola como sempre o têm feito - com os turbantes que lhes seguram os cabelos, que não podem cortar pelo facto de serem sikhs. No caso, o turbante não é, sequer, um símbolo religioso. É uma elementar medida de higiene para proteger aquilo que é, efectivamente, uma convicção religiosa.
Mas a nova lei francesa que interdita os sinais exteriores das confissões religiosas na escola pública é impiedosa. De acordo com defensores da dita, a solução para esta situação seria os miúdos segurarem as suas longas melenas com
tontons similares aos usados pelas bailarinas, o que, obviamente, é considerado «vexatório» pela comunidade. Eis aonde conduz a estupidez.(...)»

Quatro curtos comentários:
  • É (demasiado) fácil escolher dois ou três exemplos mais espinhosos, ou até mesmo levemente risíveis, para pôr em causa uma lei ou uma medida. Uma lei que se aplica a milhões expõe-se forçosamente a situações ambíguas, a casos limite que exigem tacto e flexibilidade, sem que tal implique que essa mesma lei carece de validade ou pertinência.
  • Perante um problema (cuja existência ninguém em seu perfeito juízo se lembraria de pôr em causa), a França decidiu e legislou. Pode pôr-se em causa a razão de ser da decisão e da lei. O que é preocupante é que nenhuma das muitas críticas ou reacções negativas que li e ouvi trazia na sua esteira qualquer solução alternativa, que não fosse a falsa panaceia da tolerância absoluta, em nome da diversidade religiosa e do multiculturalismo, conceitos tão traiçoeiros como perigosos.
  • Já o disse, e repito-o: o problema colocava-se há muitos anos. Ainda antes de dar origem a uma lei, o mal estar perante a presença de alunos (sobretudo alunas muçulmanas) envergando símbolos religiosos ostensivos, nas escolas públicas francesas, conduzira já a numerosos conflitos. É preciso ver que o impulso por detrás desta lei não foi uma suposta cegueira fanática republicana a que muitos persistem em apontar o dedo em riste, mas sim as reacções repetidas por parte dos professores e responsáveis educativos das escolas públicas. A lei tornou o problema mais visível, e atraiu uma torrente de polémica que teve, pelo menos, o mérito de dar visibilidade ao problema. Mas todas as questões que agora têm vindo a ganhar honras de primeira página ou de coluna de opinião já se colocavam na vida real dos quotidianos dos estabelecimentos de ensino.
  • A ameaça da exclusão existe, é certo; mas era bom que não se escamoteassem os esforços de mediação e resolução de conflitos que sempre acompanharam e acompanharão estas situações. Não se trata de negar, pura e simplesmente, a entrada a uma moça que insiste em usar o véu, e de a condenar a uma reclusão monástica e à privação de educação. Existem esquemas de negociação, existe um forte tecido de assistentes sociais preparados para lidar com estes casos. Se há uma palavra que possa definir a filosofia subjacente ao sistema de ensino francês, essa palavra é "integração", e não "exclusão". Para o melhor e para o pior.



IDEIA PARA UM CONTO: O homem que eu amo fez-me uma surpresa: escreveu a obra-prima de Sir James Frazer, "The Golden Bough", de uma ponta à outra, e não se esqueceu de ma dedicar, num riquíssimo cursivo. "The Golden Bough" ocupa doze extensos volumes. Trata-se de um estudo sobre a evolução das crenças e dos ritos humanos, que exerceu fortíssima influência sobre a literatura inglesa da altura, e suscitou a admiração de Lawrence, Eliot, Pound, entre outros. Que atencioso da parte dele, escrever para mim esta densa e importante obra. Era então isto que ele preparava, meses a fio, fechado no escritório com o seu portátil, dando-se ares de mistério e malícia, enquanto Paris engendrava o inverno mais sombrio do século.(...)
O homem que eu amo não se esqueceu de passar pelo supermercado Picard, e entra em casa com dois sacos de plástico nas mãos, e um grande envelope da France Télécom debaixo da axila. Conta-me que chegou em cima da hora de fechar, e que foi obrigado a implorar e bajular para poder fazer as suas compras. Gotas minúsculas de água da chuva persistem nos seus cabelos louros em desalinho.(...)
O homem que eu amo deixa-me perplexa. Que sentido faz consumir os seus melhores anos na redacção de uma obra que é justamente considerada um dos marcos da antropologia moderna, e que, pela primeira vez, integrou num corpo teórico coerente toda a linha histórica que tem origem nas práticas mágicas primitivas e que conduz até ao desabrochar da mentalidade científica contemporânea? Com a ligeireza de pequenas aves, evitamos as poças de água por entre as circunspectas fachadas da rue Notre-Dame-des-Champs.(...)


REFLEXÃO DE SEXTA À NOITE: Haverá espectáculo mais bárbaro e iníquo do que uma tourada? Com certeza que sim. Assim de repente, consigo pensar em muitos. Mas nenhum deles tem apoio de autarquias, nem honras de transmissão na "televisão pública". É essa a diferença. É esse o problema.


Quarta, 8 Setembro, 2004

VERSOS PORQUE SIM: (Nem sempre a questão é saber se um poema responde a um momento da vida de quem o lê. Às vezes, a questão é saber se a vida de quem lê é digna do magnífico e fulgurante poema.)

Nessa parede verde da hera
o teu rosto cada vez ganha mais forma,
entre as mãos de verdura estendidas
aos ventos que as dobram e movem.

Quando te vejo na luz ou nessa sombra
estar vago e ser tão próximo,
só tu sendo não sabes onde te vejo,
só eu muda não digo onde te guardo.


(Fiama Hasse Pais Brandão, in "Cenas Vivas", Relógio d'Água)




COISAS MAGNÍFICAS E EXTRAORDINÁRIAS PARA FAZER EM LISBOA: Pensar em como seria agradável assistir a uma hipotética sessão nocturna do filme "Ensayo de un crimen", de Luis Buñuel, seguida de uma taça de framboesas consumida num lugar com pouca luz. Sem açúcar, sem nada. Fruto após fruto acidulado.


ONDE ESTÁ O WALLY?: Para descobrir na cidade de Lisboa. A rapariga que ajuda a servir às mesas no café do pai (ao Bairro dos Actores), depois de vir das aulas, e que escreve no seu diário íntimo: «Se tenho idade para ser repreendida por servir os pastéis de nata queimados aos bons clientes, não terei idade para ter como amante um marujo estrangeiro de poucas palavras?».
Grau de dificuldade: médio.


REVISÃO JÁ!: Por mais que procure, e que leia de fio a pavio, não encontro na Constituição da República Portuguesa uma única referência ao cheiro da relva acabada de cortar.


Segunda, 6 Setembro, 2004

O HOMEM QUE SABIA (RIMAS) DE MAIS: Neste seu soneto das "Fleurs du Mal", Baudelaire emprega as únicas palavras da língua francesa terminadas em "avane":

SED NON SATIATA

Bizarre déité, brune comme les nuits,
Au parfum mélangé de musc et de havane,
Œuvre de quelque obi, le Faust de la savane,
Sorcière au flanc d'ébène, enfant des noirs minuits.

Je préfère au constance, à l'opium, au nuits,
L'élixir de ta bouche où l'amour se pavane;
Quand vers toi mes désirs partent en caravane,
Tes yeux sont la citerne où boivent mes ennuis.

Par ces deux grands yeux noirs, soupiraux de ton âme,
O démon sans pitié! verse-moi moins de flamme;
Je ne suis pas le Styx pour t'embrasser neuf fois,

Hélas! et je ne puis, Mégère libertine,
Pour briser ton courage et te mettre aux abois,
Dans l'enfer de ton lit devenir Proserpine!


(E já agora: é também às notas de Marcel A. Ruff que devo ter ficado a saber que "constance" e "nuits" são nomes de vinhos.)


COM AS MÃOS, COM AS MÃOS «Mas como é que eu faço?», pergunta um dos rapazes do filme "O Regresso", brandindo ramos de árvores de que se tenta servir para desatolar uma viatura. «Com as mãos, com as mãos.», responde o pai.
Ao mesmo tempo lição de vida e evidência (apenas levemente) sarcástica.
Com as mãos, com as mãos. Como se, de repente, apenas o que é artesanal, secreto, lacónico, rude e com cheiro a lama e madeira húmida merecesse ser mencionado no mundo.


CANDIDATA A CITAÇÃO DA DÉCADA: «You don't need an indie song to figure out what's going on» (Divine Comedy)


O ORÁCULO DA AVENIDA DA LIBERDADE (RELOADED): É necessária uma mentalidade assaz tortuosa para advogar que os pavorosos acontecimentos na Ossétia e o sequestro dos dois jornalistas franceses vêm «dar razão a Bush, e à sua política de contra-ataque preventivo», por terem visado países (França e Rússia) que se opuseram à invasão do Iraque. Luís Delgado, que junta a esse predicado um despudor à prova de bala, ousou fazê-lo ("DN" de 2/9).
Servir-se de atentados terroristas (ainda para mais desta magnitude) para corroborar as suas tesezinhas é um exercício de elevado risco, propenso ao desmando: mas é possível entregar-se a ele com menos cinismo do que o evidenciado por Luís Delgado, desde que se faça uso de um mínimo de honestidade e imparcialidade (por exemplo, porque não se serve o Grande Luís do recente e sangrento atentado em Be'er Sheva para concluir que a política de repressão anti-terrorista de Sharon falhou redondamente?).
Esta extralúcida sibila, que diariamente se digna partilhar a sua sabedoria com os leitores de um jornal de expansão nacional, leva a sua penetração ao ponto de adivinhar os estados de espírito de líderes do G8: «Chirac e Putin percebem agora que não valeu a pena ceder.» Era um acto da mais elementar caridade oferecer ao Kremlin e ao Eliseu uma assinatura do "Diário de Notícias", sem limite de tempo.


O ORÁCULO DA AVENIDA DA LIBERDADE: Luís Delgado, esse case study de facciosismo e nulidade opinativa, possui já uma longa tradição de prognósticos relativos às eleições presidenciais americanas. Contrariando a prudente máxima "prognósticos só no fim do jogo", o esforço vaticinante do Grande Luís ocorre antes do evento em questão, e com uma antecedência que só faz jus à sua clarividência oracular. O prognóstico é, invariavelmente, categórico, favorável ao candidato republicano, e tão pleno de serenidade que renega qualquer alvitre alternativo para o campo do desvario. Sendo este um ano eleitoral nos EUA, Luís Delgado raras vezes tem perdido a ocasião de recordar aos mais distraídos a iminência da reeleição de George Duplovê Bush (ver, por exemplo, o "DN" do passado dia 30). Todos aqueles leitores cuja fidelidade se mede em meias dúzias de anos reconhecerão o Luís Delgado convicto e tranquilo que previu com similar desenvoltura a vitória do pai Bush sobre Dukakis em 1988 (acertou) e a derrota de Clinton em 1992 (aqui falhou). (Ignoro se terá levado o seu zelo ao ponto de sugerir um possível triunfo de Bob "Mr. Excitement" Dole sobre Clinton, em 1996.) Luís Delgado adopta com galhardia a estratégia da barraca de feira popular: entre os tiros que acertam no alvo e os que furam a lona, lá se há-de ganhar pelo menos um guaxinim de peluche para levar para casa. O número de eleições presidenciais que cabem na carreira activa de um jornalista não é elevado a ponto de propiciar uma acumulação de malogros para lá do aceitável. E Luís Delgado sabe bem que a memória curta dos consumidores de editorais de imprensa diária nunca lhe virá pedir satisfações.


Sábado, 4 Setembro, 2004

WORD KNOWN TO ALL MEN:

(...)é o olhar total, que nunca pode
ser cantado nos poemas ou na música,
porque é tão-só próprio e bastante,
em si mesmo absoluto táctil,
que me cega, como a chuva cai
na minha cara, de faces nuas,
oferecidas sempre apenas à água.


(Fiama Hasse Pais Brandão, in "Cenas Vivas", Relógio d'Água)




LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Nos últimos dias avistei, sempre no metropolitano, cidadãos munidos de obras de Nabokov, Cioran e Conrad. Isto é excelente. Não duvido que se trata de frutos longínquos do esforço de escolarização e alfabetização maciça levado a cabo pelos governos da Primeira República, por exemplo por meio do decreto de 29 de Março de 1911.


O SABER NÃO OCUPA LUGAR: Fiquei a saber que Lou Reed foi aluno do escritor Delmore Schwartz na universidade de Syracuse, e que lhe dedicou a canção "European Son" do "álbum da banana" dos Velvet Underground.
Se eu deparasse com nacos de informação como este todos os dias, não me veriam com este semblante macambúzio, mas sim piruetando e gargarejando pelas ruas da capital.


BELEZAS OCULTAS DE LISBOA: Pais de família deste país, levai os vossos filhos a ver os nenúfares nos jardins da Gulbenkian!


É (OU DEVIA SER) O AMBIENTE, ESTÚPIDO!!: Comprometo-me solenemente a ingurgitar o conteúdo de um saco de adubo por cada vez que um alto responsável do Partido Republicano pronunciar as palavras "protocolo de Kyoto", durante a próxima campanha para as presidenciais americanas.